Herdeira Das Trevas.
2 Capítulo 1 - Contato.
Capítulo 1 — Contato
–Sabe o que eu acho? – Annie, minha melhor amiga, dizia empolgada. A encarei pra que ela continuasse. – Acho que pra quem vai ir pra Hogwarts em apenas um mês, você tá muito desanimada.
–Quê? Eu esperei onze anos, Annie. Posso esperar mais um mês tranquilamente.
–Isso não é verdade.
É, tudo bem. Não era bem verdade, eu estava ansiosa pra receber a carta, ir no Beco Diagonal e tudo o mais. Mas, eu tinha acordada tão abatida e os motivos eram desconhecidos. Eu só não estava tão feliz quanto antes, claro que eu ainda tinha os mesmos objetivos. Porém, o pique tinha evaporado, puff. Sumido, da noite pro dia, o que era realmente estranho.
–É, não é verdade. – me levantei da cama respirando fundo. – Não sei o que aconteceu. – dei de ombros. – Simplesmente não sei.
–Então eu vou chamar o Leonard e ele vai te animar rapidinho.
–Cala a boca. – ri fraco. Leonard era o irmão dela, estava indo pro terceiro ano em Hogwarts e também era o meu melhor amigo.
–E você podia chamar o Draco pra me fazer companhia.
–Como se ele fosse querer né? O garoto não é que nem você, Annelize. – falei e ela mostrou a língua, me tacando um travesseiro.
–Mas um dia ele vai ter que gostar de alguém, e eu espero que seja eu.
–Então aí, eu espero que você não goste mais dele. – ri com aquilo e ela emburrou a cara no mesmo instante que bateram levemente na porta. – Leo? – falei baixo enquanto abria a porta, fazia semanas que não o via e naquela hora ele me agarrou num abraço forte e apertado, que me tirou do chão.
–Senti sua falta. – ele sussurrou no meu ouvido.
–Então bem feito, porque foi você quem quis me deixar pra ir passar as férias na casa do seu amigo... Como é mesmo o nome dele? – me virei, revirando os olhos depois que ele me colocou no chão de novo.
–O nome dele é Cedrico, e ele é um cara legal.
–Ele me rouba você em todas as férias, isso não é legal. Além do mais, você fica o ano inteiro em Hogwarts e eu só posso ver você no Natal, então eu tenho motivos suficientes para odiá-lo.
–Mas, não esquece que isso vai mudar querida. – Annie disse animada e me virei novamente com um sorriso malicioso na direção de Leonard, arqueando as sobrancelhas.
–Eu não esqueci, Vic. Vocês vão pra Hogwarts esse ano, tá vendo só? Você vai me ver com muito mais frequência.
–Então que bom que isso livra a pele do seu amiguinho. – falei baixo em tom irônico e ele riu olhando pra baixo e balançando a cabeça.
–Você não tem jeito mesmo. – sorri e ele foi rápido em me pegar pela cintura, me virando e me abraçando por trás, me fazendo rir.
–Vocês dois ainda vão acabar namorando. – Annie disse toda sonhadora e eu ri alto.
–E você viaja mais que tudo em. – falei e Leonard me deu um beijo na bochecha, me largando e indo em direção a porta. – Onde você vai?
–Fazer umas coisas, mas de noite eu tô ai. – ele piscou antes de bater a porta e desaparecer.
–Ele deveria parar de fazer isso. – disse me jogando na cama ao lado de Annie.
Passamos a tarde conversando e Annie sempre fazendo as piadinhas dela em relação... Bem, em relação a tudo. Quando deram sete horas da noite, ela se despediu e disse que viria o mais rápido possível.
Tomei um banho e me ajeitei pra dormir e na mesma hora que estava me deitando e ia pegar um livro sobre Artes Das Trevas pra ler, bateram na porta e rapidamente coloquei o livro em baixo do travesseiro pra que ninguém o visse.
–Quem é? – perguntei alto o suficiente pra quem quer que estivesse do outro lado da porta escutasse.
–Eu. – ouvi a voz de Leonard e franzi a testa, levantando rapidamente e indo abrir a porta, ele passou pela mesma e eu logo a fechei.
–O que você tá fazendo aqui? – perguntei abrindo um pequeno sorriso.
–Resolvi que passaria a noite aqui, Draco chamou e eu prontamente aceitei.
–Esperto.
–Eu sei.
