Herdeiros da Guerra

2 Capítulo II – Festejos


Antes mesmo que abrisse os olhos, Kassyeh sabia o que ia encontrar. Estava deitada ao lado do seu guerreiro, abraçada ao seu corpo nu, ainda sentindo no corpo os efeitos do dia anterior. Estava cansada, dolorida e extremamente satisfeita. O interior de sua coxa latejava, mas a dor maior já havia passado. E nada, nada mesmo, superava aquela sensação de plenitude que sentia.

Espreguiçou-se lentamente e permitiu-se finalmente abrir os olhos. Tewdric já estava acordado e a observava. Tinha a sensação que ele já estava olhando-a a algum tempo, e aquilo lhe dava certo prazer. Ser observada durante o sono é o maior elogio que qualquer elfa poderia ter.

– Bom dia... – sussurrou preguiçosamente.

– Dia... – respondeu ele em sua voz grave – Como você está se sentindo?

– Muito, muito, muito bem! – respondeu animada abraçando-o – Viu, eu disse que ia ficar tudo bem.

– Você apagou. – revelou com a voz preocupada – Dormiu o caminho todo para cá e não acordou nem quando fiz o curativo.

– Curativo? – perguntou a elfa antes de levantar o lençol e observar sua perna. Realmente havia um curativo ali, no lugar em que as presas dele foram marcadas – E você? Fez algum curativo no peito?

Tewdric riu de seu comentário, e ela logo entendeu por que. Puxando o lençol percebeu que não precisava. Apesar de profundo, a marca era pequena. Realmente bem diferente das marcas que ficariam nela.

– É... Não fui muito eficiente... – murmurou ela de repente se sentindo muito desanimada – Ninguém vai ver...

– Isso não importa. – ele a puxou para cima de seu peito e a abraçou fortemente – Não me importo com que vejam ou não. Me importo de ter você aqui.

Kassyeh lhe presentou como um sorriso maravilhoso e logo em seguida, com um beijo. Não tardou para que se entregassem mais uma vez à paixão selvagem que os acometia cada vez que tocavam um ao outro. E foi esse sentimento que os manteve todo aquele dia trancados no quarto da hospedaria. Apenas uma vez o orc saiu e trouxe algo para que eles comessem. E Kassyeh abriu a porta também uma vez para Hotch brincar fora do quarto. No mais, Orgrimmar não os viu até o dia seguinte.

E só saíram do quarto por um motivo de força maior. Bem maior.

Tewdric tinha trazido café da manhã. Kassyeh tinha acabado de sair do banho, enrolada na toalha quando viu mesa posta e o orc tentando manter o pequeno tigre no chão.

– Quieto Hotch! Quieto! – grunhia Tewdric colocando o bichano mais uma vez no chão – Parece que nunca viu comida na vida!

Hotch deu um pequeno rugido em protesto.

– Ele só quer o queijo. – disse Kassyeh se aproximando e pegando um pedaço de queijo antes de lançar ao tigrinho – Você dá e ele fica quieto.

– Você mimou esse bicho demais. – reclamou antes de olhar para a elfa – Por que tá toda enrolada? – perguntou.

– Enrolada? – ela olhou para baixo – A toalha? Para me cobrir.

– Como se eu não tivesse te visto antes. – e se aproximou dela tirando a toalha e jogando na cama – Bem melhor assim.

Kassyeh sentiu o rosto ficar vermelho e pôs as mãos institivamente nos seios.

– Tenho direito a ter um pouco de pudor, não? – reclamou antes de ir para a cama em busca da toalha.

Tewdric foi ao seu encalço.

– Não comigo.

E antes que ela pudesse fazer algo, ele a atirou na cama. Surpresa, Kassyeh se perguntava de onde ele tirava tanta energia. Lembrava que uma vez Luxuriah lhe dissera que os elfos não conseguiam um dia todo e ela constantemente reclamava dos namorados. Tewdric não parava de deseja-la desde que chegara a Orgrimmar.

Talvez por fazer essa comparação e não retribuir os beijos com a mesma ênfase, ele tenha parado e olhando-a confuso.

– Você não quer? – quis saber.

Demorou um pouco para entender do que ele estava falando.

– Claro que quero! – respondeu apressadamente.

Sim, queria muito. E não entendia porque ele tinha parado.

– O que foi então? Está doendo?

Ela suspirou irritada.

– Eu já te disse, a perna ta ótima! – seu tom era mal-humorado, pois precisara repetir a mesma coisa inúmeras vezes desde o dia anterior — Aquela pomada que Gryshka deu é ótima!

– Não estou falando da coxa. Estou falando... De outras coisas...

Kassyeh tinha certeza que todo o sangue que possuía no corpo subiu para o rosto. Nunca, nunca, sentira tanta vergonha na vida, nem quando ficara sem roupa pela primeira vez na frente dele. Ele realmente estava perguntando aquilo que entendera? Nem mesmo quando fizeram amor pela primeira vez o assunto tinha surgido.

– Eu entendo, talvez tenha sido um pouco demais pra você, nunca ficamos tanto tempo sozinhos e eu...

– Estou ótima! – respondeu rapidamente – Na coxa e no resto do corpo. É só que...

– Que...

– Eu sei que não devia estar pensando isso nessa hora, mas... Luxuriah me disse que os elfos não têm tanto... Fôlego.

Como não poderia deixar de ser, Tewdric caiu na gargalhada. Kassyeh acabou caindo na risada junto. Afinal era irônico pensar em Luxuriah ressentindo dos namorados enquanto a irmã não tinha do que reclamar de seu orc.

– Coitada da Luxuriah! – disse ele em meio às gargalhadas – Mas é compreensível... São elfos!

– Ei! – protestou Kassyeh – É meu povo!

– Sei que é mais convenhamos... Os machos de seu povo são parecidos demais com as fêmeas.

– Não, não são! – defendeu.

– Ah, são sim. – teimou ele – Quando fui a Luaprata pela primeira vez não sabia distinguir o que era elfo e elfa. Até pensei que era um reino de amazonas! – ele continuou rindo apesar da cara feia que Kassyeh lhe destinava – Claro que depois percebi que as fêmeas são muito mais agressivas.

– Engraçadinho... – zombou ela antes de tentar sair dos braços dele – Não vai ganhar beijo por isso.

