Herdeiros da Guerra
20 Capítulo XVII – Apenas um momento
Notas iniciais
Quando se olhou no espelho naquela manhã, a jovem se perguntou quando fora a última vez que vira tamanha frustração e angustia refletido em seus olhos. Nunca, era a resposta. Wood nunca estivera numa situação em que tivesse vontade de cavar um buraco, se enterrar e esquecer do mundo.
Por que, se perguntava, por que aquela medalha ridícula teve que existir?!
Na noite anterior, ao se dar conta que realmente havia transado com o rei, deu-se conta também que ele jamais deveria saber quem ela era. Nunca. Pois se ele soubesse, aquilo poderia comprometer toda a carreira militar dela, tanto o que já havia conquistado quanto o que pretendia alcançar. Afinal, não fugira de casa e viera escondida a Ventobravo se alistar no exército para que tudo se perdesse por causa de apenas um momento.
Mas, tinha que admitir: fora o melhor momento de sua vida.
Até aquele momento não tinha noção do quanto Varian Wrynn lhe afetava. Sim, sempre o achara um pedaço de mau caminho, um homem extremamente sexy, mas era só. Jamais pensara que realmente pudesse chegar a se envolver fisicamente com ele da forma como acontecera. Nem que iria gostar tanto disso.
Depois que o deixara na biblioteca, foi até um dos banheiros e se recompôs. E fora lá, enquanto reaplicava a maquiagem e ajeitava sua roupa, que decidira que o rei jamais saberia quem realmente era Lina. E se não havia a reconhecido ali, não a reconheceria em lugar nenhum. Era melhor permanecer anônima e se resguardar. Só conseguia pensar que se ele a descobrisse, perderia toda a confiança que depositara em seu trabalho durante todos aqueles anos. Não, ele não deveria saber nunca.
E assim seria, se não fosse a maldita medalha.
Como poderia não ter imaginado isso? Afinal, nunca tinha sido convidada para um baile antes, logo era óbvio que algo assim poderia acontecer. Mas estava tão animada de ter mais alguma coisa para se gabar para sua terrível irmã do Kirin Tor, que nem mesmo cogitara a possibilidade de ser homenageada. Mesmo assim, sorriu ao pensar na cara que faria sua irmã se soubesse o que acontecera entre ela e o rei.
O sorriso morreu ao pensar que essa mesma irmã adoraria ver a cara que ela fez quando viu que iria receber uma medalha das mãos do rei, depois de transar com ele, que pensava ser ela apenas uma quase desconhecida. Teve que lutar muito para não deixar só pânico transparecer em seu rosto. Por sorte, passara a vida escondendo os sentimentos de suas irmãs mais velhas, que nunca sabiam o quanto a magoavam e pode facilmente disfarçar o que sentira.
O mesmo não poderia ser dito de Varian.
Ficou óbvio o choque dele. E foi ao ver aquela expressão nele que percebeu que todo seu futuro poderia estar comprometido. Poderia jamais chegar a General de Exército da Aliança por causa daquele momento.
Seria o melhor ou pior momento de sua vida?
Ambos, talvez.
Por isso ainda estava ali, em frente ao espelho, com o cabelo solto e o rosto lavado, criando coragem para sair dali, pegar seu cavalo e ir trabalhar naquela manhã.
Afinal, poderia ser sua última manhã como comandante das forças de Ventobravo.
Jogou água fria no rosto para evitar as lágrimas. Nunca fugira de uma batalha não seria agora que começaria a fazer isso. Então respirou fundo, enxugou seu rosto e foi se vestir para encarar aquela luta.
Além das lembranças maravilhosas da noite passada, o rei Varian também deixara outra coisa para ela: havia marcar roxas nos seus seios e em sua cintura, onde as mãos dele a apertaram. Por causa disso, ela decidiu que o melhor era vestir uma armadura completa, que não deixasse nenhuma parte de seu corpo a mostra. Não era seu usual, mas naquele dia a fez se sentir bem.
Quando desceu as escadas, Doroteya já a esperava na cozinha. Não haviam trocado nenhuma palavra desde a noite anterior. Quando saíra do salão, puxara a druidesa pela mão assim que a viu e foram embora. A outra não havia questionado nada. E agora, a recebia uma bela mesa de café da manhã, do qual ela não tinha vontade de provar nada, além de uma grande e forte caneca de café.
Wood se sentiu na mesa em frente a Doroteya e encheu uma caneca de café. Tomou um grande gole e olhou para a worgenin na sua frente. Como na manhã passada, Doroteya estava em sua forma humana e a olhava um tanto apreensiva. Com certeza tinha notado alguma coisa errada.
— Talvez hoje seja o último dia que trabalhemos juntas, Doroteya. — quando falou isso Wood percebeu que soou mais desanimada do que pretendia.
Doroteya a fitou, atordoada e logo em seguida, para sua surpresa, caiu no choro. E como não esperava essa reação, Wood ficou sem saber o que fazer, apenas assistindo as lágrimas rolarem abundantemente.
— F-Foi ele n-não foi-i? — gaguejou Doroteya entre as lágrimas – O-O r-rei Grey-Greymane?
— O quê? — Wood tinha esquecido completamente do rei de Guilneas – Não! Não! Não tem nada a ver com você! Quem fez a merda fui eu! — e suspirou tomando mais café.
O choro de Doroteya foi embora tão rápido quanto veio e ela ficou olhando para a outra, totalmente confusa. Wood sabia que devia a Doroteya explicações, afinal se ela realmente fosse afastada do cargo, a worgenin dificilmente conseguiria se engajar novamente nas forças de Ventobravo, já que era tão mal vista pelo seu próprio povo. E também, admitiu para si mesma, no momento ela era a única pessoa com quem gostaria de conversar. Não sabia porque, mas algo lhe dizia que Doroteya era totalmente confiável e compreenderia sua preocupação. Olhou então rapidamente para a porta da cozinha, verificando se seus irmãos estava rondando por ali.
— Eles saíram bem cedo. — disse Doroteya entendendo seu olhar – Disseram que iriam esperar uma enxurrada de encomendas hoje.
Wood riu tristemente. Pelo menos uma coisa boa sairia dali. Tinha certeza que seus irmãos ficariam cheios de encomenda até a época do Véu de inverno.
— Muito bem. — Wood respirou fundo e encarou Doroteya – Eu transei com o rei Varian Wrynn ontem no baile.
A druidesa escancarou a boca, estupefata. Sua expressão foi tão hilariante que Wood não resistiu e caiu na risada.
— Você deveria ver sua cara agora Doroteya! — disse bebendo o resto do café de sua caneca.
— Como? Quando? Quem? — perguntou a outra parecendo desnorteada.
Wood riu ainda mais.
— Deixe-me lhe contar.
E contou. Disse tudo, desde que entrou no baile até o momento da medalha. Por algum motivo, não se intimidou de contar até mesmo os detalhes do que acontecera. Quando deu por si, ela e Doroteya pareciam duas adolescentes risonhas, compartilhando segredos obscenos, com a druidesa a enchendo de perguntas. Por um momento, suas preocupações sumiram e ela apenas queria contar tudo, curtir a lembrança e ver o brilho de interesse e às vezes de vergonha, no rosto da sua amiga. Desejou então que nada de ruim acontecesse. Gostaria de continuar convivendo com Doroteya. Sentia-se mais próxima dela do que jamais se sentira com qualquer uma de suas irmãs.
— Então, ele sabe quem sou. — o relato terminou bem quando estava finalizando a terceira caneca de café. Acabara que ela também comera um pouco de pão e queijo. — Acho que ficarei desempregada hoje. – e bebeu mais do café.
Doroteya ficou de repente séria e pensativa. O momento divertido acabara.
— Meu marido era o príncipe Liam Greymane. — disse ela de repente, pegando Wood de surpresa – O pai dele não sabe que casamos nem sabe que tive um filho dele.
Wood quase cuspiu todo o café que estava em sua boca. Engasgou ao tentar engolir tudo e ficou tossindo até Doroteya se levantar e lhe dar tapinhas nas costas. Pela Luz, ela tinha a mão pesada! Depois que se sentiu melhor, acenou para a outra voltar para sua cadeira, tossiu mais um pouco e então a encarou abismada.
— Pela Luz, somos irresistíveis! — falou a comandante sem conter o riso.
Caíram na gargalhada novamente, antes de voltarem às expressões preocupadas.
— Uau. — exclamou Wood – Por essa eu não esperava.
O silêncio reinou por um momento, enquanto Wood encarava a caneca de café. Doroteya prontamente encheu-a de novo. A comandante então pensou que qualquer pessoa ficaria frenética com aquela quantidade de cafeína circulando em seu corpo, mas ela não. O café já não fazia efeito nela.
— Como você conseguiu esconder seu filho durante sete anos do rei Greymane? – perguntou Wood quebrando o silêncio.
— Quando eu descobri que estava grávida, fugi para o interior. – contou servindo um pouco de café para si mesma – Liam e eu achamos melhor que todos pensassem que tínhamos terminado. Então, criei o Theo afastado de todos. – ela deu um sorriso triste – Me sinto culpada por ter mantido ele longe de outras crianças, mas era necessário.
— O rei poderia tomá-lo de você. – disse Wood, e Doroteya concordou com a cabeça – Então... Ninguém sabe da existência de Theo?
Doroteya negou com a cabeça.
— Somente o casal que está cuidando dele. Depois que voltamos a Guilneas, quando estava perigoso fora da cidade, minha amiga se passou por mãe dele. Ninguém notou a semelhança dele com Liam. Afinal, crianças ruivas são comuns. Eram comuns. – corrigiu-se a druidesa, lembrando que seu povo agora estava disperso e fora quase massacrado – Mas se fosse eu a dizer que ele era meu filho, iriam logo imaginar a paternidade dele.
Wood pensou mais um pouco, antes de perguntar:
— Então ninguém, exceto esse casal, sabe que você tem um filho?
— É.
— Somente o casal que está cuidando dele. Depois que voltamos a Guilneas, quando estava perigoso fora da cidade, minha amiga se passou por mãe dele. Ninguém notou a semelhança dele com Liam. Afinal, crianças ruivas são comuns. Eram comuns. – corrigiu-se a druidesa, lembrando que seu povo agora estava disperso e fora quase massacrado – Mas se fosse eu a dizer que ele era meu filho, iriam logo imaginar a paternidade dele.
Wood pensou mais um pouco, antes de perguntar:
— Então ninguém, exceto esse casal, sabem que você tem um filho?
— Mas foi a primeira coisa que você me disse quando nos conhecemos. Que você estava comprando um presente para seu filho. – e pensando um pouco mais – E que seu marido tinha morrido.
Doroteya deu um sorriso tímido.
— Eu não sei porque, mas tinha certeza que podia falar aquilo para você. – e corando um pouco, baixou a cabeça – Algo me disse que você era totalmente confiável.
A comandante não pode deixar de sorrir. Sentira a mesma coisa ao ver a worgenin.
— Então foi a Luz que nos uniu, Doroteya. Porque eu senti a mesma coisa.
A druidesa levantou a cabeça e encarou a comandante. Elas sorriram uma para outra, aquele sorriso cúmplice, que apenas irmãs e melhores amigas trocaram. O laço entre elas foi selado definitivamente naquele instante.
— Você é uma pessoa excepcional. – falou a comandante, admirada – Conseguir suportar tudo isso e ainda manter segredo para proteger seu filho. Eu não conseguiria.
— Isso não foi o mais difícil. Mais difícil está sendo agora. Nunca fiquei tanto tempo longe dele. – e suspirou, o sorriso morrendo no rosto.
Wood então teve uma ideia. Era perigoso, mas parecia viável.
— Façamos o seguinte: se eu não for demitida hoje e conseguir manter meu posto, traremos Theo para morar conosco. O que acha?
No primeiro momento Doroteya abriu um enorme sorriso de alegria, mas este logo foi encoberto por uma nuvem de preocupação.
— É muito perigoso. – respondeu entristecida – Greymane vai descobrir.
— Só se você contar. – contrapôs — Basta mantermos Theo distante da Bastilha.
— E quando as pessoas verem ele por aqui?
Wood deu uma risada que Doroteya não entendeu.
— Eu tenho cinquenta e seis sobrinhos. – disse entre risos – São todos tão diferentes que nem mesmo meus pais conseguem distingui-los de outras crianças. Basta pedir a ele para me chamar de tia e Fey e Mel de tios que estará tudo bem. Todos pensarão que é mais um Wood no mundo. — e terminando a quarta xícara de café, completou – E não se preocupe com meus irmãos. Se eu pedir para eles ficarem quietos, eles ficarão. Eles podem ser bichas loucas, mas são bichas loucas discretas.
Doroteya a olhou com seus enormes olhos castanhos cheios de lágrimas.
— Ah Lina... Não sei como agradecer... Você tem sido tão boa para mim e mal me conhece...
— Relaxe. – disse a comandante se levantando – Nós fazemos uma boa dupla. Tenho certeza que ainda faremos muitas coisas boas para Ventobravo e para a Aliança. Isso se eu não for chutada do exército hoje.
— Se você for chutada, poderemos virar mercenárias. – sugeriu a outra, se levantando também.
Wood caiu na risada e Doroteya a acompanhou.
— É uma boa ideia. Veremos como será esse dia e então tomaremos nossas decisões. – e encarando a amiga, perguntou – Pronta para ir?
Doroteya bateu continência.
— Sim comandante!
Riram mais ainda.
— Então vamos totó!
E saíram em direção à porta.
