Herdeiros da Guerra
49 Capítulo XXVII – O nevoeiro
Notas iniciais
A menina correu na maior velocidade que suas pequenas pernas permitiam. Parou de repente, os corredores grandes demais, longos demais para fugir. Entrou por uma porta aberta e esperou, sua respiração ofegante. Os passos do lado de fora foram se tornando mais e mais altos. Procurando ao redor, achou um esconderijo. Se enfiou embaixo da mesa, abraçando as pernas com seus bracinhos rechonchudos, seu coração batendo velozmente no peito. Passos entraram na sala e a menina se encolheu ainda mais. Não fez barulho nenhum, esperando que quem a perseguia fosse embora. Porém, a figura rapidamente se debruçou sobre a mesa, encontrando-a.
— Achei você, Titi! — gritou Karen.
Tinuviel deu um gritinho agudo e tentou correr, às gargalhadas, mas a tia a agarrou e a suspendeu.
— Achei, achei! — comemorava Karen balançando-a de um lado para o outro.
— Achô! — ria-se a menina as perninhas e os bracinhos balançando no ar.
Karen deu um beijo enorme na bochecha da menina e saiu com ela nos braços do escritório de Kassyeh. Tinuviel ainda tentava fugir dos braços da tia, mas a jovem a mantinha bem presa, fazendo cócegas e a girando. Quando chegaram na sala, a alegria de Tinuviel desapareceu do seu rostinho quando ela viu Lor’themar esperando-as.
— Chegou uma correspondência do Chefe Guerreiro para você, Karen.
Para a pequena Tinuviel, a chegada de Lor’themar estava sempre associada ao fim da brincadeira com a tia preferida. Por isso, fez uma careta para o elfo, que tentou alisar a cabeça da menina.
— Sai! — gritou Tinuviel afastando a mão dele.
— Titi! — ralhou Karen – Não grite com o Temma!
Tinuviel fez um bico, mas não gritou mais.
— Você não gosta de mim mesmo, Titi? — perguntou o elfo delicadamente.
— Não! — exclamou a menina.
Karen olhou para a sobrinha.
— A culpa não é do Temma, Titi. — falou a jovem rainha carinhosamente – Tia Karen tem que trabalhar. Vamos procurar a mamãe?
— Não! — gritou a menina e se agarrou a Karen fortemente.
Karen olhou para Lor’themar e deu de ombros.
— Posso ler a carta com ela nos braços. — disse se dirigindo ao seu escritório.
Lor’themar suspirou e passou a mão na testa. Lidar com Karen sempre fora exaustivo. Agora, lidar com Karen e Tinuviel, que se mostrava a cada dia mais parecida com a tia mais jovem que com a mãe, era duplamente exaustivo. O lorde regente, que mantivera o título, mas já não regia nada, tinha certeza que envelhecera cinco séculos lidando com aquelas duas. E Tinuviel tinha apenas dois anos! E quando estivesse maior? Já pensava seriamente em se aposentar.
Ash chegou naquele momento e só precisou de uma olhada em seu namorado para perceber seu cansaço.
— Problemas com a Titi? — perguntou rindo. A antipatia da menina já se tornara piada entre as princesas.
— Vou começar a mandar Halduron encerrar as brincadeiras delas e eu anuncio as folgas. Assim podemos reversar a frustração da pequena entre nós. — comentou cansado.
— Pelo menos Karen não foge mais do trabalho.
— Pelo menos isso… — murmurou o elfo.
Tocando de leve no braço dele, Ash lhe sorriu, carinhosamente.
— Vamos, eu pego a Titi e a levo para o parquinho. — Ofereceu.
— Eu agradeceria imensamente… — ele murmurou antes de beijá-la.
O relacionamento dos dois andava de vento e pompa. Lor’themar jamais, nem em seu mais ambicioso sonho, imaginava que seria tão feliz assim. Ash não era apenas o amor de sua vida, mas se tornara a melhor companheira em todos os momentos. E eles tinham variado entre excelentes e péssimos desde a coroação de Karen.
Theramore acontecera meses antes e ainda era uma ferida dolorida na alma da Horda. A forma cruel e covarde com qual a cidade foi aniquilada, sem dar ao seu povo a chance de lutar emudecera os líderes das raças da Horda e agora eles debatiam se Grito Infernal não perdera de vez o juízo. Apesar de não estar a frente de seu povo, Lor’themar se preocupava muito com o que aconteceria, pois o ultraje de Karen diante do episódio só se comparava a de Vol’Jin e os dois vinha se correspondendo bastante nos últimos tempos. Sobre o que conversavam? Karen não o deixava saber. Isso o angustiava ainda mais.
— Vamos logo, antes que eu desista de trabalhar e te leve para meu quarto. — sussurrou ele no ouvido de Ash, que gargalhou.
— Não seria nada ruim…
— Não, não seria, mas deixar uma carta do chefe guerreiro sem resposta imediata tira toda minha vontade de relaxar…
— Ah, Garrosh tira o tesão de qualquer um… — murmurou a princesa empurrando-o de leve.
Lor’themar riu e ambos foram na direção do escritório.
Tinuviel estava sentada no colo de Karen com um imenso biscoito nas mãozinhas, se lambuzando toda, enquanto Karen lia a carta de Garrosh. O biscoito era para ser o lanche de Karen, mas obviamente se tornara o da sobrinha. A pequena elfa fez uma careta ao ver Lor’themar.
— O biscoito tá bom, Titi? — perguntou Ash se aproximando.
A menina fez que sim.
— Vamos lá para o jardim? Consigo um copão de leite e mais dois biscoitos para você. — Convidou Ash mostrando dois dedos para a menina.
Tinuviel fez que sim e estendeu os braços para Ash, que apegou e sujou a roupa de chocolate.
— Xau, tia Kaka! — falou a menina dando tchau com a mão suja.
— Tchau Titi! Até mais tarde! — disse Karen acenando com a mão.
— Até mais, Titi. — disse Lor’themar acenando também.
A menina parou de acenar e mostrou a língua para ele.
— Titi! — ralhou Ash – Não faça isso! É feio!
— Feio! — a menina repetiu apontando para Lor’themar.
Karen explodiu numa gargalhada e Lor’themar apenas suspirou.
Depois que a menina foi retirada da sala, o lorde regente se aproximou da mesa da rainha, se perguntando se ela compartilharia com ele a mensagem de Grito Infernal. Nem precisou falar nada, a jovem estendeu a carta para ele, o sorriso morrendo em seu rosto. Lor’themar leu sem acreditar.
— Mais tropas? Ele quer mais soldados para quê? — vociferou o elfo.
— Não sei, mas saberei. — Ela pegou um pergaminho – Deixarei bem claro para ele que os soldados irão apenas quando tivermos um destino certo. Já não basta ele ter prendido minha irmã em Orgrimmar, agora isso? — Karen estava irritada e seu queixo tensionado deixava aquilo bem claro.
— Kassyeh não está presa em Orgrimmar, Karen. — disse ele tentando acalmá-la – Ela mesma se ofereceu como embaixatriz na próxima missão de exploração.
— Minha irmã só fez isso porque ele ficou insinuando que não levamos nosso pacto com a Horda a sério! Só porque nenhuma de nós estava em Theramore! — a menina empurrou o pergaminho para o lado – Para alguém que não está amaldiçoado pela Legião, Grito Infernal tem uma sede de sangue insaciável!
— Karen… — começou Lor’themar, mas ela abanou a mão na direção dele.
— Eu sei, eu sei… Os ouvidos dele chegam aqui… — ela respirou fundo se acalmando – Queria que Ted estivesse aqui… Ele me ajudaria a saber o que dizer para Grito Infernal…
— Se quiser uma opinião… — começou Lor’themar e Karen fez um gesto com a mão para que ele continuasse – Diga que, como é apenas uma missão de exploração no sul de Kalimdor, você enviará marinheiros experientes e arqueiros. Não é uma invasão a lugar nenhum, então mais que isso seria um desperdício de recursos. Diga também que essa equipe responderá à sua irmã.
Karen pensou um pouco. Não queria mandar ninguém, mas sabia que comprar briga com Garrosh naquele momento não era a melhor coisa a se fazer. Por enquanto, o que ele fazia era imoral, mas ainda não prejudicara diretamente os elfos sangrentos. E Lor’themar tinha razão, Kassyeh se oferecera para ficar em Orgrimmar. Não era como se ela estivesse presa lá.
— Queria a Kass e o Ted em casa… — murmurou mais uma vez puxando o pergaminho e começando a responder a Garrosh.
— Ela virá em breve. — Consolou o lorde regente.
A jovem não disse nada, apenas continuou escrevendo.
Quando a carta ficou pronta, Karen assinou-a, lacrou-a com o símbolo dos sin’dorei e entregou a Lor’themar.
— Vou treinar um pouco. — disse se levantando – Preciso bater em algo.
— Lady Liadrin vai ficar contente quando chegar e vê-la já aquecida. — brincou Lor’themar.
— Até ela corrigir minha postura e dizer que preciso ganhar músculos. — a menina suspirou – Como se eu não estivesse tentando!
O tempo que separava a coroação de Karen e aquele momento mudara mais que a mente da menina. A jovem rainha esticara. Literalmente. Se alguém que não a via a dois anos a visse naquele momento ia achar que seguraram nos braços e pernas de Karen e a puxaram exaustivamente. A jovem elfa crescera muito em altura, quase tudo que cresceria até a maturidade. Mas fora apenas isso. O corpo dela não adquirira nenhuma curva ainda e era comum confundirem-na com um rapaz. Karen ficava possessa, mas tentava lidar com aquilo na brincadeira. Porém, estava cada vez mais difícil pô-la em um vestido, desde que Saba lhe dissera que parecia uma bandeira num mastro.
— Não uso nenhum vestido até ter peito e bunda! — gritara a rainha ao ouvir isso.
E desde então usava apenas roupas masculinas que a deixavam ainda mais parecida com um rapaz. Mas ninguém ousava dizer nada sobre sua aparência. As irmãs apenas a consolavam dizendo que era comum e Karen tentava acreditar.
— Você desenvolverá músculos na época certa. — disse Lor’themar – Até lá, precisa terminar de crescer.
— Daqui a pouco vocês vão ter que aumentar o teto por minha causa! — exclamou exasperada – Ah, estou com mais vontade de bater em algo! Vou me trocar.
E Lor’themar saiu discretamente do meio da rainha irritada, já sentindo pena dos bonecos de treino que teriam que lidar com a frustração. E Karen batia forte. Tewdric se orgulhava muito daquilo.
O lorde regente foi até o quintal, onde Ash brincava com Tinuviel. Não ousava interromper a brincadeira ou seria mais um motivo para a menina detestá-lo. Ficou observando as duas rindo, Tinuviel com o rosto todo sujo de chocolate, e Ash com a roupa suja também e sorriu, pensando que, apesar de tudo, ainda havia luz no mundo. Encostou-se na parede, observando-as, até que Luxuriah surgiu na porta, a procura da filha. Quando a viu brincando com Ash, aproximou-se de Lor’themar.
— Ela não vai te morder, você sabe, não é? — brincou a elfa.
— Ela me mordeu ontem. — lembrou o lorde regente – Como você tem certeza que ela não vai me morder hoje?
— Eu disse que se ela te mordesse de novo, eu deixaria você morder ela do mesmo jeito.
Lor’themar a encarou, pasmo.
— Eu não morderia a menina!
— Ela não precisa saber isso. — Avisou a mãe.
Observaram mais um pouco a brincadeira, Luxuriah notando as manchas de chocolate na filha.
— Karen deu biscoito a ela tão perto da hora do jantar? — reclamou.
— Foi.
Luxuriah suspirou.
— E onde está Karen?
— Batendo em bonecos de treino, já que não pode bater no chefe guerreiro.
Luxuriah entendia perfeitamente a irmã. Desde que Kassyeh fora para Orgrimmar por causa das besteiras faladas por Garrosh, adquirira uma raiva tão grande daquele orc que a simples menção do nome dele lhe dava ânsia de vômito. Nunca se dera bem com Grito Infernal, mas ele estava apenas piorando. A única coisa em que concordara com ele foi a bomba que ele soltou em Theramore. Sim, Luxuriah não acreditava que ele fizera nada de errado. Eram humanos, membros da Aliança. Os líderes da Horda acreditavam mesmo que, se fosse o contrário, os humanos não fariam a mesma coisa? Além do mais, pelo que sabia, os civis já haviam sido evacuados. Não entendia tanta raiva das irmãs e dos demais líderes.
— Se eu fosse a rainha, — começou Luxuriah – teria aplaudido de pé o que ele fez em Theramore. Minhas ressalvas com Grito Infernal é a forma como ele nos trata. Se fosse menos xenófobo, eu não teria nada contra ele.
— Sua raiva dos humanos cega seu senso de justiça. — Advertiu Lor’themar.
Luxuriah deu de ombros.
— Não digo que foi justo. Digo que foi necessário. — e foi na direção da filha e da irmã – Olhe só, achei uma menina toda suja! Será que é minha filha? Tá tão suja que não sei!
Tinuviel riu com a chegada da mãe e correu em sua direção. Luxuriah pegou-a nos braços e a encheu de beijos.
— Quantos biscoitos você comeu, hein? — perguntou.
A menina pensou um pouco e fez dois com os dedos.
— Não, Titi, foram três. — e Ash ajeitou seus dedos mostrando três dedinhos.
— Três biscoitos? Tudo isso? — falou Luxuriah fingindo surpresa – E agora, como vai caber o jantar dentro da barriguinha?!
— Mais biscoitos. — disse a menina.
— De jeito nenhum. — Negou a mãe – Vamos gastar esses biscoitos para a fome vir. Que tal irmos buscar o papai no laboratório dele?
— Papai! — exclamou a menina.
— Quer que eu peça para ajeitarem o Debonzi? — perguntou Ash.
— Não, vamos caminhando. Quero que ela corra muito para queimar esse açúcar. O caminho daqui para a casa de Rommath não é longo, mas é suficiente. — e encarando a filha disse – Vamos tomar um banho antes?
— Não! — negou a menina balançando a cabeça.
Em vez de ficar chateada, Luxuriah riu.
— Ótimo, deixo isso para seu pai quando chegarmos lá.
Apesar de morarem na torre, Rommath mantinha sua casa funcionando, da mesma forma que Luxuriah mantinha as duas casas da família. O mago montara seu laboratório na sua casa e continuava cuidando dos morangos no quintal. Luxuriah sabia que ele ia para lá principalmente para lidar com a ausência do irmão. Mesmo estando ainda muito irado com a decisão do sacerdote, Luxuriah sabia que Rommath sentia muita falta de Kayliel. Era para a casa de ambos também que o sacerdote mandava as cartas direto de Terralém. Rommath lia todas, mas nunca respondia. Era Luxuriah quem mantinha o cunhado informado de tudo. Claro, também odiava o fato de ele estar com uma humana, mas tinha esperanças que ele abriria os olhos com o tempo e voltaria para casa. Até lá, o contato era mantido.
Depois que Luxuriah levou a filha para encontrar o pai, Lor’themar se aproximou de Ash. O rosto da jovem estava sujo de chocolate também, com riscos que mostravam que tinha sido Tinuviel que passara os dedos sujos pelo rosto da tia. Lor’themar usou a ponta do dedo para limpar uma das manchas, antes de sugerir:
— Acho que você precisa de um banho antes do jantar também. O que acha de eu dar esse banho?
Ash sorriu, maliciosa.
— Só se você me esfregar bem devagar e com cuidado, para me limpar direitinho.
Lor’themar a enlaçou e a puxou para junto dele.
— Será um prazer, alteza. — e a beijou.
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A tarde chegava ao fim e tudo que Pandora queria era ir para casa. Seus pés doíam, estava toda suada e se seu colega de patrulha dissesse outra piada sobre anões, ela ia bater na cabeça dele até ele virar um anão. Mas, pelo menos, não estava mais no turno da noite, que era infinitamente pior.
Pandora não quisera entrar no exército. Só fora para a Academia Militar porque era o melhor treinamento que alguém poderia ter. Os melhores aventureiros da Aliança saíram de lá. E quando ela finalmente terminou o curso, em vez de se alistar, procurou uma guilda para entrar, para fazer missões pelo mundo e ganhar a vida assim. O problema era que o dinheiro era bem inconstante. E a própria Pandora era inconstante. Ela se irritava facilmente com as pessoas e não aceitava muito bem quando alguém tentava passá-la para trás. E isso, claro, a fez ser expulsa da guilda que entrara. Na verdade, das três guildas que tentara. Por fim, se relegou a se recrutar no exército.
Assim que entrara, sua tia providenciara que ela fosse fazer ronda no pior horário e na pior rota. “Para ninguém achar que estou te favorecendo”, ela dissera.
Vaca.
A jovem então fora obrigada a fazer a rota e o horário que só fazia quem desobedecia às ordens, para ser punido. No espaço do mês que ficara ali, seus companheiros mudaram tanto que Pandora achou que só ela faria a rota para sempre. Porém, a Luz atendeu suas orações na noite em que tivera que intervir na briga de dois nobres em um prostíbulo. Fora uma briga feia e Pandora acabou quebrando o nariz dos dois homens envolvidos. Um foi para defender o outro. O outro foi que a confundiu com uma prostituta. No final, um deles exigiu que ela fosse expulsa do exército e o outro exigiu sua promoção. Pandora não fazia ideia de qual pedira o quê e chegou a receber flores de um deles. Ela deu as flores para o cavalo de Lina comer e acabou sendo enviada para o turno da manhã para não quebrar nariz de nobre nenhum.
Apesar do estresse do trabalho e de sua tia bufando atrás dela o dia todo, a vantagem de ter um salário certo todo o fim do mês era essencial para ajudar nas despesas com Pietro. Seu coração apertou ao pensar no menino. Pietro estava piorando novamente.
