Herdeiros
2 Capítulo 1 - 2015 | Parte 1
Velórios nunca são bons, mas aquele estava sendo excepcionalmente ruim. Como se já não bastasse ter que enterrar o avô que praticamente não conhecia, Karina ainda tinha que aguentar o bendito advogado decrepito que perseguia ela e Bianca para todos os lados.
“Pai, esse cara não sai do nosso pé.” Reclamou a irmã mais velha, vendo o pai bufar e contar até 10.
“Meninas, eu estou enterrando o meu pai, pelo amor de Deus. Nós dois podíamos ter ideias bem diferentes, mas ele ainda é meu pai, e eu adoraria que respeitassem esse momento.”
“Pede para aquele maluco respeitar; o velório e uma distância segura de nós duas.”
“Karina, meu anjo, você é lutadora de Muay Thai. Se ele chegar muito perto, derruba ele. Agora, pelos meus bonsais, me deixem em paz um pouco.”
Ele saiu marchando em direção a algumas pessoas. Não conversava direito com o pai havia anos, desde que as meninas eram bem pequenas. Marcos Duarte era um profundo amante da arte e da sensibilidade, diferente do filho único, um bruto, turrão e sem o mínimo olhar para arte. Quando Gael decidiu treinar Muay Thai ao invés de fazer aulas de interpretação, como o pai queria, os dois se desentenderam, e tudo piorou após a morte da mãe das meninas.
Desde jovem, Gael namorara com Ana Sousa, filha de uma grande amiga de seu pai, Henriqueta. Tinham 20 anos quando ela engravidou de Bianca, e 22 quando Karina chegou. Ana faleceu dois meses depois do nascimento da filha, decorrente de complicações no parto que não puderam ser curadas, mesmo após todos os esforços médicos e um longo período de coma.
Marcos, então, impusera que o filho entregasse as duas meninas para serem criadas pela avó materna, que as encaminharia no caminho da arte, assim como havia sido com Ana. Gael não apenas negou-se a fazer isso, como também decretou que as filhas jamais seriam atrizes ou qualquer outro tipo de artista. Após meses de confronto direto, Gael deixou a casa do pai, onde ainda vivia, e abriu uma pequena academia com um apartamento conjugado. Pouco contato teve com o pai após isso, apesar de os pais de Ana sempre visitarem as netas e respeitarem muito suas decisões e opiniões.
Agora estava ali, velando o pai, o último dos doze. Lembrava-se vagamente dos doze amigos, havia uma foto em sua casa quando era pequeno. Certa vez ele e Ana haviam escutado uma conversa atrás da porta, em um Natal, quando Marcos e Henriqueta, junto dos conjugues, discutiam a tal “herança”. Havia questionado o pai em seus últimos dias, o obtido toda a história. Sabia o porquê o advogado estava ali e porquê cercava as meninas. Queria evitar isso o quanto pudesse.
“Gael, meus pêsames e desculpas por estar atrapalhando seu luto.” Carlos Silveira, tão velho quando seu falecido pai era, se aproximou. “Você sabe que tenho obrigações a cumprir pelo testamento. Tenho muito o que resolver, então deixarei a carta com você. Tenho certeza que conseguirá explicar para as meninas do que se trata.”
“Silveira, de coração, eu não estou com cabeça para pensar nisso.”
“Eu sei que não, meu caro, você é muito parecido com o seu pai. Mas temos muitas coisas para resolver, e pouco tempo. Eu tenho três dias para reunir os herdeiros, e um deles se mudou para Chicago.”
Gael apenas acenou com a cabeça, cansado e sem forças para discutir. O advogado puxou dois envelopes da pasta, nomeados para Bianca Duarte, de Henriqueta Sousa e Karina Duarte, de Marcos Duarte.
“As instruções estão anexadas. Nos vemos em três dias, no meu escritório.”
~*~
Os dois rapazes estavam sentados lado a lado, na varanda da casa que outrora havia sido de sua avó. Pelo menos, da avó de um deles. Pedro e João seguravam suas cartas em mãos, ainda digerindo tudo o que suas mães haviam lhe contado minutos antes.
“Quer dizer que nós não somos primos de sangue?” Perguntou João, virando o envelope lacrado entre os dedos. “Quem é essa tal Emília?”
“Aparentemente, a mãe da sua mãe.” Pedro lia a assinatura de sua avó no envelope, a mesma letra usada no envelope do primo. “E você sabe que a vó Susana sempre vai ser sua avó também.”