– Ah não! – ele a segurou forte – Desculpe, os elfos são muito, muito ferozes! – e sem aguentar continuou a rir – Menos que as fêmeas, mas são!

Mesmo zangada, Kassyeh não aguentou e começou a rir também. Logo depois deixou que ele a beijasse e logo já queria se entregar novamente. Quando as mãos dele começaram a apertar seus seios, e ele já se insinuava entre suas pernas, alguém bateu na porta vigorosamente.

– Kassyeh! – era a voz de Gryshka – Sua irmã tá lá embaixo!

Que droga! Luxuriah não podia ter escolhido uma hora pior para chegar.

– Sua irmã que me desculpe. – murmurou Tewdric em seu ouvido – Mas acho que ela vai ter que esperar...

Duas horas depois Kassyeh descia apressadamente as escadas com Hotch em seus calcanhares. Luxuriah devia estar furiosa, muito furiosa. Devia ter dito não quando ele a seduziu. Também deveria ter dito não quando ele propôs o banho junto. Claro que ele logo estaria pronto, como estava cinco minutos depois de sair do banheiro enquanto ela ainda escovava o cabelo.

– Sua irmã está lhe esperando. – disse Tewdric divertido enquanto ela andava pelo quarto segurando firmemente a toalha, como se tivesse medo que ela sumisse – Devia se apressar.

– Haha, engraçadinho. Agora você lembra disso né? – e jogando o pente na mesa concluiu – Vai ter que estar bom assim. Vamos.

– E você vai de toalha? – perguntou rindo.

– Ah! – ela exclamou com raiva – Você me faz perder a cabeça!

– Obrigado.

E foi naquele momento que lembrou.

– Oh, pelos deuses, meu vestido! Luxuriah vai me matar quando souber que ainda não fui ao goblin! – já estava ouvindo até os gritos de sua irmã em seus ouvidos.

– Você tem outras. – ele parecia calmo demais – Vista.

Derrotada e já sabendo que teria a cabeça arrancada, caminhou até o armário e o abriu. E qual não foi sua surpresa ao ver um vestido azul decorado com fios de prata reluzente no armário. Atônita, ela tocou no tecido e sentiu vibrações de magia muito mais fortes que do seu vestido velho. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo e fechou os olhos saboreando o poder arcano daquela peça. Era simplesmente muito forte.

– Aquele seu vestido estava um bagaço. – disse Tewdric se levantando da cadeira e pegando o machado – Esse ai vai te proteger melhor. E tem outras tralhas de mago aí também.

Por um momento Kassyeh pensou que ia cair no choro. Mas sabia que ele não entenderia suas lágrimas de felicidade. Por isso, voltou-se para ele e lhe presentou com o maior sorriso que conseguiu formar no rosto.

– Obrigada... – murmurou esperando que a voz não a traísse – Não precisava se preocupar...

– Claro que precisa! – cortou ele como se ela tivesse acabado de dizer a maior loucura do mundo – Você é minha fêmea, tenho que cuidar de você mesmo quando estiver longe! E você só iria trocar aqueles lixos quando eles te matassem!

Kassyeh riu.

– Nossa você falou igual a minha irmã agora!

– Bem lembrado. Vou descer e tomar uns goró com Lulu até você ficar pronta.

Droga. Ele não esquecera o apelido.

– Tem certeza? – falou a elfa apreensiva – Ela pode estar mal-humorada...

_ Mal- humorada? Lulu? – ele gargalhou – Nunca! Ela é sempre tão agradável! Vou lá e não demore!

Tewdric saiu carregando o machado nas costas e Kassyeh pensou naquele momento o que Luxuriah diria ao souber que ela era considera ‘agradável’ entre os orcs. Era óbvio que a conotação era totalmente diferente da que existia em seu povo.

Bem, estava prestes a saber. Com suas vestes novas, ela chegou ao térreo. Esperava que a visão de seus equipamentos a deixasse tão satisfeita que esqueceria seu atraso. Ou o apelido que Tewdric lhe dera.

A maior surpresa do mundo a aguardava. Luxuriah e Tewdric estavam alegres e falantes quando Kassyeh chegou. A elfa se perguntou o quanto sua irmã tinha bebido já àquela hora, e não era nem almoço ainda. Lembrou-se triste da mesa que Tewdric arrumara no quarto e que nem teve tempo de aproveitar. Seu estomago reclamava e decidiu que devia comer algo antes de provar qualquer bebida.

– Olha quem chegou! – gritou Luxuriah animada por causa do álcool – A minha irmãzinha querida que esse orc fedido roubou!

– Foi o melhor saque que fiz na vida! – gritou ele em seguida.

E os dois caíram na risada.

Kassyeh não sabia se corria com medo ou agradecia aos deuses por aquele milagre. Ficou com a terceira opção e sentou na esteira ao lado da irmã.

– Gostei da roupa nova. – disse Luxuriah com a voz alterada pela bebida – Finalmente se livrou daqueles trapos!

– Tewdric me deu. – disse com a voz mais inocente que conseguiu fazer.

Luxuriah fez uma careta.

– Prefiro você com os trapos! – exclamou antes de começar a rir.

– Tão engraçada minha cunhada! – disse Tewdric batendo no ombro de Luxuriah tão forte que fez a bebida do copo dela derramar – Sempre com um ótimo senso de humor!

– Não é senso de humor, eu te odeio mesmo! – retrucou Luxuriah.

Era bem difícil acreditar naquela informação, já que ela foi dita às gargalhadas.

Apesar do maior sonho de Kassyeh sempre foi ver aqueles dois tendo uma relação amigável, soube no momento em que a irmã entornou mais um copo que havia alguma coisa muito errada. Luxuria gostava de beber, era fato, mas havia alguma coisa nos olhos dela, na atitude, no semblante, que não estava bem. Aquele não era um porre normal.

– O que aconteceu Luxuriah? – perguntou preocupada.

– E precisa acontecer algo pra eu beber? – perguntou na defensiva e enchendo mais um copo.

– Antes do almoço? Precisa sim.

Luxuriah bateu a garrafa com força na mesa, assustando a irmã.

– Estou com vontade, só isso. E tenho uma companhia não é orc? – estendeu o copo para Tewdric.

– Com certeza! – eles brindaram e beberam todo o conteúdo de uma só vez.

Certo, havia alguma coisa realmente errada.

Mas antes que pudesse perguntar qualquer outra coisa Luxuriah, esta se levantou. Mostrando sinais que a bebida tinha surtido efeito, ela cambaleou em direção à escada.

