Herdeiros da Guerra

21 Capítulo XVIII – Silêncio profundo


Notas iniciais
Demorou, mas chegou! Espero que gostem do novo capítulo! Divirtam-se!

Capítulo XVIII – Silêncio profundo

Da janela do seu quarto, na área mais nobre de Luaprata, bem próximo a torre Solfúria, Kayliel observou a comitiva retornar de sua viagem a Quel’Danas. Mesmo a uma certa distância, pode distinguir claramente as quatro princesas, junto a Lor’themar Theron, sua sobrinha, o arquimago Aethas, bem como Lady Liadrin e seus comandados. Muitas pessoas acompanhavam a volta da futura rainha nas calçadas e o sacerdote pensou no que sentiria a jovem Karensky diante do imenso papel que estava para desempenhar. Esperava que ela pudesse lidar com tudo que viria pela frente.

Ser da realeza era uma tarefa árdua. Diferente do que muitos pensavam, não se resumia a ter poder sobre todos, muito pelo contrário; o poder da opinião do povo era o verdadeiro peso da coroa. O rei Anasterian sabia muito bem disso e escondeu seu caso de amor com Lady Luelly com uma habilidade impressionante, condenando a si mesmo e aquela gentil dama ao sofrimento. O príncipe Kael’thas, em sua ânsia por salvar seu povo, fez alianças obscuras e todos eles pagaram um alto preço por isso. Kayliel tinha a esperança que a futura rainha não se visse na mesma situação que seus antecessores.

A comitiva já terminara de passar quando o elfo se afastou da janela, sentou-se numa imensa poltrona dourada e cruzou as mãos apoiando os cotovelos nos joelhos.

Quanto tempo teria levado para Arshe perceber que teria que sacrificar o amor dos dois em função do título que recebera?

Bem, essa pergunta ficaria sem resposta, pois Kayliel não deu tempo nem oportunidade para que Arshe pudesse fazer essa decisão por si própria. Em seu desejo exacerbado de poupá-la de ter que decidir entre seu povo, pelo qual seu pai tinha se sacrificado, e o amor deles dois, fora totalmente egoísta, assumindo a dianteira e decidindo tudo. Não tinha dado a oportunidade dela opinar sobre seu próprio destino. E agora, três anos depois, se via diante do fato que cometera o maior erro de sua vida. Nunca, nunca deveria ter tomado uma decisão tão grande sozinho. Quando o fizera, tinha certeza que saberia lidar com o ódio que Arshe teria dele e que, com o tempo, tudo aquilo se tornaria mais suportável.

Como fora tolo e inconsequente!

Quando a vira em Dalaran, pensou que seu peito explodiria diante da profusão de sentimentos que viera à tona. Mas nada, nada fora pior do que o ódio que vira em seu olhar. Pensava estar preparado para isso, mas nem que vivesse milhares de anos conseguiria esquecer o quão forte foi a dor que sentira. E desde aquele dia, não houve um só momento em que não pensasse na bela e jovem maga humana. Tentara de todas as formas se entreter, mas quando deu por si, estava usando um selo do Kirin Tor, que não usava a muito tempo, e mandando uma súplica digna de um covarde. E como um adolescente ansioso, estava esperando a resposta com tanta ansiedade que já tinha visto a caixa de correio cinco vezes naquele mesmo dia.

Todavia, a parte racional dele, teimava em dizer que não adiantava mais. Não importava quantas cartas mandasse, quantos apelos fizesse, nada traria Arshe de volta. Isso porque ele não lhe dera a chance de decidir sobre os dois, que lhe tirara o direito de pensar sobre sua própria vida. E que nem ao menos lhe deu uma simples explicação para o que fizera. Simplesmente dissera que era o fim e sumira. Jurou que a princesa jamais saberia o motivo do rompimento. Se Arshe soubesse o motivo, com certeza o convenceria a não fazer aquilo. E para evitar o embate, a magoou profundamente.

O que diabos tinha na cabeça ao fazer aquilo?

— Você parece pensativo.

Kayliel virou a cabeça e encarou seu irmão. Rommath estava na porta da sala, de braços cruzados, o encarando como se estivesse tentando ler sua mente.

E talvez estivesse tentando mesmo.

— E você parece meio desocupado. – respondeu o sacerdote descruzando as mãos – Por que não foi com a comitiva até a Nascente do Sol?

— Tinha outras coisas a fazer. – desconversou o mago. E olhando para o irmão mais novo, comentou – Espero que não esteja pensando na humana.

Kayliel franziu a sobrancelha.

— Ora, tanto quanto você pensa em Luxuriah. – rebateu tranquilamente.

As orelhas de Rommath tremeram um pouco e Kayliel esperou ser atingido por uma bola de fogo a qualquer momento.

— Eu não penso mais nela. – respondeu o mago se aproximando – Não dessa forma.

— Então estamos bem, nós dois. – disse o sacerdote em tom de quem queria encerrar a conversa.

Os irmãos se olharam por um momento. Definitivamente eles eram muito diferentes em diversos aspectos: Rommath tinha os cabelos negros e Kayliel era loiro; o mais velho se interessara desde cedo pela magia arcana, enquanto o mais jovem galgara os caminhos da magia divina; o mago odiava sair de Luaprata, o sacerdote odiava ficar parado em um lugar só. Mas em um detalhe eles eram idênticos: se apaixonar pela pessoa errada.

Rommath sentou-se de frente para o irmão e o encarou.

— Vi que você mandou uma carta com o símbolo do Kirin Tor há alguns dias. – comentou tentando parecer displicente – Fazia um bom tempo que você não o usava. Está pensando em sair da sua guilda e retomar o trabalho ao lado de Aethas?

Lógico que não era exatamente aquilo que Rommath estava perguntando. O que o mago queria saber, era se seu irmão pretendia novamente entrar em contato com Arshe. Rommath odiava os humanos. Muito. Quase tanto quanto Luxuriah.

— Não, não pretendo. – respondeu. Estava mentindo e ambos sabiam disso.

— Não se deixe levar novamente pelas ideias de Aethas. – criticou o outro – Nossa convivência com os humanos é impossível.

Kayliel não gostou do tom que o irmão usara e rebateu:

— Você pensa realmente isso ou está apenas querendo agradar outras pessoas?

Foi a vez de Rommath franzir as sobrancelhas.

— Você sabe que eu realmente penso assim. Sempre pensei.

— Como você sabe que eu penso diferente de você. Sempre pensei. – falou usando as palavras do outro.

Os dois se encararam mais um tempo, ambos lutando para não pôr em palavras aquilo que sabiam ou pensavam. Eles se conheciam o suficiente para reconhecer os sinais que indicavam que alguma coisa estava acontecendo. Como Rommath era muito mais velho que Kayliel, sabia interpretar o irmão como ninguém. Quando o sacerdote era criança, Rommath às vezes deixava as travessuras dele passarem, atribuindo-as apenas a inocentes mentiras infantis. Contudo, agora ele era adulto e suas mentiras já não tinham a inocência da infância e envolviam algo muito maior que doces antes do almoço ou vasos quebrados por acidente. Envolviam dois povos inimigos e sentimentos estilhaçados e não correspondidos.

— Não procure a humana de novo. – disse finalmente Rommath acabando com aquele jogo – Isso não te fez bem na primeira vez e agora não seria diferente.

— Você conseguiu se livrar do que sentia por Luxuriah? – quis saber o outro – Porque eu gostaria que você me ensinasse a técnica ou me desse a poção que você usou para isso.

— É diferente, Kayliel. – retrucou.

— Não, não é.

— É sim. Por mais que Luxuriah não me ame, somos da mesma raça. Do mesmo povo. Da mesma facção. Se eu voltasse a me envolver com ela, não seria traição. Não seríamos executados. Não acabaria em uma guerra. – o mago suspirou – É tão difícil perceber isso?

Na verdade não era. Kayliel sabia que seu irmão estava certo. Seu lado racional estava agora rindo e lhe dizendo “eu avisei”. Porém, seu coração estava em pedaços. Ele queria ver Arshe novamente, nem que fosse para explicar os motivos de sua atitude. Nem que fosse numa tentativa desesperada e inútil para que ela não o odiasse mais. Nem que fosse para tocar seu rosto mais uma vez e fazê-la entender que nunca a esquecera um só momento. E aquela sua vontade era forte o suficiente para calar seu lado racional e ignorar as palavras de seu irmão.

— É difícil para você perceber também que Luxuriah está feliz e amando? – perguntou – E que você não tem mais chance?

Para a surpresa de Kayliel, Rommath sorriu.

— O tauren não é como nós. Ele viverá mais, no máximo, setenta anos. Tenho séculos a minha frente para esperar. Não tenho pressa.

Ao dizer aquilo, Rommath estava deixando mais que suas esperanças pairando sobre os dois. Ele estava também, indiretamente, falando da brevidade da vida de Arshe. Como humana, seria quase impossível para ela viver mais que cem anos, enquanto ele teria séculos à sua frente. Aquilo deu um estalo na cabeça de Kayliel que, inesperadamente, se levantou e se encaminhou para a porta.

— O que foi? – perguntou Rommath surpreso com o gesto brusco – Para onde vai?

Kayliel parou e voltou-se par ao irmão. Já não tinha mais dúvidas.

— Vou fazer valer o tempo. – e saiu sem esperar resposta.

******************************************

Luxuriah estava satisfeita pelo silêncio que se fez na comitiva após a visita a Nascente do Sol. Todos pareciam concordar que o que viram era tão espetacular e divino que merecia ser pensado e meditado no mais profundo silêncio. Nem mesmo Karen e Saba riam ou brincavam naquele momento. Huaru, que também parecia ter sido bastante afetado pela visita, cavalgava ao lado de sua pupila, se inclinando de vez em quando para lhe falar algo. Luxuriah preferia ficar um pouco mais atrás que eles, absorta em seus pensamentos. E seus pensamentos não estavam povoados do que acontecera na ilha de Quel’Danas.

Não parava de pensar no que lhe dissera Lady Liadrin.

A paladina estava muito enganada, é claro. E com certeza, como uma das poucas pessoas que sabia de seu passado, jamais deveria ter dito algo tão levianamente. Porém, por algum motivo, a paladina lhe interpelara com aquela pergunta absurda. E Luxuriah fizera questão de deixar seu desconforto claro na conversa.

— Grávida? – perguntou após a fala da matriarca, surpresa demais para falar qualquer outra coisa.

— Sim, grávida. – confirmou a paladina – Não confirmou ainda?

A caçadora então, ficara aborrecida.

— Claro que não estou grávida! – disse enfaticamente.

Lady Liadrin a olhara de cima a baixo, como se tentasse acreditar no que ela dizia.

— Vossa alteza, eu tenho certeza...

— Você não tem certeza de nada! – gritara Luxuriah, surpreendendo a paladina e a si própria com a fúria em sua voz – Eu não estou grávida porque não posso engravidar e você sabe disso!

— Mas...

— Não há “mas” nessa história. – e virou as costas para a outra, entrando novamente no salão da nascente – E não saia dizendo essas bobagens por aí!

Luxuriah suspirou enquanto via a Torre Solfúria mais perto. Não, não acreditava que estava grávida. Seu corpo fora destroçado pelos humanos e sofreu com um difícil aborto. Seu útero jamais poderia gerar novamente, lhe garantira a sacerdotisa.

Porém... Não podia negar que algo estranho estava acontecendo em seu corpo. Desde que fora a Orgrimmar procurar por Kassyeh, tanta coisa acontecera que ela simplesmente não tinha tempo para pensar em si mesma. Mas os sintomas estavam lá. Sintomas de alguma coisa. Mas gravidez? Não. O que acontecera com seu corpo fora forte demais para que ele pudesse se recuperar.

— Talvez um dia seu corpo se recupere. – dissera Lorena, a sacerdotisa quase uma década atrás – É bem improvável... Mas você não pode perder a esperança de ser mãe um dia!

Todavia, Luxuriah sabia que a sacerdotisa só disse aquilo para acalentá-la, tentar tirar a dor de nunca poder ter filhos. E Luxuriah nunca se arrependera do preço que teve de pagar para se livrar do que os humanos fizeram com ela. E nunca cultivara esperanças que realmente pudesse se recuperar. Mas por que, por que aquela dúvida continuava a pulsar em sua mente?

— Ridículo! – disse em voz alta.

— O quê? – quis saber Kassyeh.

Foi só então que percebeu que sua irmã vinha cavalgando ao seu lado. A maga exibia a mesma expressão serena e tranquila de sempre, e Luxuriah pensou que se alguém deveria estar grávida, esse alguém era Kassyeh.

— O que é ridículo? – insistiu a outra.

— Umas coisas que eu estavam pensando. – respondeu – Besteiras que algumas pessoas falam.

— Ah! – respondeu a outra – Acho que ouviremos muitas besteiras agora que somos realeza. – disse em tom brincalhão.

— Não tenha dúvida. – e olhando para os lados, perguntou – Cadê Tewdric?

— Hotch e Littleflame saíram correndo atrás de um coelho e ele foi pegá-los. Eu quis ir junto, mas ele disse que eu ficasse perto de você, porque você estava com uma cara estranha. – e sorriu como se pedisse desculpas a irmã.

Luxuriah riu e balançou a cabeça. Como aquele orc podia ser tão perceptivo? Era naqueles momentos que acreditava que o subestimava na maior parte do tempo. Tewdric se comportava como um orc bruto, mas apaixonado, e as pessoas tendiam a achar que ele era apenas isso. Poucos sabiam o quão observador e sagaz era aquele guerreiro.

— Como eu disse, algumas pessoas me falaram besteiras. – disse em tom despreocupado – Nada demais. Devíamos nos preocupar com Karen. Ela estava inconsolável com a partida de Saba.

— É verdade. – concordou Kassyeh com a voz triste – Mas pretendo trazer Saba de novo assim que der. É bom Karen ter uma companhia da idade dela.

Foi então que um pensamento passou pela cabeça de Luxuriah.

— E se pedíssemos a mãe de Saba para que ela se tornasse dama de companhia de Karen? – sugeriu – Toda rainha precisa de uma.

Kassyeh balançou a cabeça em negativa.

— Duvido que Gryshka permita. Saba é sua única filha. Se fosse eu, não permitiria.

Só que a irmã mais velha achava que era uma excelente ideia.

— Vou conversar com ela quando for a Orgrimmar. E aproveito para comer aquele cozido de javali. – Luxuriah sentiu sua boca salivar – Estava muito bom, mesmo sendo uma comida tão rudimentar.

Para sua surpresa, Kassyeh caiu na gargalhada.

— O que foi? – quis saber Luxuriah.

— O jeito como você falou do cozido... Parecia uma elfa grávida com desejo! – e tornou a rir.

