Herdeiros da Guerra
58 Capítulo XXXIV – Descobertas (Horda)
A canção ecoava no salão, as notas musicais dançando solitárias no espaço vazio, nenhuma plateia para ouvi-la, ninguém para apreciá-la. Tocar para si mesma, apenas para seu deleite, era o novo prazer de Karen. Dedilhava os dedos agilmente pala harpa, com a mesma maestria com o qual girava sua espada em suas mãos, uma habilidade adquirira com muito esforço, muitas horas de treino e muitos concertos para si própria. Não que desgostasse dos aplausos e dos elogios; gostava e muito. Mas tocar para alimentar sua própria alma lhe dava forças para aguentar os pensamentos nebulosos quando estes a assaltavam.
Quando a música findou e ela relaxou os braços, sentiu os dedos latejarem pelo esforço. Se os olhasse naquele momento, saberiam que estavam vermelhos, mesmo que já estivessem calejados. A perfeição é dolorosa, lhe dizia Lady Liadrin. E mesmo que não se referisse à música, aquele ditado combinava perfeitamente com o momento. Colocou a harpa no chão, levantou-se e esticou-se, os músculos reclamando do tempo sem movimento. Respirou fundo e pensou se voltaria para sala de reuniões ou se treinaria. Na verdade, tudo que ela queria era fugir para a Cidade Baixa, de lá pegar o zepelim para Orgrimmar e, de Orgrimmar, partir para Pandaria para trazer Tewdric e Kassyeh de volta imediatamente. E trancá-los na torre, para nunca mais saírem.
Receber a carta de Luxuriah foi uma alegria e uma decepção: estava muito feliz em saber que Kassyeh e Tewdric estavam bem, mas ficou furiosa com a decisão deles de permanecerem em Pandaria para ajudar. Seu lado responsável e centrado entendia a decisão deles e apoiava; era necessário reestabelecer a tranquilidade que a chegada da Horda e da Aliança tiraram do novo continente. Seu lado mais infantil e impaciente não queria saber de nada, a não ser de ter os dois em casa de novo. E ficara nesse conflito por todo aquele tempo, alternando em momentos de fúria, onde escrevia imensas cartas para os dois, exigindo que voltassem para casa ou ela os buscaria; e momentos de tranquilidade, como aquele, onde apenas tocava até seus dedos doerem ou treinava até seus músculos falharem, desfrutando os prazeres de uma mente vazia. Até voltar a pensar e voltar a ficar com raiva.
De nada adiantava a raiva, tentava dizer para si própria. E de nada adiantava fugir e ir para Pandaria, mesmo que fosse sua vontade. Só desencadearia uma onda de preocupações gigantescas e sermões sem fim que não estava disposta a ouvir. A única pessoa em quem confiava para compartilhar seus pensamentos era Sabá e já respondera sua última carta; esperava que em dois ou três dias chegasse a resposta. Era a jovem orquisa que constantemente dizia para ela manter o foco no que era importante e o importante era manter-se em Luaprata e esperar.
Só que ela já estava cansada de esperar.
“Quando eles voltarem, vou brigar com eles e me recusar a dar um abraço ou beijo, para mostrar minha revolta!”, decidiu Karen. Decidiu também que era hora de bater em algo, antes que Lor’themar lhe trouxesse mais papéis para analisar; já perdera a manhã toda e uma parte da tarde lendo solicitações e despachando-as. Além do mais, quando estava treinando, o lorde regente não intervia. Talvez preferisse lidar com uma rainha cansada e suada do que com uma elétrica e cheia de energia. E se somasse a raiva a esses dois últimos sentimentos, realmente a preferência dele fazia todo sentido. Guardou a harpa em sua bolsa de couro, colocou-a dentro do armário do salão de música e saiu, para o corredor. Mal havia passado pela porta quando uma serva se aproximou, um sorriso enorme nos lábios e fez uma reverência, antes de dizer:
— Majestade, a princesa Kassyeh e seu consorte voltaram.
Por um instante, Karen não disse nada, surpresa com a notícia. Depois, um sorriso imenso se abriu em seu rosto, seu coração aos pulos.
— Onde eles estão? — perguntou, ansiosa.
— No salão principal.
Sem esperar mais nada, Karen disparou em direção ao local. Esqueceu de sua raiva, esqueceu de sua frustração e esqueceu que era uma rainha e tinha que manter a postura; era a menina ansiosa novamente, a menina que queria muito, muito, rever as pessoas amadas.
Assim que chegou ao salão, seus olhos focaram imediatamente em Tewdric. O orc vestia uma roupa estranha, mas tão bonita que Karen imediatamente quis uma. Mas, primeiro, queria um abraço.
— Ted! — ela exclamou, correndo em sua direção.
Assim que a viu, Tewdric abriu o sorriso e os braços.
— Karenzita!
Karen se atirou nos braços de Tewdric e ele a ergueu do chão com facilidade. Depois, encheu sua menina de beijos, colocando-a no braço igual a um bebê. Esquecendo-se de seu título, de sua idade, e especialmente de sua raiva, Karen enlaçou o pescoço dele, apertando-o forte, tão forte que apenas Tewdric conseguia aguentar aquele carinho sem ficar sem ar.
— É tão bom te ver, Ted! — exclamou ela, sentindo as lágrimas anuviarem sua visão – Vocês deviam ter voltado assim que a Lux os achou!
— Desculpa, Karenzita, desculpa. — pediu ele, sincero – Mas você entende, não entende? A gente tinha que fazer a coisa certa…
— Eu sei… — murmurou – Mas fiquei chateada mesmo assim!
— Mas o importante é que eu voltei, não é? — quis saber ele. — Aí você me perdoa.
— Não sei…. — Ela falou fechando a expressão – Não sei se te perdoo…
— Ah, aí você destrói meu coração! — falou ele fingindo estar triste – Acho que eu vou ter quer ir embora para Pandária…
— De jeito nenhum! — ela apertou mais seu pescoço – Você não sai daqui!
Tewdric deu uma risada.
— Eu senti muito sua falta Karenzita. — disse carinhosamente – Pensei em você todo o momento.
— Eu também… — murmurou ela.
Passos se aproximaram e Karen ouviu Kassyeh perguntar:
— Já posso pedir meu abraço?
Karen ergueu a cabeça e viu sua irmã, sorrindo. Kassyeh também usava roupas no mesmo estilo da de Tewdric, mas muito, muito mais bonita. Seu cabelo estava maior e mantido preso em um coque, no alto do cabeça. Nos braços, ela trazia carinhosamente suas mascotes, Littleflame e Hotch, que não haviam ido a Pandaria, ficando aos cuidados das irmãs. Rapidamente, Karen soltou-se de Tewdric, que a pôs no chão, para que ela pudesse abraçar a irmã. Kassyeh colocou as mascotes no chão, que não ficaram muito satisfeitas com o carinho interrompido e ficaram correndo em volta das irmãs, que se abraçaram fortemente. A maga estava acostumada com os abraços apertados de Tewdric, mas, ainda assim, se surpreendeu com o aperto de sua irmã. Ela ficara bem mais forte naquele tempo em que estiveram separadas.
— Você andou treinando muito, não é? — perguntou ela quando o abraço findou.
— Sim, era a única coisa que mantinha minha sanidade intacta! — exclamou cruzando os braços – Vocês dois embarcam nessa loucura e me deixam aqui, de cabelo em pé! Eu tinha que bater em algo, né?
Kassyeh achou-a muito parecida com Luxuriah naquele momento.
— Que bom que você canalizou a frustração para o treino. Olhe só esses braços! — Kassyeh levantou a manga de sua camisa – Que músculos lindos!
— Lindos, mas fazem Salandria me encher o saco, dizendo que o que devia ter no peito está indo por braço! — reclamou.
— Em um ou dois anos Salandria passará por esse mesmo processo, aí você pode devolver a gentileza. — riu-se Kassyeh – Até lá, você ganhará corpo. Tenha calma.
— Terei calma se vocês me disserem que ficarão em casa. — avisou ela.
Antes que Kassyeh e Tewdric pudessem responder, Karen começou a ouvir um burburinho. Eram vozes infantis, agudas, que tentavam cochichar e serem discretas, mas que estavam falhando miseravelmente.
— Ei, eles estão brigando? — perguntava uma voz.
— Não sei, parece que não. — respondeu outra.
— Yasu, não empurra! — reclamou uma terceira voz.
— Eu não estou empurrando! — falou quem devia ser Yasu.
Karen olhou sem entender para Kassyeh, que apenas sorriu e disse:
— Crianças, podem entrar.
Um bando de filhotes de pandarens adentraram na sala, correndo e empurrando uns aos outros, caindo e atropelando-se, tudo para chegar na frente de Karen e estancarem, com os olhos brilhando.
— Oi! — exclamaram em uníssono.
— Essas são as crianças da vila Sri La. — explicou Kassyeh mostrando os filhotes – Tewdric prometeu trazê-los a Luaprata e eles não o deixaram em paz até virmos.
— São bem convincentes, as pestinhas. — Resmungou Tewdric, rindo.
Karen colocou as mãos no rosto, surpresa com tanta fofura reunida em um só local. Os filhotes de pandarens eram muito mais adoráveis do que suas irmãs descreveram nas cartas e a jovem rainha teve vontade de agarrar todos e apertar bem forte.
— Vocês são tão fofos! — ela exclamou com os olhos brilhando.
— Você é alta, mas não como a Kassyeh. — disse um deles.
— Você é menina ou menino? — perguntou outra.
— É menina! Lembra do que o Ted falou? — reclamou um deles.
— Suas orelhas também sacodem quando você corre? — quis saber outro.
— Certo, eu responderei suas perguntas, mas preciso saber seus nomes. — avisou Karen sem conter a risada.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, e depois começaram a reclamar uns dos outros ao mesmo tempo e, quando Karen percebeu, estava uma grande confusão na sala.
— Calma, crianças. — pediu Kassyeh. — Eu apresento todos. — as crianças se calaram e Kassyeh começou a dizer seus nomes – Essa é Yasu, foi ela e a irmã dela, Rukiah, quem nos acharam em Pandaria. Esses são Shin, Jade, Hung, Sui, Lyang e Maki.
— Oi! — gritaram todos ao mesmo tempo novamente.
— Ai, posso dar um abraço em vocês? — perguntou Karen, sem se conter.
Em vez de responder, os filhotes se atiraram sobre Karen, pegando-a de surpresa e a derrubando no chão, abraçando-a com uma euforia que quase a sufocou. Hotch e Littleflame pularam em cima do montinho de pandarens e Karen, lambendo todos e mordiscando também. Tewdric e Kassyeh apenas caíram na risada, enquanto a jovem rainha lidava com tanta fofura.
— Ora, ora, cheguei em um bom momento…
Com sua voz calma e meio arrastada, o vovô Liu Pata Serena adentrou no recinto, acompanhado de Ash e Lor’themar. Quando viu a irmã sentada no chão, recebendo um monte de abraços dos filhotes pandarens e lambidas das mascotes de Kassyeh, Ash sorriu e ficou aliviada; há dias que Karen andava cabisbaixa, mal humorada e estressada. Não apenas a chegada de Tewdric e de Kassyeh aliviariam sua tensão, mas também aqueles visitantes inusitados e fofíneos.
— Vovô! — exclamou Yasu no meio dos filhotes – Essa é a irmã mais nova da Kass, a Karenzita!
— Olha só, eu nunca conheci uma rainha tão simpática! — exclamou o velho pandaren.
— E quantas rainhas o senhor já conheceu, vovô? — perguntou Yasu desconfiada.
— Nenhuma. — respondeu bem-humorado – Mas tenho certeza que a rainha irmã da Kassyeh seria a mais simpática ainda assim!
Os filhotes ajudaram Karen a se levantar e a jovem bateu a poeira da roupa. Hotch e Littleflame ainda davam pulinhos ao redor deles, mas não morderam mais ninguém. Depois de estar de pé, Karen olhou para o velho pandaren e sorriu.
— Minha irmã falou muito do senhor na carta. — disse ela, com sinceridade – Queria muito conhecê-lo, mas estou surpresa. Minha irmã não avisou que vocês vinham.
— Foi meio que inesperado. — disse o idoso – As crianças pediram pra vir, a Kassyeh concordou e puff, estávamos aqui. — ele deu uma risada gostosa enquanto segurava a imensa barriga – Confesso que é uma boa mudança na rotina, conhecer um lugar tão bonito!
— Vocês ainda não viram nada! — exclamou Karen, empolgada – Faço questão de mostrar toda a cidade a vocês!
— Majestade… — começou Lor’themar.
— Nem vem, Temma! — cortou Karen levantando a mão – Eu quero um tempo com meus convidados! E com Kass e Ted! Cancele tudo que eu tiver pra fazer hoje. E pra amanhã também.
Karen esperou que o lorde regente fosse protestar, mas ele apenas suspirou e assentiu.
— Como quiser, majestade. Vou fazer como pediu. — garantiu Lor’themar.
Apesar de saber que faria o trabalho de Karen durante aqueles dias, Lor’themar estava aliviado que a jovem parece bem melhor do estivera desde que soubera do desaparecimento de Kassyeh e Tewdric.
— Onde está Luxuriah e Halduron? — perguntou Karen, percebendo que nem todos estavam ali.
— A Lux foi direto para a casa de Rommath, buscá-lo junto com Tinuviel. Ela ficou bem chateada porque não os achou de cara. — falou Kassyeh.
— Ele vai pra lá quando Tinuviel está mal-humorada com a ausência da mãe. — explicou Ash se aproximando – E hoje ela estava muito chateada.
— E Halhal? — insistiu Karen.
— Ele ficou em Pandaria. — revelou Tewdric – Nós precisávamos deixar alguém lá, foi uma exigência de Nazgrim, quando nos encontramos. — o orc estava visivelmente irritado – Ele ficou responsável por um destacamento da Horda para explorar outras partes de Pandaria.
— Ele deve tá bem chateado com isso… — comentou Karen.
— Sem dúvida, está. — revelou Lor’themar – Recebi um relatório dele e deu para sentir nas palavras dele o desagrado com a missão. Mas ele a cumprirá, é um bom general.
— E Vivithi ficará feliz em ficar mais tempo no cargo dele. — gracejou Ash.
Karen percebeu que sua outra irmã não fizera nenhuma menção de falar com os pandarens, mesmo estando na sala há um tempo.
— Ash, você já cumprimentou os convidados? — perguntou Karen franzindo o cenho.
— Está atrasada, Karen. Eu estava por perto quando eles chegaram. Vi em primeira mão. — falou provocando.
— Mas agora eles vão ficar comigo! — disse a rainha animada – Já sei o primeiro lugar que iremos. — falou para os filhotes de pandaren, que a olharam com atenção – Vamos visitar minha mestra, Lady Liadrin. Ela tem uma filha mais jovem que eu que vai amar ver vocês também.
Os filhotes gritaram animados, dando pulinhos. As mascotes as imitaram.
— Vocês vêm conosco? — perguntou Karen para Kassyeh e Tewdric.
— Eu vou! — animou-se Tewdric.
— Eu vou ficar, Karen. — falou Kassyeh com tom de desculpas – Estou bem cansada e gostaria de descansar um pouco. Além do mais, estou pensando em ir visitar o titio Aethas nos próximos dias.
— Tá certo! — assentiu Karen – Pois eu vou com o Ted e os filhotes visitar a Salandria e mostrar Luaprata. Não nos esperem tão cedo! — e olhando para os filhotes, perguntou, entusiasmada – Vamos?!
— Vamos! — disseram os filhotes e Tewdric, levantando a mão, animados.
— Eu vou ficar por aqui também, não tenho a mesma energia que vocês. — disse o vovô Pata Serena – Essa jovenzinha aqui – disse apontando para Ash – prometeu me mostrar um lugar para eu descansar as pestanas um pouco…
E sentindo novamente a alegria que estava tão sumida nos últimos tempos, Karen liderou a comitiva com os filhotes de pandarens e Tewdric, na direção da casa de Lady Liadrin. Discretamente, Lor’themar deu ordens para uma pequena guarda acompanhá-los durante o passeio, mas que fossem discretos, para a rainha não perceber. Todavia, na animação em que estava, Karen provavelmente não perceberia nem mesmo que todo o exército da Horda a acompanhasse.
***************
Luxuriah parou na entrada do quintal da casa de Rommath e ficou observando enquanto sua filha se recusava a comer o que quer que seu pai estava lhe oferecendo. Deixou-se ficar um momento apenas admirando-os, sentindo toda a saudade esvair-se aos poucos, dando lugar para o amor acomodar-se.
A estranha, exótica e perigosa Pandaria não a assustara; estar a ponto de entrar em conflito com a Aliança a cada passo não a amedrontou; porém, a distância de sua filha e o medo de não vê-la novamente a acompanhava a cada passo que dava para longe de casa, a cada hora em que estava longe. Só que agora esse tempo acabara e estava em casa.
Tinuviel estava maior, aquilo era visível. Ela já punha os dois pés no chão enquanto estava sentada em sua cadeirinha e quando Luxuriah saíra, ela não conseguia colocar o calcanhar, apenas a parte da frente do pé. E, pelo visto, já abandonara o vestido que insistia por todos os dias, mesmo estando sujo, e agora vestia outro. Seria o da vez, ou ela já aceitava usar mais de um?
Quando se deu por satisfeita, ela abriu as duas portas que davam o acesso ao quintal e entrou, sem disfarçar seus passos. Tinuviel virou rapidamente a cabeça e abriu um imenso sorriso quando a viu.
— Mamãe! — gritou antes de empurrar a cadeirinha, se levantar e correr na direção da mãe, com os braços abertos.
Rommath estava visivelmente surpreso; nem ela nem Kassyeh avisaram que voltariam, pois temiam que a mensagem fosse interceptada e Garrosh mandasse que elas permanecessem em Pandaria. Por isso, assim que deram seus relatórios a Nazgrim, partiram para Luaprata imediatamente. Então, a expressão surpresa na face do elfo era compreensível.
