Herdeiros da Guerra

35 Capítulo XXV – Ecos do passado (PARTE I)


Notas iniciais
Olá, pessoal! Primeiramente gostaria de pedir desculpas pelo atraso da postagem e depois explicar meus motivos. Nem todos sabem, mas eu sou professora de História e minhas aulas tinha recomeçado depois de um período longo de férias. Depois, vários de meus alunos se inscreveram na Olimpíada de História e tive que orienta-los. E nas últimas três semanas, Thrall, meu gatinho, esteve muito doente e quase morreu. Ficou internado vários dias e fiquei muito mal. Apenas agora retomei a escrita. Como vi que estava há meses sem postar nada, decidi adiantar a primeira parte desse capítulo. É a primeira vez que eu vou postar apenas a primeira parte e ficar devendo a segunda. Espero que me perdoem. Agora que a Olimpíada acabou e Thrall está bem, pretendo terminar em breve a segunda parte. Até lá, leiam e comente! Bjs!

Em frente ao imenso closet de seu quarto, Vivithi observava suas roupas com um desespero crescente no peito. Ela não tinha absolutamente nada para vestir e já estava quase atrasada para seu compromisso. Estremeceu ao pensar no que ele diria se ela se atrasasse. Não, não podia.

Ansiosa, começou a mexer nas roupas, como se esperasse que algo perfeito magicamente brotasse em meio aos cabides. Viu um vestido que não usava há tempos e se animou. Mas ao vesti-lo, o descartou totalmente. Era transparente no colo e seu noivo já dissera várias vezes que ela ficava provocante demais e outros elfos a olhavam. Ele não gostaria se saísse assim. Jogou então o vestido de volta ao closet. Remexeu um pouco mais e achou outro vestido, que preenchia os requisitos dele. Vestiu e achou que estava bom. Mas então lembrou que já tinha saído uma vez com ele naquele vestido e também o quanto ele detestava que ela repetisse roupas. Vão dizer que você não tem dinheiro, que sua família está falida se repetir de roupa, dissera ele. Tirou o vestido e o jogou no chão. Remexeu mais um pouco nas roupas e decidiu tentar formar um conjunto de blusa e saia com peças diferentes. Tentou algumas vezes até que chegou a um conjunto que fazia sentido e era bonito. Ele não teria do que reclamar. Calçou uma sapatilha baixa, afinal, se colocasse salto, ele reclamaria, pois diria que ela ficava mais alta que ele. Então, estava pronta.

Porém, mal havia saído de casa e já estava exausta. A tensão de escolher a roupa certa, a roupa que não envergonharia seu noivo já tinha tirado dela uma boa dose de sua disposição. E pra completar, estava toda dolorida de seu teste para ser patrulheira e tudo que queria era ficar em casa, deitada. Mas ele queria sair, dissera. E afinal, ela poderia fazer aquele esforço por ele, não é mesmo?

Chegou ao restaurante antes dele e isso a deixou mais animada. Não haveria porque ele se queixar de sua demora. Por um momento desejou sentar-se na calçada e aproveitar o sol da tardinha do verão élfico, mas seu noivo nunca gostara de sentar ali. Se sentia exposto, dizia. Então, escolheu uma mesa dentro do estabelecimento e esperou.

De onde estava, podia observar o movimento do restaurante. Viu uma família entrar, duas pequenas crianças loiras se pendurando nas roupas do pai e sorriu. Estava com saudades de seus pais. Fazia meses que não os via. Desde que se mudara para seu próprio apartamento, tivera tão pouco tempo. Quando não estava treinando, sua atenção estava voltada para o noivo e os preparativos do casamento. Também nem lembrava a última vez que vira seu tio. Sentia falta dos jantares em que os quatro comiam e bebiam vinho e ela ouvia as histórias dos séculos de vida de seus pais. Para uma elfa jovem como ela, de apenas cento e doze anos, era incrível ouvir coisas que acontecera duzentos, trezentos anos atrás. E sempre havia algo novo para ouvir. Talvez devesse mandar uma mensagem para eles e pedir para marcar algo. Só que logo desistiu. Seu noivo ficava entediado em reuniões familiares e não ficaria muito feliz se ela fosse sozinha. Somos um casal, disse quando tentou fazer algo semelhante. Temos que ir juntos. Mas ele nunca queria ir. Às vezes, pensava Vivithi, tinha a impressão que só veria seus pais em seu casamento.

Depois de mais de uma hora, Vivithi pode finalmente ver seu noivo entrar no restaurante. Se já estava ficando irritada com a demora, ficou ainda mais quando viu que ele não estava só, mas acompanhado de dois de seus amigos. Eram justamente os que Vivithi menos gostava. E tinha motivos para não gostar deles. Os dois sempre ficavam a encarando de uma forma nada respeitosa enquanto seu noivo não olhava e fizeram insinuações nem um pouco agradáveis sobre seu corpo. Ela se sentia insegura perto deles, mas quando reclamara, seu noivo deu um escândalo, acusando-a de provocar os dois elfos. Depois disso, ela aprendera a guardar seus receios para si mesma. Porém, naquele momento, caminhou sem medo até os três, sem entender porque diabos aqueles dois energúmenos estavam ali também.

— Annatar? — chamou ela.

O elfo a fitou por um momento e depois fez uma expressão surpresa.

— Querida! Por que está aqui? — e a abraçou.

— Como assim porquê? — perguntou Vivithi retribuindo a contragosto o abraço – Nós combinamos um jantar aqui, não lembra?

Annatar se desvencilhou suavemente de seus braços e a encarou por um momento.

— Não, não querida. Era amanhã. — disse suavemente.

— Não, Anatar, você marcou para hoje. — insistiu – Eu tenho certeza.

— Vivithi, meu amor. — disse ele tocando em seu cabelo – Você está enganada. Eu marquei nosso jantar aqui para amanhã. Hoje, é dia de sair com os meninos. — e piscou para os dois elfos que o acompanhavam.

— Você saiu com eles ontem. — lembrou ela.

— O que é? Vai ficar agora regulando minha saída com meus amigos, é isso? — o tom dele foi de suave para raivoso em pouco tempo – Você é sempre assim não é? Sempre arruma confusão por tudo!

O rosto de Vivithi ficou logo vermelho de vergonha quando viu que várias cabeças começaram a se virar para olhá-los.

— Annatar…. — falou ela no tom mais calmo que pode – Eu não estou fazendo confusão… Só estou dizendo que você marcou para sairmos hoje.

— E estou dizendo que você se enganou! — continuou no mesmo tom – Não é a primeira vez, não é? Você vive se confundindo com as datas! Não tenho culpa se você é burra!

Com o coração aos pulos, ela baixou a cabeça, ainda mais envergonhada. Sim, não era a primeira vez que ela aparentemente se enganava com as datas. Parecia ser uma coisa que começara a acontecer desde que eles ficaram noivos. Vivithi sempre teve uma memória excelente e se perguntava o que diabos estava acontecendo. O pior era que, em todas as ocasiões, ela tinha certeza que estava certa, mas Annatar sempre afirmava com veemência seus erros, e como várias vezes os amigos dele confirmaram seu engano, ela acreditava. Era difícil entender o que estava acontecendo, mas talvez ela devesse procurar um médico.

— Desculpe… — foi tudo que ela conseguiu dizer sem que começasse a cair no choro. Chorar sempre parecia mais frequente nos últimos tempos.

— Ohh, querida… — o tom dele voltou ficar suave – Tudo bem. Eu entendo que você se confunde fácil. — ele deu uma risadinha – Essa minha cabecinha oca! Tão distraída! — e a abraçou com carinho – Olhe, posso dispensar os meninos e jantar com você, que tal?

— Não, não! — disse ela rapidamente – Eu vou voltar para casa. Não desmarque seu jantar por causa de um erro meu. — ela deu um sorriso – Aproveitem rapazes.

Seu noivo abriu um grande sorriso agradecido e ela soube que fizera a coisa certa. Trocaram um grande beijo e se despediram. Ela pode ouvir as risadinhas dele quando saiu e ficou com o rosto vermelho. Provavelmente os amigos dele riam de sua distração. Envergonhara Annatar mais uma vez e se odiava por isso.

O sol estava começando a se pôr enquanto Vivithi caminhava para casa, imersa em seus pensamentos. Sentia-se pequena, insignificante e terrivelmente vazia. Desanimada, deixou-se desabar em um dos bancos da praça central e colocou as mãos no rosto. Qual era o problema com ela, afinal? Quando se tornara uma pessoa de quem não gostava, alguém que sempre fazia algo errado? As lágrimas brotaram de seus olhos e ela as enxugou rapidamente. O que Annatar diria se soubesse que ela estava no meio da praça, chorando feito uma criança?

— Vivithi?

A jovem elfa levou um grande sustou ao ouvir seu nome ser chamado tão suavemente. Levantou a cabeça e deu de cara com uma elfa linda, de cabelos loiros avermelhados, pele morena e uma barriga que revelava uma gravidez avançada. Demorou alguns segundos para que Vivithi finalmente a reconhecesse.

— Samanthah, certo? — perguntou se sentindo extremamente constrangida.

A elfa abriu um sorriso.

— Isso mesmo. Nossa, há quanto tempo, como você está crescida! — e dando uma pequena pausa, perguntou, hesitante – Está tudo bem?

Não, não estava. Vivithi queria berrar a plenos pulmões o quão frustrada estava com tudo, consigo mesma e com alguma coisa que estava muito errada em sua vida e que ela não conseguia descobrir o que era. Queria exigir uma explicação do mundo do porquê tudo está parecendo tão errado, quando ela tinha tudo para ser feliz. Porém, ela apenas deu um sorriso sem graça para Samanthah e falou, timidamente:

— Sim, está tudo bem.

Samanthah aparentemente não se convenceu disso, pois acabou se sentando pesadamente do lado de Vivithi.

— Tem certeza? — insistiu – Você está tão linda, toda elegante, mas está aqui largada nesse banco…

— Eu estou bem. — falou soando um pouco áspera.

No mesmo instante que falou, Vivithi se arrependeu. Samanthah lhe deu um sorriso triste e só então a jovem elfa percebeu que a outra carregava um monte de sacolas nos braços e que teve um pouco de dificuldades para se levantar.

— Tudo bem, desculpe incomodá-la. — e arrumando as sacolas contra a barriga, completou com delicadeza – Mande lembranças minhas aos seus pais quando você vê-los.

Vivithi não soube se foi a culpa ou a tristeza que a levou a levantar-se e se adiantar a Samanthah, tomando-lhe as sacolas que a elfa grávida precariamente carregava junto ao corpo. E enquanto Samanthah a olhava, surpresa, Vivithi começou a se justificar:

— Desculpe-me pela forma como falei. — pediu envergonhada – Hoje não está sendo um dia muito agradável para mim. Deixe-me ajudá-la a levar isso até sua casa.

— Ora, querida, não precisa se desculpar, todos temos direito a um dia ruim. — ela lhe sorriu com as bochechas salientes e rosadas devido a gravidez – E vou aceitar sua ajuda, o bebê não para de me chutar desde que saí de casa.

As duas riram e Vivithi seguiu carregando as sacolas para Samanthah. A jovem elfa encarou a barriga da outra, imaginando como seria carregar aquele peso todo de um lado para outro todos os dias. Como diabos ela ainda tinha coragem de acrescentar o peso daquelas sacolas ao que já carregava no próprio corpo?

— Onde estão seus servos? — perguntou Vivithi – Por que não vieram fazer as compras para você?

— Ah, estão de folga. — respondeu Samanthah – Faz eras que eles não tiram umas pequenas férias e decidi que o ideal é eles descansarem antes do bebê nascer. Depois, eu realmente precisarei bastante da ajuda deles. Além do mais, foi só umas comprinhas no mercado. Nada demais.

Vivithi encarou novamente a barriga, imaginando que o ‘nada demais’ de Samanthah parecia bem cansativo.

Não demorou muito e elas chegaram na mansão de Luelly Fendessol, e Vivithi mais uma vez se espantou com a beleza do local. Fazia anos que não vinha ali. Percebeu que a última vez que viera ali, antes de conhecer Annatar, fora com o tio em um jantar dado pela mesma elfa a quem ajudava agora. Percebeu mais uma vez quanta falta sentia de Lor’themar. Samanthah abriu a porta e segurou-a enquanto Vivithi entrava com as sacolas e se dirigia diretamente para a cozinha.

— Muito obrigada, Vivithi. — agradeceu a maga seguindo-a – Gostaria de tomar um chá comigo? Deixei uma torta esfriando e ela já deve estar perfeita.

O primeiro impulso da elfa foi negar. Seu noivo não gostaria que ela ficasse ali, com uma pessoa que ele sequer conhecia, enquanto devia esperá-lo em casa. Porém, algo no sorriso de Samanthah e em seu caloroso oferecimento a fez hesitar. Então, lembrou-se que Annatar estava comendo e bebendo com os amigos e que provavelmente ficaria a noite toda lá enquanto ela amargaria uma noite sozinha em casa.

— Adoraria. — se viu respondendo.

Logo estavam sentadas na cozinha, tomando um bom chá e provando da torta maravilhosa feita por Samanthah. Vivithi se pegou falando de seu teste para patrulheira, de como estava nervosa, da saudade que sentia dos pais depois que saiu de casa e diversas outras coisas que há muito tempo não conversava com ninguém. Samanthah ouviu tudo pacientemente, sempre sorrindo e enchendo a xícara de Vivithi quando esta se esvaziava.

— Mal consigo acreditar que você já é quase uma patrulheira e já mora sozinha. — disse a elfa enchendo sua própria xícara – Parece que foi ontem que Lor’themar anunciou todo feliz que seria tio.

— Eu sei dessa história. — riu-se Vivithi – Seu marido disse algo como ‘você devia tá fazendo filhos por aí’, não foi?

Samanthah gargalhou.

— Foi exatamente o que ele disse! Na época, nós não estávamos casados nem esperando o bebê, mas Dhomm já tentava convencer seu tio a procurar alguém para ‘se ajeitar’. — Samanthah fez as aspas com os dedos quando disse isso – Lor’themar respondeu que ele deveria se ajeitar primeiro antes de se meter na vida dos outros. — a elfa passou a mão na barriga – Seu tio não tem mais desculpas agora.

Encarando a barriga proeminente, Vivithi não segurou a curiosidade:

— Como é estar grávida?

— Ah, são todas coisas ao mesmo tempo! — exclamou a elfa – Tem horas que estou feliz, tem horas que estou chorando e tem hora que estou feliz e chorando sem saber porque! E claro, a barriga atrapalha quando vou para o laboratório e às vezes estou conjurando uma magia e o bebê dá um chute e eu me desconcentro e não consigo lançá-la! — Samanthah riu-se – Mas quer saber? Nunca estive tão feliz!

Isso era algo que não se podia negar. A felicidade estava estampada na cara da elfa e Vivithi pensou se ficaria assim quando estivesse casada e grávida. Espantou-se ao se dar conta que não estava ansiosa para que isso acontecesse.

— Você está noiva, não é? — perguntou a maga como se lesse a mente da outra.

— Isso. — falou sem muita animação.

— Você não parece uma noiva muito animada. — comentou Samanthah sem esconder um tom de preocupação na voz.

Por um momento, Vivithi teve raiva da sinceridade descarada da outra e teve vontade de gritar que era fácil falar dos outros quando se estava feliz. Porém, novamente lembrou-se que a culpa da frustração que sentia não era de Samanthah e sim dela mesma.

— Hoje eu fiz algo que acabou magoando meu noivo. — revelou segurando a xícara de chá com as duas mãos.

— Gostaria de conversar a respeito? — quis saber a futura mamãe passando a mão na barriga – Ai bebê, está doendo!

Vivithi acabou rindo da reclamação de Samanthah e talvez tenha sido por isso que acabou revelando o que aconteceu sem muitas dificuldades. Durante o relato, justificou várias vezes como acabou envergonhando Annatar e como tinha raiva de si mesma por ser tão burra. A narração do que acontecera deve ter impressionado muito Samanthah, pois a elfa agora a olhava boquiaberta, com os olhos arregalados e Vivithi teve mais razões para se sentir mal.

— Que horrível! — exclamou Samanthah.

— É, eu sei que fui horrível… — murmurou Vivithi.

— Não estou falando de você. — retrucou a outra, para surpresa de Vivithi – Ele não devia ter tratado você assim, independente de você ter confundido com as datas ou não!

A jovem elfa piscou algumas vezes enquanto tentava assimilar aquilo que Samanthah lhe dissera. Como assim? Ele a tratou como sempre a tratava quando o envergonhava. Talvez a outra não tivesse entendido a gravidade do que fizera.

— Samanthah, olhe, sei que você não deve ter entendido, mas eu errei feio com ele. Annatar tinha motivos para estar chateado.

— Com motivos ou sem motivos, desrespeitar a própria noiva não é uma opção. Pela Nascente do Sol, Lor’themar o destroçaria se o visse lhe tratando assim. — e diante da expressão horrorizada de Vivithi, acrescentou – Ele não sabe, não é mesmo?

— Meu tio não precisa saber dos meus problemas com meu noivo. — disse Vivithi com um ponta de irritação na voz – Isso é entre eu e ele.

Samanthah a encarou por um momento, como se a analisasse e então assentiu com a cabeça.

— Você tem razão. Desculpe. Eu não devia me meter em seus assuntos. Eu só… — ela suspirou – Eu sei que não é bom ser maltratada por quem nos ama. Meus pais me deram uma boa dose disso quando eu tinha sua idade.