Foi como se uma pedra de gelo descesse pela garganta de Luxuriah. Aquele assunto de novo? No mesmo dia, duas pessoas a associavam a gravidez. Com certeza ela deveria estar doente de alguma coisa que lhe dava sentimos parecidos. Era a única explicação plausível.

— Talvez um dia seu corpo se recupere. – a voz de Lorena soou nos seus ouvidos de novo.

Não.

Definitivamente não.

— Finalmente, chegamos. – disse Kassyeh quando as montarias subiram no átrio da Torre Solfúria, sem perceber o incômodo de sua irmã mais velha.

Luxuriah desmontou rapidamente e entregou seu falcoztruz, Debonzi, a um dos servos. Procurou Huaru com os olhos e o viu ajudando Saba a descer de uma montaria. Ela se adiantou para falar com ele, mas parou no meio do caminho. Não poderia falar com ele agora. Huaru conhecia sua alma como ninguém e se pusesse os olhos nela naquele momento, saberia que algo estava errado. E não desistiria enquanto ela não lhe dissesse. E, lógico, ela falaria. E a última coisa que queria, era falar aquilo para o paladino. Pois com certeza ele indagaria sobre o que a afligia, e mesmo tenho descartado a gravidez, não queria nem por um momento que aquela possibilidade passasse pela cabeça dele.

Não queria que ele tivesse esperanças e depois o desapontasse.

Precisava falar com um sacerdote, antes de qualquer coisa.

Lorena estava fora de questão. Luxuriah sabia que a sacerdotisa era totalmente pau-mandado de Lor’themar. E se a caçadora tivesse alguma doença, não queria que o lorde regente fosse o primeiro a saber. Então, teria que contar com a ajuda que alguém que seria discreto e em quem ela confiasse.

“Kayliel”, pensou aliviada. Sim, era com ele que devia falar. Agora, precisava ir procurá-lo sem levantar suspeitas.

— Kassyeh! – chamou ela ao ver a irmã se afastando.

Kassyeh, que já estava afastada da irmã, rapidamente se voltou e foi em sua direção.

— O que foi Lux?

— Preciso passar em casa para pegar uns petiscos para Debonzi – disse improvisando uma desculpa com perfeição – Ele adora das amoras do jardim e os servos não trouxeram nenhuma.

— É mesmo! – concordou a maga preocupada – Tenho temperos lá que ainda não colhi também!

— Pode deixar que pego o que você quiser. – disse rapidamente antes que a irmã se oferecesse para ir junto.

— Quer que eu chame Huaru pra te acompanhar? – perguntou enquanto Luxuriah pegava novamente seu falcoztruz.

— Não precisa, serei rápida. É melhor ele ficar com Karen. – e subiu rapidamente na montaria – Não demoro.

Kassyeh assentiu e antes da irmã sair, teve uma ideia.

— Ah, já sei! – ela parecia animada – Farei hoje para você cozido de javali igual ao de Gryshka! Assim você mata sua vontade e Saba pode me ajudar a ficar o mais parecido possível!

A boca de Luxuriah se encheu de água. Definitivamente ela precisava descobrir qual seu problema.

— Seria ótimo. – respondeu sorrindo para a irmã antes de tomar o caminho para a casa do seu amigo sacerdote.

*************************************************

A noite já havia caído em Ventobravo. Enquanto a lua subia no céu da cidade, Fey e Mel tomavam chá na varanda da casa enquanto observavam os vigias acenderem as luzes dos lampiões. Aquilo era um ritual que eles tinham desde que se mudaram para a capital e que preservavam desde que não estivesse nevando ou chovendo. Havia algo de especial para os dois em ver a noite chegar saboreando um bom chá com uma rodela de limão.

Todavia, o ritual daquela noite não foi totalmente completo, pois a irmã caçula dos dois chegou repentinamente em casa, com uma fúria nos olhos que fez com que seus irmãos mais velhos tremessem e colocassem as xícaras de lado. A comandante desceu do cavalo e pegou um fardo marrom imenso das costas de um cervo que eles reconheceram como Doroteya. Havia mais alguém lá com elas, mas eles não distinguiram que era.

— Lina? – chamou Fey preocupado.

Ela não respondeu. Apenas fez um movimento com a cabeça para eles entrarem e seguiu porta adentro com o fardo debaixo do braço. Fey e Mel a seguiram. Doroteya voltou a sua forma humana e pegou o cavalo que Lina deixara solto, prendendo-o na varanda.

— Poderia me ajudar com o meu? – perguntou Arshe sem saber o que fazer com as rédeas.

Doroteya prendeu a montaria de Arshe e a fez um gesto para acompanha-la.

As duas entraram no exato momento em que Lina soltou o fardo no chão. Demorou um pouco para que Fey e Mel reconhecessem Tommy.

— Quenguinha! – gritou Mel horrorizado – O que você fez?!

A irritação de Lina era tanta que nem ao menos registrou a forma como o outro lhe chamara.

— Eu trouxe esse imbecil do buraco onde ele tinha se enfiado. Foi isso que eu fiz.

— Mas nós tínhamos combinado de deixar ele em paz. – lembrou Fey sem tirar os olhos do irmão.

— Só porque a família não teve coragem de dizer umas verdades para ele, não significa que eu ignoraria o que ele estava fazendo para si mesmo!

Lina cutucou o irmão com o pé, deixando entrever mais do seu estado.

— Ele está desnutrido, fraco, doente e queria ir caçar Defias? Sério? – ela cutucou ele um pouco mais – Ele está louco, com certeza!

Fey e Mel se entreolharam. Pareciam preocupados.

— Lina, eu sei que você fez isso pensando no bem dele, mas…

— Sem “mas”! – exclamou a comandante – Não vou permitir que meu irmão se mate aos poucos! Ele ficará aqui aos nossos cuidados nem que tenhamos que mantê-lo amarrado!

Doroteya então percebeu que por mais chateada que Lina estivesse, ainda não desistira de seu irmão. E seu jeito de demonstrar seu amor era fazer o que ela achava seguro para ele, sem levar e consideração o que os outros pensariam.

— Ele precisa de um banho. – disse timidamente Doroteya se aproximando – E de se alimentar. – e olhando para a comandante, perguntou – Já posso terminar de curá-lo?

Foi quando Fey e Mel perceberam que, além de fraco e faminto, Tommy tinha diversos machucados pelo corpo, além de algumas manchas de sangue. Olharam horrorizados para Lina, que não deu importância aos olhares de censura.

— Vamos levá-lo para um dos quartos, você o cura e deixamos ele amarrado lá.

— Quengacilina! – Fey se aproximou com a mão no peito, e um olhar incrédulo no rosto – Não me diga que você bateu no Tomilho!

— Bati. – admitiu sem nenhum peso na consciência – E se precisasse, teria batido mais!

— Pela Luz, o que você foi longe demais, menina! – era a primeira vez que Doroteya e Arshe ouvia alguém censurando abertamente a comandante, e Fey fazia isso sem ressalvas – Veja o que você fez para seu irmão, ele está horrível!

— Horrível é pouco para o que ele está! – exclamou Mel choroso – Pobre Tommy!

A comandante não gostou da complacência com que os irmãos estavam tratando Tommy. Eles não ouviram o que ele falara. Não sabiam o que ele pretendia. Não tinha a dimensão de como as coisas estavam. Isso a fez perder um pouco o controle.

— Pobre Tommy?! – vociferou com raiva – Vocês não fazem ideia do que esse idiota fez! – ela começou a andar de um lado para o outro – Ele entrou na Bastilha dizendo que nosso pai estava mal, tentou se meter numa missão que eu estou liderando e ainda teve a ousadia de insultar a memória de Fordragon na presença da princesa Arshe! – e apontou para a jovem que estava apenas observando tudo ao lado de Doroteya.

No primeiro momento, Fey e Mel ficaram apenas olhando a princesa, como se tentassem processar sua presença ali. E quando finalmente perceberam que era realmente a princesa Arshe que estava ali diante deles, toda a preocupação com Tommy sumiu como um passe de mágica. Os dois alfaiates deram gritinhos como se fossem adolescentes histéricas e correram na direção da princesa, passando por cima do irmão ferido como se ele fosse apenas um tapete.

— Princesa! Princesa! – diziam eles, enquanto se agarravam e davam pulinhos de alegria – Somos seus fãs!

Arshe olhou para os dois, surpresa demais para falar. Depois olhou para a comandante, que não parecia nem um pouco surpresa com aquela reação. Seu olhar voltou-se então para Fey e Mel, que aguardavam uma resposta dela com a mesma ansiedade que uma criança aguarda um doce.

— Err… Oi? – disse singelamente.

Os dois gritaram e pularam ainda mais.

— Ela disse oi pra gente! – gritaram alegremente.

A situação era, no mínimo, bizarra. De irmãos preocupados, Fey e Mel passaram para a categoria de tietes enlouquecidas tão rápido que fez Doroteya ficar com um pouco de pena de Tommy, que fora totalmente esquecido. Por outro lado, Lina adorou aquela mudança. E achou que poderia tirar vantagem dela.

— Por que não fazem sala para a princesa enquanto eu lido com esse pequeno problema? – disse animada olhando o fardo-Tommy no chão.

— Claro! – disseram os dois em uníssono, já levando a princesa ao confortável sofá da sala e oferecendo chá, doces e perguntando se ela não queria olhar a coleção de croquis deles.

Arshe abriu um enorme sorriso, finalmente entendendo quem eram aqueles dois fãs alucinados.

— Eu adoraria ver os croquis de vocês!

Fey e Mel então entraram em êxtase e se esqueceram de vez do irmão machucado.

Tendo sido deixada em paz pelos seus irmãos, Lina olhou novamente para Tommy estendido no chão. Seus olhos brilharam com lágrimas que queriam ousadamente rolar pelo seu rosto. Mas ela logo controlou aqueles sentimentos e se abaixou pegando o irmão nos braços. Ele estava assustadoramente magro. Ela subiu as escadas lentamente, com Doroteya bem atrás dela e foi em direção ao seu quarto. Logo que chegara pensou em colocar Tommy no quarto de hóspedes, mas Doroteya estava lá e não pediria para a amiga sair do quarto.

Como se tivesse ouvido os pensamentos de Lina, Doroteya falou:

— Pode deixá-lo no quarto de hóspedes. Eu fico na sala.

Lina parou de repente e a encarou.

— Você é tão abnegada… – disse seriamente e, balançando a cabeça, completou – Deveria ter sido rainha.

Doroteya ficou parada, olhando a amiga continuar o caminho sem entender porque, de repente, sentiu uma vontade imensa de chorar.

Liam lhe dissera algo parecido no passado.

— Vem logo, totó! – chamou Lina quando já estava no quarto. Doroteya então se apressou para alcançá-la.

A comandante estava tão transtornada com o estado de seu irmão que nem se importou com a quantidade exorbitante de flores que foram deixadas no seu quarto. Eram as flores que seus admiradores mandaram mais cedo. Contudo, tanto o baile quanto o rei pareciam ter acontecido há décadas atrás. Colocou então Tommy na cama. Seu irmão parecia ainda mais sujo e magro na imensa cama de Lina. A comandante se aproximou e sentou-se na cama ao seu lado. Quando ela fez um movimento com a mão em direção a cabeça dele, Doroteya achou por um momento que ela ia começar a bater nele de novo. Mas não. Lina passou delicadamente os dedos pelos cabelos emaranhados do irmão e as lágrimas que ela tentara conter antes, rolaram abundantemente pela sua face. A worgenin queria dizer algo, mas simplesmente nada vinha a sua mente.

— Você tem irmãos, Doroteya? – perguntou de repente.

— Não.

— Mas já teve?

— Não. – respondeu novamente a druidesa – Filha única.

Lina apertou os lábios enquanto ainda passava carinhosamente a mão na cabeça de Tommy.

— Uma das coisas engraçadas na vida é que, na maioria das vezes, por mais que você e seus irmãos tenham saído do mesmo ventre, vocês são tão diferentes quanto a terra e o mar. — a comandante suspirou – Isso eu aprendi muito cedo. Sempre fui a antítese das minhas irmãs. E uma chateação para maioria dos meus irmãos.

— Menos para Tommy. – disse Doroteya começando a entender a situação.

A comandante fez que sim com a cabeça.

— Eu sou a caçula de dezoito irmãos. Eu já tinha sobrinhos quando nasci. Hoje, tenho sobrinhos-netos. – ela riu um pouco – Eu fui a queridinha do papai. Ou melhor, ainda sou. Sei que parece meio estranho, mas é verdade.

— Não parece estranho. – disse Doroteya franzindo a sobrancelha.

Para sua surpresa, Lina riu.

— Sério? A maioria das pessoas acha estranho, pois não esperam isso de mim… – ela suspirou novamente e continuou – Pois bem, eu sou a queridinha do papai. Isso por si só já deixaria a maioria dos meus irmãos com raiva. Mas isso não era tudo. Eu tinha uma personalidade horrível! Eu era muito, muito irascível! E alta. Muito alta. Mais alta que minhas irmãs e até que alguns irmãos.

Essa parte a worgenin realmente não entendeu.

— Como ser alta fez seus irmãos não gostarem de você? – quis saber.

— Na verdade era especificamente as irmãs. Quando você tem uma família grande e pobre, as roupas passam de uma pessoa para a outra. No meu caso, isso ficou impossível. Por que as roupas das minhas irmãs não cabiam em mim. Então, de todos meus irmãos, eu fui a que mais tive roupas novas, compradas exclusivamente para mim. – ela deu de ombros – Pelo menos nisso eu não tive culpa.

— E nas outras coisas?

— Bem, eu gostava de ser a favorita do papai. E fazia questão de usar isso ao meu favor. E como eu disse, eu tinha um gênio dos diabos! – Lina parou de passar a mão na cabeça de Tommy e confessou – Ainda tenho na verdade. Apenas o treinamento militar me deixou mais controlada.

Era interessante saber mais sobre a comandante, e Doroteya chegou mais perto da cama e sentou-se nela também. Logo Lina voltou a falar.

