Herdeiros da Guerra

48 Capítulo XXVI - A coroação (PARTE X)


Notas iniciais
Finalmente, a conclusão!!! Para o próximo capítulo haverá um salto temporal e inciaremos em Pandaria! Não darei uma estimativa de quando vou postar porque, bem, eu sempre demoro mesmo... Mas vou tentar não demorar muito! Bjs e comentem! VESTIDO PANDORA https://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestido_pandora-jpeg VESTIDO ARSHE E LINA MADRINHAS https://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidoarshelina-jpg VESTIDO DOROTEYA https://uploaddeimagens.com.br/imagens/vestidodoro-jpg-acbb4809-6a49-45ee-bf72-aada22148ac2

********************

Já era o meio do verão quando o casamento de Doroteya e Tommy aconteceu.

Houve uma surpresa generalizada na família Wood quando souberam que o irmão mais querido estava casando novamente e com uma amiga de Lina. Claro, aquilo gerara especulação e todos estavam dispostos a não gostar da noiva quando Tommy levou-a para apresentá-la ao restante da família um mês antes da cerimônia. Doroteya encontrou um ambiente bem mais hostil que esperava, mas já estava perita em lidar com Woods estressados. O resultado foi que todos amaram Doroteya e se perguntavam como uma pessoa tão gentil pudesse ser amiga da irmã grosseira deles.

Os pais de Tommy não ficaram nem um pouco surpresos ao verem que a escolhida do filho era Doroteya, já que a adoraram desde o começo. Nem repararam que Theo era filho dela e não neto deles. E se repararam, não se importaram. Estavam felizes demais com mais uma aquisição para a família e a senhora Wood ficou maravilhada em ter mais um casamento na família. Fizera questão de ela mesma fazer o bolo, como fizera de todos os filhos.

Ficou decidido que a festa seria na fazenda, ao final de uma tarde, e que as festividades durariam enquanto houvesse comida e bebida. Quando os irmãos de Lina souberam que ela, Fey e Mel estavam bancando a maior parte da festa, fizeram questão de colaborar também, porque ninguém queria dar menos que a irmã chata. Lina, claro, amou economizar, mas não admitiu isso para ninguém. Seria o mesmo que pedir para que eles retirassem o dinheiro.

Todos, exceto Lina e Arshe, foram para a fazenda três dias antes, para que pudessem ajudar na organização do evento. A princesa até quis ir, mas Lina a convenceu a esperar para quando a comandante fosse, pois ela seria tragada pelas outras irmãs Wood assim que chegasse na fazenda e não a deixariam em paz.

— Os ataques de Fey e Mel serão fichinha perto delas. — avisara – Talvez fosse até melhor você ficar hospedada na Vila D’ouro e só ir na hora da festa. — sugerira — A fazenda não tem muita comodidade.

— De jeito nenhum! — recusara Arshe – Quero ficar junto com todos!

Lina dera de ombros e as duas foram apenas um dia antes para a fazenda, na companhia de Vincent. O namorado de Mel agora era uma figura recorrente na casa deles e todos gostaram imensamente dele, o incorporando tão rápido ao grupo que parecia que o paladino sempre fizera parte dele.

— Como você acha que sua família vai me receber? — perguntou ele enquanto sacudiam na carruagem de Arshe.

— Papai e mamãe vão te adorar. — dissera Lina – Meus irmãos vão te odiar. Provavelmente você será xingado em algum momento.

Vincent deu uma risada.

— Tudo dentro do esperado.

Assim que chegaram, uma explosão de cores os esperava. A fazenda fora toda enfeitada com flores e fizeram um arco todo enfeitado onde os noivos fariam os votos. Não havia uma só pessoa parada e todos corriam de um lado para o outro fazendo os preparativos. Ninguém nem reparou na chegada deles.

—Eu podia ter vindo com Doro! — reclamou Arshe para Lina – Ninguém nem me notou aqui.

— Certo, certo, vamos para o celeiro. — desconversou a comandante encaminhando-se com ela e Vincent para onde se ajeitariam.

Como todos estavam muito ocupados, demorou um pouco para perceber quem havia chegado. Lina até havia sugerido que contratassem pessoas para fazer a comida, o que foi recebido com uma ofensa grave por suas irmãs e cunhadas. Então a comida estava sendo feita lá na casa mesmo. Outro detalhe fora que Linda, a irmã sacerdotisa, fizera questão de fazer a cerimônia e Doroteya não se opôs. Assim Lasciva poderia entrar ao lado de Rubrarosa, como suas madrinhas.

— Lina! Arshe! — exclamou Doroteya quando percebeu que elas haviam chegado.

O cabelo de Doroteya estava todo cheio de bobs e tanto a comandante quanto a princesa fizeram esforço para não rir, pois a amiga tinha tanto cabelo que haviam bobs por cima de bobs, fazendo a cabeça dela parecer a copa de uma árvore.

— Como estão as coisas aqui? — perguntou Lina dando uma olhada nas irmãs, que a observavam com o nariz torcido – Todos estão te tratando bem?

— Não somos você, Quengacilina. — falou Linda franzindo o cenho.

Lina a ignorou.

— Está tudo bem. — falou Doroteya – Só encheram minha cabeça disso… — ela apontou – Tá coçando um pouco, mas dona Mariana disse que meu cabelo ficará ótimo amanhã.

— Ficará mesmo. — garantiu Lina.

— Será que ponho uns no meu também? — perguntou Arshe.

— Se você quiser, eu ponho. — disse Lina.

— É a princesa Arshe? — perguntou uma das irmãs de Lina, percebendo finalmente a presença dela.

— Sim, sou. — disse Arshe animada – É um prazer conhecê-las.

As irmãs de Lina explodira falando todas ao mesmo tempo, enchendo Arshe de perguntas e mensuras. Arshe ficou tonta por um momento.

— E esse, quem é? — perguntou a mãe de Pandora – Seu namorado, Lina?

Vincent acenou com a cabeça.

— Vincent Reenas, é um prazer. — disse.

— Vincent é namorado de Mel, não meu. — esclareceu Lina adorando ver a cara escandalizadas de todas. Foi bem divertido e dando uma olhada em Vincent percebeu que ele também achara.

Lina estava preparada para mais discussões e algumas brigas, mas depois desse contato inicial, suas irmãos tragaram Doroteya, afastando-a dos recém-chegados, que foram então para o celeiro. O local estava fresco e arejado e já havia sido limpo e preparado para receber a princesa. Lina nunca o vira tão arrumado e aconchegante.

— Tenho que trazer você mais vezes aqui. — brincou quando viu como sua família caprichara em limpar e decorar o celeiro – Para eles fazerem isso mais vezes.

— Quando for no Véu de Inverno eu digo que venho, eles preparam tudo e você inventa que eu gripei. — sugeriu Arshe.

Lina riu.

— É uma ideia.

Doroteya tentou ir até onde elas estavam mais vezes, mas sempre que a druidesa se afastava, uma das irmãs de Lina ou dona Mariana ia buscá-la.

— Pobre Doro… — murmurou Arshe.

— Onde está Rubrarosa e Lasciva? — perguntou Vincent notando a ausência do casal.

— Elas ficaram na Vila D’ouro hospedadas. Foram mais espertas que vocês dois. — disse apontando para Arshe e ele.

— Ninguém me tira de perto do meu Melzinho. — falou o paladino carinhosamente – Vou daqui a pouco procurá-lo e beijá-lo na frente de seus irmãos. Vamos agitar as coisas por aqui.

Lina e Arshe engasgaram de tanto rir, mas Vincent acabou não fazendo aquilo, pois Mel aportou bem cedo no celeiro, assim que soube da chegada deles.

— Desculpem a demora. — falou abraçando o namorado – Estava ajustando a barra do vestido.

A pedido da noiva, o vestido fora bem mais simples do que Fey e Mel normalmente faziam, mas eles conseguiram transmitir bem a personalidade de Doroteya nele. Como o casamento seria durante o dia, fizeram algo leve e florido, bem a cara da natureza que a druidesa amava. Todos os vestidos seguiam a ideia de floresta e flores, fazendo com que todos se sentissem parte do mundo que Doroteya tanto amava.

— Já a deixaram em paz? — perguntou Lina se referindo à noiva.

— Não. — respondeu o alfaiate – Nem Tommy está recebendo tanta atenção.

Como que para ratificar o que o irmão dissera, Tommy chegara pouco tempo depois, reclamando de que ninguém o deixava chegar perto de Doroteya.

— Por que tanto alvoroço. — perguntou Arshe, curiosa.

— Elas estão querendo tomar o lugar de vocês como melhores amigas de Doro. — avisou Tommy rindo.

