Herança de Cinzas

9 Sacrifício em Silêncio


As últimas duas semanas passaram correndo, e hoje já é quinta-feira.

Almocei com Tobias todos os dias dessas semanas até ontem. Hoje, ele desmarcou, dizendo que teve um imprevisto. Sempre que minha aula acaba, ele já está me esperando para estudarmos, e depois me deixa no acampamento.

Kai tem insistido para saber quem é meu "amigo misterioso" da faculdade, mas desconfio que ele já saiba que é Tobias. Só não entendo o que ele quer com isso.

Tentei confrontar o Tirano várias vezes durante esses dias sobre os telefonemas, mas ele sempre encontrava um jeito de fugir do assunto. Falar com Kai sobre Tobias se tornou algo fora de cogitação. Sempre que tento, ele se fecha, tornando impossível qualquer conversa.

Por incrível que pareça, estou conseguindo me entender com Tobias. Ele continua um bastardo, arrogante, gostoso, mandão, bipolar e convencido, mas aos poucos consigo não querer matá-lo. Cada dia é uma vitória. Nós não conversamos sobre o que está acontecendo entre nós—até porque, não existe “nós”. Mas a atração crescente entre nós dois é quase palpável.

Quando ultrapassa os limites, acabamos nos beijando. Simples assim.

Não sei explicar como, nem o porquê, mas é impossível negar a química que rola entre a gente. Com o passar dos dias, percebo que temos mais coisas em comum do que imaginávamos.

Estou arrumando minha bolsa para ir à cafeteria quando alguém bate na porta. Mando entrar sem parar de organizar minhas coisas, pois sei quem é.

Kaique entra no quarto e se senta na minha cama, me observando em silêncio, com uma expressão estranha.

— Que foi? — Pergunto, ainda guardando as últimas coisas. — Por que tá me olhando assim?

— Nada, só que você tá diferente, mais... Hum... Como eu posso dizer?! — Ele fala rápido, com um olhar ainda mais estranho.

— Fala logo, Kai. — Insisto, curiosa.

— Tipo, mais encorpada?! — Ele solta, incerto.

— Tá me chamando de gorda?! — Pergunto, descrente.

— NÃO! — Ele grita, pulando da cama e vindo para perto de mim. — Tipo... Você tá malhando? Pegando mais peso ou correndo mais?

Cruzo os braços e apenas encaro ele, sobrancelha arqueada.

— Você tá mais gostosa, pequena, é isso. — Ele suspira e senta na cama de novo, me observando.

Não me seguro e começo a rir.

— Sério? Esse drama todo só pra dizer isso?

Ele revira os olhos, mas não discorda.

— Thoth pediu para eu voltar a correr com frequência e fazer mais abdominais. Acabei voltando a nadar também.

— Por que ele pediu isso?

Dou de ombros.

— Não sei. Na verdade, ele vem sendo bem evasivo ultimamente. Mudou toda a minha grade de exercícios e agora tem esse anúncio super, hiper, mega, master importante daqui a pouco.

Kaique assente, pensativo.

— Pois é, convenceram todos os alunos que ainda têm contato com o acampamento a estarem presentes. O auditório tá lotado.

— Imagino. Bom, tô pronta. Vamos? Ainda quero passar no refeitório antes de irmos.

Ele passa um braço pelo meu ombro e saímos do quarto.

Quando entramos no refeitório, pensei ter entrado em uma zona de guerra.

Nunca vi esse lugar tão cheio de pessoas tão barulhentas—elas mais falavam do que comiam.

Depois de ser esmagada e ter o pé pisoteado inúmeras vezes, consigo sair de lá inteira, carregando um copo de café, um sanduíche natural e um Kaique achando graça do meu sofrimento.

— Tá indo pra onde, Luna? — Kai pergunta ao notar que peguei o caminho contrário ao do auditório.

— Preciso falar com Thoth antes de irmos.

— Certo. — Ele me acompanha sem questionar.