— Ele não me maltratou. — insistiu a outra.

Samanthah não disse mais nada e mudou abrutadamente de assunto. Vivithi se arrependeu de ter ido até aquela casa e permitido que a outra criticasse seu noivo tão abertamente. Porém, logo Samanthah estava falando de outras coisas e Vivithi acabou ficando. Até então não tinha percebido o quão sozinha se sentia. Suas amigas de infância estavam todas espalhadas por Quel’thalas, e não as via há tempos. E Annatar também não gostava delas, então acabaram se afastando. E não demorou muito para sua chateação com a elfa grávida sumisse por completo, diante de sua meiguice e simpatia. Estavam conversando já totalmente esquecidas da tensão de minutos atrás, quando Samanthah ouviu a porta sendo aberta.

— Oh, deve ser Dhomm! — falou animadamente – Ah, já está tão tarde? Nem fiz o jantar!

Imediatamente Vivithi ficou tensa. Samanthah esquecera de preparar o jantar do marido! Não, não queria presenciar a briga que, com certeza, eles teriam por causa do esquecimento dela. Sabia o quão constrangida Samanthah ficaria e como Dhomm a trataria mal e definitivamente não queria presenciar isso. Porém, antes que pudesse balbuciar alguma desculpa e sair porta afora, Dhomm entrou na cozinha.

— Dhomm! — exclamou Samanthah fazendo menção de se levantar – Veja quem eu encontrei hoje!

— Querida, não se levante. — falou ele em tom preocupado – Deixe que eu vou ai te dar um beijo.

Samanthah sorriu, as bochechas ficando vermelhas e voltou a sentar. Dhomm foi até ela, lhe deu um profundo beijo nos lábios e então voltou-se para Vivithi.

— Olha só, se não é a pequena Vivi! — e lhe dirigiu um sorriso caloroso.

— O-oi… — conseguiu murmurar dando um sorriso forçado.

— Ah, Dhomm, você a constrangeu me beijando daquele jeito! — Samathah atribuiu o retraimento de Vivithi ao carinho demasiado do marido e agora parecia envergonhada.

— Ah, ela é noiva, já sabe o que é um beijo. A propósito, trouxe uns morangos para você.

Os olhos de Samanthah brilharam de alegria quando o elfo depositou o cesto de morangos na frente da esposa.

— Onde os conseguiu? — perguntou a elfa deliciada pegando um – Eu procurei no mercado e não havia nenhum.

— Ah, Lady Tinuviel ficou muito satisfeita em me dar alguns. A encontrei na volta e ela perguntou por você. Quando falei dos seus desejos por morangos, ela não hesitou e mandou o filho mais velho me trazer alguns. — e deu uma risada – Rommath não pareceu muito feliz em largar o irmãozinho e fazer o que a mãe pediu, mas ninguém diz não aos desejos de uma elfa grávida.

Como Dhomm ainda não tinha percebido o erro da esposa, Vivithi achou que aquele era o momento ideal para fugir antes de presenciar uma cena.

— Adorei o chá Samanthah, mas acho que está na hora de eu ir. — falou se levantando.

— Ah, não, jante conosco! — convidou Dhomm – O que temos para o jantar, Sam?

— Eu me distrai conversando com Vivithi e esqueci de fazer. — disse singelamente a maga.

Vivithi estacou. Não, não, não! Não ia conseguir fugir a tempo! Porém, a reação de Dhomm a deixou totalmente sem ação.

— Tudo bem, querida, você está precisando mesmo de uma folguinha. Pode deixar que eu cozinho. — e olhando pra Vivithi, reforçou o convite – E você, fica para jantar, não é?

— C-claro… — respondeu a moça sentando-se de novo, atordoada demais para pensar em outra resposta.

— Ótimo! — ele foi até a pia, colocou o avental e começou o preparo – Como foi seu teste com a Silvana hoje? Eu estava patrulhando e acabei não assistindo nenhum dos testes dos aspirantes.

O estupor da surpresa se dissipou um pouco e Vivithi começou a falar. Em pouco tempo, ela já estava totalmente a vontade, comentando com Dhomm sobre o trabalho de patrulheiro. Não tinha reparado em como era bom ter alguém ouvindo com interesse sobre seu sonho, nem interessado em saber sobre como fora seu teste. Annatar havia ignorado totalmente aquele fato, mas em Dhomm e Samanthah encontrara dois ávidos ouvintes, que lhe encheram de perguntas, de conselhos e lhe deram esperanças que podia sim, finalmente fazer parte daquela elite.

A noite acabou transcorrendo melhor do que Vivithi imaginara. Jantou com aquele casal, percebendo como os dois pareciam estar sempre em sintonia, se adiantando ao que o outro queria e como, em nenhum momento, houve um só resquício de tensão. Samanthah estava sempre relaxada, sem se importar se estava enorme, se ficava desajeitada com aquela barriga e como sorria com facilidade, sem vergonha ou medo. E quando saiu da casa dos Fendessol naquela noite, foi todo o caminho para casa se perguntando o que havia de errado com aquele casal, onde nada parecia abalar a felicidade dos dois. Então, lembrou-se do pai e da mãe. Eles pareciam sempre tão felizes quanto Samanthah e Dhomm.

De repente, parou, já na porta do enorme prédio dourado onde alugara um apartamento. Estariam realmente Dhomm e Samanthah errados ou era seu relacionamento que estava errado?

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Varian andava de um lado para o outro, como um lobo enjaulado. A todo instante virava o rosto para a cama onde Lina jazia deitada, com o rosto pálido e a respiração entrecortada. A comandante ainda não acordara desde a sua convulsão. Ao seu lado, Doroteya a examinava cuidadosamente, sob o olhar atento de Anduin e Arshe. A espera corroía o rei por dentro e várias vezes ele quis romper seu silêncio e tentar arrancar algo da druidesa, mas cada vez que chegava perto, Arshe o criticava apenas com seu olhar e Varian recuava. Por fim, Doroteya endireitou-se e olhou para os que esperavam ansiosos.

— Já vi muito isso em Guilneas. — revelou – Envenenamento por chumbo.

— O uso de chumbo é proibido em Ventobravo. — revelou Anduin confuso – Há alguns anos tivemos problemas com crianças deformadas que eram filhas de mineiros na Floresta de Elwyyn.

— Bem, com certeza alguém o usou – falou a druidesa, mexendo em suas coisas – Eu tenho algo aqui que ajudará o chumbo a sair do sangue, mas é um processo lento, levará algum tempo. Ela precisará de muitas doses e monitoramento constante.

— Quando ela acorda? — quis saber Arshe.

Doroteya parou o que estava fazendo e olhou para sua amiga. Havia uma tristeza profunda nos imensos olhos castanhos quando ela falou:

— Não sei… — ela respirou fundo tentando manter a respiração controlada – Lina entrou em coma.

Ouviu-se um barulho alto e todos se assustaram. Varian esmurrara a parede, abrindo um buraco na pedra.

— Tio! — exclamou Arshe irritada – Destruir meu quarto não vai fazer a Lina melhorar!

Não, não faria, mas Varian se sentia melhor. Ele olhou mais uma vez para Lina, pálida e vulnerável naquela cama e amaldiçoou a si mesmo por não poder fazer nada além de esperar. Mas não esperaria ali parado, olhando-a definhar aos poucos. Precisava fazer quem a colocara ali pagar por isso.

Sem dizer uma palavra, Varian saiu do quarto. Diversos soldados esperavam do lado de fora e bateram continência ao verem-no saírem. O rei prescrutou com a vista todos eles e pode ver em seus rostos a mesma preocupação que vira no de Anduin e de Arshe. Sim, os soldados também a amavam, de seu próprio jeito. Imaginou o que Lina significava para cada um deles: representatividade, exemplo, força, honra, amizade até amor, quem sabe. Mas, acima de tudo, sabia o que ela significava para ele próprio. Varian vira uma mulher que amava morrer uma vez, sem nunca conseguir pegar quem a matara. Não ia permitir que isso acontecesse uma segunda vez.

— Quero falar com quem foi designado pela comandante para cuidar da Bastilha. — chamou em sua voz potente.

Brienne deu um passo a frente.

— Subtenente Taylor, Majestade. — e bateu continência.

— O que sabe sobre o ataque a comandante, subtenente?

— A comandante estava desarmando armadilhas de ursos colocadas imprudentemente por seus sobrinhos, quando flagrou três homens com uma ursa morta e três filhotinhos. Dois estavam mortos e o terceiro a comandante trouxe com ela. — a subtenente recitava no mesmo tom militar que Lina costumava a usar e Varian lembrou que a moça fora uma das promovidas recentemente – De acordo com o relatório do capitão Durão, os homens a atacaram quando ela decidiu denunciá-los. Houve conflito e a comandante prendeu os três numa árvore até convocar a guarda da Vila D’Ouro para levá-los.

— Eu soube que Horatio Lane foi chamado. Por que?

— Os três homens acusaram a comandante de atirar primeiro neles, majestade, e que apenas revidaram.

Houve murmúrios indignados dos soldados, mas eles calaram no momento em que Varian os olhou.

— E o relatório do tenente Lane, já chegou?

— Ainda não, então tomei a liberdade de pedir que o tenente viesse pessoalmente até a Bastilha, majestade. — ela o olhou, um pouco receosa – Espero não ter agido mal.

— Não, não agiu. — Varian andou de um lado para o outro novamente, impaciente, sabendo que não aguentaria esperar até a chegada do tenente. E nem precisava, ele acreditava piamente em Lina – Subtenente, os homens que atacaram a comandante estão no Cárcere?

— Ainda não senhor. Estão no subsolo da Bastilha, aguardando o General Jonas emitir a ordem para o encarceramento. — explicou a subtenente.

— Pois mande alguém buscar o General e diga que são ordens expressas minhas que ele venha para a Bastilha. E você, subtenente, me acompanhe até onde eles estão. — vociferou Varian.

Brienne rapidamente ordenou a Jon que fosse pegar o General e acompanhou o rei pelos corredores, em direção ao subsolo. Enquanto caminhavam, Varian pode ouvir na sua cabeça claramente sua consciência dizendo para ir com calma, que assim veriam que havia algo a mais entre ele e a comandante e quase teve a certeza que era a voz de sua consciência era a mesma de Lina. Porém, ele não queria se conter. Queria por pra fora toda a raiva que borbulhava dentro dele e sabia com quem deveria fazer aquilo.

Chegaram ao subsolo e Brienne se adiantou para abrir a porta. Varian ouviu risadas lá dentro e sua raiva ferveu ainda mais. As risadas pararam no momento em que ele entrou, tendo Brienne às suas costas. Os guardas rapidamente se levantaram e fizeram uma continência. Na mesa onde sentavam, cartas estavam espalhadas. Varian olhou para as cartas e depois para os soldados. Não disse nenhuma palavra, mas não foi necessário. Os dois homens já tremiam e tinham consciência que aquilo não passaria em branco. Para a sorte deles, o olhar de Varian foi para os homens que estavam em uma cela próxima. Eram três. Pela aparência, eram irmãos. Não havia nenhum ferimento visível e Varian supôs que alguém os curara antes de serem postos ali. Isso o irritou ainda mais. Lina estava acamada bem acima da cabeça dele por culpa daqueles idiotas e os idiotas nem sequer sangravam.

Os irmãos Jones pareciam muito surpresos ao ver o rei em pessoa ali. Se entreolharam nervosos, com certeza tomando consciência pela primeira vez que talvez tivessem ido longe demais. Varian então se aproximou deles, com a subtenente em seu encalço, e encarou aqueles três um a um. Sua vontade era entrar na cela e torcer o pescoço de cada um deles e, pela forma com que os homens se encolheram nos catres, sua intenção estava bem visível em seus olhos.

Porém, os muitos anos de reinado estavam confrontando com seu desejo de vingança. O conflito entre seu lado rei e seu lado guerreiro estava mais forte que nunca e Varian quase podia sentir suas duas personalidades entrarem em conflito. Lo’Gosh e o Varian. Um queria ver sangue, o outro, justiça. Mas no final de tudo, os dois queriam que Lina vivesse. E ambos sabiam que, ao acordar, se ela ficasse sabendo que ele trucidara pessoalmente aqueles três, não ficaria nenhum pouco feliz. E foi apenas por causa disso que Varian deu um passo para trás e, sem dizer nada, virou-se para sair daquele lugar.

Quando já estava quase passando pela porta, Varian ouviu um sussurro, que mudou tudo.

— Não é que a Quenguinha é bem relacionada mesmo? — e uma risada procedeu a fala.

A fúria nublou os olhos do rei. Que se dane, pensou furioso. Sem conseguir se controlar, Varian deu meia volta e retornou até a cela, pisando firme e com a expressão de puro ódio. Os três irmãos, que não esperavam isso, se encolheram, principalmente quando ouviram a voz de Varian reboar como um trovão.

— Abra a cela, subtenente.

Brienne hesitou um pouco, mas bastou um olhar para a expressão do rei para que ela se adiantasse e abrisse a porta. Os homens lá dentro se encolheram mais ainda. Varian olhou para cada um deles e quando falou, sua voz parecia um rosnado:

— Me digam, qual de vocês foi o autor daquela frase?

Os irmãos não responderam, mas dois deles olharam para um terceiro. O mais velho. O movimento de Varian foi tão rápido que, em um piscar de olhos, o irmão mais velho estava em pé, sendo pressionado contra a parede pelo braço de Varian que apertava seu pescoço. Um cheiro forte de urina invadiu o ambiente quando o irmão, amedrontado demais, perdeu o controle sobre seu corpo.

— Uma palavra mais sobre a comandante e será a última que você dirá. — sussurrou Varian enfurecido – E reze, reze muito para a Luz para que ela viva. Senão, você desejará ter sido capturado por Garrosh Grito Infernal em vez de estar aqui!

O rosto do homem estava ficando roxo quando o rei finalmente o soltou. O homem caiu no chão, arfando, e nenhum de seus irmãos fez menção de ir até ele. Olhavam para Varian, com os olhos arregalados, como uma presa encara um lobo faminto. Varian saiu da cela e Brienne a fechou logo em seguida.

Sair daquele local deixando aqueles três vivos foi uma das maiores façanhas feitas por ele, admitiu Varian para si mesmo quando a porta fechou atrás de si. Seguiu em silêncio subindo as escadarias, desprezando-se por permitir que eles vivessem e se desprezando por permitir que percebessem a importância de Lina para ele. Quando a comandante acordasse, e que a Luz ajudasse para que fosse o mais rápido possível, ela não ficaria muito feliz. Porém, não se arrependia.

— Subtenente. — disse em sua voz potente – Quero uma punição para aqueles guardas que estavam jogando cartas. Isso é inaceitável.

— Sim, majestade.

— Quero ser informado assim que aqueles três forem para o cárcere. — continuou enquanto subia as escadas e emergia em uma das muitas salas da Bastilha – Essa demora não está me agradando. Faz horas que estão aqui.

Assim que disse isso, Varian percebeu que a subtenente apertou os lábios e que sua expressão ficou um pouco mais tensa. Até então Brienne tinha mantido o mesmo distanciamento militar de Lina, mas aquela frase pareceu a incomodar de alguma forma. Franziu as sobrancelhas, perguntou:

— Algum problema, subtenente?

A moça hesitou antes de responder.

— Não, majestade. — disse sem muita segurança.

Agora a atenção de Varian estava totalmente voltada para ela.

— Qual o problema, Taylor? Vamos, fale logo, não estou com paciência para ficar aguardando suas respostas. — seu tom provavelmente foi mais duro do que pretendia, pois a moça se encolheu um pouco.

— Majestade… — disse um pouco receosa – Não quero ser acusada de não ser fiel aos meus superiores…

Aquela resposta acendeu uma luz vermelha na cabeça de Varian. Lembrou dos guardas jogando cartas. Tinha certeza que Lina jamais permitiria que algo assim acontecesse e isso o deixou com um pressentimento não muito agradável.

— Fale o que sabe subtenente. — ordenou – É uma ordem.

A garota pareceu mais aliviada. Ordem do rei são ordens do rei, pensou Varian. Não importava qual o problema que ela revelaria, mas o fato de ter sido o rei quem ordenara a eximia de qualquer castigos por parte de seus superiores.

— Majestade, há algo que incomoda a mim e a outros soldados. — começou – A comandante Wood é excelente, faz tudo isso funcionar perfeitamente e, se ela estivesse no controle, aqueles dois jamais teriam coragem de jogar cartas em frente aos prisioneiros. — a subtenente suspirou – Quando ela não está aqui, parece que todos recebem uma ordem indireta que podem fazer o que querem. É muito difícil manter as coisas funcionando. Por isso a comandante dificilmente tira uma folga ou férias. Ela sabe que, sem ela, as coisas ficam totalmente instáveis.

O fato narrado pela jovem o deixou alerta, mas não surpreso. Sabia que as coisas ali funcionavam melhor com Lina, mas o que ouvia agora era preocupante.

— E os generais? Há, pelo menos, três sempre por aqui. Também é dever deles cuidar da Bastilha.

A moça deu um sorriso triste.

— Sim, é, mas eles sempre se escoram na comandante. Sabem que ela jamais deixaria as coisas saírem do controle aqui, por isso deixam que ela faça todo o trabalho. A comandante mantém tudo em ordem, majestade, porque, se ela não fizer, ninguém o faz. — ela deu uma pausa como se decidisse se falaria a frase seguinte, e então continuou – Eles se aproveitam porque a comandante não é uma ameaça.

