Herdeiros da Guerra
31 Capítulo XXIII – Véu de Inverno (PARTE II)
Notas iniciais
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O clima não poderia ser melhor: estava frio o suficiente para ficar enrolada em um cobertor com um chocolate quente na mão, mas não muito para adoecê-la; o céu estava um pouco nublado, mas não nevava e não havia muito vento aquela hora. Então, estava perfeito na opinião de Luxuriah.
Sentada em uma manta estendida entre os morangueiros, ela tinha nas mãos um copo de chocolate bem quente, mas não estava bebendo; preferia mergulhar morangos nele e comer com vontade. Ao seu lado, Rommath observava com um sorriso satisfeito no rosto.
— O chocolate não está quente demais? — perguntou preocupado.
Luxuriah fez que não.
— Está ótimo. Temperatura ideal. Forte e meio amargo, como eu gosto.
— Quem bom que gostou. Aproveite.
— Quem parece não aproveitar é você. — reclamou a elfa.
O chocolate de Rommath estava praticamente intocado. Além disso, Luxuriah percebeu que, desde o dia anterior, seu marido parecia agitado demais. Ele não lhe falara nada ainda, mas esperava que pudesse arrancar a informação dele naquele piquenique. Além de arrancar a roupa dele também, lógico.
Rommath não queria preocupar a esposa grávida com seus problemas, principalmente porque havia humano envolvidos. E tudo que envolvia humanos estressava Luxuriah além da conta. Mas sentia que precisa dividir aquilo com alguém. Não como dividira com Lor’themar e Vivithi, que serviriam como barreira para os planos do irmão, mas dividir com alguém que se preocupava verdadeiramente com Kayliel, alguém que o visse como amigo.
— Eu vou lhe falar, mas antes de tudo, quero que você me prometa que não falará nada com ninguém.
Luxuriah o olhou, intrigada, e depositou o copo de chocolate quente na toalha, com cuidado.
— Então é grave. — disse sobriamente.
— Pode ser grave. — respondeu – Não sabemos ainda.
— Sabemos. — repetiu – Então tem mais gente envolvida. — ela estava visivelmente chateada por não estar incluída no que quer que fosse.
— Veja bem, quando eu soube, nós não estávamos juntos ainda. — ele suspirou – É sobre Kayliel.
Houve um momento de silêncio e então Luxuriah se empertigou tensa.
— Não me diga… — ela começou sussurrando e então exclamou – Não me diga que é a humana!
— Prometa, por favor. — pediu o mago – Para a proteção dele.
Então definitivamente era sobre a humana, entendeu Luxuriah. Rommath não estaria tão preocupado e tenso nem pediria segredo a ela se a maldita humana por quem Kayliel se apaixonara não estivesse envolvida.
— Eu prometo. — disse por fim – Mas só se você me prometer que, a partir de hoje, não deixará de me contar qualquer coisa que seja.
— Tudo bem. — concordou aliviado – E sim, você está certa. É sobre a humana.
Então Rommath começou a contar tudo que descobrira e o que Lor’themar e Vivithi descobriram também. Que Kayliel manteve contato com ela, que mandara uma carta e que esperava uma reposta. Contou também de que desconfiava que a patrulheira deixara algo passar e que alguma coisa poderia acontecer em Dalaran. Compartilhou o medo pela vida do irmão e que jamais se perdoaria se algo de ruim acontecesse com ele. Rommath abriu o coração para Luxuriah sobre o assunto pela primeira vez, e ela ouviu tudo, sem interrompê-lo. Ao final, a elfa pegou novamente seu copo de chocolate. Estava frio. Entregou ao marido, que esquentou-o com magia e o devolveu.
— Kayliel tem sorte. — disse Luxuriah – Se fosse outra pessoa, Lor’themar já o tinha chamado para esclarecimentos. Podia estar preso.
— Não exatamente. Ele usou o selo do Kirin Tor, então não era sequer para termos ciência do que diz a carta.
— Mas ele não é mais do Kirin Tor. — retrucou – Então ele sequer deveria usar o selo. — ela suspirou – Como alguém tão inteligente pode ser tão burro às vezes?!
Se alguém um dia dissesse a Luxuriah que ela usou praticamente as palavras que uma humana usara na mesma situação, só que do outro lado, ela jamais acreditaria.
— Por isso estou tão preocupado com a ida dele para lá. — admitiu – Temo que ele se encontre com ela.
— E por isso que você sugeriu que Kassyeh fosse no mesmo dia. — completou.
Ele fez que sim.
— Então só nos resta esperar. — ela tocou a mão dele – Não adianta você ficar pensando nisso. Assim que Kassyeh chegar, você a aborda. Duvido que você vai conseguir tirar algo de Kayliel, se ele tiver se encontrado com a humana. — ela franziu o cenho, irritada – Como alguém pode gostar de humanos! Eu entendo que Kassyeh goste de Tewdric, por exemplo. Orcs são honrados! Brutos sim, mas ele não fariam… — ela se calou abruptamente.
— Ei, ei. Calma. — ele apertou a mão dela – Vamos falar de outras coisas. Vamos falar de coisas boas. O que vocês estão planejando para o Véu de Inverno? Eu ouvi a Kassyeh comentando algo sobre um piano.
Luxuriah sorriu diante da preocupação dele e explicou:
— Ela quer que façamos um sarau de Véu de Inverno. — a caçadora revirou os olhos – Quer que nós quatro cantemos algumas músicas comemorativas que foram de autoria de nossa avó e também algumas que ela mesma escreveu. Nunca a vi tão empolgada para cantar, ela normalmente acha a voz dela horrível, e definitivamente, não é.
— Kassyeh é muito crítica consigo mesma. — comentou.
— Verdade.
— Mas adorei a ideia dela. — Rommath sorriu – Nunca te vi cantando, seria uma oportunidade excelente.
Até então, Luxuriah nunca tinha se tocado daquele fato. Era verdade. Havia deixado de cantar fazia muito tempo e quando voltara Rommath não presenciara o fato. Afinal, ele não fora para o casamento de Kassyeh.
— Você não foi convidado para o casamento da Kassyeh, não é mesmo? Por isso não me viu cantar.
Rommath ficou sem jeito.
— Na verdade eu fui. — confessou – Porém, mandei pedidos de desculpas e um presente por não ir. Se soubesse que você cantaria, talvez tivesse mudado de ideia.
— Mas porque você não foi? — perguntou sem entender – Muitos nobres foram! Não era só a guilda.
— Sendo sincero, eu não queria ver você com outro.
Havia mais, é claro. Ele poderia lhe falar que muitas pessoas o abordaram fazendo questão de dizer o quão apaixonada Luxuriah estava. Que tinha escolhido um tauren, veja só que surpresa. Rommath sabia que eram pessoas que não gostavam dele ou que queriam apenas espalhar fofocas, mas, ainda assim, aquilo o afetou. Porém, qual a necessidade de falar aquilo naquele momento? O tauren era coisa do passado agora. Luxuriah era sua esposa. Dissera o motivo de não ter ido porque prometera não esconder mais nada dela, mas não entraria em detalhes. Não falaria como as noites após a descoberta estavam mais solitárias e tristes. E que, ainda que ele tivesse decidido esperar, o tempo em si já era uma tortura. E havia o ciúme e a inveja de alguém ter conseguido algo que ele sempre quisera tanto. Mas, se soubesse que ela cantaria, teria ido. Apenas para ouvi-la uma única vez.
Luxuriah não soube o que dizer diante da fala de Rommath. Entendia seus sentimentos e obviamente nunca quis magoá-los. Pela primeira vez se perguntou o que era viver com aquele amor dentro de si e a única coisa que pudesse fazer era esperar. Esperar eternamente por uma oportunidade. Esperar enquanto outra pessoa que não tinha o mesmo amor dentro dela desfrutava da pessoa amada. Com certeza não fora fácil. E a elfa se perguntou mais uma vez porque nunca vira aquilo. Porque nunca dera uma chance a ele. A única coisa que podia fazer era culpar seu passado, que a cegara para qualquer outra coisa que não fosse a dor. Só que ainda tinha tempo para remediar isso.
— Posso cantar para você agora. — ofereceu.
Os olhos de Rommath brilharam.
— Eu adoraria. — disse ele.
Foi inevitável para Luxuriah não pensar em quando cantou para Huaru em Mulgore. Só que, daquela vez, cantaria para alguém que tinha certeza que não magoaria seus sentimentos. Ela então se aproximou de Rommath e colocou sua boca bem próxima ao seu ouvido.
Para surpresa do elfo, ela começou a cantar baixinho, apenas para ele ouvir, com sua voz melodiosa e suave. Estremecendo, o elfo fechou os olhos e deixou-se ser levado pela melodia, tal como um marinheiro é levado pelo canto de uma sereia. E como um marinheiro, sentiu-se afogar-se também, afogar-se em todo o sentimento que pulsava em seu peito. Luxuriah cantou mais e mais, até que, ao fim da música, beijou-lhe o pescoço. Rommath estremeceu. Ela então colocou as duas mãos no rosto dele e o beijou com ânsia.
Talvez, se não houvesse a música, ele poderia ter resistido. Poderia ter dito a ela que aquele não era a hora nem o local. Porém, já havia sido levado pela música para o mais profundo de seu ser e era lá que todo seu amor por Luxuriah estava. Então, só lhe restava sucumbir aos beijos e desejo dela.
Deitaram-se devagar na manta, lado a lado, sem que interrompessem o beijo. Rommath a estreitou nos braços, deixando agora que seus beijos se espalhassem pelo seu rosto e pescoço. Luxuriah passou as mãos na cabeça dele e deixou que os dedos penetrassem em seus cabelos. Logo, o cabelo solto de Rommath caia ao seu redor, como um mando de sombra que os embalava. Sentiu os fios lhe passarem pelo rosto enquanto ele agora beijava seu colo, e o cheiro dele se espalhou pelo ar. Adorava aquele perfume. Lhe trouxe as lembranças da primeira vez ali, a primeira vez que sentiu realmente que poderia mudar, que poderia gostar daquilo, a primeira vez que se entregou sem medo e foi recompensada por isso.
O corpo de Luxuriah estremeceu quando as mãos de Rommath lhe acariciaram os seios. Com delicadeza, ele abriu os botões de seu vestido, revelando o busto, agora mais avantajado com a gravidez. Se perguntou se em algum momento ele pararia. Se quando visse sua barriga, ele deixaria de desejá-la. Porém, Rommath continuou, libertando-a de seu vestido. E só quando se arrepiou com o frio, foi que houve uma pausa.
— Muito frio? — perguntou ele com a voz rouca.
— Continue. — pediu ofegante.
— Você está com frio? — insistiu.
— Você pode me aquecer. — foi a resposta.
Romamth sorriu, mas antes de continuar, pegou o cobertor embaixo dela, e jogou sobre os dois. O calor foi bem-vindo, mas a elfa não teria desistido se não houvesse cobertor ali. Ela enlaçou os quadris dele com as pernas e colou seu corpo mais uma vez no dele, beijando-o, implorando que continuasse. E ele a atendeu. Passou as mãos pelo corpo dela, a cariciando-a, estimulando-a, fazendo-a suspirar a cada toque a cada beijo. Mas Luxuriah também queria sentir a pele dele. Com as mãos ansiosas, o livrou de sua camisa e passou as mãos no peito liso e firme dele. Sentiu uma vontade imensa de passar a língua por todo o peito dele e, porque não, o fez. Rommath gemeu alto ao sentir a língua dela em seu corpo e a puxou para mais um beijo. Sim ele queria mais, queria muito mais.
Habilmente, Rommath livrou Luxuriah de suas últimas peças de roupas e agora sugava seus seios com vontade, mas mantendo a delicadeza para não machucá-la. Ele os acariciava, beijava, sugava e acariciava de novo. Então, desceu pela sua barriga, beijando-a e acariciando-a, até que chegou até suas pernas. Suavemente as abriu e começou a beijá-la em seu sexo. Luxuriah gemeu de prazer, mas não era apenas ela quem estava ficando em êxtase. Quanto tempo ele não esperava para sentir o sabor de Luxuriah novamente? Quando tempo esperou, para ouvir seus gemidos de prazer e senti-la estremecer com seus toques? Sim, muito tempo, mas a espera acabara. Com movimentos rápidos e precisos de sua língua, logo Luxuriah gritava de prazer e atingia o ápice mais rápido do que jamais fizera. Talvez tivesse subestimado as necessidades da elfa por tempo demais.
Só que não estava terminado. Luxuriah queria mais. Queria senti-lo dentro dela. Puxou para cima, para abraçar-se com ele novamente e o envolveu com as pernas. Habilmente, suas mãos foram até a calça dele e a tiraram com destreza. Sim, estava na hora. Rommath estava latejando de desejo desde o primeiro beijo que ela lhe dera, e a penetrou no momento que se viu livre de suas roupas. Luxuriah então começou a mexer os quadris, enquanto ele novamente a beijava e acariciava seus seios. Não demorou para que Luxuriah atingisse o ápice mais uma vez, muito antes dele. Rommath sorriu, satisfeito de ainda saber exatamente onde tocá-la, onde beijá-la. E continuou penetrando-a devagar e foi aumentando os movimentos cada vez mais, sentindo só dedos dela entrelaçados em seus cabelos e o gosto de morangos e chocolate em sua boca. Luxuriah atingiu mais duas vezes o ápice antes que ele sentisse que também chegava lá. E então, gemendo no ouvido dela palavras de amor, ele derramou-se dentro dela.
Ofegantes, eles se olharam. Rommath colocou a mão no rosto dela, acariciando-a.
— Eu nunca, nunca, nunca vou te abandonar. — garantiu com convicção.
Sem dizer uma palavra, Luxuriah o beijou, com lágrimas nos olhos. Sabia que, daquela vez, seria verdade.
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Aethas teve uma grande a agradável surpresa ao dar de cara com sua sobrinha em seu escritório na volta do almoço. Sabia que a moça iria visitá-lo antes do Véu de Inverno, mas não sabia quando. Por isso, ao vê-la cheia de pacotes e com um grande sorriso no rosto ao lado de Tewdric foi um susto e ao mesmo tempo uma alegria.
— Tio! — exclamou ela abraçando-o com força – Que saudades!
— Kassyeh, que surpresa agradável! — disse retribuindo o abraço – Não sabia que você vinha hoje!
— Foi decisão de última hora!
Eles se separaram do abraço e foi a vez de Tewdric se adiantar e dar um abraço apertado no mago, levantando-o do chão.
