Herdeiros: O regresso dos fundadores
3 Capítulo III - All thanks to meatballs
Notas iniciais

Aquele finzinho de tarde estava extremamente convidativo e perfeito para brincar ao ar livre. O sol brilhava forte, o céu azul tinha poucas nuvens e a brisa que fazia ali, era leve e pouco gélida. Mas apesar disso, os filhos do Sr. e da Sra. Hoffmeister jogavam xadrez bruxo na pequena e pouco iluminada sala de sua casa, uma humilde toca enfeitiçada para tornar seu interior maior.
—Eeee... Xeque mate! GANHEI!- gritou Catharina, a mais velha, ao dar a última jogada. Ela era uma menina bonita e extremamente inteligente que adorava brincar com seu irmão, pois sempre ganhava dele.
—Não é justo, você roubou!- queixou-se Pietro, o caçula que receberá o nome do pai, irritado por ter perdido pela decima segunda vez.
—Não roubei não, você que é péssimo nesse jogo pirralho! – disse ela ao fazer careta para o irmão.
—Eu vou te matar Kat!- retrucou Pietro já pulando em cima da irmã. O jovem menino de cabelos dourados ficava extremamente irritado quando alguém feria sua masculinidade. Apesar de ter somente 11 anos, Pietro achava que já era “um homem, e devia ser respeitado como tal”, como ele mesmo sempre dizia.
A briga foi feia, cabelos puxados, arranhões, tapas e chutes. Entretanto, todas as brigas deles eram assim, então não era novidade para seus pais, que nem ligaram para os dois e continuaram a fazer o que estavam fazendo. Erika, uma mulher jovem e muito bonita, apenas revirou os olhos e deu uma risadinha enquanto terminava de fazer o jantar, o melhor macarrão com almondegas que você poderia provar na sua vida, e Pietro I, um homem extremamente charmoso, continuou a ler seu jornal e nem sequer desviou o olhar para ver o estrago que aqueles dois monstrinhos estavam fazendo. Isso até a campainha tocar.
—Eles chegaram!- disse o Sr. Hoffmeister ao se levantar rapidamente da enorme cadeira de balanço que estava sentado e soltar o Profeta Diário na velha mesa de centro da sala, aberto na seção de empregos. -VOCÊS DOIS PAREM JÁ DE BRIGAR E SE COMPORTEM!- gritou ele somente uma vez, fazendo os irmãos se separarem rapidamente e começarem a se ajeitar ainda aos empurrões. –Parecem mais animais, por Merlin!- continuou ele, enquanto abria a porta. –Talvez eu devesse comprar uma gaiola, assim teria um pouco de paz nessa casa... — resmungou ele, tirando risinhos dos pestinhas ao qual chamava de filhos.
Na entrada da velha toca estava Klaus de Valois e seu único filho, James. Ambos muito parecidos fisicamente, pele branca, cabelos negros assim como os olhos, expressões firmes e sem muitos sorrisos, a não ser quando estavam com os Hoffmeister.
A relação entre essas duas famílias é no mínimo curiosa e no máximo impossível. Os Valois são uma rica e poderosa família antiga de bruxos, descendentes de reis franceses da dinastia de mesmo nome. Todos são bem sucedidos, com altos cargos no Ministério e Profeta Diário, sendo o mais reconhecido, Klaus, que é Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, onde conheceu o Pietro I. Apesar de serem ricos e de sangue puro, os Valois não descriminam outros bruxos por serem mestiços ou trouxas, exceto James, que não suporta sequer estar ao lado de um nascido trouxa. Em comparação a eles, os Hoffmeister não são nem um pouco ricos e reconhecidos. São uma família humilde e generosa, que não nega ajuda a ninguém, mesmo que estejam com dificuldades, e ao contrário do jovem James, os filhos de Pietro I e Erika Hoffmeister foram educados para tratarem todos os bruxos igualmente.
—Meu querido amigo, pensei que não vinha mais!- disse o Sr. Hoffmeister ao dar um abraço de urso em Klaus, que retribuiu alegremente o gesto do velho amigo.
—A comida já estava esfriando!- brincou a Erika da pequena e modesta cozinha, enquanto terminava de temperar a carne moída como dizia na sua receita secreta.
—Me desculpe Erika, tive alguns imprevistos no Ministério!- desculpou-se Klaus com certo cansaço na voz.
—Ah não se preocupe com isso, é sempre bem vindo, não importa a hora. E James, o Pietro está lhe esperando na sala, vá lá! Ele tem novidades pra lhe contar!- disse o Sr. Hoffmeister, dando um empurrãozinho de leve para que James fosse brincar com Pietro e o deixasse a sós com Klaus.
