Herdeiros da Guerra

56 Capítulo XXXII – Juntos (Parte II)


Notas iniciais
Olá pessoal! Espero que estejam em casa, se vc não trabalha em serviços essenciais! São tempos difíceis, mas vamos superá-los! Espero que gostem do capítulo! ♥

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O sol havia nascido a pouco tempo e iluminara os viajantes, cada grupo a uma distância de metros do outro, com a entrada para a vila Sri La bem no meio. Se encaravam de cima de suas tartarugas, ambos estavam cautelosos e preocupados, nenhum querendo ser o primeiro a agir, analisando o grupo rival. De um lado, dois humanos e uma worgenin. Do outro, dois elfos e um tauren.

— Foram esses que você farejou, Rubrarosa? — perguntou Lina num murmúrio encarando o grupo a alguns metros de distância.

— Esses mesmos. — respondeu a worgenin.

— Há um paladino com eles. — falou Vincent com uma ponta de esperança – Talvez eu possa negociar com ele…

— Tenho minhas dúvidas… — Lina não conseguia despregar o olho da elfa que vinha a frente do grupo e os olhava com tanto desprezo que a general tinha certeza que, se pudesse, os mataria com aquele olhar.

Era exatamente aquela vontade de Luxuriah: exterminar aqueles três com seus olhos. Principalmente o homem, que vestia uma armadura dourada e brilhante. Apenas sua visão dava ânsias de vômito em Luxuriah. Que ironia, pensou, logo o humano ser um paladino. Talvez aquela fosse a única coisa que a impedia de puxar seu arco e meter uma flechada nele, pois Snetto logo murmurou:

— Um paladino… Acho que posso falar com ele….

— Eu não confio em nenhum humano, Snetto. — disse incisiva – Mesmo que eles se autodenominem servos da Luz….

— Acho que eles não querem lutar, Lux. — falou Mhuu – Talvez só queiram passar por aqui…

Não, não queria apenas passar, Luxuriah tinha certeza. Se fosse, já teriam sinalizado a passagem. Ao parar tão perto da entrada da vila e aguardarem, seu objetivo era o mesmo que o deles: entrar em Sri La. O que queriam ali? Já sabiam de Kassyeh e vinham sequestrá-la? Se fosse, estaria muito encrencados. Tewdric acabaria com eles, sem dúvida. Ou poderia ser, e Luxuriah não queria pensar naquilo, os estrangeiros que estavam ali não eram os seus e sim da Aliança. Aquele pensamento lhe causava um medo tremendo, mas que precisava ser controlado. Não era hora de perder as esperanças.

Da mesma forma que Luxuriah, Lina chegou a conclusão que o grupo da Horda procurava alguém. Também temia que o motivo de sua chegada ali era para capturar Anduin ou seus sobrinhos, que poderiam estar em Sri La. Ou, na verdade, quem estava ali eram membros da Horda. Duas possibilidades que lhe incomodavam. Tinha que descartar as incertezas logo, mas como? Desceria da tartaruga e se arriscaria? Esperava o primeiro movimento? O que fazer?

Todavia, o primeiro passo não foi de nenhum dos grupos. Enquanto eles ainda se encaravam, dois pandarens literalmente pularam no meio deles, assustando os dois grupos. Era um macho e uma fêmea e cada um ficou olhando para um grupo diferente.

— Vocês são Horda e Aliança, pelo visto. — disse a fêmea.

— E se estão pensando em lutar, vieram pára o lugar errado. — complementou o macho.

Não havia como negar que alguém que sabia da guerra entre as facções estivera ali. Tanto Luxuriah quanto Lina sentiram a ansiedade queimando em seus peitos, ao mesmo tempo em que se mediam, por cima das cabeças dos pandarens. Elas se encaravam, sabendo que cada uma delas estava na liderança. Ambas tinham interesse em entrar na vila e descobrir quem estivera lá. E ambas sabiam que a outra tentaria impedir, apesar de nenhuma das duas ter interesse em lutar com os pandarens.

— O que faremos, Lux? — perguntou Mhuu.

— Estou pensando… — murmurou em resposta.

Do outro lado, Rubrarosa resmungou, inconformada:

— Se fosse somente a Horda, daríamos conta.

— Não quero lutas desnecessárias. — avisou Lina.

— Isso não significa que eles não queiram. — rebateu a worgenin.

A tensão ainda pairava no ar, nenhum dos grupos fazendo menção de ir embora, nem de avançar. Os pandarens continuavam em prontidão, temendo o estouro de um conflito. E o conflito veio, mas não da forma como eles esperavam.

Quem percebeu foi Rubrarosa. Ela sentiu o cheiro e ficou alerta. Porém, antes de conseguir avisar os outros, um rugido saiu de dentro da Floresta de Jade, assustando-os. O grupo da Horda não fazia ideia do que era, mas o da Aliança sim. E confirmaram suas suspeitas quando a pandarena gritou:

— Mogus!

Os gigantes de pedra saíram do meio das árvores, armas em punho na direção dos pandarens. Eram pelo menos cinco e tinham o dobro do tamanho de Mhuu, o mais alto ali, e brandiam armas quase da mesma altura dos elfos. Era perceptível que o alvo dos mogus eram os pandarens, mas ninguém permitiria um ataque daquelas a sua frente. Ambos os lados puxaram suas armas, desmontaram de suas montarias e correram para acabar com aquela ameaça.

Tal como imaginavam, os mogus eram inimigos fortes e ferozes que não mostravam hesitação nem piedade. Era diferente de tudo que qualquer um ali já enfrentara; as flechas retiniam em suas peles duras e as balas recocheteavam. Espadas retiniam e pareciam não fazer mal algum. Aqueles mogus eram bem mais fortes que os que Lina enfrentara antes. Como derrotariam aquilo?

— Procurem as rachaduras! — gritou a pandarena – É a fraqueza deles!

— Vamos tentar criar algumas! — complementou o pandaren.

Apesar de serem apenas dois, os monges começaram a fazer manobras e tentar acertar o maior número possível de mogus. Luxuriah então lembrou de uma flecha especial que tinha trazido. Daria um belo tiro explosivo. Do outro lado, Lina tivera a mesma ideia, pois tinha balas explosivas. Ambas atiradoras começaram a lançar seus projéteis que, ao atingir os mogus, causavam explosões que rachavam sua pele de pedra. Os monges batiam com vontade nessas rachaduras, aumentando seus tamanhos. E os lutadores com suas espadas miravam nessas ranhuras, empurrando suas lâminas para ferir as criaturas. A alguns passos de distância, Mhuu invocava forças da natureza, lançando raios através de seus totens, deixando os mogus desnorteados. Também lançava uma chuva curativa sobre todos, desejando minimizar seus ferimentos.

Mesmo com os dois grupos, mais os pandarens, lutarem contra os mogus, as criaturas eram fortes. O maior deles, provavelmente o líder, conseguiu agarrar, com apenas uma mão, a pandarena que lutava com ele. Com um urro, ele ergueu a jovem acima de sua cabeça, disposto a esmagá-la. Enquanto a monge se debatia, tentando se libertar, o mogu foi atingido, ao mesmo tempo, nos olhos por dois projeteis. No olho direito, uma bala da arma de fogo de Lina; no lado esquerdo, uma flecha de Luxuriah. Assim que foi atingido, o mogu largou a pandarena e gritou de dor, levando a mão aos olhos. Luxuriah e Lina se olharam naquele instante, ambas com suas armas em punho. Podiam ter tentado assassinar uma a outra, mas decidiram salvar a pandarena que sequer conheciam. A desconfiança se quebrou um pouco, apenas um pouco. Mas ainda havia uma batalha a ser vencida. Voltaram suas atenções ao líder e atiraram mais uma vez. E outra. E outra. Até que ele caiu.

Um a um, os mogus caíram. E, ao final do conflito, estavam feridos, mas vivos. Mhuu curou os pandarens, enquanto cada paladino cuidou dos seus companheiros. Depois, os monges se encararam por um momento, antes de se voltarem para a floresta.

— Pode haver mais. — disse o macho.

— Não há. — falou Rubrarosa – Apenas esses.

— Como pode ter certeza? — perguntou a pandarena, desconfiada.

A cavaleira da morte cheirou o ar.

— Não os sinto por perto. — foi o que disse – Eu só senti esses tardiamente porque não estava prestando atenção.

— Então isso nos dá a oportunidade de resolvermos o problema de vocês. — a pandarena se adiantou. — Eu sou Lótus Perfumada, uma das aprendizes dos Shado-pans. — ela fez uma reverência.

— Sou Neve-que-voa. — se apresentou o outro – Fomos mandados pelo Lorde Taran Zhu para impedir que alguém ameace os aldeões dessa aldeia. — explicou.

— Acredito que ninguém quer fazer mal aos aldeões. — quem falou foi Luxuriah se aproximando – Ou estou enganada? — e encarou Lina em desafio.

— Não, não queremos. — respondeu a general sustentando o olhar.

— O que os trouxe aqui então? — quis saber Lótus Perfumada.

Os dois grupos se encararam, desconfiados.

— Parece que eles não querem que o outro saiba o que vieram fazer. — disse Neve-que-voa, com reprovação – Vocês lutaram juntos e ainda desconfiam dos outros?

Mais de uma vez na história a Horda e a Aliança lutaram juntos contra um mal maior, exatamente como aqueles dois grupos fizeram naquele momento. Mas sempre eram tréguas pontuais, que acabavam em meio a uma desconfiança tensa.