— Titio! — disse quase quebrando o mago no meio.
Aethas tentou responder, mas não havia ar nenhum em seus pulmões. Quando o orc o soltou, o mago cambaleou um pouco e foi ajudado pela sobrinha, que ralhou com o marido.
— Um dia você ainda mata ele, Tewdric! Maneire na próxima vez!
— Tudo bem… — murmurou o mago quase sem fôlego – Ajuda…. A ganhar resistência.
Tewdric riu alto e depois foi acompanhado pelo elfo. Kassyeh apenas meneou com a cabeça. Quando Aethas se recompôs, percebeu que a vinda dos dois ali já estava chamando a atenção. Alguns magos passavam em frente a porta do escritório e lançavam olhares curiosos no orc e na elfa ali dentro. Em outros tempos, o arquimago não se importaria e apenas daria de ombros. Só que, desde sua última viagem a Luaprata, sua paciência com a curiosidade do Kirin Tor andava baixa. Decidiu então tirar o resto do dia de folga. Afinal, sua sobrinha não vinha ali há anos e isso era motivo mais que suficiente para se afastar de suas atividades.
— Vamos até lá em casa. — disse ele – Vocês podem descansar das compras e eu comprei uma ótima cerveja, Tewdric.
— Opa, mas é cerva das boas ou mijo de cachorro? — perguntou o guerreiro.
Mijo de cachorro era um jeito simpático e bonito do orc se referir à cerveja humana.
— Cerva das boas. Feita por anões.
— Aí sim! — comentou Tewdric – Aqueles baixinhos são ally, mas sabem fazer cerveja boa!
E com a aprovação da sugestão, seguiram os três para a casa do arquimago. A primeira coisa que Kassyeh reparou quando entrou na casa do tio foi a total ausência de qualquer enfeite que sugerisse que o Véu de Inverno estava próximo. Aquilo a deixou, no mínimo, surpresa. Seu tio amava o Véu de Inverno.
— Tio, cadê a árvore? — perguntou.
— Não tive tempo para colocar esse ano. — desconversou.
— A não, você precisa de uma árvore! — disse a sobrinha – Onde vai pôr os presentes que eu trouxe?
— Achei que podia abri-los logo.
— Não, não! — exclamou veementemente – Os presentes devem ser abertos apenas na noite do dia vinte e quatro! E até lá tem que ficar embaixo de uma árvore!
— Kassyeh… — começou Aethas – Eu realmente…
— Você tem que sair e comprar uma árvore! — ela o cortou antes que pudesse concluir a frase – É a tradição! Vou aproveitar e procurar os enfeites. Devem está em algum lugar lá em cima, não é?
Sem saída, o elfo confirmou com a cabeça.
— Tudo bem eu ir com o titio? — perguntou Tewdric – Pra ajudar a trazer a árvore?
— Claro! — concordou Kassyeh – E vão logo, quero deixar essa casa linda antes da noite cair!
Os dois saíram então, deixando Kassyeh em casa para procurar os enfeites enquanto iam em busca da árvore. Aethas parecia cansado, mas sorria abertamente. Era reconfortante ter sua sobrinha perto dele. Lembrava o quanto gostava de montar a árvore quando criança, na companhia de Samanthah.
— Você não está bem, titio. — disse Tewdric quando se afastaram da casa – Por isso não montou a árvore, não foi?
Aethas olhou para o orc antes de afirmar com a cabeça.
— Eu estou um caco, Tewdric, um caco. — ele passou a mão no cabelo – Não durmo bem, não como direito, a única coisa que tenho feito é tentar entender o que está acontecendo comigo. Eu mal suportava aquela elfa meses atrás e agora não consigo parar de pensar nela!
— Quando a gente se apaixona é assim mesmo. — o orc deu de ombros – Eu vi a Kass em Luaprata e passei meses pensando nela em Orgrimmar. — ele soltou uma risada – Por isso fui atrás dela. Eu sabia que era diferente.
— Só que a Kass não lhe chutou não é? — retrucou o mago – Não lhe gritou e disse coisas horríveis!
— Bem, se ela tivesse feito isso, eu provavelmente continuaria atrás dela. — ele riu mais – Mas acho que não é seu caso titio.
Não, não era. Aethas estava apaixonado por Vivithi, isso era um fato. Porém, havia muito nele daquele orgulho élfico que tantas vezes acabou por ser prejudicial ao seu povo. E agora, ele se apegava aquele orgulho como a única coisa remanescente de seu amor-próprio após aquela noite. Não, ele não procuraria Vivithi. Por mais que estivesse sofrendo, por mais que morresse por dentro cada vez que pensava nela, continuaria ali, mergulhado em autopiedade, mas não rastejaria aos pés dela implorando pelo amor que ela obviamente não iria lhe dar.
— Eu não vou me submeter a outra humilhação. — disse convicto – Vou ficar aqui e sei que, uma hora ou outra, isso vai passar.
— E se não passar? — quis saber Tewdric.
— Vai passar. — afirmou o outro.
O orc o encarou brevemente e deu de ombros. Tewdric não acreditava em uma só palavra que Aethas dizia e duvidava que o próprio elfo acreditasse. Só que era óbvio que aquela vã esperança era tudo que seu ‘tio’ tinha para lidar com a rejeição. A comprovação para o guerreiro se deu quando, pouco antes de chegar até onde as árvores estavam, Aethas acabou perguntando:
— Mas… Como ela está?
Dando um pequeno sorriso de canto de boca, o orc falou:
— Agora está bem. Ela teve doente pouco tempo depois que você foi embora, mas tá boazona de novo.
— Doente? — o tom preocupado era evidente em sua voz – O que ela tinha?
Bem, chegara a hora de Tewdric falar o que não queria. Tinha receio que Aethas ficasse ofendido por ele ter compartilhado do que sabia com Luxuriah, mas o orc nunca foi de mentir. Podia cortar pessoas ao meio, mas mentir ele não mentia.
— Olha titio, vou ser sincero com você. Vou dizendo logo que é minha opinião, e se quiser saber se é verdade, vai ter que perguntar a Lulu. — e sem mais rodeios, disse – A Vivi ficou doente por causa do que você falou.
O elfo parou de andar na mesma hora, horrorizado com o que tinha acabado de ouvir.
— C-como?
— Parece que Vivi teve uns problemas ai na vida com um elfo. — explicou – E o negócio foi tão ruim que ela é meio traumatizada. To falando aqui do que ouvi pelos corredores e de algumas coisas que a Lulu deixou escapar.
Aethas continuou o olhando, chocado demais para dizer qualquer coisa, então o orc continuou falando:
— Eu digo isso porque a Lulu veio conversar comigo e estava preocupada com a Vivi. A Vivi contou a ela o que você disse e a Lulu quis saber mais. — o orc coçou a cabeça, um pouco envergonhado – Eu falei umas coisas que a gente conversou porque a Lulu parecia preocupada. Espero que titio não fique chateado comigo.
Aquela era uma preocupação infundada do orc, pois a única coisa que Aethas não deixava de pensar era que Vivithi adoecera. E adoecera por sua causa. Por causa do sentimento que ele nutria por ela. Era tão devastador saber algo desse tipo que ele simplesmente não conseguia sequer andar. Ficou ali parado, olhando para Tewdric, enquanto seu cérebro absorvia a informação e tentava não surtar com ela.
— Então… — ele conseguiu falar depois de um tempo – Eu a deixei doente? — ele engoliu em seco – Ela me odeia tanto assim?
— Não titio, não! — negou veementemente Tewdric – Essa é a questão. Ela não te odeia. Por isso ficou doente com o que você sente.
— Isso não faz sentido! — Aethas finalmente saiu da letargia – Não faz nenhum sentido!
— Não disse que fazia. — defendeu-se o orc – Eu te disse o que eu acho baseado no que ouvi.
O mago apertou os lábios, ainda mais frustrado.
— O que mais minha sobrinha falou? — quis saber – Sobre Vivithi?
— Não muito. Ela estava mais preocupada com você. O que sei já lhe falei.
Aquela situação toda estava apenas piorando, pensou Aethas. Queria arrumar um jeito de escapar, de fugir daquilo tudo, mas não podia. Os sentimentos estavam dentro dele e o corroíam. E saber daquilo apenar pioravam tudo. Ficou ainda um tempo ali, em pé, e então respirou fundo. Tewdric o olhava, um pouco apreensivo. Talvez pensasse que Aethas ficaria zangado com ele. Porém não havia motivos para tal preocupação pois Aethas sabia que nada que o orc dissera fora por maldade ou para magoá-lo, ele apenas estava sendo sincero.
— Obrigado por me falar, Tewdric. — disse batendo de leve no braço do orc, que agora estava visivelmente aliviado – E não estou chateado com você. Meu problema é… — por um instante ele quase falou “Vivithi”, mas então disse – Esses sentimentos são o problema.
— Tudo bem titio. — Tewdric retribuiu as tapinhas do elfo e quase quebrou o braço dele – Saiba que quando precisar de ajuda, to aqui.
— Eu sei. — e recomeçou a andar – Vamos logo pegar a árvore.
O resto do trajeto foi feito em silêncio. Aethas comprou a árvore e nem precisou de uma carroça que a levasse; Tewdric a colocou nos ombros e a carregou sem muita dificuldade. Quem passava e via os dois jamais imaginaria que aquele elfo esbelto, bem-vestido e mago do Kirin Tor encontrara no imenso e bruto orc ao seu lado o único amigo que tivera em toda sua vida. Talvez, se não tivesse sido tão esnobe e preconceituoso no passado, tivesse desenvolvido uma amizade similar com Dhomm. Porém, não era mais tempo de lamentar. Aprendera com seus erros e iria corrigi-los. Só não sabia se conseguiria corrigir o que quer que fosse com Vivithi. Provavelmente, nem valia a pena tentar.
Kassyeh ficou muito feliz quando eles chegaram com a árvore e pôs-se a arrumá-la. Aethas acabou se animando com o entusiamo da sobrinha e entrou no clima, ajudando-a com os enfeites. Tewdric até tentou ajudar, mas depois de quebrar a terceira bolinha colorida de vidro, foi mandado para o sofá com uma caneca de cerveja. Ao fim da tarde, não apenas a árvore estava arrumada com os presentes embaixo dela, como Kassyeh dera um jeito em deixar toda a casa enfeitada, bonita e aconchegante. E com a aproximação da hora do jantar, os três foram se aprontar para irem até a taverna que também era estalagem Salão da Destreza.
Os três estavam um pouco adiantados quando chegaram. Como um cliente habitual e de status, Aethas conseguiu uma excelente mesa que ficava próxima a uma janela pela qual se podia observar a cidade. Naquela noite ficaram sabendo que um grupo de música se apresentaria ali, com baladas antigas, incluindo algumas élficas. Kassyeh ficou animada, pois isso sempre significava que alguma música de sua avó acabaria sendo executada.
— Será que serão apenas músicas festivas de Véu de Inverno ou cantarão algo mais? — perguntou mais para si mesma do que para os acompanhantes.
— Talvez ambas. — respondeu Aethas – Conheço esse grupo. Eles tocam aqui muitas vezes. Não sei lhe dizer se são bons, não tenho o ouvido que vocês tem para a música.
Tewdric ficou feliz ao ver que Aethas estava bem melhor agora do que mais cedo. A causa disso era com certeza a presença de Kassyeh e a alegria que ela exalava por todos os poros do corpo. Tinha certeza que com apenas mais uns dias com a sobrinha e Aethas deixaria aquela melancólica tristeza que demonstrara mais cedo. Porém, Kassyeh não podia ficar e o mago teria que lidar com tudo sozinho. Seria uma provação e tanto, pensou Tewdric.
— Então, vamos fazer os pedidos? — sugeriu Aethas.
— Convidamos Kayliel para jantar conosco. — disse Kassyeh – Ele veio também fazer compras, o encontramos mais cedo e ele disse que vinha. Será que devíamos esperar?
— Podemos esperar um pouco. — respondeu o mago.
Pouco tempo depois, Kayliel chegou, conforme o combinado. Porém, a aparência dele não era dos melhores. Estava visivelmente abatido, com o nariz vermelho e o rosto pálido. Assim que sentou-se, ele foi se desculpando:
— Desculpem-me, acho que gripei. — falou com a voz rouca – Espero não ter deixado-os esperando.
— Ah, Kayliel! Você está se sentido mal? — o lado mãe preocupada de Kassyeh aflorou automaticamente – Então porque não voltou para Luaprata? Nós entenderíamos! E onde estão suas compras?
O elfo balançou a cabeça em negativa.
— Se eu voltasse para Luaprata, continuaria doente. — ele tentou sorrir – E já havia dado minha palavra, não é? As compras mandei por correio… Não quis ficar andando com elas me sentindo mal…
— Espero que você não chegue perto de Luxuriah assim. — avisou Aethas – Ela não pode ficar doente.
— Não se preocupe, vou tirar uns dias para me recuperar. — garantiu o sacerdote.
A verdade era que Kayliel não queria voltar para casa pois sua doença não era nenhuma gripe ou resfriado e sim toda a dor que sentia pela conversa que tivera mais cedo com Arshe. Porém, aquilo não deveria ser de conhecimento de ninguém e o único jeito para explicar a sua aparência desastrosa era atribuí-la a uma enfermidade. Sua sorte é que sempre que chorava, desde a infância, ficava constipado, tinha dores de cabeça e realmente parecia doente. Só que Rommath sabia disso. Se seu irmão colocasse os olhos sobre ele saberia na mesma hora que não havia doença e sim choro. Por isso, era mais fácil estender-se em Dalaran e fingir. Além do mais, duvidava que Arshe ainda estivesse pro lá.
O que Kayliel não sabia era que Tewdric não acreditara de forma alguma em sua suposta doença. Se não tivesse visto o elfo mais cedo, era possível que deixasse passar, mas ele vira e o sacerdote não estava esperando amigos coisa nenhuma. Tewdric tinha certeza que Kayliel esperava um interesse romântico. E ciente dos boatos que rondava o elfo, tinha uma grande desconfiança com relação às humanas que estavam por perto quando ele e Kassyeh chegara.