“Por que nossas mães não nos contaram a verdade? Sabe, que elas na verdade eram irmãs adotivas.”
“Johnny, sua avó foi assassinada pela ditadura. Não acho que seja um assunto que a vó, ou qualquer uma delas, quisesse ficar revirando.”
“Eu fico pensando que minha mãe quase morreu também... No que meu avô estava pensando?”
“Não sei... Nunca prestei muita atenção nas aulas de história, ou nos documentários. Pensando bem, elas nunca ficavam muito felizes quando tínhamos essa matéria na escola.”
“É um assunto muito delicado, meus queridos.” Dandara apareceu na porta, caminhando até eles e se sentando no degrau acima. “Entendam que, as famílias daqueles que foram assassinados pela ditadura nunca se recuperam totalmente. Eu tinha dois anos quando meus pais morreram. Minha mãe, sua avó, João, usou o corpo dela para me proteger. Foi muito difícil e demorado conseguir voltar a viver. Ficamos muito tempo sob vigilância, temendo que fossemos presos ou torturados. Nos exilamos no México, como vocês bem sabem, e só voltamos alguns anos antes de vocês nascerem.”
“Mas por que o seu pai, sabe, se envolveu com isso, tia Dandara?”
“Pedrinho, eram tempos difíceis. Vivíamos na censura, e todos sabiam disso. Meu pai, que Deus o tenha, sempre teve inclinações políticas. Ele viu colegas desaparecerem, perderem suas famílias, ouviu boatos sobre as torturas. Assim como muitos que vieram antes e depois dele, ele quis questionar. Irritou as pessoas erradas, obviamente. Ele não tinha informações que valessem a tortura, era apenas um professor revoltado. Como muitos outros que começavam a causar tumulto, tinha que ser eliminado. Raramente eliminavam a família junto, afinal, eu era apenas um bebê. Até hoje, mesmo com todas as pesquisas e julgamentos, nunca soubemos a verdade. É provável que ninguém soubesse que eu e minha mãe estávamos no carro, era alto da madrugada.”
“E porque vocês estavam, no carro, mãe? Aonde vocês estavam indo?” Perguntou João, abalado.
“Eu não sei, filhote, eu era muito pequena. Pelo local onde tudo aconteceu, a madrinha desconfiava que estávamos indo para a casa dela, ou para a Fábrica. Na minha opinião, meu pai percebeu que havia cruzado o limite e ia deixar nós duas em algum lugar que ele achasse seguro.”
“Fábrica? Que Fábrica?”
“Leiam a carta, meninos... Ela tem as respostas que vocês procuram.”
~*~
A bailarina encerrava mais uma série longa de treinos. Havia começado as 9h e já passava do meio dia. Havia ouvido a campainha, mas a mãe havia lhe proibido de interromper os ensaios. E levava isso bastante a sério desde criança, quando havia sido castigada por isso.
“Jade? Querida? Está no estúdio?”
“To aqui, pai...” Ela respondeu, e Edgard logo apareceu na porta.
“Ainda está praticando, querida? Já fazem horas.”
“Você sabe que a mamãe gosta de perfeição. Por isso me tirou de todas as escolas de ballet em que me colocou, e resolveu me treinar em casa.” Ela secou o rosto com uma toalha, sorrindo.
“Mas para a sua sorte, eu cheguei na sua vida, querida. Sua mãe sempre foi controladora e perfeccionista, prova disso é que mentiu para todo mundo que não sabia quem era seu pai. Mas agora eu também estou no comando, e eu digo que você pode descansar.”
A jovem sorriu para o pai, recolhendo suas coisas e se dirigindo para a porta. Foi então que ele se lembrou de algo.
“Meu bem? Havia um rapaz aí na frente. Disse que era do escritório de advocacia do doutos Carlos Silveira.”
“O advogado do vô Miguel?”
“Ele mesmo. Ele deixou uma carta para você, o envelope está assinado pelo seu avô.”
“Edgard... Será que é a história que a mamãe sempre conta? A herança?”
“Acho que você terá que abrir para descobrir.”
~*~
Joaçaba era uma cidadezinha minúscula no interior de Santa Catarina. Ainda vivia um sistema de famílias que chefiavam a cidade, quase como coronéis. Porém, era uma cidade pacata, assim como todos que ali viviam.