Luxuriah abaixou-se e recebeu o abraço apertado de sua filha. No momento em que a envolveu com os braços, sentiu algo pegajoso em seu cabelo; a menina estava com alguma comida na mão e a comida estava agora no cabelo da mãe. Luxuriah deu uma risada. Sentia falta daquelas pequenas agruras da vida materna.
— Saudade da mamãe. — falou a menina sem largá-la.
— Mamãe estava com saudade da Titi também. — disse, sentindo as lágrimas nublar seus olhos.
— Nunca mais vai embola! — ordenou a menina com a voz mandona.
— Vou pensar em seu caso, Titi. — ela se afastou do abraço para olhar bem a sua filha – Olha só, você cresceu! — falou colocando a mão na cabeça da filha.
— Sim! — exclamou a menina animada.
— E você tem dado trabalho ao seu pai? — perguntou Luxuriah ao ver Rommath se aproximando, com um sorriso no rosto e a roupa manchada de comida.
— Não! — exclamou a menina.
— Tinuviel Samanthah Fendessol. — recitou Luxuriah olhando para a filha com seriedade – O que a mamãe te ensinou sobre mentir?
Tinuviel olhou para trás, para o pai que chegava, franziu o cenho, olhou para a mãe e juntou o polegar com o indicador e disse, rindo:
— Poquinhu.
Luxuriah e Rommath deram gargalhadas.
— Ah, então você deu um ‘poquinhu’ de trabalho? — perguntou Luxuriah fazendo o mesmo gesto com os dedos que a menina.
— Poquinhu. — confirmou Tinuviel.
Luxuriah olhou para Rommath, que chegara ao seu lado.
— E aí, papai? Foi só um ‘poquinhu’ mesmo? — perguntou zombeteira.
Tinuviel olhou para o pai, esperançosa.
— Sim, só um ‘poquinhu’. — confirmou, para o deleite da menina.
Sabendo que, mesmo que a filha tivesse se comportado como um pequeno demônio no período em que estava longe, Rommath jamais admitiria, preferiu tomar aquela fala como confirmação. Pegou a filha, que estava bem mais suja de comida do que aparentava, no braço e avisou:
— Já que você é um a menina tão boazinha, vai fazer o que a mamãe disser, não é? — perguntou e Tinuviel assentiu – Pois vamos tomar um banho, mudar a roupinha, comer uma comidinha bem gostosinha e você vai tirar um cochilo, certo?
Tinuviel prontamente fez sim com a cabeça.
— E quando você acordar, vamos voltar pra Torre, pra você ver tia Kass e tio Ted, certo? — continuou.
— Ted! — comemorou a menina levantando as mãos.
— Ah, como a Kassyeh ficaria decepcionada em saber que foi preteria… — comentou Luxuriah sacudindo a cabeça. E olhando para Rommath, perguntou – Ainda tem da comidinha dela?
— Não, ela jogou tudo no chão. — disse ele – Vou fazer mais enquanto você dá banho nela.
Tinuviel estava tão feliz de ter a mãe de volta que não fez birra para tomar banho, muito pelo contrário, se comportou divinamente enquanto a mãe a enchia de elogios. Depois, comeu toda a comida, e não reclamou quando a mãe lhe pôs um vestidinho confortável e a colocou para tirar um cochilo. A menina até que adormeceu bem rápido e Luxuriah se sentiu um pouco culpada pelo tempo passado longe. Era evidente que Tinuviel sofrera com sua ausência.
Como faria quando tivesse que partir novamente?
Sem querer pensar naquilo, Luxuriah levantou-se devagar, para não acordar a filha e saiu do quarto, fechando a porta devagar.
— Ela dormiu? — perguntou Rommath chegando silenciosamente.
— Sim. — respondeu Luxuriah – Eu acho-
Antes que terminasse a frase, Rommath a beijou vorazmente. Pega de surpresa, Luxuriah emitiu um gemido de espanto, mas retribuiu na mesma intensidade. Rommath segurou seu traseiro com força e a levantou, pressionando-a contra a parede. Luxuriah passou as pernas em sua cintura e o agarrou com vontade. Seu desejo, reprimido durante o tempo em que estivera fora, explodiu junto com o dele. Os dois se beijaram por um tempo que pareceu uma eternidade até suspenderam momentaneamente o beijo, ofegantes.
— Para o quarto. Agora. — ordenou Luxuriah.
Ambos sabiam que tinham que ser rápidos, antes que Tinuviel acordasse.
Ele a carregou pelo corredor, e adentraram no quarto, fechando a porta atrás de si. Rommath a jogou na cama e jogou-se ao mesmo tempo, retomando o beijo e completando-o com as carícias. Luxuriah queria Rommath e queria o mais rápido possível. Arrancou a roupa dele com tanta pressa que alguns botões saltaram para o chão; Rommath retribuiu fazendo o mesmo com a roupa dela. Assim que a viu livre das vestimentas, sua boca foi em direção aos seus seios, sugando-os com vontade. Luxuriah gemeu, os dedos passando pelos cabelos dele. Depois, Rommath percorreu o corpo dela com as suas mãos, chegando até seu sexo e colocou seus dedos nele, acariciando-a. Luxuriah ofegou e o empurrou para a cama, subindo em cima dele no mesmo instante. Rommath sorriu enquanto ela o acariciava e começava a cavalgá-lo com vontade. Ele segurou seus seios e os apertou, mexendo-se junto com ela, famintos um pelo outro e alcançando o clímax rapidamente. Pouco tempo depois jaziam lado a lado na cama, cansados e suados.
— Quando foi a última vez que fizemos amor sem ser apressadamente, como se nossa vida dependesse disso? — perguntou ele rindo.
— Antes dela nascer. — lembrou Luxuriah – Vamos precisar reaprender a ir mais devagar.
— Verdade. — ele acariciou os cabelos dela – Senti sua falta.
— Eu também. — disse ela – Você não faz ideia do quanto.
— Acho que faço sim. — Rommath deu uma pausa, temendo perguntar, mas fez a pergunta mesmo assim – Você vai voltar para lá?
Luxuriah não queria estragar aquele momento, mas também não queria esconder nada de Rommath, por isso respondeu:
— É provável… Mas não quero. Só que, você sabe, não depende de mim. — o olhar dela ficou sombrio – Halduron ficou para trás, mas acho que isso não será o suficiente para Grito Infernal…. Quando ela souber que as princesas voltaram para Luaprata….
— Pode convocar vocês novamente. — completou Rommath.
— Isso…
Ficaram em silêncio por um momento, com Rommath ainda mexendo no cabelo dela.
— Tem mingau no seu cabelo. — riu ele tocando em algo viscoso na cabeça dela.
— No seu também. — devolveu ela rindo.
— Acho que precisamos de um banho… — o tom de Rommath era bem sugestivo.
— Será que conseguimos antes que ela acorde? — perguntou Luxuriah empolgada.
— Por que não tentamos? — convidou ele já se levantando e estendendo a mão para ela.
O convite foi aceito prontamente e em pouco tempo já estavam no banheiro, fazendo amor sob a água morna do chuveiro. Depois de limpos e com a saudade mais apaziguada, Luxuriah sentou-se na bancada da cozinha, comendo uma porção generosa de morangos, enquanto Rommath fazia seu almoço. Luxuriah aproveitou para informá-lo sobre tudo que acontecera em Pandaria com mais detalhes; ela deixara muita coisa de fora de seus relatos, com medo que as cartas fossem interceptadas.
Apesar de confiar muito em seu marido, Luxuriah achou melhor nada falar sobre o encontro com os membros da Aliança em Sri La. Seria muito penoso ter que com vencê-lo que não atacar aquela humana fora o certo a se fazer, porque nem mesmo ela acreditava totalmente naquilo.
— Se essa terra tem tanta magia e força como você diz, mandar algumas poucas tropas não vai ser suficiente para Grito Infernal. — falou Rommath colocando dois pratos de comida, um para ele e outro para Luxuriah – Não vai tardar para que ele queira uma grande expedição, com os principais representantes de todas as raças da Horda.
Luxuriah assentiu.
— Isso também me ocorreu. — comentou, preocupada – Por isso quero me dispor a ir. Se nós quatro ficarmos aqui, seria muito fácil para o Chefe Guerreiro escolher qualquer uma, mesmo Karen, para uma expedição dessas. Porém, se eu já estiver lá, não há muito o que ele possa cobrar de nós.
— Por que você? Por que não Kassyeh? Claro, não quero que ela se arrisque. — apressou-se em dizer – Mas você tem uma filha pequena e Ash não tem a experiência necessária…. E Kassyeh tem o Tewdric. Seria a escolha mais óbvia.
— Eu me sentiria péssima se empurrasse isso para a Kass… — confessou – Uma covarde.
— Talvez você devesse conversar com ela antes de decidir qualquer coisa. — aconselhou.
— Como se eu não soubesse o que ela fosse dizer… — Luxuriah pegou o garfo e mexeu na comida – É claro que ela preferiria ir….E Karen faria um escândalo imenso….
— Decidam em grupo, então. Vocês quatro.
— Pela Nascente do Sol, vou precisar de toda minha paciência! — reclamou ela.
— Te garanto uma bela massagem quando acabar. — prometeu com um sorriso.
— Vou cobrar, com certeza. — garantiu Luxuriah.
Sorriram um para o outro antes de ouvirem um choro enjoado no andar de cima. Tinuviel acordara.
— E eu nem terminei de comer… — lamentou a mãe, deixando o garfo de lado.
— Continue comendo, eu vou pegá-la. — ele se levantou – Depois, levamos ela para Tewdric, que provavelmente ficará com ela tarde toda. — ele lhe deu um beijo rápido no topo da cabeça e foi buscar a filha.
Enquanto comia, Luxuriah pensou que, com os filhotes pandarens por ali, talvez a filha ficasse tão cansada com as brincadeiras com os novos amiguinhos, que dormisse cedo e ela pudesse tomar um banho de banheira com o marido, regado com muito champanhe e sexo. Sorriu ao pensar naquilo enquanto provava uma comida maravilhosa, o sabor de retorno para casa.
*********************
Vivithi estava tão exausta que não falou com ninguém quando voltou à torre. Foi direto para seu quarto, tirou a armadura e deixou-a espalhada pelo chão junto com as roupas e foi para o banheiro, onde deixou a banheira enchendo enquanto se olhava no espelho.
Jamais admitiria para ninguém, mas não estava sendo fácil dar conta de todo o serviço de Halduron. Não porque não quisesse trabalhar, longe disso; mas aquele elfo maluco nunca delegava nada. Nada. Fazia tudo sozinho, como se não confiasse em ninguém. Claro, Vivithi estava fazendo exatamente igual, pois não queria parecer que não dava conta das coisas, mas era bem difícil. Fazer todo aquele trabalho não deixava tempo para nada, o que não era de se admirar; Halduron nitidamente não tinha vida social. Talvez nem dormisse, essa era a conclusão que Vivithi chegara. Esperava que ele fosse tão proativo assim lá em Pandaria também.
A única coisa boa em estar tão atarefada era que assim mal tinha tempo de pensar em Aethas sozinho, em Dalaran. Não queria admitir, mas estava muito preocupada com ele. A última vez em que se viram, quando Kassyeh sumira, ele estava magro, abatido, com olheiras tão grandes que parecia que ele levara um soco em cada olho. Pensou um pouco, voltou ao quarto, pegou a pedra mágica com o qual trocavam mensagens, voltou ao banheiro e afundou-se na água quente com espuma.
Enquanto relaxava, olhou para a pedra. Batava dizer o nome dele para estabelecer a comunicação. Mas o que diria? Ela não podia ir para lá naquele momento, nem ele poderia vir até ela. Claro, poderiam apenas conversar…. Só que nunca fizeram isso e nem Vivithi sabia se adiantaria. Ainda pensava no que poderia fazer quando a pedra, repentinamente, brilhou e emitiu o som que ela não estava esperando:
— Vivithi?
O susto foi tão grande que ela soltou a pedra, que afundou na banheira. A luminosidade da pedra não se apagou e logo a elfa recuperou-a no meio da espuma e falou, hesitante:
— Aethas?
Ela quase podia vê-lo sorrindo através da pedra.
— Estou atrapalhando? — falou ele do outro lado.
— Não. Já dei meu trabalho por encerrado hoje e ai de quem me trouxer problemas agora. — disse, soando mal-humorada.
O som do riso dele aqueceu o coração dela.
— Tive medo de estar lhe incomodando. Não estou, estou? — quis saber, preocupado.
— Não. — ela apressou-se em dizer e detestou-se, por soar tão ansiosa – Quer dizer, eu estou na banheira, com a água fervendo e cheia de espuma. Quem sabe depois de cozinhar um pouco, meus músculos não relaxem.
— Espero que sim. Sei que não deve estar sendo fácil ficar no lugar de Halduron. Não que você não tenha capacidade, sei que você tem e muita. — ele queria deixar claro que não duvidava da capacidade dela – Só que Halduron sempre foi muito monopolizador de tudo. Imagino que ele não delegava nada e acumulou muita coisa.
— Exatamente. — Vivithi ficou aliviada de poder reclamar para alguém – Ele não tinha vida, é a única explicação! Nem devia dormir! Não sei como EU estou conseguindo dormir, com todas as coisas que tenho que resolver!
— Quando o cargo for definitivamente seu, sei que você terá pessoas de confiança com o qual partilhar o poder. — comentou Aethas esperançoso – Sei que Halduron sempre teve boas intenções, mas ele se esquece que, se todas as decisões depender de uma só pessoa, basta essa pessoa sumir para a defesa de uma cidade toda ruir.
Vivithi sentiu um aperto no coração, pois sabia que não fora a Luaprata que ele estava se referindo.
— Espero que você não seja como Halduron, Aethas. — disse ela seriamente.
— Não sou. — afirmou o mago – Mas tenho receio que não seja minha ausência que cause a ruína dos Fendenssol em Dalaran.
Houve um momento de silêncio, pois tanto Vivithi quanto Aethas pensaram na mesma coisa: será que teria alguém rastreando aquela conversa arcana? A situação em Dalaran deteriorava-se mais e mais, a cada nova decisão do Chefe Guerreiro. Quanto tempo mais Os Fendessol ainda teriam na cidade voadora?
— Eu queria que você estivesse aqui. — Vivithi deixou escapar, enquanto segurava a pedra em suas mãos.
Silêncio do outro lado.
— Aethas? — chamou ela, preocupada.
— Posso ir, se você quiser. — disse ele finalmente.
Agora fora ela quem se calara, surpresa com o oferecimento dele.
— Vivithi? — chamou ele.
— Tem certeza? — quis saber a elfa – Você pode vir agora? — havia ânsia em sua voz.
— Poder… Eu não posso muito coisa há algum tempo, Vivithi. — disse ele, amargo – Porém, percebi que, não importa o que eu faça ou o que eu não faça, o Kirin Tor interpretará de uma forma desfavorável a Horda. — ele deu uma pausa – Eu quero te ver. Eu preciso te ver. — havia uma ponta de desespero em sua voz.
O lado prático de Vivithi dizia que ela devia impedi-lo, levá-lo de volta à razão para não dar mais material para o Kirin Tor usar contra eles. Porém, havia um lado dela, que ela pouco ouvia, mas que agora gritava com todas as forças que deveria deixá-lo vir, que deveria abraçá-lo, que ele precisava dela e que, dane-se tudo, ela também precisava dele.
— Eu quero muito você aqui. — confessou, por fim – Mas não seria prudente.
— Não, não seria. — falou ele com sinceridade – Talvez fosse melhor eu ir quando Kassyeh voltar de Pandaria…
— Ah! — exclamou ela percebendo que ele ainda não fora avisado das novidades – Pelo visto você não sabe… A Kassyeh e o Tewdric voltaram hoje de Pandaria, junto com a Lux.
— Sério? — havia um ânimo a mais na voz dele.
— Sim. Os dois estão muito bem e acredito que eles devam te visitar em breve. — ela sorriu, pois sabia que a notícia o animaria – Sei que é importante para você saber que está tudo bem, então você deve ficar tranquilo, pois…
A frase não foi terminada, pois um clarão arroxeado de magia arcana ofuscou a visão da elfa por um instante. Vivithi gritou, pega de surpresa, e a pedra caiu mais uma vez na água. Aethas apareceu bem no meio do banheiro dela, trajando as vestimentas simples que ele costumava usar em casa, uma garrafa de champanhe numa mão e duas taças na outra. Ele sorriu para Vivithi quando se encararam.
— Seu filho de uma puta! — exclamou ela, irritada – Você quase me matou do coração!
— Também estava com saudades. — ele disse, sorrindo.
Os dois se encararam e Vivithi se odiou pelas batidas descompassadas do seu coração.
— O que está esperando? — perguntou ela se encostando na banheira – Tire a roupa e me sirva uma taça!
Aethas deu uma gargalhada.
— Devo te servir nu, então? — perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Mas é claro. — respondeu dando de ombros – Vai dizer que você não fica feliz com isso?
— Jamais me sentiria diferente, milady. — falou fazendo uma reverência cheia de ironia.
Enquanto ela observava, ele colocou a garrafa em cima da pia e retirou as roupas, dobrando-as cuidadosamente e colocando ao lado da garrafa. Depois, ele usou magia para esfriar a bebida, abriu a garrafa com habilidade e despejou-a em uma das taças, entregando-a a Vivithi.
— Para a milady. — disse piscando o olho.
— Ótimo, agora entre aqui. — ordenou ela.
Aethas serviu-se de champanhe antes de entrar na banheira de espuma. A água já havia esfriado um pouco, mas ainda estava morna o suficiente para os músculos deles relaxarem quase que automaticamente. Ele sentou-se de frente para ela, cujos cabelos estavam molhados e cheios de espuma e percebeu que ela estava mais cansada do que dera a entender quando iniciaram a conversa. Dava para ver o abatimento em suas feições delicadas.
Da mesma forma, Vivithi percebeu que ele estava pior do que quando o vira, um mês atrás. Ele estava visivelmente mais magro, o rosto covado e com os olhos fundos. Pelo menos as olheiras estavam um pouco menos evidentes, mas o conjunto da obra não estava em seus melhores dias.