— Todos meus irmãos e irmãs me detestavam. Menos o Fey, o Mel e o Tommy. – ela suspirou – O Fey e o Mel tiveram que sair cedo de casa depois de assumirem que eram gays. Não que meus pais se importassem. Para dois camponeses, eles até que tiveram a mente bem aberta, mas nem todos na família fizeram a mesma coisa. Eu tinha oito anos quando eles saíram de casa. Nunca chorei tanto. Eu os amava muito, eles faziam eu me sentir bem. Mas eu ainda tinha o Tommy. – as lágrimas brilharam nos olhos novamente – Fazíamos tudo juntos. Eu, ele e o papai. Caçávamos, pescávamos, cuidávamos das uvas… Mesmo quando ele casou com a Ana, que eu detestava, continuávamos unidos. E quando eu o vi com a farda do exército de Ventobravo, decidi que queria estar lá também e ser como ele. – ela suspirou – Como você decaiu meu irmão…

A dor de Lina, e isso estava claro agora para Doroteya, não era apenas pelo fato de ver seu irmão sofrer, mas pela decepção em ter visto alguém que admirava ir contra tudo que ele sempre representou em sua vida. Foi como ver a queda de um anjo, a destruição de uma lenda. Por isso Lina fora tão dura com Tommy. Por isso as lágrimas agora rolavam de sua face. E foi por isso também que ela enxugou as lágrimas, endureceu o rosto e levantou-se da cama.

— Eu vou ajudá-lo, querendo ele ou não. – ela respirou fundo – Cure-o enquanto eu desço e pego uma corda. Vou deixá-lo amarrado um pouco até ele se acalmar. Tem umas coisas que eu preciso dizer e que ele precisa ouvir.

— Tudo bem. — Doroteya se levantou também. – Fique tranquila Lina, vai dar tudo certo.

Um tímido sorriso surgiu no rosto da comandante.

— Quando você fala assim, eu até acredito, sabia?

Doroteya riu sem graça.

— Então acho que eu deveria ter sido rainha mesmo. – disse animadamente.

Ambas riram e Lina se encaminhou para a porta.

— Volto num instante.

A comandante se retirou e Doroteya se aproximou mais da cama. Levaria algum tempo para Tommy se recuperar da situação em que se encontrava. Como uma boa mãe, a worgenin já pensava nas refeições mais apropriadas para que ele pudesse recuperar as forças. Como ele estava desnutrido e provavelmente não comia uma boa refeição há muito tempo, o ideal era começar com sopas, caldos e mingaus. Assim, o estômago dele não rejeitaria a comida de imediato. Depois, poderiam passar para alimentos sólidos, como frutas, verduras e peixes. É, seria um caminho longo, mas Tommy chegaria lá. Restava uma pergunta: ele queria percorrer aquele caminho?

Bem, não seria ela quem teria aquela resposta. Mas ajudaria Lina a obtê-la. Rapidamente ela invocou as forças da natureza e uma magia verde e cintilante saiu de seus dedos e curaram as feridas de Tommy. Ele ainda estava claramente mal, mas, pelo menos, não estava mais machucado. Doroteya ficou satisfeita com o trabalho e sorriu.

Houve então um barulho lá embaixo muito alto e vozes gritando uma com as outras. Pode-se distinguir que era Fey e Mel protestando contra as cordas que a irmã levava. Preocupada, Doroteya foi até a porta. Mas logo o barulho cessou. Ou Lina tinha nocauteado os irmãos ou Arshe interveio. O que quer que tenha acontecido, silenciara as coisas.

Foi quando Doroteya foi agarrada por trás. Tommy, já curado, se levantara silenciosamente, se aproveitando da gritaria lá de baixo e imobilizou a worgenin. Ele tapou sua boca e disse em seu ouvido:

— É só ficar quieta, menina. Não quero lhe machucar, só fugir daqui.

Tommy, quando vira Doroteya de costas, a tomara por uma menina indefesa. O engano dele era justificável; com a estatura baixa, os volumosos cabelos cacheados e o rosto jovem, Doroteya se passava por alguém que ele poderia facilmente dominar.

Mas ele não sabia que ela era uma worgenin. Nem que, o que via, era apenas sua forma humana.

Ela reagiu rápido. Com um golpe de cotovelos, o afastou com força. Tommy, que não esperava a reação cambaleou em direção a cama. Doroteya virou-se no momento em que ele arremetia para cima dela de novo. E transformou-se.

O choque do corpo grande e maciço da forma lupina de Doroteya fez com que Tommy caísse novamente na cama, aturdido demais para entender o que acontecia. E quando ele abriu os olhos, o que viu não foi a bela jovem que acompanhava a sua irmã, mas algo que parecia ter saído da mais tenebrosa, sombria e densa floresta. Aquele lobo (seria um lobo?) era enorme. Tinha uma vasta pelagem castanha e estava rosnando para ele, com os dentes a mostra. Os imensos olhos castanhos refletiam raiva, mas, ao mesmo tempo, havia algo que não combinava com aquela selvageria. Ele viu, lá no fundo daqueles olhos, algo bom. Mesmo assim, não ousou se mexer. E, mesmo que quisesse, ele não teria como se levantar. Tinha a impressão que teria a garganta destroçada se tentasse.

— Doro, eu trouxe a corda e você não imagina o que… – Lina parou de supetão na porta, aturdida com a cena que encontrara. Tommy estava acordado, com a expressão mais assustada que a irmã já vira e Doroteya estava sobre ele, o segurando em sua forma ameaçadora de worgenin. – O que está acontecendo aqui?

— Ele tentou escapar! – disse Doroteya e Tommy se espantou com a voz rouca que agora saia de sua garganta. Quando a vira na Bastilha, sua voz era doce e meiga. Jamais imaginaria que aquela criatura e a moça pequena e meiga eram a mesma pessoa.

— Típico dele. – disse a comandante sem parecer surpresa – Imagino que ele não esperava encontrar uma resistência tão grande de você. – e rindo, coçou a cabeça de Doroteya – Bom trabalho totó, vou lhe dar um biscoito quando descermos – Doroteya não entendeu porque teve de repente uma vontade imensa de oferecer a barriga para Lina e pedir para que ela coçasse ali também — A propósito, Tommy, essa é Doroteya. Ela é uma worgenin. Trabalha comigo. Mas você já deve saber.

— Worgenin... – murmurou ele – Então é verdade…

— Sim, é. – disse a irmã desenrolando a corda – Eles estão conosco agora. – e se voltando para a druidesa, pediu – Me ajude a amarrá-lo na cama, Doro.

Todavia, Tommy não mostrou resistência e se deixou ser amarrado. Ele não era burro e sabia que não era páreo para a irmã mesmo que ela estivesse sozinha. E ela não estava. Tommy não queria admitir, mas ficara encantado depois que o susto passou. Worgens. Ouvira falar deles, mas ver um ali perto era surreal. Tommy amava lobos tanto quanto Lina amava ursos. E havia uma beleza exótica na figura que se movia com graciosidade apesar da forma selvagem.

— Pronto. – quando Lina disse isso, Doroteya voltou a forma humana.

“Pela Luz” pensou Tommy, sem acreditar a rapidez como a figura imensa se fora e uma mais baixa e mais meiga tomou seu lugar.

— Muito bem, Tommy. – começou Lina – A partir de hoje, você vai ficar aqui em casa.

— Eu... – começou ele.

— Calado! – ordenou a comandante e ele calou-se – Você VAI ficar. – disse incisiva – Não vou deixar você morrer no mato por causa do seu orgulho idiota! E se você abrir a boca de novo, vai ser amordaçado também!

Tommy, que já ia abrir a boca para brigar, calou-se.

— Muito bem. – Lina se aproximou dele – Agora podemos conversar. Quero que você me responda uma coisa irmãozinho, com toda a sinceridade: você quer vingar mesmo sua família?

Tommy a olhou, aturdido.

— Que pergunta estúpida é essa Lina?! – vociferou.

— Você não me respondeu. – contestou serenamente.

— Claro que quero! – respondeu com fúria.

Lina balançou a cabeça em concordância, como um professor diante de uma resposta certa de um aluno.

— E para isso, para conseguir sua vingança, – continuou – você está disposto a tudo?

— Claro que sim! – ele parecia indignado com as perguntas – Qualquer coisa!

— Qualquer coisa mesmo? – questionou ela novamente.

O homem respirou fundo, controlando sua raiva e disse, com os olhos cravados nos olhos da irmã:

— Qualquer coisa.

Para a surpresa de todos, Lina sorriu.

— Ótimo! – ela parecia satisfeita – Assim você facilita meu trabalho. – e puxando uma cadeira próxima, sentou-se ao lado da cama – Eu tenho uma proposta para você, Tommy. Uma proposta que, tenho certeza, vai de encontro ao seu desejo de vingança. Se você aceitá-la, não medirei esforços e farei o que estiver ao meu alcance para que você consiga o que quer.

Doroteya sabia que ali haveria uma conversa não só de irmãos, mas também de comandante para comandando. Por isso, fez menção de se retirar.

— Para onde vai Doroteya? – perguntou a comandante.

Sem entender, a worgenin deu de ombros.

— Vocês precisam de privacidade não é? Para conversar…

— Você fará parte do acordo também. – revelou – Sente-se.

Rapidamente, a druidesa obedeceu. Tommy se perguntou se sua irmã tinha domado a worgenin do mesmo jeito que fazia com suas feras.

— Voltando. – Lina olhou novamente para o irmão – Minha proposta: você vai ficar aqui conosco. Vai se recuperar. Ganhar peso, entrar em forma e voltar para o exército. – Lina deu uma pausa, como se esperasse que o irmão protestasse, mas Tommy apenas continuou observando-a, então ela retomou a fala – Depois disso, colocarei você a par de tudo sobre os Defias. Você poderá fazer parte das investigações.

— Desde que faça o que você mande e ande na linha. – completou ele com desdém.

— Que bom que você entendeu. – ela sorriu – Se fizer isso, garanto que você terá minha ajuda e recursos para isso. E quando descobrimos quem matou Ana e as crianças, farei de tudo para que eles sejam executados. Eu prometo.

Os dois irmãos ficaram se encarando durante um bom tempo. Os dois pares de olhos verdes profundos pareciam se confundir um com o outro. Doroteya ficou comovida pois, mesmo naquele confronto, eles pareciam unidos. O sentimento que os ligava era muito forte e ambos sabiam disso.

— E se eu recusar? – perguntou ele altivo.

— Te tranco no porão e você vai se alimentar de um jeito ou de outro. Vai ficar lá indefinitivamente até que EU encontre quem matou sua família. – ela deu um sorriso esnobe – E do jeito que você está ai, não será difícil manter você preso. E Fey e Mel não vão te ajudar, ou digo a eles que Arshe não vai mais gostar deles, se fizerem isso.

Tommy estreitou os olhos.

— Arshe? Arshe Fordragon?

— A mesma. Ela trabalha comigo agora também.

Aquela notícia aparentemente o deixou mais perplexo que a presença de Doroteya ali. Uma worgenin era fácil de aceitar ao lado da irmã; mas uma dama como Arshe Fordragon? Perto de Lina? Comandada de Lina? Era tão improvável quanto Rei Varian e Garrosh Grito Infernal dividindo uma mesma montaria.

— É, eu também fiquei surpresa. – confessou Lina – Mas ela está aqui e é meu trunfo. Então, o que me diz?

Ele ponderou um pouco. Havia vantagens no que sua irmã oferecera, era óbvio. Como também havia a imensa desvantagem de ter que conviver de novo com ela e com os outros. Era difícil tentar explicar a Lina porque ele fizera tanta questão de se manter afastado. Não era apenas por sofrer, mas por não querer ver ninguém sofrendo por ele. Tommy simplesmente não queria ter que ver o seu sofrimento refletido nos olhos de seus irmãos, principalmente nos de Lina. Todavia, mais uma vez ela lhe deixara sem opção. Como sempre fazia, desde que era criança.

— Papai mimou você demais. – foi tudo que ele disse.

Lina deu uma risada sem graça.

— Eu sei.

— E onde ela entra nisso? – perguntou Tommy apontando Doroteya com o queixo.

— Doroteya vai ficar responsável por manter você alimentado. Ela vai preparar suas refeições de acordo com o que seu corpo precisa. Vai ajudar também a deixar você em forma. – e se virando para a druidesa, disse – Será como cuidar de uma criança birrenta. Acho que não existe pessoa mais indicada que você para isso.

Doroteya deu um enorme sorriso para Lina. Tommy sentiu-se afundar. Sabia porque a irmã pedira ajuda para Doroteya. Aquele sorriso… Ela parecia tanto a mãe dos dois sorrindo daquele jeito! É, Lina jogava sujo quando queria.

— Vou gostar de ter alguém para cuidar! – disse a worgenin animada.

— E quando o Theo chegar, acho que ele pode te ajudar.

Quando disse isso, o sorriso de Doroteya ficou maior e seus olhos brilharam mais. Quem quer que fosse Theo, era amado incondicionalmente pela druidesa. Aquilo fez uma pontada de dor palpitar no coração de Tommy. Como sentia falta de Ana e de seus filhos!

— Tudo bem… – murmurou Tommy – Eu aceito.

— Eu sabia que você aceitaria. – disse Lina singelamente – Vamos começar logo. Vem totó, vamos pra cozinha. Quero comer algo e você já prepara algo pra esse aí.

— Certo! – animou-se Doroteya se encaminhando alegremente para a porta.

Tommy, ao ver que a irmã saia também, protestou:

— Ei! Vai me deixar amarrado?! Eu já concordei!

Lina parou e se voltou para ele.

— Apenas por precaução irmãozinho. Apenas precaução. – e saiu, deixando Tommy amarrado na cama, cheio de raiva e, inesperadamente, de esperança.

**************************************

Voltar para os Fendessol não seria fácil, pensou Kayliel ao se dirigir para a Torre Solfúria em seu falcoztruz. Não por conta de Aethas; o arquimago nunca se conformara com sua saída e constantemente tentava fazê-lo voltar. O que o incomodava eram os laços feitos com sua guilda que teriam que ser desfeitos. Ser de uma facção Kirin Tor significava muito mais que ser neutro; era saber calar mesmo quando se queria defender seu povo. Era ouvir críticas a Horda e não revidar. Era difícil. E seria mais ainda, se quisesse se reaproximar de Arshe sem chamar atenção. Mas o pior de tudo, seria encarar Mhuu e dizer que sairia da guilda.

O sacerdote suspirou. Se fosse só o tauren xamã já seria complicado, mas ainda havia Luxuriah, é claro. Se haveria alguém que desconfiaria dos motivos de sua volta aos Fendessol, seria ela. A elfa provavelmente iria interrogá-lo e exigir saber porque mudara de opinião tão rápido. E pouco importava se o “rápido” a que ela se referiria fora três anos. Três longos anos nos quais evitara Dalaran, pois não suportava a ideia da possibilidade de cruzar com Arshe. Saíra fugido do Kirin Tor e agora queria fugir de sua guilda e voltar para lá.

Tudo por causa de Arshe. Suas maiores decisões sempre envolviam a jovem maga.

Seria esse o seu destino, afinal?

— Kayliel! – gritou uma voz.