– Vou descansar um pouco. – anunciou – Mais tarde nós bebemos mais orc! E chame a guilda! Vamos comemorar!

– Por minha conta! – concordou Tewdric.

Preocupada que a outra acabasse caindo da escada, Kassyeh fez menção de acompanhar a irmã, mas esta rapidamente se desvencilhou de seus braços.

– Eu to bem e vou subir sozinha! Fique com seu orc aí! – e contra a vontade de Kassyeh, ela subiu sozinha.

Quando voltou a mesa, Kassyeh percebeu que Tewdric estava anormalmente sério. Diferente de Luxuriah, ele não estava nem um pouco embriagado, e observava o copo em sua mão enquanto sua elfa sentava ao seu lado.

– Tem alguma coisa acontecendo com ela. – disse ele em sua voz rouca.

–Ah! – exclamou aliviada – Pensei que era coisa de minha cabeça!

– Não, não, tem algo incomodando a Lulu. E dessa vez, não sou eu.

– E ela nunca vai falar o que é. – concluiu Kassyeh.

Eles ficaram em silêncio por alguns momentos. Tewdric então fez um sinal para Gryshka trazer comida. Quando a orquisa os serviu e deixou-os a sós, o orc fez um gesto para que a elfa chegasse mais perto. Quando estavam lado a lado, ele lhe perguntou com a voz baixa:

– Foram os humanos não foi?

Kassyeh não respondeu de imediato. Chegou ainda mais perto de Tewdric e encostou a cabeça em seu braço. Detestava a sensação que se instalava em seu peito quando tocava naquele assunto.

– Foram. Eu não lembro bem, era pequena, mas recordo os gritos, os sons de batalha, o cheiro de sangue no ar... – ela deu uma pausa, como se reunisse coragem — No porão lá de casa só cabia eu e as meninas. Luxuriah ficou para lutar com nossos pais... — as lágrimas brotaram em seus olhos inesperadamente e ela engasgou. Tewdric a abraçou forte e ela teve que respirar fundo para continuar — Eu não sei o que houve lá em cima, mas quando tudo acabou papai e mamãe estavam mortos em frente à nossa casa e Luxuriah observava seus corpos com um olhar vazio...

– E ainda nos chamam de monstros... – grunhiu o orc – Matar os pais de uma garota em sua frente... Luxuriah tem sorte de estar viva...

– Mas... Isso tem a ver com a bebida dela hoje? – perguntou confusa.

Tewdric baixou ainda mais a voz:

– Soube que há humanos rondando por Mulgore... E talvez até em Durotar...

O choque perpassou no rosto de Kassyeh.

– Aqui?! Eles estão aqui?!

– Ainda não sabemos... Mas pode ser que Luxuriah tenha dado de cara com alguns deles... Soube que houve um conflito, pode ter sido isso...

– Mas Luxuriah fica feliz quando mata allys! Ela comemora! Mas ela está triste eu sei! Nós perdemos?

– Não, não, expulsamos os malditos de lá! Mas houve baixas... Ah se eu estivesse lá! – rugiu com ódio — Vou caçá-los aqui como javalis para o abate!

Kassyeh ainda achava que algo mais que um ataque tinha ocasionado o comportamento estranho de sua irmã, mas ficou calada. Iria perguntar a ela mais tarde. Por enquanto, comeu avidamente o almoço, e permitiu que Tewdric a distraísse de suas preocupações. Ele contou piadas, a beijou e repentinamente decidiu que ela precisava de outra mascote. Levantou-se apressadamente, mesmo sobre os protestos de sua fêmea, para conseguir o animalzinho.

– Hotch anda muito mimado, precisa de um irmãozinho!

E saiu deixando o pequeno tigre mais mal humorado que Luxuriah.

Enquanto esperava Tewdric voltar, Kassyeh bebericava um pouco do néctar doce que tinha acabado de chegar de Luaprata na estalagem. Jogava pedaços de queijo para Hotch que os ignorava, provavelmente pensando no concorrente que estava a caminho. Demorou algum tempo para Kassyeh perceber que estava sendo observada.

Quando levantou a cabeça, com aquela sensação de desconforto, viu um belo elfo sangrento sentado sozinho mesa mais distante da estalagem. Ele tinha cabelos cinza muito cumpridos, e usava uma armadura prateada reluzente. E seu olhar estava fixo nela.

A primeira coisa que pensou era que o elfo provavelmente a conhecia de sua cidade. Só que ele era completamente estranho para Kassyeh. Não lembrava nenhum elfo com aquela coloração de cabelo ou com aquela armadura tão exótica. Então ele provavelmente a estava confundindo com alguém. Satisfeita em ter chegado à conclusão que achou a mais provável, voltou a sua atenção a Hotch que agora tentava estraçalhar a mesa da taverna em sinal de protesto.

– Hotch! – ralhou – Pare!

– Kassyeh? – ouviu uma voz a chamando.

Era o elfo. Ele estava em pé ao seu lado, com um sorriso em seu rosto. Como chegara ali tão rápido e sem que ela percebesse?

– Eu... Te conheço? – perguntou confusa.

– Não. Mas eu conheço você muito bem. – disse suavemente.

Ele estendeu a mão em sua direção, mas Kassyeh não o cumprimentou. Não o conhecia, mas ele a conhecia? Quem era aquele elfo? E o que queria?

– É falta de educação recusar um cumprimento. – criticou o elfo, que continuava com a mão estendida.

– Não preciso cumprimentar quem eu não conheço. – respondeu secamente – Principalmente se essa pessoa sabe sobre mim por algum motivo que desconheço.

Para sua surpresa, o elfo riu.

– Você realmente parece com Luxuriah. Tão desconfiada quanto.

Surpresa que o elfo conhecesse sua irmã, Kassyeh abriu a boca para perguntar de onde ele era e porque falara de Luxuriah com tanta intimidade. Não estava gostando daquilo. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, viu o elfo sumir rapidamente de sua frente e chocar-se com a parede dolorosamente com um enorme orc segurando seu pescoço.

– O que você está fazendo perto da minha fêmea?! – gritou Tewdric descontrolado.

– Tewdric! – chamou Kassyeh assustada.

– Ele lhe incomodou?! – perguntou aos gritos o guerreiro apertando a garganta do elfo – Lhe desrespeitou?!