Havia três. Duas delas eram realmente humanas, mas de uma ele tinha dúvidas. As três pareciam estar se encaminhando para o memorial e uma delas ficou realmente perturbada com a presença deles. E quando saíram, ele trocou olhares com a que era a líder. Sim, Tewdric tinha certeza que era líder pela forma como ela o encarava e a sua postura. A mulher tinha olhos verdes e ferozes e o orc pensou em um urso selvagem quando a olhou. Ela sustentou o olhar, como se o desafiasse a fazer qualquer coisa. Claro que ele não era tolo de arrumar confusão em plena Dalaran, e mesmo que ali não fosse considerado um santuário, já havia passado o tempo em que Tewdric arrumava confusão por nada. Se estivesse andando em qualquer lugar e cruzasse com um humano, ou anão ou qualquer raça da aliança, só puxaria seu machado se fosse provocado. O tempo o ensinara a ser cauteloso e o amor por Kassyeh o ensinara a amar a vida. A menos que fosse necessário, evitaria combates.
A não ser que fosse alguém que machucara sua família. Havia um tauren e um elfo na sua lista de pessoas que queria partir no meio sem nenhuma conversa.
Com a chegada de Kayliel, eles logo pediram a comida e a bebida. Kassyeh pediu vinho, enquanto seu marido e tio concordaram em beber cerveja. A elfa sorriu, impressionada com a intimidade daqueles dois; jamais imaginara que o paladar refinado de seu tio cedesse a uma bebida considerada tão vulgar quanto a cerveja, e ele o fizera por influência de Tewdric. Kayliel, ao contrário deles, se contentou com uma água e ficou em silêncio na maior parte do tempo. Na verdade, ele sequer tinha uma expressão definida no rosto e parecia alheio a tudo.
Quando o jantar deles começou a ser servido, houve um burburinho dentro da taverna e diversos olhares na direção oposta onde eles estavam. Instintivamente, todos eles olharam. Eram as três humanas que Tewdric vira mais cedo. Elas sentaram-se em uma mesa reservada distante deles e uma delas tinha uma aparência tão ruim quando a de Kayliel. Sem conseguir se conter, o orc olhou para o sacerdote. Ele estava lívido. Então, Tewdric acertara. Era aquela humana.
E naquele momento, o grupo musical começou a tocar.
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Lina sabia que ir a Dalaran era uma péssima ideia e todos os acontecimentos só provaram que ela sempre estivera certa. No início, até que tudo estava dentro dos conformes, ainda que o contratempo com Lícia tivesse deixado-a com os nervos a flor da pele. Porém, Arshe estava tranquila e aquilo era bom. Tudo desandou quando chegaram ao Memorial de Antônidas. Por muito pouco, aquela elfa e o orc não encontraram Arshe sentada ao lado do tal de Kayliel. Para seu alívio, a elfa estava muito distraída e não reparou na presença delas três. Só não poderia dizer o mesmo do orc.
Ele as viu. E não apenas isso, Lina tinha certeza que ele as analisou. Podia ser até paranoia de sua cabeça, mas algo lhe dizia que ele sabia. Por um momento pensou em tirar Arshe dali e ir embora. Só que já haviam chegado em um ponto em que a jovem não ficaria mais tranquila se não colocasse um ponto final naquela história toda. Por isso, se resignou a esperar. Quando aqueles dois se retiraram, o orc a encarou. Lina estremeceu, mas sustentou o olhar. Não porque estivesse com medo, mas pelo que viu nos olhos dele. Havia um aviso ali, que colocava um limite no caminho dos dois: não fique no meu caminho que não ficarei no seu. Era um aviso diferente de todos os que já vira nos olhos de membros da Horda. Não havia ódio puro e simples, apenas cautela. Aquilo a deixou escabreada e também tranquila. Esperava que ele tivesse visto a mesma determinação em seus olhos.
Só que o pior estava por vir. A conversa fora tão tensa que até mesmo ela e Doroteya sentiram a distância. Não pode ouvir o que eles disseram, mas chegou em um momento em que era visível o desgaste emocional não só de Arshe, mas dele também. Só que para Lina, o elfo podia morrer que ela não se importaria. Ele procurara aquilo, estava apenas colhendo o que plantou, mas Arshe era uma vítima ali. E quando a maga começou a chorar, queria ir até lá e arrancá-la daquele banco e levá-la de volta para Ventobravo. Doroteya a deteve. Aquilo tinha que acontecer, para o fim daquela história. Por isso esperou. Esperou e fez uma coisa que não fazia há muito tempo: rezou em silêncio para Luz, pedindo que tudo acabasse bem.
Se foi atendida, ela só saberá no futuro, pois ao se levantar do banco e ir até onde ela estava, Arshe tremia. Queria parecer forte e caminhou de cabeça erguida, mas ao tocar o braço de Lina, estava gelada como a morte e suas pupilas estavam dilatadas de forma que seus olhos pareciam negros.
— Quero sair daqui. — disse com a voz trêmula – Por favor, quero sair daqui!
— Vamos até o Enclave Prateado. — sugeriu Lina – Lá tem um teleporte para Ventobravo.
— Não! — exclamou a princesa com os olhos arregalados – Não quero que ninguém me veja! — Arshe estava em frangalhos e isso estava ficando cada vez mais visível. O que fariam se alguém da Aliança as visse e questionasse o estado da princesa?
Quem deu a solução foi Doroteya.
— Vamos levá-la para a taverna. Dizemos que ela está passando mal e precisa descansar.
— Ótimo! — concordou a comandante, preocupada demais com Arshe para insistir na volta para Ventobravo – Vamos.
Uma das coisas boas que podia ser dita de Dalaran era que as pessoas comuns eram bem mais discretas que o Kirin Tor. A estalajadeira nada perguntou quando Doroteya pediu um quarto apenas para aquela tarde. A worgenin sequer precisou dar qualquer desculpa para o estado de Arshe, apenas pagou e recebeu a chave. Elas levaram a princesa, cujo corpo estava tão tenso que agora mal conseguia andar, até o quarto e Lina trancou a porta. E então, Arshe jogou na cama, enfiou a cara em um travesseiro e literalmente uivou de dor. Se não tivesse abafado o som, provavelmente teria chamado a atenção de todos ali. Lina e Doroteya se olharam, sem saber o que fazer. Não era como quando a maga esteve doente e elas tiveram que cuidar dela. Agora, a situação era diferente, pois as feridas da alma não era visíveis e eram muito mais doloridas que qualquer adaga envenenada. Por isso, restou para as duas apenas esperar que Arshe colocasse para fora toda sua dor e conseguisse finalmente conversar.
Todavia, depois de muito chorar, Arshe adormeceu. Lina achou aquilo um bom sinal, pois se ela dormira, fora porque o choro a ajudara a se livrar da pior das tensões. Então, restou a ela e a Doroteya esperarem. Para não atrapalhar a princesa, elas foram para a varanda do quarto e fecharam a porta de vidro. Lá fora, se sentaram nas cadeiras e puderam conversar.
— Estou me sentindo sufocada com tudo isso! — desabafou Lina frustrada – Minha vontade é sair caçando aquele elfo maldito e só voltar com a cabeça dele!
— Lina, esse é o tipo de coisa que não se resolve assim. — ralhou Doroteya.
— Mas devia! Veja no que isso deu! Arshe está lá dentro, com o coração e alma em frangalhos e não podemos fazer nada! — exclamou exasperada.
— Podemos. — afirmou a druidesa calmamente – Podemos dar nosso apoio quando ela acordar.
— Isso não vai curar o coração dela. — retrucou.
— Talvez não imediatamente, mas com o tempo sim.
A comandante bufou e olhou para a rua no exato momento em que Aethas e Tewdric passavam embaixo da varanda. Eles não a viram e Lina se sentiu estranhamente aliviada.
— É o orc de hoje. — comentou Doroteya em um sussurro.
— É. — respondeu Lina no mesmo tom – E aquele é Aethas Fendessol.
A druidesa estranhou.
— Ele não é neutro? Isso é permitido? — questionou.
E então Lina soube quem era o orc e a elfa que viram mais cedo.
— Não se for da família. — ela se recostou na cadeira – Tenho certeza que aquela elfa era uma das princesas de Luaprata. Eu soube que uma delas é casada com um orc. E todas são sobrinhas de Aethas Fendessol. — ela suspirou – Se o tal do Kayliel é íntimo da família real, só torna as coisas piores. — ela praticamente puxou os cabelos – Por que diabos eu permiti isso?!
— Porque era o melhor a fazer por Arshe. — Doroteya se inclinou e viu que o orc e o elfo tinham sumido de sua vista – Nossa, fico imaginando como seria casar com alguém de outra raça… Ela deveria estar muito apaixonada, pois os orcs são… Sei lá… Selvagens…
— Falou a worgenin druida da floresta. — disse Lina sem conter a risada.
Doroteya a encarou, envergonhada, e depois riu também.
— Não esse tipo de selvagem. Um selvagem diferente.
— Bem, pode ser pela pegada. — supôs Lina – O orc deve fazer coisas que um elfo não faz. Ou ter uma coisa a mais. — e levantou as mãos mostrando um espaço considerável entre elas.
Não puderam deixar de rir, mas logo Lina estava séria novamente.
— Sabe Doro, eu tive uma impressão forte desse orc. A forma como eles nos olhou quando passou por nós… Sei lá, parecia que ele sabia o que estávamos fazendo lá.
— Deve ser coisa de sua cabeça. — sugeriu Doroteya – Como ele saberia?
Lina tentou se apegar a esse argumento. Como o orc saberia? Porém, lá dentro da cabeça dela, a dúvida continuava martelando. E continuaria por um bom tempo. Ela só ficaria em paz quando colocasse uma boa distância entre Kayliel e Arshe e garantisse que a princesa não teria mais contato com ele. E se o orc soubesse, bem, não era problema dela. Ele não alcançaria Arshe e seria o elfo quem pagaria por tudo. Se os comentários chegassem em Ventobravo, ela os abafaria. Sabia bem como fazer aquilo. Aprendera com Bolvar.
Lina e Doroteya permaneceram na varanda até verem Arshe sentar-se na cama. Entraram no quarto novamente, preocupadas. O rosto da jovem estava inchado e quando ela as olhou, Lina lembrou bem da primeira vez que viu Arshe, quando ela era quase uma criança.
— Minha maquiagem está borrada? — quis saber a princesa, com os imensos olhos arregalados.
Lina a encarou, sem acreditar.
— Essa é sua preocupação? Se está com a maquiagem borrada? — perguntou surpresa.
— Com o que mais tenho que me preocupar? — perguntou – Tudo acabou agora.
Doroteya achou que Arshe ia voltar a chorar, mas a jovem continuou apenas encarando as duas. A druidesa então foi até a mesa que tinha no quarto, colocou bastante água em uma bacia de porcelana e a aqueceu. Pegou também uma toalha de rosto e levou até a princesa.
— Sim, sua maquiagem borrou. — disse com carinho – Que tal lavar o rosto e reaplicá-la?
— Certo. — disse Arshe como se sua mente ainda estivesse em outro lugar.
A princesa se levantou e foi até a bacia e lavou o rosto demoradamente. A comandante estava tensa, com medo que a qualquer momento, Arshe desmoronasse de novo. Porém, a maga apenas lavou o rosto até tirar toda a maquiagem e Lina percebeu o quão mais jovem ela parecia quando estava de rosto limpo. Se perguntou porque Arshe insistia em estragar toda aquela beleza natural com pós e tintas artificiais. Nada havia de errado no rosto da princesa que ela precisasse esconder ou alterar. E seu rosto limpo trazia uma beleza inocente que nem mesmo Kayliel poderia tirar.
— Vocês querem saber? — perguntou Arshe depois de enxugar o rosto – Querem saber o que conversamos?
Lina e Doroteya se entreolharam.
— Só se você estiver em condições de falar. — disse a comandante.
— Estou. — garantiu a outra.
As três sentaram na imensa cama de dossel e Arshe falou. Falou sem parar e nenhuma lágrima desceu enquanto relatava tudo que ouvira e dissera. O mais impressionante foi a frieza com a qual Arshe fez o relato. Ela parecia fazer um relatório técnico de uma falha mecânica em vez de falar do fim de toda uma história amorosa. Lina acreditou que era a forma que a princesa escolhera para lidar com aquilo e nada disse. Doroteya também percebeu, mas como Lina, ficou calada. Elas ouviram tudo, até o fim e quando Arshe encerou a narrativa, as olhou como se esperasse um veredicto.
— Como você se sente em relação a isso tudo? — quis saber Lina – Como está seu coração?
— Eu sinto como se não tivesse mais nenhum. — admitiu a maga – Como se tivesse um buraco aqui dentro. Como se algo tivesse sido arrancado de mim.
— Sei como é. — falou Doroteya – É a anestesia da dor. Quando ela passa… — a druidesa não terminou a frase.
— Talvez não passe. — disse Lina – Talvez todo o sentimento tenha sido arrancado mesmo. — ela própria duvidava de suas palavras, mas sentiu que era algo que deveria ser dito a Arshe.
— Não importa agora. — Arshe deu de ombros – Foi o fim.
Ficaram em silêncio um momento e então Doroteya se adiantou e abraçou Arshe. A princesa retribuiu o abraço. Lina ficou um pouco sem jeito, mas acabou aderindo ao abraço também. Arshe precisava daquilo. Depois de alguns instantes, se afastaram, com sorrisos tímidos, mas sinceros.
— Onde estão minhas compras? — quis saber a princesa franzindo a testa – Não posso voltar de mãos abanando!
Lina e Doroteya deram pequenos sorrisos. Arshe sendo Arshe.
— Ali. — a druidesa apontou para um canto onde estavam todas as sacolas – Quer volta agora?
Arshe pensou por um momento. O ideal era voltar para Ventobravo. Porém, pela hora, acabaria tendo que jantar com Anduin e Varian e ainda não se sentia pronta para isso. Queria mais uma noite de sono e descanso antes de encarar aqueles dois.
— Podemos jantar aqui. — sugeriu – A comida é boa e assim fico mais tempo com vocês duas. — e sorriu.
Para Lina era o suficiente. Se Arshe queria jantar ali, jantariam.
— Quer um tempo para se arrumar antes de descermos? — perguntou a comandante e ficou surpresa quando Arshe negou com a cabeça.
— Não estou com vontade de me maquiar agora. Vamos descer.
Se Lina soubesse o que as aguardava lá na taverna, tinha pego Arshe, colocado debaixo do braço e fugido de Dalaran tão rápido quanto pudesse. O elfo estava lá. E não apenas ele, a elfa que vira mais cedo, o orc e Aethas Fendessol. Lina percebeu que a notícia que a princesa de Ventobravo estava ali se espalhou, pois muitas pessoas as olharam quando chegaram ao salão. Inclusive aquele grupo que queria evitar. Temeu que Arshe surtasse novamente, mas a princesa, apesar da palidez, não demonstrou nada. Assim que elas sentaram, a comandante perguntou:
— Quer ir embora?