O clima de Ventobravo e os cuidados que recebiam ajudaram o menino a passar aqueles dois anos muito bem. Porém, a doença dele não dera a trégua que todos desejavam e os braços dele estavam ficando fracos novamente. Uma das mãos, inclusive, passava mais tempo fechada que aberta, pois o menino já não a controlava direito. Seu irmão tentava levar aquilo da melhor forma possível, dizendo que estava pronto para socar todos, mas sabia que ele sentia medo. Ouvira muitas histórias de pessoas que, lúcidas, acabavam seus dias presas na cama. Aquilo o assombrava e assombrava a ela também. A última esperança era o profeta Velen em Exodar.
Viajariam no final daquela semana.
O príncipe Anduin acabara de fazer quinze anos e em breve anunciaria uma mudança em Ventobravo. Era tradição: sempre que o herdeiro fazia quinze anos, era dado a ele a oportunidade de fazer uma lei ou mudar alguma existente. Poderia também conceder o perdão a alguém ou algo do tipo. Isso acontecia para mostrar que tipo de governante o herdeiro seria. O anúncio de Anduin era esperado com ansiedade e havia até apostas do que seria. O acontecimento se daria as vésperas da viagem dele a Exodar, onde permaneceria um tempo concluindo seus estudos com o profeta Velen. Lina conseguira com o príncipe a ida dos sobrinhos, para ver o que o draenei poderia fazer pelo menino. Pandora estava animada, mas também estava temerosa. E se ele não pudesse fazer nada? E se dissesse que, no final das contas, o destino de Pietro era mesmo a imobilidade total?
“Não pense nisso!”, ela se ordenou enquanto subia as escadarias da bastilha ouvindo as merdas que seu colega dizia, mas ignorando todas. “Pietro não vai ficar inválido! O profeta dará um jeito!”.
Era seu maior desejo. Trocaria qualquer coisa por isso.
O soldado ao seu lado falou mais alguma coisa estúpida e a paciência de Pandora esgotou-se. Parou e o encarou, com uma expressão nenhum pouco amigável.
— Eu farei o relatório. — disse entre os dentes – Agora, vaza!
Em pouco tempo como soldada, Pandora já fizera uma fama razoável. Então, o rapaz simplesmente correu. Ela suspirou, aliviada. Já ia tarde. Continuou a subida e logo estava dentro da bastilha.
Era um alívio estar dentro dos muros do castelo. Estava bem mais fresco que lá fora. Respirou fundo e foi em direção à sala da tia. Esperava que ela estivesse lá e não em uma ronda. E se estivesse em uma ronda, esperava que ainda tivesse biscoitos no pote que ela mantinha embaixo da mesa.
Enquanto andava, tocou o colar élfico que comprara em seu aniversário de dezesseis anos. O mantinha sempre polido e brilhante e era seu orgulho. Cada vez que o colocava, lembrava daquele dia em Dalaran. O dia em que tanto quisera ver Halduron, mas que não conseguira. Talvez o destino fosse não o ver mais, pensava às vezes. Só que, sempre que ia a Dalaran, sentia um frio no estômago e uma ansiedade desmedida. Quem sabe um dia o veria sem esperar e poderia mostrar a ele o belo colar que adquirira…
Pandora entrou na sala do mapa e deu de cara com Lina em sua mesa e o pote de biscoito bem em frente a ela. Só havia mais um lá. Rapidamente, Pandora enfiou a mão no pote e pescou o último biscoito. Lina nem levantou os olhos do papel que lia.
— Se você não fosse minha sobrinha, ficaria sem os dedos. — disse calmamente.
— Ainda bem que sou.
— Sem problemas hoje, espero. — Continuou a comandante sem soltar o papel que lia e entregando outro em branco à sobrinha.
— Nenhumzinho. — Afirmou pegando o papel – Nem acredito que, logo no distrito dos anões, as coisas estivessem tão calmas.
— A essa hora os encrenqueiros estão acordando para criar problemas para o turno da noite. — Lina disse.
— Bom pra eles. — Murmurou Pandora cuidando logo de preencher a papelada.
A burocracia era a parte mais chata do trabalho, mas, pelo menos, podia fazer sentada na mesa de sua tia. Os outros soldados usavam as mesas do refeitório e, vez por outra, aparecia algum relatório com mancha de café ou gordura e Lina mandava-os refazer na hora. Ser sobrinha da vaca tinha lá suas vantagens.
— Pronto. — disse ela entregando o pergaminho preenchido.
— Pode ir. — Lina a dispensou, sem nem olhar o relatório.
Aquilo era estranho. Sua tia normalmente lia seu relatório minunciosamente, procurando algum erro, só pra poder ter do que reclamar. Por que ela parecia tão desatenta naquele dia? Pandora olhou ao redor. A sala estava meio esvaziada. E sua tia tinha aquela expressão na cara de quem estava com prisão de ventre. Então entendeu.
— Outra reunião daquela? — perguntou.
Lina suspirou, soltando o papel que lia, levando a mão à testa e massageando as têmporas.
— Outra. — Confirmou – É a terceira essa semana. E não decidem nada.
A perda de Theramore fora mais que uma perda de território. Fora uma perda essencialmente humana. Pandora lembrava bem de ver a Grã-Senhora Proudmore urrando de dor e ódio na bastilha, exigindo vingança ao rei. Fora uma cena bem pesada de ver. E agora, com os meses passando e a dor diminuindo, era necessário reparar as perdas. O general Jonas morrera no cerco da cidade, quando a bomba de mana jogada pela Horda caiu. E seu lugar estava vago. Fazia dias que os demais generais tentavam encontrar alguém para pôr no lugar do general morto, mas não chegavam à conclusão nenhuma. Pandora queria saber porque. Só o que tinha era nobres imbecis dentro do exército para ocupar a vaga. Talvez o problema fosse justamente por serem imbecis. Se bem que isso, no passado, não fizera diferença. Era só ver que Crowe continuava lá.
Todos estavam tensos com quem seria escolhido como general, pois essa pessoa trabalharia na bastilha, e seria o superior de Lina. Dificilmente o novo general interviria no trabalho da comandante, mas tudo era possível, quando se pensava em alguém com tanto poder.
— Vou esperar pela senhora. — disse Pandora continuando a comer o biscoito – Quero saber as fofocas em primeira mão.
Lina deu um sorriso amarelo.
— Não imagino que vão decidir nada hoje. Vá pra casa. Você aproveita e ajuda Doro no jantar.
Pandora considerou por um momento.
— Posso ir no seu cavalo? — perguntou animada.
— Pode. Eu vou caminhando quando for para casa.
— Perfeito. — A jovem enfiou o resto do biscoito na boca de uma vez e se levantou – Xauzinho. — disse com a boca cheia se encaminhando para a porta.
Naquele momento, Lady Cláudia apareceu na entrada e Pandora se engasgou um pouco. Bateu continência antes de sair correndo da sala, temendo que a tia mudasse de ideia. Lina balançou a cabeça em negativa. Sua sobrinha era mal-educada mesmo. Levantou-se e bateu continência para a general, que sorriu.
— Comandante. — Lady Cláudia acenou com a cabeça.
— General. — Lina cumprimentou – Espero que a reunião tenha sido boa.
Cláudia riu.
— Não precisamos ser tão formais uma com a outra, Lina. — Ela fez um gesto para a outra descansar.
— Aqui dentro sim. — lembrou Lina – Não quero ser acusada de nada.
— Você devia relaxar mais, Lina. Ninguém está caçando-a.
— Tenho minhas dúvidas… — murmurou Lina.
Depois que Crowe voltara da licença forçada para cuidar do pai, ele ficava em cima dela como um urubu esperando a presa morrer para se alimentar. Ele a cobrava muito mais do que antes, a importunava constantemente e esperava para ver se ela se queixaria com o rei. Mas Lina não daria esse gostinho a ele. Fazia tudo com mais cuidado e diligência que antes e o general ficava irado só em não ter como puni-la. Quando Pandora entrara no exército, Lina temeu que a raiva do general se voltasse conta sua sobrinha e ele passasse a persegui-la; por isso a pôs para patrulhar a cidade. Quanto mais longe estivesse da bastilha, menos problemas Crowe arrumaria para a menina.
— Esqueça Crowe. — falou Cláudia como se lesse seus pensamentos – Ignorá-lo é a melhor forma de lidar com ele. Eu que o diga. Ele ainda está irado porque não consegue me ofender usando Horátio.
— Ele fica irado porque não consegue esconder a frustração de você ter preferido o filho de um carpinteiro a ele. — Lina riu – Convenhamos, qualquer um seria melhor que Crowe, mas Horátio não é qualquer um.
— Com certeza não! — Cláudia acompanhou-a no riso – Não há marido ou pai melhor que ele.
Passado o primeiro choque da rebeldia de Lady Cláudia, a maioria dos nobres que andavam por ali pararam de sussurrar cada vez que ela passava. O fato dela não se importar, não baixar a cabeça e não se envergonhar ajudou bastante. E quando a general se tornou mãe, muitos se perguntaram se ela não largaria o cargo para cuidar dos filhos e abriria a sua vaga para outro se tornar general. Cláudia, porém, não o fez. Contava com os pais e com Horátio para ser mãe e militar ao mesmo tempo e Lina se surpreendia como ela conseguia dar conta de seus filhos gêmeos e da segurança da Aliança. Claro, ajudava o fato de Asa da Morte já ter sido derrotado há um tempo e o mundo estar em relativa calma.
Exceto por Theramore. Ninguém esquecia aquela dor.
— Como estão os meninos? — perguntou Lina.
— Ah, estão ótimos. Não ficam quietos um só minuto, o que é bom porque estão obrigando meu pai a correr pela casa. O velho precisa de um exercício.
Quando Doroteya dissera que estava desconfiada dos bebês de Cláudia serem gêmeos, ela não estava enganada. Também acertara a época do nascimento. Poucos depois do casamento da druidesa, esta foi chamada para cuidar do parto da general. Não fora um parto difícil e logo Lady Cláudia e Horátio tinha dois meninos lindos para cuidar. Os meninos receberam os nomes de Claude (homenagem a mãe) e Clair (homenagem a tia falecida). E eram meninos lindos! Lina se surpreendera quando os vira, os cabelos tão vermelhos quanto os de Horátio. Brincara chamando-os de tochinha e foguinho.
— Vou visitá-los na próxima folga. — Prometeu Lina – Não posso ficar muito tempo sem vê-los ou vou acabar não sabendo diferenciar um do outro.
— Eu os trarei para o anúncio do príncipe no fim da semana. — Avisou ela – Só assim para tirar papai e mamãe de casa.
— Ah, jantem lá em casa! — convidou – Doroteya vai amar ver os meninos!
— Ah, não sei. — Cláudia ficou em dúvida – Não quero dar trabalho a Doro nesse momento.
— Bobagem! Ela não fará nada sozinha!
Cláudia sorriu.
— Combinado, então!
Lina estava prestes a perguntar sobre a reunião, quando passos pesados se fizeram ouvir e o rei Varian Wrynn entrou na sala do mapa. Lina e Cláudia rapidamente pararam a conversa e bateram continência. As duas pensaram que o rei se dirigiria ao mapa, mas ele parou bem em frente à mesa da comandante.
— General. — disse cumprimentando Cláudia – Comandante. — disse olhando para a Lina e dando um leve sorriso – Estou atrapalhando algo?
— Jamais, majestade. — disse rapidamente a general – Eu já estava de saída. — e voltando-se para Lina, acenou com a cabeça para ela – Até mais, comandante Wood.
— Igualmente, general Hightower. — Lina bateu continência.
Cláudia fez mais uma reverência a Varian e então saiu da sala. Varian voltou sua atenção à comandante.
— Caminhe comigo, comandante Wood. — disse Varian apontando com a cabeça para o corredor – Precisamos discutir a segurança do anúncio de meu filho.
— Sim, majestade. — e o acompanhou.
Enquanto andavam pelo corredor, Lina um passo atrás dele, a comandante lembrou o período de tensão que se instalara entre os dois quando Arshe decidira ir embora. Anduin ficara devastado, mas compreendera as motivações da irmã. Varian, ao contrário, esbravejou, irado, inconformado com o fato da jovem além de ter abdicado do título dado por ele, ter decidido deixar a Aliança em favor de uma facção neutra em Terralém. O fato de ela estar com um elfo sangrento fora, para a surpresa de Lina, o menor dos problemas. Varian não queria se afastar da filha do melhor amigo e não poder protegê-la. A relação deles ficara estremecida por um tempo, Varian culpando-a por não manter Arshe amarrada em Ventobravo contra a vontade. Quando ele dissera que esperava mais da amizade dela com a maga, Lina apenas dissera:
— Mais que ajudá-la a ser feliz?
O assunto fora encerrado depois disso. Varian entendera o quanto estava sendo egoísta.
Caminharam em silêncio por um tempo e Lina pensou que Varian a afastava não para falar sobre a segurança de Anduin, mas sobre a escolha do novo general.
— Lady Cláudia te falou da reunião? — perguntou ele enquanto andavam em direção ao jardim.
Acertara na mosca.
— Não.
Varian parou de andar e se virou, um pequeno sorriso brincando nos lábios.
— Ela sugeriu seu nome.
— O quê?! — exclamou a comandante pasma – Ela é louca?!
— Engraçado que foi exatamente o que Crowe disse. — Ele riu quando ela entortou a boca, insatisfeita com a comparação e recomeçou a andar. Lina o acompanhou. — Claro, isso não é possível, mas ela o fez mesmo assim. Disse que todos que podiam substituir Jonas apropriadamente morreram com ele em Theramore e que os nobres de nascimento no exército eram inexperientes demais.
— Cláudia devia parar de arrumar problemas. — Murmurou Lina, anotando mentalmente que lhe daria umas broncas quando ela fosse jantar na casa dela. Se pudesse dar bronca nela dentro da bastilha, o faria naquela tarde ainda.
— Ela não arrumou nenhum, posso lhe garantir. Mesmo Crowe não pode negar que você tem os requisitos para ser general.
— Não tenho. Não sou nobre. — lembrou.
— Os requisitos importantes. — Ressaltou o rei – Os outros generais entenderam o que Lady Cláudia quis dizer. E ouso opinar que muitos ficaram insatisfeitos de não poderem te eleger no mesmo instante.
Foi como engolir uma pedra de gelo.
— Varian, por que está me contando isso? — perguntou angustiada – No final das contas, nada disso adianta. Algum menino ou menina mimada acabará na vaga e eu acabarei tendo que obedecer.
Não queria soar tão amargurada, mas era assim que se sentia. Há dias não dormia direito, pensando no que mudaria quando o novo general chegasse, a forma como isso afetaria seu trabalho e seus soldados. Sondara brevemente quem tinha nascimento nobre e estava no exército e se surpreendeu ao ver como eram jovens, arrogantes e inexperientes.
— A menos que alguém te ponha lá. — Sugeriu o rei.
Lina não entendeu no primeiro momento.
— Ninguém pode me colocar lá, Varian. Vamos mudar de assunto, por favor.
— Anduin pode. — disse ele por fim.
Lina parou de andar na mesma hora. Varian virou-se novamente para ela e ficaram frente a frente. Estavam próximos à biblioteca e não havia ninguém nas proximidades para ouvi-los.
— Como é? — Lina achou que não tinha entendido direito.
Varian não podia estar sugerindo o que ela pensava que estava.
— Anduin pode te fazer general. — disse o rei com todas as letras – Tenho certeza que ele faria isso por você.
Houve um momento de choque antes dela falar, resoluta:
— Não. Não pedirei isso a Anduin. Está fora de cogitação.
— Lina, você tem capacidade para isso. — Insistiu Varian – Até Crowe sabe disso. Ninguém ia falar que você conseguiu sem merecer.
— Não é apenas isso, Varian. Não é somente sobre o que as pessoas vão falar de mim. É sobre Anduin. A mudança virá dele. Se ele simplesmente me colocar como general como ato, o que isso significará para as pessoas?
— Que seu futuro rei valoriza as pessoas, não importando seu nascimento.
— Não, dirão que ele favorece apenas seu círculo interno e que tenta agradar o pai. — Ignorou a expressão de raiva de Varian e continuou – As pessoas sempre pensarão o pior e a última coisa que desejo nessa vida é marcar de forma negativa o reinado de Anduin. — Ela parou um momento, encarando-o – Você não sugeriu isso a ele, não foi?
— Não. — respondeu, para o alívio dela – Quis falar com você antes.
— Que bom. Porque a resposta é não. Mas você já sabia.
— Tinha esperanças que a fizesse mudar de ideia. — Confessou.
— Desculpe, Varian, mas não vai. — Ela sorriu – Deixe Anduin usar seu pedido para algo que nos conduza a paz. É isso que ele quer.
— Ele te falou isso? — perguntou Varian ansioso.
— Não, ele tem mantido mistério sobre o que pedirá. Nem Arshe conseguiu descobrir, quando veio visitá-lo. Mas todos estão contando que será algo que possa envolver a Horda. Talvez uma reunião dos líderes da Aliança com a Horda? É aposta que está ganhando.
Varian passou a mão no rosto, angustiado. Lina então entendeu o maior medo dele.
— Varian… Você queria que eu pedisse isso para que Anduin não tivesse a oportunidade de usar a lei para abrir um canal com a Horda? — perguntou e não estava surpresa, nem irritada.
— Anduin tem um bom coração, mas é muito ingênuo. — Começou Varian – Temo que ele faça uma escolha agora que vá se arrepender no futuro.
— O que quer que aconteça, será decisão dele, Varian. Não sua, não minha, nem de ninguém. — Ela tocou o braço dele – Confie em seu filho.
Respirando fundo, Varian colocou a mão em cima da dela. Conhecia Lina o suficiente para saber, desde o princípio, que aquele seria seu discurso. Ficava feliz em perceber o quanto a conhecia bem, mas triste por não poder mudar sua opinião.