— Acho que já entendi. — falou Lótus Perfumada repentinamente – O Lorde Taran Zhu disse que havia náufragos em Sri La. — ela olhou de um grupo para outro – Vocês vieram em busca deles.

— Você sabe quem está na vila? — falou Lina apressadamente, confirmando as suspeitas dos pandarens.

“Então há náufragos da Aliança também.”, pensou Luxuriah, um pouco aliviada. Talvez eles não estivessem em busca de sua irmã, afinal. O alívio foi momentâneo, porque isso podia significar que Kassyeh não estava lá. Porém, foi o suficiente para que ela guardasse seu arco.

— Se não houver pessoas do meu povo na vila, não temos porque entrar. — disse a elfa, para a surpresa de seus companheiros.

— Digo o mesmo. — afirmou Lina.

Os pandarens se entreolharam, antes de encará-las.

— Não sabemos quem está na vila. Não foi nos informado isso. — falou Neve-que-voa.

— Mas podemos acompanhá-los para dentro da vila, para que possam ter essa informação. — avisou Lotús Perfumada – Desde que abram mão de suas armas e deem a palavra que não entrarão em conflito. — completou.

Abrir mão de suas armas era uma condição delicada, para ambos os grupos. E, o primeiro a fazer o gesto, de bom grado, fora Vincent. Ele guardou sua espada na bainha, a tirou do cinto e a entregou sem hesitação a Lótus Perfumada. Snetto fez o mesmo e entregou espada e escudo a Neve-que-voa. A atitude dos paladinos não foi surpresa para seus colegas e nenhum deles foi criticado, muito pelo contrário. Foi a vez de Mhuu, que pegou sua maça e seu escudo e também entregou aos monges. Lina suspirou e entregou sua arma de fogo. Luxuriah, a contragosto, entregou o arco. A última a abrir mão de sua arma foi Rubrarosa, que só o fez para não ser a única a se colocar contra a medida. Doroteya não aprovaria se ela dificultasse as coisas. Porém, a cavaleira da morte sorriu quando o toque de sua lâmina rúnica fez Neve-que-voa estremecer.

— Nos acompanhem. — pediu Lótus Perfumada indicando o caminho com a cabeça.

Os dois grupos os acompanharam, com uma distância segura entre eles. Luxuriah não gostava de ver outra pessoa segurando seu arco e só não ficou mais chateada porque a líder humana estava visivelmente tão incomodada quando ela. Desceram uma cumprida escadaria até finalmente chegar em uma praia. Assim que chegaram, um grupo de filhotes correram até eles, empurrando uns aos outros para vê-los.

— Estrangeiros! Estrangeiros! — um gritou.

— É o Ted? — gritou um dos meninos.

— Não, mas tem um maior!

— Tem uma parecida com a Kass!

Aquelas falas fizeram o coração de Luxuriah se aquecer e ela abriu um sorriso. Sim, sim! Ali estava o que queria saber! Porém, antes que conseguisse perguntar, as crianças os rodearam, curiosas e os bombardearam de perguntas:

— Por que ninguém é verde?

— Moço, você tem rabo! E tem pelo! Achei que todos os estrangeiros fossem pelados!

— Tem um lobo aqui! É um lobo?!

— Moça, você é mãe da Pãozinho?

Essa última pergunta, feita por Yasu, fez as lágrimas encherem os olhos de Lina, que perdeu a voz por um instante.

— Crianças. — falou Mili Lúpulo Errante chegando – Deem espaço para essa velha, certo? Acho que nossos convidados têm muitas perguntas a fazer.

As crianças começaram a protestar, mas se afastaram. A pandarena ficou em frente ao grupo e sorriu, como se eles fossem velhos conhecidos. Rapidamente Neve-que-voa contou a líder da vila o que tinha acontecido e que eles tinham enfrentado os mogus. Ela ouviu tudo atentamente antes de se voltar aos recém-chegados.

— Chegaram em um momento ideal. — falou ela satisfeita – Vamos tomar café da manhã? — e sem esperar resposta, falou – Yasu, avise a sua mãe que temos convidados pro café da manhã!

— Senhora Lúpulo Errante. — Começou Lotús Perfumado – Eles estão em busca dos náufragos.

— Eu sei. — falou sem pestanejar – Acho que eu até sei quem são. — Ela olhou para Luxuriah e sorriu – Você deve ser a irmã mais velha da Kassyeh, acho que Tewdric te chamava de Lulu.

— Orc maldito! — exclamou Luxuriah, mas estava tão feliz que o sorriso não saia de seus lábios.

— E você… — ela olhava para Lina – Você parece com a Pandora… Deve ser a tia Lina, certo?

Os olhos de Lina marejaram e ela apenas assentiu com a cabeça, enquanto segurava o choro. Seria o fim chorar em frente a um grupo da Horda.

— Tenho mensagens para ambos, mas acredito que estão todos com fome depois do conflito com os mogus. — e apontou para uma das cabanas – Venha, vamos. Normalmente comemos ao ar livre, mas o vento está soprando forte hoje e vai encher a comida de areia…

— Senhora. — Chamou Luxuriah e a pandarena a encarou – Se tem mensagens… Quer dizer que eles não estão aqui? — havia ansiedade em sua voz.

— Vamos comer. — insistiu a pandarena – E vocês saberão.

E sem dizer mais nenhuma palavra, caminhou na direção da cabana.

Como não havia alternativa, os dois grupos a seguiram, ainda olhando desconfiados um para o outro e evitando chegar muito perto. Porém, assim que entraram na cabana, que era casinha com uma mesa quase do tamanho do local, forma acomodados um de frente para o outro. Lina e Luxuriah acabaram frente a frente e viam uma na outra o mesmo desgosto da proximidade.

— Ora, ora, achei que não viria ninguém da tal Horda e Aliança tão cedo. — Um velho pandaren sentou-se com eles, com um sorriso enorme – Sou Liu Pata Serena e é um prazer tê-los aqui.

Os pandarens estavam sendo tão gentis que tanto Luxuriah e Lina se perguntavam o que foi contado a eles daquela guerra, porque simplesmente pareciam não se importar com ela. Ambos os grupos foram servidos com comida de excelente qualidade, enquanto as crianças ficavam rodeando-os, curiosos. A curiosidade estava principalmente em Mhuu e em Rubrarosa.

— Moço, você parece um yaungol. — disse uma das crianças.

— É mesmo? — perguntou ele interessado e simpático – E o que é um yaungol?

— É alguém parecido com você. — respondeu a criança simplesmente.

O tauren riu com vontade.

— Você é menino ou menina? — perguntou uma das crianças a Rubrarosa.

A worgenin chegou a se preparar para responder de forma mais rude, pois não gostava de ninguém rodeando-a, mas bastou uma olhada na filhote de pandaren para sua atitude mudar. Afinal, quem conseguia ser rude com aquelas fofuras?

— O que você acha que eu sou? — perguntou em tom quase gentil. Quase, por causa de sua voz distorcida.

— Acho que você é menina. — disse a filhote – Mas minha irmã acha que você é menino. Então, nós apostamos.

— Pois você ganhou. — Rubrarosa deu um sorriso para a filhote – Sou menina.

A criança riu alto e saiu correndo, para avisar à irmã.

— Senhora Lúpulo Errante. — Chamou Lina quando a velha pandarena sentou-se com eles – Pode, por favor, me falar sobre meus sobrinhos? — pediu angustiada.

— Comam primeiro. — falou ela – Vocês não tocaram na comida. Depois que comerem, conversamos.

E vendo que não tinha jeito, eles comeram. Apesar de a comida estar deliciosa e eles estarem famintos (com exceção de Rubrarosa, que só comia por comer, não por necessidade), o fizeram mais para agradar seus anfitriões, enquanto as dúvidas pairavam entre eles. Os dois grupos comiam, mas se encarava, a tensão evidente a cada movimento.

— Meus celestiais, eles não exageraram! — exclamou o velho Liu Pata Serena, mais admirado que chateado – Vocês têm realmente problemas um com o outro!

— O senhor parece ter sido muito bem informado sobre a rivalidade Horda e Aliança. — comentou Mhuu, educadamente.

— Ah, a Pãozinho e a Kassyeh falaram, mas eu achei que era exagero! — revelou o velho – Afinal, eles se ajudaram e se davam bem!

— Se ajudavam? — perguntou Lina.

— Se davam bem? — quis saber Luxuriah.

— Ah, Liu, você já se adiantou! — reclamou Mili Lúpulo Errante – Mas, tudo bem, acho que é hora de falar.

A pandarena encarou os dois grupos pausadamente e então começou:

— Há alguns dias, nossos pescadores viram indícios de um naufrágio e também de náufragos. Depois, nossos batedores viram fogueiras… Foi quando os conhecemos.

Com calma e sem pressa, a pandarena contou o que acontecera desde que tiveram o primeiro contato com os estrangeiros, sua estadia ali e a sua partida. Enquanto falava, percebia a mistura de incredulidade, frustração, raiva e aceitação do relato. Quando falou que os jovens humanos foram os primeiros a deixarem a vila, Lina fez menção de falar algo, mas Vincent segurou em sua mão, acalmando-a. O conselho era claro: deixe-a terminar. Só que estava muito angustiada! O relato da pandarena só falara de Pandora e Pietro! Nenhuma palavra sobre Anduin! Aquilo a estava matando-a.