— Como assim? — Varian não gostara nem um pouco da afirmação e tinha a impressão que não gostaria da resposta.

— A comandante é uma mulher extraordinária, majestade. — disse Brienne com os olhos brilhando de admiração – Ela foi minha inspiração para entrar no exército. Porém, ela é como eu. Nossas famílias não tem títulos. Por mais que ela se esforce, por mais que ela seja necessária aqui, ela nunca será mais do que uma comandante. Ela nunca poderá ser uma general. Por isso, ela não é uma ameaça.

Como rei e conhecedor das leis e costumes de seu povo, Varian sabia daquilo. Porém, era a primeira vez que ele se defrontava com o impacto que aquela lei, que limitava os altos cargos apenas a famílias nobres, causava. Lina era quem mantinha a Bastilha no eixo. Lina era quem mantinha tudo funcionando. Lina mantinha a todos seguros. Mas Lina jamais seria mais do que uma comandante. Ela jamais poderia liderar um exército da Aliança em qualquer empreitada, pois seu poder se resumia àqueles muros. A Aliança jamais se beneficiaria da esperteza e inteligência daquela mulher, apenas porque nascera em uma família humilde e sem poses.

Um silêncio constrangedor se impusera entre o rei e a subtenente, que agora temia ter sido ousada demais. A comandante com certeza a castigaria por fazer aquele tipo de comentário, principalmente ao rei. Na vez em que reclamara daquela lei estúpida para Lina, Brienne ouvira de sua boca:

— Não fique lamentando, Brienne. Não deixe que eles pensem que isso te limita.

Sim, Lina jamais lamentara ou se queixara de seu status limitado. Fazia seu trabalho e dos outros não para subir na carreira, mas para proteger seu povo. E era por isso que a maioria de seus soldados a idolatrava. E agora, olhando para a expressão indecifrável do rei, a jovem deixou o arrependimento de lado. Ele precisava saber a importância da comandante para aquele lugar.

A moça jamais desconfiaria que Varian já tinha consciência disso há tempo, mas só naquele momento, se tocara do imenso abismo que seu nascimento colocara entre ele e sua amada.

— Obrigado pela sinceridade, subtenente.

O agradecimento do rei pegou a moça de surpresa, que apenas bateu continência, sem conseguir dizer nada.

— Volte para seu posto. — continuou o rei – A comandante quereria isso.

— Sim, majestade.

Varian viu Brienne desaparecer nas sombras da bastilha e, de repente, se sentiu exausto. Passou a mão nos cabelos, angustiado com todas as coisas que pareciam pipocar ao seu redor. E agora, depois de ouvir o quão Lina se esforçava por todos e o fato de que se aproveitavam dela pois seu nome jamais apareceria como sugestão de promoção, estava enojado. Enojado das próprias leis, de seu próprio poder. Sentiu que precisava arejar a cabeça e caminhou pelos corredores, para fora da Bastilha.

O céu noturno estava limpo e sem nuvens. Se não fosse o frio, aquela noite não pareceria uma noite de inverno. Pensou em Lina vindo de longe, ferida e montada precariamente em um grifo. Estremeceu só em pensar o que poderia ter acontecido com ela. Pensou nas últimas noites, que desejara seu corpo quente em sua cama e só o encontrara vazio. Saberia Lina o quão fundo chegara na alma do rei? Será que sabia que não apenas ele, mas tantas pessoas ao seu redor temiam pelo pior e torciam por sua recuperação? Achava que não. Ela estava acostumada mais a cuidar do que ser cuidada. De certa forma, Lina também reinava. E pensar que poderia perdê-la o deixava aflito, angustiado e frustrado. Então, pela primeira vez em anos, Varian baixou a cabeça e fez uma prece silenciosa à Luz.

“Por favor, por favor, a salve. Não a deixe morrer!”, rezou com fervor.

Varian ainda mantinha a cabeça abaixada quando ouviu passos apressados subir os degraus da Bastilha. Levantou a cabeça e viu uma figura imensa se dirigir com rapidez para a porta da Bastilha. Quando passou em frente a luz, Varian percebeu que era um homem, envolto em uma capa, que o ignorou completamente e foi direto para os guardas.

— Preciso entrar. — disse com um nítido desespero na voz – Preciso ver a comandante.

O rei se retesou. Quem era aquele homem que queria ver Lina? O ciúme corroeu seu estômago enquanto observava a cena.

— Tommy. — disse um dos guardas – Temos ordens da própria comandante de não permitir sua entrada aqui.

— Pela Luz! Eu preciso ver minha irmã! — explodiu o homem em um grito.

Irmã? Varian se aproximou do homem e dos soldados, que ainda não tinham reparado em sua presença.

— Você é irmão da comandante? — perguntou Varian.

No momento em que Tommy virou-se para o rei, Varian tomou um susto. Era como olhar para uma versão masculina do rosto de Lina. Os mesmos olhos verdes penetrantes, o mesmo nariz e a mesma boca. Até mesmo a tensão no rosto do homem parecia se manifestar da mesma forma que no rosto de Lina. Apenas o queixo mais largo e as rugas ao redor dos olhos os diferenciavam.

— Majestade… — murmurou Tommy surpreso, mas aliviado – Por favor, eu preciso ver minha irmã!

Tommy jamais poderia supor que Varian compartilhava aquele desespero e aquela dor que sentia. Se fosse outra pessoa, talvez ele dissesse não, principalmente porque Lina estava no quarto de Arshe. Mas a angústia nos olhos de Tommy, tão parecidos com os de Lina, fez Varian balançar a cabeça em afirmativa e ordenar:

— Deixem-no passar. — e virando-se para Tommy, disse – Siga-me.

Não foi necessário repetir. Tommy se colocou atrás do rei e o seguiu, ansioso, pela Bastilha. Quando passaram pela sala do trono e tomaram a direção dos quartos, Varian sentiu que o irmão de Lina hesitou um pouco antes de continuar a segui-lo. Obviamente ele sabia o privilégio de estar na área mais protegida e intimista da Bastilha. O local onde o rei e seus herdeiros dormiam. O local onde eram mais vulneráveis. Quando se aproximaram do quarto de Arshe, viram uma figura pequena deixar o cômodo e seguir na direção deles. E quando os olhos de Doroteya encontraram o homem às costas de Varian, ela estacou, surpresa.

— Tommy! — exclamou – O que você está fazendo aqui? E Theo? Você o deixou sozinho? — a druidesa parecia ainda mais preocupada.

— Fey e Mel voltaram para casa. — Tommy se adiantou até a mulher – Theo está com eles, não se preocupe. Como está a Lina?

— Ah, Tommy… — os olhos da druidesa se encheram de lágrimas – Eu já vi casos assim e são tão complicados… — grossas lágrimas começaram a escapar dos olhos cor de mel – Mas eu juro que farei tudo, tudo o que for preciso, para salvar a Lina!

Tommy então aninhou Doroteya em seus braços, passando as mãos pelos seus cabelos e a consolando. Varian então entendeu porque a comandante e a druidesa de Guilneas ficaram inseparáveis tão rapidamente. Era possível que o irmão de Lina as tivesse unido, pois estava evidente que havia algo acontecendo Tommy e Doroteya. Varian então se perguntou o que Greymane diria ao saber que a moça já estava reconstruindo a vida, enquanto o rei metamorfo vivia amargurado, se debatendo em sua própria dor.

— Tommy! — a voz agora pertencia a Arshe, que também saia do quarto onde estava Lina – Você deixou o Theo sozinho?! — havia censura na voz da princesa.

Varian franziu a testa. Aparentemente esse Theo era tão importante quanto Lina. Quem seria? Para as duas mulheres estarem tão preocupadas, devia ser uma criança. Lembrou-se então que Lina tinha uma penca de sobrinhos. Seria um deles?

— Fey e Mel voltaram. — explicou Tommy mais uma vez, ainda abraçado com Doroteya – Eles me contaram que ficaram preocupados com Lina e foram em sua busca logo depois que ela saiu da fazenda. Apesar de ela ter dito que ficaria em Vila D’ouro, sabemos quem é nossa irmãzinha. — ele deu uma risada nervosa – Ela jamais ficaria paradinha em um lugar se quisesse estar em outro.

Irmãzinha… Era estranho pensar que alguém pudesse ver Lina daquela forma. Mas para Tommy e os outros dois homens citados, a comandante ainda era a irmãzinha. O que eles pensariam se soubesse do que havia entre os dois?

— Então eles foram pra Vila e não a acharam. — supôs Arshe.

Tommy afirmou com a cabeça.

— E quando falaram com Durão, surtaram. — ele suspirou – Ainda estavam surtados quando chegaram lá em casa. Eu e Theo tivemos que os acalmar. — e dando uma risadinha, completou – É capaz de Theo cuidar deles e não o contrário.

Todos ficaram em silêncio por um momento.

— Posso vê-la? — pediu Tommy timidamente.

Doroteya e Arshe se entreolharam.

— Tem uma regra sobre entrada de homens em quarto de princesas. — explicou Arshe sem jeito – Só podem entrar se forem da família e nunca sozinhos.

— Todos nós entraremos. — disse Varian de repente – Assim não será problema.

As duas mulheres pareceram tomar um susto. Não haviam percebido a presença de Varian até aquele momento.

— Tio! — reclamou Arshe – Por que está aí calado, nas sombras? Parece um lobo espreitando!

— Eu estava aqui desde o começo, vocês que não viram. — disse ele calmamente.

— O rei permitiu minha entrada. — revelou Tommy. E encarando Varian, falou – Majestade, agradeço muito.

— Entendo sua preocupação. — sim, Varian realmente entendia – A comandante já fez muito por Ventobravo, não vejo porque não fazer o mesmo por sua família.

O olhar de agradecimento de Tommy fez o rei ver que fizera o certo. Não sabia porque Lina o proibira de entrar na bastilha, mas com certeza a situação era diferente. Por isso, Varian indicou com a mão a entrada para Tommy que, a contragosto, soltou Doroteya, e seguiu em direção ao quarto.

Assim que pôs os olhos em sua irmã, Tommy prendeu a respiração. Sua expressão de horror demonstrava muito bem o que todos sentiram quando a viram pela primeira vez naquele estado. Aos tropeços, Tommy caminhou para a cama e sentou-se pesadamente ao lado da irmã. Passou os dedos pelo rosto da irmã e, para a surpresa de Varian, baixou a cabeça e chorou.

— L-Lina! P-por isso que-que eu nunca, nunca quis você aqui! — as lágrimas rolavam fartas no rosto do homem, que não ficou nenhum pouco constrangido em demonstrar suas emoções na frente do rei – P-Por isso eu e papai… — ele soluçou – Eu nunca vou me perdoar se você morrer!

Doroteya se aproximou da cama e colocou a mão carinhosamente no ombro de Tommy.

— Ela é teimosa demais para morrer. — disse carinhosamente – Tenho certeza que ela enterrará todos nós e fará isso nos xingando.

A contragosto, Tommy riu. Respirou fundo e colocou a mão em cima da de Doroteya.

— É, é a cara dela fazer isso… — murmurou ele já mais calmo – Ainda assim… Nunca vou deixar de me preocupar com ela fazendo todas essas coisas perigosas…

— Claro que não. — disse suavemente Arshe – Ela é sua irmã caçula.

Isso explicava muita coisa, pensou Varian. A irmã mais nova sempre será uma criança, ouvira certa vez. Como nunca tivera irmãos, era difícil para ele pensar em como aquilo tudo estava afetando Tommy. Porém, tivera Bolvar. Olhou para Arshe, pensando no quanto sentia falta do grão-lorde e do quanto fizera para proteger sua única filha. No final das contas, sabia como Tommy estava se sentindo.

— Quero levá-la para casa. — disse Tommy de repente.

Imediatamente, toda a empatia que Varian sentia por Tommy se evaporou. Como assim? Ele queria levar Lina para longe? Para onde ele não pudesse vê-la? Não poderia permitir isso de jeito nenhum!

— Não! — exclamou o rei rispidamente – Você não pode levá-la!

Não apenas Tommy, mas Doroteya e Arshe o olharam, assustados com a raiva em sua voz. A confusão no rosto do irmão de Lina fez o rei se lembrar que o caso dos dois ainda era segredo para algumas pessoas e isso o deixou um pouco hesitante. Lina dificilmente quereria que seu irmão mais velho soubesse deles dois.

— Como? — perguntou Tommy ainda sem entender a reação do rei.

— Você não pode levá-la. — reafirmou Varian irredutível.

O rosto de Tommy imediatamente ficou escarlate.

— Ela é minha irmã! — exclamou com a voz aumentando de volume – Você pode ser o rei mas não é da família!

Varian sentiu aquilo como se fosse um soco em seu ego. Já estava respirando fundo para retrucar quando Arshe prontamente decidiu agir.

— Ela não pode ser movida, pois é perigoso. — a princesa se adiantou e ficou em pé de frente a Tommy, bloqueando sua visão do rei – Ela deve permanecer aqui até acordar e podermos ter certeza que o pior já passou. Não é mesmo? Doro?

A princesa olhou com ansiedade para a druidesa, que não hesitou em responder:

— É verdade, Tommy. Não sabemos o que pode acontecer se tentarmos mexê-la. O chumbo pode se espalhar mais rápido. O frio pode fazer os pulmões dela adoecerem. Acho que o ideal é deixá-la aqui, por enquanto.

Isso foi o bastante para Tommy relaxar sua postura e desviar seu olhar do rei de volta a sua irmã. Alisou novamente o rosto dela e, a contragosto, afirmou com a cabeça.

— Se você diz que é o melhor para ela, tudo bem. — sua voz estava baixa novamente – Mas me prometa que você ficará em atualizando de tudo.

Doroteya sorriu.

— Sem sombra de dúvida.

Apesar de estar em seu castelo, Varian se sentiu um intruso naquele momento. Sem dizer nada, lançou um último olhar para Lina e saiu do quarto. Lá fora, encontrou Anduin voltando para o quarto. O rapaz sorria, esperançoso.

— Mandei uma carta para o profeta Vellen. — revelou – Expliquei para ele o problema e pedi orientações. Sei que a druidesa tem experiência e fará o possível, mas me senti melhor fazendo esse pedido. Afinal, o profeta tem milhares de anos a mais que nós dois.

— Fez bem, meu filho. — elogiou Varian colocando a mão em seu ombro – Talvez seja hora de você dormir. Hoje o dia foi muito intenso.

— Só vou dar mais uma olhada na Lina. — disse corando um pouco – E depois irei.

O rei afirmou com a cabeça e viu o menino entrar no quarto. Lembrou o que Arshe havia dito no dia anterior, que não demoraria muito para Anduin começar a ver Lina como uma substituta para sua mãe. Seria aquilo o melhor para seu filho? Não saberia dizer. Ele e Anduin eram tão carentes de amor feminino e sequer tinham se dado conta até então. Caminhando até a janela protegida com vidro, encarou a noite novamente. Até mais cedo naquele dia, aguardava com ansiedade a volta de Lina e, se imaginasse, que ela poderia voltar mais cedo naquele estado, teria preferido ficar semanas sem vê-la, só pela certeza que ela estava bem.

Como, pela Luz, fora se envolver tanto?

Respirou fundo e baixou a cabeça. Durante todos aqueles anos ele evitara as mulheres. Seu amor por Tiffin sempre o manteve distante de qualquer possibilidade de se envolver sentimentalmente com outra. Ignorava gracejos, convites sutis e até abordagens mais contundentes. Em sua cabeça, seria como trair sua amada e falecida esposa. Porém, Lina atravessara todas suas barreiras sem que ele ao menos percebesse o que estava acontecendo e, agora, naquela situação, Varian pode perceber o que não vira durante todos aqueles anos. Amar Lina não anulava o que ele sentira pela mãe de Anduin. Ainda amava Tiffin, por tudo que viveram e pelo filho maravilhoso que tinham, mas era um amor que só existia em suas lembranças. O amor que sentia por Lina era real. Seu peito doera de saudades em sua ausência, e agora doía diante da mínima possibilidade de perdê-la. Tinha certeza que, se algo de ruim acontecesse com ela, não haveria ninguém que pudesse manter os irmãos Jones longe de suas mãos.

Ninguém.

— Majestade?

Varian se virou e viu Tommy parado bem a sua frente. O homem parecia envergonhado e baixou os olhos tão logo Varian o encarou. Depois, ajoelhou-se humildemente antes de falar, com a voz pesarosa:

— Peço perdão pela forma como me dirigi a ti, meu rei.

O estômago de Varian revirou. A última coisa que queria era ver o irmão de Lina se humilhando aos seus pés.

— Levante-se. — ordenou e Tommy se levantou – Não há o que perdoar. Entendo perfeitamente sua dor e sua angústia. Se fosse Anduin ou Arshe naquela cama, eu teria feito o mesmo.

— Vossa majestade é meu rei, eu nunca deveria ter levantando a voz e lhe enfrentado, não importa a situação.

— Diante da dor daquele que amamos, não existe rei ou servo. — ele olhou por um momento a noite lá fora – Fico feliz em saber que a comandante tem tantas pessoas que se preocupam com ela. — e dando uma pausa, perguntou – Os pais de vocês ainda vivem, certo?

Por um momento Tommy ficou surpreso do rei ter aquela informação. Depois, lembrou-se que Arshe era agora inseparável de sua irmã e que falava pelos cotovelos, como um goblin tentando vender uma mercadoria. Então o rei devia saber de várias coisas sobre os Wood.

