Herdeiro da Lua

3 Discípulo de Ferreiro


O maior problema surgiu dias depois. Gillian apareceu na taverna procurando o seu machado. Na confusão com os guardas, a madame passou por cima das ordens da capitã Victoria e não deixou prenderem Nox. Quando o velho ferreiro sentou no balcão, as meninas pressentiram o desastre, mas ela ficou calada.

— Eu vi o estrago que o seu menino fez na floresta. Nem completou 10 anos e já é tão forte! Mande ele para a minha oficina amanhã, antes do Sol nascer, eu vou fazer bom uso dessa energia toda.

Gillian levantou e foi embora. Nox se tornou seu discípulo no dia seguinte. Ele se levantou antes que o Sol nascesse, vestiu uma muda de roupas, calçou as botas e pôs as luvas de couro reforçado que ganhou de presente das meninas no seu último aniversário e correu em direção à porta da rua.

Madame Carmilla estava esperando, sentada do lado de fora. Quando Nox a viu, sorriu sem jeito, esperando uma bronca por sair tão cedo, mas ela apenas bagunçou seus cabelos dourados e os cobriu com uma boina simples.

— Agora, você me escute com atenção. Muita gente de fora vem comprar armas com o velho Gillian, não fique deixando o seu cabelo amostra e nem chame a atenção de ninguém, me ouviu? — perguntou a madame, ao qual Nox acenou positivamente por vários instantes.

Gillian não era de tolerar atrasos, muito menos malcriação, caso demorasse mais, não chegaria no horário e estava proibido de chegar em casa depois do pôr do Sol. Despedindo-se de madame Carmilla, Nox correu por entre as ruelas do Beco dos Ratos em direção a ferraria.

Os subúrbios eram um labirinto intrincado de ruas e becos esbarrando-se uns nos outros.

Ninguém sabia onde exatamente começava e terminava cada um, era apenas um acordo mútuo entre as guildas dos ladrões, assassinos e mercadores que servia de fronteira entre o Beco dos Ratos, as Baixadas Latrineiras e o exterior do Quarto Distrito; um não se envolvia nos territórios dos outros.

Os poucos comerciantes já chegavam em seus respectivos prédios trazendo consigo suas mercadorias amarradas em carroças.

Destrancavam as correntes das portas e janelas, tiravam os pregos e removiam as tábuas de madeira do vão entre elas, depois abasteciam as prateleiras e montavam os mostruários nas calçadas em frente às lojas, para no final do dia repetir o processo ao contrário e iam embora com dinheiro e mercadorias nos transportes improvisados; vez ou outra que deixavam para trás algo para pagar a taxa de proteção das guildas.

Os primeiros raios de Sol já batiam nos telhados quando Nox avistou de longe a ferraria de Gillian, e o velho parado do lado de fora, com os braços cruzados e o encarando com um semblante sério.

— Está atrasado — disse o anão coçando a barba.

A ferraria ficava no ponto central de uma intercessão entre três ruas distintas, cada uma levava para as três diferentes povoações que compunham os subúrbios, Beco dos Ratos, Baixadas Latrineiras e o Quarto Distrito Exterior, respectivamente. A luz sequer atingiu a ponta dos telhados naquele cruzamento.

— Não importa, o Sol já surgiu — Gillian interrompeu Nox — Vamos, pegue a chave e abra o cadeado, temos muito o que fazer ainda.

Facas para amolar, flechas para afiar, espadas e adagas para criar, pontas de lanças para espetar, tudo no fogo da fornalha.

Um simples cadeado enferrujado segurava o ferrolho; Iax forçou a chave algumas vezes, tomando cuidado para não quebrar, até conseguir destravar a fechadura. Uma nuvem de poeira subiu ao arrastar a parte inferior da porta no piso de pedra irregular.

Cheiro de mofo e cinzas vinha de dentro, se era dos móveis velhos ou das ferramentas, não sabia.

Gillian agarrou a gola da camisa de Nox, impedindo o pestinha de correr para dentro. Agora, cuidado para não tropeçar nas pedras soltas do piso, são muito velhas, já estavam ali desde que abriu a ferraria há mais de cinquenta anos.

As ferramentas estavam dispostas sobre uma mesa por ordem de tamanho, enfileiradas da direita para a esquerda, da maior para a menor, martelos, pinças, alicates, talhadeiras e punções e pregos, cada qual em seu desenho específico mostrando seus lugares.

O ditado dizia que quem levantasse primeiro com o pé direito, teria o dia abençoado pelo deus Sol, criou-se então naquela mesa de trabalho o costume de sempre manejar primeiro o martelo de pena, pesado o suficiente para moldar o aço, leve o suficiente para ter um controle maior dos golpes, uma ferramenta equilibrada primeiro para proporcionar um dia equilibrado.

Gillian ia enumerando as ferramentas, os nomes, apelidos que dera carinhosamente e os seus usos.

A terceira ferramenta à esquerda era Bessy, um martelo de bola, primo de segundo grau da Lessy, o martelo de pena que comentara agora há pouco.

Os olhos de Nox brilhavam a cada apresentação, tentou tocá-las, mas recebeu um beliscão de Gillian.

— Não, não, primeiro sente aqui e me observe, nada de tocar nas crianças com essas mãos desastrosas. Ainda não, pelo menos.

O anão abriu o compartilhamento da fornalha no centro da ferraria, jogou algumas pás de carvão e esperou o fogo ganhar vida. Em instantes, a fumaça encheu o lugar, expelindo cinzas e fuligem pela sala inteira.

Dentro da fornalha, uma chama cresceu à medida que consumia mais pedras de carvão. Línguas de fogo dançavam por entre as grades de ferro negro; pequenas faíscas alaranjadas eram expelidas e se extinguiam ao cair no piso de pedra.

O Sol estava brilhante no meio do céu, iluminando toda a capital Ouro Negro, desde as ruas dos círculos mais internos de Barcel por onde fluíam fios de luz incandescentes até os becos mais escuros dos subúrbios, mas na ferraria de Gillian, eram as línguas de fogo dançando no ar após se soltarem da chama principal que refletiam em centelhas no interior âmbar dos olhos de Nox.

— Olha só, não é bonito, velhote? — disse Nox se aproximando de Gillian.

Ele estava pegando algumas ligas de aço para forjar algo de demonstração quando ouviu Nox e se virou para repreender-lo, mas ficou paralisado ao ver a criança brincando com a chama da fornalha.

— Tire já as mãos daí, seu maluquinho!

No susto, largou as ferramentas e os lingotes, que caíram com um estrondo agudo, e puxou as mãos de Nox para longe do fogo.

Estava prestes a gritar com o menino, mas a voz morreu na garganta. Suas mãos estavam em perfeito estado, sem nenhum sinal de queimadura.

Ficou curioso. Um momento, garoto. Colocou as pontas dos alicates dentro da fornalha por uns minutos, depois mandou o menino segurá-los. Ele fez isso sem problema algum, sequer parecia incomodado com o calor.

— Eu realmente irei fazer bom uso do seu menino, Carmilla — gargalhou Gillian pegando de volta a ferramenta — Aqui, os lingotes de aço são para dar forma às novas armas. Tente segurá-los com as mãos dentro da fornalha, veremos até onde você aguenta.