O sacerdote assustou-se e quase perdeu o controle da montaria. Não apenas porque não esperava o chamado, mas por reconhecer a voz que o chamara.

Bem a sua frente, poucas ruas antes de chegar a praça da torre, lá estava Luxuriah, montada em seu magnífico falcoztruz negro. O que a princesa estava fazendo ali? Não devia estar na Torre, com suas irmãs? Todavia ela estava ali e vinha em sua direção. O elfo parou a montaria e esperou que ela se aproximasse.

— Ainda bem que te encontrei aqui e não em sua casa. – disse a princesa parecendo realmente aliviada – Não estou com paciência para lidar com os joguinhos de Rommath.

A jovem caçadora parecia afobada e nervosa, como ele não via há muito tempo.

— Algum problema, Lux? – perguntou começando a ficar preocupado. Se algum problema acontecesse, duvidava muito que tivesse coragem de deixar a guilda.

— Não sei. – respondeu ela sinceramente – Você quem vai me dizer. – e antes que ele pudesse questionar, ela pediu – Siga-me. – e bateu com os pés levemente nas laterais da montaria, fazendo-a andar.

Sem opção, o sacerdote limitou-se apenas a segui-la, torcendo para poder resolver qualquer que fosse o problema de Luxuriah antes de falar com Aethas. Se sentiria melhor para sair da guilda se pudesse ter sido útil pela última vez a ela. O que o preocupava, contudo, era se o arquimago tivesse ido embora para Dalaran. Porém, achava pouco provável. Sabia que ele fora na Nascente do Sol naquele dia com as sobrinhas. Seria mais óbvio que viajasse no dia seguinte. E mesmo que não conseguisse falar com ele ainda em Luaprata, poderia ir vê-lo na cidade flutuante. Seria até mesmo uma boa desculpa para esperar alguma resposta de Arshe lá mesmo, em Dalaran. Também havia a possibilidade de falar com ele tão logo ajudasse Luxuriah, afinal, Aethas também estava hospedado na Torre Solfúria, tal como suas sobrinhas.

Todavia, para sua surpresa, eles não se dirigiram para a Torre Solfúria. Luxuriah pegou o caminho que levava a mansão de Lady Luelly. Eles cavalgaram em silêncio, com uma estranha tensão ao redor dos dois, até que chegaram ao seu destino. Apearam e Kayliel imitou Luxuriah ao amarrar a montaria na cerca. Depois, a seguiu para dentro da propriedade, mas não foram de imediato para a porta. Luxuriah pegou um estreito caminho ao lado da casa, que levava a horta.

— Kassyeh me pediu para pegar algumas coisas para ela. – justificou vendo o olhar indagador de Kayliel – Tenho que levar tudo, senão ela vai ficar desconfiada.

Isso fez com que o elfo franzisse a sobrancelha.

— E temos algo a esconder? – perguntou sem conter o riso.

Luxuriah, porém, continuou séria.

— Não sei. Você quem vai responder essa pergunta.

Mais intrigado ainda e muito, mas muito mais preocupado que antes, Kayliel assistiu Luxuriah colher diversas ervas, legumes e verduras, além de uma enormidade de amoras. A elfa encheu duas cestas grandes que estavam no jardim, e ele a ajudou a carregá-las até as montarias. O elfo não pode deixar de reparar que Luxuriah não parava de comer cerejas, provindas de uma enorme cerejeira no quintal, que cobriam o chão da horta.

— Pensei que você não gostasse de cereja. – comentou ele.

— Detesto. – foi a resposta da elfa, que continuou a comer uma cereja atrás da outra.

Sim, ele estava realmente preocupado.

Quando eles terminaram de guardar as coisas e Luxuriah colocou a cesta cheia de amoras para que os falcoztruz comessem (Debonzi piou de felicidade quando comeu o primeiro bocado), a elfa apontou a casa com a cabeça.

— Venha.

Kayliel foi. E se não tivesse visto todo o amor que Luxuriah tinha por Huaru, estaria seriamente amedrontado com a possibilidade de ser atacado pela elfa e depois ter que explicar isso para o irmão. Afinal, ele fazia parte do seleto grupo que não fora amante/apaixonado pela jovem caçadora e era uma das poucas coisas que faziam com que os irmãos continuassem unidos.

A porta da casa se abriu com um rangido agudo, que se destacou na vastidão silenciosa e vazia da sala. Luxuriah entrou na frente, resoluta, seguida por um cauteloso Kayliel. O elfo fechou a porta com cuidado, como se estivesse com medo dela ganhar vida e mordê-lo. Depois, seguiu até o sofá da sala, onde estava a dona da casa estava. Sem esperar convite, sentou numa poltrona defronte a ela. Os dois se encararam.

— Você está me deixando muito preocupado, Lux.

Ela não respondeu de imediato.

— Eu quis que fosse você exatamente porque sabia que você não me faria perguntas que eu não estava pronta para responder. Não enquanto eu não me dispusesse a falar.

Pela primeira vez na vida, Kayliel viu uma face de Luxuriah que não conhecia. A caçadora estava com as mãos sobre o colo e as apertava a todo instante. Seus cabelos caiam ao redor do rosto como os de uma criança que esquecera penteá-los. E os olhos… Os olhos dela estavam arregalados de um medo que ele não entendia, e que a fazia parecer muito mais jovem do que era.

— Está disposta a falar agora? – quis saber ele.

Ela fez que sim com a cabeça.

— Acho que estou doente. – disse apertando ainda mais as mãos.

Apesar das palavras ditas de forma sôfrega, Kayliel não pode deixar de ficar aliviado. Esperava muitas coisas complicadas e difíceis, mas Luxuriah apenas achava que estava doente. Não era um problema, afinal. Qualquer um que olhasse para a elfa via que ela esbanjava saúde, apesar do semblante preocupado. Na verdade, Kayliel jamais a vira em tão boa forma. Luxuriah parecia resplandecer nos últimos meses.

— Vou tentar não ser chato, mas preciso perguntar: o que a leva a pensar que está doente? Digo isso porque te conheço há anos e posso lhe garantir que nunca a vi tão bem.

Luxuriah passou a mão nos cabelos, irritada.

— Esse é o problema! Todos dizem que estou bem, muito bem! Lady Liadrin até disse que-

Luxuriah se forçou a interromper o rompante de irritação. Não falaria do que a matriarca lhe disse. Não daria um possível diagnóstico a Kayliel. Ela mesma não descartara aquela hipótese? Além do mais, o elfo sabia do que acontecera. Na época em que fizera o aborto ele era um noviço e acabou por auxiliar Lorena no tratamento dela. Gravidez seria o último diagnóstico que faria para ela.

Kayliel estava novamente preocupado. Mas dessa vez era por ver que Luxuriah escondia algo. E quando ela se forçou a parar de falar ao mencionar Lady Liadrin, o deixou ainda mais hesitante. Todavia, não pediria para ela falar nada, nem pressioná-la, pois detestava que fizesse isso com ele, logo, não fazia com ninguém. Esse provavelmente foi o motivo pelo qual ele fora escolhido por Luxuriah para compartilhar suas preocupações. Ele não faria muitas perguntas, faria o exame e diria sua opinião. E também, como membro da guilda (sim, ele ainda era, até falar com Mhuu), guardaria segredo do que quer que a elfa tivesse, a menos que ela o permitisse falar. Isso porque sua lealdade estava, antes de tudo, naquele grupo inusitado de pessoas. Se fosse para escolher entre manter um segredo de um de seus companheiros e ganhar pontos com o lorde regente por dar uma informação importante, jamais ficaria em dúvida no que escolheria.

— Muito bem. – disse ele se levantando – Se você precisa que eu a examine e diga qual seu problema, farei. – ele se aproximou dela – Nem precisa me dizer os sintomas. Apenas vamos onde eu possa examiná-la com cuidado.

Luxuriah parecia sinceramente aliviada com a fala dele e levantou-se também.

— O que quer que você descubra, eu quero que você não conte a ninguém, até eu autorizar, entendeu? A ninguém!

— Sim, vossa alteza. – disse num tom brincalhão.

Pela primeira vez desde que si viram, a elfa riu.

— Venha súdito, venha comigo.

Eles subiram as escadas e Kayliel não precisou que ela dissesse para onde iam. Sabia que estavam indo para o quarto dela. Mais uma vez pensou no que diria seu apaixonado irmão se soubesse disso. Ficaria muito chateado, verdade, mas esperava que ele lembrasse que estava fazendo aquilo por uma boa causa e não pela causa que seu irmão desejaria se fosse ele a acompanhar a elfa até um quarto.

Quando chegaram no quarto de Luxuriah, a elfa foi imediatamente até a cama e se deitou. Por um momento Kayliel lembrou que não apenas Rommath não gostaria de sua presença ali. Havia um jovem tauren muito ciumento que também ficaria bem chateado se soubesse. Esperava que, se Huaru entrasse repentinamente por aquela porta, conseguisse explicar que estava ali para fins médicos antes que o paladino amassasse sua cara com seu imenso martelo.

— Huaru não vai me matar por isso, não é mesmo? – perguntou tentando parecer despojado.

— Ele não sabe que eu vim aqui. – respondeu ajeitando um travesseiro embaixo da cabeça.

Isso não o deixou menos preocupado.

— Bem, vamos lá. – disse tirando todas as preocupações de sua cabeça.

Kayliel ficou de pé ao lado de Luxuriah e estendeu as mãos sobre a sua cabeça, sem contudo tocá-la. Faria um exame completo. Deixou a magia divina fluir pelos seus dedos, tocar no corpo da elfa e voltar novamente até suas mãos. Examinou a cabeça dela e não achou nada de errado lá. Um pouco de tensão, mas sendo Luxuriah, isso era normal. Desceu então lentamente até o pescoço. Nada. Parou no torso e procurou ter um pouco mais de cuidado. Verificou seu coração, seus pulmões, suas costelas. Nada. Tudo na mais perfeita ordem. A única coisa que poderia ser considerada anormal seria o bater rápido do coração, mas o elfo sabia que era somente o nervosismo de sua paciente.

— Até agora tudo bem. – disse ele para animá-la.

Luxuriah contudo ficou calada como se a notícia não trouxesse nenhuma novidade.

“Ela sabe qual o problema”, pensou Kayliel. Sabia e não diria. Bem, isso provavelmente era bom, pois assim ele não seria influenciado por nenhuma opinião. Imaginou que fosse esse mesmo o motivo pelo qual ela nada falara.

As mãos continuaram o percurso, e pararam no seu estômago. Dava para perceber que ele estava um pouco irritado. Nenhuma surpresa também, pois a caçadora era nervosa e vivia tensa. Pessoas assim tendiam a ter problemas no estômago.

— Seu estômago está um pouco irritado. – comentou – Nada grave, mas cuidado com a alimentação.

— Certo. – respondeu inexpressivamente.

Ainda não era aquilo.

Foi quando colocou suas mãos sobre a barriga, que Luxuriah estremeceu. Foi ali que Kayliel sentiu que havia algo diferente. Quando a magia lançada voltou aos seus dedos, ela trouxe algo mais. Uma pulsação. O elfo franziu as sobrancelhas. Foi possível também sentir a tensão de Luxuriah chegar às suas mãos. Qualquer que fosse o problema se encontrava naquela parte do corpo. Parando o exame por um momento, a encarou.

— Quer me dizer alguma coisa? – perguntou – Um sintoma, ou algo assim?

— Não. – disse deixando a tensão transparecer em sua voz – Diga-me você qual o problema.

— Preciso de mais um tempo. – revelou – Relaxe.

Luxuriah, todavia, não relaxou. Kayliel continuou o exame por mais um tempo e continuava a sentir a pulsação. A primeira coisa que passou por sua cabeça era que a elfa poderia estar com um tumor no útero. Porém, excluiu essa possibilidade quase instantaneamente. A energia que vinha do útero era boa. E se fosse um tumor, haveria um latejar e não uma pulsação. Então, o que seria aquilo? Ele buscou na sua mente quando vira aquilo.

A pulsação.

Pulsava como…

Um coração.

Kayliel tirou as mãos de cima dela como se tivesse levado um choque. Olhou para Luxuriah sem conseguir acreditar. Ela deve ter visto a resposta em seus olhos, pois a cor do rosto dela fugiu. Sentia que já tinha dado o diagnóstico sem falar nada. O espanto em seu rosto já dizia tudo.

— Veja novamente. – pediu Luxuriah num fio de voz – Antes de dizer qualquer coisa, veja novamente.

E ele estendeu as mãos novamente sobre ela. A pulsação estava lá.

Um pequeno coração de bebê pulsava fortemente no útero de Luxuriah.

Aquilo era impossível. Ele mesmo estava presente quando Lorena lhe dera a notícia que ela jamais geraria. Todavia, ele ponderou, às vezes o corpo se curava de uma forma que nem mesmo quem lidava com magia podia explicar. E Luxuriah era ainda muito jovem quando o mal foi feito a ela. Era plenamente possível que seu útero tivesse melhorado ao ponto de conseguir segurar um embrião. E pelo que sentia, ela já devia estar numa fase adiantada da gravidez. Três meses provavelmente.

— Pela Nascente do Sol… – A voz dele saiu embargada – Você está grávida…

O rosto de Luxuriah ficou ainda mais branco e ela levou as mãos à barriga. Com certeza ela estava chocada demais para falar. Kayliel não conseguia imaginar o que poderia estar passando na cabeça dela naquele momento.

— Kassyeh... – murmurou Luxuriah com as lágrimas inundando seus olhos.

Os pensamentos de Luxuriah ao receber a notícia foram diretamente para sua querida irmã. Aquele bebê deveria estar na barriga de sua irmã, e não na dela. Luxuriah fora estuprada violentamente, engravidara e abortara. Ficara com o útero em frangalhos e nunca se importara em se precaver para evitar uma gravidez, afinal fora dito a ela que isso não aconteceria. Já Kassyeh, estava casada com alguém que amava. Tinha perdido a virgindade com seu atual marido e sonhava em ser mãe. E estava muito empenhada em conseguir seu bebê. E de repente, era Luxuriah que estava grávida.

O mundo realmente não era justo.

O que diria para Kassyeh?

— Você tem certeza? – perguntou sem olhar para ele. Estava visivelmente em choque.

— Sim, tenho. — Kayliel respirou fundo – Estou tão surpreso quanto você… Eu… Eu estava lá… Naquele dia…

Luxuriah apertou os olhos com força, como se quisesse impedir que as lembranças invadisse sua mente. Ainda pensava em Kassyeh e em sua vontade de ter um filho.

O silêncio se abateu dentro do quarto. Kayliel queria poder dizer alguma coisa que a animasse, que colocasse um sorriso no rosto da amiga. Afinal, mesmo que fosse inesperado, era praticamente um milagre. E descobrir a gravidez no dia quem visitou a Nascente do Sol era um excelente presságio.