Arshe fez que não.
— Não quero chamar mais atenção saindo assim que cheguei. — ela suspirou.
A comandante estranhou porque Arshe chamava tanta a atenção quando havia mais uma princesa ali naquela sala. Pensou um pouco e chegou a conclusão que era porque todos sabiam quem era Arshe, mas as princesas élficas eram praticamente desconhecidas. Se aquela não estivesse com Aethas e um orc do lado, Lina não saberia se tratar da realeza.
A garçonete foi muito gentil quando chegou com os cardápios e, mesmo sem fome, Arshe pediu seu prato favorito. Doroteya ficou feliz em saber que havia opções vegetarianas e Lina pediu qualquer coisa lá que parecesse boa. Sua vontade mesmo era tomar muita cerveja, mas estava a trabalho. Teria que esperar para descarregar um pouco daquela tensão.
— Lina – chamou Arshe – Você vai dar algum presente ao meu tio? — quis saber.
Arshe mantinha os olhos fitos na mesa e Lina entendeu que era a forma dela de lidar com a presença de Kayliel do outro lado do salão. A jovem queria conversar de coisas que a fizesse se sentir a vontade e ao mesmo tempo evitar o contato visual com a outra mesa. Lina torcia para o elfo ter o mesmo cuidado.
— Pretendo sim. — respondeu – Não sei se ele vai gostar, mas é o que posso fazer.
Arshe sorriu.
— Seria muito bom se você pudesse passar a véspera do Véu de Inverno com ele. — comentou – Sabe, ele nunca me disse nada, mas tenho a impressão que é o momento mais triste do ano pra ele.
Com o coração apertado, Lina lembrou da expressão no rosto dele quando soube de suas férias. Seria por isso? Bem, não havia nada que ela pudesse fazer. O que diria aos seus pais se não fosse para casa no feriado? Sempre fizera isso e fazer diferente acarretaria em perguntas que ela definitivamente não queria ter que responder. E se decidisse fazer isso? Ia ficar escondida no quarto de Varian esperando que ele acabasse o jantar com seu filho para então poder ver a amante? Não, também não queria isso. Então, não havia nada que pudesse fazer.
— Preciso ver meus pais. — foi o que disse a Arshe – É a única visita que faço durante o ano à fazenda.
— Entendo. — disse a princesa – Se fosse eu, também quereria passar com meus pais. — Arshe deu um sorriso triste – Eu queria poder passar com meu pai.
Como se não bastasse o acontecido de mais cedo, agora Arshe falava dos pais mortos. Não havia um jeito de fazer com que aquela conversa pegasse rumos menos depressivo?
— Eu gostei de Dalaran. — disse de repente Doroteya sorrindo – Nunca havia estado aqui antes. Para uma cidade, é bem agradável.
Lina quase beijou Doroteya por ter mudado de assunto. Parecia que a druidesa leu sua mente.
— Verdade, Doro não lutou contra o Lich Rei. — comentou Arshe.
— Tivemos nossas próprias lutas em Guilneas. — a druidesa olhou em volta – Gostei daqui também. Acho que é um local que eu posso trazer Theo no futuro. Ele adoraria.
— É importante que Theo conheça outros lugares. — disse Lina – E Dalaran, apesar de conter pessoas indesejadas para mim, é um dos locais mais seguros do planeta.
— Por que você não se dá bem com suas irmãs, Lina? — quis saber Arshe.
Agradecendo a Luz pelo fato da princesa ser uma pessoa extremamente curiosa, Lina começou a contar os fatos de sua infância e as muitas desavenças tanto com Lícia quanto com as outras irmãs. Os relatos eram tão intensos e absurdos que prendeu a atenção tanto de Arshe quanto de Doroteya e elas passaram até mesmo a se divertir. Se não fosse a presença de Kayliel, Lina teria dito que a noite estava maravilhosa. A comida, quando chegou, estava perfeita, a conversa divertida, e um grupo musical tocava músicas alegres, que deixavam tudo mais leve.
Até que a Arquimaga Modera apareceu.
Lina não tinha uma opinião formada sobre a Arquimaga Modera até o momento, pois nunca tivera muito contato com ela. Sabia que era uma das líderes do Kirin Tor e que o sonho de sua irmã era seguir seus passos. Pelo que ouvira falar, Lícia teria que se dedicar muito para chegar perto do status que aquela mulher tinha.
Quando Arshe a viu, ficou indecisa por um momento. Chamaria a atenção da arquimaga, ou se encolheria ali na mesa desejando não ser vista? Só que não precisou decidir, pois no momento em que Modera a viu, sorriu e encaminhou-se na direção da mesa delas, fazendo com que Arshe desejasse ter passado pelo menos um pouco de maquiagem.
— Querida Arshe! — cumprimentou a mulher – Quase não acreditei quando me disseram que você estava por aqui!
Arshe se levantou e fez uma mensura para Modera.
— Modera! — disse em falso tom de entusiamo – Eu ia visitá-la mais cedo, mas infelizmente passei mal e tive que me recompor. Sente-se por favor! — disse indicando uma cadeira.
— Passou mal? Está doente? — perguntou a arquimaga sentando-se com elas.
— Provavelmente foram doces em excesso. — mentiu Arshe – Você sabe que não resisto aos biscoitos de gengibre de Dalaran!
Modera deu uma risada.
— Sim eu sei. — e olhando para Lina e Doroteya, perguntou – E quem são suas companhias?
— Essa é Lina Wood, comandante do exército de Ventobravo. — Lina acenou com a cabeça para Modera – E essa é Doroteya Finningan, druidesa de Guilneas. — Doroteya deu um sorriso educado – Elas são minha escolta hoje.
— Escolta? — Modera franziu o cenho – Você não precisa de escolta em Dalaran!
— Ela é a princesa de Ventobravo. — disse Lina seriamente – Se o rei ordenar que ela precisa de escolta, a escoltaremos até o banheiro se for necessário.
Arshe deu uma risada sem graça, mas Modera continuou séria. Encarou Lina com dureza por um momento, como se tentasse decidir se fora insultada ou não e depois sorriu forçadamente.
— Vejo que você tem uma protetora bem empenhada, Arshe. — comentou a arquimaga secamente – Espero que isso não signifique que o Alto-Rei esteja desconfiado de nós.
— O que o Alto-Rei pensa não deveria interessar a você. – cortou Lina – Vocês são neutros, não é mesmo?
— Por isso minha preocupação. Tentamos manter um bom relacionamento com as duas facções. — apesar da resposta educada, Modera estava visivelmente incomodada – Não me interprete mal, comandante.
Arshe viu que precisava intervir.
— Modera, a Lina foi pupila do meu pai, então ela é meio superprotetora comigo mesmo. — disse com a voz suave – Como uma irmã mais velha entende? Não tem nada a ver com Dalaran, é só o jeito dela mesmo.
A princesa falou de um jeito delicado, com os imensos olhos azuis brilhantes e sinceros e um sorriso inocente. A mudança de jovem com o coração partido para uma singela princesa fora tão convincente que Lina e Doroteya teriam acreditado se não tivessem visto mais cedo o que acontecera. Arshe queria passar para a arquimaga uma imagem de vulnerabilidade que justificaria até mesmo todo um exército ali. E, pela expressão de Modera, a jovem conseguira.
— Oh, entendo. Uma pessoa tão ligada a Bolvar Fordragon não a deixaria desacompanhada. — a arquimaga sorriu.
— Não mesmo. — confirmou Lina – Afinal, não há apenas membros da Aliança aqui. Por mais neutros que vocês sejam, não deixarei a Arshe sozinha onde houver pessoas da facção oposta.
Modera não respondeu, mas olhou para o outro lado do salão, onde Aethas estava com Kassyeh, Tewdric e Kayliel. Naquele exato momento, Kassyeh as olhava com curiosidade.
— Apenas para esclarecer, comandante, creio que tenha reparado que um dos membros do conselho está aqui nessa taverna ao lado de membros da Horda. — a arquimaga não parecia muito feliz em relatar isso – Porém, as pessoas que o acompanham são de sua família, coisa que é permitido pelo Kirin Tor. Não é algo com quem tenha que se preocupar.
Havia sim com o que se preocupar, pensou Lina, mas isso não era assunto para o Kirin Tor.
— A família do arquimago Fendessol é a realeza de Luaprata, não? — questionou Lina, não por que queria a informação, mas porque agora sentia um prazer em deixar Modera incomodada. Entendia porque sua irmã Lícia tanto idolatrava quela mulher; havia muito em comum entre as duas e a comandante começava a desgostar da arquimaga.
A arquimaga também começava a desgostar de Lina. Para uma maga que costumava a andar em círculos onde muitas vezes a sinceridade tinha que ser deixada de lado em prol da política, alguém tão transparente quanto Lina era quase um insulto. Aquela comandante não duraria muito tempo se servisse em Dalaran.
— Sim, a família Fendessol recentemente subiu ao poder por um acaso do destino em Luaprata. Mas quero deixar claro que isso nada interfere no trabalho do arquimago Aethas.
A postura defensiva da mulher dizia a Lina que ali talvez houvesse dúvida do que ela própria afirmava. Apesar da proclamada neutralidade do Kirin Tor, quando se envolvia família era difícil não tomar um partido. Não ouvira várias vezes de sua própria irmã o quanto detestava trabalhar com raças da Horda? Ainda que mantivessem um bom relacionamento, Lícia afirmava que não conseguia deixar de pensar no que a Horda já fizera inúmeras vezes. A comandante acreditava que o ressentimento estava ali, embaixo de camadas de educação e polidez, mas que cedo ou tarde explodiria. E tudo seria muito pior do que já era.
— Sei que o Kirin Tor continuará fazendo seu trabalho de mediação da forma mais imparcial possível. — recitou Arshe como se tivesse decorado aquela frase para usá-la em um momento oportuno.
— Obrigada princesa. — agradeceu Modera – Fazemos tudo para garantir a paz.
Lina a detestou ainda mais.
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Kassyeh tentou não se importar com a tensão que se instalou em sua mesa após a chegada de três humanas no ambiente. Afinal, a elfa não tinha motivos nenhum para se sentir incomodada com nenhuma delas. Porém, logo ficou perceptível até mesmo para a maga que havia algo ali que mudara o clima do local. Quem seriam elas? Deu uma boa olhada, mas não fazia a mínima ideia de quem se tratava.
— Quem são aquelas três? — perguntou para o tio – Todos as olham e comentam…
Aethas desejou que Kassyeh não tivesse feito aquela pergunta, pois sabia que se a sobrinha contasse para Luxuriah com quem dividira o ambiente, era capaz da outra não deixar que ela jamais colocasse os pés ali de novo. Todavia, não podia negar a informação, visto que Kassyeh já percebera que possivelmente se tratava de alguém com relativa importância. Aethas não sabia nada sobre duas delas, mas havia uma que justificava todo o burburinho no salão.
— Só conheço uma delas. — disse um pouco incomodado – A de vestido azul é a princesa emérita de Ventobravo, Arshe Fordragon. Foi ela quem conversou comigo sobre uma possível aproximação com vocês.
Kayliel estremeceu, mas apenas Tewdric percebeu.
— Então ela é uma princesa… — Kassyeh ficou ainda mais curiosa – Por isso a atenção…
— Se todos que estão aqui soubesse quem você é, você atrairia a mesma atenção. — ponderou o arquimago.
Kassyeh franziu o cenho.
— Não quero atenção nenhuma. Estou bem assim.
— Espero que sua postura nunca mude. — desejou o tio.
A maga apenas sorriu.
O assunto desviou para outras coisas e Kassyeh começou a elogiar o grupo que tocava. A elfa realmente estava impressionada com a execução que eles faziam de baladas antigas e tão maravilhosas, e quase chorou de emoção ao ouvir uma que era de autoria de sua avó. Ficou tão encantada com o que ouvia que foi a única que não prestou atenção na chegada de Modera nem ficou preocupada com a atenção que a Arquimaga dispensava à princesa de Ventobravo.
— Pode isso, titio? — perguntou Tewdric se sentindo perturbado – Ela é do Kirin Tor, não é?
— Não é a coisa mais aconselhável a fazer em público. — disse Aethas – Mas quem sou eu para dizer algo? Estou aqui com vocês, não é?
— Mas nós somos família. — ralhou o orc – Até o Kayliel é seu parente também. — ele deu uma pausa, confuso – É considerado família, não é?
— De certa forma, sim. — respondeu Aethas.
— Então tá tudo bem! — determinou o guerreiro.
Só que para Kayliel não estava tudo bem. Se soubesse que encontraria novamente com Arshe, não teria vindo. Se soubesse que teria que ouvir o nome dela sendo falado na mesa, não teria vindo. Na verdade, não era para ter vindo, não importava o que soubesse ou não. Estava ali, com a garganta apertada, o coração dolorido, querendo gritar a plenos pulmões tudo que o sufocava e tinha que sentar-se calmamente e comer. Se não fosse Kassyeh quem estivesse naquela mesa, já teria ido embora. Mas como justificar depois sua atitude? Kassyeh não era a pessoa mais perceptiva do mundo, mas pensava que ele estava doente e se preocuparia com sua retirada abrupta.
O sacerdote sequer imaginava que não era com Kassyeh que deveria se preocupar. Tewdric, apesar da conversa com Aethas mantinha o olho fixo no elfo. Cada expressão, cada olhar dele era captado pelo orc, que começava a ficar preocupado. Mas a preocupação de Tewdric nada tinha a ver com os sentimentos do elfo. Se ele queria sofrer por humanas, problema dele. A preocupação do orc era porque Kayliel era responsável por Luxuriah. A elfa só confiava nele para cuidar de sua gravidez e se aquele idiota se abestalhasse e fizesse algo estúpido, isso repercutiria em sua família. E era uma coisa que ele definitivamente não queria.
— Ei, Kayliel. — chamou – Você examinou a Lulu antes de vir para cá?
A mudança brusca de assunto deixou o elfo um pouco confuso. Por um momento, ele olhou para Tewdric e viu uma sombra de desconfiança dentro dos olhos azuis do orc. Não, era impossível. Devia ser apenas paranoia sua.
— Boa pergunta. — elogiou Aethas voltando sua atenção para o sacerdote também – Como anda a gravidez da minha sobrinha?