O cavalo de Wood ficava em um mini estábulo que ela mantinha no quintal de casa. Era lá também que ficavam seus ajudantes. Era um local bem ajeitado, que fora construído pelo seu irmão Tommy quando este ainda morava em Ventobravo. Wood pagava a um rapaz muito agradável chamado Leo para limpar o estábulo todos os dias. Quando foi pegar seu cavalo naquela manhã, percebeu que Leo já estivera por lá. Decidiu-se então que lhe ofereceria um aumento caso não fosse demitida.
— Vamos. – disse a Doroteya quando montou em seu cavalo.
A worgenin, já em forma de cervo, a acompanhou.
A cavalgada era curta, mas para a comandante durou uma eternidade. Estava nervosa, não sabia o que a esperava quando chegasse a Bastilha. O rei já teria assinado sua dispensa? Iria confrontá-la? Fingir que nada havia acontecido? Eram muitas as possibilidades e Wood não queria que nenhuma delas se tornassem realidade. Tudo que queria era que ele nunca tivesse sabido quem era ela. Mas agora era tarde.
Respirou fundo ao ver a Bastilha e seu coração disparou.
— Seja o que a Luz quiser. – murmurou.
Assim que chegou fez seu ritual de praxe: entregou sua montaria ao cavalariço. Depois, entrou na Bastilha, com Doroteya logo atrás já em sua forma de worgenin. Os soldados bateram continência quando a viram. Tudo absolutamente normal.
— Tudo parece bem. – murmurou Doroteya
Ela quase relaxou.
Quando já estavam no corredor que levava à sua sala, uma moça que Wood sabia que tinha acabado de entrar no exército, bateu continência e falou um pouco envergonhada:
— A comandante estava muito bonita ontem.
Os outros soldados ao redor dela murmuraram em concordância.
Wood tentou esconder a satisfação de ouvir aquela frase, mas ofereceu um pequeno sorriso à garota.
— Obrigada Brienne.
E continuou seu caminho.
Se não fosse a revelação de sua identidade ao Rei na noite passada tomando seus pensamentos, Wood poderia ter lembrado que muitas outras pessoas a viram naquele vestido vermelho e a reconheceram. E que isso também traria consequências, talvez menores que a que ela esperava de sua noite com o rei, mas elas existiriam. Só que ela não havia atentado ainda para esse fato. E quando o fez, foi ao ver o que a esperava em cima de sua mesa, na sala do mapa.
— Que porra é essa?! – exclamou assim que viu.
Havia dezenas de buquês de flores dos mais diversos tipos em cima de sua mesa. No momento que ela entrou, um rapaz depositava mais um em cima do pequeno morro já formado de flores. Quando ouviu a exclamação da comandante, ele ficou pálido.
— O que significa isso?! – perguntou Wood se aproximando com os olhos em chamas.
O rapaz começou a tremer.
— P-presentes, comand-dante. – gaguejou.
— E o que essas merdas estão fazendo em cima de minha mesa?! — a fúria estava palpável em sua voz.
Doroteya viu que os olhos do rapaz se encheram de lágrimas.
— Devem ser para você, Lina. – disse a worgenin em socorro ao rapaz.
Ele lhe lançou um olhar de agradecimento e Doroteya sorriu.
Wood, no entanto, estava confusa.
— Para mim?
— Sim senhora. – respondeu o rapaz parecendo um pouco menos assustado.
— Deve ser presentes daqueles que dançaram com você ontem. – falou Doroteya, se aproximando da mesa e olhando um cartão que estava em um extravagante buquê – Você dançou com algum Lorde Clay?
— Sim. – respondeu Wood começando a compreender a situação.
— Ele diz que foi um prazer e a convida para um chá. – Doroteya abriu o sorriso ao ler o cartão – Acho que ele se encantou com você. Acho que muitas pessoas se encantaram com você. – comentou alegremente.
Wood fechou a cara. O rapaz soltou o buquê em cima da pilha e se afastou de fininho
— Você! – Wood disse e o rapaz parou abruptamente – Jogue tudo isso fora.
— Lina! – Doroteya parecia horrorizada – Você não pode fazer isso! É uma desfeita com essas pessoas!
— Desfeita é entupir minha mesa de trabalho de flores! – a comandante se aproximou da mesa e começou a remexer nela, jogando os buquês no chão – Nunca misturei minha vida pessoal com o trabalho e não começarei agora.
Doroteya passou a pegar todos os buquês que Wood jogava no chão e recolocá-los na mesa. Quando a comandante a encarou furiosa, a worgenin lhe dirigiu um olhar calmo e centrado.
— Essas flores devem ter vindo para cá porque ninguém sabia para onde mandar. – supôs – Você é a comandante, não pode deixar tantos nobres sem um agradecimento. Seria ruim para sua carreira.
Wood não tinha pensado nisso. E mesmo que pegasse todos os cartões e jogasse fora as flores, as pessoas saberiam. O dia estava apenas piorando, pensou enquanto levava as mãos às têmporas e as massageavas.
— Certo, responderei os cartões a noite. Mas quero essas flores longe de minha mesa!
— Mande-as para sua casa. – sugeriu Doroteya.
A comandante achou que aquela era a melhor saída. E enquanto Doroteya alegremente arrumava as flores que tinham sido derrubadas, Wood passava seu endereço para o rapaz assustado e ordenou que todas as flores fossem deixadas lá. Antes, porém, ele passaria no ateliê de seus irmãos e diria que um deles o acompanhassem para abrir a porta. O rapaz ficou feliz em atendê-la e deixá-la calma novamente.
— Se mais alguma flor chegar. – completou Wood – Mande direto para lá.
— Sim senhora. – o rapaz bateu continência e saiu rapidamente, visivelmente aliviado, para chamar outros para ajudar a carregar as flores.
Em poucos minutos, a mesa de Wood estava novamente livre e arrumada, mas ainda emanava um delicioso cheiro de flores. Wood sentou-se em sua cadeira pesadamente e Doroteya sentou-se em frente a ela.
— Você fez sucesso ontem. – comentou a druidesa quando ficaram sozinhas.
— Eu tinha me esquecido completamente que outras pessoas me reconheceram. – confessou levando novamente as mãos as têmporas – Que confusão!
— Eu te ajudo a responder os cartões. – ofereceu-se a outra – Acho que haverá muitos.
Wood grunhiu mas respondeu em seguida:
— Obrigada, aceito a ajuda. – e suspirando, recostou-se a cadeira – Acho que será um longo dia.
Ela não imaginava que seria muito mais longo do que esperava.
***********************************
Quando o sol derramou seus raios pelos jardins da Bastilha, Varian já estava acordado. O rei chegara a pensar que não dormiria após os acontecimentos da noite anterior, mas apagara assim que deitara em sua cama. Chegou a pensar que tinha sido a quantidade de vinho consumida, mas ele sabia que não fora. Tinha dormido de exaustão, após fazer amor com a comandante Wood.
Ao acordar, horas depois, se viu angustiado com o que acontecera e com as repercussões que aquilo poderia trazer. Não estava preocupado com o que Lina/Wood faria, pois ele tinha certeza que, se dependesse dela, aquela noite não o prejudicaria em nada. Ela, profissional como era, se manteria na mesma postura e jamais comentaria sobre a noite passada com ele.
Era a certeza disso que incomodava Varian.
Toda a sua experiência como guerreiro e como rei não o preparara para algo assim. Estava preparado para as investidas interesseiras de nobres, traições, conflitos, questionamento de sua capacidade para governar… Mas nunca se preparara para alguém que se entregasse a ele de forma tão completa, tão verdadeira e sem esperar nada em troca. Sim, pois quando seus olhos se encontraram na noite anterior, Varian soube que ela jamais usaria aquilo para benefício próprio. Tinha sido apenas a consolidação de um desejo e nada mais.
Por que, pela Luz, aquilo incomodava tanto?
Bem, ele não poderia ficar o dia todo ali sentado na cama, olhando pela janela e pensando em Wood. Tinha coisas para resolver. E iria vê-la.
Como ele resolveria isso?
Se aprontou e saiu de seu quarto em poucos minutos. Tradicionalmente ele tomava café com seu filho e com Arshe, mas naquele dia nenhum dos dois estava a mesa. Não se surpreendeu. Os dois tinham uma resistência bem inferior a dele e devia ainda está nas terras dos sonhos, recuperando seu corpo da noite anterior. Por isso, tomou café rapidamente e foi para a sala do trono.
Greymane já o esperava lá. O rei de Guilneas parecia preocupado e o abordou assim que ele sentou-se no trono.
—Varian, estou muito preocupado com a comandante Wood.
Para sua sorte, Greymane estava preocupado demais para perceber que ele se remexeu incomodado no trono. Por que diabos ele falava dela? Será que Lina o assombraria para sempre? Tentou mantar a expressão mais neutra possível e perguntou com a voz calma, como se a fala de Greymane não tivesse o atingido.
— O que o preocupa?
O outro foi bem rápido em sua resposta.
— A companhia que ela escolheu.
O coração de Varian disparou no peito. Teria como Greymane ter descoberto? Se sim, ele usaria isso contra eles? Teria se enganado em relação ao antigo amigo? Todavia, se Greymane tivesse descoberto, ponderou, ele não teria dito que estava preocupado com Lina, teria dito que estava preocupado com Varian se envolvendo com uma camponesa. Estão, com o que estaria preocupado? Teria ele visto Lina com alguém? Sem entender porque, aquilo o incomodou mais que qualquer outra coisa.
— Seja mais específico Genn. — pediu tentando não parecer ansioso demais.
Greymane pareceu exasperado com o pedido.
— Me refiro a druidesa que acompanha a comandante Wood, Doroteya!
Varian não conseguiu segurar o sorriso de alívio. Era esse assunto novamente?
— Genn, já falamos sobre isso. — disse ainda sorrindo – A comandante Wood tem um dom para confiar nas pessoas certas. Não se preocupe. Se a druidesa for tão má quanto você afirma, Wood saberá lidar com ela.
O outro rei não gostou de ouvir aquilo.
— A comandante a acolheu em sua casa, majestade. — informou Greymane – Acho que ela já está sendo manipulada ao extremo!
Essa notícia fez Varian franzir a sobrancelha.
— A comandante a acolheu em sua casa? Por que ela faria isso se há um alojamento para seu povo aqui?
— Não faço ideia Varian. — Greymane afirmou aquilo, mas Varian teve a sensação que ele mentia – Como eu disse, ela já está sendo influenciada.
Wood não seria influenciada tão facilmente, disso ele tinha certeza. E se fosse para pesar em qual discernimento ele confiava mais, a resposta era óbvia. Então, havia algo que Greymane escondia com relação àquela garota que o incomodava tanto. Mas como Alto Rei da Aliança, ele não poderia contestar abertamente seu aliado por causa de uma simples camponesa. Então, a saída era tranquilizar Greymane e conversar com Lina sobre a druidesa worgenin.
A perspectiva de conversar com a comandante depois da noite anterior lhe proporcionou uma sensação que ele não sentia há anos: um potente frio no estômago.
— Conversarei com a comandante sobre esse assunto ainda hoje e a questionarei sobre suas escolhas, se isso o deixará mais tranquilo.
— Sim, com certeza. — Greymane parecia bem aliado.
“Ele definitivamente esconde algo”, pensou Varian.
— Preciso resolver algumas coisas. — continuou o rei metamorfo – Com sua licença.
— Você a tem.
Greymane então se curvou e se retirou da sala.
O que Greymane escondia em relação àquela garota chamada Doroteya? Varian já tinha visto muitos nobres se incomodarem com camponesas e o motivo nunca era justo. Será que Genn traíra a rainha com a druidesa e agora queria abafar o erro? Era plausível, mas Varian conhecia o suficiente de Greymane pra saber o quão apaixonado ele era por sua esposa. Ainda assim, as pessoas cometiam erros... Mas não poderia deixar que os erros do rei por seja lá o que for afetasse o trabalho do exército de Ventobravo. Para isso, precisava descobrir o motivo da discórdia entre o rei e a druidesa. E falar com a comandante sobre isso.
Precisava vê-la.
Como ambos reagiriam a isso?
“Não é hora de pensar nisso”, censurou-se Varian. Havia outras coisas para serem esclarecidas.
— Diga a Mathias Shaw que quero vê-lo imediatamente. – ordenou ele a um soldado próximo.
Se havia algo que o rei Greymane escondia algo, a AVIN iria descobrir.
Mathias Shaw não deixou seu rei esperando muito tempo. Em poucos minutos, o chefe da AVIN adentrou a sala do trono com uma aparência cansada, mas muito satisfeita. O rei então se lembrou novamente do baile da noite anterior e de como as pessoas deveriam ter se divertido e seu pensamento foi novamente para Wood. Ajeitou-se no trono quando Mathias parou em sua frente, como se para afastar aquela lembrança.
— Majestade. – disse Mathias fazendo uma reverência.
— Nos deixem a sós. – ordenou para os soldados que estavam na sala.
Aquele era um procedimento normal quando os dois se reuniam. Havia coisas que apenas o chefe da AVIN tinha conhecimento, e se Varian iria mandar que ele investigasse o rei Greymane, era imprescindível que apenas eles dois soubessem daquilo.
— Tenho uma tarefa para você que vai exigir muito mais discrição do que o usual. – começou o rei.
— Ao seu dispor majestade. – Respondeu Mathias.
Com poucas palavras, Varian explicou a situação a Mathias a respeito de Greymane e de Doroteya, e o fato que a druidesa havia sido acolhida pela comandante Wood.
— Há algo estranho na aversão do rei de Guilneas por essa moça. – falou Varian – E a tentativa de interferência dele no trabalho dela com a comandante me preocupa.