— Sim, vivem. — ele suspirou – Não sei como darei essa notícia a eles…

— Não dê. — falou Varian para a surpresa do outro – Espere ela melhorar e só então diga o que aconteceu. Minimizando os efeitos, claro. Com pais idosos, acho imprudente preocupá-los, visto que eles nada poderão fazer onde estão.

— Tem razão, meu rei. — Tommy assentiu com a cabeça – Agradeço mais uma vez sua ajuda e reforço meu pedido de perdão.

— Não é necessário nenhum dos dois. E venha vê-la quando quiser. Se não deixar Theo sozinho, obviamente. — e sorriu.

Surpreso com o comentário, Tommy se perguntou se o rei também sabia da situação do filho de Doroteya. Impossível, pensou, as mulheres tinham lhe dito que era um segredo absoluto a origem de Theo porque a família dele era poderosa. Então, o que o rei sabia? Deveria perguntar.

— Ah, vossa majestade, já ouviu falar de Theo… — e sorriu sem jeito.

— Sobrinho da comandante, certo?

— Sim. É meu filho. — disse automaticamente.

Varian estranhou. Tommy era casado? Então como podia ter tamanha intimidade com Doroteya?

— E sua esposa ficou na fazenda? — perguntou o rei sem esconder a surpresa.

— Sou viúvo. — respondeu Tommy.

Varian se arrependeu de ter perguntando. Claro, como irmão de Lina, ele jamais poderia se aproximar da amiga da comandante se fosse comprometido. Lina o trucidaria. Era protetora demais com as pessoas a sua volta. Agora, acendera uma dor adormecida no homem que já sofria pela irmã. Mais que nunca entendia o desespero dele.

— Assim que ela melhorar, — se viu falando – poderá ir para casa. Não se preocupe.

Tommy assentiu.

— Obrigado, majestade.

Ficaram alguns instantes em silêncio, até que Doroteya saiu do quarto e se encaminhou para eles.

— Tommy, ficarei aqui essa noite. — e olhando para Varian completou – Se vossa majestade, permitir, claro.

— Faço questão. — disse o rei – Ficarei mais tranquilo sabendo que a comandante está em boas mãos.

Doroteya sorriu e fez uma mensura antes de se voltar para Tommy.

— Pode tomar conta de tudo para mim? — perguntou com os imensos olhos castanhos brilhando contra as luzes do castelo.

— Você sabe que sim. — respondeu Tommy sorrindo antes de abraçá-la – Amanhã estarei de volta.

E fazendo mais uma reverência ao rei, se retirou. Doroteya também o reverenciou antes de voltar ao quarto. Quando se viu sozinho, ele teve vontade de ir até lá e ver Lina novamente. Porém, sabia que não adiantaria. Ela continuaria pálida, desacordada e alheia a sua presença. E ele tinha um reino para cuidar. Estava na hora de ver se o general Jonas estava fazendo o serviço dele. Aquela noite, os generais de Ventobravo trabalhariam como há anos não trabalhavam.

***********************

Insônia era algo que Luxuriah não tinha há anos. Sentada em frente a lareira no enorme salão da Torre Solfúria, ela tomava um chá preparado por uma serva que garantiu que isso a faria dormir. A elfa duvidava. Sabia que sua agitação não era exatamente sua, mas de Tinuviel, que parecia dar cambalhotas em sua barriga desde que a mãe se deitara. Rommath lhe fez companhia por um bom tempo, mas foi vencido pelo sono. E agora, sozinha no grande salão, ela ainda sentia Tinuviel agitar-se. Suspirou. Sua filha já estava dando mostras que não seria fácil.

Uma rajada de vento fez Luxuriah se arrepiar e perceber que alguém entrara na torre. Olhou para a porta que dava para o corredor e viu uma figura em vestes do Kirin Tor caminhando devagar, como se quisesse passar despercebida.

— Vivithi? — perguntou surpresa em alto e bom som.

A figura parou sua caminhada e se voltou para a elfa. Sim, era Vivithi e agora ela parecia extremamente constrangida de ter sido flagrada entrando sorrateiramente na torre.

— Finalmente! — reclamou Luxuriah se levantando – Pensei que nunca mais fosse dar o ar das graças aqui!

— Você… Estava me esperando até agora? — perguntou a patrulheira, surpresa.

— Claro que não! Eu não perderia meu sono por isso. Você já é bem grandinha e sabe o que faz. Tinuviel não me deixa dormir. — ela deu um suspirou – Mas vou te avisando que Karen abriu todos seus presentes. — e fez uma careta quando a bebê deu um outro chute em sua barriga – Querida, não faz isso com a mamãe…

Vivithi não pode evitar a gargalhada enquanto Luxuriah se sentava, passando a mão na barriga. Depois, sentou-se também no sofá e se serviu de uma xícara de chá.

— Você falou agora da mesma forma que sua mãe falava. — riu-se Vivithi – Ela reclamava de você do mesmo jeito.

— Então já sei o que esperar dessa pequena elfa… — disse com uma pontada de preocupação enquanto alisava a barriga.

— Talvez você se surpreenda e ela seja como Kassyeh. — ponderou Vivithi – A agitação dela pode ser só por querer sair.

— Ah, pela Nascente do Sol, como eu queria que ela puxasse a Kassyeh! — e tomou mais um gole de chá – Isso me pouparia muita dor de cabeça!

— Será? Sua irmã tem gostos bem estranhos, lembre disso. Vai que Tinuviel goste de Trolls!

As duas caíram na risada e Tinuviel se remexeu mais uma vez, como se quisesse participar da conversa. Luxuriah acariciou a barriga novamente e a menina deixou de se mexer por um momento.

— Então… — começou a mais jovem olhando para a outra – Você e meu tio se entenderam?

Vivithi suspirou. Sabia que enfrentaria perguntas do tipo quando voltasse, só não imaginava que seria tão cedo.

— Se por ‘se entender’ você quer dizer que fizemos sexo como dois coelhos no cio, sim, nos entendemos. — e tomou um gole de chá.

Luxuriah a analisou por um momento.

— Você não contou nada a ele, não é mesmo? Do porquê você evita relacionamentos...

— Na verdade, eu contei. — revelou Vivithi, para a surpresa de Luxuriah – Eu contei tudo a ele, tudo que aconteceu naquele período terrível. — ela estremeceu. Detestava pensar no tipo de pessoa que já fora um dia.

— Antes ou depois do sexo? — quis saber a futura mamãe tentando encaixar o que sabia da situação de Vivithi dentro da situação dela com seu tio.

Sem conseguir evitar, um sorriso surgiu no rosto da patrulheira.

— Antes. Bem antes.

E começou a contar a Luxuriah tudo que acontecera na noite do Véu do Inverno, depois de fugir da ceia na Torre Solfúria, até aquele dia, sem deixar de mencionar a ida de Modera à casa de Aethas e como depois ficaram juntos até aquela hora.

— Então, vocês estão juntos sem estar juntos? É isso? — perguntou a caçadora um pouco confusa.

— É, por aí. — Vivithi deu de ombros – Eu te garanto, Lux, não tenho intenção nenhuma de ter um relacionamento sério com seu tio e deixei isso claro. Eu não estou enganando-o. Quero que você saiba disso. Não é minha intenção machucar Aethas.

— Eu sei.

Luxuriah sabia. E talvez soubesse mais que a própria Vivithi, pois sua amiga ainda não tinha percebido o enorme passo que dera naquele dia. Ela podia até afirmar que aquilo não era um relacionamento, que não queria se envolver com o arquimago, mas era óbvio que ela já estava envolvida. E aquilo era a coisa mais próxima de um relacionamento que Vivithi já tivera após o seu trágico noivado. E se Luxuriah conhecia bem seu tio, ele agarraria aquela chance com Vivithi com unhas, dentes e magia.

— Mas e essa maga humana, hein? — quis saber Luxuriah mudando o assunto, mas nem tanto – Ela apareceu assim do nada na casa do titio?

— Foi. — o rosto de Vivithi refletia bem a raiva que ela sentia só em falar da situação – Aethas disse que provavelmente alguém a mandou lá, para ver se ele tinha aparecido por aqui, mas eu acho que não era só isso. Se fosse só verificar, por que mandarem ela? O Kirin Tor tem um monte de membros! Acho que aquela humana feia e velha está é de olho em seu tio!

Decididamente Vivithi não tinha consciência do quanto já estava envolvida. Afinal, Luxuriah conhecia a elfa há tempos e nunca, nunca a vira com ciúmes de nada nem ninguém. Melhor ficar calada e não chamar a atenção dela para esse fato, pensou Luxuriah. Seria a melhor forma de ajudar seu tio a chegar perto do coração da arisca patrulheira.

— Essa humana velha e feia pode até estar interessada pelo titio, mas posso te dizer que ele jamais se envolveria com ela. — disse convicta – Nossa família tem bom gosto.

— E Tewdric? — perguntou Vivithi provocativa.

— Tewdric é um orc bem-apessoado. — justificou – Para os padrões órquicos, claro. — completou.

As duas caíram na risada.

— Bem, espero que seu tio se mantenha bem longe de Modera, se ele quer continuar a ter esse corpinho lindo na cama dele. — e passou a mão pelo próprio corpo.

— Fale isso para ele e é capaz de titio evitar até as reuniões do conselho.

Dessa vez, apenas Luxuriah riu. Vivithi ficou de repente pensativa. Olhou para a roupa que vestia, as vestes roxas do Kirin Tor que pegara emprestada e suspirou.

— Não quero que ninguém deixe de fazer nada por minha causa. — disse de repente – Porque eu não quero nunca mais me proibir de fazer algo por causa de ninguém.

Após pousar a sua xícara na mesa de apoio, Luxuriah encarou sua amiga. Lembrou-se de quando era mais nova e sempre via Vivithi desfilando com confiança e elegância, atraindo todos os olhares dos elfos. Apesar de saber de toda a história dela, as vezes achava difícil pensar nela como alguém frágil e submissa. O amor, disse Samanthah certa vez, pode não só nos cegar, mas nos aleijar também. No caso de Vivithi, amar seu noivo aleijara sua vontade. Por isso entendia o receio dela. Mas também entendia o que seu tio sentia pela elfa.

— Titio sempre fez o que ele queria. — disse convicta – Se não fosse por isso, estaria aqui e não naquele lugar horrível. — Luxuriah franziu a testa – Então saiba que, o que quer que ele venha a fazer por você, será por livre e espontânea vontade. — e pousando a mão no ombro da amiga, completou – E ele esperará o mesmo de você.

Vivithi colocou a mão em cima da de Luxuriah e deu um sorriso.

— Quando você amadureceu tanto hein? Onde está a Luxuriah raivosa e impulsiva que conheço?

— Ainda está aqui. — disse a outra rindo – Mas agora eu preciso ser um pouco mais ponderada, não é? Por causa dela. — e colocou a mão livre no ventre – E confesso que tenho me sentido meio estranha também. Choro demais, me comovo demais. Até tenho menos vontade de brigar!

— Se você começar a achar Tewdric sexy, aí teremos certeza que Tinuviel será como a tia Kass! — riu-se a patrulheira

— Pela Nascente do Sol, não! — exclamou mas rindo também.

Era tão bom sentar-se e conversar com Vivithi, como faziam antes de toda a história de princesa começar, pensou Luxuriah. Desde que permitira que a sobrinha do lorde regente entrasse em sua vida, no momento mais difícil e quando não queria ninguém por perto, não se arrependera um só momento. Sempre soubera o quanto sua mãe ajudara a outra e por um momento chegara a pensar que Vivithi só estava por perto para pagar uma dívida com Samanthah. Porém, a própria elfa deixara claro que não era nada daquilo. Claro, se sentia compelida a fazer algo pelas filhas de alguém que a ajudara demasiadamente, mas nunca escondeu o quanto gostava das quatro Fendessol. E se as coisas continuassem progredindo entre ela e Aethas, quem sabe Vivithi não entrava para a família de vez?

“Pela Nascente do Sol, já estou pensando como a Kass!”, pensou Luxuriah abismada.

— Mas agora, me conte – pediu Vivithi afastando aqueles pensamentos da outra – Como Karen acabou abrindo meus presentes?

A elfa sorriu maliciosamente.

— Quer saber isso antes ou depois de eu contar sobre o beijo do seu tio com minha irmã nessa mesma sala? — perguntou.

Vivithi ficou tão surpresa que derramou chá nas vestes que pertenciam a Aethas.

— Como?! — indagou perplexa.

— Ah, vou te contar…

E começou a contar tudo que acontecera naquele dia, desde como recebera inúmeros presentes (a tal surpresa de Tewdric), o boneco Astrogildo, toda a situação com Lor’themar e Ashrial, como Tewdric ficara meia hora choramingando num cantinho depois de perceber que Ash não era mais criança, e finalmente que, entediada por estar trancada dentro de casa por causa da tempestade, Karen dissera ao lorde regente que só dava a permissão para ele namorar sua irmã se ele deixasse ele abrir um dos presentes de Vivithi. Claro, a menina e Saba acabaram abrindo todos, para o desespero do lorde regente. Só depois de narrar tudo que acontecera no dia, muitas risadas e o bule de chá vazio, foi que Luxuriah percebera que sua neném finalmente adormecera. E depois de um dia tão cheio, ela e Vivithi precisavam de uma boa noite de sono. As elfas se despediram, felizes e aliviadas, por poderem contar uma com a outra. Mas só uma das duas tinha consciência do quão difícil fora o caminho para que aquela amizade fosse possível.

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Não foi nenhuma surpresa para Vivithi quando seu noivo mudou de planos mais uma vez. Agora, alegava que um dos seus amigos estava fazendo aniversário e ele tinha que sair com sua turma mais uma vez. Claro, namoradas, noivas ou esposas não eram permitidas. Só que, pela primeira vez, ela não protestou, nem reclamou. Sorriu e disse que ele poderia ir. Assim que ele saiu, ela fez seus próprios planos.

Se vestir foi fácil. Não teve todas as complicações de quando saía com Annatar. Pegou a primeira roupa que viu, vestiu-a e saiu contente em direção ao Bazar. Estava se sentindo livre e animada por isso não demorou muito para escolher o presente que daria à criança que Samanthah esperava. Na verdade, já tinha visto algo que lhe chamara a atenção no dia anterior e logo o comprou. Após isso, pegou sua montaria e foi até a mesma casa onde jantara no dia anterior.

Não sabia bem porque, mas queria ver Samanthah e Dhomm novamente. Claro, já os conhecia desde criança, mas nunca se sentira próxima a nenhum dos dois como no dia anterior. Além do mais, ela queria observá-los novamente, ver como era a dinâmica do casal mais uma vez. Será que só os pegara em um dia bom? Será que, naquele dia, eles se mostrariam mais parecidos com ela e com Annatar? Sem entender bem porque, Vivithi precisava daquela confirmação. Queria saber onde estava o erro, onde estava o desarranjo da situação. Tinha a sensação que algo estava errado, mas não conseguia enxergar direito, pois seu amor pelo belo e alto elfo que a cortejara tão logo ela tinha idade para aquilo lhe nublava os pensamentos.

Assim que chegou, percebeu que haviam três falcoztruzes amarrados na entrada da casa. Será que os Fendessol estavam com visitas? Isso a fez ficar um pouco hesitante. Não queria ter que encarar ninguém que pudesse depois dizer a Annatar onde ela estivera naquele fim de tarde. Porém, já tinha comprado o presente e ido até a mansão dos Fendessol, logo devia ir até o fim. Apeou, amarrou seu falcostruz ao lado dos demais, apertou a campainha e esperou.

A porta foi aberta por um velho elfo. Se bem que, chamar aquele elfo de velho era muito simplista. Ele era muito, muito velho. Vivithi nunca vira um elfo cujos cabelos estavam completamente brancos antes, nem que andava meio curvado e apoiado em uma bengala. Seus olhos também eram opacos, sem a vivacidade do azul dos altaneiros. Mas, ainda assim, quando falou, sua voz estava alta clara e não demonstrava nenhum sinal de cansaço.

— Pois não?

— Ehhhhh… — a jovem ficara desconcertada com aquela figura inusitada – Vim visitar Lady Samanthah Fendessol. — ela não entendeu porque, de repente, sentiu necessidade de ser tão formal. Talvez porque se sentisse criança de novo.

O velho elfo lhe deu um sorriso e Vivithi se perguntou se os dentes de sua boca eram naturais ou próteses mágicas. Ele deu um passo para o lado e indicou o interior da casa para ela.

— Claro, menina, entre. — e depois que ela entrou e ele fechou a porta, fez um gesto para que o acompanhasse.

Vivithi o seguiu e ficou surpresa do velho elfo ter tanta agilidade. Ela precisou até mesmo apressar o passo para chegar até o jardim de trás. Lá, Samanthah tomava chá numa farta mesa com duas elfas muito bonitas que, pela aparência, eram parentes do ancião que a acompanhava.

— Vivithi! — exclamou Samanthah assim que a viu – Que surpresa!

A elfa grávida tentou se levantar para ir cumprimentá-la, mas foi impedida pelos protestos das outras duas que estavam lá. Samanthah apenas riu e sentou-se de novo. O velho puxou uma cadeira para Vivithi, que agradeceu e sentou-se.

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— Desculpe aparecer sem avisar. — pediu Vivithi sem jeito – Mas quis agradecer pelo jantar de ontem.

