Herdeiros da Guerra
47 Capítulo XXVI - A coroação (PARTE IX)
Notas iniciais
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— Eu esperava um pouco a mais que isso.
Modera encarou Lícia por cima da taça de champanhe. A jovem maga estava realmente muito elegante em sua veste do Kirin Tor, apesar de serem menos pomposas que a de Modera, pois não era do Conselho. Lícia não era das magas mais poderosas, admitia a Arquimaga, mas era esforçada e prestativa; quando soubera que viria a Luaprata, pediu conselhos a Vereesa para não cometer nenhuma gafe e também para saber em quem ficar de olho. A prestabilidade e interesse dela lhe encantara e, ao saber que Lícia era irmã da comandante das forças de Ventobravo, ficara muito surpresa: as duas não tinham nada em comum. Lícia era muito educada, civilizada, meiga e definitivamente não compartilhava nada além dos olhos verdes com aquela que Vereesa chamou de “vadia ignorante”. O que era uma surpresa, Vereesa não costumava usar aquele tipo de palavreado.
— Confesso que eu também. — disse a arquimaga para a outra – Os elfos sangrentos são conhecidos pela exuberância. Não que aqui não tenha, mas acreditava que teria mais.
— Você acha que foi porque eles não quiseram?
A arquimaga sabia onde Lícia queria chegar. Se os elfos decidiram ter uma coroação mais simples poderia significar duas coisas: que o perfil da nova rainha era mais singelo, pela sua própria criação fora do palácio ou os elfos sangrentos estavam em condições delicadas financeiramente. Era algo que só com o tempo saberiam.
— Vamos esperar pelo baile. — falou Modera – É nele que veremos a extensão do que os elfos planejaram.
Ainda assim, Modera admitiu que tudo estava muito bonito, elegante e com detalhes muito bem pensados. A decoração seguia as mesmas cores da cidade, com vermelho e dourado predominante. Modera sabia que se tratava das cores da Casa Andassol, ainda que as princesas tivessem optado por manter o nome da família da mãe. Servos vestidos de modo tão ou mais exuberante que muitos convidados, serviam canapês, champanhe, vinho e água para os convidados, que se organizavam em pequenos grupos. As duas únicas humanas no ambiente estavam perto da varanda, observando as diversas raças que caminhavam por ali. Modera percebeu que Garrosh Grito Infernal as encarou e cuspiu no chão quando a arquimaga devolveu o olhar. Um servo veio rapidamente e limpou. Claro, ele seria o primeiro que a rainha receberia e logo sumiu por uma porta, guiado por Lor’themar Theron.
— A Rainha Banshee me dá calafrios. — disse Lícia.
Sylvana Correventos estava próximo a porta que Garrosh acabara de cruzar, com suas patrulheiras sombrias e Nathanos, o Arauto da Praga. Eram os únicos convidados que não estavam nem bebendo nem comendo. Modera percebeu que, em determinado momento, uma das princesas, a loira, se aproximou e conversou com a Dama Sombria. A jovem elfa de vestido prateado não parecia se importar de ficar perto da líder dos Renegados.
Outra pessoa que se destacou, ainda que estivesse bem mais discreta que no baile do Kirin Tor, foi Vivithi Theron. Modera a reconhecera de cara. A elfa vestia uma armadura completa, menos robusta que os dos outros guardas, e o arco nas costas lhe disse que ela também era patrulheira. A elfa fiscalizava tudo discretamente, enquanto trocava olhares casuais com Aethas Fendessol. Quando viu que a arquimaga a olhava, Vivithi franziu a sobrancelha, desconfiada. Rapidamente, Modera desviou o olhar para Lícia.
— A namorada de Aethas é ciumenta. — comentou.
Lícia fez força para não encarar Vivithi e apenas acenou com a cabeça.
Aethas tinha sumido durante o baile e depois o Kirin Tor recebeu uma curta missiva dele dizendo que sua sobrinha entrara em trabalho de parto prematuramente e que tivera que ir correndo para Luaprata. Durante a cerimônia, Modera percebera que a referida sobrinha aparecera momentaneamente, com o bebê nos braços, e a humana tinha que admitir que a elfa parecia bem abatida. Era algo que não dava para negar. Assim que a coroa pousara na cabeça da irmã e a menina rainha discursara, a nova mamãe fora retirada do salão, junto com o bebê. Apesar de não ser a maior fã de toda a atenção dispensada por Aethas para a família (afinal, ser do conselho do Kirin Tor exigia sacrifícios), ficava contente por tudo ter corrido bem com a sobrinha do arquimago. Eles já foram amigos próximos, afinal. Antes dele se aliar à Horda.
Era estranho para ambas serem as únicas humanas ali. Lícia sentia-se ameaçada, vigiada, medida em cada olhar que recebia. Esperava transparecer, pelo menos, metade da calma de Modera.
— Boa noite, espero que estejam sendo bem servidas.
Modera e Lícia olharam para a pessoa que se aproximara. Era uma das princesas, Modera não lembrava o nome, mas era a que sempre visitava Aethas. Cabelos negros, presos em um coque elegante, com uma tiara discreta, mas reluzente. A elfa usava vestes de vários tons de azuis, com as costas numas e ombreiras douradas, de onde pediam véus transparentes. Um cinto dourado completava o visual e, quando a princesa brevemente virou-se para dispensar o vinho oferecido por um servo, Lícia viu que as costas do vestido eram nuas. As duas magas do Kirin Tor fizeram uma breve reverência à princesa, que sorriu em cumprimento.
— Estamos sendo muito bem servidas, princesa Kassyeh. — respondeu Modera, lembrando do nome dela.
— Fico feliz. — disse a outra – Se precisarem de alguma coisa, por favor, podem me procurar.
— Agradecemos, alteza. — falou Lícia.
— Se não se importa, — começou Modera antes que Kassyeh saísse – gostaria de fazer uma pergunta. É apenas curiosidade.
— Claro. — falou Kassyeh animadamente.
— Sua irmã deu à luz recentemente, não foi? Qual o sexo da criança?
O sorriso de Kassyeh aumentou.
— É uma menina! — disse animadamente – A chamamos de Tinuviel! Ela é a primeira ruiva desde do titio Aethas. Ele ficou tão feliz em ver isso! — ela deu uma risada.
— O arquimago Fendessol parece bem feliz mesmo. — comentou Lícia.
Aethas estava observando a conversa e sorriu educadamente quando Lícia o olhou.
— Estamos todos. — continuou Kassyeh – É muito bom ter um bebê de novo em casa. Espero poder aumentar a família em breve também.
— Está grávida? — perguntou Modera surpresa. O corpo esguio da elfa não parecia esperar uma criança.
— Ainda não. — continuou a elfa – Mas em breve, quem sabe. Bem, preciso falar com outros convidados, fiquem à vontade. — e saiu na direção de um grupo de trolls.
— Coitada, acho que o melhor para ela seria não engravidar. — comentou Modera depois que a elfa estava longe.
— Por que? — perguntou Lícia surpresa.
— Porque aquele é o marido dela. — e apontou com a cabeça discretamente.
Tewdric estava com uma armadura completa, reluzente e pesada. Ele conversava naquele momento com um grupo de taurens, dando risada enquanto bebia uma caneca imensa. Modera supôs que fosse cerveja. Saba estava do lado dele e a menina falou algo que fez o grupo todo cair na gargalhada. Tewdric então deu dois tapinhas no topo da cabeça da menina e a abraçou.
— Ela é casada com um orc? — Lícia estava horrorizada.
— Sim. — respondeu Modera – Era de se esperar que isso fosse um escândalo, não é? Mas os elfos não parecem se incomodar. Ou são educados demais para mostrar. Ou tem muito medo dele. Parece que é um dos campeões da Horda.
Lícia deu uma olhada mais uma vez em Tewdric e viu quando Kassyeh se aproximou dele. O orc a olhou de forma tão apaixonada que a maga ficou desconcertada. Aquilo era realmente possível? Viu o quanto a princesa parecia pequena perto dele e se perguntou como eles conseguiam fazer sexo sem que ele a matasse. Talvez os elfos fossem mais resistente do que se pensava. Voltou o olhar para Modera.
— A família de Aethas é bem peculiar. — comentou.
Modera apenas acenou afirmativamente com a cabeça.
Viram os líderes da Horda entrarem, um após o outro, saírem. Estavam esperando sua vez de falar com a rainha quando Lícia viu o elfo mais bonito em que já colocara os olhos em toda sua vida se aproximar delas. Por um momento, esqueceu que era casada, ajeitou sua postura, passou a mão pelo cabelo, esperando que este estivesse arrumado. O belo elfo de cabelos dourado sorriu para as duas e fez uma breve reverência.
— Boa noite, senhoras. Sou o general-patrulheiro Halduron Asaluz e vou levá-las até Vossa majestade Karensky Fendessol.
— Agradecemos a atenção, general. — falou Modera – Vereesa sempre falou muito bem de seu trabalho em Luaprata.
— Transmita meus agradecimentos a ela. — respondeu educadamente – Vereesa também faz um excelente trabalho no Kirin Tor. — e indicando o caminho com a mão, perguntou – Podemos ir?
As duas então entregaram suas taças a um dos servos e seguiram-no pelo corredor. Modera percebeu os olhares desconfiados de todas as sentinelas, uma postura bem diferente de quando a arquimaga visitara Luaprata, tantos anos antes, a convite de Kael’thas. Naquela época, o príncipe não se importava em esbanjar e se gabar da sua cidade. Suas sobrinhas tinham um estilo mais discreto.
Entraram no salão real, Halduron segurando a porta para que elas passassem. Lícia encarou Halduron, um sorriso provocante brincando em seus lábios. O elfo apenas acenou com a cabeça, educadamente. A maga se decepcionou: não havia nenhum resquício de interesse nele.
Karen as esperava próximo à varanda, de pé sobre um deck, observando a cidade iluminada abaixo de sua vista. A menina usava uma armadura completa, o que chocou as representantes do Kirin Tor: vestida assim, ela não parecia em nada com a menina da coroação. Estava imponente e carregava a espada que recebera na cintura. Lícia se perguntou como ela conseguia andar com todo aquele metal.
Halduron mostrou os lugares para que as duas sentassem e, assim que sentaram, servos vieram com bandejas, oferecendo bebidas. Modera as recusou, o que deixou Lícia um pouco triste: o vinho servido ali era maravilhoso. Queria saber de qual uva eram feitos.
Depois que se acomodaram, Karen as encarou e sorriu. Desceu só dois degraus do deck e se aproximou delas.
— Espero que a estadia a Luaprata esteja sendo boa. — disse com sinceridade.
Modera estava espantada. A menina parecia muito com o quadro que Aethas tinha da irmã em sua sala.
— Estamos muito felizes em estar aqui, vossa majestade. — começou Modera – Principalmente para reafirmar nossa cooperação com os elfos sangrentos através dos Fendessol.
Lor’themar fez um grande esforço para não torcer o nariz diante da fala da arquimaga.
Karen teve vontade de dizer que Modera podia lhe chamar pelo nome, mas Lor’themar lhe dissera que aquilo não seria bem-visto. Não, pelo menos, pelo Kirin Tor. Os dois já haviam negociado que ela poderia dizer aquilo apenas aos chefes da Horda que gostasse.
— Ah, a cooperação está reafirmada com certeza! — continuou Karen animada – Titio Tatá faz um ótimo trabalho. — Lor’themar deu uma tossida perto da menina, que corrigiu – Ah, o titio Tatá que falo é o meu tio Aethas. Chamo ele de Tatá, é mais fofo não é?
Lícia se perguntou se a menina estava sendo irônica com elas.
— Seu tio é um grande mago e muito benquisto no Kirin Tor, majestade. — continuou Modera.
— Claro que é! — afirmou Karen convicta – Vocês só podiam deixar ele visitar mais a gente, né? Tipo, ele vem só ver a gente e não falar coisa de política! — disse a menina revirando os olhos.
— Majestade… — advertiu Lor’themar do seu lado.
— O quê? — perguntou a menina virando a cabeça e o olhando – É verdade! Parece até que a gente ia perder tempo falando do Kirin Tor e da Aliança quando ele tá aqui! Gente vai fazer coisa de família! — e voltando o olhar para Modera, continuou, com um sorriso – Eu estou ansiosa para conhecer Dalaran, espero ir um dia. Titio disse que eu podia, mas tem tanta coisa que tenho que aprender… E tem Tinuviel também. Tenho que ser uma boa tia. E uma boa rainha. E uma boa paladina. É muita coisa, né? — e deu uma risada.
Modera simplesmente não sabia o que dizer, a menina a deixara totalmente perdida, por isso, apenas confirmou.
— Sim, majestade.
Animada com a afirmativa de Modera, a menina continuou:
— Minha irmã é maga também, a Kass, sempre vai a Dalaran com o Ted… O Ted é o marido dela, sabe? Aí a Kass diz que lá é muito legal porque Horda e Aliança não brigam. Isso é muito bom, não é? Deviam ter mais cidades assim. Vocês pensam em fazer outras cidades assim? — e antes que ela respondesse, a menina continuou – Deveriam, é bem legal. Meu tio gosta bastante de lá. Quero conhecer. E ir com a Ash. Ash é minha outra irmã, ela tava de vestido dourado. É a namorada do Lor’themar. — e apontou para o lorde regente, que estava massageando a testa.
— Seria ótimo recebê-las, majestade. — Modera não conseguia falar mais que quatro palavras sem ser dragada pela menina.
— Eu estou bem animada em recebê-las. É a primeira vez que vejo humanas. Os humanos machos são que nem vocês também? Tipo, vocês tem orelhas tão pequenas! Muito pequenas! Vocês ouvem bem? Tipo, ouvem menos que a gente? Ah, vocês não teriam como saber, não é? Eu fiquei muito surpresa, achei que vocês fossem mais… Sei lá, diferentes.
— Diferentes? — conseguiu perguntar a arquimaga.
— É, diferentes! — disse a menina simplesmente e sorriu.
Zonza com a enxurrada de palavras de Karen, Modera apenas acenou com a cabeça e torceu para que o encontro terminasse logo.
— Ah, tenho algo para vocês. — e fez um gesto para um servo se aproximar – Um agradecimento pela presença.
O servo ofereceu, em uma bandeja, duas pequenas garrafas de puro cristal, enfeitada com fios de ouro, com um líquido de cor púrpura dentro. O nome da rainha estava escrito em um rótulo também dourado. Cada uma das magas pegou uma das garrafas.
— Também tem meu manifesto, confirmando a presença dos Fendessol e o compromisso do meu povo com a neutralidade de Dalaran. — Karen fez um gesto e Lor’themar entregou o pergaminho a Modera – Espero que curtam o baile!
E, quando menos esperavam, as duas já estavam sendo conduzidas novamente pelo salão por Halduron. Quando estavam novamente a sós, Lícia encarou a pequena garrafa e percebeu que a rolha que a fechava era de ouro também. Quanto valeria aquele vinho?
— Acho que isso responde a sua pergunta sobre a situação dos elfos sangrentos. — comentou Modera.
— Sim, responde. — e encarando a outra – O que você achou da menina?
Modera sacudiu a cabeça.
— Não faço ideia. Ela me parece bem… Inocente.
— Poderia ser fingimento. — retrucou Lícia.
— Pode sim. — concordou Modera – Só saberemos isso com o tempo. — ela olhou em volta – E já que estamos aqui, vamos aproveitar o baile?
Lícia concordou. Se tivesse sorte, conseguiria uma dança com Halduron. Sorriu ao pensar nisso.
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— Se vocês não pararem de brigar, vou expulsar os dois do quarto.
A frase foi dita em voz baixa porque Luxuriah nem queria acordar a filha, nem queria gastar sua energia com aqueles dois. Rommath e Kayliel se encararam como dois gatos de rua eriçados, mas não falaram mais nada.
A discussão daquela vez fora causada pela aparição de Luxuriah na coroação. Rommath não gostara nem um pouco e já chegara no quarto esculhambando o irmão. Kayliel se defendeu dizendo que só fizera o que Luxuriah pedira. Rommath retrucou dizendo que ele precisava cuidar dela. E começaram as acusações mútuas até a intervenção da elfa.
— Eu fui porque eu quis. — disse ela ajeitando a filha nos braços – E você sabe Rommath, quando quero algo, eu consigo.
O mago pensou em dizer algo, mas preferiu não aborrecer a esposa.