Mariana Noronha não conseguia se imaginar fora daquele lugar, apesar de seus sonhos serem grandes demais para ele. Era comprometida com o filho de um dos poderosos da região, Franz, e já havia se conformado com uma vida como a de sua mãe.
Porém, naquele dia, algo perturbava a mesmice da cidade. Um carro preto chegara naquela manhã, um bastante luxuoso. Causara alvoroço, já que ninguém esperava por visitas, ainda mais tão imponentes. E também, por estacionar em frente à casa dos Noronha.
Se apresentou como um representante de Carlos Silveira, advogado de Henrique Noronha, falecido há quase 10 anos. Ele procurava por Mari, com uma carta assinada pelo seu avô. Disse que ela precisaria estar no Rio de Janeiro em três dias, e que havia sido instruído a acompanhá-la. Disse que estaria no pequeno motel da estrada, e que voltaria no dia seguinte.
“Tudo o que você precisa saber está nesse envelope, srta. Mariana. Nos vemos amanhã.” Ele disse simplesmente, pegando suas coisas e voltando para o carro, enquanto toda a vizinhança os observava.
“Mas o que será que meu pai deixou para ela, Gilda? Já fazem mais de dez anos que ele partiu.” Podia ouvir seu pai gritando no quarto, transtornado. E também queria saber, afinal.
Seu avô Henrique era uma pessoa muito boa, e um musicista extremamente talentoso. Dominava o piano, o violão, a guitarra, o baixo... Até um pouco de bateria ele sabia, aprendida de ouvido quando jovem.
Ele que a havia ensinado a tocar violão e piano quando criança, e a pedira que não parece de praticar mesmo após sua morte. Ele dizia que ela deveria saber tocar tão bem quanto cantava, para um dia deixar aquela cidade e fazer sucesso. Ela seguiu praticando pela promessa, mas nunca pensou que realmente fosse deixar Joaçaba.
Pelo menos, não até aquele momento.
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A barriquinha de cachorro quente da Ruth era bastante conhecida em Marechal Hermes. Tanto, que pessoas de outros bairros vinham para provar a iguaria, bastante famosa. Apesar disso, a vida da família Oliveira era bem simples. Jeff, o filho único, trabalhava com a mãe o dia inteiro, enquanto o pai era cozinheiro em um restaurante.
Quando criança, tinha o sonho de ser dançarino. Sua avó, Luísa, era eximia nessa arte, uma bailarina fantástica, e havia lhe ensinado muito. Porém seu pai, Lincoln, era um homem extremamente preconceituoso, e não aceitava de jeito algum que o filho seguisse por esse caminho.
Nunca ousou bater de frente com a mãe, e consequentemente com o pai, mas após a morte de ambos decretou que Jefferson nunca mais dançaria. Pelo menos, não enquanto ele estivesse vivo.
Já havia ameaçado sair de casa algumas vezes, mas não tinha onde cair morto, e muito menos dinheiro para arranjar algum. Apesar de famoso, o carrinho de hot-dog conseguia mantê-los, assim como o salário de Lincoln, então ele trabalhava sem lucro algum.
Sua amiga Sol gostava de dizer que depois da tempestade vem a calmaria, mas ele não acreditava muito mais nisso. Já havia perdido as esperanças, até que uma carta chegou a ele. Estava assinada por sua avó, e endereçada a ele. Luísa havia falecido havia poucos meses, mas ele ficou surpreso de haver alguma herança, como Wallace propôs, já que os avós viviam na mesma pindaíba que ele.
“Cara, ela pode ter te deixado uma casa, ou algum dinheiro.” O amigo o incentivou, enquanto Ruth os encarava apreensiva.
“Você sabe de alguma coisa, mãe?”
“Filho, seus avós tinham um passado, mas seu pai nunca quis falar dele. Talvez essa carta te diga algo, hã?” Ele concordou, encarando o envelope. “Abra-a.”
~*~
“Carambola é nome de fruta, não de cidade. E vamos combinar que eu sou diva demais para ficar aqui.” Cantarolava a jovem ao telefone, enquanto fazia as malas.
“Você abriu o envelope, Maria de Fátima? Ou já tá fazendo as malas de alegre?” Alessandra, sua amiga, ria ao telefone.
“Ainda não tive tempo de abrir. O advogado bonitão disse que vamos para o Rio amanhã mesmo.”
“Se eu não te conhecesse, diria que você é uma assanhada.”