Kayliel pigarreou antes de falar:
— Está ótima. Ela não teve nenhuma dor, nenhum sangramento, nada que indicasse que alguma coisa está errada. Acredito que será uma gravidez tranquila.
Não era bem o que Kayliel acreditava, mas não podia falar na frente de Kassyeh. A elfa não sabia o que acontecera com sua irmã e nem as implicações disso para a atual gravidez dela.
— Kassyeh mal pode esperar pelo nascimento, não é? — perguntou Aethas rindo.
Contudo, a atenção de Kassyeh não estava na conversa da mesa há algum tempo. Se Kayliel soubesse o que se passava na cabeça dela, já teria se levantado e ido embora sem nenhuma preocupação. Pois, encantada com a musicalidade do grupo que se apresentava, Kassyeh desejou algo. Algo que não fazia há um bom tempo. E quando só membros do grupo deram uma pausa, ela decidiu.
— Tive uma ideia. — disse de repente.
Sob os olhares surpresos dos que estavam em sua mesa, Kassyeh se levantou e foi até o grupo musical. Os membros ficaram mais surpresos ainda quando a elfa foi até eles e se identificou. Claro que eles conheciam sua avó e ficaram encantados quando a elfa teceu elogios a forma com a qual executaram a música. Só que não esperavam o pedido que veio a seguir.
— Eu poderia cantar algo com vocês?
Enquanto Kassyeh conversava com os músicos, Aethas teve um déjà-vu. Naquela mesma taverna, quase três décadas atrás, ele comemorava a notícia da gravidez de Samanthah quando Dhomm pedira o violão de alguém que tocava ali e cantou dedicando a música a sua irmã. Fora um momento muito bonito que jamais esquecera. E pelo que via, talvez ele fosse se repetir.
Kassyeh conseguiu convencer o grupo de músicos muito facilmente, claro, por causa da menção a sua avó. A jovem maga não era uma pessoa que gostasse muito da própria voz, principalmente porque nos últimos tempos tinha poucos momentos para se dedicar a ela, só que naquela noite especificamente, queria cantar. Talvez por causa do período do ano que a deixava comovida, ou por estar na presença de pessoas que amava, ou simplesmente porque queria amenizar a tensão que sentia no salão. Havia muitos motivos e nenhum deles realmente importava. Algo dizia a Kassyeh que ela deveria cantar.
Anos depois, Kassyeh orou e agradeceu a Nascente do Sol por aquele dia. Se não tivesse cantado, provavelmente estaria morta. Porém, essa é uma história que está no futuro e a Kassyeh do presente desconhece.
O grupo começou a tocar uma melodia lenta e Kassyeh limpou a garganta e se preparou. Como eles não tinham nenhuma vocalista e apenas tocavam a capella, a elfa pensou que talvez não funcionasse muito bem quando colocasse sua voz ali. Porém, quando começou a cantar, esqueceu-se de tudo e apenas deixou a canção fluir.
A música que Kassyeh escolhera era triste e falava de um amor perdido. Claro, ela teria preferido outra música mais alegre, mas aquela era única de sua avó que o grupo conhecia bem e tinham ensaiado. Só agora, depois de saber quem era seu avô, Kassyeh entendia que todas aquelas músicas nasceram do sofrimento e da dor de sua avó, de não poder ficar com a pessoa amada e ser obrigada a deixar seu filho sem pai, por causa de convenções sociais. Sim, Lady Luelly tinha motivos para escrever cada uma daquelas tristes baladas.
Todos que estavam na taverna foram aos poucos parando de conversar e prestando atenção na voz melodiosa da elfa que cantava. E Kassyeh não apenas cantava, ela interpretava a música, colocando tanto sentimento nas letras como se ela própria estivesse sofrendo da mesma forma que cantava. Em sua mesa, tanto Kayliel quando Aethas não conseguiram se conter e caíram no choro. Os dois sabiam exatamente o significado do que as palavras cantadas por Kassyeh. Ambos sofriam naquele momento por amores perdidos. Aethas chegou a se perguntar se não deveria esquecer seu orgulho ir em busca de Vivithi mais uma vez. Kayliel se perguntou como sobreviveria sabendo que ele e Arshe jamais ficariam juntos de novo. Qual seria o sentido da vida a partir de então? Tewdric suspirou e tomou um grande gole de cerveja; tinha vontade de subir naquele pequeno palco, tomar sua elfa no colo e consolá-la, mesmo que soubesse que era apenas uma interpretação de sua esposa.
Na mesa onde Modera estava com a princesa e suas acompanhantes, também houve choro. Claro, a primeira a cair em prantos fora Arshe. A maga desejou que aquela elfa, princesa ou não, não estivesse ali, alimentado sua dor, mas, ao mesmo tempo, queria ouvi-la cantar, pois era como se ela estivesse vendo sua alma e descrevendo sua dor. Doroteya também chorou. A druidesa lembrou de Liam e do quanto sofrera por ele, e também lembrou-se de Tommy, que também perdera um amor. Se o irmão de Lina estivesse ali, também tinha chorado. Apenas Lina e Modera continuaram calmas, apesar de a comandante ter sentido um leve aperto na garganta. Fazia sentido sua ausência de lágrimas; Lina nunca se apaixonada por ninguém. Durante a adolescência, enquanto muitas garotas suspiravam por rapazes, ela gostava de caçar, nadar com o pai e sonhava em entrar no exército e agora, já adulta, não se considerava apaixonada por Varian. Gostava do rei, adorava estar com ele na cama, mas até então não se permitira ter nenhuma esperança a mais. E não era disso que a paixão era feita? Da esperança de ficar para sempre com o outro? Lina não tinha nenhuma. Estava ciente que, mais cedo ou mais tarde, o que ela tinha com o rei acabaria. Mas, ainda assim, aquele maldito aperto na garganta estava lá. Por que diabos a elfa decidira cantar uma música de amor justamente naquele dia? Poderia pelo menos ter cantado na língua deles e não na língua comum que todos podiam entender!
Quando Kassyeh terminou a música, houve um momento de silêncio e então houve uma explosão de palmas. Arshe só percebeu que estava de pé, aplaudindo com entusiamo quando Lina tocou em seu braço, puxando-a para sentar-se de novo. Mas ela não fora a única que levantara. Praticamente todos fizeram o mesmo.
— Obrigada. — ouviram a elfa dizer – Muito obrigada.
Kassyeh fez uma mensura par aos músicos e voltou para sua mesa.
Doroteya e Arshe começaram a secar suas lágrimas e sorriam, constrangidas, uma para a outra. A princesa tomou um grande gole de água antes de falar para Modera:
— Aquela princesa tem a voz mais linda que já ouvi! Não consigo acreditar que há algo tão belo assim na Horda!
Modera olhou na direção da mesa e viu que muitas pessoas, tanto da Horda quanto da Aliança, se aproximaram de Kassyeh e a elogiavam. A princesa recebia a todos com um sorriso no rosto, independente de quem fosse.
— Gostaria de conhecê-la? — perguntou – A princesa Kassyeh de Luaprata?
O choque no rosto das três foi visível. A primeira coisa que Lina pensou a era que Modera não podia falar sério. O encontro de membro de famílias reais, principalmente se fosse de facções opostas, deveria ser feita com cautela e discrição e não no meio de uma taverna em Dalaran. O que a arquimaga pretendia com aquilo?
— Não acho prudente. — disse a comandante com seriedade – Isso pode gerar consequências que não podemos prever.
— Ora, eu posso mediar. E Arshe não seria a única a ir cumprimentá-la. Veja, todos estão fazendo isso. Pensem como uma aproximação informal que poderia ser útil a ambos os reinos.
— Não. — disse Lina decidida.
— A escolha não é sua. — retrucou Modera.
As duas ficaram se encarando, mas quem decidiu foi Arshe. Sim, ela queria falar com a princesa. Mas não como ela própria sendo uma princesa, mas como alguém que amara aquela música. Sentia que precisava falar o quanto a canção tocara na alma.
— Eu irei. — disse a princesa para a surpresa de Lina – Mas não com você, Modera. Não quero ir como princesa. Quero ir como alguém que amou aquela música e precisa agradecer por tê-la ouvido. Vem comigo, Doro?
— Claro. — confirmou Doroteya levantando-se.
— Arshe... — começou Lina em tom de súplica. A preocupação da comandante não por ser uma princesa da Horda, mas por causa de Kayliel.
— Está tudo bem Lina. — disse com suavidade – Está tudo bem mesmo.
E, levantando-se, foi até lá.
O coração de Kayliel quase saltou pela boca quando viu Arshe se aproximando. Ele baixou a cabeça e passou a fitar as mãos com intensidade. Não queria olhar para Arshe. Tinha medo de toda a sua resistência ir embora e então se jogar nos pés dela pedindo perdão.
Kayliel não foi o único a ficar tenso com a aproximação de Arshe. Aethas, vendo que a princesa vinha em sua direção, temeu que isso gerasse algum problema diplomático. Os únicos que não se preocuparam foram Tewdric, que pode perceber que a princesa vinha na boa, e Kassyeh que estava animada demais com os elogios para pensar em outra coisa.
— Boa noite. — disse educadamente a princesa de Ventobravo quando chegou na mesa – Desculpe-me incomodá-los, mas gostaria de parabenizar a cantora pela excelente música de agora a pouco.
— Muito obrigada. — agradeceu Kassyeh com sinceridade – Essa música pertenceu a minha avó, então é uma alegria poder compartilhá-la com as pessoas.
— Nunca ouvi algo tão belo em minha vida. — falou Doroteya timidamente – Você deve estar orgulhosa de cantar dessa forma.
Kassyeh corou.
— Ah, só fico feliz. A música tem o poder de unir as pessoas. — e sorriu.
— Então o mundo deveria ser governado pela música. — propôs Arshe.
— Sim, deveria. — concordou Kassyeh.
E com uma breve mensura, Arshe e Doroteya se retiraram. E quando as duas voltaram à mesa, Lina e Modera se encaravam ferozmente, como dois gatos prestes a se engalfinhar.
— Acho que podemos ir agora, Lina. — falou Arshe – Está ficando tarde e não quero preocupar meu tio.
A comandante ficou visivelmente aliviada.
— Ótimo! — e se levantou – Vou pegar as compras e já desço.
— Não precisa. Vamos subir e lá em cima eu conjuro o portal. — e olhando para a arquimaga, agradeceu – Obrigada pela companhia Modera e desculpe qualquer coisa.
— Não há anda que se desculpar, princesa. — disse ela rapidamente se levantando – Foi uma honra.
— Igualmente. — e fez uma mensura.
Após pagarem a conta do jantar, as três amigas se retiraram do salão, subiram as escadas em silêncio e pegaram as compras. Antes de irem embora, Arshe teve o cuidado de perguntar a Lina:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você vai contar ao titio que falei com uma princesa de Luaprata?
Lina sequer se deu ao trabalho de responder. A olhou com a cara feia e ordenou:
— Abra logo esse portal.
E, em poucos segundos, estavam em casa.
De volta ao salão, também não demorou muito para que Kassyeh e os demais se retirassem. A elfa estava satisfeita, mas também estava cansada e quando as pessoas pararam de falar com ela, sugeriu que fossem embora. A sugestão foi imediatamente aceita. Quando se preparavam para sair, Modera, que até então tinha se mantido afastada, se aproximou.
— Aethas. — disse com um sorriso que não chegava aos seus olhos – Que bom vê-lo. — e olhando para Kassyeh, elogiou – Sua voz é maravilhosa, alteza. — e fez uma mensura.
Kassyeh a reconheceu como um membro do Kirin Tor e devolveu o cumprimento.
— Muito obrigada.
— Já estão de saída? — perguntou a arquimaga.
— Sim, já. — respondeu Aethas incomodado com a presença da colega de conselho.
— Será que poderia me dar um minuto de sua atenção, Aethas? — perguntou – É rápido.
Sem saída, o arquimago fez que sim. E enquanto Kassyeh pagava a conta, Tewdric olhou rapidamente para onde seu tio e a humana conversavam. Eles pareciam discutir.
— Kayliel. — chamou Kassyeh – Quer passar a noite lá na casa do tio? Você parece ter piorado.
O elfo não apenas tinha piorado. Ele queria morrer naquele momento. E talvez fizesse isso mesmo, se fosse para casa sozinho.
— Claro. — respondeu sem emoção.
Esperaram até que Aethas tivesse terminado o que quer que fosse com Modera para irem embora. O arquimago voltou visivelmente irritado e não comentou o que discutira com a colega. Kassyeh apenas deu de ombros e Tewdric suspirou. Tinha sido um dia e tanto. Ainda bem que chegara ao fim.
********************
O dia vinte e três não tinha nada de especial, diferente do dia vinte e quatro que era a véspera de Véu de Inverno. Ainda assim, era nesse dia que as pessoas começavam a ficar agitadas. Quando criança, Vivithi lembrava que a mãe apelidara o dia vinte e três como “a véspera da véspera” para explicar porque todos já começavam os preparativos para as comemorações.
Só que naquele ano, a elfa não via nenhum motivo para comemorar.
Devagar, ela terminava de abotoar os botões de sua roupa. Estava quente em Orgrimmar e aquela estalagem era horrível. Deveria ter seguido seus instintos e ido logo para a estalagem dos pais de Saba, mas por algum motivo, se contivera. Não queria que a pequena a visse com ninguém e isso deixava Vivithi com muita raiva. Por que estava se escondendo se não tinha compromisso com ninguém?!
— Você foi ótima. — ouviu o elfo, que sequer lembrava o nome, dizer – Nos veremos de novo?
— Claro. — mentiu sem olhar para ele – Em breve.
Ela se levantou, pegou o arco e se dirigiu para a porta.
— Nenhum beijo de despedida? — ele perguntou malicioso.
— Não. — respondeu secamente.
Se ele soubesse que a vontade de Vivithi era enfiar uma flecha na boca dele, não teria se mostrado tão decepcionado. Então, ela saiu e bateu a porta, sem olhar para trás.
Não havia palavras para descrever o quão frustrada Vivithi estava. Desde que aquele maldito Aethas proferiu aquelas malditas palavras, ela não era a mesma. Se via pensando nele toda a hora, desejando estar com ele, fosse na cama, no chão, em qualquer lugar. Chegara ao ponto de acordar trêmula, após ter sonhos eróticos onde ele a possuía no meio da Praça do Falcão. Sim, definitivamente ele a abalara demais.