— Você está péssimo. — ela disse antes de tomar um gole do champanhe.
— Você disse isso da outra vez. — brincou ele bebendo também.
— Certo, vou mudar a frase: você piorou. — sentenciou ela.
— Você também está abatida. — apontou ele – Mas, claro, você é muito mais bonita que eu, então seu cansaço se perde em sua beleza.
— Está tentando me ganhar na lábia, Aethas Fendessol? — perguntou ela, sorrindo maliciosamente.
— Está dando certo? — retrucou ele carinhosamente.
Em vez de responder, ela se inclinou e beijou-o levemente, antes de se afastar.
— Talvez. — respondeu com um sorriso malicioso, antes de tomar mais um gole de champanhe.
Sorriram um para o outro e Vivithi sentiu que não demoraria muito para que Aethas chegasse ao seu limite. Pensou em perguntar mais alguma coisa, ter ciência da real situação de Dalaran, a situação que exigia tanto dele que estava o consumindo, mas desistiu. Não, deixaria o Kirin Tor fora daquela banheira. Deixaria Luaprata lá fora, esperando. Por aqueles momentos, ele seria só dela e vice-versa.
— Me pergunto se você está cansado que não poderia me dar um beijo. — provocou ela.
— Acho que estou tão cansado que vou pedir para você vir me dar um beijo. — devolveu o mago.
Vivithi fingiu estar escandalizada.
— Você está dizendo que está pior que eu? — perguntou num tom exagerado de indignação.
— Você mesma disse que eu estava pior, não é? — ele fez uma expressão entristecida – Mas agora você está dizendo que eu estou fingindo… – murmurou, dramático.
— Ok, chega. — cortou ela – Me dê logo esse beijo.
Dando uma risada, ele se inclinou na banheira e a beijou. Vivithi colocou uma das mãos dentro dos cabelos dele e o puxou para cima dela. Aethas acabou escorregando na banheira e mergulhando, com taça e tudo, dentro da espuma. Foi a vez de Vivithi rir e ainda estava rindo quando ele emergiu, com a taça agora cheia de espuma.
— Está zombando de mim, hein? — perguntou ele cuspindo espuma e fazendo-a rir mais – Pois venha! — ele a puxou para dentro da água e Vivithi também escorregou, mergulhando junto com ele.
Quando emergiram, ambos cuspindo espuma, Vivithi começou a dar tapas nos ombros dele, que ria da visão dela cheia de espuma e irritada pelo mergulho.
— Posso dizer que você está espumando de raiva? — gracejou ele.
— Você está sofrendo a má influência de Tewdric. — disse, tentando não rir – Quem diria, o arquimago Aethas fazendo piadas!
— Só para você, eu garanto. — afirmou ele abraçando-a – Apenas para você.
— E é para ser só para mim mesmo. — disse, aceitando o abraço e encarando-o – Se eu sonhar que você olhou para alguém, eu arranco seus olhos!
Em vez de responder, Aethas a beijou, apaixonadamente. Vivithi correspondeu e o empurrou delicadamente para sentar-se na banheira, sentando-se em cima dele, ainda beijando-o, seus corpos ensaboados deslizando um no outro. A sensação era maravilhosa, o gosto estranho da mistura da espuma com o champanhe, temperado com a saudade e o desejo que sentiam. Pouco importava o cansaço, o medo e quaisquer outros sentimentos que não fosse a satisfação de estarem nos braços um do outro.
— Eu não sei como consigo viver sem você… — murmurou ele enquanto beijava o pescoço dela.
— Você não vive… — murmurou ela passando as mãos pelas costas dele – Isso não é viver…
Aethas a puxou para mais perto, deslizando seu membro enrijecido para dentro dela. Vivithi gemeu, enfiando as unhas nas costas dele e começando a se mexer, fazendo a água da banheira vazar e inundar o chão do banheiro, enquanto eles saciavam a fome insana que os consumia. Vivithi segurou as bordas da banheira, e a usou de apoio para que pudesse se mexer mais e mais rápido, sem escorregar, enquanto Aethas se segurava também com uma mão e com a outra a pressionava contra si, sentindo os seios dela massagearem seu peito e suas pernas pressionaremo quadril dele. Em pouco tempo, ela gemia alto, apertando mais as bordas, chegando ao ápice e Aethas se deliciou em ver o prazer estampado no rosto dela. Segurou-se o máximo que pode, para prolongar o êxtase dela, mas logo estava se despejando dentro dela, intenso, potente e abundante. Foram diminuindo o ritmo até parar completamente, mas a água ainda se mexia, embalando-os gentilmente.
— Ainda bem que não quebramos as taças. — falou ele de repente.
— O que? — perguntou ela, ainda bêbada de prazer, sem entender do que ele falava.
Em vez de responder, ele enfiou a mão dentro da banheira e tirou uma taça, cheia de espuma, e a colocou no chão, antes de pegar a outra e colocar ao lado da primeira.
— Elas estavam aqui dentro conosco. — falou ele rindo da expressão dela.
— Safadinhas. — murmurou ela, fazendo-o rir ainda mais – Quiseram participar…
— Não é? — ele perguntou afastando o cabelo dela, que estava grudado em seu rosto. Ele queria admirá-la.
Vivithi respirou fundo e aconchegou-se mais nele, sentindo pela primeira vez como a magreza dele estava acentuada, ao abraçá-lo e sentir tão claramente os ossos de suas costelas.
— Você vai dormir aqui hoje. — determinou ela, sem dar oportunidade dele negar-se a atendê-la – Vai jantar conosco e tentar dar um jeito nessa magreza. Não gosto de macho sem ter onde pegar.
— Sim senhora. — concordou prontamente – Tudo que milady quiser. — gracejou.
Vivithi sabia que apenas uma noite não mudaria a situação dele. Sabia que, talvez, apenas piorasse tudo. Mas não queria, nem pensaria sobre aquilo naquele momento. Faria de tudo para que, naquela noite, o Kirin Tor não tivesse poder sobre a mente de Aethas Fendessol.
************************
Os pequenos barcos deslizavam pelas águas que atravessavam a Passagem Antiga, silenciosos, em uma procissão melancólica embalada apenas pelo assobio do vento da madrugada. Cada uma das embarcações trazia, estiradas em sua superfície, pessoas feridas, cheias de ataduras, cuja maioria estava adormecida, dando a sinistra sensação que ali estavam corpos recém-falecidos e não pessoas feridas. Aquela sensação talvez fosse fruto da caverna escura que atravessavam ou porque tinham acabado de sair de uma luta que beirara a insanidade e ainda era difícil entender que ainda estava vivo. Era provável que fosse as duas opções.
Halduron contemplava aquela visão nefasta, sentindo-se cansado. Todavia, o cansaço que sentia não era físico, por mais que a exaustão de seu corpo apenas piorasse seu estado de espírito. Halduron estava cansado da guerra. Estava cansado de ver o sangue escorrendo dos inimigos, de ouvir os gritos dos aliados, de ter que queimar corpos e curar ferimentos. Estava cansado daquela vida insana que nada lhe trazia, além de dor e sensação de vazio.
Encolhido na proa do barco, o general patrulheiro observava seus companheiros naquela viagem. Nazgrim estava adormecido, depois de ameaçar o grômulo que o ajudara por passar o incenso muito perto de seu rosto. Os demais membros da comitiva do general também dormiam, fazendo com que o único acordado fosse Halduron, o grômulo e Bufe, o pandaren que conduzia aquele pequeno barco. As demais embarcações tinham outros pandarens no comando e traziam outros membros da Horda, mas também membros da Aliança. Os pandarens não faziam distinção de quem ajudar.
— Aceita chá? — perguntou o grômulo com sua voz aguda ecoando no silêncio da Passagem Antiga.
Halduron assentiu e esticou a mão para pegar a xícara de bambu que o pequeno lhe estendia. A fumaça da bebida se confundia com a névoa da madrugada e o elfo só percebeu o frio que sentia quando levou o chá quente aos lábios e sentiu ele espalhando o calor por seu corpo.
— Obrigado. — falou com a voz rouca.
O grômulo lhe observou por um momento.
— Não se preocupe. — disse o pequeno – Seus amigos vão ficar bem.
Comparado aos demais, Halduron sofrera poucos danos, graças a sua experiência em combates e também à sua cautela característica. Porém, o seu benfeitor estava equivocado; a expressão em seu rosto não era preocupação com seus companheiros de batalha. Era desgosto por estar preso naquele círculo infinito de violência.
Depois da queda de Luaprata, Halduron tivera certeza que jamais uma batalha o abalaria. Ver seu lar queimando e sua família massacrada o empurrara para a beira do abismo mental e apenas com muito esforço conseguira dar passos para trás e vencer a vontade de jogar-se na escuridão. Porém, a batalha que acabara de acontecer, no Coração da Serpente, despertara lembranças que ele queria que tivessem ficado adormecidas.
A batalha começara como qualquer uma. De um lado, a Horda, liderada pelo general Nazgrim. De outro, as forças da Aliança, sob a liderança do Almirante Taylor. Halduron fora poupado de ter um papel de destaque na luta porque Nazgrim preferia confiar naqueles que já estivera em campo com ele; Halduron não se importou com isso. Na verdade, ficou feliz com sua posição mais afastada, pois poderia ver melhor o campo, analisar o desenvolvimento do conflito e contingenciar quaisquer imprevistos que, por acaso, acontecesse.
Ele não esperava que o imprevisto fosse a destruição da gigantesca estátua da Serpente de Jade.
Foi uma loucura. Enquanto os destroços caiam, atingindo ambos os lados, levantando poeira e fazendo ecoar os gritos de desespero dos atingidos, Halduron se viu engolfado pelas lembranças da queda de Luaprata. O fogo, o desespero, o barulho dos desabamentos… Era quase como estar lá, de novo, depois de tantos anos. No primeiro momento, Halduron ficou paralisado, sem ação, dividido entre as imagens que se desenrolavam diante de seus olhos e aquelas que aconteciam apenas dentro de sua mente. Apenas quando o Sha gigante se levantou no meio do campo de batalha e proferiu seus discurso espúrio, foi que o elfo caiu em si e começou a agir. Ajudou os campeões da Horda a salvar os feridos e carregá-0os até longe da batalha. Depois, foram ajudados pelos pandarens e começaram o caminho até o Monte Kun-Lai, onde poderiam se recuperar dos ferimentos e da vergonha.
A queda da estátua da Serpente de Jade, estátua essa que levara décadas para ser erguida e já estava em sua fase final de construção, apenas tornara óbvio o que todos sabiam desde o começo: a guerra entre Horda e Aliança estava devastando Pandaria e engolindo seus habitantes em um mar de ódio e violência. Para completar, aquela terra estava reagindo a isso vomitando monstros do passado, os sha, piorando exponencialmente tudo.
Halduron não queria deixar o grômulo sem resposta, então apenas acenou com a cabeça. O pequeno ficou satisfeito e serviu chá para si mesmo. Halduron terminou sua bebida e ficou segurando o copo de bambu enquanto via a saída da Passagem Antiga se aproximar. A névoa da madrugada começava a se desfazer e o elfo percebeu que os primeiros raios de sol apareciam no céu. Não demorou muito e chegaram na vila Binan, seu destino.
Como estava razoavelmente bem, Halduron ajudou os pandarens a mover os feridos para a cabana que serviria como enfermaria. Algo que ele gostava nos pandarens era que aquele povo não desperdiçava energia em conversas inúteis. Por isso, todo o trabalho foi feito em um respeitoso silêncio e a comunicação se resumia a acenos de cabeça e breves sinais. Quando terminaram, o sol já estava alto e o corpo de Halduron estava cansado e dolorido. Contudo, não aceitou o oferecimento de uma cama para descansar. Pediu pena, tinta e pergaminho, sentou-se e uma mesa e preparou-se para escrever seu relatório para a rainha. Hesitou por um momento. Como dizer tudo que acontecera sem soar ressentido e indignado? Sem parecer que queria desistir de tudo e simplesmente desaparecer como a névoa daquela manhã desaparecera com os raios de sol?
“Não…”, ele pensou. “Agora não posso pensar nisso.”
Respirou fundo e começou a escrever.
“Saudações à rainha Karensky Fendessol de Quel’thalas e ao Conselho de Luaprata,
Depois de uma árdua batalha na Floresta de Jade contra as forças da Aliança, chegamos em segurança ao Monte Kun-Lai, ainda que haja muitos feridos entre nós. Infelizmente, durante o conflito, a fabulosa estátua da Serpente de Jade foi destruída, suscitando o despertar de um poderoso sha, que foi derrotado graças aos esforços de nossos campeões. Por hora, nossas forças se recuperam para, em breve, continuarmos nosso caminho adentrando as terras pandarênicas, como deseja o Chefe Guerreiro Garrosh Grito Infernal. Nossas forças continuam fortes e permaneço firme nos desígnios do nosso povo, para continuar a frente dos sin’dorei.
Espero que a missiva encontre todos desfrutando das bençãos da Nascente do Sol.
General-patrulheiro Halduron Asaluz”
Foi mais difícil do que ele imaginava, mas estava pronta. Selou a carta e usou o correio mágico para enviar a mensagem à Luaprata. Mesmo que essa fosse interceptada, não haveria nada que Ventobravo não soubesse. Até mesmo a posição deles ali era de conhecimento de todos. Apenas Lor’themar conseguiria interpretar suas palavras. Eram amigos há muito tempo e ele o conhecia. Saberia o que estava por trás de sua mensagem.
Depois de enviar a carta, caminhou até o píer e sentou-se, vendo o imenso e cristalino lago a sua frente. As águas eram claras, límpida, ao ponto de ele conseguir ver os peixes nadando livremente. Ao longe, um grupo de filhotes pandarens brincavam, jogando água uns nos outros e rindo. Sorriu diante da cena.
Imediatamente, sua mente o transportou para longe dali, para o imenso lago que havia em Luaprata antes de sua queda. O local onde ele e sua irmã Relen iam, às escondidas, para fugir das responsabilidades que seus pais os impunham desde cedo. Lembrava-se de uma vez, quando seus pais ofereceriam uma festa e os dois foram arrumados com esmero pelos servos. Enquanto esperavam, entediados, fugiram para o lago, onde acabaram numa guerra com muita lama e risos. Quando voltaram para casa, sujos até o último fio de cabelo, sua mãe dera um escândalo dizendo o quanto eles eram impossíveis de controlar. Relen ficara fascinada e confidenciara, durante o castigo:
— Nós somos impossíveis!
Para ela, aquilo fora um elogio, afinal, algo impossível era incrível. Não era todo mundo que podia ser impossível. Relen era uma alma tão luminosa… Uma alma incrível. Impossível, como ela gostava de ser chamada. Relen, a impossível. Sorriu, como sorria quando ela falava aquilo, surpreso por perceber como a imagem de sua irmã viera fácil a sua mente, depois de tanto tempo sem querer pensar nela.
“Porque esse seria um lugar que ela amaria.”, pensou, com um sorriso triste vindo à sua face.
— General?
Halduron virou-se, tirado momentaneamente de seus pensamentos, e viu Bufe, o pandaren que liderara a procissão de barcos na Passagem Antiga.
— Pois não? — perguntou, se levantando e encarando o pandaren.
— Em breve vou voltar para a Escadaria Oculta. Parece que há mais pessoas tentando chegar aqui. — explicou ele – Gostaria de saber se o general precisa de algo.
— Não, Bufe, você já fez mais que o suficiente. Para nós. Para todos.
O pandaren o encarou por um momento.
— Você é diferente dos outros. — disse, por fim.
— Eu sou um elfo. — falou, pensando que o pandaren estava se referindo ao fato de viajar com dois orcs, uma morta-viva e um goblin.
Todavia, o pandaren negou com a cabeça.
— Não é de povo que eu falo. É de alma. Eles – e apontou para a casa do boticário, onde tanto membros da Horda quanto da Aliança eram cuidados – querem conquistar. Querem poder. Você… Você só queria este lago.
Os olhos de Halduron se arregalaram, surpresos com o quão preciso fora o pandaren.
— Sou mais transparente do que eu imaginava. — comentou, tentando não demonstrar o incômodo de ter sido tão facilmente decifrado,
— Não, não. — falou o pandaren abanando com a mão – Apenas nós, pandarens, gostamos de observar as pessoas. Seu amigo verde não perceberia seu desejo mesmo que estivesse bem diante dos olhos deles.
— Posso te garantir que nem todos os orcs são assim. — falou, lembrando-se de Tewdric – Tem um em especial que só gostaria de beber cerveja e ficar com a esposa, em vez de lutar.
Bufe deu uma risada, sua imensa barriga se sacudindo.
— Espero poder conhecer esse orc em breve. E que os demais orcs aprendam com ele. — e dando uma pausa, aconselhou – Descanse. Se alimente. O lago não vai fugir daqui. — e fazendo uma breve reverência, se retirou.
Bufe tinha razão, pelo menos em partes, pensou Halduron se dirigindo a casa do boticário. Tinha que se alimentar. Tinha que descansar. Mas o lago… O lago jamais estaria lá para ele de novo, porque aquela vida, há muito acabara.
************************
Fazia tempo que Kassyeh não caia em um sono tão profundo. Por conta disso, acordou assustada e percebeu, pela luz difusa da janela, que o dia estava chegando ao fim. Ficou confusa, por um instante, até lembrar que estava de volta a Luaprata, em seu quarto. Tateou a cama e não se surpreendeu ao encontrá-la vazia; Tewdric devia estar dando bastante atenção a Karen e aos filhotes pandarens. Provavelmente seria assim pelos próximos dias. Sentou-se na cama e espreguiçou-se.
Por mais que gostasse de Orgrimmar e por mais que tivesse amado Pandaria, Kassyeh sentia-se feliz em estar em casa. Sabia que aquela alegria não duraria muito e que, em breve, precisaria partir, mas estava decidida a aproveitar todos os momentos. Levantou-se, vestiu-se e foi em busca das irmãs.