Desci até a cozinha acompanhada dele e pegamos vários doces e guloseimas pra comer durante a madrugada, fomos pro quarto de Draco e ele já nos esperava lendo algo que ele jogou pro lado assim que entramos.
–Vocês demoraram.
–E o que você tava lendo? – me joguei por cima dele na cama tentando pegar o pequeno livro. Ele me empurrou pro lado e como a cama era grande, não me fez cair.
–Nada demais.
–Aham, sei. Deixa eu ver. – falei manhosa e ele revirou os olhos se mantendo de boca calada. – Então tá.
Depois daquilo começamos a conversar e comer as coisas que tínhamos pego na cozinha às escondidas. Ficamos até as duas da madrugada falando besteiras, enquanto eu e Draco enchíamos o saco de Leonard pra nos contar mais e mais sobre Hogwarts.
Antes de voltar pro meu quarto, consegui dar uma olhada no livro que Draco estava lendo, mas me mantive quieta. O porque dele estar lendo um livro sobre feitiços do segundo ano, eu não fazia ideia. Mas tudo bem, porque também não me interessava.
Quando acordei no outro dia já estava na hora do almoço, me arrumei e desci pra comer. Os pais de Annie tinham acabado de chegar pra buscar Leonard e Annie me puxou pra um canto fora das vistas deles e dos Malfoy.
–Tá louca? – falei assim que ela me largou, ajeitando minha roupa que ela tinha acabado por amassar.
–Eu ouvi uma conversa. – ela disse séria e quando Annie falava sério, então é porque a coisa realmente não era pra brincadeiras. – Meus pais estavam conversando ontem, tão baixo que foi quase inaudível pra mim.
–E o que eles conversavam? – perguntei com cautela.
–Eu não sei se é certo contar a você, mas... – ela começou a falar receosa. – Parece que não somos só nós que vamos ingressar em Hogwarts esse ano.
–O que você quer dizer com isso?
–Bom, você sabe... Os Malfoy com certeza tentaram compelir Dumbledore a não fazer o que quer fazer, mas pelo que eu ouvi ontem, sem duvidas ele vai fazer de qualquer forma. Então...
–Fala logo.
–Tá. – ela respirou fundo. – Harry Potter também vai receber a carta de Hogwarts.
–Que péssimo.
–Eu esperava mais surpresa. – ela disse num tom indignado e eu sorri fraco.
–Eu já imaginava, já li muito sobre ele e também esperava que ele tivesse a mesma idade que nós. E francamente, sendo um bruxo, são poucos os que não vão pra Hogwarts, você sabe disso. – dei de ombros.
–Mas, ele é uma exceção.
–Então parece que não é tanto assim, porque de uma forma ou outra ele vai pra Hogwarts, não é? – ela engoliu a seco enquanto voltávamos pra sala e ela se despedia dos Malfoy, Leonard me disse tchau e minutos depois eles já tinham partido.
Tudo bem, tinha tratado ela com mais frieza do que esperava e não que isso fosse lá fazer ela ficar brava ou algo do tipo, porque ela já estava mais do que acostumada com meu jeito de ser e sabia que isso fazia parte de mim. Fazer pouco caso das coisas, até mesmo as importantes como essa.
Mas, era tão óbvio que ele ingressaria em Hogwarts, quer dizer... Eu, pelo menos, já imaginava isso. E eu queria saber onde meu pai estava nesse momento, por Merlin. Harry Potter entrando em Hogwarts e pronto pra aprender coisas que podem ser usadas contra ele, e ele simplesmente escondido. Pois que desse logo um jeito de voltar a ativa de uma vez por todas, ou então se explodisse pelos ares e assim eu assumisse tudo que era meu por direito.
Não que Harry fosse derrotá-lo assim, claro que não. Nem seria possível, quero dizer, eu o odiava porque como herdeira de Tom, era mais do que claro que tinha motivos. Ele matou meu pai! Oras, poxa vida, eu tinha motivos e digamos que minha personalidade puxava tanto ao meu pai que era inegável dizer que eu era filha dele. E tudo bem, meu pai tentou mesmo mata-lo e ele era só uma criança, porque diabos não morreu de uma vez? Era cruel pensar dessa forma, mas era o que se fixava na minha cabeça.
Respirei fundo, subindo as escadas e indo direto pra biblioteca. Comecei a ler, mas eu admitia que minha cabeça estava longe. Longe o suficiente pra não absorver nada que estivesse escrito ali. Respirei fundo pela milésima vez naquele dia, já deviam ter se passado horas desde que estava trancada ali.