Aquela criança estava destinada a um futuro glorioso,

— Bem, acredito que Huaru ficará bem feliz. – falou sem conseguir pensar em outra coisa para dizer – Se bem que não faço ideia de como será essa criança. Não é? Meio-elfo meio-tauren parece difícil de imaginar e…

Ele continuou falando mais algumas coisas, mas Luxuriah não ouvia. Sentou-se lentamente na cama, olhando diretamente para o quadro de sua avó. Uma estranha sensação tomou conta de seu corpo. Um pressentimento.

— Eu posso perder essa criança? – perguntou de repente interrompendo as conjecturas de Kayliel – Meu útero machucado pode expulsá-la?

Era válida a preocupação da elfa. Se realmente o útero dela tivesse melhorado apenas o suficiente para segurar o bebê enquanto embrião, poderia expulsá-lo quando ficasse grande demais. Contudo, Kayliel não se preocupava com isso. O bebê parecia bem acomodado e seguro.

— Acho difícil. – respondeu – Se fosse para acontecer, teria sido logo que você entrou no terceiro mês e o coração já bate então…

— O quê?! – gritou Luxuriah de repente saindo do estado de choque e deixando o desespero tomar conta de seu corpo – O que você disse?!

Kayliel deu um passo para trás, assustado. Por acaso Luxuriah não queria que o bebê vingasse?

— D-Disse que a-acho difícil você perdê-lo … – gaguejou.

— Sobre os meses! – gritou ela mais alto – O que você disse sobre os meses?!

Kayliel engasgou antes de responder:

— Três meses… – murmurou se perguntando se conseguiria correr dela e sobreviver. Talvez conseguisse porque ela não tinha nenhum arco a mão – Disse que você está com três meses e o coração já bate.

Um grito profundo e desesperado saiu da garganta de Luxuriah. Ela dobrou o corpo, como se tivesse sentindo uma dor imensa. As lágrimas agora lavavam seu corpo enquanto ela chorava copiosamente, balançando seu corpo para frente e para trás.

— Não! – gritava ela – Não! Não! Não!

— Lux! – Kayliel se aproximou – O que você está sentindo? É o bebê?

Mas ela não conseguia falar nada, só chorar. Quando ele tentou tocá-la, ela o rechaçou e jogou-se sobre a cama, sofrendo de uma forma que Kayliel jamais vira ninguém sofrer.

— Por favor Luxuriah! – pediu o sacerdote em pânico – Me diga algo! Qual o problema?

O choro de Luxuriah a fazia engasgar, mas Kayliel conseguiu compreender as palavras que se formaram em sua boca.

— Grey...

Então ele entendeu. Luxuriah não sofria por estar grávida.

Luxuriah chorava por estar grávida, não de Huaru, mas de Grey.

****************************

— Então é só quebrar a cabeça assim e tirar a casca desse jeito.

Sob o olhar atento de Karen e Saba, Kassyeh limpava agilmente um enorme camarão do mar. As três estavam na cozinha, e a mais velha fazia a janta alegremente, enquanto várias servas olhavam meio assombradas aquela cena.

— Minha mãe cozinha com casca e tudo. – observou Saba pegando um dos camarões na cesta.

— É possível sim, e fica muito gostoso. Crocante. Mas como vou pô-los na salada, é interessante que eles estejam sem casca. – e sorriu para as meninas – Tentem.

Cada uma pegou um dos camarões e começaram a tentar fazer exatamente igual ao que Kassyeh tinha feito. Karen foi bem mais ágil e logo limpou o seu. Depois foi ajudar Saba com o dela.

— Não Saba, não é assim que puxa. Tente assim. – e mostrou a amiga.

Uma das servas se aproximou respeitosamente e fez uma reverência a Kassyeh antes de falar cautelosamente:

— Vossa alteza, é realmente necessária a permanência da rainha na cozinha?

— Ela ainda não é rainha. – respondeu secamente a maga.

— Sim, é verdade. – concordou baixando a cabeça – Mas vossa alteza acha importante que ela aprenda a… descascar camarões?

Em outra ocasião, Kassyeh teria feito a serva comer todos os camarões crus com casca e tudo só por questionar o que ensinava ou não a sua irmã. Contudo, ela estava de bom humor. A visita a Nascente do Sol mexera com seu íntimo, e a maga estava mais tranquila que nunca. Tinha uma nítida sensação que algo muito bom aconteceria em breve. Por isso, limitou-se a dar de ombros e responder:

— Não é porque ela vai ser uma rainha que não deve saber como cozinhar. – ponderou – E se um dia ela estiver sozinha e perdida em uma ilha deserta ou numa floresta fechada, sem ninguém para cozinhar para ela? – Kassyeh esperou a serva dizer algo, mas esta ficou calada de cabeça baixa – Saber o básico de cozinha, primeiros socorros e pesca é imprescindível para qualquer pessoa, rainha ou não.

— Eu sei pescar! – anunciou Karen com um camarão enorme em cada mão — Ted me ensinou. Sei também fazer armadilha pra peixe, se não tiver uma vara!

— Eu sei fazer curativos! – disse orgulhosamente Saba – Aprendi cuidando dos animais lá na estalagem!

— Ohh! Devíamos ensinar uma a outra o que não sabemos! – sugeriu a futura rainha ainda balançando os camarões de um lado para o outro.

— Tem razão! – apoiou a pequena orquisa também sacudindo dois também.

— Certo, certo, meninas, mas cuidado para não derrubar a comida! – e se voltando para as servas, convidou – Por que não sentam aqui e nos ajudam? Estou fazendo uma salada tropical, a favorita de Lux. Se vocês aprenderem a fazer bem feita, ela amará.

As servas ficaram extasiadas com o convite e logo se sentaram, ainda que um pouco envergonhadas, na mesa com as princesas e Saba. Da mesma forma que mostrou às meninas como limpava o camarão, mostrou também a elas e logo havia uma pilha deles limpa e pronto para preparar. Mas para fazer isso, Kassyeh teve que tomar os que estavam nas mãos de Karen e Saba, que tinha decidido encenar uma batalha épica usando os crustáceos.

— Agora colocamos na panela com azeite e alho. – Kassyeh estava ensinando o próximo passo e todas prestavam bem atenção.

Terminada a tarefa de deixar os camarões no ponto que Luxuriah gostava, Kassyeh começou a preparar as folhas da salada. O cozido de javali já estava no fogo e também havia arroz com legumes sendo preparado. O jantar daquela noite seria algo mais simples, mais parecido com o que elas costumavam comer em casa todos os dias. E Kassyeh sabia a importância de ensinar aquelas comidas caseiras que estavam em sua família a bastante tempo, para que as servas pudessem fazê-las se sentir em casa de vez em quando.

— Qual o prato preferido da princesa Ashrial? – perguntou uma das servas ajudando Kassyeh com as verduras.

— Abobrinha frita! – gritou Karen caindo na risada.

— Mentira. – Ash estava entrando na cozinha naquele momento – Eu detesto abobrinha! – e fez de conta que ia dar um cascudo em Karen, que se escondeu atrás de Saba – Gosto de panquecas. – respondeu por fim.

— Luxuriah ama essa salada com camarões e também purê de batata. Ash e Karen são loucas por panquecas com mel. Já eu, amo uma boa torta de maçã.

As servas puxaram bloquinhos de seus aventais e começaram a anotar. Foi tão repentino que Kassyeh e Ash não conseguiram segurar a risada.

— Olhe como minha mão ta cheirosa Ash! – gritou Karen de repente colocando as mãos bem no nariz da irmã. Ash deu um passo para trás, fazendo uma careta enquanto Karen e Saba riam animadamente.

— Bonito né? – ralhou a irmã – Agora vou arrancar seu nariz fora!

Karen deu um grito e começou a correr ao redor da mesa com as mãos sobre o nariz. Ash a seguia fazendo um gesto de pinça com os dedos, como se estivesse se preparando para arrancar o nariz da outra. Saba se acabava de rir e Kassyeh apenas suspirava. As servas ficaram sem ação diante do que viam, sem saber se aquilo era uma brincadeira entre irmãs ou se deveriam ficar seriamente preocupadas em ter uma rainha sem nariz.

Foi no exato momento em que Karen decidira sair pela porta da cozinha que Lor’themar Theron decidiu entrar. A pequena futura rainha trombou com o elfo e caiu de bunda no chão, ainda segurando o nariz. Todos convergiram na direção dela, e Ash acabou esbarrando no lorde regente.

— Desculpe. – disse ele encarando-a pela primeira vez desde o treino da manhã.

Ash o ignorou.

— Você está bem Karen? – perguntou levantando a irmã.

— Tô sim. – e franzindo a testa comentou – Parece que bati numa parede! Temma, você é forte!

Lor’themar riu e passou a mão na cabeça da menina.

— Tenho que ser, Karen. – e olhando para Kassyeh e para as servas aturdidas, perguntou – Está tudo bem por aqui?

— Sim, sim. – respondeu Kassyeh – Estou ensinando alguns pratos a elas, do cardápio de nossa família.

— Isso é excelente! E o que está preparando?

Kassyeh começou a explicar o cardápio enquanto Karen e Saba pareciam ter se entediado da cozinha e estava agora sentadas cutucando uma a outra. Ash não sabia se sentava e ficava ali com as irmãs ou se simplesmente ia embora. Ainda não sabia exatamente o que fazer com Lor’themar; Luxuriah dissera que conversaria com ela naquela noite. Porém, não vira a irmã desde que chegara. Huaru estava na sala, escrevendo uma carta para mãe; Tewdric estava na companhia de Aethas, discutindo algo que parecia muito importante, mas nenhum sinal de sua irmã mais velha.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Cadê a Lux? – acabou perguntando e interrompendo a explicação que Kassyeh dava a Lor’themar.

— Foi lá em casa pegar algumas coisas para mim. – e ficando pensativa por um momento, comentou – Ela já deveria ter voltado. Será que está tendo dificuldade de trazer tudo?

— Ah, vou lá em casa então. – se ofereceu Ash rapidamente, tentando não encarar o lorde regente, que não despregava os olhos dela – Aproveito e pego um brinquedinho para Bolota.

— Outro ursinho para ele destroçar? – quis sabe Karen.

— Sorte sua que não ponho você para ele destroçar! – disse Ash apertando as duas bochechas da irmã.

Karen riu alto e quis apertar as bochechas de Ash também, mas a elfa conseguiu se livrar das mãozinhas fedidas.

— Aperte as do lorde regente, ele vai amar. – disse com um sorriso sádico e ficou satisfeita ao ver o brilho de travessura no rosto da irmã – Saba pode fazer o mesmo também.

E antes que alguém pudesse dizer algo, ela saiu da cozinha, mas ainda pode ouvir a exclamação de nojo de Lor’themar ao sentir o cheiro e também um pedido desesperado logo a seguir:

— No cabelo não! No cabelo não!

Ash riu e foi pegar sua montaria. Estava um pouquinho mais feliz com o que acabara de fazer.

Bolota estava deitado na sala e levantou a cabeça quando viu a dona se aproximar. O enorme lobo começou a balançar o rabo em expectativa.

— Oi meninão! – disse ela num tom fofo e coçando a cabeça do lobo – Quer vir comigo em um passeio?

O lobo se levantou e a seguiu imediatamente.

Em poucos minutos Ash já estava em sua montaria com seu enorme lobo a seguindo em direção a mansão. Era bom sair um pouco da Torre, de perto de Lor’themar. Pelo menos até que ela soubesse exatamente o que fazer, deveria manter uma distância segura dele. Poderia aproveitar que ficaria com Luxuriah um pouco para começarem a conversa. Tinha certeza que se alguém saberia ajudá-la naquela situação, esse alguém era sua irmã.

Assim que se aproximou da mansão, a primeira coisa que Ash notou foram os dois falcoztruz na entrada. Franziu a sobrancelha. Kassyeh não disse que Luxuriah fora sozinha? Será que alguém aparecera sem avisar?

A jovem apeou de seu falcoztruz, amarrou ele na cerca e analisou a montaria desconhecida. Na verdade ela não lhe era totalmente estranha; tinha sensação que já tinha visto-a antes, mas não conseguia associá-la ao seu possível dono ou dona.

— Vamos Bolota. – chamou Ash entrando na casa – Não estou com um bom pressentimento…

No exato momento em que Ash abriu a porta, pode ouvir claramente o choro angustiado de Luxuriah. Um calafrio subiu por sua espinha, paralisando-a por um momento. Quando o choro aumentou de novo, a elfa saiu de seu estupor e correu escada acima, gritando:

— Lux! Lux!

Ela conseguiu identificar perfeitamente de onde vinham os gritos: do quarto de sua irmã. Por isso arremeteu com fúria contra a porta, esperando que ela estivesse fechada. Contudo, a porta abriu facilmente e Ash pode ver a cena que interpretou completamente errado. Luxuriah estava na cama, encolhida e em prantos lamuriosos, e alguém estava debruçado sobre ela. Não conseguiu reconhecer quem era o elfo. Ash sentiu um ódio imenso percorrer seu corpo.

— Fique longe de minha irmã! – gritou a princesa antes de atacá-lo impiedosamente.

O sacerdote, que não percebera Ash chegando, estava tentando consolar Luxuriah quando ouviu o grito furioso da jovem caçadora e foi atingido com força no queixo. Kayliel sentiu sua visão enturvecer e caiu no chão, sendo atingido novamente com outro soco. Ash estava em cima dele agora, socando-o com vontade.

— O que você fez com ela?! – gritava – O que você fez com minha irmã?!

Bem que ele queria responder, mas estava ocupado demais apanhando para isso.

— Ash...

A voz enrouquecida de Luxuriah fez com que Ash parasse de bater momentaneamente no sacerdote, deixando o punho parando no ar.

-Ash... – o segundo chamado fez com que a elfa olhasse para a irmã, ainda com o punho erguido. – Deixe-o…

Ash olhou para o sacerdote e pareceu finalmente reconhecê-lo.

— Kayliel? – perguntou.

O elfo até que tentou sorrir, mas até respirar doía.

Ash encarou o elfo, olhou novamente para a irmã, totalmente perdida.

— O que está acontecendo? – indagou.

Luxuriah apenas meneou a cabeça e voltou a chorar, dessa vez silenciosamente. A mais jovem então largou Kayliel e foi até a irmã. Passou a mão por seus cabelos, e perguntou novamente:

— O que está acontecendo?