Quando chegamos à frente do escritório de Thoth, bato na porta antes de abri-la, colocando apenas a cabeça para dentro.

— Pai!

Vejo ele sentado atrás da mesa. Ártemis, Apollo e Dionísio ocupam o sofá do escritório, enquanto outra pessoa está sentada na cadeira de frente para Thoth, de costas para mim.

No primeiro momento, não reconheço a figura. Mas então, sinto aquele cheiro tão familiar de terra molhada. Meus olhos baixam para o boné preto, virado para frente, escondendo seu rosto. Meu estômago se revira.

Tobias.

A surpresa me congela por um instante. Esqueço completamente o que vim fazer ali.

— Luna? — Meu padrinho me chama, trazendo-me de volta à realidade.

— Sim.

— O que você ia falar?

Pisca algumas vezes, tentando recobrar a lógica.

— Ah, claro. É só pra avisar que só volto para o acampamento na segunda. — Respondo, ainda encarando as costas da cadeira onde Tobias está sentado.

— Luna? — Thoth chama um pouco mais alto.

— Oi!

— Tudo bem, pode ir, mas me mantenha informado.

— Certo.

Fecho a porta e fico paralisada na frente do escritório.

— Pequena? — Kai chama minha atenção.

— Oi.

— Tá tudo bem?

— Claro, claro. Vamos?

Começo a andar, mas não consigo parar de pensar no motivo que Tobias teria para estar reunido com o conselho.

Ainda estávamos a uns cinco metros do grande salão, vulgo auditório, e já era possível ouvir a gritaria ensurdecedora. Com muito esforço, conseguimos entrar e ficar em pé em um cantinho menos lotado.

Estou terminando meu café quando sinto sua presença. Seu cheiro conhecido. Ele está aqui. Meu olhar varre o ambiente, procurando-o. Mas não consigo encontrá-lo.

Ainda assim, sei que ele está em algum lugar por aqui.

— SILÊNCIO!

De repente, um silêncio quase enlouquecedor domina o salão.

— Bem melhor assim. — Apollo comenta com ironia.

Thoth entra na sala acompanhado de Ártemis, Apollo e Dionísio.

Os quatro sobem no pequeno palco no meio do salão, e Thoth começa a falar.

— Agradeço a presença de todos e espero que o silêncio continue para que possamos explicar o motivo dessa reunião extraordinária.

Percebo que seus olhos percorrem o salão, como se procurasse alguém.

— Depois de muita conversa, nós do conselho—fala, apontando para os outros três deuses e para ele mesmo—decidimos realizar um torneio no acampamento.

Assim que ele termina, uma onda de murmúrios invade o local, mas é rapidamente silenciada pelo assobio ensurdecedor de Dionísio.

— Nós iremos esclarecer toda e qualquer dúvida de vocês, mas antes nos deixem terminar de explicar. — Ártemis toma a frente.

— O torneio será feito com o intuito de testar as habilidades de vocês—todas elas! Então, espero que estejam em forma. Caso contrário, terão uma semana para se prepararem.

Aí sim, o barulho explode no ambiente. Mais uma vez, é silenciado por um som ainda pior que o anterior. Apollo suspira, impaciente.

— Estou começando a achar que vocês gostam desses sons. Enfim…

Ele continua.

— O torneio terá início ao amanhecer do sétimo dia, contando a partir de hoje. Será dividido em fases, e em cada uma delas vocês receberão tarefas. Aqueles que conseguirem concluí-las irão para a próxima fase. Os que falharem serão eliminados.

Ele faz uma pausa, esperando a confusão começar. Mas parece que todos aprenderam a lição. O silêncio continua.

— As tarefas serão elaboradas de forma que, na última fase eliminatória, reste apenas um semideus filho de cada deus.

— E quem não sabe de quem é filho? Como vai ser classificado?

A voz me causa repulsa instantânea. Logo depois, um bando de idiotas começa a rir e olhar para mim.