Tal como Lina, Luxuriah frustrou-se, mas sem eu caso por saber que sua irmã partira dali não tinha nem três dias e podia estar mais perto do que imaginava. Por que não chegara antes? E por que Kassyeh não esperou um pouco mais? Talvez, se tivesse passado por Flor da Manhã poderia ter se encontrado com ela! E ainda havia a situação de eles não apenas salvarem, mas conviverem com humanos! Que situação esdrúxula!

Depois que o relato de Mili Lúpulo errante se encerrou, houve um momento de silêncio e então Luxuriah colocou a mão no rosto e deu uma risada seca.

— Salvar dois humanos. — falou sem acreditar – Tinha que ser coisa daquele orc. E claro, minha irmã apoiou. — ela suspirou – É a cara dos dois fazerem algo que pode mandá-los para a forca.

— Se seu povo não reconhece a bondade nas ações dele, acredito que vocês têm um grande problema. — falou Mili Lúpulo Errante, com sobriedade e um pouco de reprovação.

Luxuriah a olhou.

— Eu reconheço. — rebateu – A maioria de nós o fará, mesmo que a contragosto. Mas não nosso Chefe Guerreiro. Na verdade, o simples fato de estarmos aqui e compartilharmos essa refeição pode nos custar muito.

— Você afirma isso, mas não parece preocupada. — comentou Lina.

Era a primeira vez que algum humano dirigia a palavra diretamente para Luxuriah e houve um momento de confusão no rosto da elfa. Se fosse Vincent a falar aquilo, a elfa teria um sério problema para se controlar. Mas era uma mulher; aquilo a deixava menos arisca, sem dúvida.

— E você, humana? — retrucou – Não está preocupada com suas crianças serem acusadas de traição?

— Se ninguém souber, não haverá motivo de preocupação. — respondeu, com simplicidade.

Luxuriah piscou os olhos, surpresa com a resposta.

— Além do mais, — continuou Lina – Pietro não anda. Qualquer decisão de Pandora foi baseada no bem-estar do irmão. Isso faz diferença.

— Faz mesmo? — provocou Luxuriah.

— Claro que faz. E se alguém disser que não faz, eu quebro as pernas dessa pessoa e observaremos como ela se vira.

Houve um breve silêncio depois da resposta de Lina. Nenhum dos grupos falou, mas todos sabiam o que o outro pensava: aquelas informações, sobre a ajuda mútua entre Horda e Aliança, não seriam reveladas a ninguém. Para proteger suas famílias, estavam dispostos a se eximir de dar aquelas informações. E como ambos grupos ficariam calados, o silêncio consequentemente beneficiava o outro.

Luxuriah pretendia dizer umas poucas e boas para sua irmã e cunhado pelo que fizeram, mas primeiro teria que encontrá-los. Por isso, voltou-se novamente para a líder da vila e perguntou:

— Senhora Lúpulo Errante, minha irmã disse onde iria?

— Disse que se encontraria com seus companheiros da Horda. — respondeu – Por isso foi para o sul, onde foi visto um navio.

Aquela notícia era preocupante, pois o grupo da Horda que se aventurara no sul, fora dizimado pela Aliança. Apenas o grupo do norte, que viera com Luxuriah, estabelecera uma base.

— Acredito que seu povo não será tão receptivo com minha irmã quanto ela foi com o seu. — alfinetou Luxuriah olhando para Lina.

— Creio que esteja certa. — respondeu Lina em um tom triste. E se voltando para Mili Lúpulo Errante, perguntou – Senhora… Os únicos humanos que vocês viram foram Pandora e Pietro? E não ouviram mais anda sobre nenhum outro?

— Sinto muito, mas não. Nenhum relato de outro estrangeiro nos chegou.

A expressão de Lina era de dor.

“Anduin…. Onde você está?!”, perguntava-se.

Sabendo que Lina sofria pela falta de informações sobre o príncipe Vincent tomou a palavra e perguntou a pandarena.

— Minha cara senhora… Esse templo onde Pandora levou Pietro… Fica a quanto tempo de distância daqui?

— Quase duas semanas. — respondeu Mili – Te daremos um mapa com a rota, apesar de Pandora e Pietro terem ido por Arboreto, para viajar nas serpentes das nuvens. Acredito que, a essa altura, já estejam lá.

Aportar no meio de uma terra estrangeira, fazer amizade com a Horda e depois partir para tentar uma cura para o irmão: isso era tão a cara de Pandora que Lina se perguntava como não imaginara que ela faria uma loucura daquela. E, apesar de contrariada, estava orgulhosa da sobrinha. Teria que dar um jeito de dela não ser punida pela aproximação com a Horda, mas, até mesmo o mais xenófobo humano entendia que um cessar-fogo para salvar um ferido fora necessário para salvar a vida de Pietro. E Pandora estava obstinada em salvar o irmão. Torcia para que Anduin estivesse tão protegido quando Pietro estava.

Cuidar de dois humanos, entre eles uma criança doente era algo que definitivamente Kassyeh e Tewdric fariam, pensou Luxuriah. Estava surpresa, na verdade, de ela não ter colocado o menino embaixo do braço e decidido ficar com ele. O senso de proteção dos dois era forte demais e talvez tivessem feito se o menino não tivesse uma irmã. Era um alívio saber também que Halduron estava bem, ainda que tivesse inicialmente se ferido. Rommath e Lor’themar ficariam contentes em saber que o amigo não estava em perigo.

Depois de finalizada a refeição e das mensagens terem sido dadas, o primeiro grupo a partir fora de Luxuriah: saber que a irmã estava bem perto a deixara elétrica e queria chegar até ela a fim de impedir que esta se encontrasse com a Aliança. Partiram após se despedir e agradecer aos pandarens e pegarem suas armas com os monges.

O grupo de Lina foi o que demorou mais, por dois motivos: o primeiro, era saber exatamente o caminho tomado por Pandora e Pietro e quem estava com ele. Lina tinha esperança que os pandarens pudessem ter alguma informação que levasse ao paradeiro de Anduin de alguma forma. Demoraram também para colocar uma distância entre o grupo deles e o de Luxuriah. Sabiam que, após aquele encontro, um dificilmente atacaria o outro, mas a prudência era a melhor aliada naquele momento. Por isso, se informaram e esperaram. Afinal, o Templo da Garça Vermelha não sairia do lugar.

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A expressão desgostosa de Kassyeh não intimidou Tewdric. Muito pelo contrário. Ele adorava quando ela apertava os lábios vermelhos daquela forma, pois eles pareciam uma bela e madura maçã que ele tinha vontade de morder. E, enquanto olhava apaixonado para sua mal-humorada esposa, Halduron o cutucou. Ele tinha que falar.

— Eu concordo com o Halhal, minha Kass. — disse por fim – Não fique chateada…

— Pois eu fico sim! — exclamou a elfa batendo na mesa – Se era para ficar parada, eu teria ficado em Sri La!

Estavam sentados na taverna da vila Flor da Manhã, onde a noite já havia caído e bebiam uma cerveja feita com mel e cereja, que Tewdric achara um pouco doce, mas maravilhosamente saborosa. Já bebera quase um barril todo, fazendo o pandaren estalajadeiro animar-se com o apetite do estrangeiro para cerveja. Talvez por isso só conseguisse pensar em levar sua bela e raivosa esposa para o quarto e deixar que ela descarregasse sua frustração em cima dele.

Halduron tomou um gole de sua cerveja, pensando que não devia ter contado com o apoio de Tewdric para convencer Kassyeh a ficar em Flor da Manhã até conseguirem contato com a Horda. Isso porque era evidente que o orc estava mais interessado em suspirar por sua esposa que fazê-la cooperar com o plano do elfo.

— Alteza. — começou ele pela terceira vez – Flor da Manhã é um entreposto comercial, diferente de Sri La. Lá não recebe muitos visitantes, enquanto aqui o fluxo é constante. E esperarmos…

— Pessoas da Horda viram comercializar ou em busca de informações. — completou ela – Eu entendi, Halduron. Sei exatamente qual é o plano! Só que eu não concordo! Não quero passar mais uma semana parada!

— Sinto muito. — falou ele baixando a cabeça. — Afinal, foi por minha causa nós ficamos ilhados em Sri La…

— Não comece, Halduron! — Kassyeh levantou a mão em protesto – Uma coisa é esperar um companheiro se recuperar de um ferimento, o outro é ficar esperando que as notícias caiam do céu!

— Não vamos esperar que caiam do céu, minha Kass. — recomeçou Tewdric tentando acalmá-la – Nós vamos ajudar os aldeões, como ajudamos em Sri La, enquanto esperamos. O Halhal tá certo: não sabemos se quem tá no sul é Horda ou Aliança. Aqui, as notícias chegam rápido. Uns dias e a gente já ia saber quem tá onde e não correríamos riscos.

— Apenas três dias. — reforçou Halduron – Acredito que três dias é o suficiente para termos informações. Aqui chega um número grande de voos de outros lugares. Pipas e serpentes. Acredito que logo, logo, teremos notícias.

— Ou algum ally chegará aqui. — retrucou a elfa, ainda sem se dar por vencida – Vamos colocar esse povo em risco?

— Bem, você ouviu o prefeito mais cedo, certo? Eles não vão tomar partido e vão ajudar quem aparecer. Se algum membro da Aliança fizer um gesto hostil, terá que lidar conosco e com os pandarens. Nem eles seriam tão burros. — concluiu o patrulheiro.

