Herdeiras do Fim
1 O chão sob meus pés.
Aria
— Mamãe! — exclamou enquanto abanava as mãos freneticamente no ar, exibia um enorme sorriso no rosto fruto da felicidade de estar vendo sua mãe depois de duas longas semanas.
Sua tão esperada “protetora” não expressou nenhum tipo de alegria ao vê la, ela vinha caminhando rapidamente por entre as pessoas, que por sua vez se movimentavam no, não pequeno, mas sim sufocante, espaço no subsolo, cada um com um destino em mente, cada com um com sua própria vida, habituados com a violência e ignorância, ninguém ficou surpreso ao ver que a mãe, ao chegar na sua filha a pegou pelos ombros e começou a gritar e sacudi la com raiva.
Aria também não se surpreendeu, não era a primeira vez que isso acontecia e certamente não seria a última.
— É tudo sua culpa, entendeu? — gritou histérica — Eu não tive escolha! Era isso, ou nós duas morrendo de fome! — largou a menina e começou a assentir repetidamente para si mesma enquanto andava para dentro de casa — Sim! Eu fiz o melhor para nós duas, agora vou ter dinheiro para viver confortavelmente e você, tem a chance de se tornar um dos “heróis” , nós duas saímos ganhando!
Aria a seguiu para dentro de casa e ficou olhando enquanto sua mãe andava parecendo procurar alguma coisa. Quase não tinha lugar para se locomover ali, o teto era baixo, e elas só tinham três pertences principais que se se devem ter numa casa, chuveiro, cobertor e fogão, não tinham espaço para mais nada.
A criança não teve coragem de dizer nada, amava sua mãe quase o mesmo tanto que a temia, geralmente interrompê-la quando ela está com essa cara, não leva a nada bom.
— Aqui, pegue — falou Regina e jogou uma toalha suja e um sabonete em direção a filha — vai tomar banho que logo os soldados vão vir para te pegar.
Essa frase assustou a menina, soldados estão vindo me pegar?!
— O que está acontecendo mãe? — murmurou a menina se encolhendo de medo.
Regina, vendo que a garota parecia não estar muito disposta a obedecê-la, se irritou e com impaciência a pegou pelo braço e a arrastou para o banheiro.
Aria sem entender o que está acontecendo e assustada com a fala anterior de sua mãe, começa a chorar quando é jogada com brutalidade para dentro do banheiro.
— Por favor não me abandone…
— Tome banho, quando você sair eu te explico tudo. — falou e em seguida fechou a porta do banheiro a deixando sozinha.
Abalada e com medo a criança liga o chuveiro e começa a se lavar.
Não era possível que sua mãe fosse mesmo abandoná-la! -começa a pensar assustada- claro que ela estava ciente que sua genitora não gostava muito dela, por isso, trabalha constantemente para mudar o que possivelmente estava a desagradando, sempre tentando ser a melhor filha possível, e ela tinha certeza que sua mãe, algum dia, a estimaria!
Porque isso era o natural! Pelo menos era isso que a ensinavam na escola, era essa a realidade que ela via nos programas de televisão e nas ruas, é claro que sempre existia os desafortunados, como o Greg, seus pais tinham o entregado aos soldados. Mas sua mãe nunca faria isso consigo, sua mãe era uma pessoa boa!
E foi com essa convicção e confiança que ela saiu do banho, colocou um vestido marrom e foi caminhando em passos lentos em direção a sua mãe enquanto escovava o longo cabelo preto.
Regina estava cantarolando enquanto cozinhava, se sentia leve, como se tivessem tirado um enorme peso das costas, ela carregava esse fardo desde o dia que se descobriu grávida, consequência de uma noite espetacular que teve com um garoto bonito que estava só de passagem, ela mesma era só uma garota de dezessete anos na época, foi expulsa da casa dos seus pais, que não tinham como sustentar mais um ser humano em sua residência. Sua vida tinha virado um inferno sete anos atrás e agora, a filha que só veio atrapalhar sua vida iria ser útil para alguma coisa, sentiu que todos esses anos passando fome para não deixar a criança morrer foram muito bem recompensados.
A garota estava se aproximando de sua mãe quando uma batida firme na porta foi ouvida.
— Somos soldados da “FDEM” ( Força de exterminação matoire ), estamos aqui para buscar nossa mais nova recruta.
No momento que Aria ouviu isso ela teve um raciocínio rápido que a fez ter consciência de duas principais coisas “ me vendeu, ela me vendeu, igual ao que a familia do Greg fez com ele” e um último e doloroso fato, “ minha mãe me odeia ” era um pensamento que tinha a assombrado desde que tinha quatro anos, e agora a compreensão que ela mais quis fugir na sua vida, veio em alto e claro som.
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Aria queria fugir mas não conseguia se mexer estava apavorada. Quando se deu conta um soldado já tinha a agarrado pelo braço e estava a arrastando para fora.
O choque e a dor de ter sido pega tão brutalmente por aquela mão que parecia enorme em comparação ao pequeno corpo dela a fez acordar. Começou imediatamente a chorar e se debater, enquanto o soldado, que não parecia nem um pouco surpreso, a arrastava para a carroça.
— Mãe! — ela gritou entre as lágrimas — por favor não faça isso… eu sempre fui boa, sempre fiz de tudo para te deixar feliz, então porque? Por que está fazendo isso ?
A menina olhou para sua progenitora e viu sua expressão relutante e culpada, mas logo balançou a cabeça e disse:
— Não faça drama! Estou apenas fazendo o que é melhor para nós duas, um dia você verá isso! — após a fala rapidamente entrou para dentro de casa como se estivesse ansiosa por uma conclusão, para que pudesse parar de pensar no rosto cheio de desespero de sua filha, por que embora não tivesse muito apreço por ela, não podia deixar de se sentir um monstro por enviar uma criança para esse lugar que ela tanto ouviu falar coisas ruins durante sua vida.
Aria sentiu o chão sob seus pés ruir, a realidade que ela estava acostumada está prestes a sumir e ser substituído por um futuro incerto e cheio de dor.
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