— Você está certa. — Admitiu ele – Não devo deixar meus receios nublar a confiança que tenho no meu filho. Só que… — ele a encarou, entristecido — Você devia estar naquele cargo. Eu não consigo…
Ela colocou o dedo delicadamente nos lábios dele.
— Deixe que eu me preocupe com isso. Você tem coisas bem mais urgentes para tratar.
Varian concordou com a cabeça e Lina o soltou.
— Já que as coisas estão relativamente calmas por aqui, vou para casa. — Anunciou Lina – Tenho que ver se tudo está em ordem, antes do meu compromisso da noite.
— Compromisso da noite? — Estranhou ele. Não fora informado de nada para Lina fazer na bastilha tão tarde.
— Sim, meu compromisso. — Ela sorriu maliciosa – Não consegue mesmo imaginar qual é?
E antes que ele pudesse responder, Lina bateu continência e se retirou. Varian sorriu. Esperaria com ansiedade o compromisso da comandante.
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O encarregado do navio leu a lista demoradamente com a expressão de puro desgosto. Kassyeh continuou impassível, pacientemente esperando que ele terminasse de verificar suas exigências. Quando o orc finalmente acabou, encarou-a, franzindo a testa.
— Para que tudo isso? — esbravejou.
— Para o bem-estar da tripulação. — disse com uma calma de dar inveja a qualquer paladino – Serão dias, talvez semanas no mar e temos que nos preparar para quaisquer eventualidades.
— Mas para quê tanta fruta? Elas vão apodrecer nos primeiros dias!
— Eu tenho magia de gelo. — lembrou ela – Não será problema para mim mantê-las frescas por mais tempo. Além do mais, sempre é possível fazer compotas, por isso o açúcar que eu pedi.
O encarregado sacudiu a cabeça em negativa, como se recusasse a acreditar naquilo.
Kassyeh amava Orgrimmar, mas as últimas semanas estavam sendo as piores de sua vida. Desde a queda de Theramore, quando receberam um enviado do Chefe Guerreiro, descontente com a ausência delas na batalha, se oferecera para ficar na capital da Horda como embaixatriz. Tewdric a acompanhou, obviamente, mas estava tão difícil ignorar os olhares estranhos de muitos orcs quando estavam juntos… E agora, com essa expedição para verificar a atividade da Aliança no sul do continente, sua preocupação era com as tropas que teriam que lidar com o clima e a situação de estar no mar pela primeira vez. Muitos jovens de todas as raças engrossavam as fileiras da Horda e não faziam ideia do que era estar no campo de batalha. Nem no mar. Kassyeh já estivera em ambos.
— Nossos recursos devem ser gastos com armas e não com bobagens como essa! — exclamou o orc apontando a lista.
— De nada adianta armas se os guerreiros não tiverem força para segurá-las. — Retrucou a maga com altivez.
O orc arreganhou os dentes, talvez na tentativa de intimidá-la, mas Kassyeh continuava serena. Quando se via os dentes arregalados de um Aspecto Dracônico, não se temia muita coisa na vida.
— Talvez os elfos sejam fracos assim, mas os orcs não!
— Ninguém vive sem se alimentar direito. — Continuou a elfa placidamente – Nem mesmo os orcs.
A discussão, com certeza, se alongaria por um bom tempo, se o general Nazgrim não chegasse ao convés do navio naquele momento. O orc guerreiro viera acompanhar a alocação dos recursos e pessoas para que pudessem partir o mais rápido possível. Como não iria naquela primeira frota, precisava saber de todos os preparativos.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou ele se dirigindo ao encarregado.
— Essa elfa fez um monte de exigências para a viagem, general. — disse o encarregado rapidamente, jogando a culpa nela – Veja só. — E mostrou a lista.
Nazgrim pegou o pergaminho e leu o pedido de Kassyeh e depois entregou-a de volta ao encarregado.
— Algum problema na entrega dos recursos que ela pediu? — perguntou ele – Não temos como providenciá-los, é isso?
O orc piscou, confuso.
— Sim, senhor, temos, mas…
— Então faça-o, soldado. Se nossa campeã acredita que isso é necessário, eu acredito nela.
Insatisfeito, o orc baixou a cabeça e assentiu para o general. Deu um último olhar de raiva para a princesa e saiu do navio. Kassyeh não baixou a guarda e olhou para Nazgrim em desafio.
— Não precisa ficar na defensiva, princesa. — disse o general – Depois de tudo que passamos em Valshj’ir, acredito que podemos deixar nossas diferenças para trás.
Quando foram arrastados para o fundo do mar, Nazgrim fora salvo por Kassyeh de morrer afogado e ser morto pelas nagas. Isso o fizera desenvolver um respeito imenso por ela, o que era bem útil no momento em que todos se viravam contra seu relacionamento. Mesmo que o casamento inter-racial ainda o incomodasse, dizia para quem quisesse ouvir que Kassyeh era uma companheira de batalhas honrada e poderosa. Já era alguma coisa, mas ela ainda tinha um pé atrás pelo que acontecera no passado.
— Você está certo, general. — disse ela relaxando – Já existe tensão demais sem nossas rusgas. E obrigada pela ajuda com o encarregado. Nós dois sabemos como suprimentos são importantes quando estamos no mar.
— Sem dúvidas, princesa. — E olhando em volta, perguntou – Onde está Tewdric?
— Verificando o compartimento das armas. Recebemos alertas que espiões da AVIN poderiam estar por aqui sabotando nossas embarcações. Mas até agora não achamos nada.
— Vou falar com ele. Pode me mostrar o caminho?
Kassyeh fez que sim e seguiu para dentro do navio, com Nazgrim em seu encalço. Se tudo estivesse de acordo com o planejado, partiriam em dois dias. Apesar de estar preocupada com as irmãs, Kassyeh não imaginava que a viagem duraria muito. A Aliança ainda estava muito abalada com Theramore para empreender algum ataque. Na verdade, a própria Horda estava abalada. Ninguém imaginava que Garrosh pudesse ter aquele poder nas mãos. Era desconfortável saber a que extremos o Chefe Guerreiro poderia chegar.
— Tewdric? — chamou Kassyeh entrando na sala das armas.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, seu marido rapidamente a agarrou e tascou um imenso beijo em seus lábios. O rosto de Kassyeh queimou de vergonha, porque sabia que Nazgrim assistia tudo. E quando ele agarrou seu traseiro, a elfa tentou afastar-se do beijo para falar algo. Mas nem precisou. Nazgrim tossiu ruidosamente e Tewdric percebeu que não estavam sozinhos. Ele a soltou e logo recuperou a postura, enquanto Kassyeh desamassava o vestido.
— General. — Tewdric bateu continência.
— Campeão. — falou Nazgrim – Nenhum rato da Aliança, pelo que posso ver.
— Nenhum. — confirmou o guerreiro – Não vimos nenhuma movimentação deles por aqui. Pode ter sido um alarme falso. Ou podem estar esperando para a hora que partiremos.
— Por isso não devemos baixar a guarda, mesmo que tenhamos muitas… Distrações. — ele olhou para Kassyeh, que sentiu o rosto queimar de vergonha – Quero verificar o resto do navio.
— Vamos. — disse Kassyeh se adiantando e tomando a frente, assim não teria que ficar olhando para a cara de Nazgrim.
Percorreram todo o navio, verificando os recursos que já haviam chegado e quais faltavam. Ao final da revista, Nazgrim estava satisfeito e Kassyeh exausta. O general se despediu dos dois e foi embora, montado em seu lobo de guerra. Kassyeh imediatamente se virou para o marido.
— Você tem que parar de me agarrar assim! — exclamou.
— Por que? Você não gosta mais? – perguntou ele se fazendo de triste.
— Aff, Tewdric, você sabe que não é isso! — e como ele apenas ria da expressão exasperada dela, revirou os olhos – Ah, você me mata de vergonha, sabia?
— Eu sei. — ele a abraçou e a beijou, um pouco mais contido dessa vez – Já que terminamos aqui, vamos para casa? — perguntou animado.
— Primeiro, vou passar para pegar umas ervas com a Shikrik e ver Saba. — disse.
— Ótimo, vamos. — e assobiou, chamando Toblerone, que voava por perto.
Montaram e saíram. A casa da mestra de Saba não era longe do porto e logo os dois aportavam por lá. Naquele momento, um cheiro maravilhoso de presunto defumado e pão fresco os invadiu e Tewdric olhou animado para a esposa antes de dizer:
— O bom de visitar uma xamã é que ela sempre sabe que você está vindo.
Kassyeh riu e concordou com a cabeça.
— Kass! — exclamou animada Saba saindo de dentro da cabana.
Como Karen, Saba crescera muito naqueles dois anos, mas, diferente da elfa, a orquisa adquiria muitas curvas já e seus seios já se destacavam dentro das roupas de aprendiz. Como os orcs atingiam a idade adulta bem antes dos elfos, por volta dos treze anos, Sabá seria adulta antes de Karen e, pelos corpos de ambas, já era possível ver isso. Contudo, uma das coisas que tanto Kassyeh quanto os pais de Saba estavam aliviados em perceber, era que a jovem não tinha pressa em crescer. Muitas orquisas arrumavam companheiros assim que atingiam a idade adulta e tinham filhos muito cedo. Saba não estava interessada em macho nenhum. Só queria estudar e visitar a amiga.
As visitas de Saba também se tornaram menos ruidosas com o tempo. Na verdade, as duas adolescentes passavam horas dentro do quarto, conversando coisas que não deixavam ninguém saber, ou dando longas caminhadas, longe da companhia dos adultos. Tewdric, às vezes, reclamava que estava sendo esquecido e que só Tinuviel o amava e então conseguia um pouco da companhia das meninas. Mas na maior parte do tempo eram apenas as duas em seu mundo de adolescente esquisito. Kassyeh se perguntara se fora assim também.
Porém, algo que não mudara com o tempo e Kassyeh esperava que nunca mudasse, era o carinho e a afetuosidade de Saba, que abraçou a elfa calorosamente quando esta chegou.
— Wow, Saba, você está bem forte! — disse a elfa ao receber o abraço apertado – Cuidado para não quebrar minhas costelas!
— Se o Ted não conseguiu, duvido que eu consiga! — brincou a menina afrouxando o abraço – Eu estava com saudades!
— Também estava, querida. Como tem passado?
Saba a soltou e a encarou, animada.
— Os espíritos já falam comigo! Isso é tão legal! Quer dizer, menos quando eu tô tomando banho e um aparece de repente e eu penso que é um tarado… Ofendi o espírito de um velho xamã esses dias sem querer….
Tewdric deu uma gargalhada alta enquanto Saba suspirava.
— Você vai aprender a recebê-los só quando for conveniente, querida. — consolou Kassyeh olhando para o marido com repreensão.
— Espero que sim. — desejou a menina – Agora, entrem! Fiz pão! A mestra está meditando, mas logo vem! Ela disse que está tentando ver alguma coisa sobre a expedição de vocês!
Aquilo deixou Kassyeh e Tewdric muito mais animados. Shikrik era uma excelente xamã e suas previsões eram conhecidas por serem certeiras. Se a orquisa pudesse ajudá-los principalmente a ver o que a Aliança pretendia, seria perfeito para que pudesse cumprir as ordens do chefe guerreiro e logo voltarem para a casa.
Entraram na cabana e sentaram no grosso tapete do chão. Na mesinha pequena, Sabá serviu chá, pão acompanhado de uma deliciosa manteiga caseira, presunto e queijo de javali. Estava tudo delicioso e conversaram um bom tempo sobre como estavam as coisas em Luaprata, sobre Karen, Tinuviel, os pais de Sabá e o treinamento dela. Era ótimo ter com quem conversar sobre as coisas de casa, pensava Kassyeh. Às vezes sentia-se muito sozinha em Orgrimmar, quando Tewdric precisava fazer algo para o Chefe Guerreiro e era para Saba que ela recorria. A menina não era mais tão menina assim e a elfa se perguntava se conseguiria tratá-la como adulta algum dia.
Estavam provando a compota de frutas silvestres que Kassyeh levara de presente para Saba quando Shikrik entrou na cabana. Kassyeh se surpreendeu ao perceber o quanto a orquisa parecia abatida. O que teriam os espíritos falado para ela?
— Quer chá, mestra? — perguntou Saba já se levantando e pegando uma xícara em um aparador.
— Sim, Saba.
Saba rapidamente preparou uma xícara de chá para sua mestra e colocou em frente a ela, para então sentar. A velha orquisa bebeu um pouco, respirou fundo e depois encarou os convidados.
— Não precisam parar o assunto porque eu cheguei. — deu um pequeno sorriso – Também quero saber das novidades.
— A Karen continua sem peitos! — foi a primeira coisa que Saba disse antes de começar a encher a mestra das coisas que Kassyeh já tinha contado.
A jovem falou bastante, enquanto a sua mestra apenas assentia e bebia o chá. Tewdric e Kassyeh se entreolharam algumas vezes, os dois curiosos para saber o que abalara a velha senhora em sua meditação. Seria algo relacionado à viagem que fariam em alguns dias? Queriam muito saber, mas não atrapalhariam a animação de Sabá.
Depois de ter contado todas as histórias que acabara de ouvir de Kassyeh, Sabá fez uma pausa para preparar mais chá. Enquanto ia buscar a água no pote na cozinha e fervê-la, Tewdric se dirigiu respeitosamente à xamã:
— Senhora Shikrik, a senhora falou com os espíritos sobre nossa viagem?
A velha xamã balançou a cabeça negativamente, surpreendendo a ambos.
— Não posso. — respondeu.
— Desculpe, não queríamos incomodar. — apressou-se Kassyeh a dizer.
— Não me entendam mal, crianças. Eu gostaria de ver. Tentei ver. Mas…. — a velha suspirou – Minha visão está turva…
— Turva? — estranhou Tewdric.
— Sim, meu rapaz. Turva. Olhei para dentro de minha bacia, para minha xícara de chá, para dentro dos meus sonhos e a única coisa que consigo enxergar é um nevoeiro…
— Um nevoeiro… — repetiu Kassyeh – Seria uma tempestade que enfrentaremos no mar?
— Eu não sei. — admitiu ela com tristeza – Fico triste em não poder ajudá-los, mas tudo que vejo é esse nevoeiro…
— Já é alguma coisa, senhora Shikrik. Obrigado. — agradeceu Tewdric respeitosamente.
Mesmo que ainda mantivesse a expressão frustrada na face, Shikrik sorriu.
Pouco tempo depois, Saba voltou com mais água para o chá e o clima ficou mais leve. Ainda que pesasse sobre eles o mistério do nevoeiro, Tewdric e Kassyeh queriam aproveitar todos os momentos em terra firme, por isso aceitaram o convite da xamã para jantar. Já era noite alta quando voltaram para Orgrimmar, mas não falaram mais sobre o nevoeiro que bloqueara a visão de Shikrik. A tensão e a incerteza os deixaram com ânsia de se amarem urgentemente.
Pois, afinal, o futuro era incerto.
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Sentada em uma confortável cadeira no quintal, observando o sol aos poucos desaparecer, Doroteya queria estar disposta para fazer algo mais que ficar sentada ali. Até poderia, mas era impressionante como ninguém a deixava fazer nada apenas por reclamar de uma dorzinha nas costas. Tudo bem, não era uma dor tão pequena quanto estava tentando mostrar, mas isso não a tornava inválida.
— Aqui, mãe. — disse Theo se aproximando – Seu copo de chá gelado.
— Eu poderia ter pego eu mesma, sabia? — reclamou a druidesa.
— Por quê, se eu poderia trazer? — retrucou o menino sorrindo para ela – E seus pés ainda estão inchados. — ele rapidamente pegou um banquinho e colocou os pés da mãe nele.
Como sempre acontecia quando seu filho era gentil, Doroteya amoleceu. Revirou os olhos ao receber o beijo dele e o viu correndo de volta para a casa. Na cozinha, Tommy e Vincent faziam o jantar, conversando animadamente. O namorado de Mel era uma presença constante na casa, mesmo quando este não estava. Todos gostavam muito dele e a única reclamação que Doroteya tinha a fazer era que, quando ele estava lá, não a deixava cozinhar, pois dizia que ela merecia uma folga.
— Tia Doro, aproveite a bajulação. — disse Pietro do seu lado – Logo, logo, ela vai passar.
— Espero que passe mesmo…
Apesar de reclamar que estava sem fazer nada, os pés de Doroteya agradeciam o descanso. Há dias eles estavam tão inchados que ela precisava parar todo instante de andar pela casa e suspendê-los. Era estressante.
Ouviram um barulho no portão do quintal e Pandora entrou com o cavalo de Lina. Doroteya estranhou, mas a jovem foi logo avisando:
— Tava uma tensão danada na bastilha e a tia me liberou. E ainda emprestou o cavalo! — falou enquanto colocava a montaria no estábulo e tirava os arreios.
— Ela deve tá tensa mesma, se preferiu voltar a pé para casa. — comentou a druidesa.
Quando estava muito estressada, Lina gostava de caminhar até sua casa, vendo o movimento da cidade. Ela dizia que ajudava a mente a se libertar dos problemas e chegar em casa com menos vontade de matar todos. Nem sempre funcionava, mas, pelo menos, ela tentava.
— Nada de decidirem quem ficará no lugar do general Jonas? — perguntou Doroteya quando a jovem voltou de dentro do estábulo
— Não. Tudo na mesma.
— Ei, Pãozinho! — gritou Theo da cozinha – Quer chá gelado? Eu levo!
— Aceito! — gritou ela de volta sentando na mesa do quintal – Muita dor nas costas ainda, Doro?
A druidesa suspirou.
— Já estou melhor. Os pés que estão ainda inchados…
— Ela tá reclamando de que não deixam ela fazer nada. — revelou Pietro.