E quanto a minha mãe, só poderia definir em uma palavra. Maluca! Maluca de pedra e ainda por cima, apaixonada. Só por Merlin mesmo. Toda vez que pensava excessivamente em meu pai, acabava por pensar nela. Porque no final das contas, ela também era minha mãe e família a gente não escolhe. Se bem que, eu não poderia querer outra família. Apesar de tudo, Bellatriz era sangue-puro e tão má quanto meu pai, bom, um pouco menos quem sabe. Mas pra mim já estava de bom tamanho e já eram motivos pra mim gostar dela o suficiente, não tanto como ele, claro. Mas até que a admirava.
Quando sai da biblioteca já era tarde e os corredores já estavam com as luzes apagadas. Não desci pra jantar e também não estava com fome, fui pro meu quarto e tomei um banho, indo me deitar logo em seguida e pegando o livro de Artes Das Trevas que já era pra mim ter começado a ler a dias, mas nunca acabava dando certo. Annie dormia aqui a maioria dos dias, ou então Leonard aparecia e como de costume, ele brincava e me animava. E de fato, me fazia esquecer o que eu realmente tinha que fazer.
Quando desci pra tomar café no dia seguinte, Draco estava pedindo pra tia Narcisa se demoraria muito até a carta de Hogwarts chegar e eu confesso que também já estava começando a ficar ansiosa pra receber a carta, queria que ela chegasse logo.
Passei o dia pelos jardins, não me pergunte por quê. Somente estava tentando esvaziar minha mente, quando sem mais nem menos senti uma pontada forte na cabeça. Levei minha mão direita até minha cabeça e balancei a cabeça devagar, não devia ser nada demais.
“Victoria...”
Olhei ao redor tentando ver quem tinha me chamado. Mas aquela voz parecia tão baixa e como um sussurro que por um segundo, ousei pensar que estava vindo da minha cabeça. Até que a pontada que antes tinha sido única, agora tinha se multiplicado e não parava.
Me ajoelhei gemendo de dor com a testa franzida, me sentando perto de uma árvore grande e bem corpulenta. Minha cabeça estava doendo como nunca e numa intensificação assombrosa.
“Você consegue me ouvir, Victoria?”
Não. Não podia ser, eu devia estar alucinando. Essa era única resposta para aquilo, não era real. Não tinha como ele estar fazendo contato comigo.
–Para. – gemi ainda lutando contra a dor na minha cabeça.
“Essa dor é necessária, ao menos, se eu quiser falar com você minha herdeira.”
–Por Merlin, só pode ser brincadeira. – ouvi sua risada ao fundo e ela era doentia. – O que você quer?
A impressão que estava passando era que estava adorando me ver com dor e o quanto pudesse prolongar isso, iria fazer. Era até admirável levando em conta quem ele era, mas eu era a filha dele.
–Eu sei quem é você e eu sei o que está fazendo. – falei entredentes com raiva e me levantando devagar ainda morrendo de dor, mas eu não transpareceria mais isso. – Então se você não parar agora, eu vou encontrar você onde quer que esteja e vai ser pior. – dessa vez sua risada foi bem mais alta.
“E o que você poderia fazer? É uma criança. Se bem que sua coragem me espanta, herdou isso de mim, é claro. Porém, o que vim fazer é apenas lhe conhecer... Bem, eu sei dos seus objetivos minha querida e é claro que vai seguir todo o caminho do seu pai, como poderia não seguir? Sendo uma Lady...”
Ri com escárnio, o que fez seu silêncio na minha mente reinar. Eu não sabia como estava fazendo contato com ele, mas por mais incrível que pudesse parecer pra mim, eu não estava nada surpresa com o seu jeito.
–Me diga logo o que quer, Tom.
“Pois bem, Harry Potter assim como você vai entrar em Hogwarts esse ano. E eu preciso da sua ajuda pra conhecê-lo e me dizer do que ele é capaz. Eu vou retornar ao poder, e eu sei muito bem que é isso o que você tanto almeja assim como eu, mas o empecilho desse garoto e dessa profecia... Estando do meu lado, você pode ter tudo e é claro que assim como eu, sabe o que quer. – ele riu. – Você vai entrar na vida dele, saber tudo sobre ele e vai se encarregar de fazer com o que ele chegue a mim na hora certa... Para mim, finalmente, mata-lo.”
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