— Com sua permissão, gostaria de expressar minha opinião. – pediu o chefe da AVIN.
— Você a tem.
— Confio totalmente no discernimento da comandante Wood. – afirmou com um leve sorriso que, por algum motivo, incomodou Varian – Acredito que, se ela acolheu a moça e faz questão de trabalhar com ela, é porque essa druidesa é capacitada e confiável.
Varian concordou com a cabeça.
— Partilho de sua opinião Mathias, mas quando se trata de um aliado tão poderoso quanto Greymane, é necessário tomar cuidado e se aprofundar nas informações.
— Vossa majestade já conversou com a comandante a respeito disso?
Varian sequer pensara na possibilidade. Sua mente estava tomada de outras preocupações referentes a comandante.
— Quero informações imparciais antes de questionar a comandante. – disse como se aquele pensamento estivesse desde sempre em sua mente – Espero que você as tenha o mais rápido possível.
Mathias fez uma reverência antes de responder:
— Você a terá, meu rei. – e antes que pudesse evitar, Mathias começou a bocejar, tapou rapidamente a boca com a mão e depois falou um pouco sem jeito – Me perdoe majestade.
— Espero que o cansaço do baile não interfira na agilidade das investigações. – comentou Varian sem esconder um sorriso. Estava evidente que Mathias havia aproveitado bastante.
O chefe da AVIN sorriu envergonhado.
— Normalmente não me canso tanto, mas foi trabalhoso conseguir uma dança com a comandante Wood ontem. Ela estava sendo bem disputada.
O sorrido do rosto de Varian vacilou e ele lutou para que Mathias não percebesse o impacto daquela informação nele. Como não tinha pensando nisso? Claro que Wood teria chamado a atenção de todos os nobres na noite anterior. E se até Mathias Shaw, conhecido por sua discrição, a disputara numa dança, é porque, com certeza, todos os homens da festa a desejaram em algum momento.
Isso o incomodava e muito.
— Interessante. Não sabia que ela atraíra tantas atenções. – disse tentando parecer despreocupado.
Se Mathias não estivesse cansado, talvez tivesse reparado na postura forçada do rei. Mas ele não notou e ainda parecia animado por falar mais da comandante.
— Sim. Com certeza. E hoje ela recebeu dezenas de buquês de flores com convites de todos os nobres solteiros. Parece que até o velho Clay está pensando em sair da viuvez. – Mathias abriu mais o sorriso – E se permite o comentário majestade, até eu estou pensando em convidá-la para almoçar.
Varian não conseguiu esconder o desagrado. O sorriso morreu no seu rosto e disse, rispidamente:
— Espero que você não incomode a comandante, Mathias. – e percebendo o que falara, completou rapidamente – Ela tem muito trabalho a fazer e você também.
O rosto de Mathias ficou totalmente escarlate e Varian percebeu que ele estava constrangido por ter revelado demais. Ótimo, assim não notaria as mãos de Varian segurando tão forte no trono que os nós dos dedos estavam brancos. E que havia uma pontada forte de ciúme em suas palavras.
— Perdão majestade. – pediu se curvando respeitosamente – Isso não acontecerá.
— Ótimo. – respondeu Varian ainda tenso – Pode se retirar.
O chefe da AVIN fez mais uma reverência e saiu rapidamente com o rosto ainda afogueado. Varian relaxou e passou as mãos no rosto, sem acreditar no que acabara de fazer. Lina mexera totalmente com suas estruturas, não havia como negar aquilo. E se continuasse, não haveria como esconder.
O rei de Ventobravo então tomou uma decisão. Levantou-se do trono e se dirigiu às portas.
Iria falar com a comandante naquele momento.
****************************
Arshe acordara bem antes do que normalmente fazia, depois de uma péssima noite de sono. Seu corpo estava cansado das danças do dia anterior e seus pés latejavam doloridos por causa do salto alto. Mas não fora isso que causara sua insônia ou que agora a mantinha com os olhos fixos no teto, enquanto tentava organizar seus pensamentos.
Era uma carta, que estava escondida embaixo de seu travesseiro e continha o selo do Kirin Tor.
Uma carta de Kayliel.
Quando chegara em seu quarto, após todos os convidados terem ido embora, ela tirou os sapatos altos e gemeu de dor. As servas estão a ajudaram a se despir e vestir a camisola. Enquanto se preparava para deitar e apagar até a tarde do dia seguinte, uma mensageira bateu à porta e entrou no quarto.
— Mensagem do Kirin Tor para vossa Alteza. – dissera.
Arshe estudara no Kirin Tor quando mais nova e apesar de ter recusado veementemente um cargo no conselho, estava sempre em contato com os magos de lá. Era necessário ter contatos em Dalaran, mesmo que fosse de forma sutil e delicada para não comprometer a neutralidade da cidade. Afinal, a Aliança precisava se manter informada e protegida.
Fora por isso que não se estranhara a correspondência. Pediu que ela fosse deixada em cima da mesa e continuou sua preparação. Quando as servas terminaram de vesti-la e penteá-la, ela se dirigiu pra sua cama, desejando apagar assim que encostasse a cabeça no travesseiro. Porém, num rompante de curiosidade, decidiu ver quem escrevera para ela naquela noite. Estranhou quando pegou a carta em cima da mesa e não viu remetente. Abriu a carta e se deparou com as seguintes palavras.
Querida Arshe,
Sinto muito pelo encontro desastroso que tivemos. Pensei muito sobre nós dois e decidi que você precisa saber porque me afastei de você. Doeu-me muito ver seu olhar de desprezo, muito mais do que eu havia imaginado. Será que você pode vir aqui em Dalaran nos próximos dias? Prometo ser discreto.
Sempre seu,
Kayliel
Ficou parada alguns segundos, segurando a carta entre os dedos sem acreditar no que estava lendo. Como ele ousava a acabar com sua paz daquele jeito?! Depois de anos de silêncio e do término abrupto e inesperado, ele achava que podia voltar assim para sua vida, sem aviso e deixá-la em frangalhos novamente?
Arshe rolou para o lado e despejou mais lágrimas no travesseiro. Já havia chorado a noite toda, até cair num sono conturbado e cheio de pesadelos e acordar aos gritos naquela manhã. Não, não poderia deixar que aquele imbecil sacolejasse novamente sua vida. E pela Luz, ela nem mesmo devia estar se sentindo assim depois de todo mal que ele lhe causara.
Mas as lágrimas estavam lá para provar que, de alguma forma, Kayliel ainda estava em seu coração.
Depois que se acalmou mais um pouco, a princesa pegou a carta debaixo do travesseiro e a releu. Com o coração apertado, deixou que sua mão entrasse em chamas e consumisse o papel até não restar mais nada além de cinzas.
Apenas cinzas, como seu coração após Kayliel a abandonar.
Sem se preocupar em limpar o lençol, Arshe enrolou-se novamente e tentou tirar aqueles pensamentos de sua cabeça. E apesar da carta não existir mais, suas palavras ainda martelavam em sua cabeça. Nos dias anteriores, para esquecer o fatídico encontro em Dalaran, ela se afundara nos preparativos do baile. Dera certo e ela pode tirar o elfo sangrento de seus pensamentos por alguns dias. Mas agora, o que faria?
Ciente que ficar na cama só a faria se sentir pior, levantou-se a contragosto. Ao se olhar no espelho, viu que suas olheiras estavam mais escuras que nunca e que seu rosto estava tão pálido quanto um cadáver. Tocou a sineta ao lado de sua cama, chamando as servas, para que pudessem ajudá-la a ficar numa aparência menos desastrosa.
Levou quase uma hora para que ela pudesse se arrumar. Só saiu do quarto quando achou que a maquiagem escondera a maior parte dos sinais de sofrimento em seu rosto. Para sua sorte, a maioria das pessoas acharia que aquilo era em virtude do baile, por isso não se esforçou para esconder o cansaço. Já estava difícil tentar não pensar em seu antigo amor.
Não estava com fome, mas se dirigiu a sala de banquete mesmo assim. Por aquela hora Anduin ainda estaria dormindo e Varian já estaria resolvendo suas coisas. Poderia tomar um suco, quem sabe, ou simplesmente olhar a comida e desejar morrer.
A segunda opção parecia mais viável.
— Princesa Arshe?
Arshe praticamente pulou ao ouvir seu nome. Seus nervos estavam claramente à flor da pele.
— Desculpe se a assustei.
Era o rei Greymane. Arshe, apesar da exaustão e do conflito interior, logo percebeu que o rei aprecia muito insatisfeito com algo.
— Majestade. – cumprimentou Arshe com um aceno de cabeça.
— Poderia me dar um minuto de seu tempo? Há algo que gostaria de lhe pedir.
Arshe se animou imediatamente. Tudo que precisava era do problema de outra pessoa para se preocupar. Se Greymane tinha alguma questão que precisasse resolver e procurava por ajudar, seus pensamentos iriam se afastar de Kayliel na busca de um conselho para dar ao rei de Guilneas.
— Claro majestade. – disse abrindo um sorriso sincero – Sente-se comigo e conte-me.
Eles se sentaram na mesa de jantar e um servo serviu suco aos dois. O estômago de Arshe embrulhou, mas ela se forçou a tomar pequenos goles do suco de laranja enquanto esperava o rei metamorfo falar.
— A princesa tem contato com a comandante Wood? – perguntou ele assim que o servo saiu.
Arshe estranhou a pergunta, mas respondeu.
— Não muito. Apenas profissional. Por que?
Greymane olhou para trás, como que para se certificar que estavam sozinhos e então falou:
— A comandante escolheu uma pessoa de meu povo, uma druidesa, para trabalhar com ela. Essa mulher, ela não é confiável nem de boa índole. – ele franziu a testa e continuou — Sei que a comandante é uma militar extraordinária, mas se deixou enganar pela lábia dessa mulher. Ela é mentirosa e enganadora. Seu nome é Doroteya Finningan.
A mente de Arshe, mesmo cansada, lembrou-se imediatamente de Doroteya. Haviam se encontrado na noite anterior e trocaram poucas palavras. Ainda assim, Doroteya despertara a simpatia imediata de Arshe. Tinha algo no olhar da druidesa que remetia a confiança.
A princesa pensou em contestar o rei e dizer que conhecera Doroteya e que ela não parecia corresponder à descrição que ele dera, mas algo no olhar dele a fez recuar. Era um ódio, tão intenso que a fez ficar um pouco amedrontada. Por ela e por Doroteya.
Tomando um pouco mais de suco, ela disse displicentemente.
— Entendo. – mas ela não entendia – Vossa majestade gostaria então que eu conversasse com a comandante?
— Na verdade, gostaria que conversasse com o rei. – Arshe ficou surpresa com o pedido, mas deixou que ele continuasse — O rei Varian não me parece muito disposto a questionar a comandante. Mas se você puder convence-lo a fazer isso, estaria fazendo um imenso favor a comandante e a Ventobravo.
“Não Greymane, estaria fazendo um favor a você”, pensou a jovem maga, mas as palavras que chegaram a sua boca foram outras:
— Verei o que posso fazer, majestade.
Greymane pareceu muito satisfeito.
— Agradeço imensamente sua ajuda, princesa Arshe. Acredite em mim, essa mulher é uma víbora. – e se levantando, continuo – Ouvi dizer que ela acompanhará a comandante numa incursão em uma vila na floresta e acho que a presença dela poderá colocar a missão a perder.
Arshe duvidava que esse fosse o motivo, mas acenou com a cabeça ainda assim.
— Farei o que estiver ao meu alcance.
Greymane lhe presenteou com um sorriso e saiu apressadamente.
Aquela situação era muito estranha, mas, de repente, Arshe se sentiu muito mais animada do que antes. Tinha nas mãos uma situação que envolvia a confiável comandante do exército de Ventobravo, uma druidesa misteriosa e um rei de atitudes duvidosas. Parecia muito promissor. Como poderia resolver?
De repente uma luz se fez na cabeça dela e ela se levantou de um pulo. Claro! A melhor forma de conferir quem era Doroteya e saber se ela ia interferir negativamente na missão era indo junto com a comandante! Seu tio provavelmente seria contra, mas ela conseguiria convencê-lo que aquilo deixaria Greymane mais aliviado. O rei de Guilneas com certeza já questionara Varian e saber que ainda assim fora em sua procura era sinal que seu tio não lhe dera ouvidos. Se ela acompanhasse a comandante e a druidesa naquela missão, poderia mostrar que procurava resolver o problema.
E estar longe da cidade, no meio do mato, correndo perigo e sem nenhum conforto, com certeza seria o suficiente para manter Kayliel longe de sua mente.
***************************
Doroteya serviu de assistente para Wood enquanto está resolvia suas coisas e gostou muito disso. Era bom estar em movimento e, principalmente, fazendo algo útil. Enquanto a comandante analisava as fichas dos soldados para selecionar os que iriam acompanhá-la, a druidesa trazia e levava arquivos, ia buscar mais papel, organizava as pastas no armário e serviu água abundantemente a sua amiga.
— Você precisa beber água ou pode desidratar. – explicou quando a comandante a olhou surpresa ao receber o primeiro copo de água.
Wood deu de ombros e bebeu a água.
O que mais chamou a atenção da guilneana durante a manhã, foi a paixão com que Wood fazia seu trabalho. Parecia que a jovem se desconectava do mundo e imergia naquele caos de nomes e postos. Era impressionante como ela sabia exatamente quem era cada um de seus comandados, seus pontos fortes e fraquezas e como melhor distribuí-los para aproveitar o máximo de suas capacidades.
Se ela saísse daquele cargo por causa da noite que passara com o rei, a Aliança perderia muito mais que a própria Lina.