— Se deixarem você fazer algo, a tia mata todos quando chegar. — lembrou Pandora.
Doroteya não disse nada pois sabia que era verdade.
Pouco tempo depois, Theo veio arrumar a mesa para que pudessem jantar e Pandora o ajudou. Doroteya observou o filho, orgulhosa de como ele crescia, sem perder o coração bondoso que tinha. Aqueles anos que passaram em Ventobravo o transformara de um menino tímido criado em floresta em um menino extrovertido que, apesar de ainda se sentir desconfortável com multidões, se adaptara à nova vida e à nova família. Sentia-se triste por ele não falar mais sobre Guilneas, mas entendia que era uma das consequências da passagem do tempo. Theo crescera bastante nos últimos tempos e estava da altura da mãe. Os cabelos continuavam muito ruivos e as sardas aumentaram exponencialmente depois que começara a ajudar Tommy nos trabalhos ao ar livre. Porém, estudar era prioridade, e ele e Pietro estudavam juntos todos os dias sob a tutela de Vincent, que via em Theo um potencial considerável para se tornar um paladino, mesmo que o menino não houvesse se decidido ainda se queria seguir por aquele caminho.
— A comida está muito boa, Vincent. — elogiou Doroteya quando começaram a comer.
— Obrigado, Doro. — agradeceu o paladino.
— Feliz agora por tê-lo deixado cozinhar? — perguntou Tommy, provocando-a.
— Só um pouco. — disse rindo zombeteira.
Pouco tempo depois de terem começado o jantar, Lina chegou, a expressão cansada e frustrada. Ela lavou rapidamente as mãos na pia da cozinha e foi para a mesa do quintal.
— Dia ruim? — perguntou Vincent à amiga.
— Dia péssimo. — ela respondeu – Agora preciso dar um abraço nessa criatura maravilhosa que está aqui. — e se abaixou, abraçando a barriga proeminente de Doroteya – Titia tá doida pra ver a carinha bonitinha dessa criança que vai sair já, já! — disse fazendo voz de bebê.
— Percebam que ela falou com a barriga antes de falar com a mãe. — falou Pandora apontando com a colher para a tia.
— Lina, o bebê não vai sair já, já. — disse Doroteya rindo – Tem ainda pelo menos um mês pela frente.
— Tem certeza? Sua barriga tá tão grande… — falou a comandante ainda agarrada na barriga de Doroteya.
— É porque a mamãe é pequena! — gracejou Theo.
Desde que atingira a mesma altura da mãe, o menino fazia constantemente essas brincadeiras. Doroteya não se incomodava. Sabia que era baixinha e realmente a barriga parecia maior que ela.
— Pelas minhas contas, só próximo mês. — reafirmou a druidesa – Minha barriga na gravidez de Theo era grande assim também e eu acertei a data direitinho.
— Vai vir no tempo certo, sem dúvida. — disse Vincent – Doro tem se cuidado direitinho.
— Vocês não me deixam fazer nada… — reclamou ela mais uma vez.
— Não é para deixar mesmo! Tenho medo de você cair para frente cada vez que levanta! — exclamou a comandante.
Os meninos caíram na risada.
— Eu já lidei com isso uma vez, Lina. — lembrou a druidesa.
Lina não conseguia imaginar Doroteya com aquela barriga, sozinha numa floresta e tendo que lidar com tudo aquilo sem a ajuda de ninguém. Tentava não ter raiva do falecido pai de Theo, mas estava bem difícil. Entendia totalmente Rubrarosa, que torcia o nariz sempre que alguém citava Liam.
— Você não é mais tão novinha quanto era na gravidez de Theo. — lembrou Lina – E também não me tinha naquela época. Deixe de besteira e de reclamação. — ela finalmente soltou-se da barriga – Aposto que sua chateação é porque não consegue parar de comer carne.
O primeiro sintoma da gravidez de Doroteya não foi enjoo ou tontura. Foi a vontade irresistível de comer carne. Havia sido assim com Theo e assim estava sendo com o bebê a caminho. Lina lembrava que um dia chegara em casa da bastilha e Doroteya estava se debulhando em lágrimas, com uma imensa coxa de galinha na mão, comendo-a e exclamou, sem saber se ria ou chorava, quando a viu:
— Estou grávida.
E até aquele oitavo mês, sempre que colocava carne em seu prato, ela chorava. E naquele momento, ela chorava.
— Pobre vaquinha… — disse comendo um pedaço grande de bife.
— Pense assim, Doro, a morte dela foi honrada com esse belo preparo. — disse Lina tentando consolá-la.
Doroteya apenas chorou mais, mas não resistia ao impulso de comer a carne pois sabia que o bebê queria aquilo. E pela quantidade de proteína que a druidesa comera na gravidez, Lina não tinha dúvidas que um Wood bem esfomeado vinha por aí.
Outra coisa que mudara com a gravidez fora as transformações de Doroteya. Da mesma forma que evitara se tornar animal quando engravidara de Theo, agora o cuidado era em dobro. Não fazia ideia do que poderia acontecer com o bebê caso assumisse sua forma worgenin. Até chegou a pesquisar, mas não encontrara nada a respeito. As worgenins que engravidavam mantinha a forma humana até o fim. Doroteya seguiu o exemplo.
E claro, havia a preocupação se o bebê teria em seu sangue a maldição dos worgens. Até então, nenhum filho de Guilneas nascido de pais amaldiçoados aparentava tê-la. Mas temiam que se manifestassem no futuro. Quando perguntaram a Doroteya o que achava daquilo, ela respondera:
— Se latir em vez de chorar quando nascer, pensaremos no que fazer.
Lina tentara não rir, mas falhara miseravelmente.
— Quando Rubrarosa e Lasciva chegam? — perguntou Lina se servindo de mais carne, sob o olhar choroso de Doroteya – Precisamos deixar o quarto pronto para elas.
— Acho que próxima semana. — falou Doroteya tentando não pensar na vaquinha morta – Eu disse a Lasciva que não precisava se preocupar, mas ela insiste em vir fazer o parto.
— Concordo com ela, prefiro alguém que se importe com você nesse momento do que qualquer clérigo que arrumemos por aqui. — disse Tommy.
— Qualquer coisa, se elas não chegarem a tempo, conheço curandeiros excelentes. — comentou Vincent.
— Espero que já tenhamos voltado de Exodar. — desejou Pietro – Quero ver o bebê assim que nascer!
— Eu não. — retrucou Pandora – Bebês choram muito de noite. Prefiro passar um bom tempo viajando e só voltarmos quando ele ou ela dormir a noite toda.
— Vocês vão precisar de uma viagem bem longa então. — brincou o paladino – Os bebês choram muito nos primeiros meses de vida.
— Ah, eu quero tá aqui pra ver o bebê. — reclamou o menino olhando para a irmã – Com choro ou sem choro.
— Se você quer… — murmurou ela pensando que podia encher os ouvidos de algodão se fosse necessário.
— E tia Arshe, vem? — perguntou Theo.
Após a debandada de Arshe, Lina e Doroteya pensaram que teriam que esperar muito tempo para ter notícias da maga. Para o total deleite das duas, Arshe começou a se corresponder assim que se instalara em Shattrath. Pelas cartas, dava para perceber o quanto ela estava feliz. A maga estava plena por poder colocar sua magia a serviço dos Filhos de Lorthar e ajudar o mundo de Terralém a se reconstruir. Pelo que falara, o elfo Kayliel abrira uma clínica gratuita apenas para cuidar os feridos e doentes de uma terra ainda arrasada pela magia vil. A surpresa maior, contudo, foi quando Arshe aparecera meses atrás para visitar Anduin e as amigas. Estava sozinha, mas isso não impediu de uma imensa tensão se instalar na bastilha. O príncipe, entretanto, ficara tão feliz com a visita da irmã postiça que ninguém ousara dizer nada. Fora quando ela prometera que viria quando o bebê de Doroteya nascesse.
— Sim, ela vem. — respondeu a druidesa – Pelas cartas, ela parece mais ansiosa que eu pelo parto.
— Acredito que todos estamos mais ansiosos que você, Doro. — disse Lina.
— Porque eu já passei por isso. — lembrou ela – Sei como serão as coisas. Vocês se preocupam demais.
— Não é preocupação demais, é só cuidado. — replicou Lina.
Já estavam na sobremesa quando Fey e Mel chegaram. O ateliê estava abarrotado de trabalho e os alfaiates sempre chegavam tarde. Assim que viu o namorado chegar, Vincent se levantou para recebê-lo com um beijo, enquanto Fey começou falando de como estava cansado e precisavam logo arrumar alguns ajudantes. A conversa recomeçou e ninguém saiu da mesa até a noite já estar mais avançada, já que as luzes no quintal lhe permitiam aquilo. Doroteya, encostada em sua cadeira e agora com Tommy fazendo uma massagem em seu pé, entendeu que deveria aproveitar aquilo o máximo possível. Tudo estava calmo, eles tinham uma casa nova, reformada, a sua horta florescia e suas galinhas punham ovos. Theramore sacudira as coisas, mas nada acontecera desde então. A druidesa se perguntava se era apenas uma calmaria antes de uma grande tempestade, mas, quando seu marido a olhou e sorriu, decidiu não pensar nisso. Havia um bebê a cainho e era nisso que tinha que se concentrar.
— Vamos deitar. — murmurou ela sorrindo – Vamos dormir enquanto podemos.
************
O portal tremeluziu antes que os elfos sangrentos começassem a sair dele. Uma tropa considerável de marinheiros e arqueiros, carregando suprimentos e bagagens, foi se espalhando pelo local onde seria montado o acampamento, nas imediações de Orgrimmar. O último a aparecer, antes que a energia arcana se dissipasse, foi Halduron, o que deixou Kassyeh surpresa e satisfeita.
— Halduron! — exclamou ela quando o viu – Que surpresa! Eu esperava a Vivithi.
— A rainha mudou de ideia no último minuto e me mandou. — disse o elfo.
Pela forma que falou, Halduron não estava incomodado pela mudança, muito pelo contrário. Assim que todos já tinham passado pelo portal, ele começou a dar ordens para que o acampamento fosse montado. Quando todos começaram a cumprir suas ordens, ele voltou-se para a princesa.
— A rainha mandou cartas e algumas coisas para vocês dois. — Halduron entregou uma caixa para Kassyeh – E me deu ordens para levar você e Tewdric de volta a Luaprata após essa missão de reconhecimento.
Kassyeh deu uma risada.
— Você sabe que isso talvez não seja possível. — lembrou recebendo a caixa.
— Eu sei. Mas farei o possível.
Kassyeh gostava muito de Vivithi, mas sabia que, na situação em que a Horda se encontrava, a coisa mais acertada fora enviar Halduron. O elfo não era apenas membro do conselho, mas o mais diplomata entre eles. Diferente de Lor’themar e Rommath, Halduron buscava resolver as coisas da forma menos radical possível e sempre mostrava ser o de mente mais aberta. Com Garrosh vigiando os passos deles sem discrição e as críticas constantes tanto deste quando de seus assessores, era bom ter alguém que manteria a cabeça fria e o sorriso no rosto. Karen acertara na mosca. Kassyeh estava orgulhosa de sua irmãzinha.
— Diga ai, Halhal! — Tewdric deu dois tapinhas no ombro do elfo, que cambaleou – Opa, calma, não vá embora! — gracejou o orc o segurando – Janta conosco hoje?
— Adoraria, mas tenho que ficar aqui e organizar a acomodação de todos.
Kassyeh olhou para o grupo. Deveria ter umas vinte ou trinta pessoas. Bem menos do que Garrosh pediu, mas a presença de Halduron deveria amenizar as coisas. Afinal, era o General patrulheiro. A maga prepara o quarto de hóspedes para ele, só que, diante da postura do elfo, provavelmente ficaria no acampamento com os demais. Tentaria facilitar as coisas então.
— Tewdric, o que acha de fazemos um churrasco aqui, de boas-vindas para meu povo?
— Ótima ideia! — comemorou o orc – Posso trazer uns barris de cerveja lá de casa.
— Não é necessário, alteza. — disse Halduron – Não precisa se preocupar conosco.
— Claro que preciso. Além do mais, não sabemos quando comeremos uma comida de verdade no período que ficaremos no mar. Hoje é o último dia em terra firme por dias, ou quem sabe semanas. Vamos aproveitar.
Tewdric foi rápido em organizar tudo, enquanto Kassyeh cuidava da comida. Logo, havia várias fogueiras assando javalis inteiros e aves selvagens que os próprios arqueiros élficos abateram. Kassyeh temperou dezenas de batatas, que foram colocadas para assar junto com a carne. Logo, um cheiro maravilhoso de comida emanava do acampamento dos elfos sangrentos, atraindo alguns recrutas orcs, taurens e trolls, que acabaram sendo convidados para participar do banquete. Em pouco tempo, muitos dos que viajariam junto aos sin’dorei comiam e conversavam animadamente com o grupo. Tewdric servia uma quantidade imensa de cerveja a todos.
Halduron observou tudo, sentado em um tronco caído e sorriu. Ficara bem surpreso em Karen ter mudado de ideia e ter enviado ele para a expedição e não Vivithi. A patrulheira também ficara surpresa, mas adorou a oportunidade de ficar no cargo dele por algumas semanas. E Halduron gostou da ideia de sair um pouco de Luaprata. Suas insônias estavam mais constantes. Ainda que os pesadelos tenham dado uma pausa nos últimos tempos, eles ainda viam inesperadamente e ruidosamente. Então, quando não estava acordado, andando por sua casa vazia, corria o risco de ficar preso em pesadelos terríveis. Tinha a esperança que sair um pouco de sua terra natal o ajudasse a se distanciar de seus medos.
— Aqui, coma um pouco.
Kassyeh chegou até ele com um prato com um generoso pedaço de carne e duas batatas assadas. O elfo sorriu, em agradecimento.
— Obrigado. — ele pegou o prato – Parece muito bom.
— O segredo é o tempero da carne. — disse ela – Quer que lhe traga um pouco de cerveja?
— Não, quero evitar a ressaca amanhã. E não posso fazer minha princesa me servir assim. Eu quem deveria fazê-lo.
A maga deu uma risada.
— Você é meu convidado na cidade, tenho que ser uma boa anfitriã. E, além do mais, sinto falta de casa. É bom ter outro elfo para conversar.
Halduron entendia o sentimento, por isso afastou-se no tronco, dando espaço para Kassyeh sentar. A princesa sentou-se e ele começou a contar como estavam as coisas em Luaprata. Não havia muitas novidades, as coisas estavam tranquilas e continuavam no mesmo ritmo. Conversaram então sobre as expectativas por aquela viagem, e como seriam tomadas as decisões, de que forma distribuirão o pessoal, dentre outras coisas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Nunca comandei algo assim. — confessou Kassyeh – Sempre é apenas eu e o Tewdric. É estranho estar à frente de tantas pessoas…
— Você consegue, alteza. — Incentivou ele – Você sempre pensa no todo, no conjunto e isso é o passo mais importante.
Kassyeh o encarou.
— Você terá autonomia para tomar a maior parte das decisões, Halduron. Eu confio em você, na sua experiência. Sei que fará um excelente trabalho e não quero interferir.
— Fique sempre por perto, assim poderemos trabalhar juntos. — aconselhou Halduron – E ninguém terá nada para reclamar de sua posição.
No caso, Garrosh Grito Infernal não poderia dizer que ela abrira mão do poder para Halduron.
— E ai, Halhal, tá boa a comida? — Tewdric chegou animadamente com três canecas na mão. Entregou uma caneca para sua esposa e ofereceu outro para o elfo, que recusou com a mão. O orc então sentou em um tronco em frente a eles e passou a beber das duas canecas, reversando.
— A comida está ótima. — disse o elfo com sinceridade – É o melhor churrasco que já provei.
— Minha Kass só faz coisa boa! — e piscou o olho para Kassyeh, que riu envergonhada.
Aqueles dois eram um casal estranho, o mais estranho que Halduron já vira em sua longa vida, mas nunca conhecera duas pessoas que transbordassem tanta felicidade quando estavam juntas. Kassyeh e Tewdric cuidavam um do outro, brincavam um com o outro, reclamavam um com o outro, discordavam um do outro, mas o amor que sentiam um pelo outro transparecia em cada olhar, em cada gesto. Era triste pensar que aquele casamento duraria tão pouco tempo, já que a vida do orc era bem menor que a deles, e não conseguia imaginar o que seria de Kassyeh quando o marido partisse. Ainda assim, duvidava que ela se arrependeria do tempo que passariam juntos.
Halduron tinha um pouco de inveja dos dois. Aguentar aquele mundo louco em que viviam era difícil, mas ter alguém ao seu lado devia ajudar a passar pelas dores. Se perguntou se seus pesadelos diminuiriam se tivesse uma mão na qual segurar à noite. Se a insônia lhe daria trégua se tivesse uma respiração para ouvir ao seu lado na cama, se sentisse um corpo morno junto ao seu… eram devaneios que lhe invadiam cada vez que via um casal feliz e não havia casal mais feliz que Tewdric e Kassyeh. Talvez não tivesse sido uma boa ideia vir e ficar preso semanas no mar com aquele casal apaixonado. Esperava que sua cabine não fosse vizinha a deles.
— Halduron estava me contando das novidades de Luaprata. — Dizia Kassyeh a Tewdric – Tinuviel deu outra mordida em Lor’themar esses dias.
O orc caiu na risada.
— Ele tem sorte, os dentinhos dela são pequenos. Se fosse nosso filho, arrancaria um pedaço!
— Prometi a ele que vou começar a acabar com as folgas de Karen, para dividirmos um pouco a raiva da pequena princesa. — disse Halduron.
— É uma boa ideia. — Elogiou Kassyeh.