Kayliel sentou-se em uma cadeira, ciente que a raiva de seu irmão não passaria tão facilmente. Na verdade, duvidava que aquela raiva um dia passasse. Só que Rommath tinha razão. Se Kayliel tivesse ficado naquele dia…. Não, não ia pensar nisso mais. Não, pelo menos, naquele momento.
A porta do quarto de Luxuriah abriu-se e Karen entrou vestida em sua armadura. Sorriu para os presentes e o ar imediatamente ficou mais leve. Até Rommath relaxou na presença da menina.
— Olha eu de armadura, Lux! — disse a menina rodando para a irmã ver a roupa – Acabei as reuniões e vou me trocar pro baile.
— Como foram as reuniões? — quis saber a irmã.
Karen revirou os olhos.
— Garrosh é um pé no saco! — reclamou.
Luxuriah caiu na risada, sendo acompanhada por Rommath.
— O que ele fez pra você chegar a essa conclusão? — perguntou Rommath fingindo seriedade.
Karen então começou a narrar sobre as reuniões. Primeiro, recebeu o Chefe Guerreiro da Horda. O orc já chegou na sala reclamando da demora, que os protocolos dos elfos eram perda de tempo e que não interessava quem estivesse no poder desde que mandassem soldados para lutar contra a Aliança. Karen então o olhou e disse:
— Você é chato, né?
O quarto explodiu em gargalhadas e Tinuviel acordou, assustada. Luxuriah a embalou enquanto olhava para os demais, pedindo silêncio.
— Você chamou Garrosh de chato? — Rommath estava rindo, mas estava preocupado – Lor’themar disse o quê?
— O mais importante, qual a reação do Chefe Guerreiro? — quis saber Luxuriah.
Lor’themar, claro, quase infartou. Começou a pedir desculpas, mas Karen o cortou dizendo que, como Chefe Guerreiro, Garrosh tinha que respeitar os ritos dos demais povos da Horda e não ficar reclamando. Quando elfo já temia o pior, o orc encarou a menina, que não baixou os olhos para o guerreiro e ele comentou:
— É verdade que você foi criada por um orc?
— É. — respondera a menina sem medo – O Ted é como se fosse meu pai.
Grito Infernal franziu o cenho.
— Tewdric, hein? Conheço. Só por isso não vou te matar, menina. Crianças órquicas são mal educadas mesmo.
E pegou o presente que o servo lhe estendeu e foi embora.
— Então ele acha que você é mais orc que elfa? — Luxuriah sacudiu a cabeça – Acho que isso foi só desculpa para não te matar e ter que encarar Tewdric e os outros chefes da Horda enchendo o saco dele.
Karen deu de ombros.
— Tô nem aí pra o que ele pensa.
— Deveria. — recomendou Rommath com seriedade.
Karen o ignorou e continuou a contar das demais reuniões. Claro, a reunião com Sylvana foi a que a menina mais gostou. Encheu a Rainha Banshee de elogios, dizendo em como estava feliz em tê-la como ‘tia’. Falou que a convidou para voltar mais vezes a Luaprata e a Dama Sombria concordara e a convidara para conhecer a Cidade Baixa. Claro, Karen já fazia planos para a viagem. Falou também que Sylvana lhe falara mais uma vez em como parecia com a mãe e lhe contara alguns casos quando as duas eram pequenas.
— Ela é tão legal! Gosto tanto dela!
Rommath e Luxuriah trocaram olhares, mas nada falaram.
Vol’Jin também despertara bons sentimentos na menina. Os dois conversaram o que Karen chamou de “coisas mais sérias” sobre o mundo e a Horda. Karen ficou feliz quando o troll enfatizara que a Horda era uma família e que a menina precisava vê-la dessa forma e não como apenas aliados de guerra. Karen ficara feliz em dizer que a Horda sempre fora sua família, deixando Vol’Jin muito satisfeito. Ele então a convidara para ir até a aldeia Sen’Jin, onde o caçador sombrio lhe prometera fazer uma consulta aos Loas para saber sobre o reinado de Karen. Ela, claro, aceitara na mesma hora.
— Ele disse que sente só coisa boa em mim! — disse animada – Perguntei se podia chamá-lo de tio Jinjin e ele concordou!
— Tio Jinjin? — perguntou Luxuriah sem se surpreender – E ele deixou?
— Sim! — exclamou animada.
Falou então do encontro com Baine Casco Sangrento. Esse foi o encontro mais animado de todos, pois Baine já ouvira falar de Karen desde a época em que ela estivera no Penhasco do Trovão. Os dois empreenderam uma longa conversa sobre a Luz e lealdade, sobre fazer o bem e como aquilo poderia se perder no meio das guerras. Karen adorara conversar com Baine, pois o achara muito bondoso e alguém confiável. A conversa fluíra tão bem que Lor’themar tivera que lhe lembrar que haviam outros para receber. Então, o chefe dos taurens lhe convidara para passar uma temporada no Penhasco do Trovão quando quisesse.
— Aí eu disse que ia assim que você estivesse melhor! — avisou a menina – Vai ser muito legal!
— Parece que você tem muitos lugares para visitar. — comentou a irmã orgulhosa – Vamos fazer o planejamento para você visitá-los todos consecutivamente, começando por Cidade Baixa e depois indo para Kalimdor.
— Oba! — a menina deu pulinhos, fazendo a armadura tilintar – Vai ser muito legal mesmo! Você vai comigo?
— Não com Tinuviel tão pequena. — lembrou ela mostrando a filha adormecida – Você irá com Kassyeh ou Ash.
A menina assentiu vigorosamente e começou a falar de Gallywix. Foi o segundo que ela menos gostou, só perdendo para Garrosh. Ele até fora simpático no início, mas ai depois começou a tentar vender coisas ou fazê-la assinar contratos duvidosos e Karen disse que ele era um aproveitador. O goblin dera uma gargalhada e não se ofendera nem um pouco com a fala da menina, pelo contrário.
— Se eu não fosse assim, não tinha chegado onde cheguei. — dissera o goblin.
E continuou tentando vender coisas, até Lor’themar lhe dar o presente de agradecimento e o convidar a sair. Gallywix ainda tivera a ousadia de pedir mais uma garrafa, dizendo que era para mãe dele. O lorde regente só o tirou da sala.
— Aí veio as mulheres do Kirin Tor. — disse Karen ficando séria – Achei muito estranho, elas tem as orelhas tão pequenas! Os humanos são meio surdos?
O estômago de Luxuriah embrulhou só de pensar na irmã tão perto de humanos. Porém, eram duas humanas, mulheres, então o mal era menor. A elfa as vira de relance na cerimônia e decididamente não gostou delas. Porém, nada poderia fazer pois entendia, mesmo que detestasse a ideia, que era essencial para a Horda o apoio do Kirin Tor. Pelo menos por enquanto. Sonhava com a época que poderia simplesmente dar o pé na bunda da cidade flutuante.
— Acho que os humanos um pouco pior que a nossa, mas não chegam a serem surdos. — disse Kayliel. Ele sabia que o alcance de sua audição sempre fora melhor que a de Arshe.
— Porque de humanos, ele entende. — alfinetou Rommath.
O rosto de Kayliel ficou escarlate e ele baixou a cabeça.
— Ohh!! — Karen não percebeu o clima entre os irmãos e se aproximou animada de Kayliel – Eu achei que eles tivesse garras! E rabos! Tewdric disse que tinham! São só os machos que tem?!
— Humanos não tem garras nem rabos, Karen. — explicou Kayliel sorrindo para a menina – Fisicamente eles não são tão diferentes das fêmeas.
— São apenas cruéis e perversos. — ironizou Luxuriah.
A menina encarou a irmã e depois olhou para Kayliel.
— São? — perguntou.
O sacerdote suspirou.
— Infelizmente, sim. — ele não ousava dizer nada diferente na presença da cunhada.
— Não está na hora de você se trocar? — perguntou Luxuriah querendo mudar de assunto.
— Sim! — exclamou Karen animada – Vou me trocar e venho mostrar o vestido, já que você não vai tá lá! Mas gostei muito, muito e muito de você ter ido me ver receber a coroa! — e abraçou a irmã, que encarou o marido com indulgência.
— Aproveite bem o baile. — desejou a irmã.
— Vou sim! — e olhando para Kayliel, perguntou – Você não vai se vestir pra ir pro baile?
O sacerdote estava com suas vestes de trabalho e fez que não com a cabeça.
— Chega de bailes para mim.
— Nããããooo! — protestou Karen – Você tem que ir! Eu vi sua roupa de baile, tá tão bonita!
— Não estou no clima, Karen.
— Vamos! Vamos! Vamos! — pediu ela sacudindo pelo braço – Ah! Já sei! Você não quer ir porque não tem par, né?
Kayliel aproveitou a deixa de Karen para afirmar.
— É por isso mesmo. — e ignorou seu irmão franzindo o cenho para ele.
— Então eu serei seu par! — disse a menina animada – Vamos dançar a noite toda! Que tal?!
Por essa Kayliel não esperava e encarou a menina, sem saber o que dizer.
— Eu adoraria, Karen, mas não posso deixar sua irmã sozinha…
— Eu fico com ela. — disse Rommath com um sorriso cruel – Vá e divirta-se, irmão. Quero que você acompanhe Karen a noite toda.
— Obrigada Romrom! — e olhando para Kayliel ansiosa, disse – Eu vou me vestir e você se troca também e venho te buscar aqui daqui a pouco! — e a menina saiu antes que Kayliel pudesse dizer qualquer coisa.
Assim que a menina saiu pela porta, Kayliel encarou o irmão, com a expressão enfurecida.
— Vá se trocar, Kayliel. — disse com deboche – Não vai deixar a rainha esperando vai? Ela ficaria muito decepcionada.
Com as emoções em ebulição, Kayliel apenas se levantou de supetão e deixou o quarto. Luxuriah então encarou o marido, seriamente.
— Você já pode parar de tratá-lo assim. — disse.
— Vou parar. Depois de uma noite tendo que acompanhar o ritmo de Karen, ele já será castigado o suficiente. — falou o magíster.
— Promete? — cobrou a elfa.
Rommath respirou fundo. O que não fazia pela sua amada.
— Prometo.
Luxuriah sorriu.
— Agora, pegue Tinuviel um pouquinho. Preciso ir ao banheiro antes de Karen voltar.
— Tudo que você quiser, meu amor.
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Não houve um chamado oficial para o começo do baile. A música comunicou a todos o início. Ash, acompanhada de vários músicos, embalavam os convidados com uma música tradicional élfica. As pessoas foram entrando, se espalhando, tão naturalmente quanto a voz que saia da boca da jovem patrulheira. E, apesar de estar nervosa, não havia hesitação em seu canto.
Lor’themar observou-a, enebriado com sua existência. Não conseguia imaginar o que fizera de tão bom para merecer o amor daquela sublime criatura. Por isso, deixou-se apreciá-la mais um pouco antes de começar a arrumar a entrada de Karen.
O protocolo naquele momento era o mais simples e informal de todos. Esperou todos só convidados estarem bem à vontade, bebendo, comendo e ouvindo as canções cantadas por Ash até Karen estivesse pronta. Fez um gesto para Ash, que também o observava e logo após encerrar a música, ela calou-se para que o lorde regente anunciasse.
— Com vocês, Vossa Majestade Karensky Fendessol, Rainha de Quel’thalas, acompanhada de seu cunhado, Lorde Kayliel. — Lor’themar teve que fazer muito esforço para não cair na risada.
Karen entrou toda feliz em seu vestido de baile, de braços dados com Kayliel. O elfo até que achou divertido entrar com a menina e a alegria dela já o contagiava. Trocou olhares com Ash, que estava no palco, e a jovem elfa não cotinha os risos. Ver sua irmãzinha entrando toda empinada, puxando Kayliel como se este não soubesse onde ir era a melhor cena daquele dia, com certeza.
— Pobre Kayliel. — comentou Kassyeh com Tewdric – Se ela o fez mesmo de par, ele não sai daqui antes do sol nascer.
— Ele tem é que ficar feliz com a honra! — disse o orc cruzando os braços – E é bom ele fazer com que ela se divirta!
Esse não seria o problema, com certeza, pois Karen já estava claramente se divertindo muito. Sem delongas, ela arrastou Kayliel para a pista de dança quando Ash voltou a cantar. Apesar de o trono ter sido colocado no alto de uma série de degraus, no centro do salão, era óbvio que a menina o usaria bem pouco naquela noite; se usasse.
Depois de mais algumas canções, Kassyeh substituiu Ash nas canções. O plano original era que as três irmãs cantassem na coroação: Luxuriah arriscaria uma ou duas músicas, mesmo grávida. Com o parto antecipado e os problemas decorridos desses, foi uma tristeza para Luxuriah não poder cantar. Mas, do seu quarto, podia ouvir a música e sorria, pensando que, apesar de tudo, as coisas estavam se acertando.
O baile transcorreu sem nenhum problema. Como todos imaginaram, Karen dançou e muito. Com todos que aceitaram. Ela dançou com os líderes da Horda (exceto Garrosh, que já havia ido embora) e a maior surpresa de todas foi ver Sylvana aceitar, sorrindo, o convite. Ela dançou também com convidados de todas as raças e até mesmo com as duas convidadas do Kirin Tor. E claro, com Kayliel. Ela dançava com ele sempre que possível.
A energia da nova rainha de Quel’thalas era muito superior à de qualquer outra pessoa daquele salão, até mesmo de suas amiguinhas. Saba e Salandria dançaram com Karen várias vezes, mas foram logo vencidas pelo sono. Os demais convidados só começaram a debandar no meio da madrugada, enquanto a pequena elfa real ainda borboleteava pelo salão com elegância. Em determinado momento, enquanto Karen dançava animadamente com Tewdric, Kayliel sentou-se em uma cadeira próximo ao trono: Karen mandara colocar uma lá apenas para ter seu “acompanhante” por perto.
— Pode ir dormir, se você quiser. — disse Kassyeh ao se aproximar dele – Ela não sairá daqui tão cedo.
Kayliel fez que não.
— Eu prometi a ela ficar até o final e ficarei. — disse resoluto.
Kassyeh riu.
— Fazer esse tipo de promessa a Karen é perigoso. — lembrou a elfa – Ela só vai dormir provavelmente quando os servos começarem a varrer o chão.
— Eu sei. — murmurou ele conformado – Mas não consegui dizer não.
— Pouca gente consegue dizer não a Karen. — e apontou discretamente para o salão.
Karen trocara de par e dançava naquele momento com Sylvana novamente. O choque inicial das pessoas já tinham passado, então ninguém mais estava as olhando petrificado.
— Isso é bom para uma rainha. — murmurou Kayliel.
Kassyeh o observou por um momento. O sacerdote estava visivelmente abatido. De todos que sofreram com a situação de Luxuriah ele era, de longe, o mais perturbado. Nem mesmo Rommath estava tão abalado quanto o irmão. Vivithi dissera que provavelmente aquilo se dava porque ele se distraíra no baile e não fora achado, diferente dela e de Aethas. Kassyeh se perguntava se ele não estava na companhia de alguém, algum interesse romântico. Se estava, porque não dizia? Ninguém o condenaria por isso.
A não ser que os boatos de seu romance anterior com uma humana fossem verdadeiro. Ainda assim, pensou Kassyeh, não o condenaria. O amor era uma coisa estranha mesma.
— Sabe o que pensei quando vi você e Karen entrando no salão? — perguntou ela tentando distrair o cunhado.
— Humm… “Rommath deve estar rindo muito agora”? — arriscou.
Kassyeh riu, balançando a cabeça.
— Pensei “Parece aqueles contos onde a heroína conhece seu prometido na infância e ele relutantemente aceita o casamento para levar a paz aos seus reinos.”.
— Você anda lendo romances demais, Kassyeh. — alertou Kayliel, mas ele sorria.
— Talvez, mas que parecia, parecia.
— Você acha que aquela menina ali aceitaria um casamento arranjado? — perguntou ele apontando para Karen, que agora tirava Baine Casco Sangrento para dançar mais uma vez.
— Nunca! — exclamou Kassyeh gargalhando.
Tewdric, livre da dança com Karen momentaneamente, se dirigiu até sua amada.
— O que é tal divertido? — perguntou passando a mão pela cintura de Kassyeh.
— Estávamos falando se Karen aceitaria um casamento arranjado com Kayliel. — falou a elfa gracejando.
Tewdric olhou seriamente para Kayliel e alertou:
— Só por cima do meu cadáver, elfo.
Kassyeh gargalhou alto e Kayliel passou a mão pela testa, suspirando.