Nesse meio tempo, outros buquês de rosas chegaram e Doroteya conseguiu despachá-los antes mesmo que a comandante levantasse a cabeça dos papéis. Apesar de ser avessa a essa história de dar flores (ninguém lembrava que a pobre flor morria ao ser tirada da terra?), achou muito bonito os buquês. Com certeza todos tiveram o cuidado de caprichar numa tentativa de agradar a comandante.
Sentiu um pouco de pena ao pensar que nenhum deles tinha a menor chance. Wood poderia não saber ainda, mas estava envolvida demais com o rei para pensar em outro homem no momento.
Todavia, preocupava-se com as consequências do envolvimento de Wood com o rei. Na melhor das hipóteses, o rei iria tratá-la como se nada tivesse acontecido. Isso seria ótimo para a carreira de Lina, mas talvez péssimo para sua autoestima. Na pior, ela seria execrada do exército e só poderia viver tornando-se mercenária.
Se envolver com pessoas da realeza trazia problemas, refletiu ao pegar mais uma pasta que a comandante lhe pediu.
Ainda assim, tinha a sensação que a comandante lidaria melhor com isso do que a própria Doroteya lidara. Afinal, Lina era uma mulher forte, confiante, ciente de suas capacidades e sabia seus limites. Doroteya, ao se envolver com Liam, não estava preparada para toda a pressão que teve que suportar. Havia também o fato do rei ser soberano de si próprio, diferente de seu marido, que a conhecera tão jovem e que tinha contas a prestar com o pai.
Mas isso seria melhor ou pior?
Quando estava voltando com a pasta pedida, as portas da sala se abriram como se alguém tivesse conjurado um furacão. A comandante olhou para a porta sobressaltada e Doroteya deixou a pasta cair no chão espalhando todo seu conteúdo.
— Comandante! Preciso falar com você!
Era a princesa Arshe. Doroteya se assombrou com a aparência da outra. Na noite anterior, Arshe estava radiante, corada, uma princesa no sentido literal da palavra. Mas naquela manhã ela parecia ter encolhido. Apesar de suas roupas estarem perfeitas e ter uma generosa quantidade de maquiagem em seu rosto, as olheiras se evidenciavam no rosto pálido e havia cansaço e exaustão em sua face. Contudo, ela se dirigiu resoluta para a mesa da comandante, e Doroteya temeu que essa pequena caminhada sugasse o resto das forças da princesa e ela caísse desmaiada no chão.
Wood também reparara na aparência de Arshe e se levantou tão logo ela entrou.
— Alteza. – disse fazendo uma mensura – Em que posso ajudá-la?
“Talvez carregá-la para uma cama e dar-lhe um remédio para dormir.” Pensou Doroteya enquanto se abaixava e recolhia os papéis.
— Só você pode em ajudar nesse momento comandante! – disse Arshe numa animação estranha.
— Sente-se por favor. – pediu a comandante, provavelmente achando que a princesa desmontaria se continuasse em pé.
Arshe sentou-se e Doroteya terminou de apanhar os papéis. Quando a druidesa levou a pasta para a mesa, deu uma olhada melhor em Arshe e viu algo mais que cansaço. Havia dor no coração da princesa e isso entristeceu a druidesa. O que poderia esta afligindo aquela jovem?
— Muito bem comandante, eu soube que a senhora vai organizar uma equipe para ir na vila próxima a clareira onde tropas foram mortas. — disse a princesa sem reservas.
— É verdade.
— E que Doroteya vai acompanhá-la. – continuou com um sorriso no rosto.
— Sim. — respondeu Wood com cautela. Arshe estava enrolando e a comandante temia o que vinha depois. – Ela vai.
— Me esforçarei para ajudar no que for necessário. – disse Doroteya como se estivesse se justificando à princesa.
Arshe a olhou e lhe presenteou com um sorriso.
— Eu irei junto com vocês. – anunciou animada como uma criança que se convida para brincar.
As outras duas ficaram em silêncio, olhando a princesa como se esperassem que ela dissesse que era uma piada e começasse a gargalhar. Como Arshe nada disse e conservava um sorriso de triunfo, Wood deixou escapar sua surpresa:
— Como?
— Irei com vocês! – repetiu ainda mais animada – Eu estou livre de obrigações diplomáticas e estou um pouco enferrujada com minhas magias, sabem? Preciso praticar um pouco. E qual melhor situação que uma missão?
Wood bateu a caneta duas vezes no papel a sua frente e apertou os lábios. Ela parecia estar procurando as palavras que fugiram de sua boca.
— Alteza... – começou a comandante devagar – Não é uma missão qualquer. Estamos em busca de aliados dos Defias, um grupo perigoso e que odeia pessoas da realeza. É perigoso.
— Eu sei. – disse a outra – Eu já enfrentei situações de perigo antes. Talvez não tantas quanto você, mas sei me virar.
— Alteza. – Wood continuava a bater lentamente a caneta no papel – Eles odeia a realeza. Se fossemos atacadas, você seria o alvo principal.
— Eu tenho minha magia. – respondeu com simplicidade — E também confio em você para me proteger comandante.
Pronto, era tudo que Wood não precisava. Uma princesa mimada, que parecia uma boneca de porcelana prestes a quebrar e que, para piorar, parecia ter passado as últimas noites em claro, queria acompanhá-la numa missão extremamente perigosa, onde ela poderia facilmente se tornar o alvo principal.
A comandante respirou fundo, se recostou em sua cadeira e cruzou as mãos em cima da mesa.
— Princesa, apreciou muito sua confiança em mim, mas receio que não seja possível sua ida.
— Claro que é! — rebateu Arshe sem perder a animação – Eu já fiz missões de reconhecimento antes, tenho meu próprio cavalo e tenho até mesmo roupas especificas para esses eventos!
— Eventos… — repetiu Wood sem acreditar que era assim que ela se referia a uma missão daquela importância.
— Isso mesmo! — se Arshe reparou no desconforto da comandante, nada comentou.
Doroteya observava a cena sem saber o que pensar.
— Princesa, veja bem. — continuou a comandante – Iremos sem saber o que nos aguarda. E dependendo do que encontrarmos lá, a missão pode ser estendida por dias. Não creio que queira se expor a isso.
— Claro que quero! — a princesa foi incisiva – É justamente o que quero! — e como se percebesse que falara demais, acrescentou rapidamente – Vai ser uma boa experiência para mim. Eu sei dos riscos. — cortou quando Wood abriu a boca para replicar – Mas existe também a possibilidade de não haver nada, não é?
— Bem, é. — admitiu Wood.
— Então está decidido. Pode por meu nome na lista!
Wood passou a mão no cabelo, como se tivesse pensando a melhor forma de mandar a princesa se lascar sem ofendê-la. Doroteya então decidiu intervir, de forma um pouco mais sutil.
— Princesa Arshe. — chamou timidamente. Quando a princesa a olhou, falou com sua voz rouca de worgenin, mas com a delicadeza que apenas Doroteya tinha – Sei que quer muito participar da missão, mas vossa alteza está se sentindo bem? Parece um pouco indisposta…
Lógico que Doroteya estava sendo gentil, indisposta, com certeza, não era a palavra adequada. “Doente” se encaixaria melhor. Ainda assim, a worgenin não queria constrangê-la.
A confiança e a animação de Arshe vacilaram um pouco diante da fala de Doroteya. Seu sorriso se apagou um pouco e seu cansaço apareceu ainda mais.
— Apenas uma noite mal dormida. — disse se justificando mais para si mesma que para as outras.
Doroteya então foi até onde estava sua bolsa e passou a remexer nela enquanto era observada pela princesa e pela comandante. De lá, tirou uma pequena ampola com um líquido dourado e estendeu para Arshe.
— Isso vai ajudá-la a dormir. — explicou – É um elixir de ervas que vai relaxar seus músculos e clarear sua mente. Amanhã você estará nova em folha.
Arshe hesitou um pouco, mas pegou o frasco. Olhou alguns segundos para ele, e então, como num passe de mágica, ela se animou novamente.
— Resolvido! Amanhã estarei perfeita para a missão! — e abrindo um grande sorriso, disse para a worgenin – Muito obrigada Doroteya!
A pobre worgenin só se deu conta de que seu gesto bondoso poderia gerar um problema quando a princesa lhe agradeceu. Olhou rapidamente para a comandante, com suas orelhas abaixadas, com um ar de quem pede imensas desculpas. Wood teve a impressão que mais um pouco e Doroteya ia começar a ganir como um cachorrinho. Se Doroteya soubesse que Wood estava com mais vontade de rir de sua expressão desolada que de brigar com ela, não teria se preocupado tanto. Ainda assim, ela acenou displicente com a mão, para tranquilizar a outra e se voltou novamente para a princesa.
Wood já tinha percebido que não demoveria Arshe da sua decisão. Então usaria seu último recurso.
— Princesa Arshe… O rei sabe disso?
— O que eu deveria saber?
A voz potente de Varian invadiu a sala, causando um arrepio intenso na espinha de Wood. O rei acabara de entrar pela porta e a encarava com seus profundos e misteriosos olhos azuis. Um silêncio se abateu no ambiente enquanto ele se encaminhava para a mesa da comandante. Varian parecia que nem ao menos percebeu a presença de Doroteya ou de Arshe ali: seu olhar se prendeu ao de Wood e eles ficaram se encarando por longos segundos. E teriam ficado mais tempo daquela forma, presos um a alma do outro, se Arshe não tivesse se levantado de um pulo e se pendurado no braço de Varian.
— Tio querido, ainda bem que você chegou! — falou muito empolgada – Veja bem, eu e a comandante estávamos falando sobre minha participação na missão dela! Imagine que ela estava preocupada com minha segurança! – a frase foi dita como se fosse um absurdo e Arshe riu – É claro que garanti a ela que ficarei bem, e não acontecerá nada, então o senhor vai me autorizar a ir, não é mesmo?
Arshe falou rápido, sem tomar fôlego, como se metralhasse o rei com suas palavras, sem dar chance de ele revidar. Mas a princesa nem precisaria desse subterfúgio se houvesse reparado que Varian parecia desligado do mundo, olhando apenas para Wood. E foi somente por isso, que ele falou automaticamente.
— Claro. Sem problemas.
Nem mesmo Arshe escondeu sua surpresa com a permissão. A jovem já havia preparado uma série de argumento que, se não convencessem Varian, pelo menos poderiam vencê-lo pelo cansaço. Mas o rei simplesmente deu sua permissão, sem ressalvas, sem fazer cara feia, sem nada. Arshe ficou tão feliz com aquilo que nem mesmo questionou a estranheza do ato.
— Iêi!!! – gritou dando pulinhos – Vou me preparar desde agora. Comandante, que horas saímos amanhã?
Wood, sem conseguir acreditar no que ouvira, balbuciou:
— Às sete...
— Perfeito! – disse a jovem maga – Vou tomar essa bebida me dada tão gentilmente por Doroteya e amanhã estarei aqui com meus trajes de missão sem falta! Até mais comandante! Até mais Doroteya! – e saiu praticamente saltitante da sala.
Doroteya, ao contrário de todos, percebeu o que tinha acontecido. Distraído com a presença de Lina, o rei sequer raciocinou sobre o pedido de Arshe e as consequências do mesmo. Ele estava imerso em seus pensamentos sobre a noite anterior e a única coisa que prendia sua atenção era a comandante. Por isso, a druidesa fez uma reverência e falou educadamente:
— Vou deixá-los a sós.
E então se retirou da sala.
Wood não sabia o que pensar. Queria gritar com Varian e exigir explicações do porquê dele ter permitido Arshe ir numa missão tão arriscada. Ao mesmo tempo queria perguntar se ele fizera isso porque iria tirá-la daquele cargo e expulsá-la do seu exército. E, mais que tudo, queria perguntar o porquê daquele olhar intenso e penetrante que lhe causava arrepios.
— Lina... – ele murmurou.
As palavras dele aparentemente a tiraram do torpor de seu olhar.
— Majestade, aqui eu sou a comandante Wood. – disse um pouco mais seca do que pretendera – Gostaria que me chamasse assim.
Varian ficou um pouco desconcertado com a forma como ela lhe falara. Depois, entendeu que esperava encontrar a mesma mulher da noite anterior, mas Lina despira suas roupas vermelhas e vestira seu posto militar naquela manhã.
— Muito bem. Comandante. Precisamos conversar.
— Tenho trabalho para terminar, majestade. – comunicou respeitosamente – Poderia esperar até o fim do dia?
— Não. – respondeu incisivo – Temos coisas a resolver e será agora.
Era a frase que Lina mais temia. Desviou seu olhar rapidamente e para os papéis na mesa e percebeu que talvez jamais terminasse de organizar aquela missão. Pensou também em Doroteya, sem proteção em meio a Ventobravo, aos caprichos maldosos do rei de Guilneas. Pensou em Theo, o pequeno príncipe que nem ao menos conhecia, mas que lhe despertava imensa simpatia. E, por fim, pensou na princesa Arshe. Quem a protegeria naquela missão?
— Sim, majestade. – disse sentindo uma tristeza imensa – Onde gostaria de conversar?
— Na minha sala de conferência. Acompanhe-me. – e se encaminhou para a porta.
Wood respirou fundo e o acompanhou. Em sua mente, passava tudo que poderia dizer em sua defesa, questionou-se se poderia argumentar e até mesmo protestar contra sua demissão. No final, percebeu que seu treinamento militar não permitiria aquilo. O que o rei dissesse, ela aceitaria. Se ele a mandasse embora, iria acenar com a cabeça, voltar para sua mesa, pegar suas coisas e ir embora. Se a rebaixasse, tiraria a insígnia de comandante, colocaria na mesa e esperaria pelas ordens de seu próximo chefe. Mas nunca, jamais, seria contra seu rei.