— Ah, fico muito feliz com sua visita! — Samanthah estava feliz mesmo, era algo que não dava para esconder – E esses três aqui não queriam me deixar sozinha antes de Dhomm chegar. Agora eles podem ir curtir o restinho das férias deles.

Então aqueles três eram os servos da casa. Aquilo era surpreendente. Vivithi não conhecia nenhum nobre que tomaria chá com seus servos, ainda que eles estivessem de férias. Aliás, não conhecia nenhum, exceto seus pais e os Fendessol, que davam férias para os servos. Já ouvira Annatar falar daquele hábito com desdém, se empertigando ao dizer que seus pais jamais deram férias ou folgas aos servos e que aqueles elfos deveriam ser gratos por servir a uma família tão importante quanto a dele. Queria ter dito naquele momento que a sua família era infinitamente mais importante que a dele e não tratava os servos com tanto desprezo, mas freara a língua. Não quisera acabar com o bom humor dele naquele dia.

— Deixe-me apresentá-los. — continuou Samanthah gesticulando com as mãos – Esse é Hobbs. — falou apontando para o elfo ancião – Ele trabalhou para os avós de Dhomm, para Lady Luelly e está conosco até hoje.

Vivithi olhou para Hobbs espantada. Ele não era apenas muito velho, ele era praticamente uma múmia! Uma múmia cheia de energia, mas, ainda assim, uma múmia!

— Na verdade, trabalhei para os pais dos pais da menina Luelly. — disse com imenso orgulho na voz – E mal posso esperar para ver a continuação da linhagem!

Não, múmia era pouco. Seria ele um aspecto dracônico? Só faltava ele dizer que viera com seus ancestrais de Kalimdor no mesmo navio que o primeiro rei dos Altos Elfos, Dath’Remar!

— Papai tem muito orgulho de servir aos Fendessol e nós também. — disse uma elfa de cabelos ruivos – Sou Lynn e essa é minha filha, Luthien. — a outra elfa de cabelos avermelhados deu um sorriso e fez um gesto com a cabeça para Vivithi.

— Vocês parecem irmãs e não mãe e filha. — comentou a jovem elfa com sinceridade.

Lynn e Luthien se entreolharam e riram satisfeitas. Não havia elogio melhor para uma mãe élfica com uma filha adulta que aquele.

— Estávamos preocupadas com a Sam o dia todo sozinha aqui enquanto o mestre está patrulhando. — disse Luthien, a mais jovem – É bom saber que ela recebe outras visitas.

— O jovem mestre não precisa desse trabalho. — reclamou Hobbs batendo a bengalada, nitidamente irritado – Milady Luelly deixou muito ouro para ele! Aquele rapaz devia se aquietar e ficar em casa, como todo bom lorde deve fazer!

— Você dizia o mesmo de Milady Luelly. — lembrou Lynn – E ela nunca ouviu.

— Nem o pai dela. — reclamou o velho – Nem o pai do pai dela. — o elfo bufou irritado – Essa família é estranha!

Todas as elfas riram. Apesar do que ele falara, seu tom deixava nítido o carinho que tinha por todos daquela família.

— Esse aqui não será diferente. — disse Samanthah passando a mão na barriga – Está pronto para mais um Fendessol, Hobbs?

O velho elfo abriu um imenso sorriso.

— Claro que sim! — disse carinhosamente.

Do jeito que aquele elfo era velho e cheio de energia, Vivithi podia apostar que ele viveria até os filhos dos filhos de Samanthah começarem a ter seus próprios filhos também.

Não demorou muito para que a família se despedisse de Samanthah e de Vivithi e se retirasse. A jovem elfa chegou a protestar, dizendo que, se fosse apenas por ela, poderia voltar outra hora. Só que aquela família jamais deixaria que sua preciosa patroa deixasse de conversar com uma amiga. Vivithi se surpreendeu a ser intitulada amiga de Samanthah, pois estava acostumada a ser a sobrinha do amigo de Dhomm, mas gostou. A fazia se sentir menos solitária.

— Eu trouxe uma lembrancinha para o bebê. — disse Vivithi entregando o pacote quando se viram sozinha – Espero que goste.

— Ah, não precisava! — Samanthah tinha um sorriso imenso quando recebeu o pacote – Mas muito obrigada! — e ao abrir o presente, seu sorriso ficou ainda maior – Que coisa fofa, uma roupinha de patrulheiro! Dhomm vai amar!

— Não sabemos se o bebê vai ser patrulheiro, mas a roupinha é tão fofa! — Vivithi sorriu – Ficará perfeito sendo menino ou menina.

— Ah, todos do esquadrão de Dhomm está apostando. — a elfa franziu a testa – Se é menino ou menina. Até agora, menino está ganhando.

— E você, o que prefere?

— Quero que venha com saúde. — respondeu singelamente – Não me importo com o sexo.

Vivithi ficou comovida com a fala de Samanthah. Sabia que a maioria das famílias preferia um filho para dar continuidade a linhagem. A elfa sempre achara isso absurdo. Acaso as elfas também não tinham filhos e filhas? Por que a linhagem sempre tinha que ser pelo pai se eram as mães quem mais sofriam? Uma vez dissera aquilo para seu noivo e isso gerou uma briga tão grande que ela tivera que pedir desculpas e jamais falou no assunto novamente.

— Já escolheu os nomes? — quis saber curiosa.

Samanthah fez que sim com a cabeça.

— Luxor se for menino e Luxuriah se for menina.

— Luxuriah? — espantou-se Vivithi – Por que esse nome? Não é pesado demais para uma criança?

— Ah, tem uma longa história por trás desse nome. — riu-se a futura mamãe – Gostaria de ouvir?

— Claro!

E nos minutos seguintes Vivithi ouviu, absorta, a origem do nome tão exótico que o casal escolhera caso tivesse uma filha. Os minutos viraram horas enquanto Samanthah emendou a história com diversas outras que vivera ao lado do marido. Claro, a mais jovem já ouvira que aqueles dois fugiram juntos muito tempo atrás, antes mesmo dela nascer, mas era diferente ouvir aquilo da própria Samanthah, principalmente porque ela não escondia todas as dificuldades que eles tiveram durante o relacionamento deles. Deixara claro que não era perfeito. Ainda assim, Vivithi ouvia tudo absorta, vendo na outra uma felicidade que há muito não via em si mesma ao olhar no espelho. Seria porque já estava casada? Seria por causa do bebê? Vivithi queria colocar muitas desculpas para a realidade das duas ser tão diferentes, porém, tivera que admitir que era diferente porque o comportamento de Dhomm era totalmente diferente do de Annatar. Claro, ela própria era diferente de Samanthah, não era? Estava por acaso tentando culpar seu noivo?

— Vivithi? — chamou Samanthah em certo momento.

— Oi? — a elfa enrubesceu ao perceber que não ouvia a outra há algum tempo.

— Está tudo bem? — perguntou preocupada – Você ficou tão calada de repente…

— Não é nada… — desconversou.

Samanthah a analisou por um momento.

— Ontem você teve um problema com seu noivo, não foi? Já resolveu?

Então ela lembrava.

— Sim, estamos bem. — disse forçando um sorriso.

— Ah, que bom que ele pediu desculpas! — falou animada – Você estava tão triste ontem!

— Por que você acha que ele deveria me pedir desculpas? — perguntou surpresa demais para segurar a frase.

— Ora, porque ele lhe tratou muito mal. — respondeu a maga franzindo a testa – Por que você acha que ele não te deveria desculpas? — agora era a maga quem perguntava com uma desconfiança crescendo dentro dela.

— Eu só… — o rosto de Vivithi estava rubro de vergonha – Acho que ele teve motivos para me tratar daquela forma. Eu o embaracei na frente dos amigos. — e diante do olhar incrédulo de Samanthah, completou – Eu costumo fazer muito isso sabe? E confundir com as coisas. Já passamos tanto por isso que estou pensando em procurar um médico, sabe? — ela falava rápido, com uma necessidade absurda de justificar seu noivo.

— Você sempre teve uma memória boa. — lembrou Samanthah, ainda desconfiada – Quando isso começou?

— Desde que fiquei noiva e saí de casa. — revelou – A primeira vez que aconteceu foi quando Annatar me chamou para ir ao teatro e quando cheguei lá, fiquei horas esperando. Depois, ele disse que a peça era no dia seguinte e não naquele. Brigamos feio, sabe?

— E vocês foram ver a peça no dia seguinte?

— Não, ele estava chateado demais. Disse que deu os ingressos a um amigo.

— Isso aconteceu outras vezes? — quis saber a maga.

— Sim, claro.

Animada por poder falar disso pela primeira com alguém, Vivithi passou a relatar as várias vezes que sua memória aparentemente falhou. Enquanto relatava os acontecimentos, não reparou que as mãos de Samanthah apertavam cada vez mais a xícara e que a expressão de preocupação que ela exibia não era para com a sua saúde, mas pela desconfiança que começava a despertar em sua mente.

— Então… — começou Samanthah após ouvir muitos relatos – Todas as vezes que isso aconteceu, foi com seu noivo?

— Isso.

— Ninguém mais presenciou? — quis saber.

Vivithi pensou um pouco.

— Os amigos dele.

— Nunca sua família ou suas amigas? — insistiu.

A elfa começou a procurar em sua mente quando esquecera de algo importante com seus pais. Depois de alguns instantes, percebeu, perplexa, que desde que noivara e saíra de casa, praticamente não vira os pais. Só quando eles foram ver seu apartamento. E desde então, não vira mais Lor’themar. Suas amigas… Bem, não as via desde que começara a sair com Annatar. Então, não havia outras testemunhas de seus lapsos.

— Bem, eu estive muito ocupada desde que me mudei. — justificou – Quase não vi meus pais. Nem o titio.

— Então basicamente você só tem as palavras de seu noivo e dos amigos dele de que isso acontece.

— E precisa mais que isso? — quis saber, confusa.

Estupefata, Samanthah se perguntou porque diabos Lor’themar não percebera ainda o que estava acontecendo. Nem mesmo ela, cujo relacionamento com a família não ia bem, estava a tanto tempo sem falar com os pais. Há dois dias, seu pai estivera ali, querendo saber se tudo estava em ordem. E mesmo que sua mãe ainda guardasse certa mágoa de sua fuga, sempre mandava comidinhas que ela gostava, desde que engravidara. Sem falar que Aethas, seu irmão, estava em Dalaran, bem longe dali, mas sempre havia uma carta dele. O que a maga via acontecendo era algo que a deixava com coração apertado: já vira acontecer antes. E se era realmente aquilo, devia ter cuidado ao falar com Vivithi.

— Eu tenho uma sugestão para você. — disse com um falso entusiasmo na voz, para não assustar a jovem, que já se encolhia em sua cadeira – Espere só um pouco.

Samanthah levantou-se com dificuldade e entrou em sua casa. Pouco tempo depois voltou com um caderninho com a capa dourada e entregou a Vivithi, antes de voltar para sua cadeira.

— Faça o seguinte: anote tudo que você planejar nos próximos dias. Com detalhes. Local e hora. Se for algum lugar onde tenha ingresso, confira o ingresso também. Aproveite e descreva como você se sente no dia. Assim, você pode achar um padrão para o que está acontecendo. — Samanthah lhe sorriu, carinhosamente – Talvez você até ache o que desencadeia essas suas…. Crises…

Vivithi lhe deu um grande sorriso e olhou par ao caderno.

— Nossa, Sam, eu jamais pensei em fazer algo do tipo! — ela folheou o caderno, que também tinha folhas douradas – Vocês magos são mesmo mais inteligentes que nós!

— Não, não somos. — refutou a maga com delicadeza – Apenas prestamos mais atenção aos detalhes. — e levando a xícara aos lábios, completou antes de dar um gole – E se minha suposição estiver certa, logo, logo você vai encontrar a causa de seus problemas.

— Espero que sim! — afirmou a jovem, empolgada.

“Espero que você esteja pronta para isso...”, pensou a maga, preocupada.

Talvez fosse a hora de chamar Lor’themar para um jantar.

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Lina gostava do sacolejar da carroça enquanto a distância entre a fazenda Wood e a Vila D’ouro era vencida. Gostava do sol em seu rosto, mesmo que ele a deixasse com um pouco de sardas no nariz. Gostava do vento em seus cabelos e do cheiro de mata que ele trazia. Mas, acima de tudo, gostava de estar com o pai, apenas os dois, enquanto o velho Sebastian cantarolava, com sua voz desafinada, velhas cantigas que seus pais cantaram para ele e que os pais dos pais dele cantavam também. Tudo isso fazia daquele dia um dia perfeito.

Seu urso Vicious os seguiam de perto, mas Lina sabia que ele não poderia entrar na vila quando lá chegassem. Anotou mentalmente o lembrete de passar em uma barraca de peixe e pegar umas sobras para seu querido urso pardo. Sorriu para ele e teve a sensação que ele sorria para ela também.

Os barris de vinho estavam bem amarrados e dariam um bom dinheiro se vendessem todos. O pai de Lina estava confiante, pois a Festa da Fartura estava se aproximando e muitos pequenos nobres estariam na vila naquele dia para a feira dos agricultores. O vinho dos Wood era muito conhecido, por isso era certo que não voltassem de mãos vazias.

— Si eu vendê tudim, — disse seu pai abrindo um sorriso – Vô comprar um presente bem bão pra você e tua mãe.

Lina deu uma risada.

— E fazer a fazenda entrar em guerra? — ela fez que não com a cabeça – Compre só pra mamãe, ela merece.

O velho Sebastian a olhou, com orgulho.

— Si fosse suas irmãn, elas iam era querê um presentim. — ele não falou com tom de desaprovação, pelo contrário – Mar, minha fia, num precisa nem di corda nova pro arco?

Ela fez que não.

— A última ainda está boa, pai. Não precisa se preocupar.

A jovem jamais diria ao pai que o que mais queria era uma bela espingarda; ele com certeza a compraria, e isso geraria um problema imenso em casa. Normalmente ela não se importaria em fazer raiva para os irmãos, mas sua irmã Ceiça acabara de ter o primeiro filho e estava passando um tempo na fazenda e uma gritaria no nível dos Wood não era boa para o pequeno recém-nascido. E também, Lina acordara de muito bom humor naquele dia.

Seu aniversário de dezoito anos fora duas semanas atrás e ela já estava apta para se inscrever no exército. Ainda não tinha contado ao pai, mas tinha certeza que ele não ia se opor. Lembrava bem o orgulho em seus olhos quando Tommy fora aceito. Talvez não gostasse de ela ter que viver em Ventobravo, mas era algo que o velho Sebastian se acostumaria com o tempo. Pretendia visitá-lo sempre que possível. Tudo dependia apenas de a convocação ter saído.

Quando finalmente chegaram ao seu destino, já havia muitas barracas montadas. Lina pulou da carroça assim que seu pai a parou e pegou as ferramentas. Seu pai amarrou os cavalos e logo foi ajudá-la. Naquele dia só os dois vieram. As irmãs não queriam pegar sol e os demais estavam ocupados com o engarrafamento da nova safra. Em pouco tempo a barraca estava montada e a jovem começou a descarregar os barris de vinho. Estava no meio do trabalho quando ouviu alguém cumprimentar seu pai e iniciar uma conversa.

— Onde estão seus filhos, Sebastian? — Lina achou que fosse um dos fregueses regulares de seu pai.

— Uns im casa e eu truce a mar nova. — respondeu o agricultor.

— Você deixa suas filhas pegarem no pesado? — perguntou o homem um pouco surpreso.

— Ela tem duar mão e duar perna. Purque num pode ajudá?

— Bem, ela é uma moça… — respondeu o outro sem jeito.

Lina se aproximou com um barril de vinho e o colocou com um barulho seco próximo onde os homens conversavam.

— Bom dia. — disse secamente antes de ir pegar os outros.

— Bom dia… — disse o homem sem jeito.

Depois disso, ele mudou de assunto. Lina, porém, tivera seu bom humor destruído. Por que diabos as pessoas sempre falavam o que ela podia ou não fazer por ser mulher? Como se o fato de ter uma vagina no lugar de um pênis influenciasse o funcionamento do seu cérebro. Com raiva, ela chutou uma das rodas, pois era melhor que chutar o cliente de seu pai. Vontade não faltava, mas a última coisa que o velho Sebastian precisava era que sua caçula estragasse outro negócio. Ano passado ela socara o filho de um dos outros agricultores. Claro, ele a agarrara a força. Fora crucificada em casa por isso. Lembraram de todas as coisas ruins que ela fizera. Como fora expulsa da escola (não tinha culpa de não aguentar as provocações com relação ao seu nome), como acertara uma flecha na bunda de um dos vizinhos (ele estava espionando ela tomar banho no rio!), e diversas outras coisas. Bufou com raiva. Por que sempre era culpara pelos erros dos outros?!

— Fia, andi logo! — ouviu seu pai chamar.

Pouco tempo depois, estava tudo arrumado. Como não tinha tato para lidar com os clientes, o pai a liberou para andar pela feira enquanto ele vendia. Ela aceitou, pois seu pai poderia não ter estudo e ser semianalfabeto, mas ninguém nunca o enganara nos negócios. Andou por entre as barracas, provou algumas coisas, ajudou algumas senhoras a montarem suas tendas e estava quase voltando para a tenda de seu pai quando ouviu alguém a chamar:

— Senhorita Wood!

Era o cabo Durão. Lina abriu o sorriso.

— Oi, cabo! — e olhando para ele, ansiosa – Saiu?