— Ou, você pode produzir um elfinho para brincar com Titi e deixá-la com mais um amiguinho. — Sugeriu Tewdric.
— Um filho? Eu? — surpreendeu-se Halduron – Mais fácil você pedir isso para o Lor’themar!
— De jeito nenhum! Minha Ashzinha é um bebê ainda! — rebateu o orc.
— Ela já pode fazer bebês também, Tewdric. — lembrou Kassyeh – E como o Halduron aqui é solteiro, é mais fácil você esperar um novo elfinho ou elfinha vindo daqueles dois.
— De jeito nenhum! — reclamou Tewdric – Prefiro tentar arrumar uma fêmea para esse aí.
Halduron caiu na risada.
— Não sabia que você era casamenteiro, Tewdric. — brincou Halduron.
— Me diga ai do que você gosta que te arrumo uma em dois tempos! — desafiou o guerreiro.
O patrulheiro apenas continuou a rir.
— Não estou à procura de ninguém no momento, Tewdric. — disse, para a tristeza do orc – Mas, quando precisar de ajuda nesse quesito, pode deixar que procurarei por você.
— Aí sim! Ajudo com certeza! — garantiu Tewdric – Mas tem certeza que não quer me adiantar uma coisinha ou outra?
Halduron pensou por um momento.
— Acho que o mais importante é que a pessoa tenha um bom coração, seja altruísta e goste de proteger quem ama.
Tewdric franziu a sobrancelha.
— Muito vago. — reclamou o orc – Vamos tentar algo mais concreto. Não pense muito, só responda o que vier a cabeça, certo?
— Certo. — riu-se o elfo.
— Loira ou morena?
— Morena.
— Baixa ou alta?
— Alta.
— Gorda ou magra?
Halduron riu diante dessa pergunta.
— Isso não importa. — disse.
Tewdric o acompanhou no riso.
— Certo, mas você já me deu material para a busca. — e bebeu mais um gole de cerveja – Quem sabe você não tem sorte nessa viagem?
Encontrar o amor em sua viagem ao desconhecido, pensou Halduron. Seria realmente algo inesperado.
— Quem sabe, Tewdric. Quem sabe…
************
O clima era de expectativa e tensão em Ventobravo naquele dia. Enquanto no porto os últimos preparativos para a viagem do príncipe Anduin eram tomados, na bastilha todos esperavam ansiosos seu pronunciamento, imaginando o que ele anunciaria com a oportunidade de fazer algo como herdeiro. As apostas ainda estavam sendo feitas e a queda de Theramore impulsionara o palpite que seria algo relacionado ao evento.
Por isso, na manhã do anúncio, uma multidão tomou o pátio da bastilha. Todos queriam saber em primeira mão o que o príncipe diria. As pessoas se amontavam nas escadarias, os mais audaciosos escalaram as muralhas para terem uma melhor visão e foram expulsos pelos guardas, que estavam sobrecarregados de trabalho. Aqueles que tinham pequenos negócios, aproveitaram para montar barraquinhas e vender petiscos e bebidas enquanto as pessoas esperavam.
Entre aqueles que aguardavam, estava a família de Lady Cláudia. Havia uma área reservada para a nobreza e era lá que o arquiduque, sua esposa, filha e netos esperavam. Horátio não pudera ficar junto a eles, para total revolta da família. Porém, eram as leis. Os gêmeos reclamavam constantemente, perguntando pelo pai e a general apenas engolia a frustração e diz que logo estariam juntos.
— Belos meninos, Cláudia. — disse Crowe, com tom sarcástico.
A família Crowe estava ao lado dos Hightower, dos quais mantinham uma distância educada, como se o sangue plebeu dos meninos da general fosse contagioso.
Cláudia acenou educadamente com a cabeça, um sorriso amarelo na face e voltou a atenção para seus filhos. A última coisa que queria era dar atenção para aquelas cobras. Se perguntou onde estaria Lina naquela confusão toda. A coitada devia estar correndo de um lugar para o outro, enlouquecendo com os súditos tentando chegar mais perto do local do anúncio. Já vira os soldados tirando pessoas de cima das muralhas a força. As coisas estavam agitadas demais.
A calmaria só foi se instalando à medida que a guarda pessoal do rei entrou no local, abrindo caminho para Varian. As pessoas foram se calando, ansiosas. Depois da entrada do rei, este se postou do lado, acenou para a população e aguardou. Anduin veio logo a seguir, um sorriso nervoso na face e acenou para a população. Quando ele se posicionou no local do anúncio, um aparelho mágico colocado lá para amplificar sua voz, o silêncio se fez.
— Povo de Ventobravo. — Começou ele – Meu pai. — disse olhando para Varian – Conselheiros. — disse olhando para o local onde estavam os nobres – Saúdo a todos, desejando que a Luz nos conduza pelo período difícil que passamos.
Todos aguardaram, ávidos por ouvir as palavras do príncipe.
— Enfrentamos tempos difíceis. — Continuou Anduin – A escuridão desce sobre nosso povo, sobre nossos aliados e sobre toda Azeroth. Precisamos, mais que nunca, nos manter unidos e não perdemos a nossa fé.
Ele fez uma pausa, antes de continuar.
— A oportunidade, de fazer algo pelo meu povo, mesmo que ainda não tenha assumido no trono me fez pensar muito. Senti, pela primeira vez, o quão pesado é meu destino e consigo entender meu pai mais que nunca. — Aqui o príncipe olhou para seu pai e sorriu – Rezo à Luz para que o dia em que eu seja rei demore muitas décadas. Ainda quero ter muitas noites de sono.
Houve algumas risadas, mas logo estas pararam.
— E foi pensando em nossa situação, em tudo que vivemos, nas nossas provações, que eu decidi o que eu faria hoje. Espero que minha decisão seja compreendida e que traga apenas coisas boas a Ventobravo.
Mais uma pausa, onde era possível ouvir até mesmo as folhas balançando, mesmo que houvesse uma multidão em frente ao jovem rapaz. Até as crianças estavam atentas, sentindo a tensão no ar.
— Eu viajei muito e conheci todos os povos que compõe a Aliança e constatei algo que me deixou triste: somos os únicos que impõe barreiras entre nós mesmo para o crescimento de nossas forças. Somos os únicos onde, mais importante que a capacidade, está seu nome. Por esse motivo, hoje, com meu direito de herdeiro, revogo a lei que admite apenas pessoas de nascimento nobre em altos cargos de Ventobravo. A partir de agora, reconheceremos capacidade em vez de genealogia. Lealdade em vez de hereditariedade. Todos serão tratados igualmente, pois é assim que a Luz nos trata. Obrigado.
E se retirou, deixando o mesmo silêncio no ar de quando estava falando.
A maioria das pessoas não entendeu bem o que aconteceu, se perguntando qual aposta tinha ganho e os organizadores da aposta não sabiam o que dizer, pois o pronunciado não se encaixava em nada. Ninguém esperava aquele tipo de coisa.
Varian estava chocado. Se preparara para Anduin pedir muitas coisas, mas não aquilo. A recusa de Lina havia tirado suas esperanças de ver seu filho usar seu pedido para ajudá-la. Só que ele o fizera. Não apenas isso, ele abrira o caminho para pessoas como Lina e não apenas a própria. Seu filho acabara de consertar a maior injustiça de seu povo e Varian estava orgulhoso.
Orgulhoso e preocupado. Seus olhos foram da entrada da bastilha, por onde Anduin tinha saído, para onde as principais famílias nobres de Ventobravo estavam reunidas. Havia tanta perplexidade e raiva em suas faces que o rei sabia que precisava intervir. No momento em que a ficha começou a cair, os burburinhos rondarem a população e a comemoração dos soldados começou a ser ouvida, ele se voltou para Greymane que, ao seu lado, estava boquiaberto e pediu:
— Genn, pode pedir que sua esposa receba agora os nobres no salão?
Depois que Arshe fora para Terralém, a pessoa que estava à frente dos eventos sociais na bastilha era a rainha Mia. Acostumada ao papel de anfitriã e ansiosa para ficar ao lado do marido em vez de voltar a Darnassus, a guilneana aceitara o cargo com alegria e organizara uma recepção para depois do pronunciamento do príncipe.
— S-sim, Varian. — gaguejou Greymane, saindo em seguida em busca de sua mulher, que estava aprontando os últimos detalhes.
Virando-se para o general Arlos, que atualmente cuidava no momento da bastilha, Varian ordenou:
— Reúna os demais generais e os almirantes na sala do mapa, agora.
E saiu em busca do filho.
Anduin foi direto para seu quarto, suas pernas tremendo loucamente. Sentou-se pesadamente na cama, as mãos suadas, mas a sensação que tinha feito a coisa certa, ainda que soubesse que as repercussões do fato seriam desgastantes. Mas demorara muito para decidir e não voltaria atrás por nada naquele mundo.
Certa vez, Arshe havia dito a Varian que havia a possibilidade de Anduin começar a ver uma figura materna em Lina. Não seria surpreendente, já que, além de amante do rei, ela cuidava da proteção de todos, inclusive do príncipe e costumava ser superprotetora com o menino. Além do mais, mesmos sendo turrona, quando gostava de alguém, a comandante era carinhosa e cuidadosa. Uma ‘mãezona’, como nomeara a maga. Conhecendo Anduin desde a infância, Arshe não ficaria surpresa ao saber que acertara os sentimentos do rapaz. Desde que soubera de seu pai e Lina, de que ela se tornara responsável pela proteção dele, desde que ficaram amigos e passavam tempo na companhia um do outro, mais ainda depois que Arshe fora embora, Anduin a considerava algo mais próximo de uma mãe que tivera. E a proximidade dos dois fez com que o príncipe questionasse cada vez mais a injustiça que era cometida por ela. Mas foi apenas nos últimos meses que começara a pensar em usar seu pedido para resolver isso.
Sábio, Anduin sabia que apenas magoaria Lina se pedisse algo para ela. Se chegasse na frente de todos e lhe concedesse um título, a comandante, além de chateada, ficaria desapontada com ele. Não apenas ela, mas o povo, porque ele usaria uma oportunidade para favorecer apenas uma pessoa. Então deixou para lá. Quando o general Jonas faleceu em Theramore e começaram a procurar um substituto, ele pensou novamente em usar o pedido para ajudá-la. Como da primeira vez, desistiu do pedido. Então, decidiu estudar a lei que impedia não apenas Lina, mas todos os não-nobres a chegar em postos altos. Descobriu, abismado, que aquela lei fora instituída por um antepassado seu impedir um desafeto plebeu a alcançar um cargo no exército. Nada tinha a ver com preservação dos que fundaram Ventobravo, como muitos diziam. Ficou revoltado e decidiu: aquela lei cairia. E caiu.
Que a Luz o protegesse das consequências.
— Anduin? — chamou Varian entrando no quarto.
— Pai. — respondeu o jovem.
Varian caminhou até a cama e sentou-se ao lado do filho.
— Você fez uma coisa e tanto. — Começou Varian – Isso vai mexer com muita gente.
— Desculpe.
O rei o olhou de forma compreensiva.
— Não estou te criticando, meu filho. Pelo contrário. Estou orgulhoso.
Os olhos de Anduin se iluminaram.
— E-eu…. Está mesmo? — o jovem queria ter certeza do que ouvia.
— Meu filho, você acabou com a maior injustiça de nosso povo. Eu não poderia ter feito isso sem desencadear um problema imenso. Ao pedir usando seu direito de herdeiro, na frente de toda Ventobravo, eles não podem ir contra você sem te deslegitimar. Não podem ir contra você sem virar mais da metade das forças da Aliança contra eles. — Varian sorriu – Eles devem estar arrancando os cabelos agora!
Anduin sorriu também.
— Talvez seja hora de ir até eles, não? — perguntou o rapaz se levantando.
Varian levantou-se também.
— Vamos.
E foram na direção da sala do mapa.
Não muito longe dali, Lina lidava com problemas em virtude do anúncio do príncipe. Não tivera tempo de parar um só minuto e, no momento em que Anduin falava, ela lidava com o fato mais grave que acontecera naquele dia. Mas não era bem o problema que ela esperava.
Em um canto arborizado da bastilha, a comandante fitava duas adolescentes, que não devia ter mais que quinze anos, com os rostos arranhados e sangrando, os olhos marejados de lágrimas e a encarando como dois filhotinhos de cachorro abandonados.
— Deixa eu ver se entendi. — disse a comandante com os braços cruzados – Vocês escalaram a muralha, desviaram de meus soldados, enganaram os agentes da AVIN, se aproximaram perigosamente do príncipe Anduin e depois começaram a brigar… para beijá-lo?
As meninas fizeram que sim com a cabeça.
Lina respirou fundo e coçou a testa, sem saber o que fazer.
— Tudo teria dado certo se não fosse ela! — disse uma das adolescentes apontando para a outra.
— O problema foi você! Eu teria meu primeiro beijo com o príncipe!
— De jeito nenhum! Eu teria meu primeiro beijo com o príncipe! — e atacou a rival.
As adolescentes voltaram a se atracar e Lina revirou os olhos. Separou-as mais uma vez, se perguntando que Anduin diria se soubesse que estava sendo tão brutalmente disputado.
— Chega! Vocês duas correram um risco grande tentando essa besteira! — exclamou irritada – Se eu não estivesse passando na hora e visto que vocês duas são só meninas, os arqueiros teriam abatido as duas! Já pensaram no que seus pais diriam ao saber que as filhas estavam mortas?!
As meninas arregalaram os olhos, obviamente alheias ao que lhes aguardavam. E agora, pareciam envergonhadas e baixaram a cabeça. Lina colocou as mãos na cintura, pensando no que faria com aquelas duas.
— Se vocês tivessem tentando matar o príncipe ou algo assim, ficariam um bom tempo no cárcere, mas não existe nenhuma lei que as punam por tentar beijar o príncipe. — Começou.
— Comandante. — falou um soldado ao seu lado – Mas sobre a invasão à bastilha…
— A bastilha estava aberta, soldado. Elas só passaram dos limites. — Cortou Lina.
— Então… não seremos punidas? — perguntou uma delas, sem acreditar.
— Não por mim. — Lina sorriu – Vou mandar soldados com as duas para suas respectivas casas e eles explicarão aos seus pais o que aconteceu.
— Não! — exclamou uma delas – Por favor, não! Minha mãe vai me matar!
— Boa sorte, então. — A comandante chamou Brienne e Jon, que observavam a cena tentando não cair na risada – Levem-nas para casa, em segurança, e contem o que aconteceu aqui. — Ordenou.
— Por favor, dona comandante! — implorou a adolescente – Não deixe nossos pais saberem!
— É, a gente faz qualquer coisa! — disse a outra.
Lina até sentiu-se tentada a atender o pedido das meninas, afinal já fora adolescente e fizera muitas merdas, mas não podia aliviar para elas, por causa do cargo que ocupava. Se não fosse rígida, no dia seguinte estaria mandando mais meninas para casa e a confusão se instalaria em poucos dias.
— Desculpe, meninas. Vocês vão ter que encarar isso. — E dando um breve sorriso, aconselhou – Se sobreviverem aos seus pais pensem na possibilidade de entrar na AVIN. Vocês foram bem difíceis de ver.
Brienne e Jon escoltaram as garotas e Lina balançou a cabeça. Pensara em tantos perigos que poderiam rondar Anduin naquele dia e findara que o maior perigo seria ele ser beijado a força por uma daquelas duas. Ou ser envolvido numa briga das duas. Deu uma risada. O rapaz ficaria desconcertado. Mal esperava o momento que poderia falar para ele o que acontecera.
Estava voltando para seu posto quando percebeu o alvoroço entre os soldados. Na verdade, todos estavam alvoroçados.
— O que está acontecendo? — perguntou.
— O príncipe Anduin fez seu pronunciamento. — Alguém lhe respondera.
— Ah, bom. — falou ela aliviada. Fora as adolescentes apaixonadas, nada demais acontecera – Quem ganhou a aposta?
— Ninguém sabe.
— Como assim, ninguém sabe? — estranhou ela.
— Estão tentando encaixar o que o príncipe disse nas apostas que foram feitas e tá muito confuso.
Antes que pudesse perguntar o que o príncipe tinha dito, um soldado chegou correndo.
— Comandante! Comandante! — chamou ele – Tá tendo briga no pátio! E das grandes! Os apostadores disseram que não iam pagar ninguém e o pessoal tá reclamando dizendo que acertaram!
— Tava muito bom para ser verdade… — reclamou Lina – Vamos! Vamos arrumar essa confusão!
A briga estava feia mesmo e foram preciso muito esforço da guarda para separar os brigões e dispersar a turba raivosa. E enquanto a confusão reinava, muitos apostadores aproveitaram para simplesmente fugir, o que deixava os apostadores com mais raiva. No final de tudo, Lina conseguiu pôr a maior parte dos envolvidos para correr ou enviá-los para a cadeia.
Já era noite quando finalmente tudo estava calmo. Faminta, Lina sentou-se nos degraus da bastilha, suada e rezando para que nada mais acontecesse. Ficou um tempo sentada, recuperando as forças e atentando para ver se nenhum brigão ainda estava por ali. Quando viu que tudo estava tranquilo, levantou-se e foi na direção da bastilha. Os biscoitos de sua mesa já tinham sido repostos então comeria alguns antes de fazer o relatório do dia e ir para casa. Varian a perdoasse, mas não iria visitá-lo: só queria dormir.
Subiu a escadaria, desejando que Vanellopi estivesse ali com a máquina estranha dela para subir os degraus. Quando chegou lá em cima, percebeu que a recepção para os nobres já havia acabado e estranhou; pelo que lhe disseram, se estenderia até a madrugada. Seria mais tarde do que supunha? Dando de ombros, foi até sua sala. Assim que chegou lá, ficou surpresa ao ver Horatio esperando por ela.
— Horatio? — estranhou – O que faz aqui?