— Boa sorte para elas. — desejou Lina.

— Mas acho que vão deixar a Doro de lado assim que terminar a última prova do vestido, já que a princesa chegou. — ele riu – Vocês deviam ver o quanto Pandora falou sobre ser amiga da realeza esses dias.

— Como estão os dois? — perguntou a comandante preocupada.

— Melhor do que eu esperava. Theo está sempre por perto de Pietro e Varão não tentou se aproximar nem dele nem de Pandora desde que chegaram.

— Belo exemplo de pai. — comentou Vincent, que já sabia da história toda.

— Não vamos nos preocupar com isso agora. — pediu Tommy – Vamos apenas aproveitar o momento. Quem tá a fim de uma rodada de vinho gelado?

Para a surpresa de todos, a véspera do casamento foi tranquila e nenhuma briga foi registrada na família Wood. Apesar da sugestão dos irmãos e irmãs, não houve despedida de solteiro de nenhuma das partes. Os noivos estavam saindo da vida solitária com muito prazer e a última cosia que sentiam era que precisava se despedir do passado, pois ele já se fora. Preferiram descansar, pois o dia seguinte seria puxado.

E fora.

Assim que o sol raiou, os últimos preparativos foram tomados. Todos corriam de um lado para o outro, mais preocupados que no dia anterior. Lina procurou ficar bem longe disso tudo, apenas observando e mantendo as coisas seguras. Naqueles meses que separavam sua tentativa de assassinato e o casamento de Doro, não tiveram nenhuma pista do mandante do seu assassinato. A oferta por sua cabeça simplesmente sumira e os contatos de Mathias Shaw no submundo o informara que já nem se falava mais naquilo. Poderia ser verdade, claro, mas Lina achava que era um blefe. Acreditava que o mandante ficara com medo e retirara a ordem apenas momentaneamente. Que, em algum momento, iria atrás dela, sem dúvida. Mas, por enquanto, as pessoas que a amavam podiam respirar aliviadas. Só que os olhos dela ainda buscava perigo na floresta iluminada que rodeava a fazenda dos Wood.

— Eles não ousariam. — disse Vincent ao seu lado.

— Então porque você veio com sua armadura de gala e não com uma roupa feita por meu irmão?

Vincent olhou para baixo e tirou uma poeirinha da armadura reluzente.

— Porque eu fico mais espetacular assim. Pelo menos é o que Mel diz. — falou seriamente.

Lina caiu na risada.

— Eu concordo com meu irmão. Você está um espetáculo.

A amizade dos dois havia crescido bastante nos últimos tempos e Vincent chegara a visitá-la no trabalho algumas vezes. Eram visitas oficiais, quando precisava levar algum informe até a bastilha, mas ainda assim bem-vindas. Lembrava que a primeira vez que ele foi, as jovens que serviam na bastilha e as servas ficaram muito alvoroçadas. Estavam todas curiosas para saber quem era o belo paladino que fora ver a comandante, já criando histórias de um triângulo amoroso entre ele, o rei e a comandante, onde o rei teria que lutar para tirar o adversário do caminho. Lina, porém, destruiu as fantasias de todas com uma frase simples.

— Meu cunhado é lindo, não é? Meu irmão tem bom gosto.

Varian rira muito da história.

Depois de ficarem satisfeitos com a segurança do local, os dois foram em busca da noiva.

Doroteya nunca imaginara que seria tão feliz. A última vez que se sentira daquela forma foi quando Theo nascera. Supusera que estava nascendo também. Nascendo para uma nova vida, rodeada de amor como nunca imaginara que pudesse ter. E não era pelo casamento em si; este era apenas a formalização de algo que ela e Tommy já viviam. Não, era a ocasião, sua inserção numa imensa família, que tinha todos os problemas que as famílias costumavam ter. Tinha pessoas que se amavam, que se detestavam, que se toleravam, mas no final, todos se reuniam numa ocasião como aquela. A família de Doroteya durante muito tempos e resumira a Theo; agora, tinha mais pessoas que conseguia contar. Por isso, se olhando no espelho de sua sogra, em seu belíssimo, mas simples, vestido, não conseguiu segurar as lágrimas.

— Minha fia tá tão bunita! — dizia dona Mariana ajustando seu vestido – Tomilho vai caí pra trás di tanta buniteza.

Ouvir dona Mariana chamá-la de filha só aumentou as lágrimas de Doroteya.

— Pode parando o choro. — mandou Fey – Ou como farei sua maquiagem?

— Fey! — protestou uma das irmãs de Tommy – Ela é noiva! Tem direito de chorar!

— Tem não! — exclamou o alfaiate – Ou vai casar com a cara borrada!

— Minha mãe vai ficar linda de todo jeito! — exclamou Theo em seu pequeno terno.

Doroteya agora parecia uma cachoeira, de tanto choro.

— Doro, respire fundo. — Arshe estava do seu lado – Vamos comigo, sou especialista em parar choro. Respirando. — E começou a fazer exercícios de inspirar/expirar para Doroteya imitar.

A druidesa começou a respirar junto com a amiga e o choro foi diminuindo aos poucos.

— Eita, que comoção toda é essa? — perguntou Lina empurrando as outras irmãs para entrar no quarto.

Ver a amiga fez Doroteya voltar a chorar.

— Muito bem, Quengacilina, você a fez chorar! — reclamou Lícia.

— Vai ver foi sua cara feia. — retrucou a comandante.

— Cara feia? Só se for a sua! — rebateu a outra.

Dona Mariana apareceu rapidamente do lado das duas e deu dois cascudos barulhentos. Doroteya deu uma risada, mesmo sem querer.

— Parô! Sem briga! Ou eu vô dá uma surra nas duas!

As irmãs pararam.

— Pelo menos Dorô parou de chorar. — falou Arshe dando um lenço para a outra.

— Vamos lavar esse rosto antes da maquiagem? — falou Fey levando Doroteya para o banheiro.

Quando a noiva saiu, dona Mariana colocou as mãos pequenas na cintura e olhou para o punhado de filhas e noras que se acotovelavam no quarto.

— Si tivé briga hoje, quem brigá apanha! — avisou com o dedo em riste.

— Sim, mamãe. — disseram todas ao mesmo tempo.

— Agora vô vê como tá Tomilho. — e saiu mal conseguindo andar com todo o tecido do seu próprio vestido.

— Vou junto! — falou Theo seguindo a “avó”.

Ao ser deixada a sós com as irmãs, Lina sentiu todos os olhares de raiva se voltarem para ela. Sem nenhum pingo de preocupação, sentou-se na cama da mãe, pegando os sapatos de Doroteya e se perguntando se ela conseguiria andar com aquele salto enorme.

— Ei, cadê tio Fey? — perguntou Pandora se espremendo para entrar no quarto.

— No banheiro, com Doro. Por que? — perguntou Lina.

— Quero que ele faça a minha maquiagem também.

— Vai ter que esperar! — falou Lícia – Todas nós queremos.

— Mas eu sou a sobrinha favorita, vocês não. — e se aproximou da cama – Esse é o sapato de Dorô?

— Pandora ficou mais insolente depois que foi morar com essa aí. — falou uma das cunhadas.

— Minha boa influência. — falou Lina sem se abalar – É sim. — respondeu para a sobrinha.

Quando Doroteya voltou do banheiro, de rosto lavado e pronta para a maquiagem, o clima do quarto estava superpesado. Como a última coisa que queria era estressar a amiga, Lina decidiu sair e arrastar Pandora junto.

— Ei, vamos indo. Depois voltamos. — avisou.

— Não, Lina, fique! — pediu Doroteya.

— Aqui tá cheio demais, vou sair ou vou desmanchar.

Doroteya ficou tão triste, que Lina revirou dois olhos e desistiu de sair.

— Certo, certo. Eu espero.

No final das contas, as outras Woods se tocaram que estavam sobrando e saíram. Fey conseguiu finalizar a maquiagem de Doroteya, que não foi muito elaborada a pedido da noiva, e depois foi ajeitar a das outras mulheres da família. No final das contas, com a quantidade de pessoas para serem maquiadas, Arshe acabou fazendo a maquiagem de Lina e Pandora. A jovem ficou superanimada porque poderia dizer para as primas que sua maquiagem era da “realeza”. Depois, disso, as três saíram para tomar seus lugares na cerimônia que começaria em breve.

Quando o sol já estava se aproximando do horizonte, todos os convidados já haviam chegado e estavam se acomodando. Tommy já esperava no altar, ao lado da irmã sacerdotisa, nervoso como não se sentia há muito tempo. Sabia que Doroteya não fugiria dali voando, mas ainda assim sentia-se nervoso. E se ela decidisse fugir e sair voando? Ele não era druida para ir atrás dela voando também. Talvez pedisse carona a Lasciva, caso acontecesse.