A primeira que encontrou foi Ash, na parte de trás da torre, empenhada em seu treino de arqueirismo. Mesmo com a luz do dia indo embora, a elfa permanecia concentrada, disparando flecha após flecha. Talvez fosse o tempo que passara longe ou apenas a saudade, mas Kassyeh a achou diferente; sua postura estava mais altiva, seu olhar mais intenso e havia mais confiança nela do que em qualquer outra época antes. Ficar em Luaprata para dar suporte a Karen a ajudara a amadurecer. Em breve, havia a possibilidade de Ash querer substituir alguma das irmãs nas missões pelo mundo e Kassyeh sabia que ela estava pronta para aquilo.
Ash não se deu conta da presença da irmã, tamanha era sua concentração e Kassyeh tampouco quis atrapalhá-la. Sentou-se em um banco e ficou observando-a. Invejava um pouco a habilidade de suas irmãs arqueiras; seus dedos pareciam não fazer esforço nenhum para atirar as flechas e conseguiam puxar a dura corda do arco como se estivesse puxando um elástico. Quando criança, Kassyeh via a desenvoltura de Dhomm ao manobrar o arco e achara que era fácil. Quando seu pai tentou ensiná-la, ela sequer conseguiu mover a corda e chorou dias por conta disso. Sabia que, se não tivesse mostrado aptidão para a magia, dificilmente teria seguido o caminho do pai e provavelmente acabaria como uma sacerdotisa.
O alvo já estava cheio de flechas quando Ash baixou o arco. Andou na direção da estaca que sustentava o alvo e encarou-o por um momento, franzindo o cenho. Era óbvio que ela não gostara do resultado.
— Eu acho que você foi muito bem. — falou Kasseyh.
Ash assustou-se um pouco, mas sorriu quando a encarou.
— Faz uma semana que eu não saio dessa marca. — disse apontando para a quantidade de flechas que estavam no círculo vermelho – Não sei qual o problema.
— Queria poder te ajudar, mas também não sei. — ela deu de ombros, sorrindo – Se fosse para queimar essa estaca, eu saberia o que fazer.
Ash riu junto com a irmã e começou a retirar as flechas uma a uma. Depois, colocou-as dentro da aljava e foi na direção de Kassyeh, sentando-se ao seu lado.
— Estou feliz que vocês voltaram. — disse Ash – Mas vocês não ficarão muito tempo, não é?
— Pela Nascente, não fale isso perto de Karen. — pediu Kassyeh – Mas é verdade, não ficaremos muito tempo. Eu e Tewdric queremos partir antes que haja uma convocação oficial. Grito Infernal deixou claro que quer os representantes de cada povo presente em Pandaria. Não quero dar uma desculpa para ele nos acusar de nada.
— Eu gostaria de ir com vocês. — falou a irmã mais jovem – Se eu ficar parada em Luaprata, não vou evoluir como arqueira.
Exatamente como Kassyeh pensara, Ash estava ansiosa para ir pelo mundo. Não a julgava, pois ela mesma tivera aquele anseio e o seguira, mesmo contrariando sua irmã mais velha. E talvez fosse necessário que Ash fosse, que o problema de seu desenvolvimento fosse apenas falta de experiência. Kassyeh sabia o abismo que havia entre a prática rotineira controlada, o campo de batalha e a diferença entre vida e morte que perdurava entre um e outro. Ash já havia provado que era capaz, só precisava de uma oportunidade para transcender seus limites.
— Tudo bem. — disse Kasseyh sorridente – Você irá conosco para Pandaria.
Ash, que não esperava que o pedido fosse atendido tão prontamente, a encarou, desconfiada.
— Qual a pegadinha? — perguntou, escabreada.
— Não tem pegadinha.
— Tem certeza? — insistiu a jovem – Nada de um “quando você tiver mais velha” ou “quando as coisas estiverem mais calmas”?
Kassyeh deu uma risada.
— Nada disso. Acho que você está mais que pronta. A Lux vai reclamar, claro, mas ela sempre reclama. — Kassyeh deu de ombros – Mas isso não será empecilho. E Tewdric vai ficar muito feliz em ter você conosco.
A mente de Ash começou a imaginar lutar ao lado da irmã e de Tewdric, numa terra estranha exótica e, o melhor de tudo, podendo caçar a Aliança e não deixá-los fincar raízes em mais nenhum outro lugar. Sorriu diante da expectativa.
— Quando partiremos? — quis saber.
— Calminha, Ash, eu preciso curtir um pouco o lar. — falou Kassyeh levantando as mãos – Quero matar as saudades da Titi, de Karen e da minha cama. É o tempo que você prepara Lor’themar psicologicamente para sua partida.
— Oh! — Ash exclamou – É mesmo…
Estava tão empolgada em partir em uma aventura que esquecera que Lor’themar não ficaria nenhum pouco satisfeito com a sua decisão. Claro, ele não iria se opor a isso e, mesmo que se opusesse, jamais tentaria impedi-la de fazer algo que quisesse muito. Ele ficaria preocupado, lógico que ficaria, mas não tardaria a entender as intenções dela naquela viagem. E, pela quantidade de reclamações que já ouvira dela sobre estar estagnada no treinamento, talvez até a encorajasse a ir.
— Karen não vai gostar nem um pouco disso… — pensou Ash, entendendo quem seria o real empecilho para sua viagem. Real mesmo. Não se surpreenderia se sua irmãzinha usasse a coroa para tentar prendê-la em Luaprata.
— Ah, não vai mesmo. — confirmou Kassyeh – Mas vamos deixar essa parte com Tewdric. Ele vai conseguir convencê-la. E, além do mais, se você for, Lux vai ficar. Talvez isso deixe Karen mais conformada.
— Duvido. — disse Ash taxativa.
— Vamos aguardar. — falou a outra, conciliadora.
Naquele instante ouviram o barulho de vozes infantis e a voz de Tewdric e então entenderam que as crianças estavam de volta. Se levantaram e fora até o salão, depois que Ash passou pelo cavalete de treino e deixou seu arco e aljava pendurados. No salão, as crianças corriam em círculos ao redor de Tewdric e Karen estava esbaforida, o rosto corado de tanto correr e um sorriso imenso no rosto.
— Kass, Ash, foi tão legal! — ela foi dizendo, animada – Nós andamos por toda a cidade! E fomos na casa de Lady Liadrin. Foi muito legal!
— Você poderia ter convidado Lady Liadrin, Snetto e Salandria para jantar conosco. — falou Kassyeh.
— Eu chamei, mas Lady Liadrin disse que não podia. Salandria está de castigo porque usou a espada da mãe sem permissão. Aí a mestra achou melhor todos ficarem em casa.
— E Snetto fica de castigo também por causa de Salandria… — comentou Ash penalizada.
— Ah, a mestra disse que ele podia vir, mas ele não quis. — explicou Karen – Ficou com pena de deixar Salandria só com a mestra. — Karen deu de ombros – Fiz minha parte.
— Que tal vocês tomarem um banho e se preparar para o jantar? — sugeriu Kassyeh – Vou pedir para colocarem as lanternas arcanas no bosque e vamos comer lá fora. Temos tanta gente hoje! Vai ser divertidos.
As crianças gritaram empolgadas e Karen liderou a corrida escada acima, para o banho. Tewdric, que até então apenas observara tudo, se aproximou da esposa e a beijou.
— Karenzita está muito feliz com os pandinhas! — comentou ele animado – Vocês deviam ver eles conversando! Eles queriam saber tudo daqui e ela tudo de lá!
— Eu adoro quando vocês estão em casa. — falou Ash – A Karen… Ela é mais a Karen sabe? Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas sinto falta da irmã pestinha. A irmã adolescente é chata e resmungona.
— Pelo menos ela não rouba mais sua maquiagem, nem suas coisas. — lembrou Kassyeh.
— Entre lidar com o mau humor dela e a perda de algumas coisas, prefiro a segunda opção. — e se espreguiçando, avisou – Vou tomar um banho para jantar. Até.
Ash foi para seu quarto e Kassyeh e Tewdric ficaram sozinhos. Ele a enlaçou com seu braços forte a puxou para junto dele. Kassyeh sorriu, se aconchegando nos braços de seu marido.
— Dá tempo…. — ele começou.
— Não. — ela respondeu na mesma hora, deixando-o triste – O jantar não vai demorar e hoje eu não quero nada rápido. — ela se aproximou do ouvido dele e murmurou – Quero beeeem devagar… Devagar e forte…
— Você não está ajudando, Kass. — falou num muxoxo, fazendo bico – Agora fiquei com mais vontade.
Ela caiu na risada.
— Que tal usar esse tempinho para me ajudar a montar a mesa lá fora? Quero acender umas lanternas arcanas e colocar uns feitiços de estrelinhas caindo delas.
— Só se você me prometer que hoje não dormiremos. — propôs o orc.
— Eu dormi a tarde toda, não preciso de mais sono. — falou ela piscando o olho para ele.
Tewdric abriu um sorriso malicioso.
— Ótimo! Vamos por essas estrelinhas!
Os servos, há muito, deixaram de estranhar a disposição de Kassyeh de fazer tudo pessoalmente. A princesa não se importava de pôr a mão na massa, o que facilitava a vida daqueles que trabalhavam na Torre de duas formas: eles tinham sempre ajuda quando ela estava por lá e, com Kassyeh sempre envolvida, eles aprenderam de como ela gostava das coisas e assim podiam se adiantar aos seus desejos, como fizeram naquela noite: o jantar fora preparado pensando totalmente na princesa que estivera tanto tempo longe de casa.
Quando todos começaram a chegar para o jantar, tiveram uma visão maravilhosa daquela parte do bosque, toda iluminada, com efeitos das estrelinhas caindo das lanternas, luzes que piscavam suavemente e a comida, apetitosa, estava disposta elegantemente na mesa. Logo, estavam todos sentados à mesa, Tinuviel sentada no meio dos filhotes de pandaren, tagarelando em sua vozinha enrolada e hesitante. Kassyeh estava feliz e satisfeita.
Tinha acabado de sentar-se à mesa quando Vivithi apareceu, acompanhada de, ninguém menos que Aethas. Kassyeh levantou-se de repente, tão animada que acabou derrubando sua taça. Correu até Aethas, mas parou pouco antes de abraçá-lo. Seu tio estava com uma aparência doente e isso a preocupou.
— Tio!! — ela exclamou segurando-o pelos ombros – O que o senhor tem? Já foi ao médico?
— Eu não estou doente, Kassyeh. — tranquilizou-a, colocando a mão em seus braços – Apenas cansado.
Kassyeh o abraçou ao mesmo tempo em que falava:
— O que diabos você anda fazendo para ficar tão cansado?! — ela ainda não acreditava no que ele estava dizendo.
— Kassyeh. — chamou Luxuriah, se aproximando – Deixe o titio respirar.
A contragosto, Kassyeh o soltou e Luxuriah pode perceber, olhando nos olhos de seu tio, o que Kassyeh não via: a responsabilidade sobre os Fendessol pesando em seus ombros.
— Sentimos sua falta, tio. — e o puxou para um abraço.
Aethas sentiu os olhos nublarem de lágrimas, mas se conteve.
— Também senti sua falta, Luxuriah. — murmurou ele.
Luxuriah o soltou e pensou em dizer a Aethas que ele não precisava se sacrificar tanto por elas, mas se controlou. Não era hora de abordar aquele assunto.
— Titio! — Ash também se aproximara sendo seguida de perto por Karen.
— Também quero um abraço! — falou Karen, empurrando Ash para o lado e dando um abraço apertado em Aethas. Ash soltou um xingamento para a irmã mais nova, que a ignorou.
— Cada dia você está maior e mais forte, Karensky. — falou ele orgulhoso – Veja só você! — ele apartou brevemente o abraço para dar uma boa olhada em sua sobrinha – Pela Nascente do Sol, você está tão parecida com sua mãe! — falou admirado.
— Sério? — Karen ficou extremamente feliz – Mesmo sem peito?
Aethas deu uma risada.
— Querida, sua mãe só foi desenvolver seios pouco tempo antes de atingir a maturidade. Não se preocupe com isso. Além do mais, você não tem idade para atrair atenção de ninguém, então pode dispensar os seios por uns bons anos.
— Isso aí, titio! — Tewdric também se levantara para falar com Aethas – A Karenzita tem que ser meu bebê pelas próximas décadas ainda! — e olhando para Ash, perguntou – Ashzinha, posso dar um abraço no titio antes?
— Desde que você não quebre ele no meio…. — Ash também estava preocupada com a magreza excessiva de Aethas.
— Podexar! — disse o orc antes de envolver o elfo em um abraço apertado – Que saudades, titio!!!
Acostumado a ter as costelas quase esmigalhadas a cada abraço de Tewdric, Aethas estranhou quando o orc realmente apenas lhe deu um cuidadoso abraço e duas tapinhas leves nas costas. Foi quando percebeu que realmente sua aparência estava causando preocupação. Quando finalmente pode abraçar o tio, Ash reclamou:
— Por que sempre me deixam por último?
— Talvez porque o último abraço é mais demorado? — arriscou ele, tentando deixar a sobrinha menos chateada.
Funcionou, pois Ash ficou um bom tempo abraçada com ele, até que Kassyeh tocou todos para a mesa, pois havia convidados esperando.
Aethas foi apresentado ao vovô Pata Serena e toda a trupe dos filhotes de pandaren. O mago ficou espantado com a aparência dócil dos visitantes; os relatórios que lera sobre Pandaria, falar de um povo guerreiro e destemido, mas que, com certeza, não perdera a ternura. Depois das saudações feitas, Kassyeh disse que todos deviam se servir e começaram a comer e a conversar animadamente. A jovem maga fez questão de que seu tio provasse todos os pratos e estivesse bem servido sempre. Aethas teve que implorar a ela que parasse de pôr comida em seu prato, pois não aguentava mais. Tinuviel, que adorava o tio-avô, logo abandonou o colo do pai para se apossar do colo de Aethas, os dois se destacando com os cabelos cor de fogo, idênticos. A menina também o fez dar de comida a ela e reclamou de sua ausência mais que qualquer outra, e só se acalmou quando o tio garantiu que viria vê-la mais vezes.
Depois do jantar animado, as irmãs se juntaram para cantar uma melodia, juntas, apenas nas vozes, enquanto os adultos tomavam um cálice de licor e as crianças desfrutavam de um bombom. Os pandarens sentiram-se imersos na magia daquele povo, não apenas pelas vozes das belas princesas, mas também de todo o esplendor que Luaprata poderia oferecer. E, cansados da viagem, se retiraram, prometendo que se encontrara no dia seguinte, para continuarem a visita pela capital dos elfos sangrentos.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Depois que os convidados se retiraram, Rommath pegou Tinuviel, adormecida, e levou-a para o quarto. Um soldado aparecera brevemente no local e Vivithi foi atendê-lo. Lor’themar e Tewdric, entendendo que as princesas precisavam de um tempo com o tio, se retiraram discretamente. E o lorde regente, aproveitando que estava a sós com Tewdric, chamou-o num canto, para fazer um pedido.
— Tewdric, há algo que gostaria que você fizesse. — começou o elfo.
— Se eu puder fazer, Temma, eu farei.
Lor’themar olhou para o jardim, onde Aethas e suas sobrinhas conversavam animadamente.
— Eu e Aethas tivemos muitos desentendimentos no decorrer dos anos. Porém, eu, mais que ninguém, sou grato por tudo que ele tem feito por nosso povo em Dalaran. Um serviço que, obviamente, está cobrando um preço alto.
Tewdric virou a cabeça momentaneamente para o jardim, já antevendo o que Lor’themar ia pedir. Ainda assim, aguardou que o elfo falasse.
— Minhas correspondências com Aethas tem sido discretas, sem muitos detalhes, pois sabemos que estamos sendo vigiados por ambos os lados. — o olho bom de Lor’themar cintilou de raiva por um momento – Está sendo bem difícil manter a rainha tranquila diante dos rumores da vigilância do Kirin Tor e acredito, depois de hoje, será ainda mais difícil. Por isso, eu gostaria que você conversasse com Aethas e pedisse para ele te dizer a real situação dos Fendessol em Dalaran.
— Eu quero ajudar vocês, Temma, sem dúvida, mas por que você mesmo não pergunta?
Lor’themar cruzou os braços e apostura dele ficou mais tensa.
— Porque Aethas não confia em mim o suficiente para me deixar ver suas fraquezas. Mas você… Vocês são amigos.
— E você acha que eu diria as fraquezas dele a você? — perguntou o orc, sentindo-se ofendido.
— Não. Mas você faria o que fosse necessário para protegê-lo. Porque você o respeita. Porque Kassyeh o ama. E porque ele é da sua família.
— Você está com a Ash há anos. — retrucou Tewdric – Não considera o titio da sua família? — quis saber.
— Claro. Só acho que não é recíproco. — respondeu calmamente.
Tewdric sabia que as rusgas entre Lor’themar e Aethas eram antigas. E não apenas o lorde regente, mas também Rommath tinha o pé atrás com o arquimago. A grande questão girava em torno dos Fendessol e da relação com o Kirin Tor: na opinião do Grão-magíster, aquela parceria devia ter sido encerrada há eras, enquanto Lor’themar lutava para mantê-la. Karen, até então, tinha se abstido de participar daquela disputa, porque respeitava a vontade do tio: ela apoiaria a permanência de Aethas em Dalaran enquanto este quisesse ficar lá. E Tewdric sabia que, ao menor sinal de hesitação, ela o traria de volta tão rápido que Aethas nem veria o que o atropelara.
Só que antes que Tewdric pudesse dizer qualquer coisa, Vivithi voltou. Pela proximidade da elfa e a expressão em sua face, Tewdric imaginou que ela ouvira as últimas frases que eles trocaram e não estava enganado. A elfa parou entre os dois, pôs a mão na cintura e encarou o tio.
— Tio, nós dois sabemos que sua preocupação é mais com os Fendessol que com Aethas. — ela foi dizendo, sem rodeios – Por que continua com isso?