Mas, e se fosse Varian que quisesse conversar e não o rei Wrynn?
“Bobagem”, pensou quando já estavam chegando na sala de conferência. Seria tão improvável quanto o xamã Thrall ser convidado para um baile em Ventobravo.
Quando chegaram às portas duplas que levavam à sala onde a Aliança tinha suas principais e mais secretas reuniões, ouviu quando o rei se virou para os guardas e ordenou:
— Não quero nenhuma interrupção. Nem mesmo de meu filho ou de Arshe. Ninguém deve entrar nessa sala
— Sim majestade. – disseram os guardas. Eles fizeram uma reverência ao rei e quando a viram, bateram continência. Provavelmente era a última que Wood receberia na vida.
Varian abriu as portas e entrou. Wood entrou logo atrás e fechou as portas duplas e depois se dirigindo a mesa. Para sua surpresa, ele não sentou em sua cadeira, mas ficou em pé, fitando-a demoradamente.
— Lina. – disse depois de um tempo.
— Majestade, eu...
— A comandante Wood está de folga. – ele a interrompeu bruscamente – É com Lina que eu quero conversar.
Se ele tivesse sacado sua espada e a atacado, ela não ficaria tão surpresa. Ele queria conversar com ela como pessoa e não como militar? Então será que... Será que era o que estava pensando?
— Vossa majestade não vai me demitir? – perguntou sem conseguir controlar a língua.
Agora era Varian que aparentava estar surpreso.
— Demiti-la? – indagou como se não tivesse acreditado no que ouvira – Por que eu a demitiria?
— Por causa de ontem. – respondeu sentindo o rosto ficar vermelho. Pela Luz, quando fora a última vez que corara tão intensamente?
— Eu jamais faria isso! – exclamou dando um passo em sua direção – Você foi a melhor comandante desde Bolvar. Eu jamais a tiraria do cargo se não tivesse um forte e justo motivo para isso.
A tensão se esvaiu do corpo de Wood tão rápido que ela achou que fosse cair no chão. Só percebeu que estava segurando sua respiração quando soltou o todo o ar de seus pulmões e pôs as mãos no rosto. Não estava chorando, não havia nenhuma lágrima em seus olhos, mas sentiu a necessidade de cobri-los, como se quisesse impedi-los de ver.
Varian observou a reação de Wood e se questionou se em algum momento suas atitudes sugeriram que ele a puniria por algo que ambos fizeram. Ainda que ela soubesse quem ele era e não tivesse revelado sua real identidade, a culpa não era dela. Wood lhe dera pistas, demostrara suas habilidades, deixara claro que não era uma desconhecida, e ainda assim ele não descobrira. Só podia culpar a si mesmo por ter ficado tão encantado.
— Desculpe-me majestade. – pediu ela se recompondo – Eu fico satisfeita por não me tirar do posto de comandante.
— Varian. Me chame de Varian.
Wood abriu a boca, como se quisesse questionar, mas fechou-a rapidamente.
— O rei também está de folga? – perguntou por fim.
Varian não conseguiu conter o sorriso.
— Sim, ele está.
O silêncio se seguiu a fala dele. Ficaram se encarando durante poucos momentos, mas que pareceram uma eternidade. Wood analisou o olhar forte, as cicatrizes que cruzavam o belo rosto e não sabia o que pensar a respeito da conversa que se iniciaria. Varian, por sua vez, parecia que estava conhecendo-a novamente; reparou nos profundos olhos verdes, na pequena porção de sardas no nariz afilado, na boca cheia que era ainda mais bela sem nenhum batom, nos cílios longos e numa pequena cicatriz logo embaixo do queixo.
— Como você ganhou essa cicatriz? – a pergunta saiu antes que ele conseguisse pensar em porque aquilo parecia importante.
Wood franziu a testa, se perguntando do que ele falava, até que lembrou do pequeno rasgo em seu queixo. Instintivamente passou a mão nela, sentindo a pele do local levemente mais alta que o resto.
— Minha irmã Lícia me empurrou e eu cai em cima de uma cadeira dobrável. Uma dobradiça entrou aqui e saiu aqui. – e abriu a boca para mostrar o outro lado da cicatriz.
— Nossa! – exclamou – Seus pais a castigaram, imagino.
— Talvez tivessem castigado, se eu não tivesse pego a cadeira e metido na cabeça dela e deixado uma cicatriz aqui. – e apontou para a testa, onde ficava a cicatriz de sua irmã.
Varian caiu na risada e Wood o acompanhou. Aquela conversa parecia tão estranha e ao mesmo tempo tão normal, que quando as risadas cessaram, eles não sabiam o que fazer. Varian, então decidiu começar:
— Por que não me disse ontem que era você?
— Para evitar essa conversa que estamos tendo. – respondeu.
A resposta fora dada tão prontamente e de forma tão sincera, que ele ficou desnorteado.
— Não me entenda mal, majest... Varian. – corrigiu-se – Eu não queria estar aqui, nessa sala, dando explicações. Por isso omiti minha identidade.
— Eu não estou pedindo explicações. – disse o rei na defensiva.
— Então porque estou aqui? – questionou.
Nem Varian sabia aquela resposta.
— Lina... – ele começou, mas ela levantou a mão, pedindo para falar – Fale.
Wood sabia que naquele momento ela não deveria ser a comandante, e sim Lina. Mas fazia tanto tempo que não era ela mesma, que parecia até estranho. Tinha que relaxar e ser sincera. Se ele não iria tirar seu cargo por terem transado, não tiraria se ela dissesse o que pensava.
— Varian, eu fugi aos dezoito anos da casa de meus pais para entrar no exército. – ele arregalou os olhos, surpreso, mas não disse nada. – Desde então eu vivo por minha própria conta aqui em Ventobravo. Sou sexualmente liberal e já me envolvi com muitos homens no decorrer desses anos. O que aconteceu na noite anterior não foi novidade para mim.
Aquela sinceridade toda o magoou um pouco. Então, não tinha significado nada para ela?
— Então... – ele pensava como colocaria seus pensamentos em palavras sem parecer que estava magoado – Foi apenas mais uma noite para você.
Wood ficou surpresa ao perceber a mágoa na voz dele e seu coração disparou.
— Eu não disse isso. – rebateu – Apenas disse que eu já tive relacionamentos de uma noite. A diferença, é que nunca nenhum deles me chamou para conversar depois. Nós apenas... Seguíamos em frente.
— Eu não sou assim. – disse Varian.
— Eu sei. – respondeu singelamente.
Novamente o silêncio. Agora que a conversa tinha se iniciado, Varian não sabia mais o que esperar dela. Não tinha imaginado que Lina seria tão honesta e sincera que colocasse as coisas de forma tão simples e clara. Sem dúvida, ela o surpreendia cada vez mais.
— O que você quer de mim, Varian? – perguntou singelamente.
A resposta veio de uma forma que ela não esperava. Em vez de lhe dizer palavras, Varian venceu rapidamente a distância que os separava e a beijou. Lina foi pega de surpresa, mas logo estava correspondendo com a mesma intensidade. As mãos dele começaram a explorar novamente seu corpo, como fizera na noite anterior, só que com muito mais ânsia e menos receio. Agora, que sabia exatamente quem era ela, poderia confiar sem receio e se deixar levar.
As mãos de Lina procuraram os encaixes da armadura dele e começou a soltá-la. As placas caíram no chão num som oco e alto, mas eles não se importaram. Logo, o rei estava soltando também a armadura de malha que cobria o corpo da comandante, sem se importar com a bagunça que faziam naquele lugar.
Logo, estavam ambos nus. Wood o empurrou gentilmente na direção de sua cadeira e ele sentou-se. Seu membro estava rijo e ela desejou poder beijá-lo, lambê-lo, colocá-lo na boca e suga-lo. Mas também tinha desejos e queria satisfazê-los logo. Por isso, sentou-se em cima do membro, deixando que ele a penetrasse profundamente, enquanto seus olhos se encaravam.
Varian sentiu o corpo nu dela contra o seu e percebeu que jamais ficara tão excitado com uma mulher. Enquanto ela o cavalgava, com os olhos verdes intensamente presos no seu, ele apertava seus seios, deslizava as mãos por suas costas e então, a beijara novamente. O gosto dela era doce, mas não o doce convencional. Era o doce que pertencia a ela mesma, e não a nenhuma comida. Era o sabor da própria Lina que estava sentindo e isso o deixava ainda mais faminto. Apertou ainda mais seu corpo e passou a remexer-se também, penetrando-a ainda mais. Lina gemeu e jogou a cabeça para trás, convidando-o a beijar seus seios. E ele assim o fez, lambendo aqueles mamilos rígidos e rosados. Wood gemeu ainda mais e ele a agarrou com mais força. Ela passou a s e mexer mais rápido e ele a acompanhou. Em poucos momentos ela mordeu o lábio com força. Sufocando o grito de êxtase, enquanto ele cravava os dentes em seu ombro enquanto puxava seus cabelos. Lina soltou um gemido de dor, mas continuou a se mover até que sentiu que ele também atingia o ápice dentro dela. Os movimentos foram então se tornando cada vez mais lentos, até que eles pararam completamente, ofegantes, com seus corpos suados e colados um no outro.
— Acho que acabo de me tornar sua amante, majestade. – murmurou Lina em seu ouvido.
— Comandante, você sempre encontra as melhores soluções para meus problemas. – disse ele em tom de brincadeira.
E eles caíram na risada, antes de compartilhar mais um beijo.
Ficaram mais alguns minutos naquela posição, enquanto Varian passava a mão delicadamente em suas costas.
— Acha que eles ouviram? – perguntou Varian depois de um tempo. Estava se referindo aos guardas?
— Não. – disse ela com a cabeça no ombro dele. – Nesse momento eles devem estar vendo as faxineiras limparem o corredor e apostando que vão ver a calcinha de alguma delas hoje.
Varian olhou-a surpreso.
— Como você sabe disso?
— Fui eu quem os designei para guarda da sala. Eles são um pouco tarados, mas prestam atenção nos mínimos detalhes de qualquer pessoa. E quando estão a serviço, ignoram qualquer som que venha daqui que não seja um chamado ou seu grito.
— Então, se você gritasse, eles não viriam? – ele estava deliciado com a competência dela.
— Não. Achariam que estou sendo castigada por um bom motivo e não viriam em meu socorro. – desceu o dedo pelo peito dele e então falou – Mas se fosse o seu, entrariam com a ordem de me atacar imediatamente.
Será que deixaria de se surpreender com ela em algum momento?
Ficaram se encarando mais um tempo, e Varian percorreu o corpo dela com os olhos e se surpreendeu com o que viu.
— O que são essas marcas? – perguntou passando os dedos pela cintura dela.
— Foram suas mãos ontem, majestade. – disse sem conter o riso – Acho que ficarei com mais algumas depois dessa.... reunião.
Dessa vez ele não riu. Fitou preocupado as marcas, até que ela pegou em seu queixo e o ergueu em direção ao seu rosto.
— Esqueça isso.
— Não quero te machucar.
— Você não machucou. Foi maravilho. – e o beijou novamente – Maravilhoso.
Varian sentiu que estava ficando excitado de novo, mas daquela vez ele não se deixaria levar tão facilmente. Com a mente clara depois do sexo, e a afirmativa dela que iriam se encontrar de novo, ele sabia o que fazer.
— Venha. – disse ele apontando para as roupas – Vamos nos vestir. Quero lhe mostrar algo.
Lina atendeu o pedido e logo estava com suas roupas. Percebeu, sem deixar de rir, que ela se vestira rápido e facilmente, enquanto ele lutava para pôr a armadura no lugar. Obviamente ele sempre tinha ajuda para fazê-lo. Por isso, ela o ajudou a se vestir, enquanto ele a observava encantado.
Como não reparara nela antes?
— Antes de irmos. – disse Lina de repente ficando séria novamente – Gostaria de lhe perguntar algo.
— Pergunte.
— Isso que aconteceu entre nós, vai mudar nossa relação como rei e comandante? – era óbvio que ela queria perguntar aquilo desde o início.
— Não da minha parte. – respondeu.
Ela suspirou aliviada.
— Nem da minha.
A última peça da armadura dele foi encaixada e Lina o olhou de cima a baixo. Depois, se aproximou mais de Varian e passou a mão pelos seus cabelos. Um arrepio percorreu o corpo do guerreiro.
— Precisa ajeitar seu cabelo antes de sairmos. – disse.
Ele assentiu e soltou o cabelo, antes de amarrá-lo de novo. Ele ficava tão absurdamente lindo de cabelo soltou que Lina prendeu a respiração.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Pronto? – perguntou.
— Pronto.
— Vamos.
E mais uma vez Lina passou a segui-lo. Só que dessa vez ela não ia apreensiva, mas curiosa. Na verdade, mal conseguia acreditar no que acabara de acontecer e em sua própria ousadia de se auto declarar amante do rei. E o pior de tudo, é que ele aceitara. Apertou os lábios para conter o riso, mas era quase impossível.
— Do que está rindo? – perguntou Varian ao saírem da Bastilha e se encaminharem para o bosque.
— Essa situação é tão improvável que me faz rir. – respondeu.
— Verdade. – confirmou ele rindo também.
Quem os visse caminhando lado a lado, não veria nada mais que a comandante do exército acompanhada o rei. Mas se essa mesma pessoa prestasse atenção no rosto deles, veria algo que o deixaria confuso. Eles riam e pareciam felizes. Não por Ventobravo ou pela Aliança, mas simplesmente por estarem um na presença do outro.