Peter Babaca Idiota Junior.

Esse projeto de semideus é filho de Zeus e, por isso, se acha o todo-poderoso aqui dentro. O problema é que ele parece não perceber que tem mais filhos de Zeus no mundo do que pessoas com cabelo.

Enfim, esse estúpido fez dos meus primeiros anos aqui dentro um inferno.

Onde eu estava, ele estava também. Sempre presente. Sempre pronto para me chatear com piadinhas do tipo: "Ei, não sabia que isso aqui era um orfanato." ou "Qual o problema? Vai contar pra mamãe? Ah, é... você não tem mãe."

E várias outras do mesmo gênero. Ele só parou quando comecei a andar com Kai. Naquela época, Kai foi meu salvador. Hoje em dia, já sei me defender sozinha.

Reviro os olhos e desvio minha atenção dele.

Além daquele babaca, noto uma figura escorada na parede, parcialmente escondida pela multidão.

Não preciso de luz para saber quem é. Nem para perceber que ele está sorrindo.

Tobias.

Meu coração dá um salto. Tento não pensar nisso agora.

— E quanto tempo nós vamos ter para cada tarefa? — Pergunta uma garota que já não mora mais no acampamento.

— Tempo suficiente. — Dionísio se pronuncia pela primeira vez.

— Cada tarefa terá um tempo específico para ser realizada e terá uma pontuação. Vocês serão classificados de acordo com essa pontuação. O torneio terá duração de três dias. No final do segundo dia, apenas nove de vocês permanecerão. Os selecionados receberão uma última tarefa. Quem realizá-la primeiro, vence.

Dionísio faz uma pausa, esperando mais perguntas.

— Quanto tempo nós teremos para descansar? — Pergunta um garoto gordinho que não deve ter mais de treze anos.

Dionísio o encara com um sorriso quase divertido.

— Vocês não vão descansar.

A resposta pesa no ar.

— Esse torneio não é uma brincadeira de acampamento de férias. É uma batalha para decidir quem é o melhor.

O garoto engole seco, mas Dionísio logo completa:

— Mas não se preocupe. Apenas aqueles com mais de quinze anos poderão participar.

A tensão no salão se espalha.

— Então sugiro que procurem seus tutores e se esforcem durante os treinos.

Peter se manifesta de novo.

— E o que nós vamos ganhar com isso? Afinal, todo esse esforço deve ser recompensado, não é mesmo?

Pela primeira vez na vida, Peter faz uma pergunta válida.

Thoth sorri.

— Com certeza vocês conhecem Hefáistos, não é?

— O ferreiro, filho de Zeus e Hera? Sim. O que tem ele? — Responde uma garota na frente.

Thoth faz uma pausa, deixando o suspense no ar antes de continuar:

— Creio que seja do interesse de todos vocês possuir uma espada feita do mais puro metal. Uma lâmina forjada pelo ferreiro do Olimpo.

O silêncio toma conta do salão. Ninguém esperava por isso. Uma espada feita por Hefáistos é extremamente preciosa. E impossível de ser adquirida por um semideus. Apenas os deuses do Olimpo têm acesso ao trabalho do ferreiro.

Thoth observa as expressões surpresas e sorri.

— Levarei o silêncio de vocês como um sim. Então sugiro que se preparem… E que os jogos comecem.

Ele termina de falar e sai do salão, acompanhado pelos outros três.

Fico em silêncio, tentando absorver todas essas informações. O salão se movimenta enquanto todos começam a sair. Procuro Tobias. Ele ainda está parado no mesmo lugar. Aviso ao grandão que já volto e vou falar com ele.

— É falta de educação não cumprimentar as pessoas, sabia? — Digo, me escorando na parede ao seu lado.

Tobias não me olha. Apenas admirando as próprias botas, ele solta:

— Não sabia que tinha que ser educado com o bichinho de estimação do acampamento.