— Vivithi, claro que tenho preocupação com os Fendessol. — falou Lor’themar, com um tom cansado. Provavelmente já tinha dito aquilo muitas vezes – Todavia, você me julga muito insensível, se acha que não tenho nenhum apreço por Aethas ao ponto de não me importar com seu estado.
— E eu já lhe disse que deixe isso comigo. Não confia em mim?
— Claro que sim! — exclamou o lorde regente, ofendido.
— Então por que está pedindo isso ao Tewdric? — e diante do arregalar de olhos do orc, ela falou – Não estou dizendo que você não pode fazer, mas apenas que eu posso me locomover mais facilmente por Dalaran que você, então não há motivos para incomodá-lo.
Então o mesmo pedido feito a Tewdric tinha sido feito a Vivithi. Tewdric ficou curioso para saber qual teria sido a reação da elfa, mas, a julgar pela expressão de Lor’themar e a dela, tinha sido bem mais raivosa que a do orc. Era uma pena ter perdido tal espetáculo.
— Eu também me preocupo com o titio, Vivi. — falou Tewdric – Não do mesmo jeito que você, porque, bem… Você sabe. — ele deu um sorriso malicioso e Vivithi apertou os olhos para ele – Então, sim, Lor’themar, posso fazer o que você me pediu, mas será do meu jeito. — alertou Tewdric voltando-se para o elfo – Eu não sou cego e vejo o que isso está custando a Aethas. Mas também respeito a lealdade dele à causa que escolheu e sua determinação para cumpri-la.
— Aethas não é nenhum elfo inexperiente. — lembrou Vivithi ao seu tio – Ele sabe até onde pode ir e quando pedir ajuda.
Pelo visto, pensou Lor’themar, agora lidava com dois superprotetores em relação a Aethas. Começava a pensar que não tinha sido uma boa ideia falar com aqueles dois. Ainda assim, preferiu insistir mais um pouco:
— E se ele estiver em perigo? — questionou Lor’themar.
— Ele terá meu machado para defendê-lo. — garantiu o orc.
— E o meu arco. — falou a elfa.
— E se vocês não estiverem lá? — insistiu o elfo.
— Você nos informará. — respondeu Tewdric com um sorriso malicioso – Afinal, sei que, o que não falta é espião em Dalaran.
Lor’themar deu um leve sorriso.
— É mesmo? — perguntou, fingindo ignorância – Se eu tivesse espiões, não precisaria pedir para perguntar nada a Aethas.
— Se você quisesse apenas fatos, seria verdade. — rebateu o guerreiro – Mas, o que você quer mesmo, são as impressões pessoais do titio. Ele conhece o jogo político de Dalaran. Ele sabe o que esperar… Seus espiões, não.
Vivithi deu uma gargalhada enquanto os dois se encarraram, cada um ostentando um sorriso indolente.
— Se, uma década atrás, me dissessem que eu conheceria um orc tão sagaz quanto você, Tewdric, eu chamaria a pessoa de louca. — confessou Lor’themar.
— E foi por nos subestimar assim que a Aliança perdeu tantas batalhas e territórios. — falou o orc, com um sorriso indulgente
— Justo. — e dando um tapinha no ombro do orc, Lor’themar falou – Espero que você consiga algo que nos permita ajudar Aethas. Que vocês conseguiam. — acrescentou olhando para sua sobrinha – Quero a segurança dele tanto quanto vocês. Não duvidem disso. Tenham uma boa noite.
E se retirou.
Tewdric ficou olhando para onde Lor’themar tinha saído e depois voltou a olhar para onde Kassyeh conversava animada com seu tio.
— Eu vou para Dalaran. — falou Vivithi inesperadamente– Não posso me demorar lá, mas pretendo ir para verificar o clima da cidade. Quando fui, há um mês atrás, estava ruim. Obviamente, as coisas não melhoraram. — e olhou significantemente para Aethas.
— A Kass, com certeza, vai querer ir. — disse Tewdric – Podemos ir todos juntos. Vai ser bom para o titio.
— Mas não para os Fendessol. — argumentou a elfa.
— Se ele cair, haverá ainda os Fendessol? — questionou Tewdric.
Nenhum dos dois queria pensar naquela possibilidade, por mais real que fosse. Preferiram continuar encarando, calados, a conversa animada que se desenrolava entre tio e sobrinhas, P deixando a indagação proferida por Tewdric ser levada pelo ar até ser esquecida.
******************
— Halduron, veja!
— Dhom, você já me mostrou isso umas sete vezes!
— Não há limites para a perfeição. — falou poeticamente o elfo.
Halduron suspirou.
— Certo, mostre-me. — falou, vencido.
Dhomm abriu um sorriso enorme e estendeu o cristal mágico para o elfo. O objeto emitiu uma luz e uma imagem de um bebê se fez no ar. Imediatamente, muitos patrulheiros ao redor se aglomeraram, todos comentando animadamente enquanto o bebê fazia força para se se levantar e ensaiar os primeiros passinhos.
— Ela é tão fofa! — comentou Velonara.
— Como você consegue fazer filhas tão lindas, Dhomm? — perguntou Solanar.
— É fácil. — respondeu Dhoom – Seja lindo e tenha uma esposa linda. Simples.
Todos gargalharam.
— Ainda acho que a maior parte da beleza vem da mãe. — falou Velonara – Com todo respeito, Dhomm, mas sua esposa faz totalmente meu tipo.
Dhomm deu uma ruidosa gargalhada enquanto a pedra ainda mostrava as imagens do bebê caminhando hesitante.
— Eu sei que ela é linda, mas sinto muito por você não ter nenhuma chance. — falou o elfo dando uma piscadela para Velonara.
Apesar de ter resistido a ver as imagens, Halduron ficava encantado cada vez que via a pequena elfa dar seus hesitantes passos. Suas pernas gordinhas mal sustentavam o resto do corpo, mas a menina tinha uma expressão séria e decidida na face, que definitivamente não combinava com um bebê tão pequeno, como se não aceitava que seu corpo não fizesse o que ela queria. Dava para ver, na gravação arcana, pernas maiores ao redor da menina, enquanto a voz de Samanthah dizia para as outras filhas não interferirem nas tentativas da menor.
— E aí, Halduron? — perguntou Dhomm ansioso – Ficou inspirado para ter uma?
— Quem sabe, quando eu casar. — disse com um sorriso – Mas acho mais fácil uma sobrinha vir antes.
— Você não tem vergonha de sua irmã mais nova está casando antes que você? — quis saber o elfo, ainda com a pedra estendida, mas cujas as imagens começavam a esmaecer.
— Não. Pelo contrário. Estou feliz de Relen ter encontrado alguém que consiga acompanhar o ritmo dela.
— Quando é o casamento? — perguntou Solanar.
— Na próxima primavera. Mas parece que será amanhã, minha mãe não para de reclamar que está tudo atrasado. — revelou Halduron.
— Mães sendo mães. — gracejou Dhomm.
A maioria dos elfos que estavam ali ainda era jovem o suficiente para Dhomm ser o único casado e com filhas. E mesmo Halduron, considerado um elfo adulto e cuja a solteirice começava a preocupar os pais, não tinha pressa em se envolver. Casos de casamento ainda na tenra juventude e com uma penca de filhos, como Dhomm e Samanthah, eram raros e davam o que falar. Ainda mais porque, além disso, havia o fato de a jovem ter preterido o príncipe Kael’thas ao filho bastardo de uma barda talentosa, mas que era ao mesmo tempo amada e temida. E, para completar, tinha o fato deles serem primos em terceiro grau (os pais de ambos eram primos), um parentesco próximo o suficiente para terem o mesmo sobrenome. Mas o que mais surpreendia Halduron era que Dhomm e Samanthah simplesmente não se importarem com nada do que era dito. Como seria amar ao ponto de o resto ser completamente descartável?, se perguntava. Esperava um dia saber.
Dhomm balançou a pedra arcana e ela recomeçou a mostrar as cenas do bebê dando os primeiros passinhos e Halduron percebeu que aquela menina era loira, diferente dos pais. Olhou rapidamente para Dhomm. Os Fendessol eram predominantemente ruivos ou morenos. Às vezes com uma variante acobreada, com reflexos esparsos de cabelos dourados, como era o caso de Samanthah, mas nunca totalmente loiros. Aquela característica deveria ser da parte do pai de Dhomm. Halduron tinha interesse nessa parte porque havia boatos dentro de sua família que um de seus tios fora amante de Lady Luelly e suspeitava ser o pai de Dhomm. Fazia sentido, a família Asaluz era conhecida por seus cabelos dourados, rivalizando apenas com os Andassol na cor resplandecente dos fios. Certa vez, Relen lhe dissera que o tio, contrariando o resto da família, procurara Luelly para saber se Dhomm era seu filho, pois estava disposto a assumi-lo. A barda respondera, com gentileza, que Dhomm era filho apenas dela. Seria Dhomm seu primo e estaria agora olhando para uma priminha encantadora?
— Qual o motivo da aglomeração?
A voz de Sylvana soou como um chicote fazendo todos os patrulheiros imediatamente entrarem em formação. Todos, menos Dhomm.
— Olha, Syl! A Karen andou pela primeira vez! — e estendeu a pedra com as imagens mágicas para a elfa.
Sylvana olhou para a pedra arcana e depois olhou para Dhomm, sem nenhuma emoção.
— Em primeiro lugar, Dhomm, aqui é general-patrulheira Correventos. — disse seriamente – E em segundo lugar, fui eu quem fiz essa gravação enquanto estava em sua casa. Ou já esqueceu?
— Ah, mas não me diga que você já cansou de ver essa coisinha fofa dar os primeiros passinhos? — falou empolgado.
O semblante de Sylvana ficou momentaneamente mais brando.
— Nunca me canso de ver seu pequeno monstrinho andar, apenas estou te lembrando que esse não é o momento.
Dhomm ficou horrorizado pelas palavras ditas pela sua superior e amiga.
— Syl! Não chame a Karen de pequeno monstrinho!
— A sua general-patrulheira aqui acha que está no direito de chamá-la assim, já que nem mesmo você chama sua filha pelo nome. — Sylvana deu um sorriso esnobe – Afinal, ainda não entendi por que você foi dar nomes grandes para elas, se cortou-os ao meio antes mesmo delas nascerem.
— Porque não dá para dar apelidos fofinhos se você já tem um nome curto. — disse o elfo, cujo nome curto realmente o isentara de qualquer apelido por parte dos outros.
Halduron viu Sylvana lutar contra um sorriso que teimava em tentar se apossar de sua face. Dhomm tinha aquele efeito nas pessoas. Talvez fosse sua personalidade artística demais para quem alegava ser um patrulheiro e Halduron sempre se perguntava porque Dhomm não trilara o caminho da mãe como bardo, já que recebia convites para cantar em eventos até da realeza, convites que ele educadamente recusava. Uma vez perguntara aquilo a Lor’themar e o outro fora categórico ao dizer que Dhomm não queria ter nada a ver com a nobreza.
— Onde está Lor’themar? — perguntou Sylvana, como se lesse os pensamentos de Halduron.
— Foi em direção a Brisabela. — respondeu Halduron imediatamente – Disse que viu uma aglomeração incomum lá.
— Não deve ser nada sério. — falou Dhomm guardando a pedra no bolso – O pessoal lá gosta de beber demais e saírem correndo nus lançando feitiços no ar.
Os patrulheiros deram risadinhas, incluindo Halduron, que cessaram no momento em que Sylvana os olhou.
— Não fiquem de conversa, vão ao encontro de Lor’themar e vejam se ele precisa de ajuda com os ébrios. Depois, vamos nos reunir para discutir algumas mudanças nas fileiras.
Os patrulheiros bateram continência e Sylvana saiu.
Foi a última vez que Halduron a viu com vida.
Aquelas lembranças assaltaram a mente de Halduron, confundindo sua percepção momentaneamente, onde as planícies douradas de Luaprata se confundiam com os campos da vila Binan, resplandecentes e sujos de sangue. Segurou o arco com força, sentindo-se esgotado.
“Isso não acaba nunca…”, pensou, angustiado.
Mal haviam chegado naquela vila e ela fora atacada. Dessa vez, ao menos, não era Horda e Aliança se digladiando, mas yaungols, seres bestiais que havia decidido que atacar os pacíficos pandarens seria uma boa ideia. Para o azar deles, a Vila Binan estava cheia de guerreiros tanto da Horda quanto da Aliança que não estavam dispostos a deixar seus anfitriões serem massacrados. A única coisa boa que poderia se tirar daquilo era que Horda e Aliança estavam tão ocupados com os yaungols que desistiram de se matar.
Apesar da ajuda de todos, foram necessários dois dias inteiros para repelir ao ataque dos yaungols e deixar a Vila Binan segura. O custo, como sempre, fora de muitas vidas, felizmente mais de yaungols do que do lado deles. E ao final, quando as coisas foram controladas, Halduron estava exausto, esgotado e precisando desesperadamente de um banho. Colocou o arco em suas costas e caminhou na direção da vila. Os pandarens falavam com ele, agradecidos demais e Halduron apenas acenava com a cabeça, agradecendo brevemente. Quando passou por uma comerciante que arrumava sua barraca, a cumprimentou e apontou para uma das mercadorias:
— Pode me dar uma dessas?
A pandarena afirmou com a cabeça e entregou. Halduron colocou uma moeda de ouro na mão dela, que balançou a cabeça em negativa.
— Não posso cobrar de quem salvou nossas vidas. — argumentou ela.
— Pode e vai. — disse ele gentilmente – Você precisa do dinheiro para seus filhotes.
A pandarena ainda resistiu, mas ele empurrou o dinheiro para ela e saiu. Caminhou até o limite da vila, onde não havia ninguém. Tirou o arco e colocou-o encostado em um dos troncos de árvores que rodeavam o local. Com movimentos lentos e cheios de dor, Halduron tirou toda a armadura, colocando-a displicentemente sobre a grama. Hesitou um pouco antes de tirar a roupa. Olhou para os lados, preocupado que alguém o veria.
— Ah, Hal, vamos lá… — a voz da irmã dele soou dentro de sua mente – O que é a vida sem emoção?
Aquela frase sempre precedia problemas, mas ele sempre a atendia. E atenderia agora, mesmo que Relen estivesse morta há tantos anos.
Tirou toda a roupa e as botas. Seu corpo estava cheio de hematomas e cortes, mas nenhum sério. Procuraria um sacerdote assim que se limpasse. Após essa verificação, ele caminhou para dentro do lago, segurando a barra perfumada de sabonete que comprara. E assim que estava com água pela cintura, mergulhou nas águas cálidas e cristalinas, percebendo que também estava sedento. Há quanto tempo não tomava água? Beber direto do lado, sem nenhum cuidado não era recomendado, mas a sede foi tanta que ele abriu a boca enquanto mergulhava e bebeu um grande gole. Engasgou-se e teve que tirar a cabeça para fora da água.
— Estou em comportando como um lunático. — falou para si mesmo – Misturando lembranças, me despindo em plena luz do dia, bebendo água sem tratamento e agora… falando sozinho. Lor’themar diria que eu estou ficando sensível demais.
E quem não ficaria, depois de tudo? Ele não era o único elfo sangrento traumatizado, mas talvez o que mais se decepcionava, pois era o que ainda mantinha a esperança que seu povo podia viver em paz algum dia. Que os quel’dorei e os sin’dorei podiam ser um novamente. Que Horda e Aliança podiam parar de se matar. E ver, dia após dia, tudo ruir.
Tentando tirar esses pensamentos da cabeça, ele começou a se esfregar, passando o sabonete nos braços, no tronco e em todo o corpo, vendo a espuma ficar vermelha com o sangue seco que grudara nele. Era uma sensação boa, a espuma escorrer por seu peito nu e dando a impressão que podia tirar, não apenas a imundície de sua pele, mas também os pensamentos escusos de sua mente. Por fim, ensaboou os cabelos, os cabelos dourados, que perderam o brilho depois de dias de lutas. Recordou do pensamento que tivera quando vira as cenas exibidas por Dhomm de Karen bebê. Fora tão ingênuo ao pensar que os cabelos loiros eram uma herança dos Asaluz para Dhomm, enquanto que era o sangue Andassol nas veias daquelas que viriam a ser princesas. Mas quem poderia imaginar? Halduron, com certeza, não.
Depois de ensaboar-se, mergulhou mais uma vez nadando para outra parte do lago, livrando-se da espuma. Seu corpo cansado penava para manter-se em movimento, mesmo dentro da água e ele achou melhor voltar para as margens assim que se sentisse limpo. Seria muito fácil acreditar que permanecer dentro do lago seria melhor do que enfrentar aquele mundo.
Caminhou para fora da água e estava quase na margem quando percebeu que havia alguém esperando por ele. Era um dos elfos que estavam sob seu comando direto, um dos muitos jovens que tiveram sua juventude limitada pela guerra. Quando viu que Halduron se aproximava, desviou a vista para o chão, para não desrespeitar a intimidade do general-patrulheiro e bateu continência. Antes mesmo que o jovem elfo falasse, Halduron sabia do que se tratava. Só havia uma pessoa na vila Binan que estava oficialmente acima dele e que poderia ter enviado alguém para encontrá-lo.
— O general Nazgrim solicita sua presença, general-patrulheiro. — falou o jovem elfo, ainda olhando para o chão.
— Diga a ele que irei em seguida. — falou Halduron ao sair das águas.
O jovem assentiu e o deixou imediatamente.
Halduron olhou para suas coisas e ficou surpreso. Sua armadura, que estava tão suja quanto ele próprio, agora estava limpa e arrumada com esmero no chão. Havia também uma toalha e roupas limpas em cima de uma das pedras. Halduron sorriu, emocionado com a preocupação do jovem. Faria questão de agradecê-lo assim que falasse com Nazgrim. Enxugou-se, vestiu-se, pôs a armadura e foi ao encontro do orc.
Depois que ficaram conscientes, fora impossível manter o almirante Taylor e o general Nazgrim no mesmo ambiente. Por isso, ele se encaminhou, não para a cabana do boticário, mas para uma das cabanas que serviam como hospedaria para os muitos viajantes. Nazgrim o esperava, mas não fez nenhum comentário sobre o fato que ele lutava a dois dias pela vila Binan.