Mas não precisou esperar muito. Lina fizera questão de ter tocadores no casamento e quando estes começaram a tocar uma música lenta, os convidados foram para seus lugares. Primeiro quem entrou foi Pandora empurrando Pietro, que jogava flores no caminho. Depois, Arshe entrou com Fey, que não se aguentava de felicidade de estar como acompanhante da princesa. Foi então a vez de Rubrarosa e Lasciva, e Tommy viu que algumas pessoas se encolhiam diante da passagem da Cavaleira da Morte. Contudo, Rubrarosa quase parecia viva, devido a sua alegria. Ela lhe confidenciara que esperava por aquele momento há muito tempo, quando Doroteya seguiria sua vida. Ficava feliz em ser ele o escolhido por Doroteya para aquela jornada. Depois, entrou Lina, acompanhada por Mel. Tommy havia perguntando ao irmão porque não entrava com Vincent, já que o paladino era seu namorado e fora convidado par a festa, mas Mel dissera que era muito cedo ainda, que o relacionamento era recente. Tommy desconfiava que, na verdade, era para não deixar Lina entrar sozinha.

E, por fim, a noiva apareceu, de braços dados com seu filho. O estômago de Tommy se encheu de borboletas e ele não conseguiu conter as lágrimas. Mal podia acredita que aquela mulher maravilhosa decidira ficar com ele. Nem que aquele menino maravilhoso o amava como se fosse um pai. Se considerava indigno de tanto amor e não conseguia imaginar o que fizera de bom para ter aquela benção. Talvez a Luz tivesse recompensando-o por todos os anos que tentara fazer com que sua família não se matasse.

Doroteya viu Tommy esperando-a no altar e também começou a chorar. Era bom demais para ser verdade. Esperava acordar a qualquer momento, sozinha na floresta, e descobrir que tudo até então fora um sonho. Mas era real. Era tão real que a deixava sem fôlego. E nada, nada naquele mundo, estragaria sua felicidade.

Theo chegou até o altar, levando sua mãe e a primeira coisa que fez foi dar um abraço apertado em Tommy, que caiu na risada. Ele retribuiu o abraço do menino, que depois foi para o lado de Fey. Os noivos então deram as mãos e a cerimônia começou.

Ver aqueles dois ali, de mãos dadas e tão felizes fez o coração de Lina se apertar e, pela primeira vez na vida, chorou em um casamento. A visão da comandante chorando foi surpreendente para muitos, mas não para Arshe. Daquela vez, foi a princesa que se manteve firme e ofereceu o lenço para a miga. Pandora adorou ver a tia arruinando a maquiagem, mas depois lembrou que as outras tias iam gostar também, então não foi legal. Só era bom quando ela zoava com Lina. Ninguém mais podia.

— Ei tia, você vai ficar toda borrada! — reclamou cutucando-a.

— Me deixe em paz, Pandora. — vociferou sem diminuir às lágrimas.

Outra que chorava era Lasciva. Apoiada por Rubrarosa, a druidesa chorava emocionada, feliz por sua amiga.

— Devíamos casar também. — murmurou Rubrarosa no ouvido da namorada.

— Se for me pedir em casamento, não faça agora, certo? — murmurou a outra limpando as lágrimas – Hoje o dia é de Doro!

A cerimônia foi rápida e logo os noivos estavam se beijando, com o pôr do sol às suas costas, e todos ao redor dando vivas e batendo palmas. Pétalas de flores foram jogadas e tanto Lina quanto Arshe sabia que aquela era uma cena que ficaria gravada na memória das duas até o fim de suas vidas.

Terminada a cerimônia, começou a festa. Luzes foram acesas à medida que escurecia e a música tocava animadamente. As cadeiras formam tiradas para dar espaço para os convidados dançarem e quem abriu o baile foram os pais de Lina, não os noivos. Isso porque, se tinha uma coisa que aquele casal de idosos gostava, era de festa. Começaram a dançar numa energia que faria inveja a muitos jovens e logo todos no casamento acompanhava a dança dos dois nas palmas. Doroteya e Tommy riam e batiam palmas juntos, felizes com a alegria dos idosos. Depois, Tommy pegou na mão da noiva e se juntaram aos pais dele na dança. Logo, a pista de dança estava cheia e todos se divertiam.

— Seus pais são uma graça! — exclamou Arshe para Lina.

— São mesmo! — concordou.

Logo, Arshe estava dançando com Fey, animada, como fazia dias que Lina não a via. Claro, estava preocupada com o destino de Arshe depois do baile do Kirin Tor, mas, até então, a maga não falara mais nada. Mergulhara de cabeça nos preparativos do casamento de Doroteya e era evasiva cada vez que Lina tentava trazer o assunto de Kayliel à tona. Por fim, Lina deixou para ela falar quando tivesse vontade.

Mel dançava animadamente com Vincent, que era um ótimo dançarino mesmo com todo o peso da armadura. Lina teve medo de que algum de seus irmãos ou vizinhos preconceituosos dissessem algo a Vincent, mas nem precisou se preocupar. Quando Varão e os amigos desses fizeram uma piadinha para o paladino logo no começo da festa, este, em vez de se deixar atingir, foi para frente do grupo e perguntou firme, com sua voz poderosa:

— Algum problema comigo?

Talvez fosse a armadura, ou a postura de Vincent, ou simplesmente porque os outros eram covardes mesmo, mas todos murcharam e disseram que não. Quando o paladino virou as costas, ouviu um ‘bicha’ bem baixinho e virou novamente.

— Sim, sou bicha. — disse aumentando o tom da voz grossa – Muito bicha. Algum dos machões aí tem algum problema? Podemos resolver isso agora. — e estalou os punhos.

Nenhum deles disse mais nada o resto da noite.

Lina reversou suas danças entre Fey, Mel, Vincent, o pai e, claro, Tommy. Porém, teve o cuidado de não beber muito. Queria estar sóbria, caso algo acontecesse. Também ficava sempre de olho em Theo e Pietro. Os dois não se desgrudavam e Pandora também estava aproveitando a festa, dançando muito. Em seu vestido ‘não de criança’ dela, a jovem atraia muita atenção, mas não parecia interessada em ninguém. Lina se perguntava se ela já gostava de alguém.

— Esperava mais ânimo seu. — disse Doroteya sentando ao lado de Lina – Já que no casamento de Lady Cláudia você mal sentou.

Lina sorriu. Era a primeira oportunidade de conversar sozinha com a noiva naqueles dias.

— Quero evitar uma ressaca amanhã. — disse, mas ela e Doroteya sabiam que não era verdade – Além do mais, quando eu bebo eu brigo ainda mais com minhas irmãs. E não quero estragar seu casamento.

— Mesmo que você assassinasse alguém, você não estragaria o dia de hoje. — disse Doroteya com os olhos brilhando – Quer dizer, desde que não fosse o Theo. Nem o Tommy. Nem a Rosa. Nem…

— Já entendi, só posso matar pessoas que você não ama. – ela riu – Vou manter isso em mente.

Doroteya riu também.

— Pena que nem Cláudia nem Horatio puderam vir. — lamentou Lina colocando um pouco mais de vinho em seu copo – Eles adorariam isso aqui.

— É mesmo. Mas com a barriga do tamanho que a dela está, não seria bom viajar. — comentou a druidesa – Sabe, eu tenho uma suspeita.

— Qual?

— Acho que o bebê de Lady Cláudia na verdade são dois. — revelou.

Lina arregalou os olhos.

— Você acha mesmo? — perguntou espantada.

— Sim, a barriga tá muito grande para o tempo de gravidez. E isso pode fazer com que o parto seja antes do previsto.

— Você já falou isso a ela? — quis saber a comandante.

— Falarei assim que voltar. – e sorriu – Eu adoraria ter gêmeos! Imagine que fofo!

— Imagine o choro em dobro. Cocô em dobro. Vômito em dobro…

— Acho que vale a pena. — garantiu Doroteya.

— Pela Luz, não.

Sorriram uma para a outra e logo Doroteya era puxada pelo senhor Sebastian para uma dança.

A festa prosseguiu sem problemas na maior parte do tempo. Os Wood estavam se comportando bem demais, até como se fossem pessoas calmas. Todos dançavam, bebiam e comiam civilizadamente, levando em consideração a família em questão. O bolo fora cortado pouco antes da meia-noite e os noivos fugiram para sua Lua De Mel (seria apenas três dias, porque Doroteya jamais conseguiria ficar longe de seu filho mais que aquilo). Depois disso, a maioria das crianças e dos mais velhos estavam indo se deitar sem que mundo tivesse caído.

