Notas iniciais
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Carla saiu, virei para o lado novamente e voltei para a terra dos sonhos. Acordei enjoada, minha cabeça está me matando. Ouvi risadas, aparentemente tem pessoas em casa. Entrei no banheiro, não sei se choro ou rio. Onde está aquela maquiagem que eu tanto me esforcei para fazer? E esse cabelo? Pelo visto a prancha não foi lá muito útil, sem contar esse cheiro horrível. Não sei se quero me lembrar da noite de ontem.

Recebi uma mensagem da Lu chamando para “a festa do ano”. Acabei aceitando, estava cansada de estudar e posso acabar amanhã à tarde, não falta tanta coisa. Cheguei ás 22:00, tinha muita gente da faculdade. Vi meu amigo de longe e me aproximei para cumprimentar, ele estava com Lu. Estava tudo tão animado, alguém que não me recordo me ofereceu vodka, já devia ter bebido umas pois aceitei. E bom, o resto são apenas flashs deu bebendo e em um carro.

Sai do banho, escovei os dentes. Agora sem a maquiagem e o cabelo em ordem posso dizer que pareço pelo menos um ser humano. A dor de cabeça ainda está aqui, mas pelo menos diminuiu depois do remédio. Ao sair do quarto vejo Carla, Victor e Júlia. São um trio inseparável. Dês de que começamos a dividir apartamento esses três andam juntos.

—Finalmente! Camila passou aqui mais cedo perguntando por você, ela pediu uma anotação ou algo assim. Sei que não vai com a cara dela, mas ela que te trouxe para casa ontem, poxa! Achei que poderia pelo menos fazer isso, mas me expulsou aos gritos do seu quarto quando te chamei. -Carla disse revirando os olhos.

Droga, preciso estudar. Pedi desculpas por ter gritado com ela, nem me lembro disso. Mas quando acordou sou realmente insuportável, admito. Já eram 19:00, caralho. Fiz um sanduiche e comecei a estudar, acabei quase as 2:00. Ás 7:00 o despertador tocou, demorei mais uns 15 minutos e fui tomar banho. Tomei café e fui dirigindo até a faculdade.

—Razoável. Que dia sai o resultado? -Estava conversando com um colega quando Mila -minha melhor amiga- chegou gritando meu nome. Ela é meio escandalosa, mas juro que é do bem.

Ela estava falando algo sobre a festa, mas falava tão rápido que não entendia nada. Algo sobre eu ter dado um fora em alguém? Tive que pedir que ela explicasse tudo de novo, ela revirou ou olhos e pegou o celular. Abriu o grupo da faculdade, não parava de chegar mensagens. Ela me mostrou uma foto de uma garota e um garoto. Parece que eles estão se beijando, ele está com a mão na bunda da garota, encostados na parede. Está escrito em baixo “Nem o anjo da turma resisti". Desceu um arrepio pelo meu corpo ao perceber que a garota era eu. Foi a desgraça do Rafael. A cena me volta a mente, enquanto o ódio percorre meu corpo.

Estou meio tonta, me sentei em uma cadeira no canto da festa. Peguei meu celular para mandar uma mensagem pra Lu,não a encontrava, mas não conseguia digitar uma palavra. O Rafael se aproximou de mim perguntando se eu queria ajuda. Aceitei. Ele me ajudou a levantar, quer dizer, era pra ter feito só isso. Ele me encostou na parede, suas mãos nojentas desceram minha cintura. Aquele bafo me dá enjoos, o empurrei o mais forte que consegui e voltei a me sentar. Minha memória só vai até aí.

—Que porra é essa? Eu não fiquei com esse garoto, eu juro! Ele me agarrou e eu o empurrei! Ma- Ela me interrompeu.

—Eu sei, May! Mas não é isso que as pessoas acham. — Ela me mostrou os comentários, todos me chamando de piranha ou coisas relacionadas. Que aparentemente eu fingia ser inocente, que a máscara caiu?? Uns garotos dando parabéns.

Sai da faculdade e fui aonde o grupinho dele sempre ficava. Gritei seu nome, ele virou surpreso.

—Qual o seu problema? Precisa inventar essa porra? Você sabe que não foi isso que aconteceu! –Ele logo se recompôs, abriu um sorriso que muitas morreriam. Mas o mais provável seria que eu o matasse.

—Inventar? Estava tão bêbada que não consegue se lembrar? Quer que eu te relembre? –Ele me puxou pela cintura. Tirei suas mãos calmamente.