— Vim buscá-la. O rei aguarda para falar com você.
— Pela Luz, o que foi dessa vez?! — ela se alarmou – Foram as meninas de novo? Ou mais confusão?
— Acho que toda a confusão que poderia ocorrer hoje já ocorreu. — disse ele sorrindo – Você não ouviu o pronunciamento do príncipe, ouviu?
— Não, estava lidando com duas adolescentes apaixonadas e inconsequentes. Depois, com uma turba de cidadãos enlouquecidos. O que ele pediu?
— Venha, te conto no caminho. — e fez menção de sair da sala e chamou-a.
— Espere, preciso de um biscoito. — e pegou o pote embaixo da mesa e viu que estava vazio – Porra, Pandora! — suspirou e colocou-o de volta – Para onde vamos? — perguntou quando se aproximou dele.
— Sala do trono.
Se não estivesse tão cansada e com tanta fome, Lina teria ficado desconfiada. Mas só queria ouvir logo o que Varian tinha para falar com ela e correr para casa. Se pedisse com jeitinho, Tommy lhe prepararia um jantar e Theo lhe daria uma massagem nos pés, como fazia com a mãe. Sorriu. Se perguntou se Doroteya tinha passado o dia bem. As dores das costas dela estavam piorando e Vincent ia todo dia verificá-la. Talvez devesse mandar uma carta para Lasciva, apressando-a. Achava que o bebê Wood estava ansioso para sair e viria mais rápido do que sua mãe acreditava.
— Você não parece curiosa. — comentou Horatio vendo que ela não perguntara novamente do pedido de Anduin.
— Ah, estava pensando em Doroteya. Ela anda com muita dor nas costas e estou preocupada.
— Cláudia teve bastante dor nas costas dias antes do parto.
— Tenho certeza que aquele bebê vai chegar por esses dias, mas ela insiste em dizer que falta um mês. — Lina suspirou – Se eu não tivesse tanto trabalho, ia pedir uma licença para ficar de olho nela! Mas com a indefinição do novo general, não dou um passo para fora daqui.
— Quem sabe isso não está prestes a mudar? — falou ele empurrando a imensa porta que dava para a sala do trono.
— Quem sabe. — disse ela entrando.
O salão estava lotado e Lina surpreendeu-se. Todos a encararam quando ela entrou e a primeira coisa que pensou era que devia estar com o cabelo horrível para todos a olharem daquele jeito. Discretamente passou a mão nos cabelos e olhou para Horatio, confusa. Ele apontou o caminho com a cabeça e ela seguiu, ainda estranhando.
Varian e Anduin estavam no centro, conversando com Lady Cláudia. Quando esta a viu, comentou com o rei e o príncipe, que viraram ao mesmo tempo para vê-la.
— Comandante. — Foi dizendo o príncipe – Conseguiu dispersar a multidão, pelo que vejo.
— Foi difícil. Aparentemente ninguém ganhou a aposta. Você surpreendeu todos. — disse ela sem saber porque todos os olhos estavam nela.
— Surpreendi você? — quis saber o rapaz.
— Ela ainda não sabe. — disse Horatio.
Um temor se apossou de Lina. Olhou ao redor e todos estavam encarando-a. Inclusive Varian, que tinha um sorriso na face. Sentiu o sangue fugir de seu rosto e desejou ardentemente que não fosse o que estava pensando.
— Q-qual foi seu pedido, alteza? — perguntou achando que ia desmaiar se ele tivesse pedido qualquer coisa para ela.
— Eu pedi que não houvessem mais barreiras de nascimento para os cargos em Ventobravo. — disse orgulhoso – Agora, qualquer um, independente de seu nascimento, pode chegar aos altos ranques de Ventobravo.
Lina levou as mãos à boca, sem conter a exclamação de surpresa. Sentiu alívio e alegria. Alívio porque Anduin não pedira nada para ela e alegria porque Ventobravo estava no caminho de se tornar mais justa e pessoas queridas a ela poderiam finalmente chegar onde queriam. Virou-se para Horatio, um grande sorriso na face.
— Você vai poder concorrer a um posto maior dentro da AVIN! — exclamou.
— Sim, vou. — O tenente sorriu – Não apenas eu, qualquer um com qualificação.
Uma rusga de preocupação perpassou pelo rosto da comandante, que se virou para o príncipe.
— Isso não vai lhe trazer problemas? — perguntou Lina.
Anduin deu de ombros.
— Provavelmente. Mas isso não me importa agora.
— Por isso que os nobres já foram embora? — quis saber – Chateados?
— Algo assim. — murmurou o rapaz coçando a nuca – Na verdade, foi depois da reunião dos generais…
— Vocês fizeram uma reunião depois do seu pronunciamento? — Estranhou a comandante – A tensão estava tão grande assim?
— Na verdade, eu pedi para convocar todos que estavam aqui. — Revelou Cláudia – Queria aproveitar para eleger o novo general antes que os outros se dispersassem e começassem a sabotar as reuniões para a decisão.
— E porque fariam isso?
— Para impedir a sua eleição. — respondeu Varian.
Lina arregalou os olhos e, se pudesse se ver naquele momento, veria que sua expressão estava igual à das adolescentes que flagrara naquele dia tentando chegar perto de Anduin. A mesma surpresa, o mesmo temor. A comandante sentiu novamente o frio no estômago e encarou Varian. O sorriso dele aumentou. O rei então olhou para o filho e fez um gesto com a mão, convidando-o a se aproximar da comandante. Anduin o fez e, nas mãos, trazia o símbolo de Ventobravo gravado em uma insígnia. Aquela concedida para os generais. Lina não estava acreditando. Só podia ser uma grande brincadeira. Mas Varian e Anduin jamais fariam isso com ela. Nem Cláudia. Nem Horatio. Então, só podia ser verdade.
— Comandante Lina Wood. — Começou o príncipe – Após uma reunião rápida, mas não menos tensa, os generais, em uma votação com três a favor e um contra, decidiram nomeá-la a nova general de Ventobravo. Aceite essa insígnia, como o reconhecimento de seu novo posto nas forças de Ventobravo.
Com as mãos trêmulas, Lina pegou a insígnia da mão de Anduin. Tentou colocá-la na roupa, como mandava o figurino, mas tremia tanto que a deixou cair. Houve uma risada geral quando ela e o rei se abaixaram ao mesmo tempo e bateram as cabeças. Eles também riram um do outro e Varian pegou a insígnia, para depois prendê-la na roupa de Lina. Quando seus olhos se cruzaram, viu que os dela estavam úmidos.
— Forças de Ventobravo. – Começou o rei – Apresento a vocês, a nova general da Aliança, a primeira de nascimento não-nobre a ocupar o cargo. General Lina Wood.
Cláudia puxou as palmas e logo uma salva de palmas se fez ouvir, enquanto a ex-comandante, agora general, não aguentou e caiu em prantos.
*****************
A frota balançava calmamente no oceano ao sabor das ondas tranquilas e um vento quente, mas ameno, soprava no litoral de Durotar. Kassyeh observou as últimas caixas de suprimento serem colocadas no navio e suspirou. A viagem seria longa e ela tinha o pressentimento que ela seria um divisor de águas para a Horda. Não tinha certeza porque, mas sentia. E não era a única. Havia um clima de expectativa no ar que não soube explicar. Temia que aquele clima atravessasse o oceano e chegasse às suas irmãs. Por isso, naquela manhã, enviara cartas às elas e esperava ter tranquilizando-as sobre a viagem, mesmo que a própria Kassyeh não estivesse nada tranquila.
— Kass!
O chamado de Saba a pegou de surpresa, pois não esperava ver a jovem orquisa antes da viagem. Saba se aproximava montada em um lobo, que devia pertencer à sua mestra, e trazia uma cesta na mão. Desceu da montaria assim que chegou junto à maga e a abraçou. Kassyeh sentiu os braços fortes da menina ao redor de seu corpo e teve uma vontade inexplicável de chorar.
— Eu não esperava você aqui! — exclamou a elfa quando se soltaram.
— Eu não podia deixar de te ver né? Prometi a Karen que ia dar uma boa olhada em vocês dois antes da viagem.
Kassyeh deu uma gargalhada. Tinha que ter o dedo de Karen naquilo.
— Cadê o Ted? — Saba perguntou olhando ao redor.
— Está organizando os últimos suprimentos. Ele vem já.
— Eu trouxe umas coisas para vocês. — avisou a menina mostrando a cesta – Tem queijo, presunto, um pão que assei hoje e algumas verduras da nossa horta. Ainda bem que não perdi o embarque de vocês!
— Ah, muito obrigada pela preocupação, Saba! — agradeceu Kassyeh pegando a cesta – O queijo que vocês fazem é tão bom! Mal posso esperar para comer um bom pedaço com vinho!
— Quando vocês voltarem, terei feito mais! — garantiu – Ei, aquele é o Halhal? Halhal! — ela acenou para o elfo que passava ao longe.
Halduron ouviu o apelido e gelou. A primeira coisa que passou por sua cabeça era que a rainha tinha decidido aparecer e ir na viagem. Mas era só Saba que acenava alegremente. Acalmou-se e caminhou até onde ela estava com Kassyeh.
— Saba! — exclamou ele – Mal te reconheci!
— É que eu cresci! — falou a jovem como se não fosse óbvio.
— Daqui a pouco estará maior que nós dois. — disse Kassyeh.
— Karen não vai gostar muito disso… — afirmou o elfo e as duas riram.
— Saba trouxe queijo para nós. — Kassyeh mostrou a cesta a ele – Você vai gostar muito, é maravilhoso.
— Obrigado, Saba. — Agradeceu ele.
Tewdric saiu naquele momento do navio e os avistou. Caminhou até os três, sorrindo e foi logo dando um grande abraço na menina.
— Saba veio se despedir da gente ou veio fiscalizar para a Karenzita? — perguntou o orc.
— Acho que os dois. — brincou Kassyeh.
— Os dois! — confirmou a menina – E trazer queijo também.
— É assim que gosto! — exclamou Tewdric.
Halduron viu Tewdric levantar Saba do chão como se ela fosse um bebê e pensou em como ele seria um bom pai. Não apenas ele, mas Kassyeh seria uma excelente mãe. Todavia, estavam juntos há anos e nenhum bebê viera. Provavelmente a diferença de raças tornasse a reprodução impossível e aquilo era triste. Porém, o casal tinha problemas mais urgentes e um deles estava chegando.
— Malkorok. — Avisou Halduron e os risos pararam.
O guarda-costas do chefe guerreiro chegava naquele momento, com uma expressão de puro desgosto. Ou poderia ser uma tentativa de sorriso. Halduron nunca sabia. Quando os viu, foi na direção deles, seus olhos fixados em Tewdric.
— Por que a tripulação não está dentro do navio ainda? — rosnou para o orc.
Tewdric, numa placidez que parecia incompatível com o rosto órquico, respondeu:
— Estávamos esperando-o, Malkorok. Você avisou que faria uma revista.
Malkorok franziu o cenho, irritado, mas não disse mais nada. Virou as costas e foi em direção ao navio. Tewdric se virou para Saba, deu um rápido abraço nela e disse:
— Até mais, Sabá. E não se preocupe, certo? Vai dar tudo certo.
E seguiu Malkorok.
Halduron acenou com a cabeça para Saba, murmurando uma despedida e foi atrás de Tewdric. Quando ficaram as duas para trás, Kassyeh deu um abraço demorado na menina, antes de soltá-la.
— Ficaremos bem. — garantiu.
— Kassyeh… — murmurou a menina antes dela sair – Eu tentei ver a viagem de vocês. — confessou.
Quando os esforços de sua mestra não saíram como o esperado, Saba decidiu que tentaria por conta própria. Como tinha consciência que sua mestra não aprovaria, por isso escolheu uma noite em que a velha orquisa estava profundamente adormecida e foi até fora da cabana. Pegou a bacia de adivinhações que tinha, queimou as ervas e tentou ver. E ficou frustrada.
— Eu também vi apenas névoa. — Revelou a menina – Sei lá, talvez tenha realmente um nevoeiro. Tomem cuidado.
Kassyeh sorriu e alisou o cabelo da menina.
— Teremos. Fique tranquila. Logo estaremos de volta para comer mais queijo. Até mais.
E foi na direção do navio, acenando para Saba. Contudo, Saba não estava tranquila. Tinha sensação que passaria muito tempo antes de ver Kassyeh de novo. Mas podia ser apenas medo, afinal, nem mesmo sua mestra sabia o que havia naquela viagem.
— Deve ser isso. — Murmurou a menina vendo Kassyeh sumir dentro do navio – Eu apenas estou com medo por não ter visto nada. — Ela olhou para o lobo ao seu lado – Sempre tememos o desconhecido, não é?
O lobo apenas a encarou.
— Vamos embora… — disse montando nele ele e partindo.
E rezou para os ancestrais para que Kassyeh, Tewdric e Halduron ficassem bem.
Dentro do navio, Malkorok olhava para tudo com a expressão de nojo, odiando mesmo sem entender como as coisas funcionavam. Kassyeh observava a inspeção que ele fazia e só poderia defini-la como porca: ele claramente não fazia ideia de como se organizava uma expedição, muito menos uma marítima. Porém, continuava calmamente vendo aquela encenação grotesca tentando não trocar olhares exasperados com Halduron ou Tewdric.
— É, parece que tá tudo bom. — Murmurou ele mais insatisfeito do que quando chegara.
— Minha Kass sabe organizar as coisas. — disse Tewdric om orgulho.
— “Sua Kass”? — zombou Malkorok.
— É, minha Kass. — respondeu Tewdric calmamente mostrando a elfa – Não sei se você sabe, mas foi ela a responsável por nossa vitória em Valshj’ir. Pergunte a Nazgrim.
Claro que Malkorok sabia da história e era mais claro ainda que ele não dava a mínima.
— Certo, certo. Está tudo ajeitado. — Ele começou a se encaminhar para a saída do navio – Quando essa viagem terminar, Tewdric, comemoraremos. — Ele sorriu, maliciosamente – Vou te levar em um lugar com diversão de verdade com umas companhias de verdade. — E riu, piscando o olho cheio de malícia.
Halduron viu o rosto de Kassyeh ficar vermelho de raiva e pensou que a princesa explodiria ali mesmo. Ou explodiria Malkorok. Nenhuma das opções era interessante. Pensou que precisaria intervir, mas Tewdric falou, como se não tivesse entendido a intenção de Malkorok.
— Obrigado, mas quando voltar, só quero ir para casa e ficar com minha família. Mas agradeço o convite.
O sorriso morreu no rosto de Malkorok e ele apenas murmurou:
— Suas escolhas, guerreiro. São suas escolhas. Lide com elas.
E saiu pisando duro.
Assim que o orc sumiu de vista, Kassyeh se virou para o marido, o rosto ainda em brasa.
— Ele já fez isso antes? — perguntou quase sem voz, tamanha era sua ira – Ofereceu ‘companhia’ para você?
— Nunca tão diretamente. — disse Tewdric sinceramente – Eu nunca mordi a isca, então ele deve ter me achado bem burro.
— Burro o suficiente para tentar fazer isso na frente de sua esposa?! — a elfa estava com as mãos fechadas em punho, a fúria brilhando em seus olhos.
— Ele fez isso para te provocar e nos fazer brigar antes da viagem. — a calma de Tewdric fazia inveja a Halduron – Você não vai cair nessa, vai, Kass?
— Eu jamais brigaria com você, porque sei que você não me trairia! — exclamou a elfa – Eu estou com ódio dele e da falta de respeito por minha pessoa!
— Ele não respeita nem orcs, Kass. — continuou o guerreiro – Não vai respeitar elfos. Mas essas atitudes dele não são bem-vistas. Sempre que ele faz um comentário desse na presença de uma fêmea, elas o criticam. Afinal, toda orquisa de Orgrimmar sabe que sou casado com você e nosso povo respeita os enlaces, mesmo não concordando com eles.
Aquilo não fez a raiva de Kassyeh sumir e Halduron se perguntou se precisaria intervir antes que a elfa explodisse. Achou melhor não, pois não queria se meter no relacionamento deles.
— Agora eu tenho que me preocupar com o guarda costa do chefe guerreiro tentando arrumar ‘companhias’ para meu marido! — exclamou ela jogando as mãos para cima. Pelo menos não estavam mais fechados em punhos – Como se não houvesse outras preocupações para mim!
— Kass… — Tewdric pegou uma de suas mãos – Calma. Deixe Malkorok fazer o que quiser. Eu sou seu.
Foi a vez de Halduron ficar constrangido e desviar a vista do casal. A última coisa que queria era segurar vela. Já estava saindo de perto quando ouviu a princesa continuar.
— Tem razão… Temos que focar nessa viagem, em ficarmos vivos e não sermos comidos pelo nevoeiro.
— Nevoeiro? — aquilo era algo que Halduron não podia ignorar. Haveria um risco para a princesa naquela viagem e que não fora lhe informado?
— Ah! — Kassyeh só percebera que Halduron assistira a tudo naquele momento – Desculpe, Halduron, por ter visto isso.
— Malkorok não em interessa. — disse com sinceridade o elfo – Mas esse nevoeiro sim. Onde tem um nevoeiro? É perigoso?
— Não sabemos se esse nevoeiro existe mesmo. — explicou Tewdric – Ou se é uma metáfora.
Foi o mesmo que não dizer nada para Halduron.
— Do início, por favor – pediu Halduron – Para fazer sentido.
— Deixe-me ordenar a partida. — pediu Tewdric – E eu explico.