Até que ele caiu.

Pandora estava espetacular em seu vestido preto decotado. Quando ela apareceu com a roupa, Lina tomou um susto: Fey e Mel tinham caprichado mesmo para que a jovem não tivesse aparência de criança. Pensou em dizer alguma coisa, mas diria o quê? A menina estava linda, o vestido era lindo e condizia com a idade dela e com a ocasião. Que ela brilhasse e se divertisse.

Claro, nem todos tiveram a reação de Lina. Não houve um momento em que Pandora não recebesse alguma crítica de suas tias, mas ignorou todas. Sabia que era inveja pura por sua juventude e beleza. Só se incomodou mesmo quando a mãe a forçou a sentar em sua mesa, para que pudesse inquiri-la sobre a vida em Ventobravo. Até que aquilo não seria um porre tão grande, se suas tias não estivessem sentadas a mesa ouvindo com curiosidade a conversa.

— Espero que sua tia não te deixe passear vestida assim por Ventobravo. — sua mãe dizia.

— Ela me dá tanta coisa para fazer que passear por Ventobravo já é um bônus. — resmungou a menina.

Lícia riu.

— Você saiu daqui para fugir do trabalho e agora está sendo explorada? — perguntou debochadamente.

— Primeiro, eu não fugi do trabalho. — disse Pandora rispidamente – Segundo, se meta em sua vida, intrometida.

O rosto de Lícia ficou rubro de raiva.

— Vai deixá-la falar assim comigo? — perguntou para a mãe de Pandora.

— Ela quem começou! — protestou Pandora.

— Sua tia não disse nada demais, menina. Respeite-a. — ralhou a mãe.

— Respeito se ela me respeitar. — devolveu.

— Viu o que eu disse? — falou Linda, a outra irmã – Ela se tornou pior depois que foi morar com aquela outra lá.

— Por que vocês estão tão empenhadas em se meter na minha vida? — protestou a menina – Vocês estão é com inveja! Estou muito bem em Ventobravo, estudo, tenho uma professora particular de arco e como da comida maravilhosa da Doro todo o dia!

— E fica com o temperamento ruim de Quengacilina! — retrucou Lícia – Daqui a pouco tá vivendo como ela!

— Quem dera! — exclamou a menina – Se eu tivesse vivendo como ela, teria o rei atrás de mim!

Todas na mesa se calaram, em choque com o que a menina dissera.

— Sério, vocês não sabiam? — perguntou Pandora com um sorriso malicioso na face – O rei Varian é totalmente apaixonado pela tia Lina. Só que ela não quer estragar a carreira dela, então não dá bola para ele.

— Você está inventando isso! — sibilou Linda.

— Tô não.

— Querida, sua filha está se tornando mentirosa também. — advertiu Lícia para a cunhada.

— Ah, vão se foder! — gritou a menina.

— Pandora! — a mãe ralhou – Peça desculpa às suas tias!

— Peço não! — e fez menção de se levantar, mas a mãe segurou seu braço.

— Senta aqui e peça desculpas a elas!

— Deixe, querida. — disse Lícia abanando com a mão – Não é culpa dela. É daquela outra lá. A menina deu até para mentir.

Pandora rangeu os dentes, irritada como fazia tempo que não ficava. Teve que se sentar de novo, a raiva fervendo dentro dela e a mãe encarando-a com uma ordem de silêncio que Pandora achou melhor obedecer. Se brigasse com a mãe, ouviria um sermão imenso de Lina, de Doroteya, de Tommy e, se duvidar, até de Vincent. Melhor ficar calada até esquecerem dela e poder se esgueirar dali.

Ficou sentada, ouvindo suas tias tagarelarem com sua mãe sobre coisas inúteis, até que Lícia começou a se gabar mais uma vez por ter ido até Luaprata na coroação da rainha de lá. Fazia tanto tempo que a maga falava naquilo que Pandora achava que ela estava inventando coisas a cada vez que contava a história, só para poder falar mais.

— Ah, deixe-me uma falar uma coisa para vocês, mas daqui não sai. — Lícia deu uma risadinha – Tinha um elfo lindo lá. Lindo como nunca vi nenhum elfo. E acho que ele deu em cima de mim.

— Como ele era? — perguntou a mãe de Pandora.

— Era alto, de cabelos dourados, pele bem rosada. Tinha uns braços fortes e um rosto másculo, como não achei que fosse possível um elfo ter. — ela deu uma risadinha.

À medida que a tia continuava a descrever o elfo, foi surgindo a imagem de Halduron na cabeça de Pandora. Era impossível, claro, pois Halduron era do Pacto de Prata, mas a descrição parecia tanto que o peito de Pandora se encheu de ciúmes. Sim, ciúmes, pois sua tia falava do elfo como se ele fosse propriedade dela, como se todos os olhares que Pandora desejara de Halduron fosse para ela. Claro, era loucura. Não era Halduron, se dizia Pandora. Não podia ser Halduron. E ainda, assim, sua boca amargava de ciúmes.

— Como era o nome dele? — perguntou a mãe de Pandora a determinada altura.

— Ah, era um nome difícil, élfico. Mas acho que começava com “H”.

Pandora simplesmente explodiu.

— Muito bonito para sua cara, né? — disse bem alto – Posando como a pessoa mais respeitosa do mundo e desejando um elfo, mesmo sendo casada!

Lícia empalideceu quando seu marido, na mesa ao lado, olhou.

— Cale a boca, Pandora! — gritou para a menina.

Pandora, além de não se calar, se levantou.

— Ei, tio! — gritou para o marido de Lícia – Sua mulher aqui estava arrastando a asa para um elfo lá em Lua-

Ela não conseguiu terminar porque Lícia dera um tapa forte em seu rosto. Um tapa forte e estalado, que ecoou na festa pois foi dado no momento em que a banda deu uma pausa.

— Sua puta! — gritou Pandora e partiu para cima da tia.

Pandora e Lícia se engalfinharam, derrubaram a mesa e logo estavam bolando no chão. Como era só uma maga, Lícia não teve força para sobrepujar Pandora e logo estava no chão com a sobrinha em cima dela, dando socos na sua cara. Então Linda foi em socorro da irmã, puxando Pandora pelos cabelos e tirando-a de cima da outra. Pandora tentou socar a outra tia, mas como era puxada pelos cabelos, apenas socou o ar.

— Solte ela! — gritou Lina pulando em cima da irmã, que soltou a sobrinha.

Agora a briga era entre Linda e Lina, que trocavam socos pelo chão, derrubando mais mesas e com pessoas ao redor gritando. O marido de Linda, vendo a mulher apanhando, foi em socorro desta, dando um soco em Lina. Fey entrou em fúria ao ver isso e entrou na briga para defender a irmã e a sobrinha. Ele apanhou e Mel se enfureceu. Mel entrou na briga e apanhou. Vincent ficou irado e entrou para defender o namorado. Logo, a briga se generalizara, com pessoas sendo jogadas pelas mesas, em direção da cerca e depois de um tempo, não restara nada em pé, nem a treliça onde a cerimônia de casamento fora realizada. A sorte de todos fora que dona Mariana e o senhor Sebastian já haviam se retirado e não estavam lá para presenciar o desastre.

— O que está acontecendo?! — exclamou Arshe assutada segurando seu prato com bolo contra o corpo como se o mesmo pudesse ser roubado dela.

A maga estava ao lado de Theo e Pietro, e eles se afastaram rapidamente da confusão.

— As festas aqui são sempre animadas assim? — perguntou Theo vendo a festa se desfazer em briga, mas acreditando que era uma forma das pessoas se divertirem.

— Ah, hoje tá tranquilo. — respondeu Pietro – Ninguém pôs fogo em nada, ainda.

— Ah…

— Pela Luz! — exclamou Arshe colocando mais bolo na boca – Ainda bem que levaram o resto do bolo para a cozinha...

— Meninos, que tal irem dormir? — perguntou Lasciva chegando e fazendo um aceno para que todos se afastassem ainda mais da confusão, que só aumentava.

— Ah, queria ver se Pãozinho vai quebrar o nariz de alguém. Ah! Quebrou! — o menino riu – Olha o sangue no rosto da tia Lícia!

— Deve ter doído… — murmurou Theo.

— Pandora tem a mão pesada… — comentou a princesa.

— Eu curo depois. — garantiu Lasciva – Vamos par ao celeiro, ok?