Meu sorriso desaparece.

O quê?

Minha testa se franze. Só então percebo as olheiras profundas em seu rosto e a exaustão estampada em cada feição. Algo está errado.

— O que você disse? — Pergunto, tentando entender.

Ele enfim levanta o olhar, mas a única coisa que encontro em seus olhos é desgosto.

— Achei que fosse mais inteligente.

Cada palavra é carregada de um peso que eu não consigo explicar.

— Nossa, me sinto muito tocada por ser chamada de burra. — Respondo, sentindo meu bom humor afundar na fossa.

— Não estou nem aí para o que você sente.

Mesmo sem querer, suas palavras me atingem mais do que deveriam. Meu peito aperta.

— Qual é o problema, Tobias? — Pergunto, já irritada.

Ele solta um suspiro pesado. Então se vira para mim abruptamente, socando a parede bem ao lado da minha cabeça. O som da madeira rachando me faz prender a respiração.

— Ainda não percebeu que você é o problema!?

Seus olhos estão diferentes. Escuros. Frios.

— Você! Eu não quero fazer parte do grupo de pessoas que ajudam a pobre garota órfã que foi adotada pelo acampamento por pena! Eu não suporto mais olhar na sua cara!

Suas palavras são lâminas.

Profundas.

Cortantes.

Ele passa as mãos nos cabelos e se afasta, como se estivesse tentando se conter.

Mas eu já senti o golpe.

E ele foi certeiro.

Minha respiração falha.

A dor na garganta é instantânea.

Mas eu não vou recuar.

— Eu nunca pedi a sua ajuda. Nem a de ninguém. — Minha voz sai baixa, mas firme. — Tudo que eu conquistei sempre foi por mérito meu. Se alguém se propôs a me ajudar, foi porque quis.

Levanto o olhar, encarando Tobias como nunca antes.

— Eu prefiro ser a garota que foi adotada e amada por alguém do que ser o estúpido que foi rejeitado por todos e que não é capaz de ter nenhum tipo de sentimento por ninguém. Que vai sempre viver sozinho sem saber o que é amar e muito menos ser amado.

Seu maxilar se trava, mas eu não paro.

— Seu bastardo, arrogante, medíocre e egoísta!

O silêncio explode entre nós.

Meu corpo inteiro treme.

Meus olhos queimam.

Eu não vou chorar.

Mas Zeus, como queria.

— Luna.

Ele tenta segurar minha mão. Eu me afasto.

— Pequena, vamos? — A voz de Kai é um chamado.

Tobias ainda não se mexe.

— Nós ainda não terminamos de conversar. — Ele fala, a voz carregada de algo que eu não consigo decifrar.

— Pequena? — Kai questiona, me dando uma opção.

Fecho os olhos por um segundo.

Respiro.

Engulo tudo.

— Vamos.

Pego minha bolsa no chão—nem sabia que tinha caído.

Mas antes de sair, Tobias me segura novamente.

— Luna!

Eu quero olhar para ele.

Mas não posso.

E não quero.

— Não toca em mim! Você não é digno nem disso.

Puxo minha mão com força e me afasto.

Ainda assim, escuto seu sussurro antes de partir:

— Não sou mesmo...

Saio dali com passos rápidos, a respiração entrecortada como se tivesse acabado de correr uma maratona. Minhas mãos tremem, meus pensamentos embaralhados em um caos que eu não consigo organizar.

O que diabos acabou de acontecer?

A necessidade de me afastar daquele lugar se torna uma urgência, então viro a primeira esquina e continuo andando. Minha visão está turva, e só percebo que estou perto do estacionamento quando a voz de Kaique me chama de novo.

— Pequena?

Levanto a cabeça e o encaro. Seus olhos cristalinos se estreitam ao me observar.

— O que aconteceu? — Ele pergunta, sua expressão carregada de preocupação.

Mas eu não quero falar sobre isso.

Nem posso.

Então apenas forço um sorriso.