– Tewdric! – quem falou naquele momento foi Morag – Na estalagem não!

– Esse merdinha tava incomodando minha fêmea! – replicou com os olhos em fúria.

– Ele conhece Luxuriah! – disse Kassyeh rapidamente antes que alguém tivesse a ideia de chamar os guardas – Ele estava falando dela!

Diante da informação, Tewdric soltou o elfo, ainda que relutante. Kassyeh viu que ela falara no melhor momento, pois só naquele momento percebeu que o outro tinha puxado a espada e agora apontava para o orc. Reconheceu aquele tipo de espada. Era inconfundível.

“Ele é um paladino!”, pensou assustada. Os paladinos não costumam levar desaforo para Luaprata.

Tewdric percebeu a ameaça e tirou o machado das costas.

– Só não decepo sua cabeça agora, orc, em respeito à irmã de Luxuriah! — ameaçou o paladino.

– Como se você fosse conseguir isso, elfo! – rosnou Tewdric.

– Certo, vocês! Vamos parar com isso! – disse Kassyeh entrando no meio dos dois – Tewdric, ele não me desrespeitou, só foi um pouco indiscreto falando da minha irmã quando eu nem sei quem ele é.

– Grey. – respondeu o paladino abaixando a espada já que havia uma elfa no caminho do orc – Meu nome é Grey. E sim, conheço Luxuriah. Vim me encontrar com ela.

Tewdric o analisou por um momento antes de baixar o machado. Kassyeh suspirou aliviada, ainda que sentisse a tensão presente no ambiente. Viu pelo canto do olho que Saba tinha se esgueirado do estabulo até ali e agora olhava a cena. Provavelmente estava ansiosa para presenciar um combate.

– Então... Você veio se encontrar com Luxuriah... – começou Kassyeh cautelosamente – Não podia arriscar que as tensões se elevassem novamente – Ela não mencionou nada sobre isso.

Aquele comentário aparentemente não agradou Grey, que torceu o nariz.

– Você como irmã dela deveria saber que Luxuriah não é a pessoa mais aberta do mundo.

– Olhe como fala com minha fêmea elfo! – rosnou Tewdric – Já arranquei cabeças por bem menos que isso!

Grey o ignorou e continuou encarando Kassyeh, que sustentou o olhar.

– Me diga em que quarto ela estar. – Grey não pediu, praticamente ordenou – Ela vai ter que me receber.

– Se minha irmã não falou de você nem te disse onde vai ficar, eu a conheço o suficiente para saber que ela não quer lhe ver! – devolveu Kassyeh cruzando os braços e desafiando abertamente o paladino.

– Eu irei vê-la. – falou Grey resoluto – Nem que eu tenha que abrir todas as portas desse lugar! – e fez menção de se dirigir às escadas.

Rapidamente Kassyeh bloqueou o caminho de Grey. Não iria deixar aquele desconhecido entrar no quarto de Luxuriah. Já não faria isso normalmente, até porque Luxuriah arrancaria o pescoço de quem lhe acordasse, muito menos permitiria que alguém entrasse enquanto sua irmã estava alcoolizada e possivelmente vulnerável.

– Desculpe-me senhor Grey, mas você não vai incomodar a minha irmã.

O paladino deu uma risada de desdém.

– E uma elfa pequena e maga vai me impedir? – zombou.

Um enorme machado passou por entre eles e fincou-se no chão, bem perto de Grey.

– Que tal um orc grande e guerreiro, elfo?

Eles se encaram por mais tempo que Kassyeh achava seguro. Sabia que se Grey insistisse em subir e ver Luxuriah, Tewdric iria impedi-lo. Primeiro, porque Kassyeh não queria que o elfo visse a irmã. Segundo, porque não tinha ido com a cara do elfo. E terceiro, porque Tewdric gostava de batalhas. Era quase palpável sua expectativa. Queria muito cortar o paladino no meio com seu machado, e sua expressão deixava isso bem claro. Grey também não parecia disposto a desistir, e olhava constantemente por cima do ombro do orc, como se calculasse quanto tempo levaria para chegar no primeiro andar. Quando o conflito parecia inevitável, o improvável aconteceu.

Gryshka apareceu na porta da estalagem, provavelmente alertada por algum cliente que escapara temendo um possível confronto. Kassyeh suspirou aliviada. A orquisa era conhecida por manter sua estalagem em ordem e fazia tempo que não se registava uma briga naquele ambiente.

– Os dois machos abaixem as armas! – disse ela em uma voz autoritária – Não quero brigas em meu estabelecimento e acredito que a guarda também não vai aprová-la nas ruas. Se querem se matar, façam isso fora dos muros da cidade! – e olhando para Grey, ela completou – E você rapaz, não pode entrar em nenhum quarto da minha estalagem sem ser convidado pelo hóspede. Como Luxuriah não lhe convidou, vaza!

Com certeza Grey não era alguém que costumava ser mandando. Mas também não era burro. Encarou Tewdric e Kassyeh mais uma vez antes de embainhar a espada e se dirigir à porta. Antes de sair, porém disse:

– Posso não subir, mas ninguém me disse que frequentar o bar era proibido. — e saiu.

Kassyeh colocou a mão no rosto, preocupada. Aquele elfo ia voltar. E tinha a sensação que aquilo não ia acabar bem.

***************

Tewdric não a largou o resto do dia. Apesar de ter combinado duelos com os amigos pela tarde, ele os cancelou. Não iria permitir que ninguém chegasse perto de sua elfa.

O comportamento dele era esperado, mas Kassyeh não imaginava que nessa intensidade. Sempre soubera que depois de marcar a fêmea, o orc fica muito mais possessivo e ciumento do que normalmente já era. E mesmo para os padrões órquicos, Tewdric era ciumento. E tudo parecia ter aumentado consideravelmente.

Para sua surpresa, Kassyeh não se importava com isso. Na verdade, até gostava. Assim ela ficava menos insegura sobre seu relacionamento. Durante aquele tempo que estavam juntos e que ele nunca havia proposto a marcação, vivia com constante medo que uma orquisa o tomasse. Afinal, era o mais aceitável que ele quisesse alguém de sua raça. Mas diante do ciúme dele e até de sua possessividade, a maga viu que não tinha que se preocupar. Tinha a marca. Ele não iria deixá-la.