Pandora percebeu que o irmão olhava a briga e, mesmo descabelada e sem as sandálias, fez um gesto de ‘ok’ com o polegar e depois apontou para o celeiro, antes de ir bater em uma prima.

— Certo, vamos. — disse Pietro – Ela me conta o que aconteceu depois.

E os meninos foram tirados dali, enquanto a briga se desenrolava e a noite estava longe de acabar.

**************************

Vivithi verificou a propriedade mais uma vez, apenas porque queria matar o tempo. A apresentação de Tinuviel aos membros da guilda seria naquele dia e a elfa queria ter certeza que nenhuma fera desgarrada, murloc ou troll amani acabasse aparecendo. Se bem que, caso isso acontecesse, a guilda toda caíria em cima da pobre criatura desavisada que se tornaria uma diversão a mais na festa. Porém, a patrulheira preferia que a diversão se resumisse a bebida, comida e algum sexo nos bosques que rodeavam a casa.

E não seria nada mal se fosse ela a fazer sexo.

Tinha acabado de voltar para o jardim da casa de campo dos Fendessol quando um falcoztruz solitário se aproximou. O coração dela quase parou por um momento ao reconhecer a figura que se aproximava. Não acreditava que ele conseguira vir. Segurou a animação o máximo que pode, mas não pode conter o imenso sorriso quando se adiantou para receber Aethas, que descia de seu falcoztruz enquanto um servo segurava as rédeas.

— Você veio. — falou a elfa sem esconder a surpresa.

— Nem eu estou acreditado. — disse o mago com um enorme sorriso – Fiquei quase um mês da outra vez e me liberaram nesse período de tempo curto? Acho que foi a impressão que Modera teve de Karen. — o sorriso dele vacilou um pouco – Porém, só ficarei para o fim de semana.

— Será o suficiente para as meninas ficarem alegres. — disse Vivithi.

— Só as meninas? — questionou o mago.

Vivithi o encarou com soberba.

— Você é um iludido se acha que eu vou cair nessa.

Aethas deu uma gargalhada.

— Tudo bem. — ele levantou as mãos em desistência – Posso, pelo menos, ter direito a um beijo?

— Apenas um. — disse a elfa antes de enlaçá-lo em um apertado abraço e cobrir sua boca com ânsia.

O beijo tinha gosto de saudade e solidão, duas conhecidas de ambos, mas que podia, por aquele instante, se distanciar de seus corações. Aethas sentia que poderia morrer naquele momento de tanta felicidade em poder estreitar Vivithi em seus braços e sentir seus lábios macios contra os dele. Estava perdido naquelas sensações até que começou a ouvir risadinhas que foram apenas aumentando até que estava bem próximo dos dois. Frustrou-se quando Vivithi o soltou.

— Tio Tatá tá namorando com a Vivi…. — falou Karen maldosamente.

— Oh! Ele tá usando calças! — exclamou Saba abismada apontando a roupa do elfo.

Aethas ficou surpreso quando viu as meninas. Fazia apenas uns dois meses desde que as vira, mas parecia que ambas haviam crescido alguns centímetros, principalmente Saba. A pequena orquisa não era mais tão pequena assim e já passara Karen na altura. Ficava feliz de ver sua sobrinha rindo ao lado da amiga: Kassyeh havia dito que Karen estava tão imersa na regência e nos treinos que mal tinha tempo de brincar. Aparentemente, com Saba por perto, a jovem rainha não se importava em deixar tudo para depois.

— Onde vocês duas pensam que vão? — perguntou Vivithi vendo que as duas tinham rolos de fitas em baixo dos braços e usavam chapéus de abas imensas.

— Vamos enfeitar algumas coisas por ai. — falou Karen vagamente.

— Se estão indo ver os ninhos dos murlocs e colocar fitas nos filhotes, vou avisando que eles mudaram o ninho de lugar depois que vocês vestiram os bebês murlocs com roupinhas de Tinuviel.

— Não!!!!! — exclamaram as meninas desoladas.

— Por que vocês duas não me ajudam com os presentes que eu trouxe? — perguntou o mago apontando a bagagem.

— Oba! Tem presente pra mim? — perguntou Karen – E pra Saba?

— Claro, para as duas.

Esquecidas dos murlocs, as meninas, em vez de ajudarem o tio, sentaram na grama e foram abrir os próprios presentes. Aethas só riu e contou com a ajuda de Vivithi para transportar os pacotes, já que as meninas pegaram o que tinham ganho e sumiram bosque adentro.

— Pelo visto, as preocupações de Kassyeh foram infundadas. — comentou o mago.

— Não totalmente. — esclareceu a patrulheira – Até anteontem Karen estava com olheiras e Luxuriah estava arrancando os cabelos, ameaçando proibi-la de treinar ou estudar a menos que ela pegasse leve. Foi só Saba chegar e puf!, Karen voltou a se divertir.

Aethas não se surpreendia com a energia despendida por Karen nas novas obrigações. Tewdric lhe enviara uma carta contando suas preocupações, que foram endossadas tanto por Kassyeh quando por Luxuriah. Estava tão preocupado que pensava até em levar a menina para passar uma semana com ele em Dalaran. E, no final, tudo que ela precisava era de sua amiguinha, que não era mais tão ‘inha’ assim, para poder voltar à velha forma. Sorrira diante do pensamento.

— Não sei se Luxuriah estão preparados para uma Karen crescida. — comentou Vivithi quando chegaram no quarto onde o mago se hospedava – Você devia ser o embate das duas. E as coisas vão só piorar a medida que Karen crescer.

— Luxuriah está acostumada com irmãs que fazem tudo que ela quer. Karen sempre mostrou, desde de cedo, que não nasceu para cumprir as expectativas de ninguém. Infelizmente, nem dela própria, acredito.

Depois que pôs as bagagens e os pacotes no chão, Aethas se voltou para Vivithi com um pacotinho de presente menor e estendeu para ela.

— Achou que eu tinha esquecido de você?

Sim, a elfa achava, por isso não escondeu a surpresa.

— Para mim? O que é? — perguntou pegando o pacote.

— Abra. — disse o mago se aproximando.

Ela abriu. Era uma caixinha pequena, que cabia na palma da mão de Vivithi. A elfa aproximou-a dos olhos e a girou, impressionada com os detalhes delicadamente pintados. Havia uma pequena manivela ao lado da caixinha. Vivithi a girou. A caixinha abriu e tinha uma pequena bailarina e começou a girar enquanto uma música linda tocava. Era a coisa mais linda que já tinha visto. Vivithi deu mais cordas e a música continuou tocando. Ela pôs a caixa no aparador ao lado da cama dele.

— Você sempre me surpreende, Arquimago Aethas Fendessol… — disse sensualmente.

— Faço meu possível… — murmurou ele passando a mão pela cintura dela e, rapidamente, derrubando-a na cama dele. Vivithi prendeu a respiração, surpresa – Que tal isso?

Em vez de responder, ela passou as pernas nos quadris dele e o beijou com vontade. Havia um desejo a ser saciado.

Enquanto Vivithi e Aethas matavam a saudade um do outro, Kassyeh verificava se havia bebida e comida o suficiente para a festa que preparara. Claro, teve que contratar mais pessoas e a cozinha estava lotada. Além disso, mandara fazer fogueiras no quintal, onde diversos animais jaziam em espetos, assando lentamente, com camadas de molhos sendo pincelados de tempos em tempos. O cheiro era incrível e a elfa estava orgulhosa de si mesma. Deu a volta e foi até onde Tewdric verificava os barris de cerveja que ele mesmo fizera.

— Kass! — chamou ele – Prove aqui!

Ele lhe estendeu um copo e ela bebeu. O gosto era incrível.

— Cada vez fica ainda melhor. — elogiou ela – Ainda não acredito que você conseguiu a receita secreta do papai! Achei que ele nunca tinha deixado escrito!

— É segredo. — disse ele passando a mão no traseiro da esposa — Um dia te conto.

Ela apenas riu.

— Quando o pessoal chegar, vou fazer umas crostas de gelo ao redor dos barris, como a mamãe fazia. Essa cerveja fica melhor gelada.

Tewdric deu uma gargalhada.

— Você deixa tudo melhor, minha Kass. — e a agarrou – Tem um tempinho pra mim?

— Agora não. — ela se desvencilhou com carinho – Tenho que ver os outros detalhes da festa.

O orc fez um bico, chateado.

— Assim fica difícil encomendar um bebê… — reclamou.

— Teremos tempo. — garantiu — Quando todos estiverem entretidos, podemos escapulir para a praia… À noite… Que tal?

— Nós dois, nus na praia, enquanto a festa rola aqui? Tô dentro! — exclamou o orc animado.