O guerreiro disse que o capitão do navio podia zarpar e a tripulação se mobilizou para pôr o navio em movimento. Quando aquela nau começou a mover-se, as demais que compunham a frota a acompanharam. Em instantes as velas foram abertas e eles se lançaram ao mar. Logo Durotar ficava para trás até se tornar uma mancha no horizonte, para depois sumir completamente. O sol já estava alto e Tewdric disse ao capitão que, quem não estivesse em turno, poderia ficar na parte inferior do navio e descansar. E fora lá que os três se reuniram, Kassyeh mais calma, mas ainda com uma rusga de preocupação na face.
— Certo, o nevoeiro. — começou Halduron – Podem explicar?
Estavam sentados na mesa da cabine do casal, o queijo que Saba trouxera já cortado em fatias e uma garrafa de vinho branco rodeada por gelo mágico e aberta. Kassyeh bebia o vinho gelado devagar, como se quisesse engolir a humilhação que passara, enquanto Tewdric contava a Halduron do que a xamã dissera. Depois que terminara o relato, Halduron encostou na cadeira, pensativo.
— Eu não entendo muito bem como funciona o poder dos xamãs, mas acredito que possa ser um bloqueio? Em vez de haver um nevoeiro, pode ser uma obstrução da visão xamânica em forma de névoa?
Tewdric coçou o queixo.
— Não tinha pensado por esse lado…
— É um nevoeiro. — falou Kassyeh de repente – Saba também viu.
E contou o que a menina lhe dissera mais cedo.
A visão de Saba preocupou mais os dois que a da xamã experiente, afinal, todos sabiam da visão de Saba envolvendo Karen no fatídico episódio no bazar, dois anos antes.
— Havia tempestade, ventos, ou outros fenômenos? — quis saber Halduron.
Kassyeh negou com a cabeça.
— Só o nevoeiro.
— Devíamos falar com o capitão. — Sugeriu o elfo preocupado – Para quaisquer eventualidades.
— E espalhar o pânico na tripulação? De jeito nenhum. – disse Tewdric – Nós três sabendo disso já vale. Vamos ficar de olho.
— Eu não sei… — Halduron estava em dúvida.
— Tewdric está certo, a maioria nessa expedição é inexperiente. Se dissermos que terá um nevoeiro, eles procuraram somente por isso e esquecerão as outras coisas. Deixemos como está.
A contragosto, Halduron aceitou e ficou acordado que apenas os três ficariam apostos mantendo a visão de Saba em segredo.
Halduron esperava alguma forma de resistência dos orcs à sua presença e dos outros elfos, mas isso não aconteceu. Na verdade, em pouco tempo, havia uma harmonia entre as raças que o deixou surpreso, mas feliz. Todos conviviam em pacificamente e nenhuma briga foi relatada, nem na nau principal nem nas demais que navegavam nas proximidades. Halduron sabia que, com o passar dos dias e estadia no mar, aquilo mudaria, mas seria interessante ver até quando a tranquilidade permaneceria.
Os dias foram passando e a viagem seguia com o mínimo de problemas possível. Em vez de ajudá-lo a relaxar, toda aquela calmaria começou a preocupar Halduron. Sabia que algo aconteceria, sentia que algo aconteceria em breve e aquilo o deixava mais ansioso que o normal, além de trazer de volta suas insônias. E para completar, sua cabine ficava ao lado da de Kassyeh e Tewdric, como temera. Nos primeiros dias até que não ouviu nada, mas obviamente o casal cansou do amor em silêncio. Então, além de insônia, Halduron tinha que lidar com a alegria no quarto vizinho.
Não havia nada mais constrangedor para uma pessoa solitária que ouvir a felicidade de dois apaixonados.
Quando isso acontecia, se levantava e ia para o convés, olhar as águas escuras sob o céu estrelado. E deixava sua mente esvaziar-se dos problemas, dos medos e de qualquer outra coisa perturbadora. Só que não conseguia esquecer o tal nevoeiro. Então, usou esse tempo para pensar no que ele poderia ser e no que podia fazer caso ele aparecesse. Só voltava à cabine quando estava caindo de sono ou quando o sol começava a despertar, torcendo para que Kassyeh e Tewdric estivessem cansados.
E foi por passar a maior parte do dia no convés que Halduron foi o primeiro a ver o nevoeiro.
No começo ele duvidou da própria visão. Disse a si mesmo que estava a tanto tempo procurando o tal do nevoeiro que começava a ver coisas. Sim, duvidara porque já tinha o ‘avistado’ outras vezes e era apenas sua mente pregando peças. Porém, quanto mais tempo olhava, mas parecia ser verdadeiro.
— Ei. Você! — falou para um troll – Venha aqui.
O troll se aproximou de Halduron, que apontou para o horizonte.
— O que você vê?
— Eita, que é um baita dum nevoeiro! — exclamou o troll surpreso – Vem chuva braba ai, vou avisar o capitão!
E saiu rapidamente, em busca do capitão.
Ciente que era realmente o nevoeiro visto por Saba e sua mestra, Halduron desceu até o nível inferior, torcendo para que Kassyeh e Tewdric não estivessem trancados no quarto. Para sua sorte, os dois estavam com a cabine aberta e a maga misturava ingredientes para poções e Tewdric afiava o machado. Ele nem mesmo pediu licença para entrar, apenas entrou e disse:
— O nevoeiro.
Não precisou dizer mais nada. Tewdric se levantou e foi em direção da porta, com o machado em punho. Kassyeh largou os frascos na mesa e foi também. Quando só três chegaram ao convés, o navio entrava no nevoeiro.
Tewdric olhou em volta e teve um susto. Todos os elfos a bordo do navio estavam com os olhos verdes brilhando dentro da névoa, fazendo-os parecer criaturas sobrenaturais. Aquilo assustou os próprios elfos e Kassyeh chegou logo a conclusão mais plausível.
— Essa névoa é mágica. Por isso reagimos a ela.
— Uma névoa mágica… — murmurou Halduron – É pior do que eu imaginava…
— Vamos ficar atentos. — falou Tewdric – Todos com armas na mão para o caso de -
O orc não conseguiu terminar a frase, porque alguém gritou por cima de suas palavras:
— Aliança! Nau da Aliança à frente!
A imponente Nau Capitania apareceu naquele exato momento, bem em frente aos olhos de todos.
— Merda! — exclamou Tewdric – Todos aos seus postos!
Halduron imediatamente pegou Kassyeh pelo braço e começou a levá-la em direção à entrada par a parte inferior.
— Ei, me solte! — protestou ela puxando o braço – Eu não vou me esconder!
— Alteza, você precisa-
A fala de Halduron foi interrompida por uma explosão que jogou os dois no chão. A batalha começou em seguida e ouviram gritos, estampidos e explosões. Antes que Halduron pudesse impedir, Kassyeh correu até a beira do navio, as mãos brilhando com magia e atacou o imenso navio da Aliança. Vendo que não teria como arrastá-la para baixo, restava a ele participar da batalha e mantê-la a salvo.
O fato dos olhos dos elfos estarem brilhando como faróis deve ter assustado a Aliança no início, mas logo eles se tornaram alvos bem fáceis dentro daquele nevoeiro. E Kassyeh, que atirava orbes de gelo e nevascas no navio, era ainda mais fácil de ser avistada. Enquanto tentava manter os que miravam nela longe de combate, Halduron acabou baixando a guarda e sentiu quando uma flecha inimiga perfurou sua perna. Ele gritou de dor e caiu de joelhos. Foi quando Kassyeh parou de atacar o navio.
— Halduron! — exclamou ela indo ao encontro dele.
— Estou bem. — disse ele puxando a flecha – Não foi nada.
Kassyeh se sentia responsável por todos naquela missão e olhou ao redor, percebendo pela primeira vez o número de feridos. Ela não era curandeira, mas sabia primeiros socorros. Pegou o braço de Halduron, passou pelo ombro e gritou para um sacerdote tauren e um druida troll que estavam próximo a ela:
— Um de vocês venha comigo e o outro reúna o maior número de feridos e traga para baixo!
E saiu puxando Halduron, que mancava de uma perna.
Improvisaram uma enfermaria enquanto a luta continuava lá em cima, Kassyeh se sentindo mal por não ter pensado nisso antes. Deveria ter reunido logo os feridos em vez de atacar o navio. Enfaixou a perna de Halduron, um ferimento menor, já que o próprio elfo pediu para que as magias de cura fossem usadas nos mais feridos. E quando o barulho acabou finalmente, um silêncio mórbido pairou sobre eles, antes de uma chuva intensa começar a castigar o navio.
— Tewdric… — murmurou Kassyeh olhando ao redor e sem ver o marido.
— Ele deve estar bem. — falou Halduron – Ele é durão.
Ainda assim, Kassyeh pegou disversas ataduras, se levantou e foi para o convés, sem que Halduron pudesse impedi-la. Não a culpava, no lugar dela faria o mesmo. Recostou-se e orou à Nascente que tudo estivesse bem.
Lá fora, havia tanto corpos quanto feridos que não cabiam mais na enfermaria. Kassyeh acabou parando algumas vezes no caminho e usando as bandagens que trazia, torcendo para que Tewdric não precisasse.
— Kass. — Ouviu-o chamar.
Seu coração se encheu de alívio quando viu Tewdric emergir no meio das névoas, sujo de sangue, mas bem. Ele se abaixou e ajudou-a a enfaixar o ferido.
— O capitão morreu. — disse ele – Temos uma avaria séria no casco e perdemos as outras naus de vista.
O coração de Kassyeh se apertou.
— E agora?
— Temos botes. — disse o marinheiro que Tewdric cuidava – Podemos sair do navio.
— O Chefe Guerreiro não vai gostar nada disso. — murmurou a elfa.
— Ele vai ter que conviver com isso. — falou Tewdric antes de ajudar a levar o ferido para outro lugar.
Levou um tempo para que pudessem contabilizar as perdas e viram que tinha sido grande. Muitos mortos, um número semelhante de feridos e desaparecidos, que tinham sido engolidos pelo mar. Poucos permaneceram bem o suficiente para tentar acertar o rumo do navio, mas logo desistiram. Os botes se tornaram a única saída.
Tewdric e Kassyeh, como os de posto mais elevado do navio, começaram a divisão de recursos e de pessoas nos botes. A maga fez de forma para que sempre tivesse uma pessoa saudável junto com ferimentos menores e ferimentos mais graves, assim puderam embarcar todos. A perda tinha sido tantas que os botes iam relativamente vagos, mesmo que conseguissem colocar bastante suprimentos. A maior parte das coisas tiveram que ser deixadas para trás.
Tewdric, Kassyeh e Halduron foram só últimos a abandonar o navio, quando este já estava inclinado e mal pudessem andar sem tropeçar pelo convés. O bote dos três estava abarrotado com comida e bandagens, além de equipamento para acampar. E água, bastante água.
— Não faço ideia de onde estamos, mas, pelo menos, estamos vivos. — disse Tewdric quando estavam os três no bote. Pegou os remos e começou a afastar o navio.
Em meio a névoa, viram a nau da Horda tombar e começar a afundar.
— E o Chefe Guerreiro tinha dito que os botes eram perda de tempo… — murmurou Kassyeh cobrindo Halduron com uma manta.
— Eu poderia ter ido em outro bote e vocês teriam mais suprimentos. — disse Halduron sentindo o corpo dolorido. Esperava que fosse da batalha e não febre por causa do ferimento.
— Bobagem, temos o suficiente para vários dias. — disse Kassyeh.
Halduron pensou em falar que eles não sabiam quantos dias ficariam no mar, mas preferiu não tirar as esperanças de Kassyeh.
A chuva dera uma trégua e Tewdric recolheu os remos e deixou que a maré os levasse em meio às brumas. Halduron e Kassyeh havia adormecido enquanto o guerreiro ficava a postos, a preocupação em sua face e alma, se perguntando como sairiam daquela. Precisava voltar para casa, para Karenzita.
E foi naquele momento que o sol nasceu e Tewdric viu.
— Kass! Kass! — chamou ele sacudindo-a.
— Hã… — murmurou a elfa sonolenta.
— Veja! — ele apontou para trás dela.
Kassyeh se virou e viu. Viu, mas não acreditou.
— Pela Nascente do Sol….
A terra mais bela que a elfa já vira se abriu em meio às névoas e o bote deles ia em sua direção. Kassyeh não sabia, mas em breve aportaria na bela Floresta de jade.
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— Espero que não tenham esquecido nada. — Avisou Lina.
— Depois que você virou general, está mais chata. — Criticou Pandora.
— É um dos meus charmes.
Estavam no cais, enquanto os últimos soldados embarcavam na Nau Capitânia, o maior e mais belo navio da Aliança. Ao lado de Pandora estavam Anduin e Pietro, rindo das provocações da jovem para com sua tia. A nova general atraia olhares das pessoas, que comentavam sua ascensão nos dias anteriores e como as coisas andavam tensas na bastilha. Enquanto muitos comemoravam a mudança feita por Anduin, alguns nobres tentavam manobras para manter seu privilégio, mas esbarravam na resistência daqueles que não apenas concordavam como comemoravam. E, entre eles, estava o próprio rei, Mathias Shaw, Lady Cláudia e outras pessoas de posição. Ainda assim, Lina sabia que teria dias sombrios pela frente.
— Eu verifiquei a bagagem um milhão de vezes e tá tudo lá. — falou Pandora impaciente revirando os olhos – Tá tudo bem, não se preocupe.
— Claro que me preocupo, é a primeira vez que vocês viajam sozinhos! E vão atravessar o mar! — Lina suspirou, exasperada – Queria ir com os três, para ter certeza que ficarão seguros…
Imersa nos problemas que se seguiram ao pedido de Anduin, Lina tinha que lidar com o choque da própria nomeação, toda a carga que ele trazia e também a situação que se instalara na bastilha. A general sabia que teria o dobro de trabalho para obter metade do respeito dos demais generais, por dois motivos: não era nobre e era mulher. Dali em diante seria vigiada constantemente e todos seus passos seriam medidos, analisados e criticados. Mas, se era para conseguir o que sempre sonhara obter, iria até o fim.
— O almirante Taylor é o melhor. — disse Anduin tentando acalmar Lina – Ele não vai deixar nada nos acontecer.
“Não vai deixar nada LHE acontecer.”, pensou Lina.
O almirante não era um homem ruim, longe disso. Fora um dos que mais apoiara a nomeação de Lina e um dos primeiros a parabenizá-la. Porém, se houvesse qualquer problema naquela viagem, ele se focaria totalmente em manter Anduin em segurança e deixaria Pandora e Pietro em segundo plano.
— Espero que não. — falou ela por fim.
O almirante Taylor apareceu naquele momento e encarou os quatro, seriamente.
— Está na hora de irmos. — disse para o príncipe. E voltando-se para Lina, completou – Não se preocupe, general.
Lina não se acostumara com o título, mas gostava da forma como ele soava.
— Cuidem-se, por favor. — pediu aos sobrinhos, abraçando-os – Você também, alteza. — e ela apenas olhou para Anduin.
O jovem príncipe queria um abraço também, mas entendia porque Lina mantinha a distância entre os dois. Com um aceno e um olhar preocupado, Lina se afastou deles. E mesmo que tivesse reclamado o tempo todo da tia, Pandora se sentiu um pouco desamparada vendo-a se afastar. Seriam semanas no mar, cuidando de Pietro e de si mesma, sem saber o que a aguardava no final da viagem. Esperava conseguir dar o melhor de si mesma.
— Vamos. — Chamou o almirante Taylor e os três o acompanharam.
Em terra, Lina viu os sobrinhos e Anduin subirem na nau e toda a frota que escoltaria o navio zarpou. Acenou para os jovens enquanto os navios se afastavam. Seu coração estava apertado e uma sensação de desespero e frustração se apoderou dela. Queria largar tudo e subir no navio. Temia que algo acontecesse. Sentia que algo ia acontecer. Provavelmente era apenas sua preocupação excessiva, mas mesmo assim não conseguia afastar a sensação ruim. Estava ali, acenando e segurando as lágrimas quando percebeu que Varian chegou ao seu lado. O rei a incumbira de colocar o filho no navio, pois tivera uma reunião de emergência. Ficaram ali, parados, olhando o navio se afastar até sumir no horizonte.
— É como ver um pedaço de mim indo embora. — disse Lina depois do momento de silêncio.
— Eu sinto o mesmo. — Confessou Varian.
— Tem certeza? — estranhou – Eu sou só a tia. Você é pai, e Anduin é seu filho único. Deve ser pior para você.
— Há muito tempo você deixou de ser “só a tia”. — Varian afirmou – Você é mãe deles. E com relação a Anduin… — ele deu uma pausa e sorriu – Não sente o mesmo por ele?
Sim, ela sentia, mas ficou chocada que Varian tivesse notado. O encarou num misto de vergonha e satisfação, dando um sorriso de canto de boca.
— Espero que não sinta ciúmes. — brincou ela.
— Dele ou de você? — devolveu.
— De ambos.
Varian deu uma risada.
— Vou tentar. Vai ser difícil, já que terei que dividir os dois com o mundo também…
Lina tocou na insígnia de general. Era tudo que tinha de general. Não havia encomendado a armadura nova nos moldes dos demais, nem as armas, nem recebera sua sala privativa. Preferira esperar colocar aqueles três em segurança no navio antes de se preocupar com os pormenores. Olhou para o horizonte. O navio sumira. O que quer que os aguardasse, estavam nas mãos da Luz. Lina já não podia fazer nada. Então era hora de focar nos demais problemas.
— Cláudia está me esperando na bastilha para me ajudar com a sala nova. — Avisou – Depois, tenho que encomendar o equipamento, analisar as candidaturas para quem vai ficar no meu posto e depois… — ela sorriu maliciosa – Posso levar vinho.
O rei a encarou, os olhos brilhando como um lobo quando vê a presa.
— Esperarei ansioso… General…
A última palavra foi dita em um tom tão sensual que Lina teve vontade de pular em cima dele naquele momento, mas apenas bateu continência e saiu. Teria um dia puxado e uma excelente noite pela frente.