Luxuriah meneou com a cabeça e não respondeu. Apenas se enterrou mais ainda nos travesseiros. Ash, sem saber o que estava acontecendo, mas sentindo a dor da irmã, deitou-se ao seu lado e a abraçou. Luxuriah correspondeu o abraço e passou a chorar no ombro da irmã. Enquanto isso, Kayliel finalmente se levantou, tentando limpar o sangue do rosto. Curou-se rapidamente e ficou sem saber o que fazer. As irmãs estavam abraçadas e sentiu que estava sobrando. Quando tentou sair do quarto, Ash falou:

— Não.

Ao mesmo tempo, um imenso lobo barrou seu caminho. Kayliel estremeceu. Agora, agradecia imensamente os socos que levara de Ash. Se a garota tivesse mandado o lobo atacá-lo, não teria sobrado muito de si mesmo para curar.

— O que está acontecendo? – perguntou Ash pela terceira vez.

— E-Eu não posso responder. – disse ele olhando para o lobo. Quanto tempo levaria para ele destroçar sua garganta? – Prometi a Lux que não diria nada a ninguém.

Ash apertou mais a irmã entre os braços.

— Lux... – chamou suavemente – Pode me contar o que aconteceu?

Luxuriah apenas continuou a choras.

— O Kayliel pode me contar o que aconteceu? – insistiu.

A caçadora ficou quieta por um momento e depois fez que sim com a cabeça. Kayliel estava mais do que grato por aquilo. E quando Ash o olhou com aquele ar inquisidor, ele meneou a cabeça.

— Aqui não. – disse – Não quero deixá-la mais nervosa. – e apontando para a porta, propôs – Posso lhe contar enquanto faço um chá calmante para ela.

Apesar de não querer deixar a irmã sozinha naquele estado, Ash entendeu que o que o sacerdote lhe dissera era uma boa ideia. Com um assobio curto, ela chamou Bolota, que deitou-se na cama. O lobo lambeu o rosto de Luxuriah, que deu um tímido sorriso. Talvez fossem apenas cócegas, mas foi bom vê-la mais calma. E quando Bolota tomou o lugar de Ash na cama de Luxuriah, a mais nova prometeu:

— Não demoro.

A outra não protestou. Apenas agarrou o imenso lobo, como quem agarra um bichinho de pelúcia.

Então, Ash e Kayliel saíram no quarto e se dirigiram a cozinha. Não falaram nada no caminho até lá, mas assim que o sacerdote pegou a chaleira e pôs no fogão, Ash o interpelou:

— Pode me dizer agora o que diabos está acontecendo?

Kayliel suspirou.

— É complicado. – disse por fim – A situação da Lux… – ele se deteve por um momento. Como a jovem entenderia tudo sem uma visão total das coisas? — Esse desespero todo remete a coisas acontecidas há algum tempo e talvez você não entenda quando eu contar o problema, porque existem esses fatos que-

— Eu sei de tudo. – interrompeu Ash – Do ataque dos humanos. Do que eles fizeram com ela. Da gravidez. Do aborto. De tudo.

Kayliel precisou de alguns segundos para conseguir fechar a boca. Como assim ela sabia de tudo? Luxuriah jamais permitiria que uma de suas irmãs tivesse contato com aquele lado obscuro de sua vida! Como se lesse os pensamentos dele, Ash sacudiu a cabeça.

— História longa. – ela se lembrou de Lor’themar e engoliu em seco – Apenas saiba que pode me contar o que quer que seja. Eu sei todo o contexto.

— Certo. – o elfo apontou para uma cadeira – Vamos começar. Mas, primeiro… Acho que você deveria sentar.

****************************

Tommy estava se perguntando por quanto tempo mais ficaria amarrado ali quando Doroteya entrou no quarto. Ela estava em sua forma humana e trazia uma bandeja. Ele franziu a sobrancelha. Será que sua irmã a mandara para dar a comida em sua boca, como se fosse um bebê?

— Não estou com fome. – disse, e então percebeu que soara um pouco rude.

— Não é comida. – a druidesa respondeu com suavidade, como se não tivesse reparado na forma como ele falara – Antes de você comer, é ideal que se limpe.

Quando ela depositou a bandeja na cama, ele percebeu que lá havia uma tesoura, uma navalha, um pincel de barbear, e algumas tigelinhas com coisas que ele não sabia o que era, mas supôs que fossem para sua higiene. Doroteya então adiantou-se e o desamarrou com agilidade. Tommy, logo que se viu livre, esfregou as mãos nos braços. Só percebera a dormência naquele momento.

— Eu mesmo posso me barbear. – falou ainda com o tom de antes.

— Com certeza pode. – respondeu ela lhe dirigindo um sorriso que o fez se sentir mal pela forma que falara – Mas Lina não acha prudente você com uma navalha nas mãos.

Tommy estreitou os olhos.

— Eu poderia tomá-la facilmente de você.

Doroteya o encarou.

— Talvez outro dia, em outra situação. Hoje não.

Pela Luz, ela estava certa. Mas diferente da forma como sua irmã lhe jogara a fraqueza em sua face, Doroteya lhe dissera de uma forma meiga, acalentadora, de uma forma que ele não se sentira nem diminuído, nem menosprezado. Ele se sentiu mais envergonhado ainda da forma que falara.

Se ela percebeu sua vergonha, nada falou. Puxou uma cadeira até perto da cama e apontou:

— Sente-se, por favor. Vou começar por seu cabelo.

Então ela não ir apenas fazer a sua barba, cortaria seu cabelo também. Tommy não lembrava a última vez que alguém lhe cortara o cabelo; nos últimos tempos ele mesmo o fazia quando o comprimento atrapalhava sua visão. Porém, sentou-se obedientemente e deixou Doroteya passar um avental comprido em torno de seu pescoço. Ele não entendeu o cuidado; já estava tão sujo que um pouco de cabelo na roupa não faria diferença. Só que dessa vez ele controlou sua língua e nada disse.

Depois de prepará-lo, Doroteya pegou a tesoura e começou a cortar. Primeiro, tirou o comprimento, passando os dedos no cabelo dele para identificar os maiores nós. Tommy estremeceu um pouco diante daquele contato, afinal fazia pelo menos dois anos que ninguém o tocava. Exceto pela surra que sua irmã lhe dera mais cedo naquele dia, é claro.

— Há quanto tempo você trabalha para minha irmã? – perguntou Tommy de repente, ele mesmo surpreso com sua curiosidade.

— Três dias.

Tommy virou a cabeça na direção dela tão rápido que, por pouco, não teve a orelha cortada.

— Cuidado. – advertiu ela preocupada.

Mas ele a ignorou.

— Três dias?! – exclamou surpreso – Três dias e vocês duas parecem… – ele procurou palavras – Sei lá, melhores amigas de infância?

Doroteya deu aquele sorriso tenro e meigo que parecia tanto com a mãe deles, e então ele entendeu.

— Ah, acho que foi a Luz que guiou nosso encontro. – disse com simplicidade – Se não fosse por ela, eu estaria dormindo numa árvore e não teria nenhuma utilidade por aqui. – e diante do olhar questionador que ele lhe dirigiu, apenas deu de ombros – Longa história.

— Tudo bem. – e se endireitou novamente – Se eu sobreviver a minha irmã pelas próximas semanas, talvez eu queira ouvir. Só por curiosidade.

— Claro. – concordou dando um sorriso.

— E Arshe Fordragon? – quis saber.

— A Arshe é mais recente que eu. Ela pediu para trabalhar com a Lina hoje à tarde.

Tommy balançou a cabeça, intrigado com as coisas que estavam acontecendo com sua irmã.

— Parece que minha irmãzinha andou tendo dias cheios…

Imediatamente Doroteya lembrou do rei Varian.

— Você não imagina o quanto… – e antes que ele perguntasse mais alguma coisa, perguntou – Vamos continuar? E não se mexa mais, certo?

A tesoura continuou a trabalhar e quando a druidesa achou que já tinha tirado a maior parte dos nós, ela passou um pente pelo cabelo dele e viu que bastava apenas ajeitá-lo.

— Como quer o cabelo? – perguntou – Bem curto ou mais cheio?

Ele deu de ombros.

— Não importa.

Doroteya assentiu e voltou a trabalhar. Minutos depois, ela se afastou, satisfeita.

— Acabei deixando igual ao de Theo. – disse dando uma pequena risada – Deve ser o costume.

Era segunda vez que ouvia esse nome. Quem seria esse cara? Tommy teve vontade de perguntar, mas achou que seria inconveniente demais.

— Vamos para a barba. – anunciou Doroteya.

Enquanto ela cortava o excesso de barba com a tesoura, Tommy pode analisar melhor o rosto dela. Tinha olhos cor de mel tão límpidos como ele nunca tinha visto antes. O rosto era redondo, com belas bochechas e uma boca que parecia ter sido esculpida. Jamais, em tempo algum, se ele cruzasse com aquela jovem na rua, diria que ela poderia se transformar em uma fera selvagem metamórfica que poderia dilacerar sua garganta em poucos segundos. Assim que ela terminou com a tesoura, fez uma nova pergunta:

— E há quanto tempo você.... – ele então percebeu que não saberia como perguntar sobre a transformação dela sem ser rude – Você é...

— Worgenin? – completou ela calmamente.

— É.

— Alguns meses. Mas já me acostumei. – e sorrindo, pegou o pincel de barbear e uma das tigelinhas – Fica mais fácil quando você se aceita como é.

Tommy assentiu com a cabeça, não porque concordava, mas porque pareceu ser o certo a fazer. Doroteya passou o produto em seu rosto que logo começou a espumar. Tinha um cheiro delicioso. Com agilidade, ela tirou a barba e o bigode dele rapidamente, sem cortá-lo e com uma precisão que daria inveja ao melhor barbeiro de Ventobravo. Depois, ela passou uma loção em seu rosto, deu um passo para trás e exclamou.

— Uau! Você realmente parece com a Lina! – e colocando a navalha de lado, continuou – Imagino que quando você recuperar o peso, vai parecer mais ainda!

— Sempre nos disseram isso. – falou Tommy passando a mão no rosto. Como era estranho não ter barba! Mas tinha que admitir, a sensação era ótima. – Você é boa nisso. – comentou apontando para a navalha – Imagino que faz bastante a barba desse Theo.

Tommy não entendeu porque soou meio acusatório seu comentário. Talvez porque já tivesse ouvido sobre essa pessoa e nem sabia quem era. Achou que Doroteya fosse franzir a testa ou fazer um comentário sobre como ele não tinha nada a ver com isso, mas para sua surpresa, ela caiu na gargalhada.

— B-Barba? T-Theo? – ela estava se acabando de rir, tanto que gaguejava – E-Ele só tem sete anos! – e riu mais.

Tommy sentiu o rosto corar drasticamente sem motivo nenhum.

— Sete anos? Então ele…

A druidesa fez que sim com a cabeça.

— É meu filho. A criatura mais linda e fofa do mundo. – disse com o tom sonhador e os olhos brilhando.

Os sentimentos de Tommy mudaram de vergonha para inveja rapidamente.

— Acho que você já pode ir para o banho agora. – anunciou Doroteya recolhendo as coisas e colocando novamente na bandeja – Fey preparou um banho quente para você no banheiro social. Vou providenciar alguma coisa para você comer enquanto isso. – ela lhe deu um imenso sorriso – Não se preocupe Tommy, você vai melhorar.

— Você diz isso porque sua família está viva.

As palavras saíram sem que ele pudesse controlá-las. Seu tom era acusatório, áspero, cruel e tinha intenção de ferir. Contudo, Doroteya apenas meneou a cabeça, como se faz quando uma criança diz uma bobagem.

— Não toda a família. Meu filho sim. Meu marido, não. – e o encarando com a bandeja na mão, falou – Talvez minha dor não seja tão profunda quanto a sua, já que meu Theo está vivo, mas sei como é perder alguém que se ama. – e ficando um pouco séria, completou – Você não é a única pessoa no mundo a sofrer, Tommy. E a sua dor não lhe dá o direito de magoar ninguém.

Então ela lhe deu as costas e saiu, o deixando mais envergonhado e entristecido como há muito não estivera.

************************

Kassyeh estava se perguntando porque nenhuma de suas irmãs haviam chegado ainda, quando Ash entrou na cozinha com uma cesta na mão.

— Que bom! – disse a maga antes da irmã dizer qualquer coisa – Já estava preocupada. – e olhando para trás dela, perguntou – Cadê a Lux?

Ash sondou a cozinha. Lor’themar não estava lá, nem Karen ou Saba. Também não havia nenhum sinal de Tewdric ou Huaru. Ainda assim, três servas estavam lá e reparavam discretamente na conversa das duas.

— Na verdade, aconteceu um problema. – disse tentando parecer menos preocupada do que realmente estava – Lembra do nosso vizinho? O que tem um javali de estimação?

— Ah não! – exclamou Kassyeh largando os temperos na bancada – Ele comeu minhas flores de novo?!

Ash fez que sim com a cabeça.

— E só não entrou na horta por que a Lux chegou na hora. Agora, ela está lá brigando e ameaçando matar o cara porque você gosta das flores. – e apontando para a saída disse – Melhor você ir lá antes que ela faça bobagem.

— Tem razão. – concordou a elfa antes de se virar para as servas enquanto tirava o avental – Terminem o jantar. Coloquem dois maços desse tempero no caldo. E nada de pimenta, ok?

A maga fez mais algumas observações e logo saiu com Ash. Ao passarem na sala, Huaru, que já terminara a carta para sua mãe, as fitou, preocupado.

— O que houve? – quis saber.

— Lux está tentando matar um vizinho. – disse Kassyeh como se fosse uma coisa totalmente corriqueira – Vou lá arrancar ela da briga e na volta jantamos.

— Posso ir com vocês? – perguntou ele se levantando.

— Não! – disse Ash mais rápido do que deveria. Kassyeh e Huaru a olharam, confusos – Se você for, aquele chato vai achar que é uma ameaça ou algo assim. Não é Kass?

A jovem caçadora, com o coração aos pulos, desejou que sua irmã concordasse. Mas lógico, havia a possibilidade dela desmentir o que dissera.

— É verdade. – disse Kassyeh para o alívio de Ash – Vou resolver isso logo e voltamos já. – e olhando para os lados, pediu – Pode achar a Karen e a Saba para mim? Elas saíram correndo atrás de Lor’themar e não sei onde foram parar.

O tauren olhou para Kass e depois para Ash e então assentiu.

— Não demorem. – disse ele antes de sair em busca das meninas.

E logo elas estavam a caminho da casa. Ash detestava mentir para a irmã, mas precisava levar ela até Luxuriah sem que ninguém desconfiasse do verdadeiro motivo. Quando soube do que estava acontecendo, entendeu que ela nada poderia fazer por sua irmã. A questão envolvia três coisas: sentimentos, relacionamentos e um entendimento da mente masculina. Ash estava enrolada na primeira delas, nunca tivera a segunda e definitivamente desconhecia a terceira. Logo, Kassyeh era a única que poderia ajudar.