—Vou sim tio!- disse James com um sorriso alegre. Apesar de não serem parentes de verdade, James cresceu junto dos Hoffmeister e os amavam como se fossem da família.
O jovem correu até a sala de estar e lá encontrou Catharina e Pietro dando beliscões um no outro. Uma gargalhada animada saiu de sua boca enquanto se aproximava dos dois. James era filho único, e não tinha ninguém pra brincar em casa, então ele invejava até as brigas que seus amigos tinham, no desejo de também ter um irmão para fazer isso no futuro.
—Alan, perdeu de novo pra sua irmã, não acredito!- disse James a brincar com o amigo. Desde que se conheceram James chama Pietro de Alan, por causa de seu segundo nome, Alaric, mas Pietro nunca gostou, porém relevava já que tudo não passada de uma brincadeira para irrita-lo.
—Haha, engraçadinho! Ela só ganhou porque roubou, só por isso!- disse Pietro ao tentar se explicar do fiasco que era perder pra irmã mais velha.
—Já disse que não roubei!- rebateu rapidamente Catharina, ao dar mais um beliscão no irmão, que reclamou com um grito.
—Kat, por favor, deixe seu irmão em paz e venha me ajudar a por a mesa!- disse a Sra. Hoffmeister ao tentar separar os monstrinhos por alguns minutos. Kat relutou e resmungou, pois adorava conversar e brincar com James. Escondia uma paixão secreta por ele desde que se entende por gente, mesmo sendo bem mais velha. No fim, a menina de cabelos dourados viu que não iria adiantar bater boca e foi ajudar sua mãe.
—Isso ainda não acabou!- disse ela antes de sair ao apontar dois dedos para seus olhos e depois fazer o mesmo, apontando-os para Pietro, que deu um goto seco com medo, apesar de que nunca iria admitir isso.
—Sua irmã às vezes me assusta!- disse James a olhar Kat sair dali.
—Nem me fale, mas... Já soube das novidades? Recebi minha carta de Hogwarts há dois dias!- disse Pietro com certo entusiasmo na voz, estranha e com desafino por causa da recente puberdade.
—Sério? Eu também!- disse James com um sorriso. –Não vejo a hora de finalmente ir pra Hogwarts!- continuou ele com ar sonhador, conduto sua voz não desafinava como a do amigo, na verdade era bem grave para sua idade.
—Eu sei, e nós vamos poder jogar quadribol juntos!- disse Pietro já imaginando ele e o amigo, “James e Pietro, os melhores jogadores de quadribol de todos os tempos” estampados nas capas de todos os jornais, com os dois em poses atraentes.
—É mais eu vou ser o melhor!- disse James como quem não quer nada enquanto se sentava no chão, de frente ao tabuleiro de xadrez bruxo que a pouco fora campo de batalha dos irmãos Hoffmeister.
—Aha, eu pago pra ver!- brincou Pietro ao fazer uma careta já sabendo que o amigo era péssimo em esportes, e dito isso, voltou a se sentar no chão de frente para James, que não gostou nada da brincadeira dele, mas revelou.
—Eu começo!- gritou James em triunfo. Adorava ser o primeiro em tudo.
Enquanto eles brincavam, Klaus e Pietro I já estavam acomodados no sofá antigo na sala de estar, conversando sobre a vida como sempre faziam quando se encontravam.
—Então Klaus, teve alguma notícia sobre ela?- perguntou Pietro I com ar preocupado.
—Não, já procurei por toda parte, perguntei pra todos que conhecemos, mas... – começou Klaus, deixando algumas lágrimas escorrerem sobre sua face. –Não sei mais o que fazer! Já faz um mês que ela desapareceu, sem deixar nada, nenhuma pista do que aconteceu... — continuou ele a falar de sua esposa com tristeza evidente na voz ríspida.
Eudora de Valois era a segunda esposa de Klaus, e ele a amava imensamente, assim como ela também o amava. Depois de seu primeiro casamento, que acabou porque ele era muito jovem e trabalhava demais para chegar ao cargo que queria no Ministério, e não dava à devida atenção a mulher, ele se esforçou mais para fazer da certo com Eudora, pois não havia ninguém no mundo que ele amasse mais do que ela, a não ser talvez, o filho que tiveram juntos.
Há exatamente um mês atrás, ela sumiu. Desapareceu de sua casa e até agora não se tem notícias dela. Klaus até chegou a achar que ela o tinha abandonado como sua primeira esposa havia feito, mas Pietro logo tirou essa ideia de sua cabeça, dizendo que ela jamais deixaria seu marido e filho sozinhos, e isso só se concretizou quando mais notícias de desaparecidos surgiram por todo mundo bruxo.