No navio, Pandora estava preocupada com a exposição do seu irmão ao sol, mas o menino se recusava a ir para dentro da cabine que ocupariam antes que Ventobravo sumisse. Anduin tinha o mesmo desejo, então ficaram os três no convés, Pandora usando um pequeno guarda-sol para fazer um pouco de sombra para seu irmão e Pietro parecendo mais feliz do que quando foram morar na capital.
— Nunca pensei que um dia ia viajar pro outro lado do mundo! — exclamou contente – Alteza, como é Exodar?
— É linda. — respondeu Anduin com os olhos brilhando – Tem tons violetas, por causa dos cristais da nave e parece uma imagem saída dos sonhos. O ar é adocicado por causa das imensas flores que crescem por todo o lado e você pode ver borboletas do tamanho de cachorros por lá.
— Uau! — exclamou o menino – Mal posso esperar para ver!
— Eu levo vocês para um tour pela cidade quando chegarmos. — ofereceu-se o príncipe.
— Não precisa se preocupar conosco, alteza. — falou Pandora apressadamente – Não queremos incomodá-lo.
— Faço questão. Vocês são meus convidados, não é? — Anduin olhou para o horizonte, para a cidade que sumia – A propósito, é hora do almoço. Vamos descer. Quero que os dois almocem comigo.
E antes que Pandora pudesse recusar educadamente, Pietro exclamou:
— Claro! Vamos, Pãozinho!
Resignada, Pandora empurrou a cadeira do seu irmão até a cabine do príncipe, se perguntando se Anduin estava sendo apenas educado e logo esqueceria dos dois no período de viagem que teriam pela frente.
Para a surpresa da jovem, Anduin e Pietro se deram muito bem e o príncipe ficou empolgado em ter com quem conversar e jogar xadrez enquanto estavam presos naquele navio. Por isso, nos dias que se seguiram ao início da viagem, os três estavam sempre juntos. Pandora achou que poderia ter resistência dos oficias do navio quanto a proximidade deles, mas não houve. Todos estavam mais que satisfeitos em ver o príncipe animado e Pietro, um amor de menino, conquistou todos.
Sempre que Pietro e Anduin engatavam em uma partida de xadrez, Pandora aproveitava para dar uma esticada nas pernas, tomar um ar puro e ficar sozinha com seus próprios pensamentos. Subia no convés e olhava para a água límpida do oceano, imaginando o que as pessoas em casa estariam fazendo naquele momento, em como seria a recepção em Exodar e se, quando retornasse, poderia dar uma passadinha em Dalaran.
Mesmo após aquele tempo, ela não esquecera Halduron. Apenas deixou de ser uma prioridade encontrá-lo. Com o coração mais calmo, até duvidava que um dia o encontraria, e que, com o tempo, o elfo seria somente uma lembrança boa de um momento inesquecível. Pensar assim, contudo, a deixava triste e com um aperto no coração. Então, procurava ocupar a mente com outras coisas, como o tratamento do irmão, o bebê Wood a caminho, sua tia sendo mais vaca agora que era general… Os pensamentos rodavam e rodavam por sua mente, mas sempre que se distraia, Halduron voltava a ela. Sorria quando lembrava daquela tarde. Era tudo que podia fazer.
A viagem seguiu normal nos dias seguintes, sem nenhum problema, até mesmo tediosa. Os dias de Pandora eram preenchidos com os cuidados ao irmão, a companhia do príncipe e seus pensamentos solitários no convés. Havia aproveitado também para ler um pouco quando achava algo interessante na biblioteca de Anduin. Tudo para passar o tempo. Estavam há seis dias no mar quando um estranho nevoeiro foi avistado no horizonte. Pandora estava no convés quando aquilo apareceu pela primeira vez e a jovem teve um mal pressentimento.
— Isso é normal? — perguntou ela a um oficial do navio que estava próximo.
A expressão do homem a deixou mais receosa.
— Nunca vi nada assim antes… — comentou – Normalmente o nevoeiro no mar é acompanhando de chuva e frio, mas esse simplesmente… apareceu. — Houve um breve silêncio e o marinheiro completou – Vou chamar o almirante.
E saiu.
Pandora decidiu ver aquilo melhor e subiu para o segundo patamar do navio. Além dela, outros marinheiros observavam o estranho nevoeiro que estava cada vez mais perto. Mesmo sem nunca ter estado no mar, Pandora sabia o suficiente para perceber que, normalmente, as nuvens são empurradas na direção do vento, mas aquele estranho fenômeno se movia sozinho, como se estivesse sendo impulsionado por outra força que não o da natureza.
Passos pesados indicaram que alguém se aproximava dela.
— Pela Luz, o que é isso? — Pandora ouviu o almirante Taylor exclamar.
Usando uma luneta, o almirante analisou o fenômeno por um momento, antes de preguntar à imediato:
— Temos como contorná-lo?
— Não parece possível, senhor. — respondeu a mulher – O nevoeiro se estende até onde a vista alcança.
— Isso não é bom… — murmurou o homem – Baixem as velas e comuniquem à tripulação para estarem a postos para qualquer coisa. — E voltando-se para Pandora, aconselhou – Sugiro que fique na cabine com o príncipe e seu irmão, soldado. Apenas por precaução.
Pandora assentiu. Não estava mesmo disposta a ver o que tinha por trás daquele fenômeno esquisito. Deu mais uma olhada no nevoeiro, que já estava em cima deles e começou a descer o patamar superior para o convés, se dirigindo à entrada que levava para o interior do navio. Não tinha chegado nem na metade do caminho quando entraram no nevoeiro. Pandora estacou. Era estranho. Tudo ao seu redor escureceu, mas ela não sentia nada. Não estava frio, não estava úmido. Era completamente diferente de qualquer coisa que já tivesse visto. Levantou a mão na altura dos olhos e observou. A névoa distorcia a visão também. Seria magia? E se fosse, que espécie de magia era aquela? Já tinha visto xamãs trabalharem com elementos da natureza, mas nada igual àquilo.
— Pela Luz! — ouviu alguém gritar – É a Horda!
O sangue gelou nas veias de Pandora quando ela ouviu aquilo. Correu até a borda do navio e viu. Imensos navios, com bandeiras e estandartes da Horda, apareceram em meio à névoa.
Tempos depois, quando perguntada depois sobre quem atacou primeiro, Pandora não saberia dizer, pois estava assustada demais. Uma coisa era ouvir falar sobre a Horda outra bem diferente era vê-la tão próxima a si.
— Pietro… — murmurou antes de sair correndo em direção à entrada para a parte inferior.
Não havia ainda chegado lá quando um tremor grande a jogou no chão. A fumaça subiu. A batalha começara.
Ao seu redor, gritos e estalos eram ouvidos. Todos corriam, tomando suas posições e Pandora se perguntou se não devia tomar parte da batalha. Deveria. Ela era uma boa arqueira e poderia abater muitos inimigos. Todavia, se morresse, quem cuidaria de Pietro? E pior, se o navio afundasse, quem o socorreria? Pietro conseguiria desamarrar-se da cadeira, mas conseguiria nadar? Gostava do príncipe e sabia que ele era uma pessoa boa, mas Anduin se arriscaria por Pietro? Entre o patriotismo e o irmão, Pandora não precisou pensar muito. Correu e foi para a cabine do príncipe, onde este e Pietro a olharam, assustados.
— O que está acontecendo? — perguntou Anduin.
— A Horda. — Foi tudo que ela disse.
Pietro arregalou os olhos, assustado. Anduin também perdeu a serenidade. Mais um ataque fez o piso do navio tremer e eles ouviram um estalo. Pandora se adiantou para o irmão.
— Vai ficar tudo bem. — disse – Estou aqui com você. — E segurou a mão dele.
Mesmo sendo um príncipe, mesmo gozando da saúde perfeita, Anduin sentiu inveja de Pietro naquele momento. Queria ter alguém ao seu lado como o menino tinha Pandora. Pensou em Arshe. Se a irmã estivesse ali, também estaria ao lado dele, também pegaria na mão dele e diria que estava tudo bem. Anduin, contudo, estava sozinho.
Outra sacudida do navio e mais gritos. A batalha se seguia lá em cima e os três jovens só podiam aguardar. Pandora sentou ao lado do irmão e segurava sua mão forte. Anduin foi até a porta de sua cabine, mas foi barrado por dois guardas colocados lá.
— Fique aí dentro, alteza. — disse um deles – Ordens do Almirante.
Mal dava para ouvir o homem diante dos gritos e bombardeio que aconteciam do lado de fora.
— A Nau Capitania é o melhor navio da Aliança. — disse o outro – A Horda não conseguirá afundá-lo.
E empurrou Anduin gentilmente para dentro da cabine e fechou a porta.
— Se minha tia estivesse aqui, já tinha colocado a Horda para correr. — disse Pietro segurando a mão da irmã com força.
— Com certeza, aquela cara feia dela espanta qualquer um. — Pandora tentou soar engraçada, mas sua voz estava trêmula.
— O guarda tem razão em uma coisa: esse navio é o mais resistente que temos. — Anduin tentava manter a calma, apesar do rosto pálido – Vamos aguardar.
E a luta continuou no convés. Havia gritos, tiros, o navio sacudia e rangia e o medo deles perdurava como o gosto de uma fruta amarga na boca. Não souberam dizer se foram horas ou minutos, mas o tempo se arrastou indefinidamente. Pandora acalentava Pietro, com a cabeça do menino em seu ombro, enquanto Anduin escrevia em seu diário. Se não estivesse tão preocupada com o conflito acima de suas cabeças, Pandora teria energia para estranhar o rapaz escrevendo logo em um momento como aquele. Depois entendeu: se algo acontecesse com ele, teria tido tempo de deixar informações do que aconteceu. Isso só a deixou mais angustiada.
Então, finalmente, o barulho parou. Pelo menos o barulho da artilharia. Ao mesmo tempo a batalha parecia ter terminado, uma chuva forte começou a bater nas escotilhas e a nau voltou a balançar, agora com a força da natureza. Foi quando a porta da cabine de Anduin se abriu e o Almirante Taylor entrou. Sua roupa estava rasgada e suja de sangue, mas o almirante parecia bem.
— A tempestade nos separou da Horda. — disse o almirante, parecendo mais tranquilo.
— Como estão os nossos soldados? — perguntou Anduin se levantando.
O almirante baixou a cabeça, entristecido.
— Sofremos muitas baixas. — respondeu – E temos muitos feridos.
— Vou usar minha magia para cuidar dos feridos. — Anunciou o príncipe.
— Eu sei primeiros socorros. — disse Pandora – Posso ajudar também. Só vou deixar Pietro na nossa cabine.
— Não! — exclamou o menino apertando a mão da irmã – Não me deixe só!
Pandora olhou para o irmão, indecisa.
— Vão para a cabine de vocês que mandarei os menos feridos para lá, para você fazer os curativos mais leves. — Sugeriu o almirante Taylor — Vossa alteza pode nos ajudar na enfermaria, com os mais graves.
E assim fizeram. Ao se separarem, Anduin e Pietro não se despediram, pois acreditavam que se veriam novamente em breve.
Estavam enganados.
Enquanto andavam pelo corredor, perceberam que tanto os gemidos dos feridos quanto os rangidos do navio estavam mais alto.
— O navio sofreu muitas avarias? — perguntou o príncipe.
— Não o suficiente para naufragarmos. — Foi a resposta evasiva do almirante.
Pandora não teve um bom pressentimento.
Enquanto o príncipe fora para enfermaria cuidar dos doentes mais graves, Pandora foi para a cabine dela, para cuidar dos que tinham os ferimentos menos graves. Porém, os “menos graves” eram piores do que a jovem imaginava e usou praticamente todas as bandagens que lhe deram em pouco tempo. Pediu mais, só que não havia mais. Improvisaram bandagens com lençóis e tecidos de roupas que lhes trouxeram e Pandora não queria nem pensar de quem eram aquelas roupas. Seriam das pessoas mortas? Não, não podia pensar naquilo. E enquanto a jovem executava isso, Pietro assistia, horrorizado, o serviço.
— Pãozinho…. — Chamou ele com a voz fraca quando ela terminou – O navio… Vai afundar?
— Claro que não! — respondeu ela o mais confiante que conseguia – Não ouviu o que disseram? Esse é o navio mais resistente da Aliança!
— Mas… — os lábios do menino tremiam – Você tá ouvindo os rangidos?
Sim, ela estava. O navio parecia que ia se partir ao meio. Só que tentava ignorar.
— Vai dar tudo certo. — disse confortando o irmão – Vamos descansar, ok? A chuva não vai passar tão cedo, mas o pior já passou…
Pandora o tirou da cadeira e o pôs na cama. Deitou-se com ele, pois temia que o sacudir do navio o derrubasse da cama. Também não trocou de roupa, nem trocou a roupa de Pietro. Se precisassem, por algum motivo, fugir, não estariam de pijama. Tentou não dormir, ficar a posto para qualquer coisa, mas o balançar da nau, a exaustão e o medo a fizeram cochilar.
Parecia que tinha dormido há apenas um minuto quando sentiu os pingos de água em seu rosto. Pandora abriu os olhos, alerta. Olhou para baixo e ficou em choque. Havia água entrando. Sentou-se na cama de supetão no momento em que o navio bateu em algo. Caiu para o lado e percebeu que Pietro acordara. Mais água entrava agora.
— Pãozinho! — chamou o menino.
Pandora não falou nada. Foi até o irmão, a cabeça a mil. Olhou em volta, os pensamentos acelerados e viu as tiras das bandagens não usadas boiando na água. Teve uma ideia. Pegou algumas delas e começou a trabalhar. Sentou Pietro na cama e sentou-se em frente a ele.
— Segure meu pescoço. — Ordenou.
O menino obedeceu.
Sabia que Pietro não teria forças para se segurar, por isso amarrou os braços dele um no outro, para que não soltasse de seu pescoço. Depois, ajustou as pernas dele em volta de seus quadris e as amarrou, ainda mais forte. Pronto, Pietro estava bem preso a ela. Que a Luz os salvasse.
— Vamos! — disse ela pegando a aljava de flechas e o arco. Ajustou a aljava ao lado de Pietro e saiu da cabine.
— E Anduin? — perguntou Pietro preocupado, olhando na direção da cabine do príncipe.
— Ele tem quem cuide dele. — disse Pandora.
Sabia que isso não soava muito bondoso de sua parte, mas não arriscaria o irmão. Anduin tinha centenas de soldados para zelar por ele. Pietro só tinha ela.
— Mas Pandora… — insistiu Pietro.
— Veja que o navio está inclinado e que a água tá vindo pra cá. — Mostrou ela enquanto andava com dificuldade – No lado dele do navio não tem água. Ele ficará bem.
Assim que saíram para o convés inclinado, perceberam que a névoa se dispersava e que o navio havia batido em uma enseada. Para a surpresa deles, um soldado voou de costas em frente aos dois, morto, com uma lança o trespassando. Outra batalha tinha sido iniciada e Pandora temeu ter que lidar com a Horda, enquanto carregava o irmão. Mas não era a Horda. Pelo menos não parecia com nenhuma raça da Horda. E que, quem atacava os soldados, eram macacos. Ou seres que lembravam macacos. Um deles os viu e foi correndo atacá-los com uma lança. Pietro fechou os olhos e abraçou forte o pescoço da irmã. Do ângulo que estava, Pandora quase não acertou, mas a flecha atingiu o ombro da criatura, que caiu, gritando de dor. A jovem não queria ficar para ver o resto da batalha. Olhou pela borda do navio e percebeu que não estavam longe de terra firme. Prendeu o arco no cinto e avisou para o irmão:
— Se segure e respire fundo.
Subiu na amurada e pulou para a água.
O mar frio os envolveu e Pandora sentiu Pietro soltá-la. Se não fosse as bandagens o segurando, teria perdido o irmão ali. Mas o amarrara forte e tudo que precisava fazer era manter a cabeça dele fora da água.
— Pietro! — chamou quando emergiu – Pietro!
— Oi! — disse o menino cuspindo água – Tô aqui! — e ele segurou um braço no outro, fracamente, mas tentava ajudar.
— Mantenha a cabeça fora da água! — ordenou começando a nadar.
O menino fez o que a irmã mandara, mas estava frio e senti aos braços formigarem e o pescoço pender. Não conseguia ajudar e sabia que a irmã podia se afogar por sua causa. Começou a tentar desfazer os nós que amarravam os braços.
— O que diabos tá fazendo? — gritou Pandora tentando vencer as ondas.
— Me deixe e se salve! — gritou ele.
— Nem pensar! — gritou ainda mais alto – Pare ou paro de nadar! Ou salvo nós dois ou morremos os dois!
Pietro começou a chorar, mas parou de tentar desfazer os nós.
As ondas os jogaram para um lado e para o outro e a força começava a abandonar Pandora quando ela sentiu os pés tocar no chão. Agradecendo à Luz fervorosamente, parou de nadar e começou a caminhar pela água, as mãos para trás, segurando Pietro. Era noite, mas podiam ver, no horizonte, que o sol estava prestes a nascer. E quando chegaram à praia, Pandora caiu de joelho na areia, trêmula. Olhou para trás e viu que o navio havia se chocado não longe dali. Mas não voltaria lá com aquelas criaturas-macacos.
— Pandora… — chamou Pietro com a voz trêmula – Veja…
Pandora ergueu os olhos e viu o exato momento em que o sol saia por trás de estranhas montanhas pontiagudas, iluminando uma terra estranha, cheia de árvores desconhecidas e belas flores. Era o local mais bonito que Pandora já vira.
— Onde estamos? — perguntou o menino, extasiado, esquecendo o medo por um momento.
— Não sei… — murmurou Pandora – Mas vamos descobrir.
E, juntando suas forças, levantou-se, o irmão preso em suas costas e adentrou a Floresta de Jade.
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