— Não se preocupe, eu não faria nunca algo assim.
Tewdric franziu o cenho.
— Ta dizendo que você é bom demais para minha menina?
Kassyeh riu ainda mais. Tewdric ficou sério por um momento e depois gargalhou junto com a esposa.
— Pela Nascente do Sol, vocês dois se merecem! — exclamou Kayliel.
A música deu uma pausa para a mudança dos artistas; como pretendiam ter música o tempo todo, haviam contratado dois grupos diferentes. Ash e Kassyeh já haviam encerrando sua participação pela noite e a maga passou os olhos pelo salão, procurando sua irmã. Não a viu. Nem Lor’themar. Torceu para que os dois estivessem fazendo algo mais que treinar juntos. E que Tewdric não percebesse aquilo.
Já que não havia música para dançar, Karen se aproximou de onde a irmã estava reunida com Tewdric e Kayliel, sorrindo, sem um fio de cabelo fora do lugar, apesar da agitação da noite.
— Kass, eu to com fome. — disse ela sem rodeios.
— Já era hora. — falou a outra – Pensei que você só ia pensar em comer quando desmaiasse de fome.
— Não, quero comer enquanto tá tendo a troca de artistas. Não quero perder nenhuma dança. — avisou a menina.
— Amanhã você não vai conseguir nem colocar os pés no chão de dor. — avisou a irmã, preocupada.
— É só o Keke me curar. — falou singelamente a menina olhando pra Kayliel, que sorriu.
— Certo, mas você vai comer primeiro. — Kassyeh apontou para a varanda – Tem uma mesa esperando você na varanda. Assim você poderá comer com privacidade.
— Oba, vamos logo! — apressou a menina.
— Eu não posso ir, Karen. Preciso ficar no salão no seu lugar.
— Eu não quero comer sozinha! — reclamou.
— Kayliel come com você. — disse a maga – Ele é seu par, não é?
A menina olhou para Kayliel, animada.
— Ótimo! Vamos lá! Comida! — e se encaminhou animada para a varanda.
Kayliel suspirou e se levantou. Antes dele ir, Tewdric segurou o braço dele e avisou, seriamente:
— Sorrindo, elfo. Deixe-a feliz!
— Tewdric! — reclamou Kassyeh – Ele tem nome, lembra? Não precisa ser tão defensivo. É só o Kayliel!
Tewdric o analisou por um momento e o sacerdote sentiu como se o orc estivesse conhecendo-o só naquele momento. Tinha pena de quem quer que se apaixonasse por Karen no futuro. A pessoa teria que quebrar aquela barreira de proteção antes de conseguir se aproximar da menina o suficiente para sequer pegar sua mão.
— Eu a farei sorrir, pode deixar. — garantiu – Ela é minha irmãzinha, lembra.
Assentindo com a cabeça, Tewdric o soltou.
— Vai logo! — ordenou o orc.
Kayliel apressou-se em cumprir o mandado de Tewdric. Quando chegou na varanda, olhou para trás e viu o casal se encaminhar para o salão, cumprimentando os convidados. Kassyeh era realmente uma embaixatriz nata. Se estivesse no Kirin Tor, talvez conseguisse mais apoio que Aethas.
— Vem logo, Keke! — chamou Karen impaciente.
A mesa estava posta para quatro pessoas e Kayliel pensou que a arrumação era para receber Ash, Karen, Kassyeh e Tewdric. Era uma pena que Karen não pudesse aproveitar uma refeição com as irmãs, já que ele não era a melhor companhia no momento. Mas se esforçaria. Karen merecia que ele lhe desse seu melhor.
— Você tá bem desanimado hoje. — disse a menina assim que se sentaram.
Kayliel nunca conseguira esconder seus sentimentos de ninguém e não se sentia surpreso de Karen ter percebido. Todos perceberam, afinal.
— Sinto-me culpado de não estar aqui para o parto de Luxuriah. — confessou, apesar de saber que Karen não ignorava aquele fato.
— As coisas ocorreram como tinham que ocorrer. — disse Karen seriamente – Você não poderia evitar.
Surpreso com a fala da menina, Kayliel ficou sem saber o que dizer.
— Se você tivesse vindo, não teria mudado o que Grey fez. Nem teria tornado as coisas mais fáceis para a Lux.
Os dois se encararam por um momento, Kayliel impressionado que a menina, tão jovem, tivesse chegado àquela conclusão. Seu coração ficou um pouco mais leve e o elfo sorriu.
— Você será uma ótima rainha, Karen. — disse sorrindo.
— Eu já sou uma ótima rainha! — falou convencida.
Kayliel riu.
— Sim é.
A menina lhe presenteou com um belo sorriso.
— Cadê a comida? — reclamou em seguida.
Os servos não tardaram a servi-los. Diferente do que se esperaria de um jantar para uma rainha, não havia nada muito chique ou sofisticado, pelo contrário. Apenas as comidas favoritas de Karen e muito suco de uva.
— Vinho é tão bom quanto suco de uva? — perguntou ela vendo um servo encher a taça dele.
— É melhor. — afirmou – Quando você tiver idade, vai saber.
A menina torceu o nariz.
— Deixe eu provar um pouco do seu. — pediu.
— Não acho uma boa ideia.
— Por favor!!! — pediu a menina – Não vou contar a ninguém!
— Mas eu vou saber.
— Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! Por favor! — Karen repetiu constantemente o pedido.
— Tewdric vai me matar se eu fizer isso. — Kayliel jogou sua última cartada.
— Vai nada! Ele já me deu cerveja. — confessou a menina com um sorriso travesso – Mas não conte a Kass.
Kayliel se deu por vencido.
— Só um pouco. — avisou e entregou a taça a menina.
Karen cheirou a taça e depois provou um pouco. Fez uma careta tão engraçada que Kayliel não se aguentou e gargalhou alto. Pegou a taça que Karen lhe entendeu e tomou um gole enquanto a menina bebia água para tirar o gosto da boca.
— Como vocês bebem isso? — perguntou ainda fazendo careta – Nem doce é!
— Quando seu paladar se acostumar, você saberá.
— Por que eu preciso me acostumar a uma coisa ruim?! — ela sacudiu a cabeça – Ficarei no suco mesmo.
O jantar continuou e na altura da sobremesa, Kayliel sentia-se muito bem. Estar com Karen o deixava leve, alegre e não precisava se esforçar para se esquivar de nada. Conseguia ser ele mesmo na presença dela, sem máscaras e sem amarras. Era uma sensação que não sentia há um bom tempo.
— Posso te fazer uma pergunta, Keke? — perguntou Karen a certa altura.
— Claro. — respondeu.
A menina olhou para os servos e os dispensou com a mão. Kayliel franziu a testa, estranhando o aceno. O que Karen perguntaria que outros não pudessem ouvir?
— É verdade que você teve uma namorada humana?
Chocado com a pergunta, Kayliel encarou a menina. Karen esperava a resposta serenamente, sem nenhuma sombra de acusação em seus olhos dourados. Era apenas curiosidade ou algo mais? Não soube dizer. Antes que pudesse responder, Karen voltou a falar.
— É verdade né? Sua cara já diz isso.
Apertando os lábios, Kayliel se esforçou pra manter a compostura, mas sua mão tremeu quando segurou a taça.
— Não vou fazer nada não. — contou a menina – Eu só quero saber para te proteger.
— Me proteger? — falou o elfo por fim.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Vivithi me disse que tem gente falando coisa de você, do que você tava fazendo no baile do Kirin Tor e não quero ninguém falando de você.
— Mesmo que seja verdade? — se viu perguntando.
Karen o encarou seriamente.
— Não me importo que seja verdade.
A garganta dele se apertou.
— Você não sabe o que está dizendo, Karen. — murmurou.
A menina revirou os olhos.
— Por que todo mundo acha que eu não sei das coisas? — reclamou fazendo muxoxo – Eu sei sim! Talvez saiba mais que vocês adultos, que complicam tudo!
— Não, não sabe. — falou com uma pontada de irritação aparecendo em sua voz – Nosso mundo vive em guerra, Karen. A Aliança é inimiga. Se eu estiver… Se estivesse com uma humana, seria sua obrigação me executar como traidor.
— Eu nunca faria isso! — garantiu a menina com veemência.
— Seria sua obrigação como rainha. — alertou.
— Sabe o que eu faria como rainha? — perguntou ela em atitude de desafio e se empertigando na cadeira – Eu exilaria você. Faria um discurso bem bonito, dizendo que você era traidor e blablablá, mas que nosso povo já tinha visto sangue demais. Mandaria você para longe, assim você poderia ficar com a pessoa que você ama e ser feliz. Ah, mas eu quereria saber de você então mandaria titio Aethas pegar notícias suas, claro. Você é da família, né?
— Você…. — a voz dele falhou – Você faria isso?
— Vou precisar fazer? — a menina devolveu a pergunta.
Para a surpresa de ambos, Kayliel começou a chorar. Não entendia porque, mas chorava. Karen não fazia ideia do que falava, claro. Era só uma criança. Mas saber que ela se preocupava com ele ao ponto de, assim que ouviu as desconfianças, pensou em um plano não só para ele viver, mas para ser feliz, o comoveu muito. Karen realmente o impressionava. O mundo não a merecia. E por isso, apenas por isso, ele falou. Não apenas do baile do Kirin Tor. Ele contou toda sua história com Arshe, desde o começo. Karen foi uma ouvinte atenta, fazendo as perguntas certas quando ele engasgava. E o consolando, segurando sua mão. A música recomeçou, mas Karen não o apressou. Estava mais preocupada com Kayliel do que com a festa que continuava dentro do salão. E quando ele terminou, ela sorriu, carinhosamente.
— Espero que algum dia alguém me ame assim. — desejou sonhadora.
— Alguém vai te amar muito mais. — garantiu ele.
O choro de Kayliel já passara, mas os dois ainda estavam de mãos dadas. Ele reparou que, mesmo que as mãos dela ainda fossem pequenas, já estavam calejadas dos treinos. Imaginou se aquelas mãozinhas ainda tiraria a vida de muitos humanos ou se traria a vida a muitos elfos. Talvez ambos. O caminho que se estendia à frente da menina seria difícil e ele desejou não precisar fazer a escolha entre sue povo e seu coração. Queria acompanhar Karen, estar do lado dela, ajudá-la como irmão, como amigo e não deixar que o brilho dela se perdesse no mundo de trevas que viviam.
— Quando você for embora, — recomeçou a menina – prometa que vai se despedir de mim.
— Prometo.
Ela lhe sorriu e ele retribuiu.
— Vá lavar o rosto para voltarmos ao baile, senão vão achar que eu fiz você chorar – disse a menina se levantando e rindo – Já que você não estará nos próximos bailes, dançarei só com você o resto da noite para aproveitar! — e antes que ele lhe respondesse, ela lhe sapecou um beijo no rosto e saiu saltitando para o salão.
Em vez de sentir-se bem com o apoio de Karen, Kayliel sentiu-se muito pior.
Porque desejou não ir embora.
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Livre da obrigação de acompanhar Karen nas reuniões, Lor’themar serviu-se de uma taça de vinho, enquanto observava Ash terminar uma dança com Tewdric. A elfa sorria, rindo de algo dito pelo orc e o lorde regente estava satisfeito que, mesmo com todas as atribulações, as coisas estavam se ajeitando.
Todavia, mesmo que agora não fosse mais oficialmente quem estava à frente de Luaprata, sabia que o trabalho por trás dos governantes poderia ser tão exaustivo quanto está à frente, principalmente se tratando de alguém tão inexperiente e impulsiva quando Karen. Até aquele momento, a menina não havia feito nada que a prejudicasse, mas era essencial que começasse a ver que precisava parar e pensar antes de agir ou acabaria com problemas muito maiores que os que tinha.
A dança de Ash e Tewdric acabou e o elfo prontamente pôs a taça numa mesa e foi até a pista, reclamar a atenção da princesa antes que alguém o fizesse.
— Dar-me-ia a honra dessa dança, vossa alteza? — falou com o tom divertido. Ash detestava quando a chamava daquele jeito.
Bem-humorada, a elfa fez uma breve mensura.
— Claro, lorde regente.
Ele riu também e começaram a dançar.
— Como foram as coisas com Karen e os outros chefes?
— Levando-se em consideração que ela não iniciou nenhuma guerra e que ainda estamos na Horda, posso afirmar que tudo correu bem.
— Verdade. — Ash abriu o sorriso – E você agora está livre para me dar um pouco de atenção?
— Estou livre para te dar toda a atenção que você quiser. — disse com a voz aveludada.
— Perfeito. — murmurou a elfa.
Dançaram lentamente, com os corpos se tocando apenas o suficiente para deixar os sentidos aflorados, sorrindo um para o outro, aproveitando aquele momento. Pouco antes que a música acabasse, Ash falou:
— Vamos sair daqui quando a música acabar. — pediu – Não quero mais ser tirada para dançar.
— Tem certeza? — perguntou ele — Tem muitas pessoas aqui que querem te bajular hoje.
— Só quero ser bajulada por você. — afirmou categoricamente.
Abrindo ainda mais o sorriso, Lor’themar afirmou com a cabeça.
— Pois sairemos agora.
Antes que qualquer um pudesse pensar em tirar a princesa para dançar, Lor’themar a puxou pela mão e saíram da pista. Como a varanda estava ocupada por Karen e Kayliel, foram para o jardim de trás, que estava quieto e fresco. Sentaram-se em um banco que havia lá e ficaram de mãos dadas, admirando a noite enquanto a música continuava a tocar dentro da torre.
— Espero que Karen não me veja aqui, ou pode jogar algo da varanda na minha cabeça. — e olhou para cima. Não era possível ver a menina ou Kayliel de onde estava e isso a deixou mais calma.
— Karen tem um prazer inexplicável em te provocar. — disse ele rindo.
— E eu não sei? — Ash bufou – Tenho a impressão que isso será para sempre. Imagine quando ela começar a usar as minhas roupas?
— Será um problema apenas se você se importar. Quando você começar a simplesmente sorrir e afirmar com a cabeça, ela parará.
— Duvido que esse dia chegue.
— Que você não se importará ou que ela parará?
— Ambos.
Lor’themar riu e passou a mão pelos ombros dela, puxando-o mais para perto dele. Ash se aconchegou a ele, sentindo o perfume de seu corpo e se perguntando como aquela pele podia ser tão cobiçável. Talvez estivesse na hora de colocar em palavras o que ela vinha pensando nos últimos dois dias.
— Lor’themar… — começou ela com cautela – Eu andei pensando sobre aquele fim de semana que você me prometeu…
Ele a encarou, com receio.
— Está receosa? Quer desistir?
— Não é isso. — respondeu rapidamente – Eu quero ir. Os planos estão de pé.
— O que é então?
Ash se desvencilhou dele delicadamente e o encarou.
— Tudo isso que aconteceu, com a Lux, com o Ted, me fez pensar… — ela suspirou – Fazemos planos, nos preparamos para uma coisa e a vida decide diferente… tivemos tanto cuidado com a Lux, tantos preparativos, e tudo aconteceu da forma que aconteceu.
Lor’themar não falou nada, deixou que ela continuasse.
— O que eu queri dizer é que tudo muda em um segundo e eu quero viver o máximo possível. — ela o encarou – Eu quero dormir com você. Hoje. Não quero esperar mais.
Esperou que ele protestasse, mas Lor’themar apenas perguntou:
— Tem certeza?
— Tenho.
Lor’themar se levantou e estendeu a mão para ela.
— Vamos. — convidou.
Ash estendeu a mão, segurou a dele e levantou-se. Entraram na torre, passando por convidados que se divertiam e seguiram para a ala mais afastada, onde ficavam os quartos. Subiram as escadas em silêncio, o coração de Ash acelerado no peito e a expectativa no ar. Quando a jovem percebeu que iam em direção ao seu quarto, ela parou. Lor’themar virou-se e olhou-a, intrigado.
— No meu quarto não. — falou – No seu.
— Tudo bem. — concordou ele.
Continuaram andando, até chegar no quarto do lorde regente. A essa altura, o nervosismo de Ash estava nas alturas e suas mãos suavam, geladas. Entraram no quarto e Lor’themar soltou sua mão, virando-se para trancar a porta. Ash, que nunca tinha entrado no quarto dele, olhou em volta, curiosa. Era um quarto bem masculino. A decoração era discreta e não tinha a mesma pompa que o quarto dela e das irmãs. A escrivaninha estava entupida de papéis, mostrando que o lorde regente não trabalhava apenas no escritório. Se perguntou se agora, com sua irmã rainha, ele trabalharia menos.