Com um movimento exagerado, ele entregou um panfleto a ela, como se fosse a coisa mais importante do mundo. E era. Era finalmente a convocação. Ela poderia finalmente se inscrever no exército de Ventobravo! Porém, quando seus olhos percorreu o papel, seu ânimo mingou.

— Amanhã?! A apresentação é amanhã?!

— Pois é, dessa vez o documento demorou a chegar. Vai dar tempo você ir?

Lina olhou para trás, onde seu pai servia uma amostra de seu vinho a dois homens muito gordos, que supos serem da pequena nobreza. Ficariam ali até o fim da feira e iriam para casa. Se quisesse ir para Ventobravo enquanto era dia, devia sair agora. Olhou novamente para o papel. Viu que a apresentação era até o fim da tarde. Seu ânimo voltou a aumentar. Se saísse com o nascer do sol, estaria na cidade ao meio dia. Tempo demais para se alistar.

— Vai dar certo! — exclamou a jovem dobrando o papel e guardando-o no bolso – Obrigada cabo!

— Me chame de Durão. — pediu ele ficando vermelho. Lina desconfiava que ele tinha uma queda por ela, mas Durão nunca falara nada e ela preferia assim. Não tinha nenhum interesse no cabo – E espero que você se destaque por lá. E não esqueça de seu amigo aqui.

— Pode deixar! — disse rindo – Obrigada!

Acenou para ele e voltou correndo para a barraca de seu pai, onde o mesmo já a olhava, com a testa franzida.

— O qui aqueli ômi queria cum você?

— Nada, pai. — respondeu. Preferia deixar pra discutir o assunto de sua viagem para Ventobravo em casa – Só perguntando sobre nosso vinho.

— Eli num tem paladá pra nossu vinho. — seu pai falava coma cara fechada.

— Tem razão, pai. — concordou Lina. Ela sabia que não tinha nada a ver com isso, era só ciúme, mas não ia dar corda para seu pai continua reclamando – Como estão as vendas?

— Bem, bem! — respondeu animado – Vô cumprar uma coisa bem boa pra sua mãe!

Na verdade, foi melhor do que os dois imaginaram. Antes do fim do dia, seu pai tinha vendido tudo que trouxera e ainda saíra cheio de encomendas. O humor dele estava excelente e Lina sabia que seu comunicado a noite seria facilitado por aquilo. Ajudou o pai a comprar o presente para sua mãe, pegou as sobras para Vicious e, antes do pôr do sol, já estavam no caminho de volta.

Foi uma festa imensa quando chegaram em casa sem vinho e com dinheiro. Sua mãe ficou toda vermelha e encabulada com o xale novo comprado especialmente para ela, mas isso não a impediu de enchê-lo de beijos. Todos riram e seu irmão mais velho, Varão, gracejou:

— Cuidado vocês dois! Mãe pode engravidar de novo e sair outra criança como a Lina!

Todos riram, menos a própria Lina. Fechou a cara e rebateu:

— Melhor que um retardado como você. Pelo menos sou útil.

Foi a vez de ele fechar a cara. Todos pararam de rir e ficaram no aguardo de um embate. Porém, sua mãe se interpôs entre os dois, já com o novo xale nos ombros e apaziguou.

— Hoji é dia di comemorá e num brigá!

O dois filhos, o mais velho e a mais nova, se mediram e decidiram, sem uma palavra, adiar o embate. Naquela noite, todos os Wood que estavam em casa se espremeram na mesa, pequena demais para todos, e comemoraram. Em determinada altura do jantar, com seus pais trocando beijos e carícias, Lina decidiu que era hora de falar.

— Pai, mãe. — chamou ela. Quando só dois olharam, ela tirou o papel do bolso e estendeu na mesa – Saiu a convocação para ingressar no exército de Ventobravo.

O velho Sebastian olhou para o papel e depois para a filha.

— I daí? — quis saber sem se empolgar muito.

— Pai, eu quero me inscrever. — com ansiedade

— Não. — foi tudo que ele disse.

Houve um momento de silêncio. A perplexidade era palpável, afinal, nunca, nunca, aquele velho agricultor dissera um não com tanta ênfase à sua filha preferida. Mas sem dúvida, a pessoa mais surpresa era a própria Lina. Achava que teria problemas para conseguir o cavalo emprestado para ir até a capital, mas nunca que seu pai lhe dissesse um redondo e sonoro “não”, antes o seu desejo.

— Pai! — exclamou, perplexa – O senhor não entendeu, eu quero entrar no exército, como o Tommy!

— Tommy é ômi, você num é. — respondeu ele sem nem olhar para a filha.

Lina encarou o pai, a decepção tomando conta de seu ser e de sua face. Seu pai nunca, nunca a impedira de fazer nada por ser mulher. Pelo contrário. Naquela manhã mesmo não a defendera de um de seus conhecidos machistas? Por que agora, de repente, ele passava para o lado de lá? A raiva era tanta que Lina teve vontade de começar a gritar e quebrar tudo. Se fosse outra pessoa, já teria feito isso. Mas era seu pai. Se explicasse com carinho, ele a entenderia, não é mesmo?

— Pai, eu… – começou.

— Não! — o grito de seu pai a pegara de surpresa e ela praticamente pulou na cadeira – Você num vai!

As lágrimas começaram a brotar dos olhos de Lina e ela, pela primeira vez na vida, olhou para a mãe, em busca de apoio. Porém, a velha senhora estava tão abismada como a filha. Não apenas ela, mas todos. Lina não apenas nunca recebera um não de seu pai, mas também nunca tinha sido gritada por ele.

— Sebastian… — começou dona Mariana, cautelosamente – Dexa a minina falar… — pediu timidamente.

— Não! — a negativa veemente agora era acompanhada de fúria – Ela num vai! Num tem o que vê em exército nem em Ventobtravo! U cantu dela é im casa!

A perplexidade de Lina deu lugar à raiva. O rosto da jovem ficou rubro e começou a gritar, no mesmo tom do pai:

— Eu tenho dezoito anos! Você não manda mais em mim!

O rosto do velho ficou em brasa também e ele bateu o punho com força na mesa.

— Inquantu morá na minha casa, vai mi obedecê! — e apontando para a escada, ordenou – Vá pru quartu! Agora!

Por um instante ela ficou parada, incapaz de acreditar no que ouvia. Quando seu pai fez menção de se levantar, talvez para levá-la ele mesmo pro quarto, ela se levantou, não sem antes derrubar a cadeira e jogar o prato de comida no chão, enraivecida.

— Tá di castigo! — seu pai gritou.

— Não me importo! — gritou de volta antes de subir as escadas pisando duro e se trancar no quarto.

Ainda ouviu os gritos de seu pai a acompanhar por um tempo, mas depois fechou a porta e se sentou pesadamente na cama. E chorou. Chorou como nunca tinha chorado todos esses anos. Tinha motivos para isso. Seu pai nunca a tratara daquele jeito e aquela noite parecia uma traição de tudo que eles sentiam um pelo outro. E chorou porque sonhava entrar no exército há anos, desde que vira Tommy vestido em seu uniforme. Dissera a seu pai várias vezes daquele desejo, mas ele apenas ria e passava a mão na sua cabeça. Ela sempre considerou isso um apoio. Porém, agora entendia que ele nunca levara a sério seu desejo. Tratava como uma brincadeira, ou pior, como uma piada. Arrasada, enroscou em si mesma e ficou deitada, sentindo pena de si mesma. Não poderia ir para Ventobravo. Não entraria no exército. O que poderia então esperar do futuro? Ficar na fazenda com todos seus detestados irmãos vendo-os envelhecer, terem mais filhos e ficarem mais chatos? Esperaria até seus pais morrerem e eles a colocarem para fora? Ficaria ali remoendo enquanto havia tanto o que fazer fora das cercas do vinhedo? Não, não, tinha que haver um jeito. Mais de uma vez ela fez menção de se levantar e ir conversar com seu pai, mas ainda estava magoada demais para isso. Então continuou na cama, encolhida, triste e muito frustrada.

Um jeito… Um jeito… Tinha que haver um. A cabeça de Lina era um turbilhão, e ela pensava tudo que poderia dizer o pai. Pensou em ameaçar, em suplicar, em chorar, mas a expressão de raiva de seu pai deixara claro que ele não cederia. Sempre que dizia não a um de seus irmãos, ele não cedia. Lina nunca recebera um não e agora sentia um pouco da frustração que vira tantas vezes em seus irmãos. E o pior, era que todos sabiam que, dito um ‘não’, o velho Sebastian não voltava atrás.

Foi quando algo surgiu em sua cabeça. Ela era maior de idade. Ela não precisava de permissão. Bastava ela sair de casa e ir. Claro, isso poderia significar não poder mais voltar para casa, mas quando entrasse no exército, não precisaria voltar. Era isso. Tinha que ir embora. Simples.

Levantou-se, com uma nova injeção de ânimo dentro de si, mas murchou quando percebeu que dificilmente seu pai a deixaria sair livre, leve e solta pela porta da frente. Não. Ele iria se opor. Talvez até prendê-la em casa. Olhou para a janela do quarto. Ali seria sua saída.

Começou a arrumar freneticamente suas coisas, tentando medir o tempo em que passara ali se lamuriando e se perguntando se daria tempo fugir antes de suas irmãs chegarem. Porém, seus planos logo foram adiados pelo barulho das irmãs conversando no corredor. Jogou as coisas na cama, deitou-se, puxou o cobertor e fingiu dormir. Teria que esperar aquelas duas dormirem para consolidar sua fuga.

Quando Linda entrou no quarto, acompanhada de Lícia, Lina percebeu que as duas vinha conversando empolgadas e o assunto era o Kirin Tor, como sempre, mas também, para sua surpresa, um homem. Ambas falavam em sussurros, e a mais nova não sabia se era para os demais familiares não ouvirem ou para não acordá-la. Apostava mais na primeira alternativa.

— Então, saímos no sábado passado. — falava Lícia enquanto trocava de roupa, alheia que era ouvida por Lina – Ele veio com aquela conversinha mole de ir depois na casa dele ver a coleção de pergaminhos arcanos. — Lícia riu – Como se eu fosse cair nessa!

— E o que você fez? — quis saber a outra.

— Disse que não, que tinha meus próprios pergaminhos. — ela parecia orgulhosa disso.

— E ele? — Linda estava empolgada e Lina queria furar os próprios ouvidos.

— Ficou decepcionado, lógico. Mas mostrei pra ele que não uma dessas que anda por Dalaran saindo com tudo mundo! Se quiser ficar comigo, é pra casar!

Linda bateu palmas, em concordância com a irmã.

— Isso mesmo, Lícia! Coloque limites e logo vocês dois estarão no altar! — a moça suspirou – Como eu e meu noivo!

Lina imaginou que ela devia estar agora mostrando a aliança novamente como a exibia a dias pela casa. Como se fosse grande coisa casar com um sacerdote que vivia numa vila minúscula no meio da Floresta do Crepúsculo!

— A mamãe está muito animada com seu casamento e ficará com o meu. — continuou Lícia – Afinal, será a última vez que verá uma filha subindo ao altar!

— Ainda tem a Lina. — lembrou Lícia e Lina imaginou se ela estava apontando-a.

Lícia não conseguiu conter uma gargalhada, mas logo foi interrompida pelo ‘shhh’ de Linda. A outra, então, baixou o tom novamente.

— Essa aí não casa nunca. Ninguém vai aguentá-la.

Ah, como se Lina se importasse com isso.

— Parece que ela está mais interessada no exército. — lembrou Linda.

— Que não vai conseguir também. Viu como papai ficou enfurecido? — havia um tom de animação na voz dela que fez Lina ter vontade de levantar e espancá-la – Eu não duvido nada que ele vá prendê-la em casa amanhã a partir de amanhã.

— Fiquei com um pouco de pena dela. — confessou Linda – Tipo, eu e você pudemos seguir nossos estudos, porque ele não a deixa fazer o que quer?

— Não faço ideia, mas acho bem-feito. Ela só nos critica por nossas escolhas, nada mais justo que não ter a dela.

Aquilo atingiu Lina mais forte do que ela imaginava. Lágrimas voltaram a escorrer em seus olhos, agora fechado e a jovem fingiu que se mexia durante o sono, para poder esconder suas emoções. Só que não sentia tristeza. Era raiva. Raiva porque elas tinham razão. Lina, a sempre queridinha do papai, era a única que estava sendo privada de seu sonho! Isso era muito injusto! Suas irmãs pararam de falar quando ela se mexeu e esperaram um pouco, esperando para ver se ela dormia mesmo para continuar.

— Não sei como ela ainda está aí. — disse Linda e, pelo barulho que fazia, estava se cobrindo com o lençol – Achei que a essa hora, ela estaria longe.

— Tipo, fugir de casa? — perguntou Lícia estarrecida – Não, ela não teria coragem de fazer isso. Essa história do exército deve ser só pra ficar perto do Tommy. — a outra também se deitou – Daqui a pouco ela esquece isso e volta a ser a queridinha do papai. Até lá, vou me divertir com as lembranças de hoje!

As duas riram e continuaram conversando, e logo as conversas foram esvanecendo. Em pouco tempo, Linda e Lícia dormiam. Por mais incrível que fosse, Linda parecia ter sido a única a compreender a real extensão do desejo de Lina. Não conseguiu evitar rir, pensando que Lícia ficaria possessa quando soubesse que estava errada e a irmã certa. Por que, naquela noite, Lina Wood sairia de casa a calada da noite para se juntar ao exército, querendo seu pai ou não.

*******************

Era madrugada quando Varian conseguiu reunir todos os generais em sua sala enquanto aguardavam a chegada de Horatio Lane. Os quatro generais pareciam cansados e um pouco surpresos de terem sido chamados pelo rei naquele horário. Talvez imaginassem que finalmente uma guerra aberta e declarada com a Horda teria começado, porém, o silêncio de Varian os deixava apreensivos e inquietos. O rei não falara absolutamente nada do motivo da convocação, apenas os colocara ali e aguardava em silêncio.

— Meu rei… — chamou o general Jonas – Pode nos dizer qual o problema?

Varian o encarou. O general Jonas demorara horas para chegar na Bastilha. Só o fizera porque o rapaz chamado Jon fora buscá-lo com ordens reais para a apresentação, logo o rei não estava nenhum pouco feliz, mesmo ele tendo finalmente encarcerados os irmãos Jones.

— Vocês logo saberão. — limitou-se a dizer.

Ninguém se atreveu a insistir. A expressão de Varian estava tão sombria e tensa que os generais temiam que acabassem sendo vítimas secundárias da fúria que emanava do guerreiro. Se soubessem que, ao menos uma parte daquela raiva era direcionada a eles, estariam mais que apreensivos. Estariam aterrorizados.

Foi impossível para Varian não olhar para aqueles rostos e não pensar que Lina jamais estaria ali. Jamais vestiria aqueles uniformes pomposos e armaduras brilhosas. Sempre seria a comandante da Bastilha. E só. Não porque não fosse capaz, mas porque tinha nascido plebeia. Simples assim. Toda sua vida fora decidida quando nascera numa família humilde. Mas o mesmo não acontecera com ele? Varian não pediu para ser rei; simplesmente nascera para sê-lo. Só que algo os diferenciava: Lina, apesar de tudo, fora livre pra escolher seu caminho. Varian recebera treinamento intensivo para cumprir o seu papel de Rei; Lina treinara duro e abrira mão de muita coisa para estar onde estava. Depois, seu nascimento barrara suas ambições. Varian, por sua vez, nunca teve a chance de escolha. Tiffin, sua esposa, fora escolhida por seus pais. O amor de ambos fora pura sorte. A única vez que estivera livre daqueles laços fora quando Lady Prestor separara-o em dois. Ele não pode deixar de dar uma risada, pois mesmo como gladiador, ainda permaneceu rei. Nunca Varian tivera escolha. Nem mesmo agora, pois jamais escolhera amar Lina.

Uma batida na porta e um soldado entrou e bateu continência.

— Tenente Lane chegou, majestade. — anunciou.

— Mande-o entrar.

Os generais se entreolharam, surpresos com o anúncio que Horatio Lane estava ali. Todos sabiam que o tenente era responsável por investigar evidências de crimes que fugiam à alçada da AVIN, aqueles mais banais, envolvendo civis, e que muitas vezes eram relegados ao segundo plano pelo exército. Aquele tenente chegara até mesmo a derrubar pessoas importantes, que cometeram delitos e achavam que sua reputação os protegeriam. Se havia alguém que todos se calavam e ouviam no que dizia respeito a reconstrução de crimes, esse era Horatio Lane.

Mesmo com um currículo impecável e uma conduta ilibada, alguns dos presentes na sala franziram a testa. Ser eficiente e justo não tornara o tenente Lane amado, muito pelo contrário. Sua insistência em fazer justiça, independente da posição do acusado, o fizera ganhar inimigos em todas esferas. Mas também lhe concedera o respeito de muitos outros, inclusive o de Varian, que sempre o ouvia com atenção. Claro, algumas pessoas já haviam tentado dar cabo dele, mas o tenente era difícil de se abater. E se alguém conseguisse, a equipe do tenente, treinada especialmente pelo próprio, acharia a pessoa que, com certeza receberia a pena máxima das mãos do rei. Por isso, quando o tenente entrou na sala, os generais se olharam, apreensivos. Estariam repensando seus atos, tentando descobrir se fizeram algo?