— Você mente muito mal. – comentou a maga casualmente quando já estavam longe da Torre Solfúria.

O rosto de Ash ficou escarlate e ela engasgou na tentativa de proferir uma resposta. Kassyeh apenas riu.

— Não diga nada. Vamos esperar estar em casa, aí você me conta o motivo da mentira.

Tão logo elas chegaram e amarraram as montarias, entraram na casa. Ash só esperou a porta se fechar para falar:

— A Lux tá grávida.

Kassyeh a olhou por um momento, como se não tivesse entendido muito bem a notícia. Depois de alguns instantes, ela arregalou os olhos e seu queixo caiu. Mas a reação só durou um momento. Logo depois, a elfa abriu um sorriso e deu um gritinho animado. Abraçou a irmã mais nova e se pôs a rodar abraçada dela.

— A Lux tá grávida! A Lux tá grávida! – dizia sem conseguir conter a alegria.

No primeiro momento Ash não entendeu a alegria, até que percebeu que, como Kayliel, Kassyeh pensava que o bebê era de Huaru. Ela não fazia ideia do que Lux passava no momento.

— Kassyeh! Kassyeh! – Ash se soltou da irmã bruscamente e a afastou um pouco, segurando-a pelos ombros – A Lux tá grávida e não é do Huaru!

Foi quando a maga entendeu a gravidade da situação. O sorriso morreu aos poucos em seu rosto, e uma expressão preocupada surgiu.

— Como assim? — a elfa não conseguia cogitar a possibilidade de sua irmã ter traído Huaru. — Você está me dizendo que a Lux...

— Não, não! — Ash também jamais cogitaria essa possibilidade — Ela tá grávida de três meses.

Kassyeh pensou por um momento.

— Então ela já estava grávida quando conheceu Huaru. – e colocando a mão no rosto, exclamou – Pela Nascente do Sol, não me diga que é daquele elfo, o Grey?!

Ash assentiu com a cabeça, tristemente.

— A Lux tá muito mal. – explicou – Pediu pro Kayliel examiná-la e depois surtou. Quando cheguei ela estava chorando muito. – a jovem suspirou – Eu consegui acalmá-la um pouco, mas não sei o que dizer. Eu mal conheço o Huaru e.... Sei lá... – Ash passou as mãos nervosamente no cabelo – Não sei o que dizer! Não sei nem o que pensar!

Para a surpresa de Ash, após ouvir seu relato, Kassyeh parecia mais tranquila e meneou a cabeça.

— Não acredito que isso será um problema. – disse por fim. – Cadê a Lux?

— No quarto dela. — a mais jovem não entendeu o motivo de sua irmã parecer tão calma no momento.

Kassyeh então se pôs a caminho da escada e Ash logo a seguiu. A maga estava tranquila e serena. Nem parecia que Ash tinha jogado uma bomba em seu colo. Sem conseguir conter a estranheza, quis saber:

— Por que você não acredita que será um problema?

— Porque eu acredito no amor que Huaru sente. – respondeu singelamente Kassyeh, sem ao menos se virar para trás.

— Lux acredita que ele vai deixá-la. – avisou a outra.

Kassyeh meneou negativamente com a cabeça.

— Não vai. – respondeu convicta.

— Como pode ter tanta certeza? – questionou Ash incrédula.

Kassyeh parou por um momento e encarou a irmã. Quando falou, disse o que acreditava do fundo do coração:

— Eu confio no amor dele por ela.

E se virou voltando a percorrer seu caminho.

Ash suspirou. Queria estar tão confiante quanto a irmã. Mas, apenas deu de ombros e voltou a seguir Kassyeh.

Kayliel estava encostado na parede, ao lado da porta do quarto de Luxuriah. Absorto em seus próprios pensamentos, ele só levantou a cabeça quando as irmãs já estavam em sua frente. Ash continuava com a expressão angustiada, mas Kassyeh parecia tranquila.

— Podem esperar aqui fora? – pediu a maga antes de abrir a porta do quarto.

Ambos fizeram que sim com a cabeça.

— Só preciso chamar Bolota. – falou Ash.

Kassyeh então abriu a porta. Com um assobio baixo, Ash chamou seu lobo, que prontamente atendeu. Depois, a maga entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O choro de Luxuriah parecia ter cessado um pouco e em seu rosto se refletiam apenas as marcas das lágrimas e um olhar vazio. Então, Kassyeh tirou os sapatos, e deitou-se na cama. Passou delicadamente as mãos no rosto da irmã, limpando o rasto de lágrimas deixado e a abraçou.

— Você não devia estar chorando. — disse sem conseguir conter a alegria nas palavras -Vamos ter um bebê na família!

Luxuriah a afastou um pouco e a encarou, sem esconder a confusão.

— Um bebê, Lux! Um bebê! — e sorrindo, continuou – Nesse mundo conturbado e cheio de coisas ruins, algo bom aconteceu novamente com nossa família! Papai e mamãe ficariam eufóricos, não? Um neto! Mais um Fendessol a caminho!

A menção ao nome dos pais fez com que Luxuriah voltasse a chorar. Só que um choro mais contido, e nada tinha a ver com Huaru. Lembrou-se dos pais, e chorou. Dhomm e Samanthah nunca conheceriam seus netos.

— Oh, Lux... – Kassyeh a abraçou novamente – Não chore. Eles devem estar muito felizes, onde quer que eles estejam! E imagine só! Um bebê novamente em casa! Seria tão lindo se fosse um menino, não? Um elfinho para mimarmos! – e dando uma pausa, franziu a testa – Pela Nascente do Sol, espero que não herde a energia de Karen!

Mesmo contra a vontade, Luxuriah deu uma pequena risada. Queria contar a Kassyeh como se sentia mal, que não merecia aquela criança, que jamais se imaginara naquela situação. Queria que ela soubesse que seu útero destroçado jamais deveria gerar. Mas jamais conseguiria contar aquilo para Kassyeh. Então, se limitou a murmurar em meio as lágrimas.

— D-Desculpe...

— Ué, por que? – quis saber a maga, surpresa.

— Esse bebê deveria estar em sua barriga, e não na minha… — Lux soava culpada, como se tivesse cometido um enorme crime contra sua irmã por ter engravidado no lugar dela. Porém, Kassyeh apenas meneou com a cabeça.

— Bobagem! – disse resoluta – Você tem tanto direito quanto eu de ser mãe.

Não, pensou Luxuriah, não tinha. Jamais tivera depois do que acontecera há quase uma década, mas não poderia explicar isso a sua irmã.

— Kass... – murmurou, mas foi interrompida.

— Lux, ouça bem – as irmãs se encararam antes da maga continuar – A Nascente do Sol decidiu por essa pequena luz em seu ventre e não no meu. Decidiu revelá-la no dia em que a vimos, e isso é um presságio maravilho! — o rosto da maga se iluminou ainda mais — A vinda dessa criança terá um grande propósito, e se você foi escolhida para ser a mãe, é porque merece e fará o melhor possível para que ele ou ela cumpra seu destino!

A caçadora tinha que admitir, não pensara por esse prisma. Porém, agora que Kassyeh falara, percebeu que tudo aconteceu numa conjunção tão espantosa que era difícil acreditar. Ela jamais deveria engravidar e engravidara. Sua ascendência fora revelada e agora era uma princesa. Descobrira a gravidez no dia em que a Nascente do Sol a presenteara. Era como se pequenas engrenagens de algo muito maior estivesse se juntando. Luxuriah sabia que, em outra ocasião ficaria em choque, é claro, mas a felicidade logo chegaria. Só que havia algo mais, aquele detalhe esquecido por Kassyeh e que atormentava Luxuriah naquele momento.

— Huaru vai me deixar… – murmurou sentindo as lágrimas voltarem aos seus olhos.

Kassyeh negou enfaticamente com a cabeça.

— Não, não vai.

Surpresa com o tom convicto da irmã, Luxuriah continuou, dessa vez com a voz um pouco mais agressiva:

— É claro que vai, Kass! – as lágrimas corriam novamente pelo seu rosto desfigurado pela dor – O bebê é de outro! De alguém que ele detesta! Huaru é jovem, tem a vida pela frente! Um futuro brilhante! Por que ele perderia tempo comigo agora que terei nos braços uma criança que não é dele?!

“E eu nem sei se serei capaz de lhe dar um filho com seu sangue!” pensou angustiada. Sim, pois mesmo que tivesse ficado grávida agora, seu corpo aguentaria um segundo filho com o tempo? Duvidava muito. Aquele bebê existir já era um milagre. Luxuriah não poderia esperar que outro como aquele acontecesse. Só que era algo que não podia discutir com Kassyeh.

— Lux... – recomeçou Kassyeh calmamente – Você está grávida de outro sim, mas você não o traiu. Você já estava grávida antes.

— Do Grey! – exclamou chorosa.

— Sim, daquele imbecil. – Kassyeh franziu a testa – Você poderia ter escolhido melhor, mas isso não vem ao caso. Admito que ele pode ficar em choque por um momento. Vai ser uma notícia e tanto, mas ele te ama. Isso é algo que qualquer um pode ver. E vai ser por todo esse amor que ele sente que ele aceitará.

A convicção com que sua irmã lhe falou fez com que Luxuriah parasse de chorar momentaneamente. Era impressionante, mas Kassyeh parecia acreditar no amor de Huaru por Luxuriah mais que a própria Luxuriah. Talvez fosse por ser uma romântica inveterada. Mas, apesar disso, Kassyeh era boa para reconhecer outros iguais a ela. Outros que amassem incondicionalmente. E quantas vezes não comparara Huaru a própria Kassyeh? O coração de Luxuriah começou a se acalmar.

— V-você acha que… — a esperança começava a se infiltrar nela, mesmo contra a vontade — Que ele vai aceitar?

— Mas é claro! – respondeu resoluta – Tenho certeza que sim!

Luxuriah respirou fundo. Ainda havia uma semente de dúvida sem eu coração.

— Kassyeh... Eu o amo...

A maga sorriu.

— Eu sei.

— Amo como nunca amei ninguém. – a caçadora segurou firme a mão da irmã – Eu abri meu coração para ele, como nunca fiz com ninguém… — os lábios dela tremeram – Se ele me deixar, eu…

— Ele não vai te deixar! – Kassyeh levou as mãos ao rosto da irmã e o segurou – Não vai, entendeu? Ele te ama! Confie no amor dele!

E então ela acreditou.

Acreditou nas palavras ditas com tanta convicção pela irmã.

Acreditou em tudo que tinha vivido com ele até então.

E, pela primeira vez naquele dia, sorriu de coração.

— Isso, muito bem! — exclamou Kassyeh satisfeita — Quero ver esse sorriso sempre agora!

Luxuriah colocou as mãos por cima das da irmã.

— O que eu faço agora?

Kassyeh pensou um pouco.

— Lave o rosto. A vermelhidão vai passar antes de chegarmos a torre. Você vai jantar normalmente e depois chama ele para o quarto. Dê a notícia. Não é bom esperar muito tempo.

— E ele não vai me deixar. – falou Luxuriah como se quisesse que as palavras se fixassem ainda mais em sua mente.

— Ele não vai te deixar. – garantiu Kassyeh.

Elas se encararam em silêncio até que a maga não conseguiu se conter e soltou uma sonora gargalhada, acompanhada de um gritinho animado:

— Vamos ter um bebê!

— Vamos te rum bebê! — repetiu Luxuriah alargando mais o sorriso.

E se abraçaram chorando. Mas dessa vez, eram lágrimas de felicidade.

******************************************

Quando Tommy pôs o pijama que pertencia a Mel, percebeu o quanto estava realmente magro. Puxou o cordão que ajustava a cintura da calça, e viu que nunca tinha ficado um comprimento tão grande. Na verdade, o simples fato de uma roupa de Mel servir para ele, já era uma surpresa. Seu irmão era magro e nunca tivera tantos músculos quanto ele. E mesmo assim, teve que dar diversos nós para que o cordão não ficasse balançando e ele parece um idiota.

Se bem que estar vestido um pijama rosa de coraçõezinhos já fazia ele se sentir assim.

Ao voltar para o quarto, ainda enxugando o cabelo com a toalha, viu sua irmã sentada na mesa do quarto, e em frente a ela, um prato fumegante com uma colher dentro. Seu coração afundou-se na mesma hora. Teria deixado Doroteya tão ofendida que a worgenin se recusara a levar a comida até o quarto?

— Você parece gente agora. – observou Lina – Antes, parecia um bicho selvagem.

— Falou alguém que tem uma worgenin de companhia.

— Para você ter uma ideia de como você estava mal, meu irmão. – retrucou suavemente abrindo um sorrido – Agora venha, coma.

Tommy sentou-se, a contragosto, em frente da irmã. Lina o analisou. Ele estava bem mais magro do que pensava. Seu rosto estava encovado e pálido como uma caveira e haviam profundas olheiras sob seus olhos. Tommy era a personificação do sofrimento.

— O que é isso? – perguntou ele pegando a colher.

— Um caldo de carne. — respondeu – Doro queria fazer um mingau, mas achou que você precisava de um tempo antes de ingerir leite. Ela tem medo que seja gorduroso demais. – e dando uma boa olhada no caldo, comentou – Ela fez uma excelente sopa enquanto você tomava banho e separou esse caldo para você. Tome logo.

Mexendo devagar o caldo no prato, Tommy perguntou:

— Qual a razão da própria cozinheira não ter trazido o prato? Pensei que ela seria minha babá a partir de agora…

— Ela está preparando nossos lanches para a missão de amanhã, além de deixar um cardápio com o que você deve ou não comer, para que Fey e Mel não te intoxiquem. — explicou Lina.

— Ah, então é isso. – disse Tommy tentando parecer despreocupado.

Como sua irmã franziu a sobrancelha e se inclinou para frente, ele percebeu que devia estar enferrujado na arte de disfarçar. Merda.

— O que foi? – perguntou desconfiada – O que você andou dizendo para Doroteya, Tomilho?

Uma tradição da família Wood: apenas chame seus irmãos pelo ridículo nome deles se estiver com raiva. Muita raiva.

— Nada. – respondeu talvez rápido demais.

— Fale logo, antes que eu te arranque a língua. – ameaçou.

Tommy rolou os olhos para cima.

— Que saudades do tempo que era eu quem lhe dizia isso…

Como Lina não disse nada, achou melhor contar logo. Talvez assim sua irmã tirasse a incumbência de babá da worgenin.

— Acredito que fui um pouco rude com ela. — ele fez uma pausa – Talvez não exatamente só um pouco… — e esperou o ataque.