Mas ninguém os viu e logo Varian a estava levando por um caminho tortuoso, cheio de espinhos que ela não conhecia. Quando se deu conta que estava numa parte afastada e isolada da bastilha, entre os altos muros da cidade e uma vegetação tensa, imaginou se ele a levava ali para que pudesse fazer sexo mais uma vez. A comandante ficou excitada só de pensar nisso.
— Aqui. — disse ele ao chegar a uma parte do muro corroída.
A comandante parou e observou enquanto ele passava a mão na rocha nua. Uma suspeita se formou em sua mente e foi confirmada quando uma passagem se abriu.
— Venha.
O caminho era estreito e ficou escuro assim que a passagem se fechou. Varian então pegou um bastão que estava encaixado na parede e passou a mão pelo globo escuro em seu topo. Uma luz fraca, mas eficiente, acendeu. Então, começaram a caminhar.
— Varian isso é ...
— Shh... – pediu ele – Estamos bem embaixo da cozinha.
Ela se calou e o seguiu. Andaram por um bom tempo, num caminho com curvas, subidas e descidas. Por fim, pararam em frente a uma parede e o rei encaixou o bastão novamente na parede. Contou três tijolos à esquerda e apertou o quarto. A parede se abriu revelando um enorme e suntuoso quarto.
A comandante entrou boquiaberta. Sabia onde estava. Era o quarto dele.
— Majestade, como não me contou dessa passagem?! — agora era Wood quem falava e não Lina. E a comandante estava perplexa e irritada – Preciso designar soldados para patrulhar aqui por perto, ainda que discretamente pois-
Varian a calou com um beijo. E em instantes as armaduras estavam novamente no chão e Lina provava o que seria o primeiro de muitos momentos na cama real.
************************
Doroteya acompanhou a saída de Wood e do Rei a distância, quando aguardava a passagem de alguns criados pelo corredor. Apesar de preocupada com a situação de sua amiga, algo lhe dizia que se havia alguém que poderia lidar com toda essa situação e ainda sair triunfante, seria a comandante. Afinal, não fora raiva ou mágoa que sentiu vindo do rei Wrynn em direção a Lina.
Era desejo.
Como apenas ela sabia do que acontecera naquela noite e tinha a posição privilegiada de estar do lado de fora dos acontecimentos, deu para prestar bem atenção na postura dos dois envolvidos. Lina, como era de se esperar, se armadura, para proteger a si mesma e seu posto. Ela iria ficar na defensiva, e provavelmente diria coisas que o rei não esperava ouvir. Já o rei, fora em busca, não dá comandante, mas da mulher do baile. Como estava inclinado a trata-la como na noite anterior, se surpreenderia como a comandante, mas acabaria dominado pelo desejo. Afinal, por mais que a roupa, os cabelos e a postura fosse diferente, tinha certeza que o rei tinha, pela primeira vez, visto realmente a alma de Lina e se encantara por ela. A postura militar não eliminara a bondade e sinceridade da comandante. E Doroteya tinha certeza que Varian vira isso, e fora em busca disso.
Ah, claro, tinha o sexo também. Mas o que era o sexo se não a junção de duas almas, ainda que momentaneamente?
Se perguntou quanto tempo levaria para que ambos percebessem o quão rápido e profundamente se entrelaçaram na noite anterior. Ela poderia dizer, claro, mas sabia que era algo que eles teriam que perceber por si só.
Então, só restava esperar.
Decidiu que seria melhor voltar para a sala de Wood. Sentir-se-ia mais à vontade lá, onde as chances de encontrar alguém de seu povo eram bem menores. Principalmente se o alguém fosse o rei Greymane.
Ao retornar, viu que Lina tinha deixado várias folhas rabiscadas que precisavam serem passadas a limpo e devidamente numeradas. Como tinha estado todo tempo ali auxiliando-a, sabia exatamente o que a comandante pretendia fazer. Achou por bem agilizar o trabalho da amiga, pois se a conversa com o rei demorasse tanto quanto achava que demoraria (e provavelmente não seria apenas uma conversa), a comandante não teria tempo de passar tudo aquilo a limpo para o dia seguinte. Assumiu então sua forma humana, onde suas mãos eram menores e poderiam manusear a pena com mais destreza, sentou-se à mesa, e passou a ler e organizar as folhas.
Era bem mais simples do que tinha imaginado, e logo estava imersa no trabalho. Como era bem menor que a comandante, suas pernas ficavam balançando, pois não alcançavam o chão. Se estivesse na forma de worgenin, aquilo não ocorreria. Os worgens eram bem maiores que os humanos, apesar de Doroteya ser considerada uma worgenin pequena para os padrões da raça. Mas até que era divertido ficar balançando as pernas. Pensou que, se Theo estivesse ali, iria rir e dizer que passaria em altura da mãe quando fizesse dez anos.
E Doroteya não duvidava disso.
Theo era alto e robusto como o pai. Seus cabelos eram ruivos e possuía olhos tão verdes quando as matas. Se Greymane colocasse os olhos em cima do menino, veria o perfeito reflexo do seu filho ainda criança. Isso deveria ser suficiente para fazer com que ela mantivesse seu filho longe dali, mas a saudade estava falando mais alto. A perspectiva de ter seu menino ali com ela de novo, superava todo medo. Afinal, só tinham um ao outro naquele mundo terrível.
Estava tão imersa na imagem de Theo e em quanto sentia falta dele, que demorou a perceber que alguém entrara na sala e a observava demoradamente. Levantou a cabeça e se assustou um pouco com o que viu.
O homem a sua frente parecia maltratado e estava maltrapilho. Estava envolto em uma capa marrom desgastadas, de onde só podia ver seus pés, numa sandália que obviamente fora remendada muitas vezes e as mãos, cujas unhas estavam roídas até a carne. Seus cabelos eram lisos e pretos, mas estavam longos, descuidados e sujos. Uma espessa barba cobria seu rosto e a única coisa que parecia limpa eram seus olhos. Tinha profundos olhos verdes. No primeiro momento, achou que estava se confundindo, pois pensava em Theo. Mas depois viu que os olhos do homem também eram verdes, mas numa coloração mais clara que a do seu filho. Ainda assim, achou aquele olhar familiar.
E aquele olhar a analisava da mesma forma que Doroteya o também o fazia.
— Onde está a comandante Wood? – perguntou numa voz rouca e falha, como se não tivesse sido usada por um longo tempo.
Doroteya hesitou por um momento. Quem seria aquele homem? Contudo, pensou, se ele fosse perigoso, os guardas não teriam deixado ele entrar. Talvez fosse um espião, um informante, alguma coisa assim.
— Ela está em uma reunião com o rei. – disse por fim.
— Ela vai demorar? – quis saber.
— Não sei. Provavelmente.
Provavelmente demoraria porque suspeitava que “reunião” não era o termo mais apropriado para o que provavelmente aconteceria com aqueles dois. Contudo, aquilo ficou apenas em sua cabeça.
O homem não pareceu muito satisfeito com a resposta dela, e passou as mãos pelos cabelos. Doroteya se assustou ao ver com clareza o braço dele; sua magreza era inacreditável. Com certeza estava ali alguém que passava fome a algum tempo.
— Posso ajudá-lo de alguma forma, senhor? – perguntou imaginando se oferecer os biscoitos que estavam em sua bolsa seria considerado ofensivo.
— Não. – respondeu incisivo – Apenas ela pode me ajudar. — e olhando em volta, como se estivesse decidindo algo, falou – Vou deixar um recado com você.
— Certo. – Doroteya começava a ficar seriamente preocupada.
— Diga a ela que Tommy veio aqui. E que ele quer fazer parte da missão de amanhã.
A worgenin ficou olhando fixamente para o homem, se perguntando se ele era louco ou um piadista de mau gosto. Qualquer um poderia ver que a última coisa que ele poderia fazer era uma missão; tomar um banho e tomar um bom prato de sopa talvez fosse mais indicado. Só que, como não sabia exatamente o que esperar daquela inusitada figura, apenas assentiu com a cabeça e respondeu:
— Passarei o recado adiante.
Aquilo pareceu deixa-lo mais calmo. Olhou mais uma vez para ela, como se ainda estivesse decidindo sobre sua existência, e depois saiu, sem se despedir, tão abruptamente quando chegara, deixando uma estranha sensação em Doroteya que não seria a última vez que o veria.
*****************************
— Varian, gostaria de ser sincera com você.
Após fazerem amor várias e várias vezes, Varian e Lina decidiram que era hora de parar para que ela pudesse continuar com seu trabalho. Para o rei, era muito difícil vê-la se vestindo para partir, pois tudo que queria era continuar sentindo seu cheio e a maciez de seus braços. Estava naquele momento observando as curvas generosas do corpo dela, quando ouviu a frase.
— E quando você não foi? – perguntou com um pequeno sorriso no rosto.
Wood não retribuiu o sorriso.
— Talvez você não goste do que eu fale. – avisou.
— Vá em frente. – disse confiante que os momentos anteriores tinham derrubados todas as barreiras entre eles – Seja o mais sincera que você quiser.
— Ótimo. – disse assumindo um ar de seriedade – Você tem ideia do problema que arranjou colocando Arshe na missão de amanhã? Ela vai estar longe da Bastilha, em um lugar que provavelmente é reduto dos Defias, que odiavam tanto o pai dela quanto odeiam você.
Por um momento o rei ficou confuso, pois não sabia sobre o que exatamente ela estava falando. Afinal, não lembrava de ter permitido nada, muito menos com Arshe e, inclusive a garota-
Foi quando houve um estalo em sua mente.
— Pela Luz! – murmurou estarrecido.
Sim, Arshe tinha feito um pedido. Sim, ele tinha concedido. Só que, até aquele momento, não se tocara exatamente do que era.
Wood não falou nada, apenas terminou de vestir a armadura.
— Como eu pude permitir isso? – se martirizou Varian.
— Não sei. – respondeu Wood tristemente – Mas ela quer ir e você deu autorização.
— Eu posso revogar. – disse ele.
— Pode mesmo? – questionou ela.
A verdade era que ele não podia. Um dos motivos para um rei ser cauteloso e sábio em suas palavras, era porque não podia simplesmente voltar atrás quando algo não o agradava. Ser rei, era saber o que falar, na hora exata de falar, e arcar com as consequências de suas palavras. Se ele revogasse o que disse a Arshe, seria esse argumento que ela usaria. E a jovem maga estaria certa. E como não fora apenas Arshe quem o ouvira, mas também Wood e a worgenin, não poderia simplesmente negar o fato.
— Pela Luz, o que eu fiz?! – o rei parecia mortificado.
Wood, que ainda estava um pouco chateada com a autorização dele, esmoreceu um pouco. Pensando agora cm clareza, talvez fosse um pouco culpa sua. Afinal, Varian estava tão focado nela, que nem ao menos entendera o pedido de Arshe. Por isso, a comandante, que já estava para ir embora, sentou-se novamente na cama, onde o rei ainda jazia sem roupas e colocou a mão enluvada no rosto dele.
— Não se preocupe. Eu cuidarei dela. Devo isso a Bolvar.
Varian sacudiu a cabeça em negativa.
— Você não deveria ter mais essa preocupação além da que já terá amanhã. Foi um erro meu não ter ponderado sobre o pedido dela.
— Você só tinha olhos para mim. – brincou.
Para sua surpresa, Varian deu uma risada.
— Sim, é verdade. – e assumindo novamente um ar preocupado, pediu – Não há como você deixa-la de fora?
— Eu disse sim, logo depois de você. Ela vai ter muitos argumentos para suar ao favor dela. – Wood suspirou e deu de ombros – E se o que Bolvar me falava dela for verdade, eu que não quero discussão. Se ela conseguia dobrar o pai, seja por argumentos ou vencendo pelo cansaço, o que não fará comigo, que não tenho a metade da paciência que ele tinha?
Varian não pode deixar de rir. Sim, aquela era algo que ele sempre gostara em Arshe: ela simplesmente não desistia. Por isso a escolhera como embaixatriz. A jovem maga sabia como ninguém lutar pelos interesses de Ventobravo e sempre conseguia alguma coisa. Na maioria das vezes, sua fama precedia sua chegada e as pessoas simplesmente davam o que ela pedia. Afinal, um embate seria demorado, custoso e Arshe tinha uma paciência quase ilimitada, como o pai, para conseguir o que queria. E se desistia de conseguir, podia-se ter a certeza que ninguém mais conseguiria. Mesmo que a permissão que dera a ela não tivesse sido palavra de rei, Varian sabia que não conseguiria voltar atrás na decisão. Arshe não permitiria aquilo.
— Você acha que ela está em real perigo? – perguntou ele por fim.
— Todos nós sempre estamos. – disse a comandante.
O rei assentiu.
— Cuide dela. – pediu.
— Nem que isso custe minha vida. – garantiu a comandante. Afinal, nunca esquecera quão bom o Grão-lorde Fordragon fora bom para ela.
Todavia, Varian pareceu não gostar muito da afirmativa.
— Cuide dela, mas cuide-se também. – corrigiu-se.
Foi a vez de Wood rir.
— Acho que está pedindo demais, majestade. – e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, o beijou.
Varian teve vontade de puxá-la de novo para a cama, mas Wood foi mais rápida. Se desvencilhou do beijo e, enquanto ele ainda processava o gosto de seus lábios, ela mandou um beijinho no ar e sumiu pela passagem secreta.