O que Kassyeh não sabia era que seus medos eram compartilhados por Tewdric. Ele nunca admitira, e provavelmente nunca admitiria para ninguém, mas tinha um verdadeiro temor de perdê-la. Quando se apaixonara por aquela pequena e frágil criatura, ele se sentiu pela primeira vez na vida um monstro. Claro que não ia dar certo. Ele a mataria na primeira vez que copulassem. E uma elfa tão fabulosamente linda nunca iria olhá-lo de outra forma.

Deveria ter desconfiado que Kassyeh era especial.

Não só ela correspondeu seus sentimentos como se mostrou uma amante muito melhor do que qualquer outra que tivera. Lembrava perfeitamente de rejeitar uma orquisa muito cobiçada em Orgrimmar para ficar com sua pequena elfa. E tinha um medo indescritível que um elfo efeminado e imbecil a tomasse dele. Mesmo assim, não falara da marca. Não queria assustá-la. Não queria feri-la.

Deveria ter desconfiado que Kassyeh era muito mais que especial.

Por causa desse ciúme e medo foi que quase quebrara o pescoço do elfo paladino. E mesmo diante da afirmativa que o interesse dele era em Luxuriah, não gostava de tê-lo sequer perto de Kassyeh. Por isso ficara por perto, todo o dia. E quando a noite chegou e seus companheiros de guilda vieram celebrar o raro momento em que praticamente todos estavam na capital da Horda, sentou-se à mesa mais ao fundo da estalagem, com sua fêmea de um lado e o machado do outro, vestido com sua armadura negra, à espera que o incauto paladino ousasse se aproximar.

Quando a noite caiu, a estalagem já estava com as mesas lotadas. Gryshka andava de um lado para o outro com uma bandeja enorme e cheia de copos e garrafas, se espremendo por entre a multidão de clientes que festejavam o encontro da guilda. No balcão, Morag servia petiscos como costeletas de zevra, javali assado e pedaços de pinote com torradas. Saba estava sentada no balcão, próxima ao pai, bebendo tristemente um copo de néctar doce. Ela reclamara durante muito tempo que queria beber “bebida de orc grande”, mas sua mãe a ameaçara mandar para Altaforja se ela não parasse.

Kassyeh ficou extremamente feliz com a presença de amigos que há muito tempo não via. Gardok, um tauren alto e barulhento tocava um instrumento muito estranho, enquanto um renegado cantava músicas incompreensíveis em uma voz gutural. Diziam que iriam se candidatar à banda dos Chefes Taurens. Em sua mesa estava sentado Opiel, um goblin bruxo que era extremamente agradável se comparado aos outros de sua raça. Ele fazia piadas e truques que assustavam Hotch e a nova mascote de Kassyeh um cão-de-magma filhote que recebera o nome de Littleflame. Estava lá também Kayliel um elfo sangrento sacerdote considerado o mais belo de sua raça, mas que alguns fofoqueiros acusavam de ter mantido anos antes um sórdido caso com uma humana. Para completar outro tauren, xamã, chamado Mhuu que era alegre e divertido e sempre a encorajava a empreender novas jornadas.

– Você já esta forte o suficiente para ir à Nortundria, Kass. – Mhuu adorava chamá-la pelo seu apelido de infância – Os ally ganham cada vez mais espaço. Precisamos de mãos para lutar.

– Soube que tem ervas muito raras por lá. – disse ela já empolgada com a jornada – Será muito bom ir conferir.

– E dessa vez, mate os ally. – disse Tewdric seriamente – Não tenha pena.

– Mas é que às vezes eles não me atacam! – explicou Kassyeh recebendo olhares de censura – Então não acho justo atacar só por atacar!

– Que tal o fato que eles mataram papai e mamãe?

Luxuriah chegou com a pior expressão que poderia carregar no rosto bonito. A ressaca estava bem clara em sua face, mas nem por isso ela deixou de sentar à mesa, empurrando Opiel para o lado, e encher o copo. Bebeu de um gole só e lançou um olhar reprovador para a irmã.

– Você nasceu no mundo errado Kassyeh. Uma pessoa boa como você devia ter nascido num mundo pacífico, e não em um mundo de guerra. Só que você não teve essa sorte. – Luxuriah encheu mais um copo – Lute ou vai morrer.

Os membros da mesa se calaram, surpresos com a atitude da elfa. Apesar de constantemente brigar com Kassyeh por seu relacionamento, ela nunca dissera palavras tão duras quanto aquelas.

– Não fale assim com sua irmã Luxuriah. – disse Mhuu – Kassyeh tem os princípios dela, e eles têm que serem respeitados.

– Quando ela tiver numa vala, morta, de que vai adiantar os princípios dela? – retrucou.

– Luxuriah... – começou Mhuu, mas Kassyeh levantou amanhã pedindo para ele parar.

– Irmã. – começou ela – Sei que você está com raiva...

– E com ressaca. – completou Luxuriah secando o copo e o enchendo de novo – Muita ressaca.

Kassyeh respirou fundo.

– Você está com raiva e com ressaca. Isso tem a ver com o elfo chamado Grey?

Luxuriah cuspiu toda a bebida que estava na sua boca em cima de Opiel.

– Ei! – reclamou o goblin – Que nojo!

A cor fugiu do rosto da caçadora, enquanto ela encarava a irmã boquiaberta.

– Q-Que? C-Como? – gaguejou ela.

Kassyeh achou estranho, nunca vira sua irmã gaguejando antes. Nem tão pálida, como se tivesse visto o próprio Cataclismo em pessoa.

– Esse elfo apareceu por aqui hoje. – rosnou Tewdric enraivecido – Abordou Kassyeh. Eu só não quebrei o pescoço dele, porque ela pediu pra eu não quebrar.

– Deveria ter quebrado! – gritou Luxuriah se levantando – Não acredito que ele teve coragem de aparecer por aqui! E falado com Kassyeh! – e alarmada, perguntou à irmã – O que ele lhe falou? O que ele disse?

Sem entender aquele desespero, a maga respondeu:

– Ele não disse nada propriamente dito... Deu a entender que sabia sobre mim... E sobre você...

Houve um momento de silêncio, onde ninguém falou na mesa e apenas o barulho do ambiente preencheu aquele espaço.

– Aquele infeliz! – sibilou Luxuriah — Eu o proibi! Eu disse que ele não viesse!

– E desde quando eu faço o que me mandam Luxuriah?