Só que ela não esmoreceria. Não deixaria que ninguém mais a controlasse como fora controlada antes. De jeito algum! Aethas poderia ser bom de cama, mas, com certeza, não era o único. E para provar isso para si mesma, Vivithi decidira sair com outros.
Fora um desastre. Ela não conseguira ficar satisfeita com nenhum deles. Da primeira vez supôs que foi por ter escolhido um orc. Sim, era verdade o que diziam, eles eram bem brutos e ela conseguira um orgasmo muito cru, visceral, que logo passou e deixou um vazio imenso dentro de si. Desistiu dos orcs e voltou para os elfos. Nenhum orgasmos sequer e já estava no terceiro elfo. Como ela poderia se satisfazer daquela forma? Bem, restou apelar para as próprias mãos numa tentativa de aliviar a tensão. E foi com ódio que percebeu que pensava nele enquanto fazia aquilo. Parou e não tentou mais. O elfo daquela tarde era sua volta para os elfos e novamente foi mal sucedida. Qual seu problema afinal?!
Seu problema era Aethas. Simples. Se ele não tivesse falado aquelas coisas…
Grunhiu alto e assustou alguns passantes na rua. Estava enraivecida e percebeu que de nada adiantara ter se oferecido para ir a Orgrimmar enquanto sua cabeça continuava em outro canto. Pelo menos, esperava que a chegada de Saba em Luaprata deixasse as coisas tão agitadas que ela pudesse se distrair um pouco.
A menina já esperava por Vivithi na entrada de casa. Estava com um vestido novo, os cabelos trançados e conversa com uma orquisa bem velha, que Vivithi não conhecia. Ao lado delas, a mãe de Saba também ouvia com atenção as palavras da velha senhora, com a expressão de deleite e respeito. Quando Vivithi se aproximou, Saba a viu e abriu um imenso sorriso. O coração da elfa ficou um pouco mais leve.
— Bom dia. — disse quando chegou em frente a estalagem – Vejo que alguém já está pronta.
— Estou! — exclamou a menina empolgada.
— Saba, comporte-se! — ralhou a mãe.
— Deixe a menina. — disse a orquisa mais velha – É bom poder externar nossa alegria.
Saba sorriu em agradecimento a velha.
— Vivi, essa é minha mestra. — anunciou Saba – Mestra, essa é a Vivi. Ela quem cuida da segurança da Karen.
— Oh, muito prazer. — a velha senhora estendeu a mão.
— Igualmente. — disse Vivithi aceitando o cumprimento.
Quando as mãos delas se tocaram, Vivithi sentiu um pequeno arrepio. A orquisa então a olhou intensamente e a elfa estremeceu um pouco. Por um momento, sentiu-se completamente desnuda e vulnerável, mas não de uma forma ruim. Era mesma sensação que tinha quando sua mãe a olhava, em busca de respostas.
— Você não deveria lutar contra isso. — falou a senhora seriamente – Deveria aceitar a dádiva que lhe foi oferecida.
Vivithi puxou a mão lentamente, torcendo para não insultar a velha senhora.
— O que isso quer dizer, mestra? — perguntou Saba.
— Nada. — respondeu a patrulheira, sem entender o nervosismo – Está com a mala ai? Vamos?
— Vamos! — respondeu animada.
— Saba. — chamou sua mãe seriamente – Lembre o que conversamos. Comporte-se!
— Certo! — garantiu a pequena e Vivithi sabia que se comportar era a última coisa que Saba faria.
A velha orquisa se abaixou com dificuldade e ficou olho a olho com Saba. Colocou a mão na cabeça da menina e proferiu umas palavras em órquico que Vivithi não entendeu muito bem, mas acreditou se tratar de uma benção. Devia ser o idioma no estado puro, de quando aquele povo vivia em Draenor. Depois disso, a xamã se levantou e sorriu para a elfa, que ficou um pouco incomodada.
— Boa viagem para vocês.
Tentando ignorar o olhar da xamã, Vivithi tirou um cristal de dentro da bolsa, jogou no chão e pisou nele. Um portal se abriu instantaneamente e do outro lado era possível ver Luaprata. Agradeceu mentalmente a Kassyeh por aquele atalho, pois uma viagem de zepelim não era algo que a elfa quisesse enfrentar.
— Vamos. — chamou ela – Até mais Gryshka. Senhora. — e acenou para a xamã.
— Até mais meninas. Aproveitem o feriado. — disse a senhora.
— Até mais querida. — a mãe de Saba lhe deu um apetado abraço – Feliz Véu de Inverno.
— Feliz Véu de inverno, mãe e mestra! Até próximo ano!
Todas riram da animação da menina. Vivithi a pegou pela mão e cruzou o portal.
Em Luaprata estava bem frio e Vivithi enrolou Saba em sua grossa capa assim que chegaram. Kassyeh lhe dissera que Gryshka comprara algumas roupas de inverno para a menina, mas ela duvidava que em Orgrimmar se soubesse realmente o frio que fazia ali. E como ficaria duas semanas ali, Saba teria que se agasalhar bem para não adoecer e estragar a viagem.
— Saba! Saba!
Os gritos de Karen encheram os ouvidos de Vivithi e logo a menina aparecia, correndo animadamente na direção delas.
— Karen! — respondeu Saba se livrando da capa e correndo para a amiga.
As duas meninas se abraçaram rindo, como se fizesse anos que não se viam. A patrulheira não pode deixar de sorrir. Aquela amizade era tão bonita e tão inocente que bastava observá-las um pouco para que qualquer um se sentisse melhor.
— Ei, ei. — disse se aproximando com a capa na mão – Saba não está vestida adequadamente. — e enrolou as duas meninas na capa e elas começaram a rir – Pronto! Duas meninas embaladas pelo preço de uma! – elas riram ainda mais – Que tal subirmos e Saba trocar de roupa?
Elas assentiram e Vivithi as tocou para o andar superior da Torre.
— Cadê a Lux?- perguntou a pequena orquisa – Quero ver a barriga dela!
— Ela tá descansando. — respondeu Karen – Ela vive cansada agora.
— E a Kass? — quis saber.
— Tá fazendo as compras da comida amanhã. E a Ash tá treinando. — e abrindo um sorrisinho, perguntou – Vamos atrapalhar o treinamento dela?
— Vamos! — aceitou Saba animada.
— Não, não vão. — interferiu Vivithi – Ash precisa treinar e vocês duas têm outra programação, lembra Karen? Saba vai conhecer Salandria.
— Ah é! — lembrou-se a menina – Você vai adorar ela, Saba!
Saba fez bico, como se não estivesse feliz com a ideia.
— Você vai gostar mais dela que de mim. — choramingou.
— Claro que não! — disse a pequena elfa com intensidade – Você sempre via ser minha melhor amiga!
Saba sorriu e elas se abraçaram. Vivithi suspirou, pensando em como seria longo aquele dia, cuidando das duas. Pelo menos estaria ocupada.
Após Saba está devidamente vestida, as três foram até a casa de Lady Liadrin, que ficava no mesmo bairro nobre que a casa de Rommath e a mansão de Lady Luelly. Saba já conhecia Luaprata, mas, mesmo assim, ficou impressionada com os enfeites de Véu de Inverno em todas as casas. Quando chegaram ao destino, um elfo que Vivithi reconheceu como sendo o namoradinho da matriarca dos Cavaleiros Sangrentos, Snetto, atendeu a porta e as acompanhou até o interior da casa.
— Vossa majestade chegou. — anunciou ele no salão.
Salandria e sua tutora as aguardava. Salandria estava com um vestido bem infantil, diferente da roupa que usava nos treinos e Lady Liadrin também não usava sua armadura. O feriado já chegara ali, pelo visto. No primeiro momento, Vivithi temeu que houvesse alguma tensão entre as meninas que iam se conhecer, mas, claro, estava enganada. Ela esquecia de como quem sempre complicava as relações eram os adultos. As crianças tinham uma maneira própria e muito mais simples de resolver as coisas.
— Oi, sou Salandria. — disse a elfa menor para a orquisa.
— Sou Saba. — respondeu a outra já sorrindo – Você é tão pequenininha, Salandria! — disse com carinho.
— E você tão grande Saba! — respondeu a outra com admiração – Vou ficar desse tamanho também? — perguntou olhando para Lady Liadrin.
— Vai ficar muito maior, querida. — respondeu – Todas vocês ficarão.
As meninas então sorriram uma para a outra, a harmonia totalmente estabelecida. Em pouco tempo, estavam brincando com vontade, como se tivessem se conhecido a vida toda. Ao lado de Lady Liadrin, Vivithi aceitou a taça de vinho servida por Snetto e passou a bebericar enquanto observava as meninas junto a matriarca.
— Ah, a infância. — disse Liadrin apontando com sua taça para onde elas estavam – Que tempo maravilhoso esse. Mesmo com tudo que acontece nesse mundo podre e com as responsabilidades que já jogamos nessas pobres meninas, elas conseguem rir e esquecer de tudo quando estão juntas.
— É porque não tem nenhum macho ainda na vida delas para atrapalhar. — Vivithi falou aquilo sem nem pensar e se arrependeu logo em seguida.
Lady Liadrin a olhou, surpresa, e depois deu uma gargalhada.
— Acho que você tem razão. Eles dificultam bastante, não? — a elfa olhou para Snetto, que agora distribuía chocolate para as meninas e depois foi rapidamente inserido na brincadeira – Mas quer saber? Qual graça teria sem eles?
Vivithi gostava quando a matriarca estava relaxada e conversava sobre coisas que não envolviam rebeliões, traições e desavenças. Desde que Karen fora anunciada como rainha e os Cavaleiros Sangrentos lhe juraram lealdade, a elfa estava muito mais receptiva e aberta do que antes. Era como se um peso tivesse sido tirado dos seus ombros.
— Eu acho que os machos teriam mais graça se pudéssemos deixá-los numa prateleira e usá-los apenas quando desse vontade, sem precisarmos nos preocupar com mais nada. — disse a patrulheira tomando mais um gole de vinho.
Lady Liadrin riu ainda mais.
— Ah, mas a conquista também tem graça. Aquela velha e boa sensação de não saber o que vai acontecer, não saber no que vai dar, o frio no estômago… — a elfa bebeu do vinho – Ah, amo isso tudo.
Vivithi a encarou e depois voltou sua vista para Snetto.
— Quantos verões ele tem? — perguntou.
— Vinte. — respondeu com um sorriso malicioso.
— Nossa! Quase da idade da Ash! — espantou-se. Vivithi sabia que ele era novo, mas não tanto – Pela Nascente do Sol, é um menino ainda.
—Todos vocês são jovens demais, Vivithi. Você um pouco menos que ele e as princesas. Todos os velhos e sábios elfos sumiram da face de Azeroth – o olhar dela endureceu – Sobramos eu, seu tio e Rommath. A velha guarda. Me pergunto todos os dias quanto tempo ainda temos antes de entrarmos em extinção. Antes de nossas crianças deixarem de existir… — e lançou um olhar triste onde estavam as meninas.
— Ah, vamos, lá, você não é tão velha assim. — o assunto já estava ficando sério e definitivamente Vivithi não queria aquilo.
— Minha cara Vivithi, depois do primeiro milênio, você até para de contar os verões para tentar esquecer a idade. — a elfa voltou a rir e fez um gesto para que Snetto se aproximasse. O elfo logo chegou até elas – Querido, se quiser pode ir descansar um pouco. Você está com Salandria desde cedo…
— Não, tudo bem. — respondeu o elfo rapidamente, com as bochechas coradas – Gosto de ficar com ela. A não ser que a senhora tenha outra coisa para me pedir.
— Peço que você não me chame de senhora. — disse com um sorriso – Já conversamos sobre isso.
O elfo corou absurdamente e baixou a cabeça, mas tinha um sorriso no rosto.
— Snetto! — gritou Salandria – Venha logo!
— Com licença. — ele disse e foi até onde as meninas estavam.
Era horrível admitir, mas Vivithi estava com um pouco de inveja de Lady Liadrin. Era óbvio que o rapazote estava louco por ela, e só um cego não via que a elfa também se envolvera sentimentalmente com o rapaz. Apesar de ter muitos séculos a mais que Vivithi, Liadrin não experimentara o inferno de estar presa em um relacionamento que sugava tudo de bom de você e não conseguir sair. Estremeceu um pouco e bebeu um pouco mais de vinho.
Lady Liadrin era provavelmente a elfa mais velha viva e tivera muito tempo para aprender sobre seu próprio povo, principalmente a parte feminina. Além disso, ela também conhecia a história de Vivithi e fora uma das testemunhas de defesa de Lor’themar quando a confusão se instaurou em Luaprata. Por isso, pode perceber que havia algo em relação a algum elfo a incomodava a patrulheira, mas nunca tivera intimidade com ela.
— Vivithi. — começou colocando a taça na mesa de vidro em frente a elas – Não sou de me meter na vida das pessoas e muito menos dar conselhos. Mas deixe-me lhe dizer algo que aprendi vivendo todos esses séculos: nunca deixe um assunto pendente. Não importa o que você precise fazer: resolva. — e diante do olhar abismado da outra, concluiu – E não, não faço ideia de qual é seu problema, mas conheço nosso povo melhor do que qualquer ser vivo, exceto talvez os Aspectos. E dá pra ver na sua cara que há algo lhe incomodando.
A patrulheira ficou sem voz por um instante e voltou sua atenção para as meninas, que agora decidiram que seria uma boa ideia enfeitar os cabelos de Snetto com trancinhas e fitas coloridas. O elfo não parecia se incomodar e sorria sem parar.
— Não sei se ele faz essas coisas porque gosta ou só porque está apaixonado por mim. — riu-se Liadrin pegando novamente a taça de vinho.
— Pessoas apaixonadas fazem coisas idiotas. — disse Vivithi quase que automaticamente.
A própria Vivithi ficou surpresa por dizer aquelas palavras. E uma ideia surgiu em sua cabeça. Uma ideia imbecil, imoral e que definitivamente não era algo que alguém com um pouco de empatia faria. Algo que definitivamente jamais permitiria que se fizesse com alguém. Porém, fora a única ideia que surgira para sanar seu problema. Não, não podia fazer aquilo. Era se rebaixar e ser como… Ser como aquela pessoa que odiava. Não, não. Não faria.
Mas a ideia continuava lá, martelando. E permaneceu o resto do dia. E no dia seguinte. E ficou até que Vivithi a colocasse em prática.