Ash observava tudo quando Lor’themar se aproximou, por trás dela, suavemente. Afastou carinhosamente o cabelo dela do pescoço e beijou-o. Ash estremeceu, surpresa e desejo misturando-se em seu corpo. A boca de Lor’themar dava delicados e curtos beijos por sua pele. A jovem elfa suspirou e gemeu baixinho quando ele mordeu o lóbulo da orelha. As mãos dele seguraram sua cintura e subiram, lentamente, até seus seios, apertando-os delicadamente enquanto puxava-a para mais perto de si. O suspiro de Ash foi delicadamente abafado quando Lor’themar, finalmente beijou sua boca.
Sedenta por ele, Ash virou-se e o abraçou. Lor’themar estreitou o abraço, apertando-a junto a si, enquanto sua língua explorava a boca dela. Suas mãos acariciariam as costas, descendo por sua extensão, até chegar no traseiro. Apertou-o e suspendeu a jovem, que passou as pernas nos quadris dele, sem parar o beijo. Lor’themar então levou-a em direção da cama e deitou-a, sem soltar-se dela nem um momento. Ash continuava com as pernas passadas no quadril dele e Lor’themar pressionou seu corpo contra o dela, a ânsia e o desejo borbulhando em ambos. Por isso, quando ele interrompeu o beijo, ela soltou uma exclamação de frustração.
— Calma, pequena Ash… — murmurou ele sorrindo maliciosamente – Nós nem começamos ainda.
Para a surpresa da elfa, ele a soltou e levantou-se. Sorrindo, o elfo começou a desabotoar os botões do colete que usava. Ash assistiu, fascinada, enquanto ele tirava a parte de cima da roupa, vendo pela primeira vez o peito definido de Lor’themar. Quando estava apenas de calça, ele segurou delicadamente o pé dela e tirou o sapato de um deles. Então, beijou o pé dela, delicadamente, passando a língua entre os dedos. A respiração de Ash estava acelerada enquanto ele tirava o outro sapato e o beijava o outro pé. Depois, ele deitou-se por cima dela mais uma vez, afastando delicadamente suas pernas e pressionando seu sexo contra o dela. Ash arfou e o abraçou com força, ansiosa.
— Shhh… — murmurou no ouvido dela – Vamos com calma, pequena Ash.
Ele levantou-se novamente e, para a surpresa dela, estendeu a mão. Ash segurou na mão dele e ele a ajudou a se levantar. Depois, virou-a de costas e puxou a ponta da fita do laço que prendia o corpete. Os batimentos do coração dela estavam tão rápidos que Ash sentia suas batidas em seus ouvidos. Lor’themar tirou a toda a fita do corpete e seu vestido simplesmente escorregou por seu corpo. Ele virou-a e encarou seus olhos.
— Tão linda… — murmurou enquanto passava a mão por seus seios nus.
O latejar no meio das pernas dela estava tão forte que chegava a doer. Mas ele não tinha pressa. Acariciou o corpo dela lentamente, explorando cada pedaço de pele virgem com as mãos e depois com a boca, enquanto a elfa deixava-se afogar naquelas sensações. Depois de tê-la despido por inteiro, ele deitou-a novamente. Continuou percorrendo seu corpo com a boca lentamente, até que chegou ao seu sexo. Ash prendeu a respiração quando ele finalmente toco-a lá. Primeiro, ele passou o dedo acariciando-o. Depois, abriu o sexo com delicadeza e passou a língua por ele uma, duas, várias vezes. Ash gemia, segurando os lençóis da cama com força, os pés se contorcendo no vazio enquanto ele continuava com as carícias. Quando ele colocou um dedo dentro dela, arfou.
— Dói? — perguntou ele e Ash mal o ouviu por causa do latejar em seus ouvidos.
— Não… — murmurou quase inaudível.
Lor’themar continuou acariciando com a língua seu clítoris, enquanto a penetrava devagar com um dedo. Depois, colocou mais um. Ash gemeu mais alto e dessa vez, se retesou, com uma pontada mais aguda.
— Dói? — perguntou ele novamente.
— Um pouco. — admitiu.
— Vamos devagar então… — disse.
Ele continuou com a língua, enquanto delicadamente com os dedos ia penetrando-a, preparando-a para mais. Quando ele finalmente pois os dois dedos dentro dela, Ash já quase não sentia dor. Ele então tentou com três. Ela deixou uma exclamação de dor escapulir de sua boca.
— Desculpe…. — murmurou acariciando suas coxas.
— Continue… — pediu ela.
— Tem certeza? — perguntou.
Ela levantou a cabeça e o encarou, um misto de desejo e raiva.
— Continue! — ordenou.
Lor’themar sorriu e atendeu o desejo.
Enquanto colocava os três dedos delicadamente dentro dela, ainda com a língua em seu clítoris, Ash pensava que morreria de ansiedade, prazer e frustração. Queria mais, queria-o dentro dela logo, rápido, queria que aquele latejar parasse, que tudo acontecesse, rápido, com dor ou sem dor. Mas seu desejo não era atendido, por mais que ela gemesse, se remexesse ou implorasse. Lor’themar continuava devagar, calmo, como se explorasse uma região perigosa e não uma região desejada. Talvez fosse ambos. Perigosa e desejada. E antes que conseguisse terminar o processo com os dedos, Ash sentiu que não aguentava mais. Seu corpo estremeceu, o clímax partindo de onde a língua de Lor’themar acariciava e fez seu corpo todo estremecer. O elfo sorriu, feliz por proporcionar aquelas sensações para sua amada. Ash gritou, segurou com força a cabeça dele, apertando-o entre suas pernas, enquanto tremia dos pés à cabeça.
Quando a sensação se acalmou, ele tirou os dedos de dentro dela e subiu por seu corpo, respirando fundo, como se tivesse acabado de voltar de uma corrida. Sorriu. Começou a passar então sua língua pela barriga dela, entre seus seios, até chegar à boca e beijá-la. Ash arfava por entre os lábios dele, as mão dela, calejadas dos treinos, percorrendo as costas dele. Chegou ao cós da calça e começou a procurar o botão para abri-la. Lor’themar riu.
— Espere… — murmurou no ouvido dela.
Ele escorregou par ao lado e deitou-se de costas na cama. Ash então sentou-se e o encarou. Sentiu o rosto ficar vermelho, percebendo que era a primeira vez que ele a via nua. A mão dele se ergueu no ar e caricou seus seios novamente. Controlando o tremor dos dedos, Ash desabotoou a calça dele e a abaixou. O membro dele praticamente pulou de ansiedade quando se viu livre. Ela prendeu a respiração, admirando o membro dele. Agora estava um pouco receosa. Se os dedos dele já causaram aquela sensação, o que o membro faria?
— Por que não o toca? — sugeriu Lor’themar acariciando o cabelo dela.
Ash acatou a sugestão e o tocou. Lor’themar gemeu. Ela soltou-o por um momento, mas depois continuou. Ele colocou a mão em cima da dela e a mostrou como fazia o movimento. Ash então fez o gesto várias vezes até que, num impulso, aproximou o rosto dele e passou a língua no membro. Lor’themar gemeu alto, da mesma forma que ela fizera antes. Sentindo-se mais confiante, ela passou a língua por ele de novo e de novo, até que tomou coragem e o colocou na boca. Lembrou das coisas que suas irmãs muitas vezes falaram sobre aquilo e começou a fazer movimentos com a língua no membro dele. Lor’themar gemia e segurava a cabeça dela, os dedos metidos nos cabelos dela, apertando a cada vez que ela aumentava os movimentos com a boca. E quando ela menos esperava, ele gritou mais alto e um jato quente encheu a boca dela. A jovem elfa, pega de surpresa, engasgou, o líquido escorrendo por seu queixo, enquanto ele mantinha a cabeça dela lá. O líquido era amargo e também e escorreu por sua garganta. Ele então, a soltou.
— Desculpe… — murmurou sentando-se também enquanto ela tossia – Eu…. Eu acho que perdi um pouco o controle.
Ela tossiu mais um pouco e Lor’themar usou sua camisa para limpar o queixo dela.
— Tudo bem… — murmurou ela — Eu quase esmaguei sua cabeça com minhas coxas….
Lor’themar gargalhou.
— Estamos quites então.
Ela o olhou sem jeito.
— T-tem um gosto esquisito… — admitiu corando absurdamente.
Lor’themar achou-a a coisa mais linda do universo naquele momento.
— Imagino que sim. — ele a puxou para um beijo, mas ela afastou a cabeça.
— Não tem nojo? — perguntou surpresa.
— Por que teria? — perguntou – É parte de mim. Como minha saliva e meu sangue. E agora, está dentro de você… — ele baixou a voz – E em breve estará de novo.
Ash corou mais ainda e deixou-o beijar sua boca.
Lor’themar a deitou novamente, ficaram lado a lado e ele retomou as carícias. Ele a tocou, beijo-a, sentiu-a contra seu corpo, até que estavam prontos novamente. Ela estava úmida e ele, ereto. O elfo então deitou-se por cima dela, abriu delicadamente suas pernas e encarou-a, esperando o pedido para parar. Ash murmurou:
— Eu quero….
Lor’themar atendeu seu pedido.
Mas não imediatamente.. Da mesma forma que ele fizera antes, foi devagar, colocando-se aos poucos, parando cada vez que ela fazia uma careta de dor. Beijavam-se, acariciavam-se, murmuravam juras de amor a cada tentativa. Lor’themar não tinha pressa; esperara muito tempo e esperaria toda uma eternidade. Queria pronta para ele, quando ela realmente estivesse. Mas Ash não tinha a mesma paciência. Cada vez que el tentava penetrá-la, ela senti a ador, mas não queria que ele parasse. Empinava o quadril, implorando para que ele finalmente acabasse com a ansiedade, mas Lor’themar não atendia seus desejos. E quando ele finalmente rompeu sua barreira, que uma dor fina fez-se sentir, Ash percebeu que não era tão grande quando esperava. E agora, livre, Lor’themar se mexia dentro dela, sem deixar de beijá-la, devagar e depois mais rápido. A dor não parou, mas Ash nem a percebia. Só conseguia sentir o prazer de tê-lo dentro dela, as emoções em ebulição, os corpos roçando um no outro. E quando o clímax veio pela segunda vez foi diferente, mas igualmente intenso. Ele aumentou a velocidade e logo estava derramando-se dentro dela, murmurando palavras no idioma antigo de seu povo, palavras que ela não entendia muito bem e só conseguia entender sue nome sussurrado entre elas.
Ficaram então, abraçados, Ash sentindo um líquido escorrer dentre suas pernas, mas não importava. O que importava era que estava nos braços daquele que amava, sabendo que ele a amava também e que, por aquele dia, nada, nenhuma guerra ou ameaça poderia tirar a paz que alcançaram nos braços um do outro.
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A última coisa que Lina imaginava que veria era Arshe cair no choro assim que entrou com Doroteya em seu quarto. Esperava encontrá-la um pouco chateada, brava talvez, mas não em prantos. Olhou para Doroteya que estava tão surpresa quanto ela. A druidesa lhe dissera anteriormente que Arshe havia chorado e ficado muito mal com o que lhe acontecera, mas achou que aquela altura, a maga já estivesse mais calma. Estava enganada, pelo visto.
Caminhou até onde a princesa estava sentada, se acomodou na cadeira ao lado e passou a mão em seu ombro, puxando-a para perto.
— Está tudo bem. — disse confortadora – O pior já passou.
A dor que Arshe sentia, contudo, estava além do que Lina poderia imaginar. Estava além do atentado contra a amiga que nunca tivera e agora fazia parte de sua vida como se sempre lá estivesse. Era a sensação de que aquilo fora sua culpa. Era insano pensar isso, claro. Como poderia evitar aquilo de acontecer? Porém, a sensação persistia. Como se ter dormido com Kayliel tivesse desencadeado aquela situação, de alguma forma. Como se fosse a Luz lhe mostrando que haveria um preço a ser pago por sua traição. E aquilo era assustador.
Sentiu o braço reconfortador de Lina em seus ombros e sabia que não poderia esconder. Não de Lina. Olhou para os lados, onde sua serva esperava pacientemente por ordens e soube que não poderia conversar na bastilha. Não com tantos ouvidos por perto.
— Podemos ir para sua casa? — pediu a princesa com a voz rouca – Quero sair um pouco da bastilha.
— Claro! — concordou a comandante – Ainda estou de folga.
— Podemos almoçar lá em casa. E depois, faço um bolo para comermos com chá no final da tarde. — sugeriu Doroteya tentando animar a princesa – Estou com morangos frescos, posso fazer uma calda para acompanhar, o que acha?
Arshe sorriu timidamente e acenou com a cabeça.
Logo estavam a caminho da casa de Lina, com um silêncio pesado rondando-as. Arshe não queria falar enquanto não chegasse lá. Esperava que, depois do almoço, as crianças fossem cochilar e elas pudessem conversar. Não sabia como contar o que acontecera a Lina e ela, com certeza, ficaria muito chateada. Talvez gritasse com ela. Talvez até batesse nela. E Arshe sabia que merecia. Só esperava que Doroteya intervisse e ela não levasse tantas bofetadas de Lina.
Só que assim que chegaram na casa da comandante, uma carroça postada na porta alertou que algo não estava bem. No mesmo instante que apearam, ouviram uma gritaria dentro da casa. Pandora gritava com alguém e uma voz grossa lhe respondeu. Lina ficou lívida de raiva, pois reconheceu o dono da voz.
— Varão! — exclamou antes de entrar na casa correndo.
Arshe a acompanhou e restou para Doroteya amarrar os animais na varanda.
Dentro da casa, o clima era pesado. Tommy tentava conter o irmão mais velho, que segurava com força o braço da filha. Theo estava assustado, quase encolhido atrás da cadeira de Pietro, que chorava compulsivamente.
— Pode ir soltando a menina, Varão! — foi dizendo a comandante ao entrar na casa.
O desprezo com que o homem encarou a irmã só poderia ser comparado com o que Crowe a olhara antes, pensou Arshe. Como poderia ele encarar a própria irmã assim?, pensou a princesa aturdida.
— Quem lhe deu o direito de manter minha filha aqui, Quengacilina? — o nome foi dito de forma a ofender, sem dúvida. Porém, Lina o encarou sem se abalar.
— Não estou mantendo ninguém aqui. — disse com seriedade – Pandora e Pietro— ela enfatizou o nome do menino – estão aqui porque é o melhor para eles.
— O lugar dela é na fazenda, me ajudando! — falou o homem sacudindo a filha pelo braço.
Foi Tommy quem segurou a mão do irmão e soltou Pandora, que rapidamente foi para o lado do irmão, em atitude protetora.
— Certo, vamos nos acalmar aqui. — pediu Tommy em voz conciliadora – Varão, pare de gritar, você está assustando as crianças. Lina, solte a arma, ok? Mamãe não vai gostar se mandarmos Varão para casa com buracos de bala.
Lina nem havia se tocado que segurava o cabo da espingarda com tanta forma que os nós de seus dedos estavam brancos. Soltou a arma e mexeu os dedos, irritada. Arshe assistia a tudo, com os olhos arregalados, já esquecida dos próprios problemas.
— Certo, agora vamos sentar e conversamos como os adultos que somos. — continuou o engenheiro.
— Não. — disseram Lina e Varão ao mesmo tempo.
Tommy suspirou.
— Certo, mas não há necessidade de nos exaltarmos.
— Dessa vez você não vai livrar a cara dessa aí não. — grunhiu Varão apontando para Lina – Ela foi longe demais!
— Por que? — desafiou Lina – Por deixar as crianças num ambiente muito melhor e com mais oportunidade que a fazenda?
— Se quer brincar de ‘mamãe’, vai fazer seus próprios filhos! — gritou o homem.
— A questão aqui não é essa e até um imbecil como você deve ter percebido. — devolveu a comandante no mesmo tom – Pandora precisa de um direcionamento na vida, ela não quer ficar presa ao vinhedo pelo resto da vida como você! E Pietro precisa de tratamento adequado!
— Você pode ficar com esse daí se quiser, mas Pandora vai pra casa.
O rosto de Lina ficou rubro de fúria enquanto Pietro apenas chorava baixinho.
— “Esse daí” é seu filho também, infelizmente. Ele merecia um pai muito melhor! — gritou Lina dando dois passos na direção do irmão.