Naquele dia mais cedo, quando chegaram e se apresentaram, o prefeito deixara realmente bem definido que não tomariam parte naquela guerra. E que, quem ousasse começar um conflito ali, teria que lidar com os monges que faziam a guarda. Soube também que mais monges chegariam em breve, pois Taran Zhu, Lorde dos Shado-pans, reforçaria a segurança de todas as vilas da Floresta de Jade.

Os três sabiam que era Taran Zhu e seu papel em Pandaria, apesar de não terem conhecido-o. Mili Lúpulo Errante havia explicado a eles, para tranquilizá-los sobre a possível ida de algum membro da Aliança para Sri La e uma possível ameaça caso descobrissem que eles ajudaram membros da Horda. Fora só então que eles deixaram a vila dos pescadores tranquilos. E saber que havia mais monges chegando ali, deixava Kassyeh mais balançada a aceitar a sugestão de Halduron.

— Minha Kass. — chamou Tewdric pegando a mão dela e apertando – Se a gente ficar, poderemos ajudar o pessoal aqui, do mesmo jeito que eu ajudei a An.

An Pelo ao Vento era uma filhote pandarena que pedira ajuda a eles depois que todos os adultos da vila ignoraram sua suspeita que seu amigo tinha sumido por causa de uma pandarena que ela chamara de ‘Bruxa de Jade’. Os pandarens acreditavam que a menina estava inventando coisas. Todavia Tewdric, apaixonado por crianças como era, não apenas acreditara na menina como fora ajudá-la e descobrira que a mulher era realmente uma bruxa que transformar ao amiguinho de An, Shin, numa estátua de jade. O orc salvara não apenas Shin, mas vários filhotes que estavam sendo ameaçados por panteras de jade. Tewdric voltara à vila carregando um monte de filhotes nos braços e com um sorriso imenso.

— Posso ficar com eles, Kass? — perguntara o orc com os olhos brilhando.

Claro que não pudera, todos os filhotes tinham pais, mas as crianças, tal como em Sri La, amaram o orc e o seguiam por todo o lugar.

A menção a An e aos filhotes balançou Kassyeh, mas a elfa não estava pronta para desistir.

— Eu vou pensar. — avisou se levantando – Mas não tenham muitas esperanças. — e saiu do salão, em direção às escadas que levavam aos quartos, onde eles passariam a noite.

Halduron e Tewdric a observaram sumir e então o orc deu um suspirou apaixonado.

— Ela fica tão linda irritada…. — murmurou levando a caneca aos lábios.

— Eu preferia que ela ficasse calma e concordasse conosco. — falou o elfo franzindo o cenho – Quando o assunto é a princesa Kassyeh, você não é de muita ajuda, Tewdric.

O orc, em vez de ficar ofendido, deu uma risada.

— É, eu sei. E você saberá também, no dia em que se apaixonar.

Halduron teve vontade de dizer que aquele dia demoraria muito a chegar, se é que chegaria, mas preferiu não discutir. Estava preocupado com outras coisas no momento, como em contatar a Horda e levar a princesa de volta para Luaprata. Depois, deixaria que Tewdric e quiser criticasse sua vida amoroso (ou a inexistência dessa), já que era um assunto muito recorrente entre seus amigos.

Desde que Rommath e Lor’themar começaram seus relacionamentos, os dois apreciam ter chegado a um acordo que não deixariam Halduron em paz até que ele fizesse parte do círculo de elfos comprometidos. Agora, Tewdric, mesmo que não soubesse, estava do lado deles. Não queria imaginar uma conversa dos três sendo sua solteirice o tópico principal.

Depois de um tempo, Tewdric pousou a caneca na mesa e disse:

— Vou tentar acalmar minha linda esposa. Acho que amanhã terei novidade para você.

E Halduron achava que não teria uma noite de sono, pois seu quarto era do lado do deles.

— Espero que as novidades sejam boas. — desejou.

Tewdric deu dois tapas em seu ombro, que quase o deslocou e subiu as escadas. Halduron esperou ele sair, se levantou e foi para o lado de fora da taverna, com sua caneca em mãos e a esperança que os dois se cansassem antes de ele ir dormir.

Enquanto bebia mais uma caneca de cerveja e pensava em sua situação, lembrou mais uma vez do sonho estranho que tivera em Sri La. O sonho com o beijo. Talvez aquele sonho fosse apenas porque ele estava preso com um casal apaixonado e aquilo o influenciava. Rommath não o deixaria em paz se descobrisse que ele andava sonhando com beijos. Melhor manter aqueles pensamentos para si mesmo e focar seu pensamento em outra coisa. Como a guerra que possivelmente se avizinhava.

Pandária era uma terra rica e próspera e essa riqueza e seu povo seriam alvo da disputa entre Horda e Aliança. Pensar naquele local tão bonito sendo arrasado era insuportável. Por isso, terminou de beber sua cerveja e ficou caminhando por Flor da Manhã até estar tão cansado que nem mesmo o barulho de Tewdric e Kassyeh o impediriam de dormir. Voltou para a estalagem e adormeceu rapidamente, acordando apenas no dia seguinte.

Tal como havia prometido, Tewdric tinha boas notícias pela manhã. Kassyeh concordara em ficar em Flor da Manhã, mas apenas por três dias. Enquanto esperavam notícias, ela e o marido ajudariam as pessoas da vila e Halduron permaneceria lá, para caso alguém aparecesse. Com essa decisão, o patrulheiro ficou mais aliviado.

Passou-se mais um dia e uma noite e, novamente, Halduron preferiu esperar o final da animada noite do casal antes de ir dormir. Só que, naquele dia, dispensara a cerveja, pois descobrira uma bebida excelente, um hidromel de cereja. Conseguira uma garrafa em troca de matar algumas panteras e agora a saboreava na praça central da vila, ao ar livre, respirando o ar fresco da noite pandarenica. Por esse motivo foi ele o primeiro a ver os recém-chegados.

Luxuriah estava de mal humor, como sempre. Assim que colocou os pés em Flor da Manhã, olhou para Mhuu e Snetto e resmungou:

— Eu espero que aqui tenha uma boa estalagem, com uma boa banheira de água quente e nenhum ally para me atanazar o juízo.

— Acredito que você conseguirá as três cosias e algo a mais. — disse Halduron chegando no grupo.

O choque ficou evidente. O mesmo choque que Halduron sentira ao vê-los chegar ali.

— É bom revê-los. — disse, abrindo um sorriso aliviado. Estava certo, afinal.

Ao sair de Sri La, Luxuriah estava preocupada, irritada e extenuada. O encontro com os membros da Aliança sugara toda sua força. Não apenas por ter que vê-los e sentar com eles, mas porque tivera que deixá-los vivos. Principalmente o homem. Todavia, não admitiria jamais, mas a mulher que estava no comando, cujo nome não lembrava, lhe passara uma impressão diferente de qualquer outro membro da Aliança. Talvez porque estivesse com um objetivo em comum. Ainda assim, era estranho não entrar em conflito com humanos. Era uma quebra de paradigma ao qual não estava acostumada.

Depois, durante o trajeto até Flor da Manhã, estava crente que teria muitos dias de busca pela frente, temendo acada instante que notícias ruins chegasse até ela, notícias que não queria dar a Karen ou a Ash. Porém, tão logo pôs os pés na vila pandarênica, Halduron apareceu na frente deles, tranquilo e calmo, como se o encontro deles estivesse acontecendo em Luaprata.

— Halduron? — Luxuriah ainda não estava acreditando no que seus olhos lhe mostravam.

— O próprio. — respondeu com leveza – Eu não estou surpreso em encontrá-la, alteza. Nem que sua companhia seja tão inusitada. — e olhando para Mhuu e Snetto acenou com a cabeça – Como vão? Mhuu? Snetto? É um prazer revê-los.

Os dois não puderam responder, pois Luxuriah rapidamente avançou par ao elfo e segurou seus ombros, sacudindo-o.

— Onde está Kassyeh?! — inquiriu – Onde está minha irmã?!

— Lux! — Mhuu colocou a mão no ombro dela, acalmando-a – Se você continuar sacudindo o coitado, ele não poderá falar!

A contragosto, Luxuriah soltou Halduron, que sorriu, sem dar mostras que se incomodara com a forma como fora tratado.

— Está viva, bem e, no momento, impedindo os demais ocupantes da taverna de dormir. — avisou.

— Como assim? — estranhou a elfa antes de entender – Ah, orc maldito! Nem aqui ele deixa minha irmã em paz?

— As crianças pandarenas são tão fofas que eles decidiram se esforçar mais para ter bebês. Pelo menos foi o que Tewdric me disse. — explicou o patrulheiro.

— E eu aqui preocupada, achando que ia encontrar vocês feridos, perdidos… E estão todos no bem-bom. — ela sacudiu a cabeça – Não sei se fico chateada ou feliz!

— Fique feliz, Lux! — comemorou Mhuu – Nos os achamos!

— Vou ficar feliz quando ver minha irmã. Agora, me mostre onde é essa taverna, Halduron. Tenho uma festa para estragar.

Luxuriah marchou empertigada em direção à estalagem, enquanto Halduron suspirava e acompanhava alguns passos atrás. Mhuu pediu para Halduron contar o que tinha acontecido com ele e os outros e o elfo se pôs a contar desde o início do combate com a Aliança em alto-mar até a chegada ali em Sri La. Quando chegaram na estalagem, Halduron apontou para uma mesa e disse:

— A cerveja daqui é muito boa. Vamos beber um pouco e eu termino a história. Aconteceram muitas coisas….

— Halduron! — chamou Luxuriah com o pé no primeiro degrau da escada – Qual o quarto?