— Ótimo! — Kassyeh o beijou – Tenho que verificar outras coisas.

Kassyeh saiu, continuando seu trabalho. Dentro da mansão, Ash penteava cuidadosamente Bolota, que tomara um demorado banho mais cedo. O lobo estava muito mais bonito desde que Ash o domara e, mesmo com suas placas dando-lhe um aspecto selvagem, ele se tornara muito mais belo. A princesa trocara os acessórios do lobo, o vestindo com uma couraça muito mais reluzente e com o símbolo de Luapratra. Parecia um lobo real.

— Você está tão lindo, Bolota. — disse ela penteando-o – Ninguém vai reconhecê-lo quando o virem hoje.

Bolota deu um pequeno uivo em concordância.

— Só não tente comer Galinha de novo, certo? Cada vez que você o persegue, ele se vinga fazendo cocô nas minhas coisas. Além do mais, ele já tá grande demais para ser sua presa.

O lobo colocou a calda entre as pernas e olhou com os olhos imensos para a dona.

— Ah, não, nem vem. Estou falando sério. Nada de perseguir aquele falcoztruz cagão.

Percebendo que a dona estava irredutível, Bolota se contentou em receber os afagos enquanto ela terminava de penteá-lo. Precisa agora eleger outra presa que não fosse Galinha, mas seria chato. Adorava perseguir o falcoztruz e este também se divertia. Era tipo um jogo dos dois. Mas não tinha como explicar isso para Ash então se contentou em acatar a ordem.

A porta do quarto de Ash foi empurrada e Luxuriah entrou, segurando Tinuviel. Bolota se animou e foi até a irmã mais velha, apoiando as patas dianteiras em sua cintura e cheirando a criaturinha pequena que esta trazia. Não era uma presa, mas Bolota adorava o cheiro do filhote.

— Bolota gosta mesmo da Titi. — falou Luxuriah sorrindo.

— Verdade. Quando ela estiver maior, vai querer montá-lo. — imaginou Ash.

— E Rommath terá um ataque nervoso. — riu-se Luxuriah – Deite ali, Bolota, que coloco Titi pra você ver.

Atendendo a ordem como se fosse de sua dona, Bolota deitou-se no tapete felpudo e Luxuriah deitou a filha do lado dele. Tinuviel olhava para o lobo com seus olhos imensos, fascinada e sorriu com alegria.

— Ela é tão linda sorrindo assim! — admitiu Ash sentando no chão ao lado da irmã.

— É. Mas ainda não perdoei Tewdric por ter roubado dela o primeiro sorriso.

— Quando ele e Kass tiverem filho, você rouba o sorriso da criança. — sugeriu a outra.

— Boa ideia!

Tinuviel continuava encarando o lobo e ria, cada vez que o bicho mexia a calda.

— Será que tio Aethas vem? — perguntou Ash tentando atrair a atenção de Tinuviel com um bichinho de pelúcia.

— Ele já chegou. — Luxuriah riu diante da surpresa da irmã – Está com Vivithi, matando as saudades…

— Não estou surpresa…

Ficaram mais um tempo brincando com a menina, até que chegou o momento de se aprontarem para a festa. Luxuriah levou sua filha para dar banho e depois arrumá-la para receber os convidados. Como no verão o sol quase não se punha em Quel’thalas, estava bem claro quando os amigos da nova mamãe começaram a chegar. Do mesmo modo que no casamento de Kassyeh, eles logo se espalharam pela propriedade, bebendo, comendo e comemorando juntos. Como muitos estavam espalhados pelo mundo em missões, aquelas comemorações eram as únicas oportunidades que tinham se se verem sem que estivessem lutando por sua vida.

Tinuviel foi um sucesso absoluto entre os membros da guilda. A menina não estranhou nenhum deles e sorria animada para todos, como se os conhecessem desde sempre. Tamanha receptividade a fez começar a circular de braço em braço, pois todos queriam segurar um pouco a fofura élfica de olhos dourados. Luxuriah observou a filha se transformar no centro das atenções e sorriu. Pela primeira vez naquele dia pode sentar tranquilamente e comer, sem preocupação.

— Parece que nossa filha tem seu próprio séquito. — comentou Rommath chegando de surpresa e sentando ao lado dela.

— Ela herdou o charme e simpatia da vovó. — disse Luxuriah olhando para onde Hermenegilda, a trollesa, pegava Tinuviel como se ela pesasse nada – Mamãe dizia que eu tinha um humor terrível e não deixava ninguém me tocar a não ser ela e papai.

— Kayliel também era bem simpático. Eu morria de medo que alguém simplesmente um dia o levasse embora. Ele nem choraria.

Luxuriah o observou por cima da taça que ele trazia nas mãos e comentou, tentando parecer desinteressada:

— Kayliel é o melhor tio que Titi poderia ter. Ele cuida muito bem dela.

— Hum.

— Você me prometeu que ia deixar isso pra lá. — avisou ela.

Rommath encostou-se na cadeira e olhou para a festa que já começara animada. A banda que haviam contratado dessa vez era de membros da guilda e Tewdric havia dito às irmãs que elas não cantassem dessa vez, para poderem aproveitar a festa. A contragosto, elas aceitaram. Agora, passeavam entre os convidados, observando Tinuviel passear pelos braços de cada membro da guilda. Kayliel não estava entre eles. Rommath reparara que o irmão estava mais isolado, acabrunhado, silencioso que o normal. Sentia-se mal ao pensar que era por culpa dele, mas a raiva ainda o deixava relutante em chamá-lo para uma conversa.

— Tenho certeza que, naquela noite, ele estava com a humana. — falou o mago, esperando uma reação de fúria da esposa.

Contudo, Luxuriah apenas abanou a cabeça.

— Você não pode culpá-lo para sempre pelo que aconteceu, Rommath. Já passou. Eu estou bem. Tinuviel está bem. Mas vocês dois estão se afastando e nem eu, nem ela, queremos isso.

— E se ele tivesse com a humana? — insistiu ele.

Luxuriah pensou um pouco.

— Eu não ia gostar, claro, mas não o jogaria aos leões. Ele ainda é meu amigo. E seu irmão. Não gosto de ver seu comportamento com ele.

Rommath sentiu-se envergonhado.

— Você tem razão. — admitiu, para a surpresa de Luxuriah – Eu vou conversar com ele.

Karen e Saba aportaram ao lado dos dois naquele instante, trazendo Tinuviel, que chorava nos braços da tia. As meninas traziam uma expressão cômica nas faces.

— Acho que ela fez cocô. — avisou Saba.

— Eu posso trocar a fralda? — pediu Karen – Eu já pratiquei bastante com Hotch.

Luxuriah lembrava do tigrinho de Kassyeh andando de forma estranha vestindo uma das fraudas de Tinuviel pela casa. Não se surpreendia de ter sido Karen a autora do ato.

— Tudo bem, mas vou supervisionar. — avisou Luxuriah se levantando – Vamos.

Deu um beijo rápido em Rommath e saiu. O magíster ficou sentado, sozinho, bebendo sua taça de vinho e pensando no que a esposa dissera. Amava Kayliel, claro que amava. Mas não queria que ele estivesse envolvido com a humana. Queria-o ali, em Luaprata, com alguma elfa ou elfo, alguém que realmente o amasse e que não o colocasse no perigo de uma execução. Prometera à mãe que o protegeria. Mas como o faria se ele insistia em fazer coisas estúpidas?

Porém, lhe dizia uma parte de sua mente, Luxuriah tinha razão em dizer que Rommath não sabia se ele realmente estivera com a humana. Ele poderia ter estado em qualquer lugar, com qualquer pessoa, fazendo qualquer coisa. Afinal, ninguém esperava que o parto fosse naquele dia. A aparição de Grey fora um incidente infeliz. Se fosse realmente culpar alguém, seria Halduron, por não ter mantido o paladino longe de Luxuriah. Terminou de beber a taça, pousou-a na mesa e foi em busca do irmão.

A turba de convidados mal o deixou passar em meio às comemorações. Rommath se perguntava se todos ali realmente conheciam Luxuriah ou só estavam ali pela bebida e comida. Duvidava que isso importasse para sua esposa ou para as irmãs: o que importava era comemorar. Imaginou que a nobreza de Luaprata ficaria muito frustrada quando descobrisse que sua rainha, em vez de bailes pomposos, gostava mesmo era de festas como aquelas.

Encontrou Kayliel afastado da festa, sentado, olhando para nada com a expressão pensativa. Se perguntou se ele pensava a mesma coisa que Rommath. Pegou duas taças de vinhos que um servo passou servindo e caminhou até ele. O sacerdote ficou surpreso quando o irmão sentou-se defronte a ele, tirando-o de seus devaneios e lhe entregou uma taça de vinho.