Varão recuou, mas manteve a expressão de raiva no rosto. Doroteya entrou naquele momento, mas já ouvira toda a confusão do lado de fora. Na verdade, acreditava que toda Ventobravo estava ouvindo a discussão. Fez uma rápida avaliação da situação e deslizou na direção das crianças, pronta para tirá-los da sala. Quando falou baixinho para que Pandora e os meninos lhe acompanharem para o quintal, a fúria de Varão se virou contra ela.
— Quem é você para tirar minha filha daqui?! — gritou para a druidesa.
Antes que Tommy ou Lina fossem em defesa de Doroteya, essa se transformou em worgenin e avançou para cima de Varão, mordendo o ar a poucos centímetros do nariz dele. O homem empalideceu e perdeu a voz. Depois, ela deu um passo para trás e voltou a sua forma humana.
— Vamos crianças. — disse Doroteya calmamente – Vamos para o quintal. — e encarando Arshe, chamou – Venha também, Arshe.
Doroteya não precisou repetir o convite. A princesa passou rapidamente no meio da confusão e acompanhou-os. Varão não se opôs.
Quando restou apenas Lina, Varão e Tommy na sala, este último recomeçou a falar, em sua voz tranquila, esperando conter seus irmãos de extremos: o mais velho e a mais jovem da família, que se encaravam com um rancor mútuo sem igual:
— Vamos conversar agora com calma. — iniciou – Já que Doro e Arshe saíram com as crianças. — deu uma pausa esperando que seus irmãos dissessem alguma coisa. Como não disseram, continuou – Podemos resolver tudo sem precisarmos causar mais estresse nas crianças e sem necessidade de piorarmos as nossas relações.
— É muito simples resolvermos isso. — começou Varão – Eu vou levar Pandora para casa e pronto.
Lina abriu a boca para protestar, mas Tommy fez um gesto pedindo que ela aguardasse.
— Você parece bem resolvido em levar apenas ela, Varão. — disse Tommy seriamente – E Pietro? Ele também é seu filho e também está aqui.
Varão pigarreou, constrangido.
— Talvez vocês tenham razão e seja melhor ele ficar. — disse o homem.
— Hipócrita. — sibilou Lina.
— Olha, eu não tenho a vida fácil de vocês! — explodiu Varão – Vocês ficam aqui na cidade no bem-bom e...
— No bem-bom?! — Lina se exaltou – Eu trabalho duro, mais do que você! Sua vida depende do que eu faço aqui, idiota!
— Ora, sua…
Tommy suspirou. Era como tentar controlar dois búfalos selvagens.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Chega vocês dois! – disse elevando um pouco a voz e os dois calaram – Varão, Lina errou em deixar os meninos ficarem sem sua autorização, é verdade. — Lina o olhou feio e ele ignorou – Mas ela está certa em te lembrar que você tem dois filhos e não só um aqui! É óbvio que seu interesse em levar Pandora é muito mais para lhe poupar trabalho que por amor paternal. — Varão abriu a boca para se defender, mas Tommy o interrompeu – Eu não terminei ainda. — Varão fechou a boca e Tommy continuou – Pandora e Pietro são seus filhos. Ele depende mais dela do que você! Se for para levar, você vai levar os dois! Mas, reflita, vale a pena mesmo? Você sabe como Pandora é. Você realmente imagina que ela vai continuar fazendo o trabalho da mesma forma e com o mesmo cuidado de antes?!
— Se não fizer, apanha! — disse o homem engrossando a voz.
Tommy deu uma risada.
— E você acha realmente que a mamãe vai deixar você levantar a mão contra uma das netas mais querida dela? Quem apanhará é você!
Varão não havia considerado a ideia e calou-se.
— Deixe os dois aqui. — pediu Tommy com a voz mais mansa – Você não terá mais nenhuma despesa com Pietro nem com Pandora. Nós vamos sustentá-los. Isso cobre o trabalho de Pandora que te dava lucro, não?
— Bem…. É. — admitiu o outro a contragosto.
— E vocês não precisam ficar se preocupando com a piora do estado de saúde de Pietro. Cuidaremos dele. — concluiu o engenheiro.
Sem nenhum outro argumento, o primogênito dos Wood ainda quis se passar por durão:
— Tudo bem. Vou aceitar, mas só porque você tá pedindo e não ela. — e apontou para Lina, que trincou os dentes.
— Muito obrigado por ser tão compreensível, irmão. — falou o outro em um tom exageradamente compassivo. Lina revirou os olhos.
Tommy então conseguiu despachar o irmão rapidamente, sem que este fosse sequer em busca dos filhos novamente. Quando a carroça de Varão partiu, levando-o sozinho, Lina ainda estava de braços cruzados e maxilar travado, controlando a raiva.
— A sorte dele é que Doro é a worgenin e não você. — brincou Tommy tentando deixar a irmã mais à vontade.
— A sorte dele é que mamãe ainda o ama. — resmungou indo em direção ao quintal.
No quintal, Pandora ainda estava com o rosto rubro de raiva e alisava o braço onde o pai havia apertado. Doroteya consolava Pietro com sua voz doce e o menino já parara de chorar. Theo e Arshe olharam para Lina e Tommy assim que eles entraram, ansiosos por notícias.
— Aquele imbecil já foi embora. — avisou Lina secamente.
— Lina, não fale assim. Ele ainda é nosso irmão. — falou Tommy.
— Certo. Aquele imbecil do meu irmão já foi embora. — corrigiu ela arrancando uma risadinha de Tommy, que logo ficou sério.
— Ele vai voltar? — perguntou Pandora preocupada.
A jovem não havia chorado em nenhum momento, mas suas mãos tremiam enquanto ela mantinha a voz calma. Estava se esforçando muito para não deixar seu irmão perceber o medo que sentiu quando o pai aparecera e quase a arrastara de volta a fazenda.
— Espero que não. — falou Lina apertando os olhos – Se vier, vou receber ele na bala.
— Ninguém vai atirar em ninguém porque ele não vai voltar. — disse Tommy para alegria dos sobrinhos – Conversei com o pai de vocês e entramos em um acordo. Vocês dois vão ficar.
Pandora levantou e abraçou o tio com força, segurando as lágrimas de alívio. Se tivesse sido obrigada a voltar para a fazenda, era possível que logo, logo aparecesse de novo em Ventobravo, fugida, igual sua tia fizera no passado.
— Obrigada, tio Tommy! — agradeceu ela – Por ter convencido meu pai!
— O crédito é dele mesmo. — disse Lina se aproximando de Pietro – Se fosse por mim, você teria ficado sem pai em vez de conseguir uma autorização.
— Isso não seria de todo ruim. — disse a menina chateada.
— Não fale assim, Pandora. — pediu Doroteya – Ele ainda é seu pai.
— Preferia mil vezes que não fosse! — reclamou a jovem.
Pietro continuava calado e Lina se abaixou-se para ficar na altura dele. Sabia que o menino sentira mais que medo de voltar para a fazenda; sentira o desprezo do pai por sua condição física. Estava óbvio, que tanto Varão quanto a esposa, o consideravam um fardo e que isso contribuía para que o estado do menino piorasse. Mas ali, Lina tinha certeza, Pietro recebia todo amor e carinho que precisava.
— Pietro… — começou ela passando a mão no rosto dele – Você é um menino maravilhoso. Não se deixe afetar pelo que o imbecil do seu pai fala.
— Ele me odeia, tia… — murmurou Pietro com os lábios, tremendo – Me odeia por eu ser aleijado.
— Querido, seu pai é um cuzão. — A comandante falou aquilo suavemente, arrancando risadas dos sobrinhos – Veja bem, ele também me odeia e eu não tenho a mesma condição física que você. Seu pai odeia quem ele não consegue controlar, essa é a verdade. Você não é o único privilegiado com o ódio dele.
— Mas eu sou filho dele. — disse o menino.
Lina engasgou, sem conseguir encontrar uma resposta. Olhou para Doroteya, pedindo socorro.
— Pietro. — Começou a druidesa – Você sabia que eu fui abandonada ainda bebê na floresta?
— Foi? — perguntou o menino surpreso.
— Fui sim. Fui deixada para morrer. Pelos meus pais. — ela pegou na mão dele – A grande verdade é que uma ligação de sangue não garante uma ligação do coração. E, me diga, qual das duas você acha que vale mais a pena cultivar?
O menino lhe deu um pequeno sorriso.
— A do coração.
— Exato. — Doroteya acariciou seu cabelo – Por que vocês não vão dar uma volta nos canais enquanto eu e sua tia fazemos o almoço? Tommy vai com vocês e traz assim que vocês estiverem famintos, que tal?
— Acho uma excelente ideia. — disse Tommy – Todos nós precisamos de um ar fresco. Venham crianças. — e diante do olhar franzido de sua sobrinha, corrigiu – Vamos, crianças e Pandora.
E eles foram, deixando Arshe, Doroteya e Lina para trás.
As três foram pra cozinha. Arshe, que não sabia nem ferver água, ficou sentada com um copo de refresco à sua frente, enquanto Lina auxiliava Doroteya na cozinha. A comandante e a druidesa estavam falando sobre a situação vivenciada anteriormente, com Lina xingando o irmão mais velho enquanto Doroteya expressava sua preocupação com Pandora e Pietro, até que, do nada, Arshe falou:
— Eu dormi com Kayliel durante o baile.
Um silêncio sepulcral se fez enquanto Doroteya e Lina viraram suas cabeças na direção da princesa, que mantinha seus olhos focados no copo à sua frente.
— Como é? — disse Lina achando que ouvira coisas.
— Eu dormi com Kayliel. — repetiu com um pânico crescente na voz – Fiz sexo com ele. Fiz amor. O que quer que vocês chamem, mas eu fiz.
Lina, que estava cortando cenouras, parou no meio do processo. Arshe fechou os olhos e se encolheu, esperando a bofetada. Só que Lina não fez aquilo que a princesa esperava. A comandante lavou as mãos, enxugou em um pano de prato, foi até a dispensa, voltou com uma garrafa e três copos pequenos, colocou-os sobre a mesa, encheu os três, pegou um e tomou uma dose rápida de um líquido transparente. Fez uma careta, olhou diretamente para Arshe e falou:
— Beba. — disse apontando o copo – E conte tudo.
— E-eu… — gaguejou a maga.
— Beba! — ordenou Lina.
Arshe pegou o copo e tomou tudo de uma vez. O líquido desceu rasgando na garganta dela, que fez uma careta. Sentiu um calor subindo em seu corpo, o rosto em chamas e encarou a amiga. Lina estava séria e colocava mais bebida no copo de ambas.
— Doro? — chamou Lina apontando o copo.
— Você sabe que eu não bebo, Lina. — lembrou a druidesa.
Lina então virou o copo de Doro e encheu de novo.
— Vá falando. — disse para Arshe.
Arshe começou a contar. Enquanto falava ansiosamente tudo que acontecera, era observada pelas duas amigas. Sua ansiedade provavelmente tinha mais a ver com o fato de Doroteya continuar cozinhando calmamente enquanto a outra falava e Lina beber mais duas doses e a encarar com seus olhos verdes vibrantes de raiva. Depois de tomar três doses e não conseguir conter mais nenhuma palavra, falando em como se sentia sozinha, como tinha inveja das duas que tinham conseguido seus amores, em como temia a solidão, em como se sentia culpada por fazer sexo com Kayliel enquanto Lina quase morria, em como se sentia miserável por tudo. Arshe falou e falou. Falou tudo que sentia. E quando terminou, esperou.
Lina não estava surpresa com o desenrolar dos acontecimentos. Nem um pouco. Sabia que havia um perigo imenso em deixar Arshe ir sozinha para aquele baile. Sabia que, se o elfo estivesse lá, ela seria tentada. E, pela Luz, daquela vez Lina não estava feliz em estar certa. Olhou para a amiga a sua frente, o rosto de Arshe rosado por causa da bebida, e não sentiu raiva. Sentiu apenas tristeza. Sim, tristeza, pois, mesmo com seu título e sua posição, ela não podia ficar com quem amava. Como Lina.
— E o que você pretende fazer? — perguntou a comandante calmamente.
Arshe piscou os olhos várias vezes, surpresa.
— Você não vai me bater? — perguntou abismada.
Lina deu uma gargalhada.
— Vontade não me falta. — admitiu – Mas não, não vou te bater. Só quero saber o que você fará a partir de agora. Preciso lhe acobertar, não é mesmo?
— V-você… — murmurou Arshe com os olhos se enchendo de lágrimas.
— Sem choro. — ordenou Lina enchendo mais uma vez seu copo – Você é minha amiga, não é? Quase irmã? Que tipo de pessoa eu seria por te negar essa felicidade? — ela deu de ombros – Você trepar com esse elfo não vai pôr nem a Aliança, nem Ventobravo em perigo. Então é melhor que alguém com cérebro mantenha seu pescoço no lugar.
Arshe caiu no choro e Lina suspirou. Doroteya, que continuava a fazer o almoço calmamente, foi até a mesa, tirou a bebida da mão de Lina, que não protestou, e guardou na despensa. Depois, encheu três xícaras com chá e colocou na mesa. A comandante franziu o cenho, mas bebeu; era melhor não estar de porre no dia seguinte. Arshe, contudo, continuou chorando e só quando o choro arrefeceu, ela tomou um gole do chá e murmurou:
— Ele me chamou para fugir com ele.
Doroteya e Lina se entreolharam antes da comandante perguntar:
— Você vai?
— Eu quero ir. — confessou – Mas não quero deixar vocês.
As duas sorriram.
— Nós vamos te apoiar em qualquer que seja sua decisão. — garantiu Lina – E vou fazer com que Varian e Anduin entendam.
— Eu também te apoiarei. — disse Doroteya – A única coisa que eu peço é que você fique para meu casamento.
— Casamento?! — surpreendeu-se Arshe.
Doroteya sorriu, encabulada, e mostrou o polegar com o anel de Fey.
— Tommy me pediu em casamento…
— Obrigado por Theo… — complementou Lina.
— E quero que você seja uma das madrinhas. Fey e Mel querem que cerimônia seja em, no máximo, três meses. — Conclui Doroteya – Se você puder fazer isso, eu ficarei feliz. Se não, eu entenderei.
Além de ficar extremamente feliz, Arshe sentiu também sua tristeza aumentar. Era uma contradição angustiante, mas era o que sentia. Sentia-se tão feliz por Doroteya, ao mesmo tempo que se sentia tão miserável por si mesma! Ainda assim, sorriu e pegou na mão na druidesa, apertando-a com gentileza.
— Claro que ficarei para seu casamento Doro! Já esperei tantos anos por Kayliel, o que custa esperar um pouco mais? Eu ficarei honrada em ser sua madrinha sim! Mas, com quem eu vou entrar?
Doroteya deu uma risada.
— Fey e Mel estão disputando quem vai entrar com você. — contou.
— Eu ficarei com o que sobrar. — revelou Lina.
— Vou também enviar uma carta para Rosa e Lasciva. — continuou a druidesa – Elas vão ficar bem surpresas. E felizes, espero. Elas vão ser minhas madrinhas também.
— E vou avisando que Fey e Mel contam com sua ajuda para organizar as coisas do casamento! — falou a comandante antes de beber mais chá – Eu preferia isso aqui com vodka, mas tá bom assim.
A angústia e o medo ainda estavam lá, mas Arshe sentiu-se um pouco melhor. Esperava encontrar resistência, dor, gritos e até violência, mas Doroteya e Lina entenderam seu ponto de vista sem nem que ela precisasse explicar-se. Era assim então uma amizade verdadeira, se perguntou. Só que era mais, muito mais. Não era apenas amizade. Era irmandade. Elas eram irmãs de alma. E com esse pensamento, Arshe entendeu o quão doloroso seria deixá-las para trás. Como seria difícil não viver sua vida com a presença delas. Esticou a mão por cima da mesa e segurou a de Lina. A comandante sorriu e apertou a mão dela. Doroteya colocou a mão por cima das duas e as três sorriram, sorrisos cúmplices de uma felicidade ainda não vivida e de uma separação não tão distante.
Arshe se perguntou se, quando chegasse a hora, teria coragem de soltar aquelas mãos definitivamente.
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Pandora passou o delineador ao redor dos olhos, destacando o verde da sua íris. Da porta do banheiro, Lina observava a sobrinha se arrumando cuidadosamente para a visita a Dalaran.
— Tem certeza que você não está indo se encontrar com alguém? — perguntou a comandante maliciosa.