Não poucas, mas centenas de bruxos, que assim como Eudora, sumiram sem deixar rastros. O Ministério estava um caos, e o Ministro da Magia, Kingsley Shacklebolt, estava exaurido com todo o peso que seu cargo exercia naquele momento de tensão, fazendo-o pensar em se aposentar e deixar o cargo para alguém mais jovem e com vigor.
Mas o Ministro não iria deixar um cargo tão importante e de tantas responsabilidades para alguém incompetente, na verdade ele já tinha alguém em mente, alguém que faria de tudo para resolver essa crise dos desaparecimentos, pois sua mulher estava incluída neles, mas Klaus só soube disso naquela manhã, e não tinha certeza se estava preparado para efetuar tamanha responsabilidade. Precisava da opinião do melhor amigo.
—Não fique assim Klaus, não pense no pior. Vamos encontra-la, você vai ver! – disse Pietro I ao tentar reconfortar o amigo.
—Tomara, mas vim aqui pra falar de outra coisa. Kingsley me procurou hoje!-
—O Ministro? Pra quê?- perguntou Pietro sem tentar esconder a curiosidade.
—Ele vai deixar o ministério, não está mais aguentando tanta pressão, na verdade ele nem queria estar naquele cargo! Quando você voltar, vai ver, está um completo caos em todos os departamentos!- disse Klaus.
—Voltar ao Ministério? Mas eu fui demitido da Suprema Corte por ter ajudado aquela menina a fugir, você sabe, ela não tinha feito nada de errado, era apenas uma criança que tinha praticado feitiços na frente de um trouxa. Não voltarei lá tão cedo!- indagou Pietro, explicando depois o porquê.
—Acontece que Kingsley quer que eu seja o Ministro, ele quer me ajudar a ganhar as eleições, até o próprio Harry Potter concordou em me apoiar ao ver o estado dele!- disse Klaus.
—E então, porque parece que você não vai aceitar?- perguntou o Sr. Hoffmeister ao ver uma ponta de dúvida na voz do amigo.
—Não sei se estou preparado!- concordou Klaus. –Mas tenho que admitir, sempre sonhei em ser ministro, e com isso eu poderia fazer mais para ajudar na procura da Eudora e ainda poderia fazer muita coisa para melhorar o nosso mundo- concluiu ele enquanto pegava da mesinha de centro, o Profeta Diário, olhando de relance a seção de empregos, se preocupando com o amigo, pois sabia que eles estavam passando por dificuldades financeiras.
—É, as coisas estão começando a ficar difíceis por aqui, ainda mais que esse ano o Pietro vai pra Hogwarts também!- disse Pietro com certa vergonha ao perceber que Klaus tinha visto o jornal. – Mas vamos dar um jeito, não se preocupe comigo Klaus, já tem muito problemas em mente. Então você vai aceitar a proposta?-
—Era isso que eu queria saber, sua opinião sobre o assunto!-
—Se é isso que você quer, e se vai ajudar a encontrar a Dora, aceite a ajuda deles. Não poderia pensar em ninguém melhor do que você para assumir o cargo!- disse Pietro sinceramente.
—Acha mesmo que estou capacitado? Afinal, estamos falando do cargo mais alto do ministério, é muita responsabilidade... — insistiu Klaus com certo receio na voz.
—Deixe disso homem, você vai se sair bem!- rebateu Pietro com um sorriso, ao dar um tapinha nas costas de Klaus.
—Tudo bem, mas pra isso primeiro tenho que ganhar as eleições, e isso sim vai ser difícil!- disse Klaus com ar de riso.
—Vocês dois, deixem os trabalhos pra depois e venham comer, acabou de sair do forno!- gritou Erika da cozinha enquanto tirava uma grande travessa cheia de macarrão com almondegas e muito, mais muito queijo derretido por cima, do forno, e colocava-a sobre a comprida, porém aconchegante, mesa de jantar.
Os dois velhos amigos riram e partiram logo para comer, afinal, estavam famintos. Pietro II e James fizeram o mesmo ao sentir o delicioso cheirinho que vinha da sala de jantar, nem foi preciso que Erika os chamasse, aqueles pestinhas podiam farejar o cheio de comida de longe. E lá estavam eles. Duas famílias amigas jantando juntas, ambas com problemas, afinal, todos nós temos, mas eles também tinham uns aos outros, e isso vale mais do que qualquer outra coisa.
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