Varian analisou o tenente Lane tão logo este se colocou sobre as luzes das tochas. Alto e ruivo, sua figura impunha respeito. Como sempre, Horatio Lane vestia um terno preto, de sapatos sociais e com um óculos de sol pendurado no bolso. Era o único militar que Varian conhecia que dispensava armaduras; afirmava que isso atrapalhava seu trabalho. Também não usava espadas ou armas cortantes. Sua única defesa era uma pistola, guardada em um coldre preso ao seu cinto. O rei se perguntou como o homem conseguira escapar de todos as tentativas de assassinato sem armadura e com aquela pequena arma. Ou ele era muito inteligente, sagaz e com um senso de perigo afiadíssimo, ou seus inimigos eram extremamente incompetentes.

— Majestade. — saudou o tenente em sua voz rouca e em tom baixo, fazendo uma leve reverência com a cabeça.

— Tenente. — respondeu Varian – Trouxe o relatório?

— Completo e concluído, majestade.

— Ótimo. — e olhando para os generais, começou a falar – Trouxe vocês aqui hoje para tratarmos de dois assuntos urgentes. Um deles diz respeito ao ataque sofrido pela comandante Wood, do qual o tenente Lane trouxe o relatório. Contudo, vamos falar primeiro do outro motivo, e eu gostaria que o tenente servisse como minha testemunha.

— Como precisar, meu rei. — respondeu ele.

Varian deu uma pausa e olhou bem para os quatro generais. Na ponta direita da mesa, o comandante Mascus Jonas, responsável, dentre outras coisas, pela segurança de Ventobravo e da Bastilha. Pelo menos, no papel. Naquela noite, Varian descobrira que quem mandava mesmo ali era Lina. Ao lado desse, Lady Cláudia, General-brigadeiro, responsável pelas ações do reino de Ventobravo em terras estrangeiras e única mulher de patente de destaque entre os humanos. O rei imaginou quão bonita Lina ficaria nos trajes da outra mulher. Do outro lado, na ponta esquerda, o general Arlos, que foi uma das figuras mais importantes da Aliança em Nortúndria. Fora ele quem mais apoiara a decisão de entregar o cargo de Bolvar Fordragon à comandante Wood, na época apenas capitã. E, por último, Raymond Crowe. Varian não gostava de Crowe. Aquele homem só estava ali porque necessitavam de mais um general e ele fora o único candidato viável. A raiva borbulhou dentro de Varian novamente.

— Caros generais. — começou sem esconder a impaciência – Podem me dizer porque a Bastilha se encontra um caos?

A pergunta foi recebida com surpresa pelos quatro, que se entreolharam, confusos. Varian então continuou:

— Homens que deviam estar no cárcere estavam na Bastilha por horas. Soldados jogando cartas quando deviam vigiar. Curandeiros que não aparecem quando são requisitados. Papeladas imensas jogadas em mesas, esperando serem despachadas. E eu ainda não vi a escala dos soldados para os próximos dias. — Varian se recostou à cadeira – Expliquem-se.

A primeira a falar foi Lady Cláudia.

— Majestade, com todo respeito, a Bastilha não está dentre minhas responsabilidades. Como meu rei sabe, sou responsável pela atuação da Aliança no Planalto do Crepúsculo e estou mobilizando minhas tropas para a viagem, que sairá em breve. — e ao ver a expressão confusa do rei, perguntou – Vossa majestade não recebeu meu relatório?

— Não, Lady Cláudia, não recebi. — disse o rei franzindo a testa – Suponho que o enviou no dia vinte e três, certo?

— Sim, majestade. — respondeu sem esconder a surpresa – Como sabe?

— Porque foi o dia em que a comandante Wood saiu de férias. — disse sem rodeios – Se ela estivesse aqui, tenho certeza que o relatório estaria em minhas mãos. — e olhando para os outros três, ordenou – E vocês três, o que me dizem?

O general Arlos foi o próximo a falar.

— Estou de férias, majestade. O senhor mesmo me recomendou isso depois que retornei Nortúndria. Mandei a requisição recentemente para seu conhecimento.

— Que também não chegou. — a voz de Varian ficava cada vez mais tensa – Suponho que tenha enviado no mesmo dia que a Lady Cláudia enviou o dela.

— Exato, majestade.

Agora o olhar do rei recaiu para os últimos dois, que estavam visivelmente assustados.

— E vocês? Estão de férias? Planejando ações da Aliança? — questionou Varian apertando os olhos.

— Não, senhor. — responderam os dois em uníssono.

— Então porque diabos minha Bastilha está um caos?! — Varian gritou e bateu com a mão na mesa.

Os dois generais balbuciaram algumas desculpas, mas o rei logo os interrompeu:

— Vocês tem até amanhã de manhã para colocar a Bastilha nos trilhos, ou podem se despedir de suas insígnias!

Atordoados, o general Jonas e o general Crowe fizeram menção de se levantar de suas cadeiras, quando Varian tornou a gritar:

— Não dei permissão para vocês se retirarem! — os homens caíram pesadamente nas cadeiras novamente – Ótimo! — e olhando agora para o tenente Lane, que assistia a tudo incólume, falou, dessa vez com a voz controlada e calma – Tenente, ponha os generais a par do próximo problema.

O homem assentiu com a cabeça e abriu o arquivo que trazia nas mãos. Porém, antes de começar a leitura, um pigarro foi ouvido. Varian e Horatio olharam para a fonte do ruído e viram o general Jonas olhando para o rei.

— Se me permite majestade… — começou.

— Não, não permito. — cortou o rei – Silêncio, todos vocês. — e olhando para o tenente, ordenou – Leia.

Antes de começar a leitura, o tenente Lane deu uma boa olhada nos generais que lá estavam. Seu olhar se deteve um pouco mais em Raymond Crowe. Tinha um bom motivo para isso.

— No dia vinte e cinco do décimo segundo mês do décimo quarto ano do reinado de Varian Wrynn, dia em que todos os povos comemoram o Véu de Inverno, a comandante do exército de Ventobravo, Quengacilina Wood-

A leitura foi interrompida uma risada indiscreta, vindo de um dos generais, justamente do general Crowe. O tenente levantou a cabeça, visivelmente irritado com a interrupção e disposto a fazer uma reclamação formal ao rei por aquela atitude desrespeitosa. Todavia, não foi necessário. Ao ouvir o riso, a fúria tomou conta do rei que, sem nenhuma cerimônia, bateu novamente a mão com força na mesa, assustando todos os presentes. Depois, lançando um olhar aterrorizador para o general, elevou sua voz grave e praticamente rosnou:

— Qual é a graça, general Crowe?

Engolindo em seco, o general respondeu hesitante:

— E-eu só… — gaguejou – O nome da comandante…

— O que tem o nome da comandante, general? — Varian fechou os punhos e se inclinou na direção do homem, com uma raiva tão grande nos olhos azuis, que estes pareciam em chamas.

— Nada senhor. — o general teve o bom senso de dizer – Não há nada.

— Ótimo. — disse Varian antes de olhar novamente para o tenente Lane – Continue.

Depois do esporro do rei logo no início da sessão, era impressionante que tanto Jonas quanto Crowe tivesse a coragem de sequer abrir a boca. Horatio não sabia se era imprudência ou só burrice mesmo. Voltando os olhos para o papel, o tenente voltou a ler. Em seu relato, contou um resumo do ocorrido: uma luta ocorrida entre os limites de dois lordes, há uma hora de cavalgada da Vila D’Ouro, em virtude da caça de uma ursa e seus filhotes. Depois do resumo, Horatio Lane deu as duas versões dos depoimentos: a de Lina, onde ela flagrara os homens e eles a atacaram pelas costas e ela revidara, e a dos irmãos Jones, que a acusaram de atacá-los sem nenhuma conversa e que eles apenas revidaram. Nesse momento, o tenente deu uma pausa e olhou para o general Crowe. Crowe estava agora com o rosto muito vermelho e com os punhos fechados, tensos. E tinha motivo para isso. Os irmãos Jones trabalhavam para o pai do general, o Barão Crowe e eram responsáveis junto com o Jones Pai pela maior fazenda da família nobre. Pelas leis, o Barão Crowe tinha o dever de coibir e punir más ações vindas de seus agregados, então aquela acusação não era boa para o pai do general.

— Isso é um acontecimento muito grave. — falou Lady Cláudia se ajeitando na cadeira – Se a comandante foi atacada é um crime frio e cruel contra um membro de nosso exército; se foi ela quem atacou, isso compromete nossa imagem de idoneidade.

— Agora entendo porque o tenente foi chamado. — comentou Arlos preocupado.

— Qual foi o resultado de sua perícia, tenente? — quis saber o general Jonas, que se sentia arrependido de ter demorado tanto para despachar os irmãos Jones para o cárcere tanto pelo puxão de orelha que recebera do rei quanto pelo que acabara de ouvir.

O general Crowe nada falou. Horatio Lane então começou a relatar os lugares que haviam sido periciados, o que eles encontraram nas cenas da luta, as provas coletadas nos lugares, a análise feita no corpo e nas roupas tanto da comandante quanto dos três acusados. Nesse momento, Varian se remexeu incomodado na cadeira. Então o tenente vira Lina sem roupa? Aquilo não ficara claro, mas quando ele levantou um desenho feito do ombro de Lina para mostrar a todos, o rei trincou os dentes e apertou os braços da cadeira. Teve que fazer muita força para lembrar que o tenente era um aliado e não um inimigo. Quando, depois de apresentadas as balas retiradas de Lina (lembrando que eram de chumbo, proibido no reino) e as flechas tiradas dos Jones, o homem fez outra pausa antes de proferir a sentença.

— De acordo com a minha investigação, as evidências comprovam que a versão da comandante Wood é verdadeira.

— Isso é um absurdo! — ouviu-se o general Crowe exclamar.

Todos na sala o olharam, alguns espantados, outros furiosos. A fúria vinha do rei, que não estava acreditando que o general ousava questionar a palavra de Lina, e de Horatio Lane, que não estava acreditando que seu trabalho estava sendo questionado.

— Por que acha um absurdo, Raymond? — perguntou Lady Cláudia – A explicação de Horatio foi bem clara.

— Deve haver algum mal entendido nisso tudo. Os irmãos Jones não mentiriam sobre algo tão sério!

— Diz isso por causa da conduta ilibada dos três? — perguntou o tenente com ironia.

O general engasgou por um momento. Nem mesmo ele poderia defender a conduta dos irmãos, cuja fama chegava a Ventobravo. Logo, tinha que recorrer a outros artifícios.

— Sim, eu sei que os Jones tem um temperamento difícil, mas eles nunca ousariam atacar um membro do nosso exército sem razão aparante.

— Ah, mas teve uma razão, general. — continuou Horatio Lane – Eles fizeram porque a comandante Wood os denunciaria por um crime.

— É o que ela diz. — retrucou.

— É o que as evidências dizem. — rebateu o tenente.

— Evidências que você analisou. — enfatizou o general apontando o dedo para o outro.

— Sim, analisei. — confirmou o outro ainda calmo, com a voz no mesmo tom, mas em seus olhos era evidente a raiva – Por acaso está colocando meu trabalho em dúvida, general?

— Estou.

A tensão tomou conta da sala. O tenente Lane fechou o arquivo e cruzou os braços. Apesar de sua patente menor, ele encarou o general como se estivessem em pé de igualdade.

— Meu trabalho sempre foi idôneo, general. Gostaria de saber os motivos que o levam a questionar o meu relatório. — falou friamente.

Por um momento, o general Crowe ficou calado. Talvez não estivesse esperando que um simples tenente o desafiasse ou talvez estivesse pensando em uma resposta que fizesse sentido.

— Ora, tenente… – começou Crowe com um sorrisinho falso – Faria sentido você fazer um parecer favorável para a comandante já que vocês são… Amigos…

O estômago de Varian se revirou, não pelo que o general falou, mas pela malícia contida na última palavra. E, aparentemente, ele não foi o único a sentir asco daquelas palavras.

— Como? — perguntou o tenente, mais irritado que surpreso.

— Ah, tenente… — Crowe deu uma risadinha – Não se faça de bobo! Vocês atuaram juntos no Cerro Oeste, não é mesmo?

— Cheguei a auxiliar a comandante, que na época era tenente como eu, na investigação sim. — disse o tenente mais sério ainda – O que isso tem a ver?

O sorriso do general se alargou ainda mais.

— A comandante é uma mulher bonita… Talvez a amizade de vocês tenha ficado mais profunda… — ele se inclinou para a frente, a malícia brilhando em seus olhos.

Varian queria levantar da cadeira e quebrar o pescoço de Crowe, mas não foi necessário. Seu comentário cheio de malícia despertou a fúria de mais uma pessoa da sala e não era nenhum dos homens presentes.

— O que está insinuando, Raymond? — a voz de Lady Cláudia estava carregada de irritação – Que a comandante trocou o relatório do Horatio por sexo? Gostaria de saber como ela fez isso, já que se encontra enferma e correndo risco de morte!

Supresso com o ataque vindo da general-brigadeiro, Crowe pigarreou antes de tentar se explicar:

— Bem, eu quis dizer… — balbuciou.

— Eu sei muito bem o que você quis dizer! — cortou a mulher – É mais fácil assim não é? É mais fácil passar a reputação de uma mulher na lama para desqualificar o que fizeram com ela, não é? É mais fácil a mulher ser a puta ardilosa que vai estragar a pobre vida de um homem, não é? — a voz da general-brigadeiro estava cheia de indignação.

— Cláudia! — o general Crowe estava agora nervoso – Eu não quis fazer isso!

— Tem certeza que não quis? — havia uma raiva indescritível no olhar da general-brigadeiro.

Por um momento o homem ficou sem fala, mas logo seu rosto estava escarlate, como se finalmente tivesse percebido algo. A vergonha em seu rosto foi então substituída por raiva.

— Não tente jogar em cima de mim seus ressentimentos a respeito de sua irmã! — gritou-lhe Crowe.

O rosto de Lady Cláudia ficou pálido e ela prontamente se levantou, procurando a coronha de sua arma.

— Não ouse falar sobre minha irmã, Crowe! — sibilou Cláudia, tremendo de fúria e já puxando seu rifle gnomídio.

— Venha me calar, então! — desafiou Crowe levantando-se também e puxando sua espada.

A situação parecia totalmente fora de controle. Os generais Jonas e Arlos se encaravam, perdidos, sem saber o que fazer. Horatio Lane estava com muito mais que raiva de Crowe, estava com nojo. Todos sabiam o quão Lady Cláudia era sensível com o que acontecera à irmã e mencioná-la naquela situação foi cruel e só corroborava o que a general-brigadeiro disse. Se não fosse assim, por que ele citaria uma jovem moça que tivera a reputação e a vida destruída por boatos infundados? E enquanto a cena se desenrolava, a pouca paciência do rei chegou ao fim.

Se Anduin estivesse ali, se admiraria pelo fato de Varian ter aguentado tanto antes de gritar a plenos pulmões:

— Já chega! — e dessa vez bateu com os dois punhos fechados na mesa.

O silêncio se fez. Ainda tremendo, Lady Cláudia guardou seu rifle e tornou a sentar-se. Crowe ainda ficou um momento em pé, então embainhou a espada e sentou-se. Varian levantou-se e olhou demoradamente para cada um dos generais. Quando seu olhar se deteve na única mulher da sala, esta baixou a cabeça e pediu, formalmente:

— Perdoe-me, meu rei. — sua voz estava trêmula – Eu jamais deveria ter perdido a compostura.

— É nisso que dar colocar mulheres nesses cargos, elas são sensíveis demais e se deixam levar! — reclamou Crowe, recebendo olhares de desaprovação dos demais.

— Então é isso que você acha, Crowe? — perguntou Varian com a voz estranhamente controlada – Que a falta de compostura de Lady Cláudia é por causa de seu sexo?

— É minha opinião, majestade. — respondeu pomposamente.

— Estranho, pensei que fosse porque você ofendeu a memória de um ente querido dela que já se foi. — os olhos do rei pareciam brasas agora.

O general abriu a boca para dizer algo, mas teve a sábia ideia de ficar calado. O rei se levantou e caminhou entre os generais. Sua vontade era pegar a cabeça de Raymond Crowe e bater na parede até que ela se abrisse e ele pudesse conferir se havia mesmo um cérebro ali. Porém, Lina não gostaria daquilo. Nem Anduin. Nem ele próprio, quando recuperasse a calma. Por isso, pediu a Lo’Gosh que deixasse Varian cuidar de tudo. Diplomaticamente. Como um rei. Sentiu um alívio ao perceber que o lobo enroscou-se em si mesmo e ficou observando.

— Sabe, general Crowe, gostaria de saber o que Tyrande Murmuréolo teria a dizer sobre esse seu pensamento. Você sabe, a líder dos elfos noturnos. — e olhando para o homem, que agora estava pálido, continuou – Ou Jaina Proudmoore, grã-senhora de Theramore que, como você deve lembrar, é nosso baluarte em Kalimdor. — o rei deu uma pausa e olhou para Lady Cláudia, que pressionava seus lábios, provavelmente para conter a fúria – Eu poderia lhe dar uma longa lista de mulheres que servem nosso povo. E até dizer algumas que queremos ver longe. O que acha, Lady Cláudia, que a Rainha Banshee diria do pensamento do general Crowe?

— Acho que ela ficaria ofendida, majestade. — respondeu sem conter um tímido sorriso.