— Nada. Vamos embora.

Kaique hesita, mas não questiona. Ele apenas abre a porta do carro para mim.

Eu entro como se estivesse fugindo de algo e tudo começa a acontecer no modo automático.

Vejo tudo ao meu redor se movimentando, mas é como se eu fosse apenas uma observadora da minha própria vida. O caminho inteiro, as palavras dele ecoam na minha mente.

No fundo, mesmo sem querer, eu ainda tinha esperança de que dessa vez as coisas seriam diferentes. Mas eu estava enganada. Ainda sou a pobre órfã adotada por pena.

A raiva consome minhas veias.

A mágoa pesa nos meus ossos.

A rejeição queima minha pele.

E a solidão… A solidão eu já conheço bem.

Olho pela janela, a floresta aos poucos se transforma em uma grande metrópole. Mas toda a paisagem perde a beleza quando uma moto conhecida passa ao lado do carro. Ela diminui a velocidade para nos acompanhar.

Meu estômago afunda.

Ele está com um capacete todo preto, o rosto oculto. Mas eu sei quem é. Sei que ele está olhando para mim.

Meu coração aperta com um sentimento que eu não consigo nomear.

Por um momento, nossos olhares se cruzam.

E então, ele acelera. Vai embora. Sem olhar para trás e eu volto a me perder na minha dor.

— Luna?

Minha voz sai fraca.

— Oi.

— Chegamos.

Kaique solta o cinto e se estica para soltar o meu também.

— Certo, obrigada pela carona.

Tento sorrir, mas é forçado.

Me viro para sair do carro, mas ele me segura pelo braço. Antes que eu possa recuar, me puxa para um abraço acolhedor.

— Eu não sei o que ele te disse, mas não importa. Tenho certeza que você não é nada do que ele falou.

O sussurro chega ao meu ouvido, e eu cedo ao toque. Kai me aperta ainda mais contra ele.

— Eu sabia que nunca deveria ter deixado você se aproximar dele. — Sua voz está carregada de um peso que eu não sei interpretar. — Mas também sabia que, quanto mais eu tentasse te afastar dele, mais você se aproximaria.

Meu peito aperta.

— Então a única forma era deixar você conhecê-lo sozinha. — Kaique me envolve, seu abraço quente e seguro. — Eu sinto muito, pequena. Muito mesmo.

Não consigo responder. Apenas balanço a cabeça.

Uma lágrima solitária ameaça cair. Mas não me permito chorar.

Não agora.

— Vai se atrasar para o seu turno. — Kai fala, me balançando suavemente.

— Eu sei. — Murmuro, me aconchegando ainda mais nele.

Só mais um pouco. Só mais um segundo de calor antes de voltar para a realidade.

— Quem é você e o que fez com a minha garota que odeia abraços? — Pergunta, rindo.

Levanto o rosto, encarando seus olhos cristalinos.

— Sou uma versão mais carente dela. — Respondo, manhosa.

Kai arqueia uma sobrancelha, divertindo-se com minha resposta.

— Definitivamente, você não é a minha garota! — Diz, rindo.

Inclino um pouco mais, sem pensar, diminuindo ainda mais a distância entre nós.

— E o que a sua garota faria? — Questiono, provocativa.

Os olhos dele acompanham meu movimento, atentos.

— Ela não ficaria tão próxima assim.

Sua voz sai quase em um sussurro. Sinto a aceleração da sua respiração.

— E por que ela não ficaria tão próxima assim? — Minha atenção desvia para sua boca entreaberta.

Ele engole seco.

— Porque é perigoso.

Meu coração bate mais forte.

Mas eu não recuo.

— E por que é perigoso? — Pergunto, voltando a encará-lo de verdade.

O olhar de Kai fica sombrio por um instante antes de ele responder.

— Porque ela tem olhos que podem fazer um homem morrer por ela. E porque ela odeia contato demais.