— Terceiro à direita. E, por favor, deixe claro que eu não tenho nada a ver com a interrupção. — completou.

— Ah, eles saberão. — E começou a subir os degraus com os passos pesados.

Eles observaram ela sumir escada acima e se entreolharam.

— Eu nunca sei se ela está feliz ou com raiva. — confessou Halduron.

— É uma linha tênue entre os dois sentimentos… — filosofou Mhuu – Se bem que, devo admitir, a Lux está bem mais comedida e centrada. Nem mesmo atacou os humanos que vimos!

— Vocês viram humanos? — surpreendeu-se Halduron.

— E uma worgenin. — completou Snetto.

E diante da surpresa do elfo, Mhuu sorriu e disse:

— Nós também temos história para contar…

Na parte de cima da estalagem, Luxuriah foi até a porta indicada por Halduron, respirou fundo, tirou o sorriso do rosto e bateu com a mão aberta na porta, enquanto gritava:

— Tewdric, saia de cima da minha irmã que eu preciso ver ela! Não atravessei o oceano para presenciar uma lua-de-mel!

Houve uma movimentação do outro lado da porta, que se abriu repentinamente. Luxuriah nem teve tempo de falar nada, pois Kassyeh se atirou em seus braços, derrubando-a no chão. Caíram as duas, sentadas e abraçadas.

— Lux! — exclamava a maga com o rosto enterrado no ombro da irmã – Você veio!

— Claro que eu vim…. — Luxuriah estava segurando as lágrimas – Por acaso eu ia deixar minha irmã perdida numa terra estranha? Nunca…

— Lulu! — Tewdric saiu de braços abertos, sorridente e sem nenhuma roupa – Que saudades! Vem cá, me dá uma braço!

— Argh, Tewdric, ponha uma roupa! — a elfa evitou olhar para ele – Eu não chego perto de você enquanto não se vestir! Nem aqui você se comporta!

Tewdric riu e voltou para o quarto, para se vestir, enquanto Kassyeh se levantava e ajudava sua irmã a fazer o mesmo. Enquanto isso, interrogava a irmã:

— Como você nos achou? Há quanto tempo chegou? Quem veio com você? Como estão as coisas em Luaprata?

— Eu vou responder a tudo isso, mas estou faminta porque viemos direto de Sri La para cá sem parar e sem comer. Deixem o namoro para depois, porque precisamos conversar, principalmente sobre uma certa ajuda que vocês ofereceram enquanto estavam aqui… — e cruzou os braços, encarando os dois.

Kassyeh e Tewdric não precisaram de explicações para saber do que Luxuriah falava.

— Você soube então. — falou Kassyeh – Sobre Pandora e Pietro…

— Soube. Dei de cara com a tia deles e outros dos ally em Sri La. — e diante da expressão horrorizada da irmã, apressou-se em dizer – Não a matei, se é isso que você está pensando… Mas vontade não faltou.

— Antes de tudo, deixe eu esclarecer que Halduron não sabe. — Tewdric disse, em defesa do elfo – Ele estava doente quando ajudamos os dois. E preferimos não contar.

— Se formos acusados de traição, seremos só os dois. — concluiu Kassyeh.

Luxuriah olhou de um para outro e revirou os olhos.

— Como se eu fosse entregar minha irmã para Garrosh. — ela sacudiu a cabeça – Se ele não sabe, não é por mim que vai saber. E, se for minha escolha, esse assunto morre aqui. Era isso que eu queria deixar claro para os dois. Essa ajuda… Deixemos ela cair no esquecimento.

Kassyeh sorriu para a irmã, o alívio transbordando em seus olhos.

— Eu sabia que você ia entender, Lux!

— Quem disse que eu entendi? — ela sacudiu a cabeça – Não quero que você se prejudique por isso, mas nunca vou entender porque vocês dois fizeram isso.

— Se um dia você chegar a conhecer Pietro, entenderá. — garantiu a maga.

— Prefiro continuar na ignorância. — e fazendo um gesto com a mão, chamou – Vamos, vamos sair do corredor. Quero comer e quero conversar. Vamos, vamos.

Os três desceram as escadas e, assim que viram Mhuu e Snetto, Tewdric deu uma gargalhada e foi até o tauren. Os dois deram abraços cheios de tapinhas, ou melhor, tapões, e os elfos ficaram se perguntando como estariam o pulmão dos dois depois daquele cumprimento. Snetto foi o próximo a ser abraçado e Kassyeh ficou com pena da expressão de dor do paladino quando Tewdric o levantou do chão. Ela mesma fez uma careta quando Mhuu lhe apertou, feliz, por tê-la reencontrado.

— Obrigado, meus ancestrais! — falava o tauren – É ótimo ver todos vocês bem e inteiros! Estávamos realmente preocupados!

— Eles têm tempo até para trepar, então a coisa é mais tranquila do que eu tinha imaginado. — falou Luxuriah sentado-se – Agora quero comer e beber. Halduron, poderia ir até o taverneiro e encomendar a melhor comida daqui para nós? E uma cerveja para mim?

— Claro. — o elfo se levantou e foi até o pandaren.

Assim que ele se distanciou, Luxuriah puxou Snetto e Mhuu e falou apressadamente:

— Não falem dos jovens humanos que Tewdric e Kass ajudaram. Halduron não sabe.

Apesar da surpresa do pedido, os dois assentiram. Quando o elfo voltou para a mesa, já estavam todos sentados e as irmãs, lado a lado, permaneciam com as mãos dadas, como se fossem se perder casos e soltassem.

— Eu estava contando da nossa chegada aqui para Mhuu e Snetto. — começou Halduron quando retomou seu assento – Claro, do que eu lembro… Passei uma boa parte desacordado….

— Foi uma sorte sermos achados por Rukiah. — falou Kassyeh sorrindo ao lembrar da pandarena – Ela foi a responsável por ter curado Halduron.

Kassyeh começou a contar a história, omitindo Pietro e Pandora, e ainda assim foi um relato que prendeu a atenção de todos. Depois, foi a vez de Luxuriah contar o que tinha acontecido em Luaprata quando chegara a notícia do sumiço deles. Tewdric ficou muito preocupado com a reação de Karen e feliz que Saba tenha conseguido impedir a jovem rainha de ir até Pandaria. Kassyeh ficou particularmente perturbada com a reação de Aethas, e sua preocupação com a segurança dele em Dalaran aumentou consideravelmente. O impacto da chegada deles em Pandaria começava a se desenhar em suas mentes.

— Mas agora tudo ficará bem. — garantiu Luxuriah – Vocês voltam para casa e todos ficam tranquilos.

Kassyeh trocou rápidos olhares com seu marido, antes de anunciar:

— Não pretendemos voltar para Luaprata agora.

Houve um momento de silêncio, onde até mesmo Halduron estava surpreso. O casal não havia falado nada a esse respeito com ele.

— Kassyeh, que história é essa?! — Luxuriah não estava nem um pouco feliz com a revelação.

— Lux, nós trouxemos a guerra a essa terra. — começou a maga – Eu jamais viraria as costas e iria embora sem tentar fazer algo por eles.

O protesto veio até a boca de Luxuriah mas morreu sem sair dela. Depois de tudo que vira acontecendo, entendia como a irmã se sentia. Não poderia, jamais, se opor a ela.

— Eu entendo. — disse depois de um tempo – Eu sinto o mesmo. Mas realmente precisamos mandar notícias para casa ou daqui a pouco Karen aparece na sua porta, como eu fiz. Você acha possível conectar o correio mágico de Pandária a Luaprata?

— Serão necessários muitos magos para fazer isso. — explicou Kassyeh pensativa – Mas se já há um portal para Orgrimmar na Aldeia do Mel, já é um passo. Preciso falar com esses magos.

— É possível que você aprenda a faze rum portal daqui para Luaprata e de lá para cá? — insistiu a irmã.

— Precisarei de algum tempo para estudar a magia daqui, de preferência com algum mago nativo. E, após isso, sim.

— Certo, você terá seu tempo para aprender. Depois, iremos em casa, você dá um beijinho nas meninas e voltamos. Não vou deixar a Aliança tomar conta daqui nem vou deixar Garrosh transformar isso num pasto de sangue. Mas, por hora, vamos comemorar. — e apontou para o pandaren que trazia a comida – Quero todos estufados de comida e bêbados, antes do sol raiar!

*************

Anduin estava com frio, assustado e decidido a não parar de andar. A noite já havia caído em Pandaria, o ajudando a cobrir sua fuga do acampamento da Horda. Ainda assim, não se atrevia a descansar, por mais que suas pernas doessem e sua cabeça parecesse que ia explodir. Tinha certeza que, caso o capturassem novamente, não seriam tão indulgentes e, no mínimo, quebrariam suas pernas para que não fugisse novamente.

Desde que seu navio naufragara no litoral da nova terra, o príncipe humano vivia um inferno na terra. Primeiro, se vira sozinho no navio, depois que todos sumiram na luta contra os hozens. Não sabia se o almirante Taylor estava vivo ou morto, mas tinha fé que, como um bom guerreiro que era, estivesse vivo em algum lugar. Seu coração doía mesmo ao pensar em Pandora e Pietro. Quando sairá de sua cabine, caminhara pelos corredores cheios de água, até não conseguir mais e perceber que a cabine deles estava inundada. Rezou com todas suas forças para que eles tivessem saído antes de se afogarem.