— Agora que os yaungols foram rechaçados, podemos nos dirigir para dentro do Monte Kun-Lai. — foi dizendo sem rodeios – Tem gente aí do seu povo que querem procurar algumas ruínas… Não sei o que querem mas não me interessa. Você precisa garantir que eles achem as tais ruínas e eu não posso perder tempo com isso. Lidere essa expedição e aproveitar para fincar uma base nossa num local chamado Repouso do Vento Leste.
Halduron franziu as sobrancelhas. Oficialmente ele respondia apenas à rainha e ao Conselho de Luaprata, então Nazgrim não podia se dirigir a ele daquele jeito. Só que Halduron estava cansado demais para argumentar e ansioso para se livrar de Nazgrim o mais rápido possível. E acompanhar estudiosos de seu povo seria um alento naquela terra estrangeira.
— Partirei imediatamente. — foi o que disse – Algo mais?
O orc ficou surpreso com a receptividade do elfo. Talvez estivesse esperando resistência ou até mesmo um embate.
— Nada mais. — disse o orc.
Halduron não fez nenhuma mensura ou aceno, apenas saiu. Já fora da cabana, dirigiu-se até os soldados que o aguardavam. Se era para ir embora, iriam logo. Estava pronto para o que quer que o Monte Kun-Lai reservava para ele.
******************
— Isso realmente não é necessário, Kass… — murmurou Aethas sem jeito.
— Claro que é! — exclamou a elfa abrindo as cortinas num movimento cheio de floreios, antes de abrir também as janelas – Temos que arejar essa casa!
Aethas sorriu, sem jeito, incapaz de parar sua sobrinha de fazer aquilo que considerava urgente: cuidar dele. Depois de passar menos de vinte e quatro horas em Luaprata, o mago teve que voltar a Dalaran depois de muita comida e uma boa noite de sono ininterrupto, coisa que não tinha há meses. Contudo, tivera que voltar para Dalaran, pois não podia se dar ao luxo de ficar muito tempo fora. Porém, dessa vez, não voltou sozinho.
— Ainda não acredito que Karen não apenas deixou que vocês viessem, como ainda mandou os pandarens junto. — falou olhando admirado enquanto os filhotes pandarens corriam por sua casa, analisando todos os objetos que achavam interessantes.
— Ela achou melhor adiantar alguns relatórios ao Chefe Guerreiro e se antecipar a ele. — falou Kassyeh continuando o processo de abertura das janelas – E ela sabe que você precisa que eu deixe uma tonelada de comida pronta para você.
— Não há necessidade, Kass… — murmurou ele.
— Claro que há! — argumentou a elfa.
— Se você fizer comida demais, vai estragar. — tentou argumentar.
— Você é um mago, pode fazer gelo e conservar tudo por um bom tempo. — retrucou ela – E, se quer que eu pare de fazer isso, ganhe algum peso e melhore sua aparência. — decretou – Agora, vamos até a cozinha. — ordenou com o dedo em riste.
E enquanto os filhotes de pandaren corriam soltos como loucos pela sala de Aethas, este caminhou obedientemente até a cozinha, onde Tewdric e Vivithi já adiantavam o trabalho de Kassyeh, jogando fora um monte de comida que, visivelmente, não era mais consumível.
— Pela Nascente, não me diga que você comia isso, Aethas! — reclamou Vivithi colocando a comida estragada em sacos.
— Ele não comia. — lembrou Tewdric – É só olhar para ele. — o orc analisou um pedaço de queijo de aparência duvidosa e pôs no saco – Titio, onde você comia?
— Tem um restaurante perto da Cidadela. — falou ele – Já fomos lá, lembra?
— Comer fora nunca será tão saudável quanto a comida feita em casa. — Kassyeh recitou o mantra de sua mãe – Vou deixar muitas comidinhas gostosas para você.
Eles ouviram o barulho alto de alguma coisa se espatifando no chão e o vovô Pata Serena apareceu na cozinha.
— Um vaso todo dourado que estava num pedestal… Era valioso? — perguntou curioso.
— Não se preocupe com isso. — falou o mago acenando com a mão – Eu conserto num instante.
— Viu, Vovô? — Yasu colocou a cabecinha na porta – Ele nem ficou chateado!
— Certo, mas tentem deixar essa casa inteira. — pediu o velho pandaren — Ou não seremos chamados novamente para visitá-lo…
— Eu jamais faria isso. — falou Aethas antes do barulho de mais um vaso se despedaçando no chão da sala – Acredito que posso consertar esse aí também…
— Por que não traz as crianças para a cozinha, vovô? — perguntou Kassyeh – Elas têm um faro ótimo e podem nos ajudar a jogar fora toda comida ruim. Depois, vamos no mercado, todos juntos.
— Oba! — exclamou Yasu antes de sua cabecinha sumir e ela correr para sala, para chamar os filhotes.
Poucos instantes depois, uma onda peluda invadiu a cozinha, derrubando um monte de panelas que estavam enfileiradas na mesa. Tewdric e Vivithi recolheram os objetos enquanto o vovô Pata Serena ralhava com os filhotes, que continuavam correndo pela cozinha.
— Crianças, é o seguinte: — começou Kassyeh e os filhotes pararam para ouvi-la, atentamente – Joguem naquele saco de lixo qualquer comida ruim que vocês encontrem. Agora!
As crianças correram para a despensa, empurrando umas às outras, atropelando-se e começaram a jogar tudo fora. Em pouco tempo, com a ajuda dos filhotes, a cozinha estava limpa, arejada e sem nenhuma comida estragada. Na verdade, não havia mais comida nenhuma na casa e Aethas percebeu que, há muito tempo, não apenas estava trabalhando demais, mas tinha perdido o apetite completamente. Fora necessário Kassyeh ir até ali para perceber aquilo.
— Agora, vamos as compras. — falou a maga pegando uma lista que preparara previamente – Aqui tem tudo que o titio gosta de comer, então vamos ter um pouquinho de trabalho.
— Posso ver? — pediu Vivithi e Kassyeh entregou a lista a ela – Nossa Kassyeh, tem muita verdura aí. Não é melhor cozinhar coisas que ele possa apenas esquentar?
— Mas ele precisa comer vegetais! — protestou Kassyeh.
— Ele precisa comer muita carne! — falou Tewdric, se metendo – Pra ganhar sustância!
— Macarrão também. — falou o vovô Pata Serena – Você devia preparar lámen para ele, Kassyeh.
— E doces! — se meteu Yasu – Pra dar energia!
Aethas se viu no meio de um grande debate sobre sua alimentação e suspirou, vencido. Já percebera que ninguém ia pedir sua opinião mesmo. Só esperava que Kassyeh não exagerasse na quantidade de comida, pois aí não haveria gelo no mundo que mantivesse tudo conservado.
Depois do intenso debate e de um cardápio refeito, a lista de compras estava atualizada, e Aethas percebeu que Tewdric havia esgueirado na lista uma boa quantidade de cerveja. Claro, não precisaria se preocupar com a conservação da bebida, pois ela só duraria a permanecia do orc ali. E, pelo que vira na noite anterior, o vovô Pata Serena não ficava atrás em relação a Tewdric.
Saíram para uma Dalaran pouco movimentada, o que era incomum para a cidade flutuante. Enquanto Kassyeh tagarelava animadamente com seu tio, Vivithi e Tewdric prestavam atenção na cidade e o que notaram, os deixou com um terrível pressentimento. O número de membros da Horda trafegando por Dalaran havia diminuído consideravelmente desde a última vez que ambos foram ali. Em compensação, era possível notar um aumento da quantidade de membros da Aliança. Justiça fosse feita, quando eles entraram no Santuário Fendessol, perceberam que a maioria da Horda estava por ali, em vez de se aventurar pela cidade. No entanto, aquilo era o sintoma de algo bem maior; se a Horda se entrincheirava em seu santuário, era porque já percebera que não era mais bem-vinda no resto da cidade. E, cada vez que aumentava o número de membros em um só lugar, com certeza aquilo despertava a desconfiança da facção rival, acirrando os ânimos e mantendo a tensão num ciclo eterno de perpetuação.
Aethas sabia que não havia como esconder de Vivithi e Tewdric o que ele mesmo já deduzira há algum tempo, por isso, nem tentou. Preferiu dar toda a atenção que podia à sua sobrinha e aos filhotes de pandaren, permitindo-se relaxar o máximo que conseguisse. Sabia que, assim que colocara os pés para fora de casa, todo o conselho do Kirin Tor saberia de suas visitas, mas não se importou. Pela primeira vez, em meses, pouco importava o que eles pensavam. A reação de sua família na noite anterior à sua aparência o alertara que não podia continuar do jeito que estava. Como faria, então? Não sabia. E, naquele momento, não importava.
— É uma bela cidade. — falava o vovô Pata Serena, alheio às tensões à sua volta – É bom ver que há lugares onde as facções possam conviver.
Vivithi e Tewdric se entreolharam significativamente, mas não disseram nada.
— Sim, é uma bela cidade. — concordou Aethas – Posso dizer que é meu segundo lar.
— Há quanto tempo o senhor vive aqui, senhor Aethas? — perguntou Yasu, interessada.
Aethas pensou um pouco.
— Acho que em torno de trezentos anos.
As crianças o olharam, chocadas.
— O senhor é muito velho! — comentou Yasu, admirada.
— Para um elfo, nem tanto. — respondeu Aethas, rindo – Os outros elfos que vocês conheceram, Lor’themar e Rommath, são bem mais velhos que eu.
— E o Halhal? — perguntou a menina.
— Também.
— E a Kass? — Yasu agora estava ainda mais interessada na idade dos elfos.
— Eu sou considerada quase uma criança. — quem respondeu foi a própria Kassyeh – Antes da queda da nossa cidade, eu sequer poderia casar. Só éramos considerados realmente responsáveis depois dos cento e dez.
— Mas depois que nosso povo foi quase extinto, — continuou Vivithi – pessoas como a Kassyeh e as irmãs dela começaram a tomar responsabilidade de adultos logo que seus corpos chegam na maturidade, no caso, aos dezoito anos.
— Então vocês crescem mais ou menos como nós e depois param de envelhecer? — perguntou o vovô Pata Serena, admirado.
— Se estivermos próximos a uma fonte de magia, sim. — complementou Aethas.
— E nossa fonte de magia é a Nascente do Sol. — concluiu Kassyeh – Acho que podemos levá-los lá assim que voltarmos. — ela sorriu – Seria a primeira vez em anos que estrangeiros seriam permitidos na câmara da Nascente.
— Ficaríamos encantados com tamanha honra. — garantiu o vovô Pata Serena fazendo uma breve reverência.
Sorriram uns para os outros e continuaram com as compras, com Kassyeh escolhendo os produtos e Tewdric e Vivithi servindo para carregar os pacotes, Aethas apontava os lugares da cidade, descrevendo o que era cada um para o interessado Liu Pata Serena, enquanto as crianças corriam feito loucas à frente deles. Como em Luaprata, a presença dos pandarens, uma nova raça de um novo continente, atraia muita atenção. E o fato de estarem na presença de membros da Horda começou a levantar hipóteses que, em pouco tempo, chegaram aos ouvidos dos membros da Aliança. Antes do final do dia, aqueles boatos já estariam em Ventobravo, mas o grupo não desconfiava de nada. E, alheios a tudo, continuavam seu passeio.
Quando chegou a hora do almoço, Kassyeh decidiu que todos deveriam ir comer na taverna, afinal não daria tempo preparar comida para tantas pessoas em pouco tempo, e os filhotes já reclamavam de fome.
— Achei que você tinha dito algo sobre comer fora de casa não era saudável. — brincou Aethas, recebendo um duro olhar de sua sobrinha.
— É apenas uma exceção. — falou ela seriamente enquanto Aethas tentava não rir – Se não fossem as crianças, vocês teriam que aguentar a fome mais algum tempo enquanto eu preparava comida.
— Eu jamais pensaria o contrário. — disse o tio, com um sorriso. Kassyeh acabou sorrindo também.
Deixaram as compras em casa e se encaminharam para a taverna. Lá, pegaram uma mesa grande e logo estavam sendo servidos. As crianças abocanhavam grandes pedaços de comida e falavam ao mesmo tempo, deixando todos admirados de como eles não engasgavam. Foi um almoço tranquilo, regado a muita comida e bebida. Depois, caminhavam de volta para a casa de Aethas quando o vovô Pata Serena perguntou:
— Poderíamos visitar a Cidadela Violeta antes de voltarmos para Luaprata?
— Claro! — falou Aethas, animado – É um local muito bonito e tenho certeza que o senhor e as crianças adorariam.
— Vamos todos, então! — animou-se o pandaren e as crianças gritaram, excitadas.
Contudo, o pandaren percebeu que nem Kassyeh, nem Tewdric e muito menos Vivithi pareciam animados com a visita.
— Algum problema? — quis saber o vovô.
— Tenho muito o que cozinhar. — desculpou-se Kassyeh – Acho que não vou poder ir com vocês.
— Eu vou ajudar a Kass. — falou Tewdric – E a Vivi também, não é?
Vivithi tentou não olhar para Aethas quando assentiu em silêncio.
— Ora, vamos. — falou o pandaren – Quando voltarmos, eu ajudarei a cozinhar.
— Nós também! — falou Yasu levantando a patinha e os demais filhotes concordaram, com gritinhos.
Aethas sabia o real motivo pelo qual eles não queriam ir, mas nada falou. Talvez todos estivessem desconfiados com o que viram em Dalaran, mas não quisessem preocupar os pandarens, afinal, Aethas havia vendido uma Dalaran que já existira, mas se desvanecia cada vez mais à luz dos novos acontecimentos. Contudo, algo que aprenderam era que quando um pandaren queria algo, eles tinham a teimosia de um tauren ou pior. E diante da insistência do idoso pandaren e dos filhotes, coube a todos se encaminharem para a Cidadela Violeta, onde sabiam que não seriam exatamente bem recebidos.
O local estava deserto, exceto por alguns guardas, quando eles chegaram. Imediatamente, os filhotes tomaram a frente e passaram a correr loucamente pelo salão, sob as vistas preocupadas dos elfos.
— Então, é aqui que as decisões importantes da cidade são tomadas… — falou o vovô Pata Serena, admirado.
— Sim, e algumas das mais importantes decisões do mundo também. — empolgou-se Aethas – O Kirin Tor existe há mais de dois mil anos e somos seus aliados desde sua fundação.
Apesar de todas as coisas que aconteciam nos últimos tempos, a empolgação de Aethas em falar sobre o Kirin Tor e sua relação com os elfos sangrentos, fazia os demais perceberem porque ele aguentava calado tanta desconfiança e tantos problemas. O arquimago era realmente apaixonado por seu trabalho e por tudo que seu esforço garantia ao seu povo. Kassyeh ficou um pouco envergonhada de todas as coisas ruins que já dissera sobre o Kirin Tor, diante de tanta emoção com o qual seu tio falava. Vivithi, ao contrário, ficou chateada. Muito chateada. Se Luxuriah visse sua expressão naquele momento, poderia até mesmo acusá-la de estar com ciúmes do Kirin Tor, o que Vivithi negaria veementemente. Contudo, a forma com o qual Aethas se referia ao seu trabalho, lhe causava um incômodo imenso, principalmente porque tinha consciência que a recíproca não era verdadeira. Aethas podia ter todo daquele sentimento pelo Kirin Tor, mas com toda certeza o Kirin Tor não tinha o mesmo sentimento por Aethas, muito menos pela Horda. E Tewdric, ao contrário de todos, só queria ter trazido seu machado. Apenas por via das dúvidas, claro.
Não havia chegado há muito tempo, quanto Jaina Proudmore, acompanhada de Vereesa Correventos, se aproximaram dos visitantes. Aethas fez uma breve mensura às duas, mas apenas Jaina respondeu ao cumprimento. Vereesa e Vivithi trocaram olhares e nenhuma das duas estava satisfeita em ver a outra. Ainda não haviam esquecido o embate que tiveram no Baile de Inverno, mesmo que tivesse passado anos desde o acontecido. Vivithi ainda sentia revolta por não ter dado uns bons socos em Vereesa por essa falar mal de sua mãe e sempre que via a general-patrulheira do Pacto de Prata dizia a si mesma que, um dia, Vereesa ia pagar por seu insulto.
— Vejo que trouxe visitantes ilustres, Aethas. — falou Jaina olhando para os pandarens – Habitantes do novo continente, presumo.
— Sim, Grã-Senhora. — respondeu o arquimago – Esse é Liu Pata Serena, um dos habitantes da Vila Sri La. E esses são Yasu, neta do senhor Pata Serena e Shin, Jade, Hung, Sui, Lyang e Maki, crianças da vila. — e voltando-se para o idoso pandaren, apresentou – Vovô Pata Serena, essa é a Grã-Senhora Jaina Proudmore, líder do Kirin Tor e Vereesa Correventos, a general-patrulheira do Pacto de Prata.
— É um imenso prazer conhecê-la, Grã-Senhora e general-patrulheira. — falou o pandaren, fazendo uma reverência – É um prazer estar em sua cidade.
— É um prazer recebê-lo, senhor Pata Serena. — acenando com a cabeça – Ouvimos falar muito sobre seu povo, recentemente.
— E acho que uma das coisas que ouvimos foi que os pandarens se declararam como uma facção neutra. — falou Vereesa, sem esconder o desagrado em sua voz.
Liu Pata serena encarou a elfa com um leve espanto, pois não esperava tão abordagem. Vendo a expressão do pandaren, Jaina apressou-se em remediar:
— O que Vereesa quis dizer é que nos surpreende que os primeiros do seu povo a virem à nossa cidade tenham sido trazidos pelos Fendessol, apenas isso.
— Eles estão aqui como convidados meus e não emissários de seu povo. — falou Aethas educadamente – Acredito que logo o Kirin Tor receberá notícias dos representantes oficiais.
— Não estou entendendo, Aethas. — falou o pandaren confuso – Pensei que essa cidade fosse neutra.