*************************
O pacote colorido estava bem no meio da mesa. Não havia nenhum nome e nenhum cartão nele. Fey e Mel estavam sentados olhando aquele pequeno pacote com muita curiosidade desde que ele fora posto ali. A curiosidade dos alfaiates, contudo, não era sobre o conteúdo do presente, pois tinham sido eles quem costurara o pijama ali embalado. A curiosidade era saber quem o receberia.
Quando a irmã deles, Lina, pedira um pijama para dar de presente, os dois se animaram e começaram a dar ideias de um belo pijama feminino, supondo que seria o presente de Arshe ou Doroteya, até que Lina os cortara:
— É para um homem. — e deu as medidas do dito cujo.
Era a primeira vez que eles viam Lina presentear um homem que não era da família Wood e isso os deixou totalmente eriçados. Afinal sua irmã tinha lá seus amantes por ai, mas nunca, nunca presenteara nenhum no Véu de Inverno. Ou seja, quem quer que fosse o imenso homem para o qual eles costuraram aquele pijama, era especial para Lina.
— Quem você acha que é? — perguntou Fey pela milésima vez a Mel.
— Não faço ideia. — respondeu Mel também pela milésima vez – Só sei que ele é grande. Deve ser um soldado de primeira categoria para caber ai dentro.
— Deve ter um pinto enorme também. — suspirou o outro.
— Com certeza. — também suspirou – Lina sortuda.
Continuaram olhando o pacote mais um tempo, antes de Fey levantar uma questão que estava na cabeça dos dois:
— Será que ela está apaixonada por ele?
— Não consigo imaginar a Lina apaixonada. — respondeu Mel – Tipo, ela é tão… Tão Lina… Não sei se digo que esse cara é sortudo ou se é um puta de um azarado!
E o pacote continuava lá, mexendo com a cabeça dos dois alfaiates.
— E se seguirmos ela? — sugeriu Fey animado – Para saber quem é ele?
— Ai eu enfiaria um poste no seu rabo e de uma forma que você não ia gostar. — respondeu Lina se aproximando dos irmãos – Será que dá para vocês deixarem de serem enxeridos?
— Não. — respondeu os dois ao mesmo tempo.
A comandante revirou os olhos e pegou o pacote. Os irmãos continuaram olhando para a embalagem como dois cachorros olham um suculento pedaço de carne.
— Dá pra vocês pararem? — reclamou colocando o presente debaixo do braço – É só um presente!
— Um presente que você dá para um homem. — salientou Fey – E isso, querida, é o acontecimento do ano!
— Seu funeral será o acontecimento do ano, se não calar a boca! — ameaçou.
Mel cruzou os braços e encarou a irmã com um sorriso malicioso no rosto.
— Sabe, podíamos obrigar você a nos dizer! — disse com confiança.
Lina deu uma risada.
— Ah, é? Como você faria isso? — desafiou.
Mel abriu ainda mais o sorriso.
— E se eu dissesse que, ou você conta quem é ou falo pro papai que você tem um namorado? — perguntou recebendo aplausos do outro irmão.
Lina ficou pálida. Apesar de saber que os irmãos não teriam coragem de jogá-la no inferno que seria o pai ciumento imaginar que ela tinha um namorado, a simples possibilidade daquele acontecimento a deixava apavorada. Estava tentando pensar numa resposta que não envolvesse um familicídio quando Tommy entrou na sala.
— O que foi? — olhou preocupado para o rosto pálido da irmã – O que você tem Lina?
— Eles estão me ameaçando Tommy! — Lina falara exatamente da mesma forma que fazia quando tinha dez anos e precisava que o irmão a defendesse – Tão dizendo que vão contar para o papai que eu tenho um namorado se eu não disser quem é meu amante!
Tommy imediatamente encarou os irmãos com raiva, o que fez Fey e Mel encolherem um pouquinho.
— Vocês estão doidos?! — gritou com os irmãos – Tem ideia do inferno que vai ser se o papai encasquetar com isso? Tem ideia de que ele pode se mudar para Ventobravo só para vigiar a Lina? Pensem em como seria ter o velho aqui com a espingarda pra cima e pra baixo resmungando sobre nenhum homem ser bom o suficiente para sua caçulinha?!
— E-Eu tava brincando… — murmurou Mel baixando a cabeça como se ele fosse mais novo que Tommy.
— É… — concordou Fey também baixando a cabeça – A gente só queria saber quem é o namorado secreto da Lina que vai ganhar presente…
Rapidamente, Tommy olhou para a irmã, espantado.
— Você vai dar um presente a um homem?!
— Ah, não! Você também! — reclamou Lina.
Doroteya e Theo chegaram na sala no meio da confusão. Os dois entraram rindo e trazendo pequenos pacotes com fitinhas coloridas. Quando perceberam a confusão na sala, pararam de rir e ficaram encarando os outros, com curiosidade. Assim que os viu, Tommy foi logo perguntando a druidesa:
— Você sabe quem é o namorado secreto da Lina?
Pega de surpresa, Doroteya apenas riu.
— Ela sabe! — exclamou Fey apontando o dedo para Doroteya.
— E provavelmente não vai dizer nada! — completou Mel.
— Chega! — gritou Lina batendo com a mão na mesa – Chega!! Em vez de estarem perdendo tempo com isso, vocês três vão terminar de arrumar as coisas para a viagem! Eu to saindo! — e colocando o presente dentro da capa, saiu pela porta, batendo-a com força.
Assim que Lina saiu, todas as atenções se voltaram para Doroteya. Calmamente, a druidesa passou a entregar a eles os pequenos pacotes com laços coloridos com Theo em seu encalço.
— Como vocês sabem, não temos dinheiro. — começou ela com suavidade – Então, decidimos fazer esses pequenos panetones de presente de Véu de Inverno para vocês.
— Eu ajudei! — exclamou Theo sorridente.
— Ah, Doro, não precisava! — agradeceu Fey – Você já fez um monte de panetone pra gente levar…
— Mas esse é especial! — falou a druidesa animada – Em vez de colocar frutas cristalizadas, eu pus chocolate! E também fiz uma cobertura de chocolate!
Os três homens a olharam, admirados e depois voltaram as atenções para os pequenos panetones que receberam.
— Panetone de chocolate?! — admirou-se Mel – Como ninguém nunca pensou nisso?
— A mamãe faz panetone de chocolate há tempos! — disse Theo orgulhoso – Porque meu pai não gostava de frutas cristalizadas.
— Pensei que ele não passava os feriados com vocês. — disse Tommy se arrependendo logo em seguida diante do olhar de reprovação que seus irmãos lhe lançaram.
Doroteya, contudo, não pareceu incomodada com a fala de Tommy. Nos últimos tempos, falar sobre Liam e sobre o que passara com ele não lhe afetava tanto quanto antes. Lina lhe dissera que era provável que ficasse cada vez mais fácil lidar com tudo, pois o tempo estava passando e as feridas curando.
— Nós não comemorávamos no dia, mas quando ele chegava fazíamos nosso próprio Véu de Inverno. — explicou – Bem, espero que vocês gostem!
— Adoramos com certeza! — garantiu Mel – Mas… Doro… Você poderia… Sabe… Contar uma coisinha a nós… Sobre o namorado de Lina…
A druidesa cruzou os braços e olhou para os três irmãos, que a encararam de volta, ansiosos. Sabendo que não teria como fugir de uma conversa com eles, decidiu ser sincera, mas sem trair a confiança de Lina.
— Muito bem meninos, sentem. — pediu.
Os três sentaram, visivelmente ansiosos com a fala dela. Até Theo sentou-se também e ficou encarando a mãe. Doroteya sentou-se em frente a eles, colocou as mãos no colo e os olhou seriamente.
— Primeiro que tudo, eu não vou contar a vocês quem ele é. — disse causando um desapontamento geral – Mas, vou dizer uma coisa importante que quero que vocês levem em consideração. — ela deu uma pausa, esperando que algum deles protestassem, mas todos continuaram calados. Ela continuou – Eu não conheço a Lina tanto quando vocês, mas sei que ela é uma pessoa de personalidade forte e difícil de ser conquistada. Essa pessoa, com quem a Lina está, provavelmente conseguiu chegar mais perto do coração dela que qualquer outra. Por isso entendo a curiosidade de vocês. Porém, — ela levantou um dedo – se vocês continuarem com toda essa ansiedade e a pressionarem, isso pode fazê-la ficar tão encurralada que acabe prejudicando esse relacionamento que ainda está construindo. Ela pode simplesmente acabá-lo, apenas para não ter que lidar com os irmãos curiosos.
Os irmãos se entreolharam, preocupados. Eles conheciam o suficiente a irmã para saberem que o que Doroteya dizia era verdade.
— Mas ela realmente está apaixonada por ele? — quis saber Fey.
Doroteya sorriu.
— Eu acredito que sim. E acredito também que a própria Lina ainda não percebeu isso. Ela… Ela tem resistido a esse sentimento. — e ao fato de ele ser o rei, pensou ela, mas era algo que não se podia dizer a eles.
— Faz tempo que eles estão juntos? — indagou Mel curioso.
— Uns meses. — respondeu ela vagamente. Não queria dar um tempo exato, ou eles podiam associar ao baile. — E eu não diria que eles estão exatamente juntos. Eles estão se juntando aos poucos.
— E a grande questão é: ele gosta dela? — perguntou Tommy preocupado.
Doroteya abriu um sorriso maior ainda.
— Eu tenho certeza que sim. Na verdade, eu acho que ele está muito mais envolvido que ela. Bem, vocês conhecem a irmã que tem, vai demorar para ela dar o braço a torcer.
Foi interessante ver o alívio no rosto deles. Doroteya sabia que toda aquela curiosidade e preocupação era porque eles estavam preocupados com o coração da irmãzinha. Querendo ou não, eles ainda viam Lina como aquela menina travessa e sabiam que nem mesmo ela, com seu coração decidido e endurecido das batalhas, estava isenta de sofrer por amor.
— Acho melhor seguirmos o conselho de Doro. — disse Tommy para os irmãos – Vamos deixar a Lina em paz, principalmente nesse feriado. Se esse relacionamento vingar, ela nos contará e provavelmente o trará para nos conhecer.
Fey e Mel concordaram, para o alívio de Doroteya.
— Acho que vocês devem terminar de arrumar as coisas. — sugeriu a druidesa – Não é bom vocês saírem muito tarde ou pegarão estrada à noite.
— Tem razão. — disse Fey se levantando – Vamos!
Mel logo o acompanhou, mas Tommy continuou sentado, com a expressão de tristeza no rosto. Ele definitivamente não queria ir. Preferia mil vezes ficar em Ventobravo, ou em qualquer lugar que fosse, em vez de ir para casa. Já previa toda a atenção que suas irmãs lhe dariam e todas as perguntas que seriam feitas.
— Tá triste, Tommy? — perguntou Theo preocupado.
— Um pouco, Theo. Não estou com muita vontade de viajar…
— Então não vá! Fique com a gente! — o menino ficou animado – Vai ser muito legal só nós três, não é mãe?
— Seria sim, querido, mas Tommy precisa ir ver a mãe e o pai dele. — respondeu com delicadeza – E não se preocupe Tommy. Você vai conseguir lidar com isso.
Ele tinha sérias dúvidas se aquilo era verdade. Mas não retrucou Doroteya, apenas sorriu. Ela sorriu de volta. Ah, como ele queria realmente poder ficar ali com a druidesa e seu filho! Mas não havia o que fazer, então ele apenas se levantou e foi organizar o resto das coisas com seus irmãos.
Longe dali, já chegando na bastilha, Lina sentia o coração bater ferozmente no peito. Desde que voltara de Dalaran, não tinha visto Varian, a não ser de relance. Os compromissos dos dois os mantiveram afastados e agora ela se perguntava o que ele diria quando recebesse o presente.
Apesar de estar oficialmente de férias, ninguém estranhou ao vê-la por perto da Bastilha. Chegou até a cumprimentar algumas pessoas e nenhuma delas parece estranhar que Lina não usava sua habitual armadura, mas estava com roupas civis. Então, se deu conta que não era estranho que ela aportasse por ali de repente mesmo estando de férias ou de folga. Lina era viciada no trabalho e tinha medo que tudo desandasse quando não estivesse por perto. Pelo menos aquilo se mostrara uma vantagem enquanto ela tentava se esgueirar até a passagem secreta que levava ao quarto de Varian.
Depois de percorrer o caminho e chegar até a entrada, verificou por uma abertura se havia alguém no quarto. Parecia vazio. O coração dela afundou de tristeza, mas lógico, ela deveria saber que aquela hora ele não estaria ali. Bem, talvez fosse melhor assim. Deixaria o presente e iria embora. Ele saberia quem o presenteara.
Lina empurrou a porta de pedra e se dirigiu até a mesa de Varian. Tirou o presente da capa e ia depositá-lo, quando ouviu atrás de si.
— Lina?
Ela se virou e o viu. Varian estava nu. Não completamente nu, havia uma parca toalha que envolvia seu quadril e cobria seu sexo. Seu cabelo estava solto e caia sobre o corpo também molhado. Não o vira no quarto porque ele estava na porta da sala adjacente que ela sabia se tratar da casa de banho. O rei provavelmente ouvira seus passos no quarto e saíra da banheira para ver quem entrara lá. Ainda bem que Varian não era do tipo de rei que costumava ter um servo para escovar suas costas.
Lina ficou sem reação. Segurando o presente, ela o olhava assombrada, como uma ladra pega em meio ao furto. Varian a encarou por um momento e então desviou a vista para o pacote de presente colorido envolto numa fita dourada e, para o choque de Lina, seu rosto ficou inteiramente vermelho.
— Um presente? Para mim? — ele parecia deliciosamente surpreso.
— E-É… — gaguejou Lina olhando para o corpo nu e molhado do rei.
Sorrindo, ele se aproximou dela. O coração da comandante disparou, mas ela sabia que essa reação se dava pelo fato de ela agora imaginar como seria se ele simplesmente a jogasse no chão e a possuísse. Seria uma ótima forma de começar o feriado. Mas Varian não fez isso. Ele pegou o presente com os dedos ainda molhados e o analisou.
— Sou péssimo em adivinhar. — disse com um sorriso que o fez ficar anos mais jovem – Nossa, não imaginei que você fosse me presentear. — seus olhos brilhavam de alegria.
Se soubesse que ele ficaria tão feliz em receber um presente, ela teria caprichado no conteúdo, na embalagem e teria entregue antes, com certeza. Ou simplesmente teria se embrulhado e esperado ele na cama.
— Algum problema? — perguntou o rei um pouco preocupado.