A comandante conseguiu facilmente voltar, fazendo o mesmo trajeto e usando o mesmo bastão mágico que o rei. Quando saiu do corredor, ficou surpresa por ver que já estava quase no final da tarde e ela ainda tinha muita coisa para fazer. Voltou o mais rápido que seu corpo dolorido permitiu, já imaginando que ficaria até altas horas organizando aqueles papéis. Andava, porém, com um sorriso no rosto. Valera a pena.
E qual não foi sua surpresa ao chegar na sua sala e encontrar tudo devidamente organizado e passado a limpo numa letra linda e legível, bem diferente da letra apressada e torta que ela tinha. Doroteya estava lá em sua forma humana, sentada na mesa, terminando de numerar as últimas páginas e sorriu calorosamente quando ela entrou.
— Vejo que ainda está no seu cargo! – disse com sua voz melodiosa de passarinho.
Wood já tinha até esquecido que estivera preocupada com seu cargo. Mas logo abriu um sorriso também, bem mais discreto que o da outra.
— Sim. Ainda estou aqui. – e olhando para a mesa, pegou os papéis – Você quem organizou tudo isso?
Doroteya assentiu com a cabeça.
— Quis poupar trabalho para você. – e então, perguntou timidamente – Fiz errado?
Wood encarou os papéis seriamente. O nome de Arshe já estava ali.
— Claro que não. — respondeu depois de um momento — Fez o que uma assistente deveria ter feito. – e foi até a porta, chamou um guarda do corredor e ordenou – Leve isso para o Sargento Meireles. Diga para que ele providencie a convocação de todos os soldados da lista para amanhã pela manhã.
— Sim senhora. – falou o soldado e saiu rapidamente.
Quando Wood se voltou para Doroteya, a worgenin tinha um sorriso de expectativa.
— Não se preocupe Dorô, vamos buscar seu filho, como prometi. – falou em um tom tranquilizante.
— Eu sei que vamos. – respondeu ela singelamente – Sabia que você cumpriria a promessa.
— Então porque você está me olhando com essa expectativa toda? – questionou, mas já prevendo o que seria.
— Como foi? – ela não precisou dizer ao que se referia. Sua expressão já deixava isso bem claro.
Wood passou a mão no cabelo e sorriu encabulada. Tivera a sorte daquele dia o movimento ser muito pequeno ali na sala, pois detestaria que alguém mais visse a expressão abobalhada que ela provavelmente estava ostentando. E agora, com tudo mais calmo e a cabeça mais arejada, percebeu que Doroteya soubera do final dos acontecimentos assim que pusera os olhos no rei. Aparentemente ela era a única que não estava entretida com nada e pudera raciocinar um pouco diante da postura do rei.
Isso porque a princesa Arshe estava preocupada com outros assuntos.
Como se tivesse sido invocada pelo pensamento de Wood, Arshe entrou novamente na sala, escancarando a porta como da vez anterior e assustando as duas novamente.
— Comandante! Preciso falar com a senhora!
Wood e Doroteya se olharam rapidamente e se prometeram, em silêncio, que falariam sobre aquele assunto depois.
— Interrompi algo? – perguntou a princesa percebendo a troca de olhares.
— Claro que não. – afirmou a comandante convicta – Vossa alteza apenas nos assustou.
— Desculpe, é que estou tão animada! – e ela parecia animada mesmo, ainda que sua palidez inspirasse cuidados.
— O que quer falar comigo, alteza? – perguntou Wood com um sorriso no rosto.
Talvez fosse a quantidade de sexo que tivesse lhe deixado mais mole, mas naquele momento pensou que talvez até fosse engraçado ter Arshe no grupo. Seria divertido ver como a princesa lidaria com o mato.
— É sobre amanhã. — a princesa rapidamente se sentou na cadeira em frente à mesa da comandante e abriu uma caderneta pequena que trazia na mão junto com uma caneta tinteiro – Será apenas uma investigação? Quem fará o interrogatório? Poderia ser eu? Sou boa em conseguir informações. Seria melhor eu ir disfarçada? A senhora está tão preocupada com minha segurança que pensei nessa possibilidade.
A princesa continuou despejando perguntas apressadamente que quase fizeram o cérebro de Wood travar. Doroteya cedeu o lugar na mesa para comandante, que sentou lentamente enquanto a princesa continuava falando. Quando Arshe terminou e a olhou em expectativa, esperando uma resposta, a comandante suspirou.
— Princesa Arshe, tem certeza que quer participar disso? — perguntou calmamente. Varian com certeza lhe fazia bem, pois de outra forma ela teria sido bem mais rude com a jovem maga – Nós iremos para um lugar possivelmente perigoso, que não terá nenhum tipo de conforto e sem previsão de volta.
— Eu sei disso tudo. — afirmou a outra convicta – E estou disposta a participar.
Sim, ela era teimosa exatamente do jeito que Bolvar falava, pensou Wood desanimada.
— Seu pai não aprovaria que a senhorita se submetesse a algo assim. — observou a comandante torcendo para seu argumento funcionar.
O sorriso vacilou no rosto de Arshe e ela ficou séria por um momento. A comandante sentiu-se mal de usar a imagem do pai morto da garota para convencê-la, mas sabia que era para o bem da própria. Contudo, Arshe logo se recuperou. Respirou fundo antes de dizer, enfática:
— Meu pai estaria orgulhoso em saber que estou disposta a deixar meu conforto pelo bem da Aliança.
As duas se encaram por alguns segundos, cada uma sustentando um olhar decidido. Por fim, Wood achou melhor não tentar convencê-la a nada e esperar apenas que a princesa não se machucasse na missão e ficasse traumatizada o suficiente para não tentar participar de outra ao lado da comandante.
— Certo. – cedeu por fim — Tudo bem. Anote aí. — Wood apontou para a caderneta de Arshe – Inicialmente será apenas uma investigação. Evitaremos entrar em conflitos desnecessários. Interrogaremos o prefeito da vila, os guardas de lá e alguns cidadãos. De preferência os comerciantes, eles sempre sabem mais que os outros. Prioritariamente sou eu quem faço as perguntas, mas deixarei que vossa majestade participe, se achar conveniente.
— Eu acho que posso participar mais ativamente. — contestou Arshe – Estou acostumada a tirar informações das pessoas.
— De líderes e nobres. — corrigiu Wood – Vossa alteza não está acostumada a lidar com o tipo de pessoas que vamos encontrar.
— Mas posso tentar. — insistiu.
— Veremos. — cortou a comandante. — Mais alguma dúvida?
Arshe verificou a caderneta.
— Na verdade tenho mais algumas.
Wood pediu a Luz que mantivesse sua cabeça clara e sua mente relaxada como estava antes da chegada de Arshe.
— Tudo bem princesa, temos tempo. — Wood verificou seus papéis – Não há ninguém me esperando no momento mesmo...
Foi quando Doroteya lembrou-se do homem maltrapilho que entrara ali e pedira para falar com Wood. Por um momento se perguntou se deveria mesmo falar com a comandante, pois aquele homem era tão estranho e pedira algo tão absurdo que não poderia ser verdade. Todavia, achou melhor deixar a outra decidir isso.
— Na verdade, alguém lhe procurou, Lina.
— Foi? – perguntou a comandante displicentemente — Quem?
Doroteya hesitou um pouco.
— Foi meio estranho. — admitiu – Um homem que parecia precisar desesperadamente de um prato de comida e um banho apareceu aqui. — e dando uma pausa, acrescentou – Tive a sensação que ele não via gente há um bom tempo.
Wood franziu as sobrancelhas, entranhando a descrição.
— Ele disse o que queria?
Doroteya fez que sim com a cabeça.
— Fazer parte da missão amanhã. Ele disse que seu nome era Tommy.
A expressão de Wood mudou drasticamente após as palavras de Doroteya. Toda a leveza e alegria que seus olhos tinham após resolver suas pendências com o rei sumiram tão subitamente que assustou tanto Doroteya quanto Arshe. O sentimento que se viu a seguir foi uma raiva tão profunda que a druidesa deu, involuntariamente, um passo para trás, como se estivesse com medo de aquela raiva se voltar contra ela.
— Não acredito… — sibilou Wood apertando os olhos – Não acredito que ele teve essa audácia…
Subitamente, Wood levantou, assustando as outras duas. A comandante então se dirigiu a passos largos para a porta. Doroteya olhou para Arshe, apreensiva, e Arshe retribuiu o olhar. Sem dizer uma palavra, a princesa se levantou e as duas seguiram apressadamente a comandante.
Todas os soldados do corredor se encolheram na passagem de Wood. Todos pareciam sentir aquelas ondas de fúria que emanavam dela e temiam ser o alvo de tal sentimento. E foram os dois guardas da entrada da bastilha que acabaram tendo que acertar contas com a comandante.
— Vocês dois! — gritou ela sem perceber que Arshe e Doroteya vinham em seu encalço – Quem deu autorização para meu irmão entrar na Bastilha?
“Irmão?”, pensaram a maga e a druidesa enquanto os pobres guardas se encolhiam. Arshe, inclusive, achou que um deles ia começar a chorar.
— Hein?! — gritou Wood ainda mais furiosa – Qual dos dois?!
O rapaz que estava prestes a chorar, gaguejou:
— F-fui e-eu co-comandan-te….
O outro guarda, uma moça cheia de sardas, não conseguiu esconder o alívio quando o olhar da comandante foi na direção de seu companheiro.
— E porque, pela Luz, você cometeu essa estupidez?! — Wood com certeza não reparara que seus gritos faziam com todos que estavam ao alcance deles estremecerem. – Todos sabem que ele está proibido de entrar aqui!
O rapaz percebeu a presença de Doroteya e Arshe e olhou para elas como se suplicasse ajuda. Mas as duas estavam tão intimidadas quanto qualquer outra pessoa ali, e ficaram completamente sem reação.
— Vamos, estou esperando uma resposta! — exigiu a comandante.
— E-Ele d-disse… — o rapaz engoliu em seco – D-doença... Fa-família… S-seu pai… — o rapaz parecia querer dar mais informações, mas tremia tanto que Doroteya se espantou que ele ainda estivesse de pé.
Pra Wood, porém, aquela informação cortada pareceu bastar. Sua raiva não passou, muito pelo contrário, pareceu aumentar sensivelmente, mas já não estava dirigida a ninguém ali. Ela olhou para o horizonte, como se procurasse o culpado, e então recomeçou a caminhar, desta vez em direção ao estábulo.
O rapaz, aliviado por estar livre do interrogatório, escorregou para o chão, como se não tivesse mais forças nas pernas. Arshe sentiu pena dele, mas compreendeu perfeitamente seu temor: se fosse ela o alvo da comandante, teria se debulhado em lágrimas. Só que não tinha tempo para prestar solidariedade ao guarda. Ela e Doroteya, como que por instinto, seguiram a comandante até o estábulo. Viram quando ela pediu o cavalo e montou apressadamente. Doroteya rapidamente virou um cervo e Arshe ordenou que lhe dessem seu cavalo, o que foi prontamente atendido. Quando a comandante partiu, as duas foram logo atrás e a alcançaram rapidamente. Doroteya pensou por um momento que Wood iria se virar para elas e ordenar que voltassem, mas ela não o fez. Talvez nem tivesse notado a presença das duas ali. E de fato, elas realmente não deveriam estar. Sendo um perceptível caso de problemas familiares, nem ela nem Arshe tinham o direito de estar seguindo a comandante pelas ruas de Ventobravo e posteriormente pela floresta de Elwynn. Apenas o fizeram, foi instintivo. E talvez, a druidesa pensou, tivesse que curar o irmão de Lina, depois que a mesma despejasse sua fúria nele.
Elas não cavalgaram muito. Depois de entrar na floresta, Wood seguiu para o leste e logo pegou uma trilha abandonada, na direção da montanha. Cavalgaram mais um pouco antes de pegarem outra trilha e depois mais outra, até que chegaram a uma clareira, ao sopé da montanha, onde havia uma casa aparentemente abandonada. Wood apeou, amarrou o cavalo no que restava de uma cerca e se dirigiu para a casa. Arshe fez o mesmo. Doroteya voltou a sua forma humana e ambas seguiram Wood.
A comandante não se deu ao trabalho de bater na porta. Ela simplesmente a chutou, fazendo-a ceder com um estalo alto e seco.
— Sabia que você viria. — disse uma voz rouca.
A cabana tinha realmente um aspecto de abandono, mas havia um homem sentado em uma poltrona esfarrapada no centro da sala. Doroteya o reconheceu imediatamente: era o homem que dissera se chamar Tommy. Irmão de Lina. E agora entendeu porque os olhos dele lhe pareceram familiar. Eram da mesma cor e do mesmo formato que os da comandante. Se ele estivesse num estado físico melhor, Doroteya o teria associado a sua amiga mais rapidamente, pois era perceptível que eles tinham os mesmos traços. O problema era que Tommy estava com aquela aparência terrível.
Wood avançou perigosamente para onde estava Tommy, que não pareceu assustado com a fúria da irmã.
— Como você ousa entrar na Bastilha sem minha autorização?! — gritou ela – E ainda usando nosso pai para enganar os meus soldados?!
Tommy levantou-se. Doroteya não tinha reparado como ele era alto antes. Lina era uma mulher alta, mas Tommy ainda era mais. Só que ele parecia que poderia se partir a qualquer momento, tão grande era sua magreza.
— Eu precisava entrar na Bastilha. Apenas fiz o necessário. — respondeu indiferente.
— Não! — gritou-lhe Lina enfurecida – Você não precisava entrar na bastilha! Você mesmo fez questão de dizer que seu lugar não era lá quando pediu para sair! Ou você já esqueceu?!