Porém, o rosto de Lina desanuviou.

— Ah, só isso? – ela deu de ombros – Doro é especialista em lidar com pessoas que são rudes com ela.

Sem entender bem porque, aquela informação incomodou um pouco Tommy.

— Como alguém consegue ser rude com ela? – estranhou.

— Me responda você.

Ponto para Lina.

— Eu estou magoado e com raiva. — justificou — Não é nada pessoal. Eu odeio todo mundo. Inclusive você.

A comandante deu de ombros.

— Grande coisa… — e suspirando, continuou – Sua rudeza não é nada para ela. Doroteya está acostumada a lidar pessoas que a odeiam por motivos bem pessoais e também impessoais. Vai saber lidar com sua raiva tranquilamente. Isso é, quando voltarmos de nossa missão.

Tommy abriu a boca para perguntar sobre a missão, mas logo fechou. Tinha um trato com sua irmã e não poderia se envolver até estar bem. Por isso, tomou o caldo metodicamente, sob o olhar severo de Lina. Para sua surpresa, gostou imensamente do sabor do caldo e imaginou o que de tão bom Doroteya havia posto ali dentro. Imaginou também que o prato, com certeza, era bem mais saboroso com carne, legumes e macarrão dentro dele. E se tudo que a worgenin preparasse fosse naquele nível, não seria tão torturante ganhar peso. Se bem que, ele aproveitaria melhor a refeição se não fossem os olhares vigilantes de sua irmã sobre ele. Isso o irritava muito.

— Papai e mamãe ficariam orgulhosos de você se soubesse. – disse Tommy de repente.

— Orgulhosos de que? – perguntou Lina estranhando a frase solta.

— A mamãe por você estar andando com uma princesa mimada e papai porque você tem uma worgenin de estimação.

A mão de Lina bateu tão forte na mesa que virou o prato. Para a sorte de Tommy, o prato já estava completamente vazio e não tomou um banho de caldo quente.

— Não fale assim delas, Tommy. – avisou com os olhos em chamas e apontando ameaçadoramente o dedo para ele – Nunca mais.

Apesar de conhecer muito bem sua irmã caçula e estar acostumado com seu gênio difícil, aquela reação o surpreendeu. Até hoje, foram raras as pessoas que mereceram aquela defesa vinda de Lina. Tommy sabia, porque ele fora um dos contemplados com aquela consideração, há muito tempo, antes de seu mundo virar do avesso.

— Desculpe. – acabou dizendo – Desculpe mesmo.

Lina tamborilou os dedos pela mesa antes de desvirar o prato.

— Pode descontar sua raiva em mim, irmãozinho. Até no Fey e no Mel se você quiser. Mas não envolva Arshe e muito menos Doroteya nisso tudo, ok?

— Ok.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, até Lina se levantar e dizer:

— Agora que você está limpo e alimentado, é hora de dormir. Você vai ficar aqui no meu quarto. Vou dormir no quarto de hóspedes com Doroteya. Sairei cedo e não quero atrapalhar seu sono. Descanse.

E depois de tudo que acontecera naquele dia, aquelas palavras ditas tão despretensiosamente, que revelava tudo o que Lina sentira por ele, fez com que o coração de Tommy se apertasse e que, de repente, ele começasse a chorar. Ainda não tinha reparado no quanto a solidão o machucava. E agora, naquela casa confortável, com a irmã que mais amava no mundo preocupada com ele apesar de não merecer e com pessoas que desconhecia ajudando-o, seu escudo simplesmente desmoronou. Estava cansado. Cansado de tudo. Por um momento quis desistir e apenas sumir. Mas isso não seria justo consigo. Nem com sua família morta. E foi em meio daquelas inesperadas lágrimas que sentiu os braços de Lina em volta de seu corpo. Sua irmã o abraçava. Ele pousou a cabeça no ombro dela e deixou que a tristeza esvai-se lentamente, até que as lágrimas secassem e sua respiração voltasse ao normal. Sem dizer uma palavra, eles se separaram e Lina o beijou na testa.

— Sonhe com os anjos, Tommy. — disse sorrindo docemente. Um tipo de sorriso que apenas ele e seu pai conheciam.

— Cuidado na missão amanhã. — pediu Tommy.

— Pode deixar. — e pegando o prato em cima da mesa, se dirigiu até a porta – Não vejo a hora de ver o velho engenheiro-chefe Wood em ação. — e piscando o olho, saiu.

E, para a sua surpresa, Tommy sentiu o mesmo.

***************************************

Ash e Kayliel estavam na cozinha, cada um com uma xícara de chá na mão, em silêncio quando Kassyeh apareceu com Luxuriah na cozinha. Os dois se levantaram tão rápido que Bolota rosnou para o elfo antes de se levantar também.

Luxuriah estava calma e parecia cansada. Olhou para o amigo e para a irmã, antes de falar com a voz ainda um pouco rouca:

— Sinto muito que vocês tenham se preocupado tanto com esse meu surto. — disse – E vou pedir que, por enquanto, vocês não digam nada a ninguém sobre minha gravidez.

Ash assentiu e Kayliel também. Então, a caçadora mais jovem se adiantou e abraçou a irmã.

— Estou feliz que você esteja melhor!

Luxuriah a abraçou de volta.

— Obrigada Ash. — murmurou.

— Eu não fiz nada. — protestou a outra.

— Claro que fez. Você conseguiu manter a cabeça no lugar quando eu surtei. — e se separando, segurou a irmã pelos ombros – Estou orgulhosa de você. — e olhando para Kayliel, falou – E muito obrigada Kayliel. Eu não confiaria mais em ninguém para me examinar.

Luxuriah não sabia, é claro, mas sua gravidez naquele momento mudara não apenas sua vida e a da sua família, mas também a do sacerdote amigo. Afinal, ela não sabia o motivo que levara Kayliel a sair de casa e ir em direção a Torre. Nem saberia que, naquele momento, o sacerdote entendeu que não poderia seguir com seus planos. Luxuriah confiara nele. Deixara que ele a examinasse e lhe confiara um segredo. O elfo já se sentia ligado a criança que nasceria e que já trazia uma marca tão profunda em sua existência. Não apenas por ser filha de alguém que acreditava-se que jamais conceberia novamente, mas também por ter sido revelada no dia em que a Nascente do Sol reconhecera as quatro irmãs como sucessora dos Andassol. Não, Kayliel não poderia sair da guilda agora.

“Depois que a criança nascer.”, prometeu a si mesmo.

Será que Arshe esperaria?

Em meio a esses pensamentos, o sacerdote fez uma reverência.

— Espero poder cuidar de vocês durante esse período. — disse – A gravidez pode ter começado bem, mas é melhor nos mantermos atentos.

Luxuriah deu um tímido sorrido.

— Sei que você cuidará bem de nós. — e suspirando, falou – Precisamos ir. Preciso contar a Huaru.

Ash e Kayliel se entreolharam preocupados, mas Kassyeh logo tratou de corrigí-los.

— Não façam essa cara, vocês querem assustá-la? Dará tudo certo! E Kayliel, você janta conosco! Vamos, vamos! — e se dirigiu animadamente a porta.

Em pouco tempo todos se dirigiam a Torre Solfúria. Mesmo que não tivesse recebido o convite da maga, Kayliel iria até lá com elas. Ele não compartilhava da certeza inabalável de Kassyeh, e pelo visto Ash também não. E se acontecesse qualquer coisa, era melhor ele estar lá para socorrer Luxuriah.

E ajudar a matar o tauren paladino, se fosse o caso.

Kassyeh havia aconselhado Luxuriah a esperar o jantar para então contar tudo a Huaru. Esse era o plano que a caçadora estava disposta a seguir quando chegou a Torre Solfúria. Porém, mudou quase que imediatamente ao ver Huaru sorrindo e indo em sua direção.

— Vocês demoraram. — disse o paladino assim que ela entrou na sala, e a abraçou com força – Estava ficando preocupado!

A garganta de Luxuriah praticamente fechou e as lágrimas ameaçaram voltar quando eles se encararam. Não, ela não conseguiria esperar para contar.

— O que foi, bebê? — quis saber com o sorriso morrendo no rosto. Ele percebera que havia algo errado.

— Precisamos conversar. — disse tentando conter a emoção na voz – Agora.

— Certo. — concordou assumindo o mesmo ar tenso que ela exibia – Vamos para o quarto?

Luxuriah fez que sim com a cabeça.

Já estavam saindo quando Kassyeh puxou a irmã delicadamente para longe do paladino. Huaru as olhou, sem entender, enquanto elas murmuravam entre si:

— Pensei que você ia falar só depois da janta. — criticou a maga.

— Eu não vou aguentar, Kass. — justificou Lux. E diante do olhar severo da irmã, acrescentou – E é até melhor assim. Depois da conversa, podemos anunciar a gravidez no jantar.

Kassyeh arrefeceu depois desse argumento.

— Tudo bem. Não demorem. — e deixou a irmã ir.

Enquanto subiam as escadas, Huaru comentou, em tom brincalhão, tentando amenizar a tensão que se instalara nos dois:

— Estou ficando curioso. E também um pouquinho preocupado. — e sorriu.

Luxuriah não respondeu. Tinha a sensação que vomitaria se abrisse a boca.

Quando eles chegaram no quarto, Luxuriah fechou lentamente a porta. Havia uma tensão no ar que Huaru não entendia e que a elfa não parecia disposta a explicar.

— E então? — perguntou o tauren.

Em vez de começar a falar, Luxuriah deu um passo à frente e o abraçou fortemente. Enterrou a cabeça no peito dele e passou a relembrar todos os momentos em que estiveram juntos. O casamento de Kassyeh. A visita à aldeia Narache. A cachoeira. O Penhasco do Trovão. A casa de campo. A mansão de sua vó. Todas as lembranças dançavam nostalgicamente em sua cabeça como borboletas celebrando a primavera.

— Quero, antes de tudo, que você saiba o quanto eu te amo. — falou ela ainda com o rosto apoiado no peito dele – Ninguém nunca fez eu me sentir tão bem e tão viva quanto você.

— Bebê, você está me assustando.

— Quem está assustada sou eu. — murmurou antes de se soltar do abraço.

Diante do olhar indagador do tauren, Luxuriah se afastou alguns passos e o encarou. Apertava nervosamente as mãos uma na outra, como que procurando forças para falar. Fechou os olhos por um momento e lembrou do que Kassyeh lhe dissera. Era dali que devia extrair forças para continuar.

— Quando aquilo aconteceu comigo, há quase dez anos — começou – eu tinha certeza que jamais poderia ter filhos novamente. A sacerdotisa me disse isso. E mesmo que não tivesse dito, eu acreditava que era um preço justo para me salvar do que acontecera.

Sem entender porque a elfa estava relembrando algo que há muito acontecera e do qual ele tinha pleno conhecimento, Huaru apenas continuou a fitá-la, sentindo uma crescente apreensão tomar conta de seu peito.

— Lorena, a sacerdotisa que me atendeu – continuou – tentou me animar. Disse que eu era jovem, que poderia em recuperar. Quem, se a Nascente do Sol assim desejasse, eu poderia curar minhas feridas e gerar um filho. Eu nunca acreditei nisso. Até hoje.

Huaru arregalou os olhos. Seria o que ele estava pensando?

— Eu estou grávida, Huaru. — revelou finalmente – Três meses. — acrescentou, pois não queria que ele alimentasse falsas esperanças e depois sofresse.

A surpreendente notícia o deixou sem fala no primeiro momento. A ideia de Luxuriah grávida era tão fabulosa que o tauren não conseguiu processar inicialmente a outra informação. Por isso, ele iniciou um sorriso antes de se dar conta do que ela realmente tinha falado. O sorriso morreu antes de ser completado e deu lugar a uma expressão que a elfa não conseguiu identificar.

— Você está grávida. — ele falou sem emoção na voz. — De três meses.

— Isso. — respondeu num fio de voz. A esperança dada por Kassyeh começava a se esvair a medida em que ele demorava a ter uma reação positiva.

— Então, essa criança…

— É do Grey. — ela terminou a frase.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Para Luxuriah, foi como se durasse toda uma eternidade. Eles se encararam e nenhum parecia ousar falar nada. E todas aquelas lembranças boas que dançavam como borboletas na mente de Luxuriah, começaram a se desfazer, como se fossem feitas de pó.

— Não vou te pedir nada. — murmurou ela finalmente com o coração apertado – Não vou querer que você assuma uma responsabilidade que não é sua. Eu só quero… — “quero que você me abrace e fique comigo!”, pensou desesperada, mas não teve coragem de falar aquilo. O que saiu de sua boca foi outra coisa – Que você decida….

Huaru olhou fixamente para ela e depois encarou o chão. Luxuriah desejou do fundo do coração poder saber o que se passava na mente dele naquele momento. Depois de alguns instantes, ele suspirou e a encarou novamente.

— Isso não é justo. — disse por fim.

Toda a confiança que Kassyeh construirá em seu coração se estilhaçar como um espelho atingido por uma marreta. Luxuriah sentiu-se despedaçar totalmente, partindo-se junto com todas as esperanças construídas. Pensou em perguntar o que não era justo, mas ela sabia. Não era justo que ele tivesse que passar por aquilo. Que tivesse que assumir a responsabilidade de outro. Que não era mais apenas eles dois. A sombra de Grey recaiu irremediavelmente sobre ela, e ele não achava aquilo justo. E mesmo totalmente estilhaçada, Luxuriah conseguiu falar com uma voz calma, mas que parecia vir de um túnel a milhões de quilômetros de distância.

— Se você não acha justo, deveria simplesmente ir embora.

E apesar de ter falado aquilo, não queria que ele fosse. Queria que ele desse um passo para frente a abraçasse. Queria que ele dissesse que nada daquilo importava. Que iriam criar a criança juntos. Que seriam felizes. Que se amariam por todo o tempo em que a vida permitisse que estivessem lado a lado. Queria, como queria, que todo o amor que ele afirmava sentir por ela se manifestasse naquele instante.

Mas Huaru não fez nada daquilo. Não a abraçou. Não disse nada. Apenas suspirou, a olhou uma última vez, deu as costas e saiu do quarto, deixando-a mergulhada no mais profundo dos silêncios.

E assim que a porta bateu, Luxuriah escorregou até o chão, sem acreditar no que acabara de acontecer. Mais uma vez sozinha. Mais uma vez em pedaços. Só que sabia que, daquela vez, ela jamais conseguiria juntar-se novamente. E encolhendo-se no chão, abraçou o próprio corpo e chorou por si e pela sua criança, que de nada tinha culpa, mas que agora compartilhava o abandono e a solidão com sua mãe.