— Lembra quando você tomou vinho pela primeira vez? — perguntou Rommath.

Kayliel sorriu.

— Lembro. Eu tinha doze anos e a mamãe achou que eu já tinha idade para provar. Você ficou irado.

— Claro, você era muito jovem. — ele suspirou – Pior que tenho certeza que Tewdric já deu bebida para Karen sem Luxuriah saber.

Kayliel sentiu o rosto enrubescer e esperava que o irmão não notasse. Afinal, ele tinha feito o mesmo com a menina e lhe dera vinho.

— Eu fiquei irado daquela vez pelo mesmo motivo que fiquei com os últimos acontecimentos. — começou – Eu me importo com você, Kayliel. Nós dois somos tudo que resta de nossa linhagem. Eu não quero que você se perca por… — ele respirou fundo – Eu não quero que você se perca. — concluiu e tomou um gole de vinho.

O coração de Kayliel se apertou. Ele girou a taça na mão e decidiu dizer a verdade. Seu irmão não merecia menos dele.

— Rommath. — começou se inclinando para o irmão – Eu quero te falar a verdade. Eu…

— Não. — cortou Rommath.

Kayliel piscou, confuso.

— Mas eu…

— Eu desconfio o que você falará, mas prefiro não saber. Você é meu irmão e eu te amo. Deixemos as coisas como estão. Foi isso que eu vim dizer. O que aconteceu não foi sua culpa. Com quem você estava, o que estava fazendo… Eu não quero saber.

— Nem mesmo se eu disser que estou indo embora? — perguntou com o coração apertado.

Houve um momento de silêncio enquanto Rommath engolia sua surpresa e decepção.

— Se você for embora… — murmurou – Não vai acompanhar o crescimento de Tinuviel… Luxuriah ficaria devastada…

— Eu poderia… — ele pigarreou – Eu poderia visitá-la?

Rommath o encarou.

— Se Luxuriah concordasse. — foi a resposta.

Os dois ficaram em silêncio, tomando seus vinhos, até o fim. Quando a taça de Rommath se esvaziou, ele levantou-se, caminhou até o lado do irmão, apertou seu ombro e saiu sem dizer nada. Kayliel sabia que aquela fora a despedida dos dois.

Depois daquilo, levantou-se e foi até o quarto onde estava hospedado. Até então Arshe não havia dado nenhuma resposta sobre suas coisas em Ventobravo. Se perguntou se ela estava tendo as mesmas dúvidas dele. Sem esperar mais, escreveu um breve recado para ela, dizendo que, se ainda estivesse disposta, ele a esperaria assim que estivesse pronta para partir.

Porque ele estava.

*************************

O Festival do fogo do Solstício estava a pleno vapor naquela época. Fogueiras e mais fogueiras eram acendidas em toda Azeroth e também eram apagadas. Umas das tradições mais bizarras do Solstício era quando os membros de uma facção decidiam apagar a fogueira da facção oposta. Dificilmente esses embates acabavam em morte, pelo menos nos povoados menos numerosos, e pareciam muito mais peças de Nortunália. Com os dias mais longos, as pessoas se reuniam em volta dessas fogueiras e assavam as mais diversas comidas e se divertiam.

Aquele Solstício tinha uma característica ainda mais marcante. Asa da Morte estava em plena ação e muitos imaginavam que aquele poderia ser o último Solstício que comemorariam. Enquanto diversos campeões tanto da Horda quanto da Aliança se preparavam para o combate final contra o ex aspecto dracônico da Terra, seus parentes e amigos torciam para que eles pudessem, pelo menos por aquele dia, esquecer seus problemas e comemorar.

Era assim que Karen se sentia. Kassyeh e Tewdric partiriam em breve e a menina estava uma pilha de nervos. Tewdric não podia morrer! Se morresse, de nada adiantaria o pacto feito com Anveena. Mas sabia que não poderia impedi-lo de lutar. Se Asa da Morte lograsse êxito, em breve não haveria terra nenhuma para se viver, com ou sem pacto. Por isso, mesmos sofrendo muito, não falou nada quando os dois anunciaram que iriam a Orgrimmar. Luxuriah pedira para eles ficarem para a noite do Festival e o casal concordou. Agora, assando milho na fogueira, Karen encara tristemente as chamas e rezava para que os dois voltassem em paz.

— Karen.

A menina olhou para trás e viu que Kayliel a chamara. Sorriu. Adorava falar com Kayliel.

— Tem um minuto? — perguntou ele.

Fez que sim com a cabeça e girou o milho nas brasas. Ainda estava bem verde e demoraria para ficar no ponto que ela queria. Acompanhou o sacerdote até uma parte afastada da torre. Quando estavam a sós, ele lhe entregou uma carta.

— O que é isso? — perguntou ela.

— Lembra de que eu te prometi que, quando eu fosse embora, eu iria me despedir de você? — disse ele com suavidade – Estou indo agora. Quero que você entregue essa carta para Rommath. Mas só amanhã.

Por um momento ela ficou sem fala. Lembrava da conversa dos dois em sua coroação, mas, àquela altura, imaginou que ele não iria mais. Esperava que a humana tivesse desistido. Porque ela não queria que Kayliel fosse embora. O encarou com os olhos dourados cheios de lágrimas.

— V-você… — a voz dela gaguejou e os lábios tremeram – T-tem que ir m-mesmo?

A reação da menina deixou Kayliel desconcertado.

— Karen… — murmurou – Eu… — sem saber o que dizer, limitou-se a desculpar-se – Sinto muito…

Karen limpou as lágrimas dos olhos com o braço e tentou sorrir.

— T-tudo bem… Se você vai ser feliz. Eu quero que você seja feliz.

— Eu espero o mesmo. — ele se abaixou para ficar da altura dela – Muito obrigado por tudo.

Se abraçaram por um momento e Karen guardou a carta dentro da roupa.

— Você volta? — perguntou a menina ainda inconsolada.

— Eu não sei. — respondeu com sinceridade.

— Nem se eu precisar de você? Se eu precisar muito, muito, muito de você? — insistiu Karen.

Kayliel sorriu.

— Se um dia você precisar muito, muito, muito de mim, eu virei. — disse.

— Promete? — exigiu saber.

— Prometo.

Karen o abraçou novamente.

— Então tudo bem. — conformou-se ela.

Então, levando apena suma pequena mochila com algumas roupas, Kayliel acenou para Karen, usou sua pedra de regresso e sumiu de Luaprata. Triste demais para voltar às comemorações, Karen foi para seu quarto, jogou-se na cama e chorou. Chorou muito, soluçando, querendo correr e contar para Tewdric que fosse buscar Kayliel e o trouxesse de volta. Sabia que o orc faria, se ela pedisse. Mas Kayliel queria ser feliz. Ela não poderia ficar no caminho dele. E quando Kassyeh encontrou o milho de Karen queimado e procurou a menina, achando-a enrolada na cama, surpreendeu-se por ela ter deitado tão cedo. Imaginou que o cansaço das muitas atividades finalmente estivesse cobrando seu preço. Se soubesse o quão infeliz a menina estava, talvez ela mesma fosse buscar Kayliel de volta. Mas Karen não contou. Honrou o pedido de Kayliel e entregou a carta apenas no dia seguinte.

Enquanto isso, em Ventobravo, Arshe também fizera uma pequena maleta para a viagem. Da mesma forma que ele, decidira não falar nada para Anduin nem para Varian. Almoçara com os dois, os abraçara, mas não dissera nada. Não sabia qual seria sua própria reação se disesse. Porém, diferente de Kayliel, ela não viajaria sozinha. Lina fazia questão de acompanhá-la. Queria saber para onde ela decidiria ir, se ficaria em Dalaran um tempo, se iria para Shattrath, a decisão que fosse. Lina precisava saber. Estava angustiada demais com o destino de Arshe para deixá-la ir sem as devidas providências.

Quando Doroteya e Arshe chegaram no quarto da princesa para que esta abrisse um portal para Dalaran, Doroteya se abraçara com Arshe e começara a chorar. A princesa também começou a chorar. Lina suspirou. Aquilo não seria fácil.

— Doro… — disse a comandante – Se você preferir não ir…

— E-eu vou… — gaguejou – Só estou… É difícil…

— Doro.. — murmurou Arshe.

— Me prometa que você vai ser feliz! — pediu Doro – Me prometa!

— Prometo!

As duas choraram mais, até se acalmarem. Arshe então deu um passo e abraçou Lina, que daquela vez não se afastou.