Depois disso, vagou pela Floresta de Jade, sobrevivendo só de suprimentos que conseguira no navio. Dias depois, fora capturado por membros da Horda. Foi quando sentiu um real pavor: o matariam, sem dúvida. Porém, a orquisa que o capturou o levou sem machucá-lo até o Monte Bagarai, onde o general Nazgrim o reconheceu. Mais uma vez achou que seria morto e sua cabeça seria enviada ao seu pai. Porém, a Horda o tratou bem, como um prisioneiro de luxo, percebeu. Na certa tentariam usá-lo contra a Aliança. E foi pensando nisso que, quando tivera a oportunidade, fugira.

Agora, sequer tinha consciência de quantos dias se passara desde que aportara. Só pensava em se afastar o máximo possível dos seus captores e manter-se vivo, na esperança que encontrasse alguém da Aliança.

Andou a esmo por muito tempo, suas pernas tremendo de cansaço e sua barriga roncando de fome, até ver uma luz que se destacava numa pequena colina. A adrenalina percorreu seu corpo à medida que se aproximava do local, com medo de ser outro acampamento da facção rival, mas era uma residência nativa. Houve um momento de dúvidas, onde se perguntou se seria justo envolver os nativos naquele conflito insano que existia bem antes dele sequer pensar em existir. O cansaço e a fome, por fim, venceram suas dúvidas e ele se aproximou devagar.

Um pandaren estava sentado numa varanda, uma fogueira acesa aos seus pés e uma caneca em sua mão. Quando percebeu o visitante, o pandaren não se mostrou surpreso, mas preocupado. Levantou-se, franzindo a testa.

— Pelos Celestiais, você está bem? — perguntou se aproximando.

Anduin fez que sim, e suas pernas simplesmente desabaram. Estava exausto demais para continuar. O pandaren lhe estendeu a caneca que trazia nas mãos.

— Aqui, beba um pouco de chá.

O rapaz fez isso. A bebida quente percorreu seu corpo, como um balsamo e o príncipe percebeu que chorava de alívio. Estivera com tanta sede e sequer notara.

— Eu sou o Andarilho das Lendas Cho. — apresentou-se o pandaren – Você é um dos estrangeiros que chegou aqui, certo?

Então outros já haviam passado ali, pensou Anduin esperançoso. Mas seriam da Horda ou da Aliança?

— Sou Anduin. — foi tudo que conseguiu dizer. Temia revelar demais e fazer do pandaren um alvo para quem quer que o perseguisse – Eu gostaria de algo para comer e beber, se não se importar. Depois, partirei.

— Você me parece cansado, rapaz. E tão jovem… Venha, você comerá, beberá, e descansará aqui essa noite. Não se preocupe. Sei da guerra que chegou a essas terras e ninguém saberá da sua presença aqui a menos que você queira se apresentar…

Anduin sentiu uma mistura de gratidão e vergonha com as palavras do pandaren. Gratidão pela ajuda que receberia e vergonha, por saber que aquela terra estava fadada ao mesmo destino do resto do mundo, depois de tanto tempo de inocência.

Enquanto estava como refém da Horda, ouviu o que falavam sobre os pandarens e sobre o local onde estava, a Floresta de Jade. Soubera que o navio que entrara em combate com o seu também tivera sobreviventes que estava por lá, como ele. Soubera da chegada do Celesfogo no sul da ilha. Ficou decepcionado por não ter ouvido nada sobre o almirante Taylor ou sobre Pandora e Pietro.

“Paciência…”, dizia para si mesmo naquele tempo. “Apenas tenha paciência…”

Em breve poderia ir em busca daquelas respostas, mas, no momento, só queria comer algo e dormir.

O Andarilho das Lendas Cho já havia recebido na sua casinha encrustada numa colina da Floresta de Jade tanto pessoas da Horda quanto da Aliança. Ambas tentaram convencê-lo que sua causa era justa, mas o andarilho já percebera que havia bem mais por trás do que cada um dizia. Aquele menino, ao contrário, só pedira o essencial para continuar vivo e seria isso que faria por ele. Na verdade, Cho percebera que ele sequer devia ter idade para ser soldado. O que fazia ali, então? Poderia perguntar depois, quando o menino estivesse alimentado e descansado.

Anduin foi colocado perto do fogo, recebeu um cobertor, uma travessa cheia de sopa e muita água. Comeu o que aguentou, bebeu toda água e em pouco tempo adormeceu, sentado, exausto depois de tantos dias de fuga. Preocupado com o garoto ao ar livre, O Andarilho das Lendas Cho o pegou nos braços, com cuidado e o levou para dentro de sua casa. Lá, havia um cômodo onde ele costumava hospedar os inúmeros visitantes que recebia em busca de suas histórias. Deixou o menino estrangeiro lá e voltou para seus pensamentos.

Quando Anduin acordou, demorou alguns segundos para lembrar onde estava. Havia sonhado que estava em casa, tomando chá no jardim com Arshe enquanto Lina e seu pai discutiam sobre a guerra em outra parte do pátio. No sonho, tivera vontade de gritar para que seu pai parasse de falar de guerra, que ela o ouviria e viria arrebatá-lo. Queria dizer que, se não parasse de falar, ele se perderia no mar e jamais se veriam. Mas não conseguia falar, pois sua boca estava cheia de brumas e saia apenas vapor dele quando abria os lábios. Tentava pedir ajuda a Arshe, mas os olhos dela estavam presos em um livro aberto, cujas páginas estavam brancas. Foi um alívio acordar e perceber que fora apenas um sonho. Ao mesmo tempo, ficou triste, porque não estava em casa. Tão triste e saudoso que ainda ouvia a voz de Lina em sua cabeça.

Demorou alguns instantes para ele perceber que não eram vozes de sua cabeça. As vozes eram reais e vinham do lado de fora da cabana do Andarilho das Lendas. Com o coração aos saltos, jogou as cobertas para o lado, levantou-se e foi em direção a porta, apenas para parar de supetão.

Seria realmente Lina? E se fosse apenas outra pessoa com a voz parecida? Poderia nem mesmo ser uma humana. Tentando conter a esperança dentro do coração, se aproximou da entrada da cabana e escutou por um momento.

— E é isso que viemos fazer. — concluiu a voz, muito parecida com a de Lina – Se tiver qualquer informação….

— Por que estamos procurando aqui? — perguntou uma voz distorcida, que gelou a alma de Anduin – Já não temos os localizamos?

— Localizamos dois deles. — falou a primeira voz – Uma das minhas crianças ainda está perdida.

Não havia erro. Era sim Lina. E, pela Luz, se não fosse ele precisa ver! Saiu de dentro da cabana e precisou de uns segundos na luz do sol para acostumar seus olhos e, quando conseguiu ver, sorriu, as lágrimas turvando sua visão.

Lina demorou um tempo para entender o que estava acontecendo. Não podia acreditar. Anduin? Era realmente Anduin? Ela não disse nada, apenas venceu a distância entre eles e o apertou em seus braços, com força. Se não fosse ele, era uma excelente ilusão, porque tinha sua aparência, seu cheiro e sua voz, quando ele balbuciou:

— É você… É você mesmo… — e caiu no choro.

Lina não respondeu, apenas o apertou ainda mais em seus braços.

E chorou.

Chorou profusamente.

Há tempos Anduin desejava aquele abraço. O desejara antes de partir e o desejara enquanto sonhava voltar para casa. E agora tinha. O abraço materno tanto negado a ele, agora o envolvia. Lina era uma mulher alta e isso o fazia se sentir quase uma criança, percebendo-a curvada enquanto o abraçava. Depois de um tempo que ele achou que durara uma vida, ela o soltou a contragosto e segurou seu rosto entre as mãos. Ela sorria, mas chorava.

— Anduin! Eu e seu pai ficamos tão preocupados com você! Não acredito… Minha Luz, não acredito que é você!

— Sim, sou eu. — ele disse simplesmente e achou-se um idiota. Devia pensar em algo mais pomposo, mais principesco a dizer, mas não queria ser um príncipe. Queria apenas ser um rapaz que estava pedido e foi encontrado.

— Eu estava tão aflita, não encontrei nenhuma pista a seu respeito! Achei que… — ela respirou fundo – Não importa o que achei! Olha só você… — ela o olhou com mais atenção – Você está tão magro! Suas roupas estão folgadas! — e para a surpresa dele, o abraçou de novo – Vai ficar tudo bem agora….

O Andarilho das Lendas Cho observava a cena, feliz pelo rapaz ter reencontrado sua família.

— Mas olhem só, que coisa maravilhosa! Sua mãe te achou! Os Celestiais devem te proteger muito, meu caro rapaz.

Anduin achou que Lina fosse dizer que não era mãe dele e corrigir o pandaren, mas ela apenas sorriu, soltou-o novamente disse:

— Definitivamente temos todas as bençãos e proteções do mundo….

— Esse reencontro merece uma cerveja especial! — avisou o pandaren levantando-se – Alguém me ajuda a pegá-las?

— Claro! — prontificou-se Vincent acompanhando o pandaren – Vem, Rubrarosa?

A worgenin não pretendia ficar ali no meio de uma pseudo-reunião de família, afinal sabia que Lina não era mãe de Anduin, apesar de se comportar como se fosse, e foi junto com os outros dois para dentro da cabana. Quando ficaram a sós, Anduin começou a se explicar:

— Eu procurei Pandora e Pietro, depois que o navio tombou, mas a cabine dele estava cheia d’água e eu…

— Calma, querido. — disse ela carinhosamente – Eles estão bem. Chegaram aqui, fizeram amizade com os pandarens e partiram em busca de um templo onde Pietro pode ser tratado. Estou a caminho de lá. Imaginei que conseguiria te achar no caminho e, pela Luz, eu estava certa!