“Esse é o ponto, Ale... Lá no Rio, ninguém me conhece. Ninguém sabe quem, ou como eu sou. Eu posso ser quem eu quiser, e é o que eu vou fazer.”
“Mas para isso, acho que seria bom você saber exatamente o que está indo fazer no Rio de Janeiro, né sua maluca?”
“Tá bom, sua chata. Eu vou desligar e abrir o envelope, está bem? Beijos.” Desligou o aparelho e jogou sobre a cama, indo pegar o envelope que lhe entregaram mais cedo. “João Paulo dos Prazeres. É, vovô, o que o senhor quer comigo depois de tantos anos?”
A verdade era que seu avô havia falecido antes dela nascer, nunca o conhecera. Se lembrava bem de sua avó, uma beata religiosa que havia vivido mais do que a encomenda, em sua opinião. Seu pai nunca havia falado muito sobre o próprio pai, e nem ela perguntara à ele. Preferia ouvir as histórias dos tios, que diziam que o avô havia sido um “roqueiro”.
Nessas horas, se perguntava com o pai havia se tornado um homem tão quadrado. Talvez aquela carta a ajudasse a descobrir.
~*~
“Mas a Vicki não é a filha mais velha.”
“Ela é minha filha única, Samantha...” A mulher massageava as têmporas, enquanto a filha mais velha marchava pela sala irritada. A caçula, por outro lado, ria.
“Mas você me adotou quando eu tinha sete anos, quando minha mãe morreu.”
“Sim, querida, mas a Vicki continua sendo minha primogênita. Não fui eu quem fiz as regras, Sam, eu só as aceito.”
“Além do mais, você sabe que a vó Sara nunca gostou muito de você, né maninha? Afinal, você não é uma Nobrega de sangue, mas sim uma Andrade. Nada mais justo que a herança da vovó seja minha.” Vicki não resistiu a alfinetar a irmã, que a fuzilou.
“Minha mãe me disse para não casar com um homem divorciado, por que eu não ouvi?” Suspirou a mulher, encarando as filhas.
“Por fim, o que é essa tal herança?” Perguntou Samantha, sentando emburrada.
“Essa é uma ótima pergunta, filha, já que todos os imóveis, ações da empresa e bens foram divididos quando ela morreu. Eu não tinha conhecimento de uma outra herança.”
“Então abra logo essa carta, Vigarista.”
“Segura esse recalque aí, Samantha. A carta e a herança são minhas, eu abro quando eu quiser.” Vicki tentou se fazer de difícil, mas a curiosidade estava mais forte. Ela apanhou o envelope, vendo a assinatura da avó no destinatário. Só conseguia imaginar as mansões que deveria estar herdando.
~*~
O rapaz estava sentado na mesa, observando a carta a sua frente. Seu nome estava escrito, mas podia ver as marcas de corretivo por baixo. Marcas que apagavam o nome de seu irmão, de Alan.
“Meu filho, você não vai abrir?” Sua avó Dalva perguntou. Dos quatro avós, a única ainda viva era a mãe de seu pai. A carta a frente estava assinada pelo pai de sua mãe. Seus pais, aliás, também estavam mortos.
“É só que... É tão estranho, vó. Meus pais se foram antes dos pais deles; meu irmão se foi antes da senhora. E essa herança, que deveria ser dele, agora é minha. Parece errado, entende?” O rapaz externou seu desconforto, passando os dedos pelo envelope.
“Você sabe que eu entendo, meu filho. Um pai não deveria enterrar um filho, e uma avó com certeza não deveria enterrar o neto. Mas aconteceu, Duca, o que se pode fazer? São os caminhos e desvios da vida, que vão montando essa teia estranha.”
“Você não faz nem ideia do que se trata?”
“Eu nunca tive muito contato com os seus outros avós, filho. Seus pais casaram muito depressa porque sua mãe estava esperando o Alan. Eu e seu avô Pedro morávamos em Niterói, e vocês ficaram aqui no Rio. Quando seus pais morreram, nós vínhamos nos finais de semana ver vocês, mas eu nunca firmei laços com o Paulo ou a Andreia. Mas eu achei que tudo o que era dele havia sido inventariado após a morte... Estranho uma herança tantos anos depois, e endereçada ao Alan, ainda.”
“Até porque o Alan morreu seis meses antes do vô Paulo...” Duca concluiu, observando o envelope com atenção. “O que será que tem aqui?”
“Nós só vamos descobrir quando você abrir, meu filho.” A voz da mulher era ansiosa, enquanto observava o neto apanhar o envelope para abrir.