— Tem certeza que não tem nada melhor para fazer do que se meter na minha vida? — rebateu Pandora.
— Tenho. — respondeu Lina com suavidade.
A jovem revirou os olhos.
— Por acaso não posso me arrumar para curtir meu aniversário? — criticou a jovem continuando a arrumação.
— Claro que pode. Só que nunca te vi tão empenhada em parecer mais atraente.
Pandora a encarou através do espelho e franziu o cenho.
— Você é um porre, tia.
— É um dos meus charmes.
Era aniversário de dezesseis anos de Pandora. Um mês separava aquele dia dos eventos do casamento de Lady Cláudia e muita coisa havia acontecido naquele curto período de tempo. A reforma da casa começara. Inicialmente, a família conviveu com as batidas e o incômodo da obra, mas não demorou para Theo e Pietro adoecerem por conta da poeira. Rapidamente, Lina alugara uma casinha pequena para que ficassem lá até o fim das obras. O problema era que lugar era pequeno e apertado e não demorou para todos estarem estressados. Quem salvou a família de se matar foi Lady Cláudia, que soube do problema e ofereceu, de graça, a casa dos Hightower em Ventobravo para que ficassem até o fim da reforma. Aliviados, os Wood se mudaram e as coisas se acalmaram.
E a reforma andava de vento e pompa. Sem ninguém morando na casa, Tommy abriu todo o teto e começou a construir o novo andar. Como trabalhava sozinho a maior parte do tempo, fazia tudo devagar, mas com o cuidado que só quem amava aquela casa poderia ter. Depois de uns dias, os irmãos o convenceram a contratar duas pessoas para ajudar e Tommy acabou aceitando. As obras avançaram e a casa estava quase pronta.
Todos os dias, na hora do almoço, Doroteya saia da bastilha em forma de águia, ia até a casa onde estavam hospedados, garantia que as crianças almoçassem e levava o almoço de Tommy e dos empregados em uma trouxinha no bico. Tommy transbordava de felicidade sempre que sua noiva-águia pousava a sua frente, deixava o almoço, lhe dava duas bicadinhas carinhosas na cabeça e voava de volta para a bastilha. Aquilo lhe dava mais vontade de trabalhar e terminar a casa.
Tommy também decidira reformar o quintal. Refez os estábulos dos ajudantes de Lina, de modo a abrir mais espaço para o galinheiro que construiria. A horta pequena continuaria no mesmo lugar, mas o engenheiro decidira fazer um terraço em cima da casa, colocar um jardim suspenso e um pergolado, para que pudessem fazer reuniões, jantares ou apenas curtir a brisa que vinha do mar. A ideia foi aplaudida e seria colocada em ação assim que o novo andar fosse adicionado à casa.
Outro acontecimento marcante foi a chegada de Rubrarosa e Lasciva em Ventobravo. Doroteya havia mandado uma carta para as amigas, relatando sobre seu relacionamento com Tommy, o casamento vindouro e convidando-as para a cerimônia. Em vez de uma resposta por escrito, Doroteya teve a alegria de ver as amigas aportarem na capital da Aliança pouco tempo depois para revê-la e, claro, conhecer Tommy.
Interrogar Tommy seria a melhor forma de descrever, na verdade.
Rubrarosa e Lasciva sentaram-se com o engenheiro, sob o olhar apreensivo de Doroteya, e fizeram tantas perguntas e questionamentos que o homem tinha certeza que nem a AVIN faria melhor. E depois de horas daquela inquisição, Rubrarosa se deu por satisfeita.
— Ele não parece tão ruim. — dissera para Doroteya.
A druidesa tinha certeza que a amiga adorara seu noivo.
E como o casamento estava se aproximando, as duas decidiram ficar pela capital, o que deixou Theo muito feliz. Com a presença do casal, Pandora ficou menos ocupada para cuidar de Pietro, já que Lasciva adorara o menino e se ofereceu para ajudar enquanto a jovem começava seus estudos na Academia Militar de Ventobravo.
O problema foi que ela foi expulsa em poucos dias.
— Aproveite bem o dia de hoje, porque amanhã iremos na Academia conversar com minha amiga. Vou tentar te colocar lá de novo. — avisou Lina agora que a adolescente já estava pronta e passava perfume.
— A culpa não foi minha! — defendeu-se Pandora mais uma vez – Aquele professor era um porre.
— Você mandou ele enfiar a lança na bunda e sair quicando por Ventobravo. — lembrou a tia.
— Ele mereceu!
Lina suspirou e coçou a testa.
— Como você estava se dando bem com os outros professores, vamos tentar te remanejar de turma. Adélia me disse que só lhe dará essa chance por causa de sua pontaria fenomenal no arco. E por ser minha sobrinha, claro.
— Claro que é por ser sua sobrinha. — ironizou Pandora – Todo mundo ama a comandante super-fodona de Ventobravo!
Lina deu uma gargalhada.
— Nem todo mundo, mas as pessoas certas. O que me lembra do outro problema: seu professor particular.
— Podemos discutir isso quando não for meu aniversário? — perguntou a jovem se virando para a tia. Lina tinha que admitir, a sobrinha estava um espetáculo.
— Podemos, mas prefiro deixar tudo certo. — continuou – Depois que você quebrou a lança na cabeça do meu amigo…
— Ele mereceu! — defendeu-se a jovem.
— … E com os elogios de Adélia à sua pontaria, pensei se não seria bom providenciar um arqueiro para lhe ensinar. O que acha?
Pandora gostava mais de lanças, era verdade, mas também gostava de arcos. Na verdade, originalmente ela preferia arcos, mas o seu quebrara e seu pai não comprara outro. Então, ela improvisara uma lança com o cabo da vassoura da mãe e não soltara mais. Talvez fosse bom voltar à velha arma.
— A pessoa que você vai arrumar para me ensinar é o melhor? — perguntou.
— É uma das melhores sim, mas também é conhecida por sua paciência. — a comandante deu uma risada – Se você conseguir tirar Evie do sério, não conseguirá manter nenhum professor que eu lhe arrumar.
Pandora deu de ombros.
— Pandora, tá pronta? — ouviu Pietro gritando da sala.
— Tô!
Lina saiu do caminho e as duas foram até onde o menino esperava irmã, todo arrumado também e ansioso.
— Dalaran vai ser muito legal! — exclamou ele ansioso – Theo devia ir conosco!
Theo fez que não.
— Vou ver como a casa tá ficando! — disse o menino animado.
— Um dia Theo terá interesse de ir. — falou Lina passando a mão na cabeça do menino – Agora, vocês dois me ouçam.
Lina começou então a dar muitas recomendações para os sobrinhos, mesmo sabendo que eles não obedeceriam nem metade. Se obedecessem alguma. Depois, deu uma boa quantidade de dinheiro aos dois, afinal, era aniversário de Pandora, além de ser uma recompensa pelos maus bocados que os dois passaram. Pediu para que eles estivessem de volta ao anoitecer e que, qualquer problema, procurassem o Pacto de Prata para ajudá-los.
— Entenderam? — perguntou depois que terminou o monólogo.
— Entendi. — disse Pandora entediada. Pietro fez um ‘joinha’ com o polegar.
— Bom passeio para vocês então.
Cada um deles tinha uma Pedra do Regresso. A de Pandora os levaria até Dalaran e a de Pietro os traria de volta para casa. Eram temporárias, apenas para aquela viagem. Assim que se despediram da tia, Pandora usou a pedra dela e estavam os dois novamente na cidade flutuante.
— Uau! — exclamou Pietro – Tinha esquecido como era brilhante!
Daquela vez, os dois aportaram no Enclave Prateado, a base da Aliança em Dalaran. O local fora escolhido por Lina pois não tinha uma escadaria imensa na saída e facilitaria o acesso de Pietro. Assim que o ar ao redor deles parou de cintilar e que estavam realmente na cidade, o estômago de Pandora gelou. Olhou em volta, como se Halduron fosse aparecer bem ali do seu lado.
— Vamos passear? — perguntou o menino à irmã.
— Vamos.
Primeiro gastaria o dinheiro da tia e depois tentaria encontrar Halduron.
Daquela vez, os dois foram mais cuidadosos. Evitaram os esgotos, mas fizeram questão de tentar entrar algumas vezes no Santuário Fendessol e ficaram tontos. Era divertido. Após isso, passaram a visitar as lojas, onde o irmão dava dicas de como Pandora deveria gastar o dinheiro. A jovem achara que gastaria as moedas na primeira besteira que visse, mas acabou surpreendendo a si mesma pensando em como aproveitar bem aquela graninha extra.
— Por que você não compra um arco? — perguntou Pietro.
— Porque sei que vou ganhar um de tia Lina. — respondeu – Quero gastar o dinheiro com algo que ela acha um desperdício.
Como Tommy dissera a Varão, todas as despesas dos irmãos estavam sendo pagas pelos tios. Todos achavam que os gastos com Pietro acabariam sendo maiores mas, desde que chegaram a Ventobravo, o menino não adoecera. Exceto pela crise alérgica que compartilhara com Theo por causa do pó da reforma, estava saudável como não estivera desde a tenra infância. Lina gracejara dizendo que era a comida de Doroteya que era muito boa, mas Pandora achava que era o amor que o menino recebia. Antes, era apenas o da irmã e tinha que lutar constantemente contra todas as coisas que os pais diziam. Agora, era carinho e cuidado por todo lado, ao ponto que Pandora até sentia um pouco de ciúmes.
— Ai, não sei o que compro! — bravejou a jovem.
—Vamos olhar mais lojas! — sugeriu Pietro animado.
E assim fizeram. Pandora estava realmente na dúvida do que comprar para si mesma, já que para Pietro fora fácil: o menino pediu um tabuleiro de xadrez e acharam um bem baratinho de segunda mão. Procuraram mais um tempo até que a menina teve uma ideia: nunca possuíra uma joia antes. Será que o dinheiro que ganhara da tia dava pra comprar uma?
— Tive uma ideia. — falou – Venha.
A joalheira de Dalaran ficava numa esquina e, para variar, tinha muitos degraus. Depois do esforço para levar o irmão lá, começaram a olhar um mostruário. Desanimada, Pandora viu que tudo era muito caro. Teria que juntar o dinheiro de uns três aniversários para comprar algo.
— Desisto… — murmurou Pandora – Vamos embora…
— Ah, não! — exclamou Pietro – Ei moça, não tem nenhuma em promoção, não? Minha irmã tá fazendo aniversário hoje!
A elfa que os atendia sorriu educadamente para os dois.
— Infelizmente não. — disse.
— Eu tenho. — falou um homem no canto.
Os irmãos olharam e viram um humano vestido todo de roxo e cheio de joias. Ele acenou para os meninos, que se aproximaram.
— Boa tarde crianças, sou o Falcão joiado e trabalho com joias que precisam de conserto. — começou ele – Tenho um colar aqui que tento vender há um bom tempo, mas nem todo mundo gosta. Ele só precisa de um fecho novo, um polimento e ajustar o encaixe das pedras. — e tirou uma caixa de dentro de um balcão e mostrou a eles.
O colar era lindo. Dourado, com pedras vermelhas pequenas e elegantes formando um coração delicado. Estava sujo e um pouco amassado, mas rapidamente Pandora lembrou que seu tio Fey tinha um kit de joalheiro que poderia ser útil em ajeitar aquela belezura.
— Que lindo! — exclamou a aniversariante – Por que você não conseguiu vender?
— Bom, é uma joia élfica. Normalmente os elfos não gostam de coisas usadas, a menos que sejam de suas famílias. Esse aqui foi encontrado por um pescador e eu comprei. Mas nunca consegui passar adiante.
— Quanto é? — perguntou a jovem.
Ele disse o preço.
— Só? — espantou-se a menina.
— Como eu disse, está encalhado comigo há muitos anos.
— E porque você não consertou e vendeu? — Pandora se perguntava se o colar estava amaldiçoado ou algo assim.
— Mesmo que eu consertasse, e já me ofereci para fazê-lo, o mercado para uma joia élfica simples e usada é bem limitado. As elfas que vem aqui querem suas próprias joias, nunca a de outra pessoa.
— Tem certeza que não está amaldiçoado ou algo assim? — insistiu a menina.
Falcão Joiado deu uma gargalhada.
— Certeza, absoluta. Mas se tiver dúvida, posso chamar alguém para lhe garantir. Vai custar só um pouco mais.
Pandora pensou um pouco. Poderia pedir para Arshe verificar qualquer maldição, sem qualquer custo. Depois, ajustaria o colar com as ferramentas do tio e teria uma joia élfica. Pensou no que Halduron diria se a encontrasse usando uma joia de seu povo. Seu coração acelerou e ela decidiu.
— Vou levar!
— Uhull!!! — comemorou Pietro.
Feita a devida negociação, Pandora saiu com a joia de Dalaran com a garantia de que, se tivesse amaldiçoada, ela poderia ter o dinheiro de volta. Mas sabia que não estava. Só teria um pequeno trabalho para deixá-la novinha em folha. Claro, preferia sair com ela dali no pescoço e mostrar quando encontrar Halduron, mas ainda poderia abrir o pacote e mostrar a ele sua ideia quando o encontrasse, não era? Sorriu ao pensar nisso.
— Ainda temos um dinheirinho, dá para fazer uma extravagância. — disse ao irmão.
— Então vamos comer! — exclamou Pietro.
Uma vez sua avó dissera que dinheiro bem gasto era dinheiro gasto com comida e os dois colocaram isso em prática. Foram até a taverna onde haviam almoçado da última vez com Halduron e olharam o cardápio. Pediram o que parecia ser mais chique e mais caro. Se arrependeram, pois nenhum gostou do que veio. Se obrigaram a comer, mas riam cada vez que o outro fazia careta. Depois, quando a garçonete soube que Pandora fazia aniversário, deu um pequeno bolo de cortesia, todos cantaram parabéns para ela, e ainda ganharam desconto. Acabaram pedindo outro prato, mais simples mas que ambos adoravam, comeram até ficarem muito cheios e finalizaram com o bolo. Saíram da taverna rindo muito.
— Comida chique não é legal. — falou o menino seriamente.
— Verdade. — concordou Pandora — Da próxima vez, pedimos o que gostamos mesmo.
— Vamos para onde agora?
— Olhar todas as lojas e comprar besteiras até o dinheiro acabar.
O que Pandora realmente queria era ver Halduron. Aquele seria o melhor presente de aniversário que receberia. Porém, não havia nenhum vestígio do elfo pela cidade. Será que os integrantes do Pacto de Prata tinham folga? Se tivessem e a dele coincidira com o aniversário dela, só mostraria o quanto Pandora era uma azarada. Todavia, continuava com as esperanças.
Porém, a medida que o dia ia passando, as esperanças de Pandora iam diminuindo. Ela e Pietro se divertiram, óbvio, mas o que ela mais queria ali, não conseguira. E sua falta de ânimo chamou a atenção do irmão.
— Você queria mesmo encontrar ele… — murmurou o menino quando sentaram-se na praça onde tinha a estátua de Antônidas.
— Sim, queria. — admitiu – Ele é tão legal… Não sabia que era tão difícil achar alguém nessa cidade!
— Por que não perguntamos a um dos guardas por ele? — perguntou o menino.
Pandora se animou com a possibilidade. Mas depois reconsiderou.
— Sei lá… Pode ser que ele não goste… Tipo, ele mal nos conhece e a gente sai por ai perguntando por ele…
No final da tarde, já cansados, Pandora por fim desistiu. Estava triste e frustrada e, se estivesse sozinha, possivelmente ficaria mais tempo. Só que Pietro estava bocejando e coçando os olhos constantemente. Como não tirara seu cochilo habitual depois do almoço, o menino devia estar exausto. Pandora suspirou. Voltaria para casa.
— Bem, acho que é hora de voltarmos. — anunciou.
— Tem certeza? — perguntou Pietro.
Pandora afirmou com a cabeça.
Pietro pegou a Pedra de Regresso. Enquanto os dois estavam distraídos colocando a Pedra em ação, alguém os viu de longe e ficou na dúvida de estava realmente vendo-os. Halduron, que fora até ali para levar uma mensagem da rainha para o Kirin Tor, se perguntou se era mesmo os dois irmãos que conhecera algum tempo atrás em Dalaran. Porém, antes que tivesse certeza, os dois sumiram em meio à magia, sem notá-lo. Halduron sorriu, apesar de estar triste em não poder falar com eles. Queria ter dito à Pandora que ela estava bem mais bonita que a última vez que a vira.