Seus dedos deslizam lentamente até minha cintura. O calor do seu toque se espalha pela minha pele.

Eu sorrio, traquina.

— Depende do contato.

Vejo suas pupilas dilatarem.

O ar ao nosso redor parece mais denso.

— Mas por que ela odeia contato?

Kai solta um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve segundo. Então perde a paciência.

— Pro inferno com seus “porquês”, Luna! — Ele rosna e me puxa para seu colo, me mantendo entre ele e o volante.

Antes que eu possa formular uma resposta, seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, quase hesitante. Mas logo se transforma em algo familiar e envolvente.

Kai mantém suas mãos em minhas costas, seus dedos desenhando pequenos círculos sobre minha pele. Eu correspondo, deslizando minhas mãos para sua nuca e enroscando meus dedos em seu cabelo. Por mais que eu tente, é impossível não comparar o toque dele com o de Tobias.

Kai é calor e suavidade, agradável de uma maneira que não exige nada. Mas não faz minha pele queimar. Não faz meu coração disparar como um animal selvagem em fuga. Não me faz sentir viva da forma que o toque de Tobias faz.

Por um instante, essa percepção pesa dentro de mim. E então, o ar se torna necessário, nos obrigando a nos separar.

Encosto-me no volante, recuperando o fôlego, enquanto encaro Kai.

Ele parece satisfeito. E eu deveria estar também. Mas algo dentro de mim permanece inquieto.

— Acho que tá na hora de ir. Odeio atrasos, sabe! — Digo, saindo do seu colo e abrindo a porta do carro.

Kai solta uma risada.

— Te pego à meia-noite?

Forço um sorriso.

— Com certeza!

Pisco um olho e saio do carro. Atravesso o estacionamento, caminhando apressada até a porta dos fundos da cafeteria. A realidade volta de uma vez, cortante.

Pego meu celular enquanto entro no café e vejo que já estou quinze minutos atrasada.

Suspiro.

Tento afastar os pensamentos que insistem em permanecer. Principalmente aqueles sobre o motoqueiro.

Guardo minhas coisas no armário, seguro o avental e sigo para o balcão.

— Pronto, Maia, pode ir. Desculpa o atraso, perdi a noção do tempo. — Digo, terminando de prender o cabelo.

— Tudo bem, até amanhã. — Ela responde, tirando o avental e desaparecendo pelos fundos.

Respiro fundo.

Volto ao trabalho.

Tentando deixar tudo para trás.

Tentando esquecer tudo.

Mas Tobias continua ali.

Como uma tempestade à espreita.


xxx


TOBIAS

— TOBIAS! PARA! JÁ CHEGA!

Os gritos me fazem estacar no lugar.

Minha respiração está descontrolada.

O peso em meus punhos e a tensão nos músculos denunciam o que acabei de fazer.

A voz calma que se segue é a única capaz de me puxar de volta.

— Ei, meu pequeno príncipe, sou eu!

Olho para Ártemis, que caminha na minha direção com as mãos levantadas, como quem tenta acalmar um animal ferido.

Ela se aproxima sem hesitar e me abraça, como sempre faz quando sabe que já não aguento mais carregar tudo sozinho.

Cerro os olhos e encosto a cabeça no espaço do seu pescoço, sentindo todo o peso dos últimos acontecimentos esmagar minhas costas.

— Tá tudo bem, pequeno, eu estou aqui agora. Vai ficar tudo bem.

Sua voz é tranquila, mas não consigo acreditar nela. Nada está bem. Nada vai ficar bem.

— Não tá nada bem, mãe.

Engulo seco. O bolo na minha garganta cresce e ameaça me sufocar.

— Ela deve estar me odiando.

Minha voz sai áspera. Dura. Um nó na garganta que eu não consigo engolir.

— Eu fui um bastardo, como ela disse.

Passo as mãos pelos cabelos. Eu não tinha o direito de falar aquelas coisas.