~*~
“Mãe, eu não tenho como voltar de Chicago amanhã... Eu tenho um trabalho aqui, pelo amor de Deus.” Bruno falava com certa irritação. Tudo bem que Marta nunca havia gostado da ideia do filho ir para Chicago, mas daí a querer que ele largasse tudo do nada e voltasse para o Brasil?
“Bruno, olha como fala comigo. Abra o seu e-mail, eu acabei de scanear a carta do seu avô e te enviar.”
“Por que o vô João me escreveu uma carta? Eu falei com ele no telefone ontem.”
“Não, Bruno, não é do vô João... É do vô André.”
“Dona Marta, o vô André morreu fazem seis anos, lembra? Como ele iria me escrever a carta.” Ele estava ficando cada vez mais irritado com aquilo.
”Bruno, por favor, leia e você vai entender. O advogado do seu avô já providenciou a sua passagem. Você sai daí ao meio dia, amanhã.”
“Advogado? Mãe, que história é essa? O que está acontecendo?”
“Mãe, você está falando com o Bruno?”
“Agora não, Juliana.” Pode ouvir uma discussão se formando do outro lado da linha, enquanto sentava em frente ao computador. O telefone fez barulho ao ser mudado de mãos, e logo a voz da irmã preencheu a linha.
“Bruno, se você não quiser ficar com a herança, você pode declinar e deixar para mim. Aí você fica aí em Chicago, o que acha?”
“Juliana, cala a boca e me devolve esse telefone.”
“Eu vou ver o e-mail da mamãe, Ju... Depois eu ligo de volta.” Ele desligou o telefone, profundamente confuso. Abriu o e-mail que a mãe havia lhe enviado, contendo dois anexos. O primeiro era a foto de um envelope, com seu nome e a assinatura de seu avô. O segundo era uma longa carta.
~*~
Na pequena casinha no interior de Goiânia, o filho mais velho fazia as malas com extrema pressa. Já havia muito tempo que estava planejando dar a linha, e a chegada daquele advogado parecia uma providência divina.
“Ir para o Rio de Janeiro, Ricardo? Tem certeza, meu filho?” Sua mãe o observava da porta do quarto, angustiada.
“Mais do que certeza, mãe... É o que eu tenho esperado há anos.”
“Ele tá é fugindo, mãe, fugindo porque é um vagabundo e mal caráter.” Seu irmão mais novo, Robson, praguejou da sala.
“Tu cala essa boca, moleque, ou lhe quebro os dentes.”
“É só que me parece muito estranho, depois de todos esses anos da morte da sua avó, chegar uma herança dela, assim do nada.”
“E bem no nome dele.”
“Moleque, já mandei calar a boca ou perde os dentes.” Cobra gritou nervoso, socando a parede. “Nome disso é sorte, mãe. Seja lá o que for, vai me levar a uma vida melhor.”
“E eu e teus irmãos? Vai nos largar aqui, a própria sorte.”
“Não era o que tu queria fazer comigo? Me jogar no mundo, para ver se eu me virava e parava de te dar desgosto? Pois então... Vou seguir o meu caminho, e vocês seguem o de vocês.” O rapaz disparou o veneno, enchendo as bolsas com seus poucos pertences.
“Pelo menos posso saber o que é essa tal herança, Ricardo? O que sua avó deixou para você?”
“Eu não sei, mãe, e a senhora também não vai saber.” Ele pegou o envelope que ela ameaçava abrir, enfiando dentro do bolso da calça. Apanhou as bolsas, marchando pela casa. Os dois irmãos o observavam do sofá, desconfiados e carrancudos. Lá fora, o representando do dr. Silveira o esperava com o carro.
“Ricardo. Ricardo, filho, olha para mim.” A mulher implorou com os olhos rasos d’água, mas o coração do filho estava tomado pelo ódio.
“Tchau, dona Quitéria... Tenha uma ótima vida.” Ele disse simplesmente, dando as bolsas ao seu motorista e entrando no banco de trás.
Ignorou as súplicas e chamados da mãe, mantendo uma máscara impassível no rosto. Só quando o carro já disparara pela estrada, deixando sua casa para trás, permitiu que os sentimentos viessem à tona. Havia sido difícil, claro, mas a vida tinha dessas.
Apanhou o envelope assinado por sua avó e rasgou a parte de cima, puxando o conteúdo.
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