Grey apareceu do nada na mesa. Tewdric levantou-se rapidamente, pegando o machado. Aquele movimento fez toda a estalagem se calar e olhar para o orc, que estava visivelmente aguardando uma oportunidade de partir aquele paladino em dois.

– Espere Tewdric.

Quando Luxuriah falou, sua voz estava calma. Encarou Grey seriamente, e fez um sinal com a cabeça para a porta da estalagem. Para o total desespero de Kassyeh, a irmã saiu sozinha com aquele elfo estranho para a noite quente de Orgrimmar. Quando ela fez menção de se levantar para seguir a irmã, Tewdric a impediu.

– Deixe sua irmã resolver os problemas dela. – aconselhou.

Kassyeh sentou novamente. Ele tinha razão. Esperava que Luxuriah resolvesse o que quer que fosse com Grey e voltasse ao normal. Se bem que o normal de Luxuriah já era mal humorado, mas ela piorara muito desde que voltara do Penhasco do Trovão e, se Tewdric estivesse certo, isso tinha a ver com o paladino de armadura prateada.

Eles ficaram lá fora muito tempo. Tewdric procurou distrair Kassyeh de todas as formas possíveis, inclusive as mais pervertidas. Por muitas vezes a elfa teve que tirar a mão dele de sua coxa, ou impedi-lo de colocá-la por baixo de sua saia. Quando viu que não ia conseguir bolinar sua fêmea, o orc a agarrou e a pôs no colo. Kassyeh quis protestar, mas ele então lhe deu um intenso beijo, levando todos os presentes a gritarem animados.

Por um momento, Kassyeh pensou que poderia esquecer-se da situação de Luxuriah e se divertir. Talvez até fugisse com Tewdric para o quarto quando a irmã voltasse. Tinha que aproveitar o máximo possível de tempo com ele. Nunca sabia quando ele seria convocado pelo Chefe Guerreiro. Todavia, um vulto junto as mesas lhe chamou a atenção e a fez gelar.

Uma enorme orquisa a observava. Ela tinha os espessos cabelos presos apenas por uma tiara e vestia uma armadura de malha vermelha que deixava entrever seu abdômen definido. Seus braços eram musculosos e carregavam uma maça cheia de cravos e um escudo com o símbolo da Horda. Reconheceria aquela orquisa em qualquer lugar.

Fora último caso de Tewdric antes dela. Uma das mais cobiçadas fêmeas da raça orquisa que recebera um não por causa da elfa. Ninguém precisava dizer o profundo ódio que aquela criatura lhe destinava. E por ironia, estavam na mesma guilda.

Kassyeh desviou o olhar e encostou a cabeça no ombro de Tewdric. Não iria dizer que estava sendo ameaçada somente pelo olhar da orquisa, nem que sentia vontade de correr e se esconder. Não queria parecer covarde, mas já ouvira falar do que Lyndonna podia fazer com seus adversários.

Para seu alívio, sua preocupação foi interrompida pela chegada de Luxuriah. Parecia mais calma, mas ainda ostentava um semblante contrariado. Para a surpresa de todos, se dirigiu à irmã, mas não falou com esta.

– Tewdric. – disse olhando diretamente para o orc – Precisamos conversar. Lá fora.

O orc não pareceu surpreso como os demais da mesa. Pôs Kassyeh na esteira, lhe deu um rápido beijo no pescoço e seguiu Luxuriah.

– O que será que ela quer? – perguntou aflita para os demais que compunham a mesa.

– Saberemos logo. – falou Kayliel enigmático.

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Tewdric seguiu Luxuriah para a noite de Orgrimmar. Apesar de ser noite, o ar da cidade ainda estava quente. Todos sabiam, todavia, que aquele calor ilusório era ocasionado pelas placas de aço e ferro que recobriam a cidade e armazenavam o calor do dia. Fora dos muros, o clima era outro. Como todo deserto, Durotar esquentava sobremaneira durante o dia e esfriava perigosamente à noite. Por isso, poucos aventureiros se arriscavam a acampar fora de uma vila.

Luxuriah percorreu poucos metros, apenas o suficiente para se afastar de qualquer olhar curioso que estivesse festejando na estalagem. Ela queria privacidade.

– O que exatamente Grey disse a Kassyeh? – perguntou preocupada.

– Não faço ideia. – respondeu ele sinceramente – Eu estava mais preocupado em apertar o pescoço dele quando o vi.

A caçadora não conseguiu segurar o riso.

– Pela primeira vez agradeço sua brutalidade.

– Deveria agradecer sempre. Isso mantém sua irmã segura. – retrucou.

Ela suspirou e passou as mãos nos cabelos antes de falar:

– Eu não confio em macho de nenhuma espécie Tewdric. Nem orcs, nem elfos, nem nada. Mas uma coisa eu tenho que admitir, você parece gostar realmente da minha irmã.

– Mais do que amo a guerra. – disse solene.

Uma das poucas coisas que Luxuriah sabia sobre os orcs era que dificilmente algo superava o amor daquela raça pelo combate. Era algo inerente naqueles seres, algo tão importante quanto o ar que respiravam, o alimento que comiam e aquela bebida forte de gosto amargo que ofereciam às visitas. E se algum deles ousava dizer que qualquer coisa era mais importante que a batalha, era porque o amor que sentia era imensurável.

– Então vou lhe pedir algo. Quero que você me prometa. – falou misteriosa.

– Peça.

Luxuriah respirou fundo.

– Não deixe Grey se aproximar de minha irmã. De jeito nenhum. – e sombriamente acrescentou – Se ele insistir fique a vontade para quebrar as pernas dele.

– Posso matá-lo? – quis saber Tewdric animado.

– Não! – respondeu a elfa bruscamente, para depois perceber que a negativa soou muito veemente – Não. Isso seria contra os princípios da Horda. Não quero esse problema para você. Acabaria recaindo e alguma forma em minha irmã.

– Certo. Quebrar as pernas, mas sem matar. – repetiu ele desanimado – Acho que consigo. Mas agora quero que você me responda uma coisa.

– O quê? – perguntou ela na defensiva.

– Qual seu rolo com aquele elfo?

Antes que Luxuriah pudesse responder, ouviram um grito agudo e desesperado em sua direção. Quando se voltou em direção à estalagem viu Saba correndo aterrorizada em sua direção.

– Luxuriah! Tewdric! Tão atacando a Kassyeh!