— Um templo para curar Pietro? — os olhos de Anduin brilharam – Com certeza é uma magia divina poderosa… Fica a quanto tempo de viagem daqui?

— Duas semanas. — respondeu – Acredito que eu não vá demorar muito em Ventobravo depois de te deixar com seu pai, então alcançarei eles em breve.

— Me levar para meu pai? — perguntou ele, confuso.

— Sim, claro. — respondeu ela sem entender a confusão dele – Há uma vila ao sul daqui que tem um portal para Ventobravo. Logo, você estará seguro com seu pai.

— E você? — quis saber.

— Voltarei para buscar meus sobrinhos e ajudar essa terra. Nossa guerra tem aberto feridas aqui.

— Pois eu ficarei também. — disse ele decidido – Não voltarei a Ventobravo.

Lina o olhou por alguns instantes, chocada com o que ele dissera.

— Anduin, você não pode ficar.

— Por que não? — questionou.

— Porque seu lugar não é aqui. Você deve voltar para casa.

— Pelo contrário, acredito que meu lugar é aqui sim. — insistiu ele – Essa terra é cheia de maravilhas, de poderes que eu jamais imaginei existir. Eu sinto em minha alma a força dessa terra. Eu não irei embora até entendê-la. Nem irei embora antes de ver Pietro e Pandora. Os deixei para trás uma vez, não farei isso de novo.

O primeiro impulso de Lina foi tentar demover Anduin daquela ideia, mas logo desistiu. Demandaria tempo e energia, e ela não tinha nenhum dos dois. Poderia tentar levá-lo a força, mas jamais faria algo assim com o menino. Além do mais, quem garantiria que Anduin não fugisse e voltasse para Pandaria. Melhor mantê-lo por perto. Se Anduin queria ir até o Templo com ela, ele iria.

— Tudo bem. Você vai comigo. — disse, para a alegria do príncipe – Só vou te pedir uma coisa: quando acharmos os meus sobrinhos, vamos voltar para Ventobravo.

— Deixe acharmos eles primeiros, para pensarmos no que fazer a seguir. — desconversou o menino.

Lina tinha certeza que Anduin ia tentar enrolá-la, mas deixou aquela preocupação para depois.

O resto da manhã foi tomado pelas conversas, as atualizações do que acontecera desde que se viram pela última vez e dos planos para o caminho que seguiriam. Como Anduin se recusava a voltar para casa e Lina estava disposta a apoiá-lo, o melhor seriam se manter longe da aldeia Pata’Don, onde outros membros da Aliança estavam. Contaram então com a ajuda do Andarilho das Lendas Cho para lhes mostrar um caminho que pudessem chegar até o Templo da Garça Vermelha o mais rápido e seguramente possível. Depois, partiram, Anduin usando relutantemente a tartaruga cedida com muita insistência por Cho.

A viagem para o Templo da Garça vermelha foi menos perigosa do que Lina imaginara. Exceto pelos monstros que encontraram no meio do caminho, não sofreram nenhum ataque mais sério; conseguira manter Anduin longe das garras da Horda e dos olhares da Aliança. Contudo, sentia traindo Varian a cada dia que passava sem enviar notícias para ele. Seu único conforto era saber que, ao sue lado, Anduin estava seguro. E, mesmo com a pressa para encontrar seus sobrinhos, acabaram ajudando diversos pandarens em sua viagem.

Aquele tempo serviu também para aproximação do príncipe tanto com Vincent quando com Rubrarosa. Eram dois extremos, de forma que Anduin ficou encantado por poder conviver com essas diferenças intimamente pela primeira vez na vida. Na noite em que acamparam na entrada da selva de Krasarang, Vincent contou ao rapaz sobre sua vida anterior em Lordaeron, em como serviu ao rei Terenas e assistiu sua vida ser obliterada com a queda de sua terra natal. Falou de seus primeiros dias como refugiado em Ventobravo e em como a fé o ajudou a superar tudo. E, para a alegria e um pouco vergonha de Lina, falou o quanto estava feliz em fazer parte da família da general, mesmo que tivesse que lidar com a resistência de alguns membros dela a seu romance com Mel.

— Irmão Vincent, posso fazer uma pergunta pessoal? Não precisa me responder, se considerar que eu passei dos limites. — pediu Anduin.

— Pergunte, alteza. — Vincent já desconfiava da pergunta.

— Quando você soube que… Que não… Bem, que você amava outros homens? — o rosto do menino estava em brasa, quando ele perguntou.

— Eu sempre soube. — disse com sinceridade – Como eu acredito que Lina sempre soube que gostava de homens.

— Ah, sempre. — admitiu a general – Minha primeira paixonite foi por um ferreiro que estava de passagem na Vila D’Ouro. Até descobrir que ele era um imbecil.

— Minha primeira paixonite foi um rapaz que treinava comigo. — disse Vincent – Porém, ele estava mais interessado na minha irmã.

— E sua irmã? — quis saber o jovem.

— Gostava de outro rapaz, um livreiro. Eles casaram e tiveram uma filha linda. — o rosto do paladino se anuviou – Todos morreram para o Flagelo.

— Sinto muito. — falou Anduin.

— Eu demorei a descobrir. — falou Rubrarosa atraindo as atenções para ela – Eu gostava de um rapaz, ou achava que gostava.

— Como assim? — perguntou Anduin curioso.

— Eu tinha uma amiga que falava do primo dele, de como ele era maravilhoso e morava na cidade. Eu ia todos os dias na casa dela para ouvi-la falar dele. Achei que estava apaixonada. Um dia, o rapaz foi visitá-la. E eu descobri que gostava da forma que ela falava dele e não dele. — a worgenin deu de ombros – Acabei namorando com ela por um bom tempo. Até… — ela balançou a cabeça – Até acabar.

— E você, alteza? — quis saber Vincent sorrindo – Tem alguém especial que lhe chame a atenção? Que faça seu coração bater mais rápido.

Era uma coisa que Lina queria saber muito, mas ficou calada, ouvindo. Anduin corou e sacudiu a cabeça.

— Não… Não conheci ninguém que me fizesse sentir como vocês descrevem. — falou, sem jeito.

— Você é jovem, tem tempo ainda. — consolou Vincent – E, além do mais, é bom você ir se preparando porque, qualquer pessoa por quem você se apaixonar, encontrará muita resistência de aceitação. — e olhou significativamente para Lina.

— Ah, pode apostar que sim! — exclamou Lina dando uma risada.

Quando finalmente chegaram ao Templo da Garça vermelha, duas semanas depois de se encontrarem na cabana do Andarilho das Lendas Cho. O tempo passado na estrada estreitara os laços daquele grupo tão inusual, e o fim daquela jornada deixava todos eufóricos, mas preocupados. Essa preocupação ficou visível no rosto de Lina, que franziu o cenho depois que eles amarraram as tartarugas na entrada do templo.

— O que foi, Lina? — perguntou Vincent.

— Se eu subir essa escadaria e Pandora tiver levado Pietro para outro lugar… Vou quebrar as pernas dela. — resmungou.

— Só há um jeito de saber. — disse Rubrarosa começando a subir os degraus.

Havia um pandaren varrendo as escadas, que olhou com um pouco de surpresa para a figura de Rubrarosa. Depois, voltou seus olhos para os demais e acenou com a cabeça.

— Pois não?

— Estou procurando duas pessoas. — falou Lina com o coração aos pulos – Pandora e Pietro.

— Ah sim! — exclamou o pandaren abrindo um sorriso – Venham comigo.

Na parte de trás do templo, Pietro ria alto, se divertindo com dois pandarens de sua idade, que empurravam seu disco de um para o outro, girando-o. Pandora ficava tonta cada vez que olhava a brincadeira e se perguntava como seu irmão ainda não tinha vomitado com toda aquela giração. Sacudiu a cabeça e voltou a sua atenção para os bonecos de treinamento, repletos de flechas.

O tempo que passavam no templo fez Pandora refletir muito sobre os próximos passos que daria em sua vida. Pela primeira, sentia-se perdida; a maior parte de sua vida fora dedicada a Pietro, aos seus cuidados e a uma busca por melhora. Agora, com seu irmão muito melhor e mais independente, sentiu que já não era tão necessária quando antes. Após muitos dias de treino, e com seus braços e colunas fortalecidos, Pietro levantava sozinho da cama e conseguia sentar-se no disco e se locomovia livremente. Conseguia tomar banho sozinho e já treinava vestir-se sozinho também. As ida ao banheiro para suas necessidades já era quase totalmente independentes. E a tendência era que ficasse cada vez mais autônomo, pois decidira se dedicar ao estudo para se tornar um sacerdote de Chi-Ji.

— É uma boa oportunidade, me tornar um sacerdote. — dissera o menino, quando conversavam sobre o que fariam a seguir – Me tornar sacerdote. Eu poderia flutuar como Rukiah e nem precisaria tanto do disco.

— E se você entrasse em combate? — perguntou ela, assustada.

— Não quero ser sacerdote de batalha. — revelou o menino – Quero ser como a Rukiah. Cuidar dos outros. Como você cuidou de mim.