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As crianças estavam acomodadas embaixo de uma frondosa árvore, em um círculo na grama, algumas sentadas, outras deitadas com a cabeça apoiada nas mãos, todas bem à vontade. O paladino não parecia se importar com a postura dos pequenos, desde que estivessem ouvindo atentos suas palavras. E todos estavam. De pé, ele falava pausadamente, gesticulando com as mãos, sem levantar o tom de voz, e sorrindo ocasionalmente diante de alguma pergunta. Encostada em uma árvore, Lina o observava a uma distância segura para ouvir, mas sem atrapalhá-lo com sua presença.
O homem vestia uma armadura completa, prata com dourado, a armadura típica da maioria dos paladinos. A imensa espada dourada resplandecia em suas costas, coberta parcialmente por uma capa azul e dourada, as cores de Ventobravo. O paladino não era menos impressionante que sua armadura. Ele era bem alto, provavelmente da altura de Tommy, musculoso sem ser exagerado, com cabelos e barba já ficando grisalhos apesar de ainda ponteados por parte negras, sua cor original. Os olhos também eram escuros e transmitiam a serenidade característica de todo paladino já na meia idade. Sem dúvida, um homem muito bonito e másculo, pensou Lina.
— Ser bom não é fácil, eu admito. — Dizia ele com a voz séria e profunda para as crianças. – Principalmente quando estamos com raiva. É muito fácil deixar-nos levar pelos sentimentos e tomar decisões cujas consequências podem nos perseguir pelo resto de nossa vida. — Ele encarou as crianças uma a uma antes de continuar – Na idade de vocês, esses atos podem parecer coisas pequenas, insignificantes. Um empurrão no amiguinho, a desobediência aos mais velhos, mentir para a velha senhora da cozinha para comer duas vezes no almoço….
Nesse momento as crianças riram e todos olharam para um menino deitado de barriga para baixo que apoiava o rosto nas mãos. O menino baixou a cabeça, rindo também.
— Foi só uma vez, irmão Vincent! — protestou o menino ainda rindo.
— Coisas assim podem virar hábito e aí será um caminho sem volta. — Apesar da bronca o paladino ria também – Mas como eu disse, são pequenas coisas que vocês já devem ficar em alerta. Pequenas coisas dão vazão a coisas grandes. — Ele viu uma menina levantar a mão – Fale, querida.
— Irmão Vincent, mas e a Horda?
— O que tem a Horda? — perguntou o paladino carinhosamente.
— Ela é má, certo? — continuou a menina.
— Será que toda a Horda é má? — questionou Vincent – Porque lá tem paladinos como eu. Se eu disser que toda a Horda é má, eu diria que a Luz escolheu pessoas más para lutar por ela, e eu não acredito nisso. Porém, — ele levantou o dedo enquanto falava – não nego que eles são nossos inimigos, mas nem sempre nossos inimigos são maus. Às vezes, eles apenas têm um ponto de vista diferente do nosso e estão dispostos a morrer por essa ideia.
— Mas eles têm mortos-vivos! — protestou a menina.
— Sim, tem. E tem paladinos. — Ressaltou ele mais uma vez.
As crianças se entreolharam, confusas.
— O que estou tentando dizer a vocês é que, como servos da Luz, vocês não devem pensar que todos que estarão do outro lado de sua lâmina são maus. Eles são seus inimigos. Mas são realmente maus? — ele deixou o silêncio perdurar um pouco antes de continuar – Se você pensar apenas que são maus, o que vai te impedir de cortar a cabeça de um orc ajoelhado a sua frente pedindo misericórdia? Lembrem, vocês servirão a Luz. No campo de batalha, vocês devem lutar com todas as suas forças, mas nunca deverão esquecer a misericórdia e a honra. O que nos traz de volta ao que falei no começo: vocês devem pensar nas consequências de seus atos. Às vezes as coisas ruins parecem boas.
— Como isso é possível? — perguntou uma outra garota.
O paladino cruzou os braços.
— Um exemplo clássico: Arthas Menenthil.
As crianças franziram o cenho. Todas já tinham ouvido falar no príncipe que virara um rei. O Lich Rei. Afinal, Arthas fora um paladino e aquelas crianças o seriam um dia. Qual melhor exemplo de como um paladino poderia se desvirtuar que o antigo herdeiro de Lordaeron?
— Arthas matou toda uma cidade. — lembrou um garoto – Como isso pode parecer bom?
Outras crianças concordaram com a cabeça.
— Eu conversei com Uther certa vez sobre isso e ele me disse que Arthas queria dar uma morte misericordiosa à cidade infectada. Mas realmente era essa a única saída? Somos servos da Luz, a morte deveria ser a última opção para nós, não a primeira! — ele balançou a cabeça negativamente – Mas fez sentido para ele. E ele corrompeu a alma naquele momento. E isso pode acontecer com qualquer um. Nunca devemos achar que somos bons demais para cair em tentação. É o primeiro passo para a ruína.
— E como podemos evitar isso, irmão Vincent? — perguntou o menino que mentira para repetir o prato no almoço.
O paladino sorriu diante da pergunta. Era um sorriso satisfeito, de quem estava esperando por aquilo.
— Quando vocês estiverem diante de uma situação difícil, pensem: um verdadeiro servo da Luz agiria assim? A Luz concordaria? Ou ela me abandonaria, como abandonou o príncipe Arthas? Isso, já será o suficiente para parar sua lâmina diante de um inimigo desarmado ou incapacitado. E lembrem também que a luta nem sempre está no campo de combate. Ela também está dentro de nós.
Naquele momento o sino na catedral da luz badalou e as crianças começaram a se levantar.
— Irmão, o que é o almoço de hoje? — perguntou o repetidor de almoço.
— O mesmo da quarta-feira de toda semana. — riu-se o paladino.
— Droga… — murmurou o menino antes de seguir os colegas.
Vincent ainda ria quando começou a se aproximar de Lina. A comandante não se surpreendeu que ele tivesse visto-a enquanto ainda dava aula e esperara o momento de abordá-la. A armadura dourada tilintava suavemente quando o paladino parou a sua frente.
— Comandante Wood, certo? — perguntou ficando sério novamente.
— Isso. — respondeu Lina sem sorrir.
— Quase não a reconheci vestida em sua armadura. — disse com simplicidade.
— Normalmente me dizem o contrário. — falou ela.
— Imagino que sim. — e cruzando os braços, perguntou – O que posso fazer por você, comandante?
Lina o encarou por um momento, pensando em como dizer o que viera dizer, já que o paladino não era o que ela esperava. Lembrava dele vagamente do casamento de Lady Cláudia. Ele era o homem de verde que dançara com Mel. Já tinha esquecido totalmente de sua existência até Fey comentar sobre um paladino que estava saindo com Mel e que eles pareciam bem próximos. Lina arrancou o resto da informação do irmão e agora estava ali, olhando para o novo namorado de Mel, morrendo de vontade de começar a ameaçá-lo, mas o paladino simplesmente a desarmara sem fazer nada. Esperava muitas coisas, mas não um professor. Talvez tivesse sido sua postura. Talvez tivesse sido seu discurso para as crianças. Ou sua imponência. Ou o fato dele claramente gostar do que fazia. Lina acreditava que ninguém que se dava bem com crianças era uma pessoa má, porque crianças eram criaturinhas que tiravam a paciência de qualquer um.
— Você está saindo com meu irmão. — falou Lina sem rodeios.
— Sim. — admitiu ele sem nenhuma alteração na voz – Estou.
A postura dele também não era o que Lina esperava. Esperava que ele desconversasse, ruborizasse, começasse a justificar, até que negasse, mas nunca uma resposta direta e sincera. Também ficou surpresa porque ele não parecia sequer surpreso de ouvir aquela pergunta.
— Mel contou a você, não foi? — perguntou entendendo a situação – Que eu poderia procurá-lo?
Foi somente aí que o paladino deu um pequeno sorriso.
— Sim, ele disse. — e encarando Lina intensamente, falou – Vocês se amam muito e cuidam um do outro. É admirável.
Sem saber porque, Lina sentiu o rosto arder e sabia que corava absurdamente. Que merda! Ela fora ali para ter uma conversa séria e possivelmente ameaçar o homem a sua frente, mas quem tinha medo de uma pessoa que estava corando estupidamente?
— Mel é muito especial para mim. — confessou – E me preocupo com ele.
— E nosso relacionamento preocupa você. — não era uma pergunta.
— Sim.
Vincent a observou por um minuto, antes de descruzar os braços e falar:
— Vamos dar uma caminhada? — convidou mostrando o caminho em direção à catedral.
Lina assentiu e o acompanhou. Naquela hora haviam poucas pessoas por ali, apenas alguns outros paladinos que passavam por eles e acenavam com a cabeça. Era óbvio que Vincent era benquisto por ali.
— Então, comandante. — começou ele caminhando com as mãos para trás – Quais suas preocupações?
“Direto ao ponto.”, pensou Lina sentindo-se satisfeita. Que bom não precisava enrolar com aquele ali.
— O que você sente pelo meu irmão? — perguntou sem nenhum pudor.
Vincent franziu a testa levemente.
— Acredito que meus sentimentos pelo seu irmão só dizem respeito a nós dois. — respondeu calmamente.
— Não na família Wood. — retrucou ela – Nós não deixamos os outros terem intimidade até sabermos se não precisaremos matar ninguém no final da relação.
Uma breve risada escapou dos lábios do paladino.
— E o que Mel acha dessa intromissão? — quis saber.
— Ah, ele provavelmente vai me esculhambar. — respondeu com sinceridade – Mas eu não me importo. Só quero protegê-lo.
— E que mal você acha que eu posso fazer a Mel, especificamente? — indagou.
Ou ele estava a enrolando ou estava querendo bancar o professor com ela como fizera com aquelas crianças mais cedo. Ou os dois.
— Você é um paladino. — disse secamente.
— E?
— Quem me garante que você não vai largar meu irmão apaixonado para trás quando sua Ordem descobrir de vocês dois? — questionou sem se abalar.
— E por que você acha que a Ordem vai interferir nos meus relacionamentos? Não somos obrigados a fazer voto de castidade. Alguns realmente o fazem, mas não é o meu caso.
Pela primeira vez naquela conversa Lina começou a se irritar. Até então, Vincent tinha conseguido, extraordinariamente, deixá-la sem palavras com sua sinceridade e transparência. Mas agora, Lina começava a sentir os primeiros sinais da sua raiva e impaciência, que a acompanhava todos os momentos de sua vida. Parou de andar abrutadamente e virou-se para ele.
— Não é óbvio? — ela estava exasperada.
— Para mim, não. — disse ele parando também e se voltando para ela.
Lina pressionou os lábios, irritada.
— O que a Ordem diz quando um membro começa a se relacionar com alguém do mesmo sexo? — perguntou visivelmente chateada.
— Ah, isso. — falou Vincent despreocupado – Bem, como eu disse, eu não fiz o voto de castidade, então a Ordem não tem nada a dizer sobre com quem eu me relaciono.
Claramente surpresa, Lina abriu a boca para dizer algo, mas se calou quando alguém abordou o paladino. Era uma anã, também paladina.
— Irmão Vincent, desculpe o incômodo, mas a Irmã Laura não está se sentindo bem. Poderia dar a aula da tarde enquanto ela se recupera?
— Claro, sem problemas. — falou ele despreocupado – Qual o problema de Laura?
— Estômago, provavelmente. Bem que eu tava sentindo falta de dois potes de doce de leite… — a anã revirou os olhos.
Vincent apenas meneou a cabeça, com um sorriso no rosto. Talvez a Irmã Laura recebesse o mesmo discurso que as crianças receberam naquela manhã.
— Vou avisar aos meninos, então. — disse a anã antes de cumprimentar Lina com a cabeça e se retirar – Desculpe a interrupção.
Quando a paladina os deixou, Vincent começou a falar:
— Eu imagino que você tenha bastante preocupação com relação ao seu irmão devido ao meio em que você vive. — disse o paladino sem dar mostras que ficara sequer chateado com as palavras anteriores dela – O exército não é um lugar bom para pessoas como eu e o Mel. É um meio que até você, uma mulher que gosta de homens, sente dificuldade, não é mesmo?
— Bem… É… — admitiu a contragosto.
— Sei o que Cláudia sofreu com a história de Claire e o que tem enfrentado com Horatio. A intolerância no meio de militar é bem forte.
Sem dúvida era verdade. Não era por isso que Lina mantinha em segredo seu relacionamento com Varian? Para não ser acusada de chegar longe porque se deitou com o rei? Fazia sentido o raciocínio de Vincent.
— Além do mais, — continuou ele didaticamente – vocês vieram do interior não é? As pessoas lá tendem a ser mais fechadas com relação a sexualidade. Qualquer uma.
— Verdade. — Lina foi obrigada a concordar.
— Mas já que você está preocupada com relação a Ordem, deixe-me dizer que, o que interessa para a Luz, é como eu faço o trabalho Dela. Se eu sou honrado, se protejo os inocentes, se sou fiel a suas ordens. Por que a Luz, que nem sexo tem, se importaria com quem me deito? — ele fez um gesto de negação com a cabeça – A preocupação dos meus superiores só se daria se eu tivesse um relacionamento com um bruxo ou algo do tipo. Sombras e Luz são inimigos, você sabe. E acredito que concordamos que Mel é uma das pessoas mais iluminadas que existem.
Lina não conseguiu conter o sorriso, nem Vincent.
— Eu e Mel estamos nos conhecendo, ainda é cedo para eu dizer qualquer coisa, mas, posso lhe afirmar, que não tenho a intenção de ferir seu irmão ou enganá-lo. Eu gosto de Mel. Mas do que eu queria admitir. E foi uma surpresa muito grande para mim sentir algo assim. — ele suspirou – Normalmente não me sinto atraído por homens como ele.
— Como assim? — perguntou Lina já entrando na defensiva novamente.
— Tanto o Fey como o Mel são afeminados. — disse ele sem nenhum constrangimento – Eu nunca me senti atraído por pessoas assim porque sempre as considerei fúteis e excêntricas demais.
A sinceridade dele encantava Lina, mesmo que ela estivesse prestes a socá-lo.
— Quando eu o vi na festa com você… Eu não conseguia tirar os olhos dele. Depois, dançamos. Quando começamos a conversar, percebi que a personalidade dele era bem extravagante. – Lina franziu o cenho, se controlando para não socar o paladino – Eu não queria aceitar que estava me sentindo atraído por alguém como ele. Decidi que não devia me envolver. — confessou.
— E o que fez você mudar de ideia? — quis saber a comandante.
— Você.
— Eu? — perguntou abismada.
— O modo como ele reagiu ao que aconteceu com você… — suspirando, Vincent passou a mão na barba. Até para ele era difícil lembrar daquela noite – Ele não gritou, nem esperneou, nem nada assim. Ele sentou e começou a chorar. Eu peguei a mão dele e o consolei. E ele só conseguia falar que a culpa era dele, que nunca devia ter deixado você entrar no exército, que não queria te perder… — ele suspirou novamente – Ele não era raso. Nem fútil. Havia um oceano de sentimentos profundos dentro dele. Isso me encantou.
Lina simplesmente não conseguiu falar mais nada, apenas encarava o paladino. Ela a desarmara novamente. Mas Vincent ainda não terminara de falar.
— Eu entendo suas preocupações, mas quero que entenda uma coisa: se, por acaso, eu e Mel não ficarmos juntos por algum motivo, não será por causa da Ordem, ou de vergonha minha sobre minha sexualidade. Será porque ele não me quer. Eu estou apaixonado pelo seu irmão como nunca estive por alguém antes e farei de tudo para que isso dê certo.
Ficaram em silêncio por um tempo, até o sino da catedral tocar mais uma vez.
— Preciso voltar para meus alunos. — disse ele – Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, comandante?
Sem conseguir conter a própria boca, Lina disparou:
— Quer jantar lá em casa no sábado? Você aproveita e conhece o resto da família. Pelo menos da família que mora aqui.
Vincent ficou desconcertado pela primeira vez naquele encontro.
— Está falando sério? — perguntou surpreso.
— Acha que essa é minha cara de contar piadas? — retrucou franzindo o cenho.
Passando a mão na barba novamente, ele deu uma risada.
— Não, acho que não. — e a encarando, perguntou – Mel não ficará chateado com você por isso?