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Depois que Tewdric e Luxuriah saíram, Kassyeh tentou esconder a angustia. Sabia que se sua irmã precisasse de qualquer coisa, Tewdric o faria com um sorriso nos lábios. E apesar de tudo, sabia que sua irmã gostava do orc, ainda que não admitisse jamais aquilo. Então havia a possibilidade de ela pedir que o orc fizesse algo contra Grey. O que ele teria feito para despertar um ódio tão grande em sua irmã?

– Opiel, você já ouviu falar nesse Grey? — perguntou Kassyeh.

O goblin fez que não com a cabeça.

– Nunca. Mas tenho uns contatos por ai, posso procurar saber se ele estiver lhe incomodando.

Kassyeh lhe deu um sorriso agradecido.

– Eu agradeceria muito a informação. Ele não está me incomodando, mas acho que incomoda Luxuriah.

– Quem não incomoda Luxuriah? — gracejou Opiel.

Todos riram.

– Petisco de pinote saindo! — gritou Morag do balcão.

– Ah! Vou pegar pra gente! — exclamou a maga se levantando – To morrendo de fome.

Kassyeh se dirigiu ao balcão e pediu uma travessa com bastante petisco de pinote e também um pouco de queijo. Aparentemente sua nova mascote, Littleflame, gostava tanto de queijo quanto Hotch. E apesar do estranhamento inicial, os dois já estavam se dando relativamente bem, afinal o tigrinho de Hibernia já tinha desistido de tentar devorar o cãozinho de magma.

Enquanto esperava o pedido, Kassyeh ouvia pacientemente as reclamações de Saba.

– Minha mãe me trata como bebê Kassyeh! — reclamou a menina sentada no balcão balançando as perninhas rechonchudas – Mas não sou mais um bebê!

– Claro que não é Saba. — disse compreensiva – Mas também não é adulta. E acredite, mesmo quando você for, sua mãe ainda achará que você é o bebê dela!

– Como Luxuriah faz com você?

– Isso. — respondeu rindo – Como Luxuriah faz comigo. Mas quando você for uma aventureira e sair de casa, vai ver o quanto esse cuidado faz falta.

Saba a olhou, incrédula, e então riu. Naquele momento Morag voltou com os petiscos de pinote e o queijo e entregou a elfa.

– Aqui está Kassyeh. Bom apetite.

– Obrigada Morag. — e se virou para sair.

Todavia, Kassyeh trombou com um corpo sólido que fez tudo que estava na bandeja cair no chão. Ela xingou mentalmente aquela pessoa até encará-la com raiva. E gelou. Era Lyndonna, a orquisa que a odiava profundamente que se pusera no seu caminho propositalmente. Agora, as duas se encaravam e um pesado silêncio se abateu na estalagem. Todos sabiam que Lyndonna proclamava aos quatro ventos a vontade de “acertar as contas” com a elfa. E parece que ela escolhera justamente o momento que nem Tewdric nem Luxuriah estavam por perto.

– Você sujou a minha armadura. – grunhiu a orquisa com um olhar ameaçador.

Mais calma do que achara que ficaria naquela situação, Kassyeh falou brandamente:

– Eu estava saindo do balcão. A obrigação de prestar atenção ao se aproximar era sua, e não minha.

Lyndonna deu mais um passo para frente e a encarou. Kassyeh não desviou os olhos.

– Você deveria prestar mais atenção no caminho em que você se mete, elfa.

– E você deve pagar a comida que fez eu derrubar.

A orquisa deu uma risada sarcástica.

– Eu devo pagar? Se for falar de pagamento, elfa, você me deve muito mais que um prato de comida.

A tensão estava reinando no ambiente. Ninguém se mexia, ninguém falava nada, apenas olhavam apreensivos para a cena.

– Acho que devemos intervir. – murmurou Opiel para Mhuu e Kayliel.

– Não sei, Kassyeh é tranquila, ela não vai provocar Lyndonna. — ponderou Mhuu.

– Lyndonna ta com cara que vai arrumar confusão mesmo sem ser provocada. – concluiu Kayliel sombriamente.

Mas antes que eles pudessem intervir, algo aconteceu dentro de Kassyeh. Quem aquela orquisa pensava que era? Tewdric nunca fora dela, nunca. Ele nunca a marcara como fizera com ela. Nunca lhe dispensara a atenção que dispensava a ela. Não havia motivos para aquela guerreira achar que poderia afrontá-la daquela forma.

– Minha memória deve andar muito ruim – começou a maga calmamente – mas não me lembro de qualquer coisa que eu precise acertar com você.

Nãos e sabe se foi o tom ou se foram as palavras que foram ditas. O certo é que a orquisa bufou de raiva e se aproximou ainda mais da elfa, que apesar de ser bem menor, manteve a postura firme e o olhar fixo na outra.

– Não se faça de engraçadinha, elfa. Você roubou meu macho!

– Ele nunca foi seu! – rebateu.

– E você acha que ele é seu? – desdenhou a outra

Kassyeh se impregnou.

– Ele é meu! – disse deixando a raiva transparecer em suas palavras.

Lyndonna caiu na risada. Parecia que tinha ouvido a coisa mais engraçada de toda a Azeroth. Ela riu tanto que ficou sem fôlego e teve que respirar fundo antes de continuar.

– Ele não é seu elfa! Você é só um passatempo exótico que ele arrumou! Quando ele se cansar de você, ele volta para mim, e aí sim, ele terá uma fêmea que ele poderá marcar!

Foi a vez de Kassyeh cair na risada.

– Sério? E o que você acha que é isso? — e puxou a barra do vestido.

Naquele momento ela esqueceu toda a vergonha que sentia por seu magro corpo. Não queria saber se toda guilda iria ver suas pernas ou o que quer que fosse. Precisava mostrar para aquela guerreira que o macho era da pequena maga e não dela. Queria provar que não era só um brinquedo exótico, mas que Tewdric a considerava o suficiente para marcá-la, mesmo ela não sendo de sua raça. E o fez. Mostrou o interior da coxa, onde as presas de Tewdric estava nitidamente marcadas. A pele já tinha começado a cicatrizar, mas ainda era visível a vermelhidão da pele ao redor das feridas. Mas não importava se era recente ou não. A marca estava lá. Aquilo era a prova dos sentimentos de Tewdric por ela.