Varian pousou a mão no ombro de Lady Cláudia. Lembrava bem a tragédia que assolada sua família. Jamais conseguia imaginar como seria lidar com a perda de uma pessoa tão amada de forma tão trágica, por causa da mente fechada e dos preconceitos de algumas pessoas. Jamais conseguia imaginar o que sentiria sabendo que Anduin tirara a própria vida, para não ter que lidar com pessoas como Crowe. Era revoltante que aquele homem pudesse ser general e Lina não.

— Mas, vamos pensar um pouco como o general Crowe. — disse o rei indo até onde Horatio Lane estava – Vamos pensar, por um momento, que as mulheres, por serem mulheres, são incompetentes. — o rei olhou novamente para o general – Então, Crowe, qual a desculpa para a incompetência de seu pai, já que ele é um homem?

Ninguém esperava aquela fala do rei, muito menos o general a quem ela fora dirigida. A expressão do homem era um misto de raiva, vergonha e frustração. Sem saber o que fazer ou dizer, apenas ficou calado, olhando para o rei.

— Os irmãos Jones já criavam problemas há algum tempo, estou certo, tenente?- perguntou Varian.

Horatio Lane assentiu com a cabeça e abriu novamente o arquivo.

— Tomei a liberdade de anexar ao processo todos os delitos que foram atribuídos aos irmãos Jones nos últimos anos. — anunciou o tenente.

— Excelente, gostaria de ouvi-los. — Varian rapidamente voltou para sua cadeira e fez um sinal para que os relatos fossem lidos.

Nos minutos seguintes os quatro generais e o rei ouviram todos os delitos que eram imputados aos irmãos Jones. Em comum, todos tinham o fato dos irmãos estarem embriagados e acabavam ferindo alguém, além de sempre ter uma nota dizendo que o lorde a quem eles serviam, no caso, o Barão Crowe, ficaria responsável por sua punição. Ao final dos relatos, que eram muitos, o rei ficou em silêncio por um momento, com a expressão pensativa e depois falou:

— Bem, só há duas explicações possíveis a esses casos: ou seu pai foi conivente, general, ou omisso.

— Meu pai é um bom homem! — protestou o general, depois de recuperar a voz – Ele jamais permitiria nenhuma dessas coisas!

— Então ele foi omisso.- concluiu Varian – Ou… — o rei se inclinou para o general, antes de falar, com a voz agora mais grave – Você vai culpar a comandante por isso também? Vai dizer que ela dormiu com todas essas pessoas que denunciaram os irmãos Jones apenas pelo puro e simples prazer de estragar-lhes a vida. — e dando mais uma pausa, acrescentou – Vai dizer que eu também durmo com ela, para estar defendendo-a, general?

Sem saber o que dizer, o general apenas baixou a cabeça.

— Vamos, general. — chamou Varian quase ternamente – Responda-me.

Houve um murmúrio, mas nada compreensível.

— Fale alto, general! — gritou-se Varian, assustando o homem.

— Não, senhor! Digo, majestade. Não, jamais!

— Então general, se quer questionar o relatório do tenente Horatio Lane, faça com argumentos e não com suas opiniões esdrúxulas! — e o rei bateu na mesa mais uma vez.

Ninguém falou mais nada por um tempo e todos sabiam por quê. O rei estava esperando. Esperando que o general Crowe defendesse seu ponto de vista. Mas todos também sabiam que ele não iria fazê-lo. O relatório de Horatio Lane era impecável e claro como o meio-dia. Não havia nada que colocasse em cheque a credibilidade dele ou de Lina. Por fim, sabendo que não tinha saída, murmurou.

— Não tenho nada a dizer sobre o relatório do tenente Lane.

Varian sorriu, sentindo-se triunfante.

— E quanto aos demais? — perguntou fazendo um gesto para Lady Cláudia, Arlos e Jonas.

— O relatório do tenente é claro e inquestionável. — disse a general-brigadeiro, já com a postura recuperada.

— Concordo com a milady. — disse Arlos empertigado – Os três devem ser punidos.

— Igualmente. — reiterou Jonas – É inadmissível que um crime contra um de nós fique em impune.

O três então olharam para Crowe, que se limitou a dizer:

— Abstenho-me de votar.

Varian trincou os dentes. Covarde, até o fim. Sem dúvida Varian faria algo a respeito daquele homem repugnante.

— Três votos a favor da condenação, uma abstenção. — ainda assim, estava satisfeito – Tomarei as providências da condenação dos três.

— Eles serão executados, majestade? — perguntou inesperadamente o general Crowe.

Por um momento o rei o encarou, mas logo o homem desviou a vista.

— Não, general, eles não serão executados. — e olhando para Lady Cláudia, disse – Eles serão enviados para fazer trabalhos manuais no Planalto do Crepúsculo, sob seu comando, Lady Cláudia. Sei que saberá o tirar algum proveito daqueles três.

A general-brigadeiro deu um sorriso malicioso. Sim, aqueles três serviriam muito bem aos seus soldados, como bons burros de carga. Mal podiam esperar para fazer com que eles pagassem pelo que fizeram.

— Acredito que terminamos. — falou Varian – Estão liberados. — e fez menção de se levantar, mas logo sentou-se de novo – Ah, já ia esquecendo. Lady Cláudia, só poderá levar seus novos trabalhadores quando a comandante se recuperar. Não antes, em hipótese alguma.

Não era necessário explicação para aquela frase. Todos entenderam que a pena de entregar os três irmãos a uma furiosa general-brigadeiro era a menor das punições para os Jones. Afinal, se a comandante morresse, duvidavam que eles pudessem ir a qualquer lugar que não fosse para o fundo de uma cova. E com aquele pensamento em mente todos se dispersaram. Varian viu Crowe tentar conversar com Lady Cláudia e levar um soco por isso. Não pode deixar de sorrir. Horatio Lane se aproximou, pedindo informações da comandante, enquanto os outros se retiravam, em silêncio.

Mal sabia o rei que, aquela noite, despertara um ódio mortal em um homem mesquinho e cruel, que teria repercussões em sua vida e na de Lina de forma drástica três anos depois daquele fatídico julgamento.

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— Eu não aguento mais isso! — exclamou Luxuriah em meio às lágrimas.

Vivithi a olhou, penalizada, e encheu seu copo mais uma vez. Estavam as duas na taverna da Travessa do Assassino, um lugar não muito recomendado para damas, mas um local que as duas gostavam de ir, pois assim podiam conversar sem chamar a atenção. Desde que Vivithi se aproximara das irmãs, vinha tentando ajudar Luxuriah a lidar com seu trauma após se recuperar do aborto que quase a matara. Fazia quase dois anos do acontecido, mas a jovem elfa ainda não conseguira achar prazer no sexo. Agora, depois de mais uma tentativa, ela chorava frustrada, ao falar que vomitara no elfo com quem saíra antes de o encher de pancada e fugir. E não era a primeira vez que isso acontecia. Nem a segunda. E talvez não fosse a última.

O que dizer a Luxuriah naquele momento, se perguntava a patrulheira. Não conseguia imaginar. O que passara com seu noivo, vinte anos atrás, ainda estava bem fresco em sua mente, mas pra ela não fora difícil se envolver fisicamente com outros elfos depois disso. Talvez porque seu trauma estava apenas em sua alma e não no corpo e na alma, como o de Luxuriah. E lhe doía, mais que nunca, não poder ajudar a jovem da forma como ela precisava. Lhe doía, não poder retribuir o que Samanthah fizera por ela.

— Lux… — disse com carinho empurrando a taça de vinho para a jovem elfa – Me conte o que exatamente lhe deu nojo nele.

— Tudo! — explodiu a elfa antes de beber a taça de vinho com voracidade.

Suspirando, Vivithi a analisou. Tinha que haver uma forma de ajudar Luxuriah. Até então, tinha apresentado a ela todos os elfos mais cavalheiros e amáveis que conhecia, e ainda assim Luxuriah não conseguira ir até o final com nenhum deles. Daqui a pouco não poderia lhe indicar mais ninguém, pois simplesmente não sobraria nenhum que pudesse lidar com a magoada menina.

Naquele momento, uma garçonete se aproximou lentamente. Ela mantinha a cabeça baixa e nunca olhava diretamente nos olhos dos clientes. Discrição. Era por isso que gostava daquele lugar.

— Traga um prato de carne de talbuque defumada para nós. — pediu a patrulheira.

— Não para mim. — cortou Luxuriah – Quero costela de carneiro.

— Achei que você gostasse de carne de talbuque. — se surpreendeu Vivithi – Você sempre come comigo.

— Hoje eu prefiro carneiro. — disse a outra terminando a taça de vinho – E traga outra garrafa de vinho.

A garçonete anotou os pedidos e saiu rapidamente. Porém, Vivithi apenas olhava para Luxuriah, surpresa em como não havia pensado nisso antes. Sim, as duas compartilhavam alguns interesses, mas não eram iguais. Cada uma tinha suas peculiaridades. Não era Vivithi quem devia escolher os elfos para Luxuriah. A jovem tinha que fazer isso por si própria.

— Lux, acho que sei como resolver isso! — falou sem conseguir conter sua empolgação.

— Duvido. — murmurou despejando o resto do vinho da garrafa em sua taça. Não deu nem meia taça e ela franziu a testa, chateada – Espero que a garçonete não demore.

— É sério, Lux! — estava tão animada que Luxuriah não pode evitar encará-la – Estou fazendo tudo errado! Eu não devia escolher os elfos para você. Você é quem devia escolher alguém! Alguém que lhe interesse, alguém que lhe desperte…. Algo… Isso vai fazer com que você consiga!

Luxuriah a olhou, incrédula.

— Isso é impossível, Vivithi. — disse com dureza – Eu jamais vou me interessar por alguém.

— Ah, Lux, vamos lá! Não precisa ser uma paixão avassaladora! Pode ser alguém que simplesmente…. Você ache bonito. Ou te cause um arrepio. Ou-

— É impossível! — gritou a jovem elfa, enfurecida – Você sabe que isso nunca, nunca, vai acontecer!

Vivithi se calou, mais surpresa que irritada. Na verdade, ela não conseguia ficar com raiva de Luxuriah. Ela era como um coelhinho ferido, querendo se entocar em sua própria solidão para se curar. Vivithi entendia. Já estivera do mesmo jeito. E mesmo que quisesse esganar a jovem elfa por gritar com ela, apenas deu de ombros e esperou que a fúria dela passasse.

Porém, aquela fora a pior época da vida de Luxuriah. Aquilo que Vivithi lhe dissera, de se interessar por alguém e tentar então fazer sexo lhe parecia tão absurdo, tão improvável, que ficara com muito mais que apenas raiva de sua nova amiga por supor aquela hipótese. Ficara com nojo e totalmente desesperançada. Por isso, não esperou que os pedidos chegassem. Se levantou repentinamente e se dirigiu para a porta.

— Lux! — ouviu Vivithi lhe chamar – Lux, desculpe! Volte!

Mas ela não voltara. Saiu da taverna e passou a caminha com rapidez pela travessa do assassino. Não que estivesse com medo, mas porque não queria que Vivithi a alcançasse. Só que a patrulheira não veio ao seu encontro e Luxuriah logo estava a caminho de casa. Enquanto passava pelo bazar, ouviu vozes masculinas falando com ela, chamando-a para um drink ou algo assim. Teve imediatamente ânsia de vômito. Parou em uma esquina e se apoiou em uma parede. Não vomitou, mas seu coração estava acelerado, sua respiração estava falhando e sentia-se sem ar. Suas mãos suavam e ela teve a impressão que ia desmaiar. Já sentira aquilo antes. Sempre que um elfo lhe dirigia a palavra, sentia-se assim. Respirou fundo, tentando controlar suas emoções, tentando retomar o controle de seu corpo, quando ouviu uma voz conhecida lhe falar:

— Luxuriah?

A voz estava carregada de preocupação e assim que a elfa levantou a cabeça, viu Kayliel a olhando, preocupado.

— O que você está sentindo? — perguntou o elfo.

O sacerdote era da mesma guilda que a elfa e era um dos poucos seres do sexo masculino que Luxuriah permitia que a tocasse. Talvez porque, quando olhava para o sacerdote, não visse nada que sequer sugerisse qualquer sexualidade. Kayliel era tão tímido e recatado que haviam boatos que ele era uma espécie de celibatário. Por isso, Luxuriah deixou que ele segurasse em seu ombro e a ajudasse.

— Outro ataque de pânico? — perguntou ele em voz baixa.

Luxuriah não entendeu porque ele estava sussurrando até que levantou a vista e viu outro elfo ali. Não precisou de muito para reconhecê-lo. Alto, forte, usando vestes rubras que escondiam parte de seu rosto, deixando entrever apenas olhos verdes muito intensos. Grão-Magister Rommath. Sem entender porque, Luxuriah ficou extremamente encabulada em sua presença.

— Estou bem. — disse a elfa tentando firmar a voz – Acho que apenas tomei vinho demais.

Kayliel deu uma risadinha, mas Rommath permaneceu impassivo. Luxuriah sentiu-se corar.

— Tem certeza que está bem? — perguntou o sacerdote novamente – Posso lhe acompanhar até sua casa.

— Não estava indo para casa. — se viu dizendo – Sai para tomar um ar e estou voltando para a taverna. Estou com Vivithi. — porque estava falando rápido daquele jeito, como se precisasse explicar alguma coisa? Por que a presença do elfo mais velho a deixava nervosa? Seria porque da última vez que vira o Grão-Magister ele praticamente lhe gritara?

— Não vá beber demais. — aconselhou Kayliel como se fosse um irmão mais velho carinhoso – Ah, e quando você for para Orgrimmar, me avise. Podemos ir juntos. Mhuu pediu para falar algo comigo.

— Tudo bem. — murmurou a elfa – Até mais.

Ela fez menção de sair, mas então Rommath falou:

— Espere.

A voz grave e profunda dele a fez estancar. O arquimago então olhou para o irmão e pediu:

— Nos dê um momento, Kayliel.

O sacerdote olhou para o irmão, sem entender e então olhou para Luxuriah. A jovem estava tão surpresa quanto ele, mas fez que sim com a cabeça. Kayliel então se afastou um pouco, mas não tirou os olhos dos dois. Talvez temesse que Luxuriah passasse mal de novo por ficar na presença de um elfo com quem não tinha intimidade.

— Creio que lhe devo um pedido de desculpas. — começou Rommath a encarando.

— Como? — estranhou Luxuriah.

— Um pedido de desculpas. — repetiu ele – Quando você estava… — ele hesitou um pouco – Quando você estava com problemas e esbarrou no Lorde Regente, eu lhe gritei. Na época eu não sabia de seus tormentos. — apenas seus olhos eram visíveis, mas Luxuriah teve a certeza que havia sinceridade nas palavras dele – Por isso, eu lhe peço perdão. — e fez uma reverência

O coração de Luxuriah começou a saltar no peito. Não sabia se era por causa da forma tão carinhosa quanto ele lhe falara ou se por causa da lembrança que ele lhe despertara. Talvez fosse tudo junto. Ficou encarando-o um pouco mais, analisando aqueles olhos tão intensos e depois falou:

— Não precisa pedir perdão. Não me senti ofendida.

Naquela época, o grito de Rommath era a última das preocupações de Luxuriah. Por isso, ela jamais vira a necessidade de um pedido de desculpas.

— Você pode não ter se sentido ofendida, mas eu a ofendi e isso vai contra meus princípios. Por favor, aceite meu perdão.

Por que o olhar dele era tão intenso? Se perguntou a jovem elfa enquanto o encarava na busca por algo a dizer. Jamais se vira numa situação daquelas e não sabia o que fazer. Talvez, só devesse desculpá-lo e pronto.

— Tudo bem, está perdoado. — se viu dizendo.

Não pode ver o rosto dele, mas sentiu que ele sorria. Ela, surpreendentemente, sorriu de volta.

— Obrigado, Luxuriah. — e com um leve aceno de cabeça, desejou – Fique bem.

Então, ele se virou e voltou até onde estava o irmão. Os dois trocaram algumas palavras e Kayliel acenou para Luxuriah antes de partirem. Ela acenou também deu as costas para eles, voltando na direção da Travessa do Assassino. Talvez devesse pedir desculpas a Vivithi. Afinal, ela só quisera ajudar. Então, Luxuriah se lembrou das palavras da amiga e, inconscientemente, virou a cabeça para olhar os elfos que se distanciavam. No mesmo instante, Rommath virou a cabeça e também a olhou. Os dois se encararam por um momento e então o elfo acenou para ela brevemente com a cabeça antes de voltar a olhar para frente. Com o coração aos pulos, Luxuriah voltou correndo para a taverna.

Vivithi ainda estava no mesmo local. Os pratos já havia chegado, e ela comia sua carne de talbuque desanimada e triste, por não conseguir ajudar Luxuriah. E quão grande foi sua surpresa quando a jovem em quem pensava voltou e sentou-se pesadamente na cadeira a sua frente, com o rosto afogueado e um sorriso na face.

— Entendi o que você quis dizer, Vivi! — disse quase atropelando as palavras – E vou fazer!

Um sorriso tomou conta do rosto de Vivithi também.

— Pela Nascente do Sol que coisa maravilhosa Lux! — ela bateu as mãos, extremamente feliz e aliviada – Agora só falta você conhecer alguém que-

— Não precisa. — cortou a elfa – Já sei quem será. — e alargando o sorriso, disse – Quero o Grão-Magister Rommath. — e pegou uma costela de carneio e deu uma boa mordida nela enquanto Vivithi a olhava, perplexa demais para falar qualquer coisa.

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