— Provavelmente. — respondeu dando de ombros – Mas vai ficar tudo bem. Ele vai ficar encantado de te ter lá em casa. Ou melhor, na casa de Cláudia. A nossa tá em reforma.
— Vai sim. Mais ainda pelo convite ter partido de você. — e sorrindo de verdade para ela a primeira vez naquele dia, acrescentou – Aceito o convite, comandante.
— Me chame de Lina. — pediu.
— Apenas se você me chamar de Vincent.
— Feito. — e estendeu a mão para ele.
Apertaram as mãos e cada um voltou para seus afazeres. Vincent foi em direção a catedral e Lina voltou para a Bastilha. Assim que chegou lá, Doroteya e Arshe correram para saber como foi a conversa.
— Estou puta de raiva com aquele paladino! — explodiu assim que as duas a interpelaram.
— Por que? — quis saber a princesa.
— Porque eu gostei dele!
E Doroteya explodiu em uma gargalhada enquanto Arshe olhava para Lina como se ela fosse um ser muito estranho e a comandante resmungava coisas desconexas sobre como paladinos não deviam ser tão legais assim.
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O primeiro mês do reinado de Karen foi mais tranquilo do que todos esperavam e isso deveu-se principalmente à postura que a menina adotou logo após a coroação.
Apesar de ainda reclamar e achar chatas a maioria das coisas que fazia, Lor’themar notou um empenho maior da rainha em realizar suas tarefas. Se antes, era difícil manter a atenção de Karen, fazê-la parar de fugir com Tewdric no meio da manhã e até mesmo ouvir relatórios sem dormir, agora ela conseguia fazer tudo isso e ainda o enchia de perguntas e questionamentos. O lorde regente estava encantado com a mudança e não era o único.
Lady Liadrin também percebera que Karen estava mais focada. No tempo que tinham para dividir entre exercícios fiscos, técnicas de espada e ensinamentos dos Cavaleiros Sangrentos, Karen rendia mais que a média dos alunos da mesma idade. O caminho do aprendizado era longo, contudo, e a paladina não liberaria a menina para nenhum conflito em um futuro próximo, mas percebeu que não tardaria muito para que ela chegasse no nível apropriado para tanto.
Todavia, uma pessoa ali não estava muito feliz com a situação.
Tewdric.
O orc desejava, sem sombra de dúvida, que Karen exercesse seu papel da melhor forma possível e vê-la empenhada não era ruim. O problema que apenas ele inicialmente percebeu era que Karen fora tragada por todas as obrigações de forma muito repentina e agora não fazia nenhum esforço para sair delas, muito pelo contrário. Por vontade própria a menina estava atraindo para si uma série de atividades e demandas que poderiam esperar um período maior de adaptação. Lor’themar lhe dissera que acreditava que a mudança fora por causa do que ela sentira na coroação, onde todos os olhos estavam voltados para seu desempenho. Tewdric discordava, mas ficou calado. Acreditava que Karen mudara pelo que acontecera com ele.
Estava certo.
Depois daquela situação, Karen percebeu o quanto ainda era fraca e impotente diante do mundo. Entendeu, pela primeira vez, a finitude das pessoas. A morte do pai e da mãe sempre fora abstrato, algo que acontecera em um tempo diferente, que não afetara tanto a si quanto às suas irmãs. Ver Tewdric morto mudara sua perspectiva e ela sabia que não podia mais ser a menina indefesa que era. Seu medo e sua frustração a levaram a adotar sua atual rotina, tão adorada por Lor’themar e Lady Liadrin.
Karen acordava cedo e passara a tomar café da manhã sozinha, pois estava pronta muito antes das irmãs. Depois, passava a manhã com Lor’themar, estudando, aprendendo, tomando decisões até a hora do almoço, onde almoçava no escritório mesmo. Lady Liadrin chegava no meio da tarde e a levava para o treino, que durava até a hora da janta, quando ela finalmente se reunia com as irmãs e aproveitava o momento. E quando subia as escadas, cedo da noite, e todos achavam que ela ia dormir, a mente da menina ainda estava tão acesa que ela estudava estratégias e política até a exaustão a dominar. E, às vezes, mesmo exausta, o turbilhão de pensamentos a mantinha acordada uma boa parte do tempo. Por ser jovem e cheia de energia, Karen estava aguentando bem essa rotina, mas Tewdric já notava sinais de que algo não estava certo.
Primeiramente, tentara resolver sozinho. Passara a tentar tirá-la do escritório ou do treino, para passearem e conversarem. Para seu espanto, Karen recusou. Depois, tentou mantê-la mais tempo após o jantar. Nada. Fora a seu quarto, certa noite, e vira a luminosidade aparecendo pelo pé da porta e empurrara a porta levemente. Karen estava absorvida na leitura, com os olhos caídos de sono mas, ainda assim, estudando.
— Karenzita, você tem que pegar mais leve. — disse ele quando conseguiu falar com ela.
— Eu tô bem, Ted. — disse singelamente – Só to fazendo o que é preciso.
— Você precisa ser criança também. — reclamou.
Ela apenas sorriu e deu um beijo nele, antes de voltar a seus afazeres.
Tentou então conversar com Lor’themar e Lady Liadrin, mas ambos estavam gostando dessa nova fase da menina e não dera muita importância aos medos de Tewdric. O orc então pensou em falar com sua esposa a respeito, mas não queria preocupá-la. Além do mais, Kassyeh dificilmente convenceria Karen a mudar de atitude, já que a menina a levava no papo com facilidade. Ash também não conseguiria. Restava uma irmã e ele estava preocupado de colocar mais esse fardo sobre Luxuriah, mas o faria, por sua menina.
E aproveitaria para discutir um outro assunto.
O quarto de Luxuriah estava bem iluminado e a elfa trocava a frauda da filha quando Tewdric entrou. Um mês de repouso e cuidados e a caçadora já estava bem-disposta, animada e com o melhor humor que já tivera desde que os dois se conhecera. Ela sorriu quando viu Tewdric entrando no quarto segurando uma caneca na mão.
— Veja Titi, tio Ted veio te ver!
— Cadê meu moranguinho?? — perguntou o orc deixando a caneca na mesa e se debruçando sobre o bebê.
Tinuviel arregalou os olhos dourados, encarando o orc enquanto mexia os braços e pernas alucinadamente.
— Quer tentar trocar? — perguntou Luxuriah estendendo a frauda para ele.
— Claro. Vamos lá.
Enquanto Tewdric se desdobrava para trocar a frauda, Luxuriah voltou sua atenção para a caneca que ele trouxera. Estava cheia e não parecia ter sido bebida.
— O que é isso, Tewdric? — perguntou.
— Cerveja. Acabou de ficar pronta. Trouxe para você provar.
— Cerveja a essa hora da manhã? — perguntou rindo.
— Quer que eu peça ovos e torrada pra acompanhar? — gracejou o orc.
Luxuriah deu uma risada.
— Certo, vou provar. E não aperte demais essa frauda, ok?
— Ei, eu faço direitinho. — Tewdric sorriu e levantou a menina já trocada – Moranguinho já pronta! Ei, dê um sorriso pro titio!
— Ela ainda é muito nova pra sorrir, Tewdric. — avisou Luxuriah pegando a caneca e levando ao nariz. Seu coração deu um salto – Esse cheiro… — e provou.
As lembranças voltaram como um turbilhão para a mente de Luxuriah. Cambaleou até o banco que ficava em baixo de sua janela e sentou-se. Todas as imagens de sua avó, seus pais, Tewdric… Havia mais alguém lá, mas estava nublado. Sua cabeça girou e girou e ela sentiu quando Tewdric sentou-se ao seu lado.
— Essa cerveja… — murmurou ela – É a receita secreta de meu pai…
— É. — afirmou Tewdric.
Luxuriah respirou fundo tentando controlar o tremor de suas mãos. Bebeu mais um gole e sentiu a emoção tornar-se mais branda, nostálgica, cálida. Continuo bebendo devagar, aproveitando o sabor e as memórias, enquanto Tewdric continuava embalando o bebê, tão pequeno no braço do orc que parecia mais um montinho de pano.
— Aconteceu mesmo, não foi? — perguntou ela por fim.
— Sim. — afirmou – Aconteceu.
Um sorriso terno apareceu no rosto da elfa.
— Seu pai é o cara mais legal que eu já conheci. — o orc abriu um sorriso – Quando eu cheguei lá… Foi ele quem foi me receber. Eu olhei pra ele e sabia quem era. Queria tê-lo conhecido antes.
— Queria que você tivesse convivido com ele. Karen seria ainda mais mimada, com vocês dois juntos.
— Provavelmente! — exclamou dando uma risada.
Luxuriah tomou mais um gole da bebida.
— Ficou tão igual, Tewdric. — elogiou – Papai deve estar orgulhoso.
— Espero que sim.
Tewdric embalou Tinuviel em seus braços grandes e a menina logo estava dormindo.
— Ela é um amorzinho. — murmurou Tewdric dando um beijo na testa do bebê.
— Só porque ela está alimentada e limpinha. Tente passar a noite com ela e você vai ver que é um monstrinho.
Tewdric deu uma risada.
— Moranguinho, o monstrinho! — e apertou a menina no peito.
— Espero que você e a Kass tenham logo bebês. — desejou a caçadora.
— Ah, teremos tempo quando matarmos o dragão doidão lá. Até lá, eu cuido dessa aqui e de Karenzita. — o orc ficou sério – Vim aqui conversar sobre ela.
Luxuriah franziu o cenho.
— O que Karen aprontou dessa vez? — perguntou preocupada.
— Nada. — disse – E esse é o problema.
Tewdric então começou a contar sobre suas desconfianças e como nem Lor’themar nem Liadrin estavam preocupados.
— Isso pode parecer bom, mas não é. — enfatizou ele – Karenzita é muito nova ainda. Ela não pode ser engolida por isso e depois ficar doente. E eu não consigo fazer ela dar uma pausa.
Luxuriah bateu o dedo no queixo, pensando. Também não a agradava aquela situação. Karen precisava do tempo para brincar, para ser ela mesma, para aproveitar a vida. De que adiantava se jogar numa busca desesperada por um mundo melhor senão podia olhar em volta e aproveitar o que tinha de bom naquele momento? Não, não podia deixar aquilo acontecer. Tomou mais um gole da cerveja, lembrando que estava ali de volta para cuidar de todas, não apenas de Tinuviel. Pegou o sino que tinha no quarto e chamou uma serva.
— Peça para a rainha vir aqui, agora. — pediu quando a elfa entrou — Diga a ela que é urgente.
A serva fez uma mensura e saiu.
— Depois do que eu disse, você acha que ela vem? — perguntou o orc.
— Vem. Ela sempre vem ver a Titi quando chamo.
E estava certa. Não demorou muito e Karen apareceu no quarto, com a cara preocupada. Seu rosto se iluminou quando viu que Tewdric estava ali também.
— Ted! — ela se aproximou saltitando e o orc ficou feliz que aquele aspecto de Karen ainda estava intacto – A Titi parece um bolinho na mão do Ted!
— Pois é! — riu-se Luxuriah – Sabia que foi ele quem trocou a frauda dela e a pôs para dormir? Tá ficando especialista em bebês!
O sorriso de Karen vacilou um pouco e ela apertou os olhos, fazendo um bico. Pegou Tinuviel dos braços de Tewdric e a devolveu para Luxuriah.
— Tá bom, já pegou nela demais. — disse a menina antes de se jogar nos braços de seu pai.
Luxuriah e Tewdric caíram na risada e Tinuviel acordou assustada. Começou a chorar, mas a mãe a embalou rapidamente.
— Para quem é tão ciumenta, você tem deixado o Tewdric muito de lado. — falou Luxuriah erguendo a sobrancelha.
— Eu não tenho deixado o Ted de lado! — defendeu-se Karen agarrada no orc.
— Não? E quando foi a última vez que você pôs um vestido nele e brincou de casinha?
Karen olhou para o orc, tentando lembrar.
— Faz tempo… — admitiu.
— Pois é… Se você não cuidar, vai ser Tinuviel quem vai por vestidos nele, logo, logo.
Karen fez bico.
— Você não acha que está se sobrecarregando, Karensky? — indagou a irmã mais velha, sem sombra de nenhum sorriso no rosto.
— Não. — disse a menina convicta – Eu sou rainha. Tenho que fazer coisas.
— Mas você é uma criança ainda também. — lembrou – Tem que fazer coisas de crianças também.
— Mas eu não tenho tempo pra isso! — insistiu a menina.
Isso deixou Luxuriah chocada.
— Se não tem, vamos reorganizar seu tempo para ter. — decidiu.
— Não! — protestou Karen – Eu preciso desse tempo pra treinar, pra estudar! Eu tenho que ficar forte!
— Sim, tem, mas você pode ir devagar. Você não tem que ficar forte para amanhã. Nós ainda podemos te proteger!
— Ninguém protegeu o Ted! — exclamou a menina com lágrimas nos olhos.
Tewdric e Luxuriah se encararam. O orc estava certo afinal.
— Karenzita. — ele a segurou pelos ombros – Fico muito feliz em você querer me proteger, mas você acha que vou ficar feliz se isso vier a custa de nossas brincadeiras?
A menina cruzou os braços e baixou a cabeça, apertando os lábios, sem querer encarar o pai.
— Ted… — murmurou com a voz falhando – Você não sabe o que senti quando vi você… M-morto…
— Eu sei. — falou Luxuriah – Papai morreu nos meus braços também, Karen. E eu não pude trazê-lo de volta.
Virando a cabeça rapidamente, Karen encarou a irmã como se a tivesse vendo pela primeira vez. Claro, já ouvira aquela história várias vezes, mas nunca sentira a dor de Luxuriah até o acontecimento no bazar. Imaginou por um momento como seria não trazer Tewdric de volta e não conseguia suportar aquela dor. Como Luxuriah conseguia?
— Vamos fazer o seguinte. — começou a irmã mais velha – Vamos tirar uma hora da manhã e outra da tarde para que você possa dar uma pausa e…
— Não! — negou a menina – Eu preciso desse tempo!
— Karensky, não dificulte as coisas!
Vendo que o embate das duas seria inevitável, Tewdric achou melhor interferir.
— Olha… não precisa ser uma hora toda não. Nem precisa ser durante o dia. Mas sinto sua falta, Karenzita. Será que você pode fazer essas coisas importantes suas durante o dia e dar a esse pobre orc aqui seu tempo da noite? — perguntou fazendo bico – Depois do jantar fique com seu pai aqui. E pare de ler aqueles livros todos para durmir bem. É tudo que peço.
— De que adianta você ter trazido ele de volta se não pode nem o aproveitar? — completou Luxuriah.
— Por favor? — pediu o orc
Karen admitia que sentia falta de brincar com Tewdric depois da janta. E também era verdade que de nada adiantava tudo que fizera se não podia ficar com ele. Mas também não adiantava nada o que fizera se não pudesse deixá-lo vivo. Que irritante tomar aquele tipo de decisão!
— Certo, não faço mais nada depois do jantar! — concordou a menina – Mas quero atenção total e absoluta! — exigiu ela apontando para o orc, que caiu na risada.
— Pode deixar, Karenzita.
— Vou mandar tirar todos os livros que não forem de entretenimento de seu quarto. — avisou Luxuriah – Por via das dúvidas.
— Não!!!! — reclamou Karen – E se eu tiver insônia?
— Aí você vai no quarto da Kassyeh e pede uma poção para dormir. Não vai conseguir fortalecer o corpo se ele não tiver descansado. — sentenciou a irmã.
— É verdade Karenzita. — confirmou o orc.
A contragosto, a menina assentiu.
— O dia está tão ensolarado! Vamos dar uma volta na praia, Karenzita? — perguntou o orc.
— Lor’themar tá me esperando pra terminar umas coisas lá.
— As coisas ainda estarão lá quando você voltar. — avisou Luxuriah – E se você não quiser, a Titi quer, né Titi? Vamos passear e tomar um solzinho com tio Ted?
— Não! Eu vou! — disse se agarrando em Tewdric – Mas a Titi e você podem vir junto!
— Certo. — Luxuriah riu – Será rápido, ela é muito novinha pra ficar muito tempo no sol. Logo, logo você tá de volta. Deixa só eu por uma roupinha leve nela e pegar um guarda-sol.
Luxuriah afastou-se em direção ao closet e Karen encarou Tewdric, segurou no rosto dele e murmurou:
— Você tá proibido de amar mais ela que eu.
O orc gargalhou e a abraçou.
— Entendido Karenzita! Entendido!
(CONTINUA)
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