—Não me toque de novo. –Avisei com um sorriso irônico, minha raiva só aumentava. Me aproximei, segurei seu rosto fazendo questão que minhas unhas machucassem. –Você sabe que nunca ficamos e nem iremos. Só tenho nojo de pessoas como você. Deve ser deprimente ter que inventar que ficou com uma garota.–Soltei o rosto dele e me virei para sair.

Ele puxou meu braço e faltou esfregar na minha cara a foto que, segundo ele, estávamos nos agarrando. Dei um tapa em sua mão, seu celular foi de encontro ao chão, puxei meu braço. Continuei andando, só agora vi que algumas pessoas estão ao redor. Ele me puxou de novo, pensei que ia me bater. Mas um garoto o empurrou, nos afastando. Agradeci mentalmente, sei que em uma briga eu estaria em desvantagem. Ele era bem mais alto e forte que eu. Aparentemente isso não foi problema para o garoto, ele desviava facilmente das tentativas de socos do Rafael. Chegava a ser engraçado. A coisa ficou séria quando os seus amigos resolveram participar. Três contra um não é a coisa mais justa do mundo. Ele deu um passo pra trás, mas não parecia estar com medo.

—O que vocês pretendem? Espancar o cara na frente da faculdade? Acha mesmo que isso ia ser uma boa? -Digo encarando seus olhos castanhos, é claro a sua raiva. Mas sua mãe trabalha aqui, sei que ele não fará nada,ele já aprontou demais esse ano, é só um filhinho de mamãe do fim das contas. Não me surpreendo que ele tenha conseguido entrar na faculdade. Para que estudar se pode conseguir uma vaga com um simples pedido,não é mesmo?

Seus olhos oscilavam entre eu e o garoto. Pegou seu celular e sua bolsa do chão e passou esbarrando de propósito em nós dois, seus amigos o seguiram. Respira e inspira. De novo. Agora abri os olhos, ele já tinha saído e as pessoas ao nosso redor já estavam voltando a cuidar de suas vidas. Procurei o meu herói, mas já tinha sumido, nem consegui agradecer.

—Carla! –Ninguém respondeu, ela deve estar na escola. É o seu último ano.

Tirei a calça e o tênis, aproveitei e fui lavar logo as roupas, enquanto tenho disposição. Quando acabei tomei um banho e me aconcheguei na cama. Fui ler as mensagens de novo do grupo, tinha algumas pessoas que vieram me chamar no privado apenas para me xingar, fala sério. Joguei o celular na cama e liguei o notebook, nem lembro quando cai no sono.

Sonolenta atendi ao telefone que não parava de tocar.

—Alô? –Digo entre bocejos.

—May? Será que pode abrir a porta? Esqueci as chaves aí dentro. –Ela parecia irritada. Deliguei e fui abrir a droga da porta. Ela batia sem parar.

—É tão difícil lembrar de levar a porra de uma chave? –Abri e me virei para voltar ao quarto. Estranhei, não ouvi resmungos ou mesmo passos, silencioso demais. Mas ainda assim sentia que não estava sozinha. Voltei e fechei a porta na chave. Estava arrepiada. A sensação não foi embora. Por favor senhor, juro ser alguém melhor! Me proteja agora. Por favor. A luz explodiu, dei um grito. Abri a porta, desci as escadas o mais rápido que consegui. Morava no terceiro andar. Não tinha ninguém na recepção, a sensação me perseguia. Fui para a rua, ninguém. Meu coração estava disparado, não sei se pelo medo ou por ter corrido tudo isso. Entro em uma lanche 24h. Tem uma mulher que aparenta ser pouco mais velha que eu.

—Tem alguém atrás de mim. Preciso chamar a polícia. Agora. –Minhas mãos tremiam. Quase não reconheci minha voz por causa dos soluços.

—Ei, se acalme. Quem está atrás de você? –Ela pegou o celular do bolso e começou a discar o número da polícia. Um vento entrou, bagunçando toda a loja, as prateleiras tremiam.

—Ligue AGORA! –Quando estava para tomar o celular das suas mãos ele saiu voando. Sim, voando. A mulher foi jogada na parede, tinha sangue saindo da sua cabeça. Tentei correr até a porta mais ela se fechou. Por favor, Deus! Só mais essa chance. O vento parou, abri a porta e corri o mais rápido que consegui. Para onde devo ir? Os poucos carros que passavam me ignoravam. Lágrimas desciam sem parar. A casa da Mila é aqui perto, posso ir até ela. Isso! Ia começar a andar quando um braço me puxou, antes que conseguisse gritar o outro tampou a minha boca.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.