— E é. — respondeu Jaina apressadamente – Desculpe se parecemos outra coisa, a general-patrulheira ficou apenas surpresa.
— Ainda assim, pareceu que ela estava nos acusando de sermos partidários da Horda. — continuou o velho pandaren, que apesar da aparência inofensiva, não era bobo – Como se isso fosse um crime nessa cidade.
— É um crime ser da Horda. — falou Veeresa antes que Jaina pudesse dizer qualquer coisa – Mas ainda não o é nessa cidade.
O pandaren franziu as sobrancelhas, espantado muito mais com o ‘ainda’ dito por Vereeesa do que por ela considerar ser um crime ser da Horda.
— Não estou entendendo. — continuou ele – Não é aqui que todos vivem em paz?
— Por favor, Vereesa. — pediu Jaina olhando para a general-patrulheira – Nossos visitantes não precisam ser imersos em disputas internas.
— Então há disputas. — O velho pandaren ficou visivelmente decepcionado – Parece que tudo que me disseram não corresponde realmente à realidade.
— Vovô. — falou Aethas colocando a mão no ombro do pandaren – Dalaran ainda é um Santuário e assim permanecerá, não é mesmo, Grã-Senhora? — e olhou para Jaina.
— Mas é claro. — afirmou – Infelizmente, rixas pessoais são inevitáveis em um grupo grande. — e olhando para Vereesa, perguntou – Você não tinha um trabalho para fazer Vereesa? Pode ir. Eu vou mostrar a Cidadela para os visitantes junto com Aethas.
Vereesa encarou Jaina com uma visível decepção, mas não a questionou. Fez um breve aceno com a cabeça para ela e saiu, pisando duro. Vivithi, que até então estava com o queixo travado de tanta tensão, acompanhou a saída de Vereesa, desejando estar com seu arco e enfiar uma flecha bem na nuca da outra.
— Qual o problema dela, hein? — quem perguntou foi Yasu, que de boba não tinha nada – Ela parece com vocês, mas, ao mesmo tempo, é diferente. — falou olhando para Kassyeh e Vivithi.
— Nós já fomos um povo só, Yasu. — falou Kassyeh – Mas, por discordâncias, nos dividimos.
Jaina só reparou uma das elfas presentes era uma das princesas quando esta falou. Fez uma mensura, como se deve fazer à realeza e Kassyeh retribuiu.
— Ah, vejo que sua sobrinha voltou ao lar. — falou gentilmente, tentando apagar a má impressão deixada por Vereesa – Fico feliz que esteja bem, alteza.
— Obrigada, Grã-Senhora. — agradeceu Kassyeh educadamente – Vim brevemente à cidade para resolver algumas pendências de família e também para trazer as crianças aqui. — a elfa gesticulou para as crianças, que estavam anormalmente quietas – Meu marido Tewdric e Vivithi vieram para me ajudar com tanta energia.
Quando Jaina viu Tewdric, uma breve surpresa passou por sua face, mas ela logo a controlou. Aethas suspeitou que fosse pelo fato de Kassyeh ter apresentado Tewdric como marido, mas não era o caso. Jaina, que durante anos fora amiga íntima de Thrall, ficara impressionada com a semelhança de Tewdric om o antigo líder da Horda. E não era apenas os profundos olhos azuis, tão raros entre os orcs, mas também por sua postura ereta e porte altivo. Eram traços tão distintos que foi impossível não pensar que poderia haver algum tipo de parentescos entre os dois orcs. Contudo, ela nada falou, apenas fez um gesto para a escadaria da Cidadela e convidou.
— Venham, faço questão de conduzi-los por aqui. Há muito ainda o que se ver.
O passeio foi agradável, mas mais contido que quando chegaram. As crianças se contiveram de forma anormal, mesmo que tivessem um monte de perguntas que quisessem fazer. A forma como Vereesa os recebera deixaram-nas desconfiadas e nem mesmo a simpatia de Jaina para os pequenos os fizeram relaxar. Apenas Yasu se dispôs a falar com a maga, e apenas quando o passeio já estava no fim. A menina queria fazer uma pergunta:
— A senhora é humana, não é? — perguntou.
— Sim, eu sou. — respondeu Jaina gentilmente – Você já tinha visto humanos antes?
— Sim. — respondeu a menina – Nós salvamos dois humanos quando as brumas abriram. Igual salvamos a Kass e o Ted.
Kassyeh ficou imediatamente em alerta, com medo que Yasu acabasse revelando os nomes de Pandora e Pietro e aquilo, de alguma forma, os prejudicassem. Mas a menina se calou e foi a vez da maga falar.
— É mesmo? Que coisa boa! Isso torna seu povo realmente especial, Yasu. — elogiou Jaina.
— Nós não tomaremos lado. — falou o vovô Pata Serena, ainda chateado pela forma como Vereesa falara com eles – Conviveremos com aqueles que quiserem conviver conosco.
— E acho que vocês estão certos. — garantiu Jaina – E espero que voltem mais vezes em Dalaran.
— Desde que vocês continuem como um Santuário, voltaremos. — disse o pandaren.
— É o que todos desejamos. — falou Aethas, olhando significativamente para Jaina.
— Sim, todos desejamos. — ela confirmou.
As crianças se despediram educadamente de Jaina e todos já estavam e encaminhando para a saída quando, inesperadamente, Jaina Proudmore chamou:
— Senhor Tewdric. — o orc virou-se, surpreso – Desculpe-me a pergunta, mas por acaso o senhor pertence ao clã Lobos do Gelo?
Aethas viu os olhos de sua sobrinha se arregalarem diante da abordagem da Grã-Senhora ao seu marido. Vivithi também reparou e colocou a mão no ombro de Kassyeh, para contê-la em qualquer eventualidade.
— Não tenho clã. — falou Tewdric confuso com a pergunta. — Não que eu saiba, pelo menos.
— Ah! — ela exclamou, um pouco envergonhada – Desculpe-me pela inconveniência. Apenas o achei parecido com… um velho conhecido.
— Foi um prazer novamente, Jaina. — falou Aethas apressadamente antes de tirar rapidamente todos dali.
Tão logo se afastaram, o que Aethas temia aconteceu. Kassyeh virou-se raivosa para ele e perguntou, rispidamente:
— O que aquela lambisgoia queria com meu marido?!
Tewdric deu uma gargalhada alta e logo agarrou Kassyeh.
— Minha Kass tá com ciúmes?
— O que você acha? — falou ela se livrando do abraço dele – Ela estava olhando para você! E que pergunta foi aquela?!
— Calma, minha Kass, você sabe que só quero uma pessoa: você… — disse ele, tentando acalmá-la.
— Acho bom! Ou eu arranco seu… — ela se conteve na ameaça, vendo as crianças que prestavam atenção na cena e completou – Você sabe o quê!
Tewdric apenas sorriu e a abraçou novamente.
— Eu não quero mais ninguém na minha vida além de você, minha Kass. — reforçou de forma apaixonada, fazendo a elfa relaxar um pouco mais, ainda que mantivesse a expressão de desagrado no rosto.
— A Grã-Senhora provavelmente o achou parecido com algum amigo. — falou o Vovô Pata Serena, querendo ajudar na situação – O que seria estranho, já que ela é humana e ao que me parece, tal amizade seria impossível aqui… Não em Pandaria, mas aqui sim. — disse lembrando da interação entre Pietro e Tewdric.
— Antigamente ela tinha um amigo orc. — revelou Aethas – Alguém que ela era bem próxima.
— E a quem ela virou as costas, mesmo que o que aconteceu não tenha sido culpa dele. — falou Vivithi, depois de um bom tempo calada.
— Bem, é uma honra para mim parecer com Thrall. — falou Tewdric – Apesar de achar que só temos a cor dos olhos em comum.
— Não é para você achar nada! — reclamou Kassyeh dando tapas no braço dele, ficando aborrecida mais uma vez.
O orc desatou a rir deixando sua esposa ainda mais brava. E, enquanto caminhavam de volta para a casa de Aethas, com as crianças voltando a correr livremente, já esquecidas das tensões, Aethas se aproximou de Liu Pata Serena e perguntou:
— Então, o que o senhor achou de Dalaran? — perguntou, ansioso pela resposta do pandaren.
— Você disse que aqui é como seu segundo lar, certo? — perguntou o idoso.
— Sim. — confirmou o elfo.
— Bem, acho que não será por muito tempo. — decretou, com um ar de tristeza na voz.
E Aethas perdeu a voz, sem conseguir achar uma resposta apropriada para oferecer ao velho pandaren.
*****************
As tendas foram montadas no final da tarde e uma grande fogueira foi acesa no meio do acampamento. Dois pandarens, que haviam decidido acompanhá-los, começaram a cozinhar e, em pouco tempo, todos estavam sentados em volta do fogo, provando uma maravilhosa e quente refeição. O vento no Monte Kun-Lai não arrefeceu, soprando frio e desafiando os viajantes, mas todos estavam satisfeitos apesar de cansados. Em determinado momento, os estudiosos do Relicário que acompanhavam o grupo pegaram instrumentos e começaram a tocar, para o deleite do grupo.
Antes da queda de Luaprata, aquela cena era comum. Elfos tocando e cantando. Sempre foram um povo festivo e que apreciava a música, fato que fez pessoas como Lady Luelly terem muita influência e poder na sociedade élfica. Porém, quando Arthas praticamente os aniquilou, se tornaram um povo silencioso e melancólico. A música, que se ouvia em cada esquina da cidade, foi silenciada. Após a coroação da rainha Karensky, as coisas começaram a mudar. Não apenas ela era neta da mais famosa barda que os elfos já tiveram, mas também era ela própria uma fabulosa cantora, junto com suas irmãs. Aquilo os incentivou a tirar a poeira dos instrumentos musicais e aquecer as cordas vocais. E a música voltou a Luaprata.
Halduron, como toda criança de sua época, fora incentivado a aprender a tocar algum instrumento. E apesar de não ter nem um terço do talento que Dhomm tinha, ele se arriscava às vezes. E, como estava com um bom humor que não tinha há eras, pediu um dos bandolins aos estudiosos e arranhou algumas notas musicais, acompanhando-os.
Aquela atitude surpreendeu o próprio Halduron. No dia anterior estava melancólico, depressivo, ouvindo a voz de sua irmã na cabeça e vendo coisas que não existiam diante de seus olhos. Porém, naquele dia, seu coração estava mais leve e sua mente bem fincada no presente. Bem, nem tanto. Ele pensava no passado enquanto seus dedos dedilhavam o bandolim. Mas era um passado bem recente
Halduron pensava no encontro com Pandora mais cedo naquele dia.
Quando percebera que seu grupo estava sendo seguido, ele pensou logo na AVIN. Não seria surpresa que o serviço de inteligência da Aliança estivessem seguido-os, já que seu grupo era composto majoritariamente por não-combatentes membros do Relicário, famoso por estudar artefatos mágicos, e isso despertava muito atenção. O que procurariam? Como podemos nos adiantar a eles? Se a situação fosse o contrário e Halduron soubesse que havia um grupo da Liga dos Exploradores, também enviaria algum espião para conferir. Todavia, logo o general-patrulheiro percebeu que a pessoa que os seguia era amadora para um espião, apesar de habilidosa. Talvez fosse algum tipo de caçador ou patrulheiro que os seguia. E depois de ver tanto sangue derramado na Vila Binan e no Coração da Serpente, ele decidiu que espantaria quem quer que os seguisse, sem chamar a atenção dos outros, para que ninguém mais se machucasse.
Se afastar do grupo não foi difícil, afinal, ele era o comandante. Falou brevemente com Revas, um dos elfos que o acompanhava e disse que vira uma fera de seu interesse e iria até ela. O jovem elfo não disse nada, apenas assentiu. Revas fora o rapaz que levara o recado de Nazgrim até ele e também que limpara sua armadura, além de levar-lhe roupas limpas. Descobrira que ele era um patrulheiro recém-saído do treinamento e que fizera questão de ir a Pandaria. Halduron simpatizara com o rapaz; decidiu tê-lo por perto para guiá-lo. Afinal, ele era quieto, calado, obediente, mas eficiente. Halduron apreciava aquelas qualidades.
Encontrar a pessoa que o seguia não foi difícil. Para sua surpresa, a jovem mulher humana não fugiu com sua chegada. Só que suas surpresas não haviam terminado. Além de bela, ela era impetuosa e o conhecia. O conhecia, ainda que por um breve encontro dois anos antes. De alguma forma, Halduron soubera que causara uma impressão forte nela, a ponto de isso se tornar o motivo de uma imensa frustração quando ele não a reconheceu. E claro que ele não a reconheceu: a vira um pouco mais de uma criança, alta e magra, ainda que ostentasse um rosto arredondado. A mulher a sua frente era bem diferente da adolescente de suas lembranças. Seu corpo tomara formas voluptuosas, músculos definidos, mas sem exagero e um olhar marcante. Halduron tinha certeza que só a reconheceu finalmente por causa daquele olhar.
Fora um encontro breve e intenso, do qual restava uma fita de cabelo em seu bolso e uma inquietante sensação em seu peito. Estava feliz em ver que Pandora crescera e agora estava se aventurando, algo que ela desejara quando mais jovem. Estava triste porque, agora que saíra pelo mundo ao lado da Aliança, Pandora se tornara sua inimiga. E, para completar, estava preocupado em saber qual fora o destino de Pietro. Teria ele melhorado ao ponto de sua irmã estar mais livre de suas obrigações ou acontecera o pior? Esperava que fosse a primeira opção.
Fosse o que fosse, o encontro inesperadamente o deixara com um entusiasmo que nãos entia há muito tempo. Acreditava que isso devia ao fato de ver que, independe do que acontecesse, a vida seguia, o mundo andava e que o futuro chegaria, alheio às suas dores. Que, se não se movesse, ficaria preso à lembranças que apenas trazia dor. Ou isso, ou o encontro o deixara tão eletrizado que a adrenalina ainda não se esvaíra.
Quando só instrumentos silenciaram, a plateia bateu palmas animadamente e pediram outra música. Os dedos de Halduron doíam como não doíam há tempos, então ele negou com a cabeça e entregou o bandolim ao seu dono. Depois, pegou mais uma porção de sopa e se aproximou do fogo. Tinah terminado o prato quando Revas se aproximou.
— General. — chamou ele – Os batedores voltaram. Estão na tenda da enfermaria.
Halduron assentiu, preocupado e levantou-se.
— Algum ferido gravemente? — perguntou enquanto se dirigiam apr a atenda.
— Não, senhor. Apenas ferimentos moderados.
— Aliança? — perguntou, sentindo um aperto noc oração. Esperava que seu grupo não tivesse encontrando Pandora e engajado um combate com ela.
— Não, senhor. — respondeu, para o alívio de Halduron – Yaungols.
Na tenda, dois elfos sangrentos, um rapaz e uma moça, eram tratados por uma trollesa. Os ferimentos eramr ealmente moderados e estava sendo facilmente curados pela druidesa. Quando viram Halduron entrar, só elfos tentarams e levantar, mas foram logo impedidos pela trollesa.
— Fiquem quietos! — ordenou ela – Não tão vendo que vocÊs tão tudo ferido? O general aíi pdoe passar sem uma continência!
— Hermenegilda está certa. — falou halduron calmamente – O importante é que vocês se recuperem.
Os doisa ssentiram.
— Qual a situação? — perguntou ele.
— Os yaungols têm um posto militar a nordeste daqui. Eles tem paramentos de ataque e um são numerosos. — disse a elfa.
— Eles tema tacado uma vila a norte deles, onde moram grômulos e pandarens. — continuou o elfo – Na Verdade, eles atacam tudo o que veem. — e franziu oc enho, colocando a mão sobre a barriga enfaixada.
— Todavia, não vimos nenhum sinal das ruínas naquela direção. — avisou a elfa – Então, podemos evitar o local.
— Se podemos evitá-los, ótimo. — concordou Halduron – A maioria aqui não é combatente e não quero colocá-los em perigo. — ele pensou um pouco – Revas, me traga um mapa.
O elfo assentiu e prontamente atendeu o pedido. Halduron estendeu o mapa do monte Kun-Lai em uma pequena mesa e analisou.
— O local dos yaungols é por aqui? — perguntou apontando uma região a nordeste da localização deles.
— Isso mesmo, senhor. — afirmou a elfa.
Halduron assentiu.
— Então excluiremos esse local de nossa rota e não enviarei mais ninguém para lá. Voua apenas mandar uma mensagem para o grupo no Repouso do Venmto do Leste. Talvez Nazgrim consiga alguns campeões que cuidem dessa ameaça. — ele analisou um pouco mais o mapa – Já que não vamos seguir a nordeste, podemos mantar alguns batedores a noroeste, procurando o melhor caminho para evitar as forças da Aliança.
— Nós podemos fazer isso, general. — falou a elfa e o elfo confirmou com a cabeça – Acredito que amanhã estaremos novos em folha.
Halduron hesitou por um momento e se dirigiu à druidesa.
— Hermenegilda, eles estarão bem amanhã para seguir patrulhando?
— Ah, pode ter certeza. — falou a trollesa sorrindo e mostrando todas as suas presas – Uma noite tomando meus bagulhos e amanhã eles estarão prontos para chutas as bundas magras da Aliança.
Os elfos riram e Halduron afirmou com a cabeça.
— Descansem e tomem os ‘bagulhos’, então. Amanhã será outro dia.
E dizendo isso, saiu da tenda.
— O senhor também devia descansar, general. — disse Revas a Halduron, assim que saíram da tenda – Eu o chamo em qualquer eventualidade.
Normalmente Halduron não aceitaria o oferecimento, mas percebeu que não custava nada tentar dormir. Provavelmente não conseguiria, mas não custava nada tentar.
— Farei isso. Me chame em caso de emergência.
Revas bateu continência e Halduron se retirou para sua tenda.