— Se ele fizer qualquer coisa com você… — começou a comandante.

— Eu te procuro e você mata ele. — completou a maga.

Lina riu.

— É isso mesmo.

As duas se separaram e Arshe entregou um grosso envelope a Lina.

— Aí está tudo que eles precisam saber. E o documento com minha renúncia ao título de princesa. Eu digo que eles não fiquem com raiva de você, porque eu to indo porque eu quero e que você tentou me impedir.

— Não tentei. — lembrou a comandante.

— Estou tentando deixar você bem nessa situação! — reclamou a princesa – Não destrua meu trabalho!

— Certo, certo! — ela pegou o envelope – Está pronta?

Arshe fez que sim e abriu o portal.

Aportaram no Enclave Prateado. Já havia escurecido em Dalaran, então a chegada delas fora discreta. As três se olharam e se deram as mãos.

— Ficaremos aqui. — avisou Lina – Quando decidir par aonde vai ou qualquer coisa assim, venha me avisar, por favor.

— Tudo bem. — disse Arshe antes de abraçar as duas demoradamente.

— Vai logo antes que eu te leve a força de volta a Ventobravo! — esbravejou a comandante.

Arshe sorriu e então virou-se e saiu.

— Preciso de uma bebida… — murmurou Lina se dirigindo à taverna do local.

Doroteya que não bebia, pediu um suco, mas quase pedia uma bebida também. Estava nervosa.

Kayliel chegou à sala da biblioteca antes de Arshe. Sentou-se em uma cadeira, colocou a sua bagagem no chão e esperou. Enquanto esperava, imaginava o que o irmão diria quando lesse a carta que deixara. Nela, Kayliel admitia que estivera com Arshe no dia do nascimento de Tinuviel e que decidiram ter uma vida, juntos. Dizia na carta também que, caso Karen ou Tinuviel precisassem muito, muito, muito dele, era só entrar em contato. Deixara o nome de um amigo em comum em Dalaran para o qual poderia localizá-lo, caso fosse necessário. Duvidava que seu irmão o chamasse, mas preferia dar esse voto de confiança a ele.

Então, esperou.

Arshe tinha tantas dúvidas quanto Kayliel, mas a maioria não estava ligada a um possível ódio da parte de Varian ou Anduin. Sabia que eles sempre a amariam e que, com o tempo, aceitariam sua decisão. Era ela mesma. Sentia-se egoísta em pensar que, enquanto estivesse feliz em algum lugar, a vida de Lina e Doroteya ocorreria e ela não saberia de nada. Logo, sua amiga druidesa e o marido teriam filhos e como seria a tia Arshe se não estivesse por perto? E Varian e Lina? Se eles ficassem finalmente juntos, para todos saberem? Era tão difícil…

Quando Arshe entrou na sala da biblioteca, viu Kayliel sentado, com o rosto envolto em tristeza. Imaginou que ele sentia as mesmas dúvidas e angústias dela. Os dois estavam divididos entre o amor que sentiam um pelo outro e o amor que sentiam por suas respectivas famílias.

— Kayliel. — ela falou.

O elfo levantou a cabeça e sorriu.

— Arshe. — ele se levantou e foi até ela.

Os dois ficaram cara a cara, os corações batendo tão forte que tinham a sensação que era possível escutá-los. Kayliel então deu um passo à frente e a abraçou. As emoções que tinham quando estavam juntos voltaram e deixaram seus sentimentos ainda mais confusos. Era alegria de estarem juntos e a tristeza do que estavam deixando para trás. Nascimento e morte. Felicidade e dor. Início e fim. Arshe colocou a cabeça no ombro dele e chorou. Chorou por tudo que não viveram e tudo que viveriam. Imaginou que ele estava estranhando a reação, mas ele apenas a consolou, passando as mãos em suas costas, até que o choro arrefeceu.

— Quer conversar? — ele perguntou.

Ela afirmou com a cabeça ainda no ombro dele.

A afastou com delicadeza e a guiou até uma mesa que os alunos usavam para estudar. Sentaram-se nas cadeiras, um de frente para o outro, de mãos dadas, como se tudo fosse desabar caso as soltassem.

— Você primeiro. — ela falou – Conte-me o que aconteceu no parto de sua sobrinha.

Kayliel suspirou.

— Não é uma história bonita.

E começou a contar. A medida que falava, via o rosto de Arshe ficando cada vez mais pálido, os lábios trêmulos diante dos detalhes e os olhos cheios de lágrimas. Kayliel pensou em poupar os piores detalhes, mas não o fez. Contou a história da mesma forma que seu irmão contou a ele. A história mais verdadeira, mais crua e mais dolorida. Depois que terminou, Arshe limpava as lágrimas, fungando, como se conhecesse Luxuriah e sofresse por ela.

— Tenho a impressão que somos amaldiçoados, Kayliel. — sussurrou – Pois, sempre que estamos juntos, algo muito ruim acontece…

Kayliel sentiu a garganta fechar.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou em um sussurro abafado.

Arshe então começou a contar do que acontecera com Lina na mesma noite em que Luxuriah dera a luz e que eles se renderam ao desejo. Falou sobre a quase morte da amiga, de como crianças precisaram lutar para garantir a sua própria sobrevivência e a da comandante. Kayliel não chorou, mas ouviu tudo de cabeça baixa, recriando a cena em sua própria mente, entendendo porque Arshe achava que a relação de ambos era amaldiçoada.

Quando o relato terminou, ficaram em silêncio, de mão dadas e corações sangrando. Ficaram assim por um bom tempo, até que ele quebrou o silêncio:

— O que você quer fazer? — perguntou.

— Não sei. — respondeu ela com sinceridade.

— Eu te amo, Arshe. — confessou o elfo encarando-a.

— Eu também te amo, Kayliel. — respondeu ela.

Sabiam que os sentimentos eram verdadeiros. Eram eles, todavia, suficientes?

Continuaram um bom tempo, calados, mãos unidas. Já tinham ido tão longe, mas agora pareciam meio perdidos. Kayliel encarou o rosto bonito, mas triste de Arshe e sabia que sacrifícios precisavam ser feitos. Era a única forma.

— Eu vou lhe dizer o que estou sentindo. — começou Kayliel e ela o encarou— Eu estou me sentindo culpado por tudo. Sei que não sou, mas me sinto. Sei que meu irmão vai me odiar e talvez nunca me perdoe. Só que… — ele respirou fundo antes de continuar – Esse sentimento não vai passar, eu estando lá ou onde for. E eu… Eu quero estar com você. Já fui infeliz por tanto tempo… Quero ser feliz com você. Culpado ou não. Quero estar com você.

Arshe, com os olhos molhados, sorriu. Sentia a mesma coisa.

— Eu… Eu sei que eles não vão me odiar. — disse e Kayliel sabia que ela falava de Anduin e Varian – O que me dói é que eu não estarei por perto pra ver Doro grávida, ou Lina casando, essas coisas. Mas… — ela sacudiu a cabeça – Não aguento mais ficar longe de você! Não aguento ser feliz apenas pelos outros. Quero ser feliz por mim mesma. Com você.

A decisão fora tomada.

Kayliel levantou e Arshe o imitou.

— Vamos embora. Agora. — disse ele a excitação crescendo, tomando o lugar do medo – Vamos logo embora!

— Vamos! — concordou Arshe a animação voltando a face.

— Shattrath? — perguntou ele com as mãos ainda segurando com força as dela

— Shattrath. — respondeu a maga.

— Entramos para os Filho de Lorthar hoje ainda. — começou ele animado – Depois de tornar isso oficial, casamos!

— Casamos?! — surpreendeu-se ela.

— Casamos! — confirmou ele – E compramos uma casinha! E eu abro uma clínica para cuidar das pessoas e você pode ensinar magia!

Os olhos de Arshe brilharam.

— E teremos nosso bebês! — exclamou ela.

— Teremos os nossos bebês. — confirmou antes de se beijarem.

O medo e a dor foram totalmente esquecidos.

Lina e Doroteya ainda estavam no Enclave Prateado, a comandante no terceiro copo de cerveja e Doroteya no segundo copo de suco quando uma criança humana chegou correndo e as encarou.

— Você é a comandante Lina? — perguntou o menino apontando para Lina.

— Sim. — respondeu se esconder sua surpresa.

— Aqui. — entregou um bilhete e saiu correndo.

Lina revirou os olhos.

— Ela poderia ter se dado o trabalho de vir nos dar uma abraço. — reclamou, mas sorrindo.

No bilhete estava escrito apenas três palavras:

“Shattrath. Amo vocês.”

Notas finais
Comentem!!!!