Herdeiros
4 Capítulo 3
A mesa de 20 lugares da sala de reunião estava quase toda preenchida. Dr. Silveira ocupava a cabeceira, ladeado por dois empregados. E o outro oposto estava tomado pelos herdeiros, ainda confusos com o que estava acontecendo.
“Primeiramente, bem vindos ao meu escritório. Devo ressaltar que é um prazer conhecê-los, meus caros, e constatar o quão parecido são com seus avós. Eu tive o prazer de ser o advogado deles por mais de 40 anos, desde que era apenas um jovem recém-formado. E não preciso nem que se apresentem para saber quem são.” Silveira se apresentou sorridente, encarando os jovens presentes.
Ele se levantou, apanhando as pastas a sua frente e caminhando para o outro oposto da sala.
“As senhoritas eu já conheço, é claro, as filhas do Gael. Karina Duarte, herdeira representando de Marcos, e Bianca Duarte, herdeira representante de Henriqueta.”
“Duas irmãs são herdeiras?” Vicki soltou de forma venenosa, recendo um olhar duro das duas.
“Sim, srta. Nobrega. Os filhos de Marcos e Henriqueta, Gael e Ana, se casaram e tiveram duas filhas. Portanto, cada uma ficou com a parte de um dos avós.” Explicou Silveira, sem se exaltar. A menina se encolheu ao ser chamada pelo sobrenome, e ele sorriu. “Sara tinha o mesmo jeito que a senhorita, devem lhe dizer muito isso. Se parece muito com a sua avó.”
Ele colocou uma pasta para cada menina, com seu nome na frente, antes de seguir andando.
“João Spinelli e Pedro Ramos, correto? Vocês já parecem mais com seus avôs do que com suas avós. Mas Delma e Dandara são a cara de Susana e Emília, não há como negar.” Ele deixou as pastas de ambos, saindo.
“Esse cara é The Mentalist ou algo assim?” Pedro sussurrou para o primo, os olhos arregalados.
“Sei lá... Se ele começar a te encarar fixamente, desvia os olhos.” O outro sussurrou, encarando fixamente os papéis a sua frente. Jeff, que estava sentado ao lado deles, riu baixinho, se divertindo com os dois.
“Você tem os mesmos olhos de Luisa, Jefferson, bastante carismáticos. Ela me falava bastante de você, que era um rapaz talentoso.” O advogado entregou uma pasta para ele, que sorriu envergonhado, recebendo um olhar da jovem do outro lado da mesa.
“Espero ter metade do talento dela.” Ele suspirou, encarando seu nome na pasta, ainda sendo encarado pela moça.
“Mariana Noronha... Fez boa viagem? Creio que é a primeira vez que sai de Joaçaba.” O advogado se dirigiu para ela, que corou e acenou com a cabeça. “Estive lá algumas vezes com o Henrique, mas você era apenas um bebê. Seu avô era um cara muito tranquilo, sossegado, não gostava de badalação... Joaçaba era uma opção bem atraente.”
“Meu avô não gostava muito da fazendo em si, mas gostava da tranquilidade e do silêncio para tocar piano.” Ela relembrou, recebendo um sorriso do homem.
“Tive o prazer de ouvi-lo tocar. Espero que ele tenha lhe ensinado, porque seria adorável ouvir novamente.”
“Você vai ficar tagarelando sobre quem parece com qual avô ou vai entregar logo essas benditas pastas?” Jade perdeu a paciência, bufando. Silveira riu, lhe entregando sua pasta.
“O temperamento dos Gardel é genético, realmente... Tão tempestuosa quanto seu avô e sua mãe. E sim, Jade, eu irei falar sobre cada um, para que se conheçam.”
“Parece que estamos em um romance de quinta onde a autora não tem criatividade e fica enrolando.” Ela deu de ombros, se recostando na cadeira.
“Sr. Cobreloa, certo? Nos encontramos quando o senhor chegou de Goiânia, rapidamente. Espero que meu assistente tenha o ajudado.”
“Claro, Sr. Silveira, fui muito bem atendido. E preferia que me chamasse de Cobra, foi assim que minha família me apelidou.”
“Espero que não morda.” Vicki debochou.
“Se eu morder, garanto que você nem vai ver de onde vai vir.” A voz era fria e calculista, e todos pensaram o porquê do tal apelido.
“Maria de Fátima, você é nossa última estrangeira, não é? Nunca estive em Carambolas, mas penso que tenha sido um bom esconderijo na época. Seus avós eram muito próximos de Emília, ficaram na cola deles.”
“Você tá brincando que eu fui criada naquele cafundó porque meus avós tiveram que fugir da ditadura? Olha, eu acho que ter a polícia na cola devia ser menos ruim do que aguentar aquele bando de beatas futricando sua vida.”
“Meu Deus, garota, você está ouvindo o tanto de besteira que está falando?” O rapaz ao seu lado, um moreno bonito, perguntou abismado.
“Olha, eu só vou ser educada porque você é um moreno muito gato... Experimenta aguentar as beatas amigas da minha avó, e garanto que você vai me entender.”