Kassyeh manteve a saia levantada tempo suficiente para garantir que Lyndonna visse do que se tratava. Quando viu os olhos da orquisa se estreitarem e um rosnado começar a sair de seus lábios, Kassyeh baixou o vestido, se sentindo vitoriosa.

– Viu? Eu sou a fêmea dele. Não você. – e se sentindo confiante do poder que a marca lhe dera, acrescentou – Você deve ter sido uma péssima companheira, afinal ele lhe deixou e procurou alguém tão diferente de você...

Foi tão rápido que ninguém teve tempo de agir. Lyndonna deu uma bofetada no rosto de Kassyeh tão forte que a elfa girou e caiu no chão, cuspindo sangue. Todos se levantaram, mas ninguém conseguiu impedir a guerreira de puxar sua maça e partir com tudo para cima da adversária que estava no chão.

Kassyeh viu apenas o vulto da arma antes dela rolar e evitar que o golpe atingisse suas costas. Pôs-se de pé imediatamente e começou a conjurar um feitiço. Antes que pudesse ser atingida, ela jogou uma seta de gelo na adversária, que ficou mais lenta e lhe deu tempo de conjurar uma armadura arcana. Mas a guerreira estava perto o suficiente para lhe atacar e o fez. A maça atingiu o peito de Kassyeh com tanta força, que sua vista escureceu por um momento. Mesmo tonta com a dor, conseguiu lançar uma rajada que congelou as pernas de Lyndonna. Então, deu alguns passos para trás, tentando recobrar o fôlego e pensando em o que fazer para acabar com aquele duelo. Sabia que não seria capaz de vencer pela força. Mas também não podia apelar, usar todo seu poder e matar a orquisa. Afinal, eram da mesma guilda. Então optou por atordoá-la o suficiente para que ela parasse de atacá-la.

O que Kassyeh esquecera era que poucos tinham um coração tão bondoso quanto o dela, e Lyndonna definitivamente não era um desses. Para a guerreira, pouco importava a guilda ou a facção. Estava enlouquecida de ciúmes. O orc que tanto desejara, que esperara durante tanto tempo que cansasse de seu brinquedo élfico para então voltar aos seus braços, tinha escolhido aquela criatura pequena e insignificante como fêmea. Como podia?! Tinha que eliminar aquele obstáculo, e iria fazer logo.

O próximo ataque de Lyndonna foi mais forte do que Kassyeh supusera. E mesmo tendo criado um orbe que atacava a guerreira e lhe dava a oportunidade de efetuar mais um ataque, os golpes que recebia eram muito mais que seu corpo podia aguentar. Afinal, qual a sua proteção?? Um vestido de tecido? Um cajado? Do que isso adiantava perante a poderosa arma de ferro e magia que lhe quebravam as costelas?

Quando caiu no chão, com o sangue jorrando pela boca e a vista turva, Kassyeh achou que iria morrer ali. Pensou por um momento que seria uma grande ironia morrer numa cidade considerada segura e cercada de aliados. Luxuriah não iria gostar nada daquilo.

Ao ver que a elfa perdeu os sentidos, a orquisa sorriu. Apenas mais um. Mais um golpe e iria riscar a existência daquela criatura de sua vida. E iria reaver Tewdric.

Foi com esse pensamento que investiu para cima de Kassyeh, antes que um enorme lagarto espinhento pulasse em cima dela, mordendo seu braço, e impedindo o golpe fatal.

– O que? – foi tudo que conseguiu dizer antes que uma flecha cravasse em sua armadura.

– Fique longe da minha irmã! – gritou Luxuriah armando outra flecha.

Lyndonna rugiu e partiu para cima de Luxuriah. Mesmo com o ajudante lhe mordendo e tentando chamar a atenção, a orquisa queria destruir a elfa. Outra elfa. Sempre elas! Iria fazê-las fazer jus ao nome de sua raça e sangrarem até a morte!

Mas Luxuriah não era Kassyeh. Não era uma maga pacifista com sonhos doces e meigos. Era uma verdadeira arma em forma de elfo, que se comunicava tão bem com seu animal que um parecia a extensão do outro. Agora, Lyndonna não enfrentava um inimigo, mas dois. E dois igualmente fatais.

Se antes ninguém conseguira intervir, naquele momento era impossível. As duas combatentes se aproximavam e se afastavam, levando tudo que estivessem em seu caminho. Mesas e cadeiras foram quebradas. O ajudante de Luxuriah fora lançado com tanta força para o lado que abriu um buraco na parede. Garrafas e mais garrafas eram atingidas ou pelas flechas perdidas da caçadora ou pela força dos golpes da guerreira.

Foram necessários todos os machos presentes no ambiente para tentar controlar as duas. Mas somente quando Grey reapareceu e agarrou a cintura de Luxuriah puxando-a para longe e Mhuu conseguir conter a fúria de Lyndonna é que as coisas se acalmaram. Rapidamente distanciaram as duas, enquanto Saba dava pulinhos de alegria por ter presenciado um conflito, Gryshka lamentava as perdas e Tewdric se afastava com Kassyeh nos braços, com fúria e preocupação se misturando em sua face.

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Estava tudo silencioso quando Kassyeh recobrou a consciência. Lembrou-se da luta e imediatamente levou a mão às costelas, esperando sentir uma imensa dor naquele local. Mas não sentiu. Não sentiu nada. Estava muito bem. Sentou-se e vasculhou o quarto com os olhos. Tewdric estava lá, para sua alegria. Mas, quando o encarou, percebeu que ele estava chateado. Muito chateado.

– Tewdric? – chamou timidamente.

– Ela podia ter te matado. – murmurou o orc.

Baixou a cabeça, envergonhada.

– Eu sei. Desculpe.

Tewdric franziu as sobrancelhas.

– Por quê? Você não fez nada de errado! Bem, exceto não matar Lyndonna, mas vindo de você isso não é nenhuma novidade.

Tentando lembrar o que tinha acontecido, mas sem conseguir, só podia supor que desmaiara.

– Quem me curou? – perguntou.

– Kayliel. Mas não se preocupe. A marca ainda está aí.

Certo, Kayliel a curara. Mas houvera uma luta. Uma luta que sabia que perdera. Mas estava ali, viva e Tewdric não estava chateado com ela. Então, como as coisas tinham acabado?

– O que aconteceu? – perguntou.

Tewdric sorriu.

– Luxuriah.

E ele não precisou dizer mais nada.