Ártemis me obriga a levantar o rosto, seus dedos firmes sob meu queixo.

— Eu sei que deve ter doído, meu filho, mas você tinha que fazer. Era necessário. — Ela prende meu olhar no dela, como sempre faz quando quer que eu acredite no que diz. — Você a ama.

Não é uma pergunta.

Ela afirma, sem hesitação. E depois suspira abaixando a cabeça.

— Eu posso não ser sua mãe biológica, mas fui eu quem te criei. Eu vi você crescer e se tornar esse homem incrível. — Sua voz vacila só um pouco, mas logo recupera a firmeza. — Então eu sei que você é capaz de salvá-la e reconquistar o coração dela. Porque parte dele já é seu.

— Assim como o seu já é dela.

Fecho os olhos por um instante.

Respiro.

O suficiente para conseguir organizar minimamente as palavras na minha cabeça.

— Ela é a pessoa mais incrível que eu já conheci. — Minha voz sai baixa, mas cortante. — Mesmo com tudo o que já sofreu. Mesmo com a distância que ela tenta manter das pessoas. Ela ainda consegue amar. E fazer com que os outros a amem também.

Minha mente está um caos. Olho ao redor, finalmente reparando no estado do meu apartamento.

Os móveis destruídos.

Papéis amassados.

O chão coberto de destroços que antes eram prateleiras inteiras.

Um reflexo da minha vida nas últimas vinte e quatro horas.

Bagunçada.

Destruída.

Sem espaço para mais nada além da raiva e do remorso.


~ No dia anterior ~

Depois do fim de semana que Luna passou no meu apartamento, almoçamos juntos todos os dias. Depois do almoço, eu a deixava no acampamento e ia para a empresa.

Pouca gente sabe, mas sou o CEO de uma empresa de tecnologia em ascensão. Passei a tarde lidando com assuntos burocráticos, analisando contratos, fechando parcerias. O suficiente para me manter ocupado, mas não distraído.

Nos intervalos, meus olhos sempre voltavam para o projeto dela. Para o nome dela na tela. Para a última mensagem que não enviei.

Já estava quase na hora de ir para casa quando recebo uma ligação de Dionísio.

— Preciso que venha pro acampamento. Agora.

Seu tom não admite discussão.

Algo não está certo.

Pego minhas coisas e entro no carro, pisando fundo no acelerador.

Olho no relógio. 18h49.

Luna já deve estar na cafeteria. Isso me dá um mínimo de segurança.

Estaciono na entrada do acampamento e sigo direto para o escritório de Thoth. Bato na porta.

— Entre.

Ao abrir, me deparo com todos eles reunidos.

Thoth está sentado em sua cadeira.

Dionísio está próximo à janela, de costas para mim.

Apollo e Ártemis ocupam o sofá ao lado da mesa.

E o bastardo do Kaique está na cadeira de frente para Thoth.

Meus olhos encontram os de Ártemis.

Seu olhar me diz tudo que preciso saber. Eu não vou gostar do motivo dessa reunião.

Apollo indica a cadeira ao lado de Kaique.

— Entre e sente-se, Tobias.

Fecho a porta atrás de mim e me sento, sem dizer nada. Cruzo os braços, sem paciência para rodeios.

— Pode começar.

Thoth não perde tempo.

— Eu vou ser direto, Tobias. Alguém está tentando machucar Luna de todas as formas possíveis. — Ele me encara. — Mas isso você já sabe, não é mesmo?

Minha mandíbula se trava, reviro os olhos.

— Foram vinte e três tentativas desde que ela começou a sair do acampamento.

Dionísio se volta para nós, cruzando os braços.

— Quatro apenas na última semana.

Um silêncio pesado domina o ambiente. Thoth continua.

— Hoje pela manhã, Luna deveria ter ido com Kaique para a faculdade. Mas ela se atrasou e foi com Dionísio.

Minha coluna se endireita no automático. Já sei onde isso vai dar. Meu estômago se revira.