Apesar de rústicas, as tendas que os pandarens lhes venderam era bem mais confortáveis do que a que os elfos costumavam a ter. Mais uma coisa que precisavam aprender com outro povo, pensou enquanto despia a armadura. Colocou uma calça e camisa de mangas compridas de lã, para lutar contra o frio do Monte Kun-Lai e deitou-se, puxando um pesado cobertor sobre seu corpo. Porém, não procurou dormir. Acendeu o lampião ao lado da cama e ficou analisando a fita que havia escapado do cabelo de Pandora naquele dia.
O encontro com Pandora mais cedo suscitara sensações estranhamento boas, mas também o preocupava. Se uma jovem inexperiente estava por ali, a Aliança certamente trouxera pessoas que a liderassem. E se os elfos do Relicário já sabiam das ruínas, a Liga dos Exploradores também sabiam. Será que Pandora estava trabalhando com eles? Achava difícil. Ela estava sozinha e tão desguarnecida que devia estar fazendo algo para si própria. O que seria? O que a levara ao meio de um local seco, deserto, gelado e perigoso como o Monte Kun-Lai? A curiosidade fervia dentro dele e se pegou pensando que devia ter dado um jeito de interrogá-la, ainda que gentilmente. Depois a liberaria, claro, não queria que ela se tornasse prisioneira, mas podia ter informações importantes. Bem, esperava que seu encontro com ele a tivesse deixado irritada e com medo ao ponto de ir embora dali. Não queria que ela corresse nenhum tipo de perigo.
“Eu sou muito mole mesmo.”, pensou enquanto deslizava a fita dela entre seus dedos. “Estou aqui a mando da Horda, mas me preocupo com a integridade de um membro da Aliança.”
— Claro que se preocupa, você a conheceu antes, não foi? A jovenzinha e seu irmãozinho? — falou em sua cabeça a voz de sua irmã – E aqueles dois te lembrou a nós dois, não foi? Eu sei que foi. Nossas aventuras por Luaprata… Você nos viu neles, ainda que fossem apenas dois jovens humanos….
Halduron se remexeu inquieto no saco de dormir e pensou que devia esquecer aquele encontro e esquecer Pandora. Pegou a fita e a aproximou do fogo do lampião, disposto a queimá-la e tirar as coisas de sua cabeça. Porém, no último segundo, perdeu a coragem. Encarou a fita mais uma vez e acabou enrolando-a e amarrando em seu pulo. Depois, com um sopro, apagou a chama do lampião e se aconchegou embaixo do pesado cobertor de lã de iaque. Podia até não conseguir dormir, mas tinha que, pelo menos, tentar.
Em pouco tempo, Halduron adormecia, um sono pesado e sem sonhos. Um sono restaurador, como se seu corpo soubesse o que o aguardava e o preparasse para todas as emoções que se seguiriam nos dias seguintes.
*****************
— Ela estava de olho nele que eu sei! — reclamou Kassyeh pela milésima vez para as irmãs – Eu queria ter metido uma lança de gelo naquela cara humana horrível!
Luxuriah deu uma risada.
— É tão bom ver você querer matar uns humanos, Kassyeh. — elogiou satisfeita enquanto tomava uma taça de vinho – Não é seu usual.
— Eu não quero matá-la porque ela é humana. — corrigiu Kassyeh – Quero matá-la porque ela estava olhando para meu marido!
— A Kass é bem ciumenta, não é? — divertiu-se Ash enchendo a própria taça com vinho – Se fosse eu, ficaria feliz porque eu teria Lor’themar e ela não. Despertar inveja nas outras é satisfatório.
— Eu não quero despertar inveja em ninguém! — decretou a maga – Eu quero que apenas eu queira o Tewdric!
— Pelo que eu me lembre, você lidou muito bem com seu ciúme com Lyndonna. — lembrou Luxuriah.
— Mas não foi aquela que a Kass brigou e destruiu a taverna dos pais da Saba? — perguntou Karen, a única que nãoe stava bebendo, mas comia bombons.
— Sim, mas, pelo menos, foi Lyndona quem começou a briga e não a Kass. — avisou a outra.
As quatro irmãs estavam reunidas após o jantar, três dias depois da visita de Kassyeh a Dalaran. Liu Pata Serena ainda estava na cidade, mas já havia se recolhido. As crianças foram levadas por Tewdric para dormir também e estavam apenas as princesas, sentadas na varanda da Torre Solfúria, num raro momento apenas delas. Kassyeh andava de um lado para o outro, revoltada, recontando para as irmãs a abordagem de Jaina Proudmore ao seu marido e elas ouviam tudo calmamente, esperando que colocar tudo para fora ajudasse a maga a lidar com o ciúme.
— Você não devia se sentir assim, Kass. — falou Karen, pensativa – O Ted ama você. Isso não basta?
— Karen, eu sei que ele me ama. — disse Kass – E sei que ele nem pensaria em ficar com outra. Mas… — ela suspirou – É difícil de explicar, certo? Eu simplesmente não quero que ninguém sinta por ele o que eu sinto!
— Mas eu amo o Ted! — retrucou a menina, ofendida
— Você é diferente, Karen. Você é a filhinha do Ted. O bebê dele. O meu bebê também – falou a elfa carinhosamente e a menina sorriu – O amar que eu falo envolve… — a maga deu uma pausa, sem saber como completar.
— O que ela quer dizer, Karen, é que a Kass não quer ninguém desejando o corpo sarado e verde de Tewdric. — Luxuriah explicou com um sorriso malicioso – O que não necessariamente envolve amor.
— Mas pelo que eu entendi, — continuou Karen – ela só o achou parecido com o Thrall, não é? Então, por que o ciúme?
— Eu não controlo o que eu sinto! — decretou Kassyeh jogando as mãos para cima.
Enquanto Karen tentava entender os sentimentos de Kassyeh e Luxuriah se divertia com a cena, Ash se perguntava se aquela seria a melhor hora para abordar sua ida a Pandária. Sabia que o assunto seria debatido entre elas mais cedo ou mais tarde, mas quanto mais tempo demorava, mais medo ela tinha de Kassyeh mudar de ideia. Porém, nãoa diantava falar enquanto Kassyeh estava borbulhando em raiva e ciúmes.
— Kass. — Ash chamou e a irmã a olhou – Mesmo que essa tal Jaina tenha olhado para o Ted, deve ter sido apenas por achá-lo parecido com o Thrall e não por causa do próprio Ted. Então, quem deveria se preocupar é a esposa do Thrall e não você.
Aquela ideia não havia passado pela cabeça de Kassyeh, que ficou pensativa, diante do que a irmã dissera.
— Olha, isso eu queria ver: a senhora Aggra fritando aquela tal Proudmore. — riu-se Luxuriah.
— Então, a líder do Kirin Tor, ao olhar o Ted tava vendo o antigo Chefe Thrall? — perguntou Karen curiosa – Eles são parecidos assim mesmo?
— Eu não acho. — falou Kassyeh, já mais calma – Quer dizer, ambos tem olhos azuis e eu não conheço nenhum outro orc com olhos daquela cor, mas fora isso…
— Eles são parecidos sim. — falou Luxuriah – Eu nunca dei bola porque achava todos os orcs parecidos, mas depois de um tempo, percebi que não era bem assim.
— Queria conhecer o senhor Thrall. — desejou Karen, sonhadora – Para ver se ele parece mesmo assim com o Ted.
— Você já conheceu. — falou Kassyeh, agora completamente calma, sentando-se novamente com as irmãs e pegando a taça de vinho que Luxuriah ofereceu – Foi quando nos juntamos à Horda. Você se pendurou no Martelo da Perdição e a mamãe quase teve um troço!
As irmãs mais velhas começaram a rir, mas Karen apenas franziu o cenho.
— Mas não conta, porque eu não lembro. — o rosto dela se iluminou – Será que eu posso convidá-lo para vir em Luaprata? Para eu conhecê-lo?
— É uma excelente ideia. — elogiou Kassyeh – Tewdric ficaria empolgadíssimo.
— Então está decidido! — falou Karen se levantando com as mãos na cintura e um imenso sorriso – Vou convidá-lo para Luaprata amanhã!
— Isso é bom, porque dá tempo ele vir antes de eu e Tewdric voltarmos para Pandaria.
O sorriso de Karen morreu na mesma hora e ela se virou para a irmã, franzindo o cenho.
— Vocês não vão voltar para lugar nenhum! — decretou.
Luxuriah e Ash se encararam e colocaram as taças em cima da mesa de centro. O embate começara.
— Karen… — começou Kassyeh carinhosamente.
— Não me venha com “Karen”! — cortou a menina – Vocês passaram meses longe de casa! Depois, semanas em Pandaria! Eu quero vocês em casa! Seguros!
— As voltas que o mundo dá… — recitou Luxuriah com um suspiro – Sei exatamente como você se sente, Karen, e você vai aprender, como eu aprendi, que não adianta tentar impedir a Kass de nada. Ela fará o que quiser, mesmo que isso nos desagrade. Então, ouça meu conselho: deixe-a ir.
— Não! — insistiu a menina – Eu não quero eles longe!
— Eu também não queria que você fosse rainha, mas cá estamos. — continuou a mais velha – Você já devia saber que não dá para conseguir tudo.
Karen cerrou os punhos e estava preparando para um revide, quando Ash achou que seria ideal simplesmente jogar mais lenha na fogueira, para qualquer problema já ser resolvido logo.
— Eu também vou.
Agora foi a vez de Luxuriah mostrar a mesma expressão que Karen e as duas, a mais velha e a mais jovem encarem-na, surpresas.
— Como assim, você vai? — perguntou Luxuriah horrorizada.
— Quem decidiu isso? — inquiriu Karen.
— Eu. — falou Kassyeh tranquilamente, tomando sua taça de vinho – Eu a chamei para ir. Ash precisa se aventurar para desenvolver suas habilidades.
Houve uma explosão de reclamações, agora partindo também de Luxuriah. Aparentemente, apenas Kassyeh podia fazer o que queria, pensou Ash chateada. Quando fez menção de revidar as reclamações das irmãs, Kassyeh fez um sinal para que ela não se envolvesse, o que Ash atendeu com prazer. Depois que Luxuriah e Karen esgotaram sua cota de reclamações, Kassyeh pousou tranquilamente a taça no centro e fez um gesto para que Karen sentasse. A menina se jogou na cadeira, visivelmente irritada.
— É necessário que, pelo menos uma de nós vá. — começou a maga tranquilamente – Eu sei disso. Vocês sabem disso. Grito Infernal não vai ficar satisfeito apenas com nosso general-patrulheiro em Pandaria. Ele mesmo deve ir em breve e teremos que segui-lo. — Karen fez menção de falar algo, mas Kassyeh a cortou – Deixe-me terminar, Karensky. — a menina fechou a boca e apertou os lábios – Você precisa ficar em Luaprata e Luxuriah tem uma filha pequena. O ideal é que eu vá. Alguma de vocês duas discorda dessa parte?
— Não. — responderam as duas, a contragosto.
— Ótimo. Com relação a Ash, é simples também. Ela precisa de experiência. Ficar em Luaprata está atrasando-a. Então, é melhor que ela vá comigo e com o Tewdric que podemos ajudá-la e protegê-la quando necessário. — Kassyeh deu uma pausa, esperando que alguma das irmãs falasse algo, mas elas continuaram em silêncio – Eu sei que vocês não gostam disso. — sua voz assumiu um tom mais maternal – Eu também preferiria ficar em casa com vocês. Só que, infelizmente, não podemos nos dar esse luxo. Por favor, não deixem isso mais difícil.
Luxuriah suspirou, vencida.
— É duro admitir, mas você está certa, em ambos os casos. — e olhando para Ash, continuou – Vamos encomendar os melhores equipamentos para você. Se você vai para a boca do lobo, que vá preparada.
— Bolota ficará animado de poder sair de Luaprata! — comentou Ash, animada.
— Eu ainda não concordei! — exclamou Karen revoltada.
Kassyeh deu um sorriso tranquilizador para a irmã mais nova.
— Tenho certeza que, como uma rainha inteligente e prudente, você perceberá que essa é a melhor forma de lidar com a situação.
Karen se colocou em pé, de um pulo.
— Eu vou pensar! — anunciou – E amanhã eu digo se eu concordo ou não. Tenham uma boa noite! — e saiu pisando duro em direção ao interior da torre.
Assim que a menina ficou fora de vista, as irmãs caíram na risada. Aquela encenação de poder de Karen era apenas para não dar o braço a torcer e admitir que a ideia de Kassyeh fazia todo o sentido. Então, as outras apenas deixaram-na fazer como queira.
— Nossa… Eu esperava mais drama. — admitiu Ash – E achava que você me ameaçaria com prisão na torre ou algo assim. — completou, olhando para Luxuriah.
— Vontade não falta, mas Kassyeh tem razão. Alguém precisa estar lá e a melhor é ela. E se você precisa se aventurar, que faça em segurança. — a elfa se espreguiçou, antes de relaxar – Acho que esse negócio de ser mãe está me destruindo, estou ficando mole demais.
— Pelo contrário, você está mais tolerante. — elogiou Kassyeh – E eu gosto dessa sua nova versão.
— Imagine quando você tiver um bebê, Kass. Será que vai se tornar mais calma ainda ou vai ficar estressada? — perguntou Ash pensativa.
Kassyeh deu um sorriso triste.
— Acho que nunca saberemos. — falou desviando a vista para o centro da mesa, onde pegou novamente sua taça de vinho.
— Espere aí. — falou Luxuriah, sentando na ponta da cadeira, alerta – Você e o Tewdric desistiram de ter bebês?!
— Ah, não! — exclamou Ash horrorizada – Vocês precisam ter um bebê!
— A questão não é desistir. A questão é que eu estou certa que não podemos ter bebês. — a forma fria com o qual Kassyeh falava deixou as irmãs preocupadas – Estamos juntos há seis anos. Nunca usamos nenhum método contraceptivo. E, nos últimos dois anos, recorremos à poções e tentamos sem parar. E não vem nenhum bebê. Acho que está na hora de encaramos o fato de que um de nós dois seja estéril. Ou, que as nossas raças simplesmente não procriem juntas.
Luxuriah e Ash se entreolharam, visivelmente preocupadas com as palavras de sua irmã.
— Ah, não fiquem assim. — pediu Kassyeh – Não é o fim do mundo. Eu ainda posso ser mãe. Quando as coisas se acalmarem, conversarei com o Tewdric para adotarmos. Quem sabe algum filhote pandaren? Eles são tão fofos, não é?
— Então é isso? Você está desistindo? — questionou Ash.
— Bem, se desistir significa que eu vá parar de fazer sexo com meu marido, a resposta é não. — Kassyeh riu – Definitivamente não! — e ficando séria novamente, complementou – Só estou dizendo… Que há muitas coisas a considerar.
Antes que qualquer uma das irmãs dissesse algo, passos pesados foram ouvidos e Tewdric apareceu na varanda.
— Parece que a Karenzita já sabe que vamos voltar para Pandaria. — avisou – Eu passei no quarto dela para dar boa noite e ela me expulsou, me chamando de traidor. — ele deu uma risada – Amanhã eu encho ela de beijinhos de desculpas. — e olhando para Ash, perguntou – E você, Ashzinha? Ansiosa para nossa aventura em Pandaria?
No momento Ash não estava ansiosa por nada, chocada demais com a revelação da irmã, mas forçou um sorriso para Tewdric.
— E por que não estaria? Vamos matar muita Aliança!
Tewdric deu uma gargalhada.
— Esse é o espírito, Ashzinha! — e virando-se para Kassyeh, perguntou – Não está com sono, Kass?
— Sono é? — Luxuriah perguntou, tentando não parecer afetada pelo que fora dito por Kassyeh – Mudou de nome?
Tewdric riu mais, e Kassyeh corou um pouco.
— Bem, acho que estou com muito sono. — brincou a maga colocando a taça novamente no centro de mesa – Tenha uma boa noite, meninas. — e sorrindo para as irmãs, acompanhou Tewdric.
Quando ficaram apenas as duas, Ash encarou demoradamente Luxuriah.
— Confesso que você ir para Pandaria me chocou menos do que o que a Kassyeh acabou de falar. — disse a mais velha, ainda em choque.
— Será que ela realmente perdeu as esperanças? — perguntou Ash, preocupada.
— Quero acreditar que não. — falou Luxuriah, preocupada e triste – Não seria justo com a Kassyeh. Não depois de eu ter uma filha. Eu que nem poderia… — as palavras dela se perderam e Ash segurou sua mão.
— Não fique assim, ok? Vamos manter a esperança. E a Kass tem razão. Ela não precisa engravidar para ser mãe, não é? Eu adoraria ter um sobrinho pandaren. — Ash sorriu – Rumaríamos para ser a família mais diversa de Azeroth!
O sorriso que Luxuriah deu era triste, mas tentou não parecer muito desesperançosa para Ash. Apertou a mão da irmã e depois, aconselhou:
— Acho que você deve ir deitar. Amanhã teremos que ouvir de Karen que ela deixa você ir e depois começar a busca pelos equipamentos. Descanse.
— Tem razão. — Ash hesitou um pouco e então deu um beijo na bochecha de sua irmã – Durma também. Duvido que o humor de Tinuviel continuará bom quando ela souber que os novos amiguinhos vão embora. — e com um último sorriso deixou a irmã.
Quando se viu sozinha, Luxuriah se inclinou e colocou as duas mãos no rosto, os cotovelos apoiados nos joelhos. As coisas estavam bem mais fáceis quando tinha que lidar apenas com a ameaça dos mogus e da Aliança em Pandaria. Filhas pequenas teimosas, irmãs mais jovens estressadas, desesperançadas e temerárias, além de um tio em perigo exigia muito mais de sua sanidade. Pelo menos fizera essas descobertas enquanto estava em casa, onde podia se refugiar nos braços de Rommath, a única coisa ainda estável em sua vida. Devia descansar e começar a se preparar para ficar ao lado de Karen enquanto ela lidava com a politica de Luaprata e confiar a Kassyeh o desenvolvimento de Ash. Era o que podia fazer no momento.
E conservar a esperança que, um dia, as quatro irmãs pudessem ficar em casa, sem guerras para separá-las, sem medo do futuro e, de preferência, com um monte de crianças correndo ao seu redor.
Fale com o autor