Janine havia nascido em Arraial dos Sonhos. Era uma noite chuvosa de dezembro. Dia 10. Marta, sua mãe, sofreu por nove meses para manter a gravidez que era de alto risco. O médico da capital havia recomendado o aborto, pois, seria impossível que a criança nascesse com vida. Marta se recusou. Ter um filho era tudo que sempre quis. Não iria abrir mão de seu sonho tão facilmente.

Na noite em que Marta entrou em trabalho de parto, Arraial dos Sonhos passava por um dos maiores temporais de sua história. A energia havia acabado, devido à queda de vários postes com a força do vento. A ponte, da única estrada que ligava a cidade ao resto do mundo, estava encoberta pela água. Os moradores estavam ilhados.

O único médico da cidade estava fora. O desespero tomou conta do seu marido, Marcos Silva, conhecido por todos como Seu Silva. Será que perderia sua filha e sua esposa ali, naquela noite? Nove meses de sacrifício não poderiam ser perdidos assim.

Orou como um cristão fervoroso naquela noite. Apesar de dizer a todos que não acreditava em Deus, e que se ele existisse, seria apenas uma criança mimada e sádica, brincando com seus bonecos em um parquinho, toda ajuda naquela hora seria bem-vinda.

O fato de se dizer ateu foi um dos motivos pelos quais Silva ganhou a inimizade de muitos na cidade. Inclusive do vigário José, que cuidava da pequena capela da cidade. Ser cristão era uma obrigação para os moradores da cidade em que a imagem era tão importante.

Seu Silva precisava agir naquele momento, sua mulher gritava de dor. Lembrou-se de Dona Carmem, a famosa parteira da cidade! Segundo ela, mais de trezentos habitantes de Arraial dos Sonhos haviam chegado à cidade por suas mãos. Com o progresso e a chegada do posto de saúde, dona Carmem foi meio que esquecida.

Ela morava na casa rosa no fim da rua Sete. Havia tantas ervas e plantas medicinais plantadas em seu quintal que até o médico da cidade, Seu Antony, ia visitá-la de vez em quando. A casa de Seu Silva ficava dois quarteirões acima da casa de Dona Carmem, na mesma rua. A parteira era a única opção que ele tinha no momento.

Correu para sua caminhonete, que ainda estava cheia de lama, por causa de sua ida à fazenda mais cedo, naquele dia. Parou na porta de Dona Carmem. Estava tudo escuro. Claro, não havia energia, pensou ele. Começou a buzinar desesperadamente, e gritá-la pelo nome. Vários vizinhos colocaram as caras nas janelas para saber do que se tratava aquele escândalo. Ao verem quem era muitos fecharam as cortinas.

Dona Carmem estava dormindo. Saiu desnorteada na varanda.

— Venha Logo, Dona Carmem. Preciso da senhora. Marta está dando à Luz, e não há ninguém para ajudá-la.

— Onde está o médico, Seu Silva? Faz anos que não realizo mais partos.

— Seu Antony não está na cidade. Se a senhora não ajudar perderei minha filha e minha mulher. Não faça por mim, faça isso por Marta, que sempre lhe quis bem.

Dona Carmem não gostava de Seu Silva, assim como quase toda a cidade. Mas Marta sempre foi gentil com todos, e não havia uma alma naquela cidade que não gostasse da doce Marta.

— Eu irei! Mas que fique claro que vou pela Marta, não pelo senhor!

— Que seja! Só quero que salve minha mulher e minha filha!

Ao chegarem à casa, Marta estava gritando de dor em seu quarto, que ficava no andar de cima. O suor já havia lhe ensopado a roupa e cabelos. A luz do lampião, deixava mais assustadora a sua cara de dor, e dava ao lugar um clima mórbido. Algo ruim parecia estar prestes a acontecer.

O parto foi complicado e demorado. Janine estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Nasceu depois de muito sofrimento. Estava sem respirar. O cordão havia lhe pressionado o pescoço. Dona Carmem tentou reanimá-la. Marta ainda estava acordada, apesar da dor. Ao ver sua menina inanimada nas mãos de Dona Carmem, começou a gritar.

Não era possível que sofrera aquilo tudo para que a criança morresse! Questionou Deus, naquele momento. E gritou que preferia ter morrido, a ter que viver a dor da perda de uma filha. Não era justo! Como Deus poderia tirar a vida de uma criança que acabara de nascer? Ela já tinha vivido muito, encontrara seu grande amor, e naquele momento era a mulher mais feliz do mundo, por ser mãe. Sua filha, porém, ainda não tivera a chance sequer de viver.

A chuva ficou mais forte. Um raio atingiu o telhado da Residência. Seu Silva e Dona Carmem caíram ao chão de susto. Ao se levantarem, ouviram o choro de Janine. Ela estava viva! Porém, Marta não. Nenhum deles pôde dizer se Marta chegou a saber que sua filha estava viva, antes de partir.

Muitos dizem até hoje na cidade, que Marta havia dado sua vida, para que sua filha vivesse. Neste dia Silva teve a certeza de que Deus não existia, por ter permitido que sua esposa morresse. Desde então se tornou a pessoa mais amargurada e fria de Arraial dos Sonhos. Muitos chegavam a falar que ele perdeu naquele dia a única pessoa que deixou ele próximo de ser humano.

Apesar de amargo, e de odiar todos na cidade, Silva amou muito sua filha. Era a segunda melhor coisa que lhe acontecera. Ela era o único elo entre ele e sua amada e falecida esposa. Mas poucos conheceram esse seu lado.

Notas finais
O que estão achando?