A flecha que ela lançou errou o alvo e ela soltou um palavrão. Como dizer não quando seu irmão dizia aquelas coisas? Bufou e foi pegar a flecha, no meio das árvores. Estava feliz que os sacerdotes do templo aceitaram em treinar Pietro. A única coisa que ele pediu foi que, quando pudesse, partissem para Ventobravo. Ele queria ver o bebê de Doroteya e avisar a Theo que estava bem. Para isso, Pandora teria que voltar a procurar pessoas da Aliança. Depois, decidia o que fazer de sua vida.

Uma coisa, contudo, era certa: se Pietro ia ficar em Pandaria, ela também ficaria. Fazendo o quê, não sabia ainda, mas não estava pronta para largar seu irmãozinho ali. E aquela terra a encantara. Queria saber mais e mais sobre ela.

E havia mais uma coisa que a incomodava e muito. Depois que chegaram ao Templo, Pandora só saíra uma vez, para verificar o correio mágico no Cais dos Pescadores. Tentara manda ruma carta para sua tia, mas o correio mágico ainda não estava conectado a Ventobravo, apesar de ter certeza que já havia muitas tropas por ali. Porém, conseguira receber a resposta do Vovô Pata Serena. Ele lhe dissera numa carta, que chegara no dia logo que eles chegaram no templo, que Tewdric, Kassyeh e Halduron haviam partido.

Juntos.

Como assim?! O orc não cumprira sua promessa?! Ele dissera que não faria mal a Halduron! Porém, em nenhum momento da carta o vovô falara que Halduron fora a força. Será que ele foi convencido a ir, para ser “refém”, como era a ideia fazer com eles, caso a Aliança os encontrassem? Ou Halduron achava que o casal era confiável o suficiente para que dividissem uma parte da jornada? Não conseguia pensar no motivo, mas queria acreditar que Tewdric mantivera sua palavra e que ele não estava fazendo mal ao elfo. Assim que digerisse aquela notícia, mandaria uma carta perguntando sutilmente se o vovô Liu percebera algo estranho nessa partida. Talvez já tivesse mandando a carta, se conseguisse ser sutil.

Percebeu que tinha ficado parado em meio às árvores e balançou a cabeça. Localizou sua flecha, apanhou-a e voltou para a área de treino. Estava se preparando para atirar novamente, quando Pietro soltou um grito. Ela quase acertou o próprio pé e voltou-se rapidamente para o irmão. Ele tinha impulsionado o disco na direção de um grupo recém-chegado e chorava alto. Foram necessários alguns instantes para ela perceber quem chegara e dar um sorriso.

Claro que a vaca ia achá-los. Era por isso que ela era tão irritante.

Surpreendeu-se mais pelo príncipe Anduin estar lá do que pela presença de sua tia. Pietro abraçou Vincent logo depois que soltou Lina, que percebeu que a sobrinha se aproximara, confusa, como se ainda estivesse decidindo se a chegada deles tinha sido algo bom ou não.

— Eu sabia que você dava conta de tudo. — disse Lina, orgulhosa.

— Minha mãe criou quatro idiotas, mas, nem eu nem Pietro, estamos entre eles. — retrucou se aproximando mais – E você nos achou.

— Minha mãe criou muitos idiotas, mas não estou entre eles. — Lina a parafraseou e riu – Estou orgulhosa de você, Pandora.

A jovem deu de ombros.

— Não fiz nada mais do que devia fazer.

Lina a observou por um momento e então a puxou para um abraço. Pandora resistiu no primeiro momento, até perceber como estava precisando daquilo. Sentiu o peso que carregava há semanas sair de seus ombros e, quando menos esperava, caiu no choro. Lina também chorava. Pelo menos não estavam passando vergonhas sozinhas, ambas pensaram.

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Depois de uma braço demorado e um pouco constrangedor, as duas se separaram. Foi a vez de Vincent envolvê-la em seus braços e as lágrimas voltaram aos olhos de Pandora.

— Minha querida, eu estava tão preocupado. — falou o paladino, choroso – Rezei tanto para a Luz proteger vocês dois…

— Ah, ela protegeu… — disse ela lembrando de Tewdric e Kassyeh – Você não faz ideia, tio Vin…

“espero que ela tenha protegido Halduron também…”, desejou Pandora.

— Fazemos sim. — cortou Lina – Já soubemos do orc e da elfa que ajudaram vocês.

Pandora soltou Vincent e encarou a tia, sem acreditar.

— Eles têm nomes! — reclamou Pietro – Ted e a Kass! A Luz mandou eles nos ajudarem!

— Vocês… Vocês encontraram com eles? — perguntou Pandora.

Será que por isso que levaram Halduron? Como garantia que Lina não fizesse nada a eles? Mas sua tia logo balançou a cabeça, em negativa.

— Eles já tinham saído de lá quando chegamos. Mas encontramos a irmã dessa Kassyeh… Eu achava que eu era estressada, mas sou um amorzinho perto daquela elfa…

Pandora não sabia se ficava aliviada ou mais preocupada com a informação. E então lembrou-se que o principe da Aliança estava ali, ouvindo-os falar de membros da Horda que só ajudaram. Foi inevitável para Pandora não olhar para Anduin, temerosa. Mas o rapaz apenas deu de ombros.

— Eu concordo com Pietro, foi a Luz que os mandou. — disse com um sorriso calmo — Não há porque ter vergonha disso.

— Alteza… — murmurou Pandora baixando os olhos e lembrando de quando deixaram o navio às pressas – Perdoe-me não ter ido ao seu encontro… Quando o navio bateu…

— Você fez o que devia ser feito. — cortou Anduin – Seu irmão precisava de você. E, no final, deu tudo certo. Talvez, mais até do que se tivéssemos chegado a Exodar.

— É sim! — concordou Pietro – Eu estou sentado! E meus braços têm força de novo! — ele balançou-se no disco – Tia, eu vou treinar para ser sacerdote de Chi-Ji e ficarei ainda melhor!

— Calma, uma coisa por vez. — falou Lina levantando as mãos – Quero saber como diabos vocês chegaram aqui, quem é Rukiah e vocês nem conheceram Rubrarosa ainda.

A worgenin estivera parada, calda, olhando toda a cena. Era difícil não sentir inveja das emoções humanas que um dia já tivera. Apesar de ter aprendido a amar de novo em sua não-vida, ainda era dificil presenciar cenas como aquela e não ficar incomodada por tudo que perdera.

— Ah, você é a tia Rosa que Theo falou? — perguntou Pietro com os olhos brilhando – Ele sempre disse que você é muito, muito legal! Você veio nos procurar também?

Rubrarosa se pegou sorrindo para Pietro.

— Sim, vim. A pedido de Theo. Ele está muito preocupado com vocês. — disse com o máximo de carinho que sua voz distorcida permitia.

— Obrigado, tia Rosa! -exclamou feliz, mas então perguntou, preocupado – Posso te chamar de tia Rosa? Como o Theo?

— Claro, querido. — respondeu entendendo finalmente porque Theo gostava tanto de Pietro. Os dois meninos tinham almas boas e se conectavam em sua candura infantil.

— Pelos Celestiais! — Rukiah chegava naquele momento, após ser ignorada que a família de Pandora e Pietro estavam ali – Pandora, eu pensei que você tinha dito que sua mãe não viria te buscar!

Pandora revirou os olhos e Lina caiu na risada.

— Não é minha mãe. É minha tia. A que eu falei. — disse, mal humorada – E sério, nós não nos parecemos tanto assim!

— Parecem sim. — retrucou a pandarena – Então… Essa é sua tia? A que você chama de vaca? — perguntou inocentemente.

— Essa mesma. — respondeu a jovem sem nenhum pudor – Tia, essa é Rukiah Pata Serena. Nossa guia e salvadora.

A pandarena deu uma risadinha, levou a mão ao rosto e mexeu o pé, envergonhada.

— Não é para tanto. — disse abanando a mão.

— Pelo que ouvi, você tem sim. — respondeu a general – Eu e tive em Sri La e a senhora Mili nos contou sobre como você se disponibilizou para ajudá-los. Saiba que você e sua aldeia tem a minha eterna gratidão. O que eu puder fazer por vocês, eu farei.

— A Aliança também tem uma dívida de gratidão com vocês. — falou Anduin respeitosamente – Quem salva nossos cidadãos, nos salva também.

— E você é… — quis saber Rukiah.

— Esse é o príncipe Anduin – falou Pietro animado – Falamos dele, lembra?

— Ah sim! Que bom que você está bem, alteza. — ela fez uma breve reverência – E que bom que conseguiram chegar aqui!

— Foi um longo caminho. — admitiu Vincent.

Tenho certeza que vocês tem muito o que conversar e eu admito que quero muito ouvi-los. Talvez até o Grande Chi-Ji queira também! O avisarei o mestre Koro de sua chegada e pedirei para a cozinha preparar uma comida especial! Temos que comemorar esse reencontro!

— Eu adoro como sue povo adora comemorar. — falou Lina com um sorriso no rosto.

— Todas as coisas boas da vida devem ser celebradas. — falou Rukiah com um sorriso – E o reencontro com a família são uma das melhores coisas!

Rukiah estava certa. Lina sentia-se bem como há muito tempo não sentia-se. Tudo que queria naquele momento era sentar e ouvir tudo que seus sobrinhos tinham a dizer. Depois decidiriam o que fazer, apesar de ela ter a sensação que tudo já fora decidido antes de sua chegada. E estava tudo bem. Porque o mais importante estava lá, o bem-estar de suas crianças. E, naquele momento, as três estavam ao seu lado, viva, saudáveis e o mais feliz que a situação permitia.

Estavam juntos, finalmente.

Notas finais
Não esqueçam de comentar!!!! ♥