“Sr. Menezes, fez boa viagem? Lamento que o tenhamos tirado dos Estados Unidos tão abruptamente, mas já conversei pessoalmente com seu chefe, está tudo resolvido.” Ele se dirigiu ao rapaz, que sorriu agradecido.
“Muito obrigado, Sr. Silveira.”
“O senhor conhece o Duca? São primos em segundo grau.”
“Não, não o conheço.” Apertou a mão do rapaz do outro lado da mesa, que acenou com a cabeça.
“A filha de Paulo Ferreira, sua mãe, Duca, se casou com um sobrinho de André Menezes, seu avô, Bruno. A propósito, Duca, sinto muito pelo seu irmão... Não pude ir ao enterro dele porque estava viajando a trabalho, mas fiquei muito sentido com sua perda.”
“Não tão sentido quando eu ao ver o nome dele riscado do envelope e o meu escrito por cima. Era ele quem deveria estar aqui, só consigo pensar nisso.”
“É possível transferir o título de herdeiro?” Questionou Vicki, de olhos arregalados. “Não deixe a minha meia-irmã descobrir isso.”
“Não, não é possível transferir o título. O que aconteceu foi uma fatalidade única, em que o herdeiro por lei faleceu, e o título foi para a próxima pessoa em condições... No caso, Duca, que era o único outro neto.” Esclareceu o advogado, voltando ao seu lugar. “Bom, agora que estão devidamente apresentados, podem abrir suas pastas.”
“O que é isso?” Questionou Mari, vendo diversos tópicos.
“Algumas recomendações e regras que validam o processo.”
“Processo?”
“Sim, da herança. Veja bem, todos vocês já preenchem os requisitos básicos: solteiros, sem filhos, formados no Ensino Médio e maiores de idade. Porém, alguns itens devem ser observados, como não ter um emprego fixo, residir no Rio de Janeiro...”
“Então eu precisaria me demitir?” Perguntou Bruno.
“E eu vou ser obrigada a morar no Rio? Que tudo.” Fatinha comemorou.
“Não apenas no Rio, mais precisamente na Fábrica.” Karina comentou, lendo os papéis. “Aqui diz que nós teremos que morar na Fábrica, assim como nossos avós fizeram no começo.”
“Sim. Quando eles decidiram começar a Fábrica de Sonhos, deixaram tudo o que os prendia para trás e foram morar no galpão. Além de economizar com aluguel, força e comida, ajudou a fortalecer muito os laços que os uniam. E é o que precisa acontecer com vocês: criarem laços, se unirem, só assim conseguirão o que seus avós conseguiram!” Explicou Silveira, recostado em sua cadeira.
“Mas me explica uma coisa, ô seu Mentalist... O que a gente ganha com isso? Sabe, reerguendo a Fábrica e tudo o mais? Porque tá me parecendo que a gente herdou é uma bela dor de cabeça e trabalho pelo resto da vida.” Pedro assinalou, recebendo alguns murmúrios em concordância.
“Sr. Ramos, o senhor tem alguma ideia do quão famosa a Fábrica de sonhos foi? Ela foi um grande marco da arte na época, tanto que ficou sob os holofotes da censura. Ricos e poderosos enviavam seus filhos para serem instruídos por seus avós; pessoas de nome queriam dar aula lá.”
“Amado, para de enrolar e desembucha!” Gritou Jade, impaciente.
“Eles deixaram uma herança em dinheiro, que era o dinheiro da Fábrica... Convertido para o dinheiro de hoje, deixado na poupança por anos... Já passa de R$50 milhões.”
“Vai se foder, 50 milhões de reais? Isso é mais dinheiro do que tem no mundo!” João levantou em um pulo, arfando. “Acho que eu vou desmaiar.”
“Ai, esquisito, se controla. Ok, R$50 milhões é bastante, mas não é lá tudo isso.” Vicki revirou os olhos. “Isso dá o que? Pouco mais de R$4 milhões para cada?”
“Garota, se isso é pouco para você, pode me dar sua parte.” Bianca observava os papéis com cara de espanto. “Acho que eu teria que trabalhar na academia do meu pai o resto da vida para conseguir isso.”
“Nós não podemos só pegar o dinheiro e seguir com a vida?” Perguntou Cobra.
“Sr. Cobreloa, essa não é uma simples herança, como o senhor pode ver. Seus avôs tinham um sonho, um grande sonho, muito especial. Uma tragédia destruiu isso, e a esperança deles estava em vocês! A herança real é a Fábrica, o dinheiro é só um bônus. E para ganharem esse bônus, como em qualquer emprego, vai depender do esforço de vocês. Os senhores têm várias missões, e 18 meses para completá-las. Não saberão como e quais são essas missões, só saberão quando as cumprirem. Se desistirem, ou se ao fim dos 18 meses não as completarem, esse dinheiro será usado para criar uma ONG voltada para as artes e realização de sonhos. E agora, após tudo isso, creio que precisam de um tempo para digerir tudo isso. Nos encontramos amanhã no endereço que está aí, que é a Fábrica. Usem esse tempo para pensar.”
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