A boca de Tommy se crispou de raiva e Arshe percebeu que a postura indiferente que ele estava adotando não iria aguentar muito tempo.
— Você não é ninguém para me dizer o que preciso. — falou asperamente.
— Engano seu, Tommy! — vociferou – Posso não ser mais sua comandante, mas ainda sou sua irmã! E como sua irmã, ainda posso lhe dizer umas boas verdades e chutar sua bunda!
Tommy apertou os olhos, com raiva.
— Veja como fala mocinha, sou mais velho que você!
— Falo do jeito que eu quiser, enquanto você continuar sendo esse babaca que você é nos últimos dois anos!
Agora foi a vez de Tommy borbulhar de raiva. A mesma fúria que se via em Lina agora era compartilhada pelo seu irmão. Doroteya e Arshe se encolheram perto da porta, apenas observando.
— Babaca?! Babaca?! — Tommy fechou os punhos e gritou – Eu perdi minha família! Minha mulher e meus filhos foram assassinados! E você vem me chamar de babaca por causa do meu luto?!
Para a surpresa de Doroteya e Arshe, Lina não ficou mais furiosa com as palavras do irmão, muito pelo contrário. A raiva foi substituída por dor e compaixão. Ela respirou fundo e passou a mão no cabelo.
— Tommy… — começou com a voz mais baixa – Eu nunca trataria sua dor com desdém e você sabe disso. Todos nós sofremos com a morte de Ana e das crianças, e compreendemos sua dor. O que nós todos queríamos era que você tivesse aceitado a ajuda da sua família. Sim, porque você ainda tem uma caso tenha esquecido. Mas não, você se embrenhou no mato como um rato assustado!
A raiva de Tommy não esmoreceu, mas sua voz também baixou de tom.
— Eu não me escondi... Eu venho caçando os Defias durante todo esse tempo. Venho caçando esses desgraçados desde que eles acabaram com tudo que eu tinha!
A situação começou a ficar mais clara para Doroteya e Arshe, tanto o que acontecera quanto o que Tommy pretendia. Ele tivera sua família assassinada pelos Defias e tinha vivido até em tão em busca de vingança. Pela aparência que ele tinha agora, estava claro que, além de ainda não ter sido bem-sucedido em seu o intento, Tommy vinha ignorando a si próprio, como se estivesse se matando aos poucos.
Lina não parecia surpresa com a revelação do irmão. Nem intimidada. Em uma atitude de desafio, cruzou os braços e perguntou em tom de incredulidade.
— Quantos Defias você já matou, Tommy?
O rosto de Tommy ficou escarlate. Ele recuou um pouco e gaguejou quando respondeu:
— N-Nenhum. – admitiu, mas logo firmou a voz e exclamou – Mas estou perto!
A comandante suspirou. Parecia desolada.
— Não, não está. — disse com tristeza na voz – E vou lhe dizer o porquê: você pode achar que isolado aqui não sabemos das coisas, mas você está enganado. Eu sei que você não sai dessa casa. Eu sei que você não caça pista coisa nenhuma. Eu sei que você está aqui se remoendo em dor, sai de vez em quando, faz perguntas sem sentido e volta para se afundar em dor de novo.
— Mentira! — gritou Tommy.
— Não, não é. — retrucou Wood – Se você realmente quisesse vingança, teria vivido seu luto e depois voltado e me ajudado a caçar esses imbecis! Eu fiz isso! Cacei eles antes, e estou caçando agora! Eu tenho procurado justiça para sua família, porque ela era minha família também!
— Sua hipócrita! — Tommy deu uns passos para frente, na direção da irmã, com os punhos cerrados – Você nunca gostou de Ana!
— Mas nunca quis a morte dela! — gritou Lina de volta – E eu amava as crianças! Ou você vai olhar na minha cara e dizer que eu queria a morte delas?!
Ninguém precisava conhecer a comandante intimamente para saber que ela era incapaz de querer a morte de qualquer criança, muito menos de duas crianças pertencentes de sua família. Tommy ainda abriu a boca para retrucar, mas fechou logo em seguida. Nem mesmo ele ousava discordar de sua irmã.
Um silêncio brutal se seguiu, sendo interrompido apenas pelo barulho do que restara da porta sendo empurrada pelo vento. Doroteya e Arshe não ousavam falar nada, nem se mexer nem mesmo respirar com mais força. Apenas assistiam aquele embate familiar, sentindo-se meio culpadas e meio perdidas de estarem ali.
— Tommy... – recomeçou Lina com mais calma — Eu entendo sua dor. De verdade. Mas você não pode simplesmente querer voltar agora e interferir numa missão tão importante quanto a de amanhã.
— Ou seja, você não quer me ajudar. – retrucou ele rispidamente – Diz quer me entende, mas não quer me ajudar!
— Eu tentei te ajudar e não foi só uma vez. – respondeu — Mas você preferiu se enroscar em si
mesmo e se matar lentamente!
— Mentira. Eu pedi sua ajuda e você recusou. – acusou Tommy.
— Não, você não me pediu ajuda. — retrucou Lina com a raiva voltando à sua voz — Você pediu que eu cometesse um crime. Você queria que eu o ajudasse a matar um vilarejo suspeito de ligação com os Defias. Todo o vilarejo. Exatamente a mesma coisa que Arthas Menethil fez com Stratholme!
— Era diferente! — gritou o homem.
— Não, não era! — gritou-lhe a irmã de volta – Era vingança contra inocentes! Uma matança sem justificativa!
— Eles mataram minha família! — Tommy parecia agora descontrolado.
— Os Defias mataram sua família! Aquelas pessoas eram parentes deles e responderam pelo que fizeram na justiça de Ventobravo! É assim que fazemos aqui!
— Não! Era assim que Fordragon fazia! Você virou uma imitação dele!
Arshe estremeceu ao ouvir o nome de seu pai mencionado. Sim, aquilo seria uma atitude que o Grão-Lorde faria. Não um ataque imediato a suspeitos, mas a investigação apurada, prisão e pena de acordo com seus delitos. Se o vilarejo fosse suspeito de haver colaborado com as atividades dos Defias, seriam investigados. Se fosse comprovada a participação direta nos assassinatos, seriam presos e executados. Mas caso não houvesse provas do ato em si, a pena seria mais branda, normalmente a tomada de seus bens e o exílio.
Muitos o consideravam mole demais. Arshe o achava o homem mais leal e justo do mundo. Mas uma pessoa sofrendo, como Tommy sofria, não veria dessa forma.
— O lorde Fordragon foi meu mentor e uma das melhores pessoas que conheci. Se meu trabalho está parecido com o dele, me sinto lisonjeada. — retrucou a comandante com altivez.
Suas palavras não foram bem recebidas por seu irmão. Tommy andou de um lado para outro, como um animal que analisa um inimigo e, para surpresa de todas, ele riu.
— Mentor? Ele foi realmente seu mentor, Lina? — havia malícia em suas palavras – Ou você dava para ele, como todo mundo suspeitava?
O objetivo de Tommy com certeza era atingir Lina, mas atingiu Arshe antes de tudo. Como? Seu pai com um caso com a comandante? Pela Luz, ele estava louco? Seu pai sempre gostara muito de Wood, mas não daquela forma. Seu pai sempre respeitara as mulheres com quem trabalhava. Como ele ousava a achar que seu pai era como um daquele nobres imundos que se aproveitam de suas subordinadas? A raiva da princesa era tanta que seu rosto ficou muito vermelho e sua mão se crispou, formando uma fina crosta de gelo. Irmão da comandante ou não, ela iria fazer aquele homem engolir suas palavras!
Contudo, a reação de Lina foi mais rápida. Mesmo que Tommy estivesse em forma, não teria conseguido reagir a tempo de evitar o golpe da irmã. O punho fechado dela foi direto na garganta dele, que deu dois passos para trás, engasgou e cuspiu sangue. Mas não foi só isso. Depois de deixá-lo sem voz, Lina o acertou no queixo com tanta força que as outras puderam ouvir quando o maxilar se partiu. O homem caiu no chão, bateu a cabeça e apagou, mas Lina estava tão enfurecida que não parou e deferiu um chute em sua barriga. A surra com certeza teria continuado, se Doroteya não tivesse se adiantado e segurado a amiga.
— Não ouse falar assim de mim! Nem de Fordragon! Nunca mais! — gritou Lina descontrolada tentando se libertar de Doroteya.
— Pare Lina! — pediu a druidesa – Você vai matá-lo!
— Mais é isso que ele quer! – gritou — Morrer! Então vou ajudá-lo! — e olhando fixamente para o irmão, continuou — Não é minha ajuda que você quer?! Deixe-me ajudá-lo a morrer!
— Ele não te ouve mais Lina. — avisou Doroteya – Ele desmaiou.
Lina precisou de mais alguns instantes para se acalmar e parar de tentar continuar a bater no irmão. Quando a comandante parou de se debater, Doroteya a soltou e foi imediatamente em direção a Tommy.
— Não o cure! – avisou – Deixe-o do jeito que está!
— Mas Lina... – ela se agachou e analisou a situação — Ele pode morrer!
— Não!
A worgenin olhou para a boca de Tommy, de onde escorria sangue.
— Deixe-me pelo menos restaurar a garganta dele. Para ele não morrer asfixiado. – pediu com os olhos suplicantes.
A comandante considerou por um instante e lembrou-se dos pais.
— Apenas o suficiente para ele não morrer e continuar apagado. – permitiu.
E enquanto Doroteya curava Tommy com cuidado, a comandante, passou as duas mais na cabeça. Que dia! Que dia! Como podia, em menos de doze horas, sua vida virar totalmente de cabeça para baixo?!
— Comandante? – chamou Arshe timidamente.
Lina a olhou, surpresa, e depois olhou para Doroteya. Foi só então que percebeu que tudo tinha sido visto e ouvido pelas duas. Soltou um palavrão que fez Arshe engasgar, e começou a andar de um lado para o outro.
— Vocês duas não deviam estar aqui! – disse nervosa — Principalmente você princesa! É perigoso!
— Sim, eu acho que devíamos. – retrucou a princesa – A Doroteya para impedir que você matasse seu irmão. E eu para lhe dizer que não acredito naquilo que ele falou.
No chão, Tommy tossiu um pouco, mas foi uma tosse seca, sem sangue. Contudo, continuou desacordado. Lina parou de andar e encarou Arshe. Sentiu-se imediatamente desconfortável. Bolvar sempre fizera de tudo para os boatos não chegar nos ouvidos da filha e Arshe acabara sabendo da pior forma possível. E o pai da garota nem estava ali para se defender.
— Eu nunca tive nada com seu pai. – afirmou a comandante – Ele foi meu mentor e devo tudo que sou a ele. Mas ele nunca encostou uma mão em mim.
— Eu sei. – respondeu Arshe tranquilamente — Meu pai a estimava muito. Eu até sentia um pouco de ciúme sabe? – admitiu abanando as mãos como se espantasse uma lembrança ruim – Ciúme de filha sabe? Do tipo que eu teria se tivesse uma irmã. – e respirou fundo – Acho que era assim que ele te via. Como uma filha.
As duas se encararam meio sem jeito. Lina sabia que era mais velha que Arshe, uns quatro ou cinco anos. Lembrava dela ainda mocinha, com o vestido cheio de babados e implorando a atenção do pai. Ela não tivera irmãos; o mais próximo disso era Anduin. Sabia também que sua mãe morrer ano parto e que Ela e Bolvar só tinha um ao outro. Era lisonjeiro e intimidador ao mesmo tempo imaginar que o Grão-lorde a considerara uma filha.
— Ok, muito bem. – Lina recuperara a postura depois daquela conversa – Eu devo muito ao seu pai, então vamos deixar as coisas claras, princesa. Amanhã, você me obedece. Não questionará e só fará o que eu ordenar. Lutará se eu permitir e fugirá se eu ordenar. Entendido?
Arshe riu.
— Falou igual ao meu pai agora, comandante. – e como a outra ainda a olhava fixamente, concordou com a cabeça – Entendido.
Ouviu-se um pigarro e Arshe e Lina voltaram suas cabeças para onde estava Doroteya.
— O que faremos com ele? – perguntou a druidesa
Doroteya, que assistiu a conversa das duas após curar parcialmente Tommy, estava preocupada. Mesmo que tivesse reparado a garganta do homem e curado sua cabeça, temia que o choque da discussão e da queda o matasse. Era visível que sua saúde estava fragilizada e que até mesmo o vento ameno do final da tarde que entrava na cabana poderia lhe fazer ficar doente.
Após pensar um pouco, a comandante chegou à conclusão que não iria mais permitir a insanidade de seu irmão. Iria ajudar ele sim, mas do jeito dela. E a primeira coisa que faria era tirar Tommy do meio de mato, levar para Ventobravo e cuidar para quer ele não morresse de inanição.
— Você pode levar ele em suas costas, em sua forma de viagem?
Doroteya assentiu.
— Então vamos amarrá-lo e leva-lo para casa. – e olhando para Arshe, convidou – Você pode vir se quiser. Meus irmãos vão morrer de pena quando verem o Tommy, mas vão estar tão absortos em sua presença que não vão me impedir de deixá-lo amarrado em um dos quartos.
— Adoraria ajuda-la, comandante! – aceitou Arshe de bom grado.
A comandante respirou fundo.
— Muito bem. Vamos logo, nós três. Há um longo caminho pela frente.
O que a comandante não sabia, era que aquele longo caminho iria firmar uma longa e duradoura amizade entre a três, que se sobressairia ao tempo e as adversidades de suas vidas.
Fale com o autor