Ela se forçou a falar.
— Eu realmente não esperava encontrá-lo assim… — disse olhando o peito nu dele – Apenas fiquei desnorteada.
Sem conter a risada, Varian colocou com carinho o presente em cima da mesa para depois puxá-la para um beijo. Lina sentiu as pernas tremerem quando tocou a pele nua e molhada de Varian.
— Está atrasada? — perguntou depois que a soltou – Viaja que horas?
— Mais tarde. — respondeu quase sem fôlego – Tenho tempo para um banho de banheira.
— Ótimo. — e a puxou para a casa de banho.
Lina se livrou da roupa muito rapidamente e logo estava envolta em água morna e no corpo de Varian. A sensação de deslizar seu corpo sobre o dele no meio da espuma e dos beijos era indescritível. A banheira, que tinha pelo menos o dobro do tamanho da que a comandante tinha em casa, permitia que eles se entrelaçassem e se movimentassem a vontade. Ela passava as mãos nas costas nuas dele enquanto ele beijava seu pescoço com vontade. Lina nunca fizera sexo na banheira com ninguém e agora se perguntava porque esperara tanto tempo. Talvez, porque tivesse que ser com ele. Porque era com Varian que tinha que experimentar todas aquelas sensações novas e inebriantes. E quando chegaram ao orgasmo, jogando muita água para fora da banheira no meio do processo, sorriram um para o outro, surpresos, mas satisfeitos.
— Temos que repetir isso mais vezes. — murmurou ele em seu ouvido.
— Com certeza… — concordou passando a mão no peito nu – Que bom que consegui te ver antes de viajar. — se pegou dizendo – Os dias foram corridos…
— Sim, foram… — ele a afastou um pouco e a encarou – Pensei que não te veria antes de você ir.
— Estou aqui. — disse simplesmente.
Ele então a beijou mais uma vez e recomeçaram tudo de novo. Lina não soube quanto tempo ficaram na banheira, mas quando saiu, sentiu suas pernas bambas e teve que se segurar em Varian para não cair. Os dois acabaram rindo dessa situação e ele a ajudou a andar até o quarto.
— Esse é seu efeito em mim. — brincou quando ele a colocou na cama.
— Fico muito feliz com isso. — disse antes de lhe dar um beijo e se afastar até a mesa – Posso abrir meu presente agora?
— Claro.
Lina ficou observando com desejo enquanto ele abria o presente sem se importar que ainda estava sem roupa. Fez uma força sobre-humana para deixar de olhar para a bunda perfeita que ele tinha e focar em seu rosto enquanto abria o presente. E valeu a pena. Varian parecia um menino, tamanha era sua felicidade ao rasgar o papel. Sentiu então um desejo imenso de ficar ali. Ficar com ele. Jogar tudo para o alto e passar todo o dia de Véu de Inverno em seus braços, fazendo com que aquele sorriso nunca mais desaparecesse.
— Um pijama? — Varian ficou um pouco surpreso, mas ainda sorria quando levantou a roupa – Acho que nunca ganhei um pijama de presente de Véu de Inverno.
— Ótimo, fui a primeira. — Lina sorria – E você pode lembrar de mim toda vez que usá-lo.
— Eu já lembro de você todo instante em que não estamos juntos.
A comandante perdeu totalmente a fala. Varian agora a olhava de uma forma diferente, intensa, que nunca tinha visto antes. Ele dobrou o pijama com cuidado, ainda com aquele sorriso bobo na cara e se dirigiu até onde ela estava. Lina sentiu-se então vulnerável pela primeira vez desde que se envolveram e não era pelo fato de estar nua. Não. Era aquele olhar. O olhar que queria desnudar sua alma e não seu corpo. E teve medo. Teve medo do que ele lhe diria. Sim, Varian diria algo. Algo que talvez jogassem os dois em um abismo sem fundo do qual não poderia escapar. Mas ela nada fez. Estava presa, hipnotizada pelos olhos azuis profundos. Varian deitou-se ao seu lado. Seus dedos percorreram seu rosto, até a marca que ela tinha no queixo. Estremeceu.
— Lina… — ele murmurou – Eu…
Naquele momento, a porta do quarto de Varian se abriu. Os dois tomaram um grande susto, que apenas aumentou quando a cabeça loira de Anduin surgiu na porta.
— Pai, eu- – começou o menino, mas ele perdeu a fala.
Por um momento, os três ficaram congelados, sem ação. Anduin olhou com os olhos arregalados para o pai e depois para a comandante. E só quando os olhos do menino baixaram e fixaram em seus seios, foi que Lina lembrou que estava nua na cama do rei. Com o rei. Varian foi o primeiro a sair do estupor. Puxou o lençol, cobriu o corpo nu de Lina, pegou um travesseiro e cobriu sua própria nudez.
— Anduin! — disse com uma mistura de raiva e pânico na voz – O que está fazendo aqui?!
O menino não respondeu. Ainda olhava para cena como se seu cérebro não conseguisse identificar o que acontecia ali. Varian olhou para os lados a procura de sua roupa e tudo que viu foi o pijama. Pegou-o rapidamente e começou a vestir.
— Maninho! — a voz de Arshe preencheu o quarto – O tio já tá pronto? — a cabeça de Arshe também apareceu na porta causando ainda mais pânico em Varian.
A princesa soltou um pequeno grito de espanto, mas agiu rápido. Tapou os olhos de Anduin e o puxou para trás, tirando-o da porta e fechando-a em seguida. Lina continuava sem reação, aterrorizada. O príncipe acabara de flagrar os dois. E não apenas isso. Ele a vira nua. Totalmente nua. Torceu então para que ele tivesse prestado atenção mais aos seus seios do que no seu rosto. Se tivesse sorte, ele não a teria reconhecido.
— Vou resolver isso. — disse Varian vestido com o pijama e saindo pela porta – Não vá embora!
Nem que ela quisesse poderia sair. Seu corpo continuava travado e a única coisa que seu cérebro conseguia processar era que o pijama caíra com perfeição no corpo de Varian.
Lá fora, Arshe puxava Anduin pela mão na direção do local mais reservado possível. Entrou como um furacão no quarto do menino e fechou a porta. Anduin ainda não esboçara nenhuma reação.
— Anduin! — chamou ela – Maninho?
O menino a encarou.
— Era a comandante… — ele murmurou ainda aéreo.
— Pela Luz, Anduin, você está enganado. — disse a princesa tentando convencê-lo – Era-
— Era a comandante! — afirmou o menino com convicção – E ela estava nua! E meu pai também estava nu! O que significa isso?
Arshe suspirou e colocou a mão na testa. Anduin sabia exatamente o que aquilo significava, pois tivera aulas de educação sexual. Porém, o menino estava em negação. Não era por menos, ela própria, que já sabia do caso de Lina com seu tio, ficara chocada com a cena do quarto. Pela Luz, eles devia ter lembrado de trancar a porta! Mas agora não tinha mais jeito. Anduin não só os vira juntos como reconhecera Lina. Não havia nada que ela pudesse fazer.
— Anduin… — ela começou com a voz doce e meiga – Quero que você saiba…
— Eu vi os peitos dela! — exclamou o príncipe muito assustado – Eu vi os peitos da comandante! Ela vai furar meus olhos!
Sem conseguir se conter, Arshe caiu na risada. Era com isso que Anduin estava preocupado? Porque achava que perderia os olhos? O menino a olhou, sem acreditar que a irmã não levava a sério sua preocupação. E Arshe ainda ria quando Varian entrou, de pijama, no quarto de Anduin. As risadas pararam no mesmo momento e a princesa pensou que Fey e Mel tinha feito um excelente trabalho. O pijama era bonito, chique e ficou excelente em seu tio.
— Anduin. Arshe. — ele respirou fundo – Precisamos conversar.
— O senhor estava nu com a comandante na cama! — foi logo falando o menino – E eu vi! Ela vai arrancar meus olhos!
— O quê? — Varian negou com a cabeça – Ela não vai arrancar seus olhos, filho. Com certeza não.
O menino não parecia muito convencido disso.
— Eu sei que não é fácil explicar aquela cena para vocês dois, mas eu gostaria de tentar. — o rei os olhava apreensivo.
— Acho melhor nos sentar. — sugeriu Arshe tranquilamente.
Os três se sentaram na mesa do quarto de Anduin. Varian respirou fundo e olhou para os dois. Sabia que a imagem que passava naquele momento não era das melhores; estava de pijama, com o cabelo molhado e solto e, com certeza, com uma expressão de pânico no rosto. Pelo menos Anduin parecia sentir o mesmo. A única pessoa calma ali era Arshe. E o rei só conseguiu pensar em um motivo para aquilo.
— Você sabia, não era? — perguntou Varian a Arshe – Você sabia de nós dois.
— Claro que eu sabia! — disse a jovem em um tom quase ofendido – Que tipo de negociadora eu seria se não conseguisse arrancar um segredo de minha amiga?!
Arshe não tinha arrancado o segredo de Lina, óbvio, fora ela quem dissera tudo. Mas seu tio não precisava saber. Isso levaria a outras perguntas.
— Por que você não me disse?! — perguntou Anduin magoado.
— Porque é uma coisa que não tem a ver com nós dois, Anduin. O relacionamento de Lina e de seu pai só diz respeito a eles. — respondeu com seriedade.
Varian ficou feliz e ao mesmo tempo chateado. Feliz porque não precisaria explicar nada a Arshe e chateado porque Lina poderia ter dito a ele que Arshe sabia. Porém, não era o momento para aquilo.
— Anduin, Arshe tem razão. Meu relacionamento com a comandante é uma coisa entre nós e, por razões que você bem sabe, preferimos mantê-lo em segredo. E eu gostaria que você pudesse me ajudar, guardando esse segredo.
O envolvimento do rei com uma comandante, ainda mais uma sem origem nobre, seria um escândalo e tanto, sabia o príncipe. Seu pai talvez não fosse muito atingido por isso, afinal era o rei, mas o menino sabia o efeito que aquilo poderia ter na carreira de Lina. E se mesmo assim, com esse risco envolvido, os dois estavam juntos, só podia supor que estavam muito apaixonados um pelo outro. E quem era ele para por um fim em tudo?
— E-Eu… Eu não vou dizer nada a ninguém. — disse o menino, para o alívio de Varian – Mas pai, tem certeza que ela não vai fazer nada porque a vi nua?
Varian riu.
— Tenho sim, filho.
O menino sorriu um pouco. Havia mais uma pergunta que ele gostaria de fazer.
— Pai, o senhor gosta muito dela? Da comandante?
A pergunta pegou Varian de surpresa. Ele olhou para o filho e depois olhou para Arshe. A jovem também parecia querer saber a resposta.
— Sim, filho. Eu gosto muito da comandante. Mais do que eu gostaria. — e se levantando, disse – Arshe, certifique-se que nenhum servo viu ou ouviu nada, por favor.
— Claro tio! — garantiu a moça – E pode deixar Anduin comigo também! Vá se despedir da Lina!
O rei sorriu e saiu do quarto. Anduin olhou para a irmã, ansioso e Arshe balançou a cabeça.
— Não, quem tem que contar toda a história é ele. Aproveite e pergunte amanhã, no jantar de Véu de Inverno.
O menino sorriu e assentiu.
Enquanto isso, no quarto do rei, Lina já despertara do estupor e estava em pânico. O príncipe a vira. Nua. Na cama do pai. Não conseguia acreditar que ela e Varian cometeram um erro tão grotesco quanto deixar a porta do quarto sem tranca. Bem, verdade fosse dita, ele não estava esperando a visita dela, mas custava trancar a porta enquanto tomava banho? Sem saber o que fazer, ela vestira a roupa e agora esperava andando de um lugar para o outro do quarto, até que Varian abriu a porta e entrou.
— Ele me reconheceu? — foi a primeira pergunta que ela fez.
— Sim. — respondeu – Ele sabe que é você
Lina gemeu e se sentou na cama.
— Pela Luz! Não acredito! Nós tivemos tanto cuidado até agora e, de repente, seu filho nos vê daquele jeito! — ela soltou um grunhido e colocou as mãos no rosto.
Varian sentou-se ao lado dela e tocou em seu ombro. Apesar do susto inicial, ele estava se sentindo bem agora. Anduin sabia. Arshe sabia. De certa forma sentia como se aquele fato fizesse seu relacionamento com Lina ser algo mais real, mas tangível. Entendia que ela estivesse preocupada, mas não havia motivos para isso.
— Não se preocupe, Lina. — disse com delicadeza – Anduin não vai contar a ninguém de nós dois…
Ela tirou as mãos do rosto e o encarou.
— Varian. — começou com a voz trêmula – Seu filho me viu nua! Nua! Ele viu meus peitos! Isso não te deixa preocupado?!
Surpreso com a pergunta dela, o rei apenas riu. E quando sentiu os olhos fulminantes de Lina sobre ele, explicou:
— Querida, quem tem que ficar preocupado com isso, são as mulheres no futuro de Anduin. — e diante do olhar confuso dela, explicou – Depois de te ver nua, os parâmetros dele serão bem altos. Não serão quaisquer peitos que o deixarão satisfeito.
Lina o encarou, incrédula.
— Varian, eu to falando sério. — falou.
— Eu também. — o rei desviou a vista para os seios dela e ficou frustrado ao finalmente perceber que Lina já se vestira novamente – São os seios mais lindos que eu já vi.
A comandante sentiu uma imensa vontade de bater nele. E também sentiu-se lisonjeada. E também quis rir. Por último, apenas falou:
— Você não viu muitos, não é?
Em vez de se sentir ofendido, Varian deu de ombros.
— O importante não é quantidade, é a qualidade.
Sem ter mais o que dizer, Lina suspirou. Varian a puxou suavemente para um abraço e depois a beijou. Lina não resistiu, mas, ao final do beijo, perguntou:
— Isso vai mudar alguma coisa entre nós?
— Só se você quiser. — respondeu.
Ela não disse mais nada, apenas colocou o rosto no peito dele.
— Esse pijama ficou muito bem em você. — comentou.
— Ah, ele é bem confortável. — Varian sorriu – Mas sabe o que seria mais confortável? Se tirássemos a nossa roupa e continuássemos onde havíamos parado.
Agora Lina gargalhou com vontade.
— Tranque a porta antes. — pediu ela.
A porta foi então trancada. E as roupas tiradas. E a viagem de Lina para casa atrasou um pouco, mas seus irmãos nada disseram depois. Ninguém queria tirar o enorme sorriso do rosto de Lina.
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