— O responsável por esses atentados não sabia disso.

Thoth solta a bomba sem hesitar.

— O carro de Kaique foi atacado. Exclusivamente no lado do passageiro.

Meu sangue esfria.

— Se Luna estivesse no carro, ela não teria sobrevivido. As flechas estavam envenenadas.

Meu coração dispara. Mil pensamentos me atacam de uma vez. Mas só um deles faz tudo estremecer: Ela esteve a um atraso de ser morta.

Cruzo os braços e encaro Thoth, esperando que ele vá direto ao ponto.

— Vocês não me chamaram aqui apenas para passar um relatório. Fala de uma vez, Thoth.

Sem rodeios, ele responde:

— Eu quero você longe da Luna.

O sangue no meu corpo esfria. Preciso de três segundos inteiros para processar o que acabei de ouvir. Meus olhos endurecem.

— O quê? — Minha voz sai áspera, carregada de incredulidade. — Vocês piraram de vez?! Isso é assinar a sentença de morte dela!

Thoth se mantém impassível. Dionísio cruza os braços, sua expressão fechada.

— Ela não vai ficar sem proteção, Tobias.

Mas algo na voz dele me diz que tem mais coisa aí. Minha mandíbula trava.

— E quem vai cuidar dela?

— Adivinha, espertão.

A voz de Kaique soa como um desafio. Meu estômago revira na hora. Respiro fundo, buscando paciência onde não há. Se há alguém menos capaz de protegê-la, é ele.

Fecho os olhos por um segundo antes de explodir.

— Vocês só podem estar de brincadeira!

Me levanto da cadeira, incrédulo.

— Eu sou o guardião dela! EU! — Aponto para o lugar da tatuagem dourada, aquela que ninguém além de mim foi capaz de suportar. — Fui eu quem aguentei a marca!

Apollo intervém com um tom metódico, como se estivesse tentando tornar a conversa racional.

— Vocês são irmãos. Dividem exatamente o mesmo sangue. Os primogênitos de Poseidon. — Ele cruza as mãos sobre a mesa. — Não temos como saber quem é o verdadeiro guardião dela.

Vejo Ártemis ficar tensa, mas ela não rebate.

— Pelo amor de Zeus!

Passo as mãos pelo rosto, irritado. Me recuso a acreditar nessa absurda falta de lógica.

— Nós sabemos que EU sou o verdadeiro guardião! Eu, e somente eu, aguentei a marca completa!

Meu dedo aponta diretamente para Kaique.

— Ele não suportou nem a primeira marca. Não tem como ele ser o guardião!

O desgraçado resolve abrir a boca.

— Você não tem como saber.

Isso foi o suficiente. Em dois passos, vou para cima dele, agarrando sua camisa e o puxando até ficar de pé.

— Uma porra que eu não tenho!

Meu rosto está a centímetros do dele, minha respiração pesada. Se não fosse por Ártemis…

— Tobias!

Sua voz me puxa de volta à realidade, e eu solto o traste. Dou um passo para trás. Fecho as mãos em punhos. Respiro fundo, tentando não perder o controle de novo. Cruzo os braços e encaro os deuses, esperando uma explicação minimamente lógica.

— Então, qual é o plano agora? Depois de quase vinte anos, vocês resolvem mudar tudo?

Começo a andar de um lado para o outro, tentando me acalmar. Thoth encara os papéis na mesa antes de falar.

— Eu quero que você brigue com a Luna.

Minhas sobrancelhas se franzem na hora.

— Fale alguma coisa para magoá-la. Não importa. Afaste-a de você o máximo possível. Depois disso, Kaique assumirá sua função na proteção dela.

Seguro um riso irônico.

— Eu ainda acho isso uma palhaçada. — Cruzo os braços e encaro Thoth. — E depois?

Dionísio entra na conversa.

— Vamos fazer um torneio no acampamento. Para todos os semideuses.

Minhas mãos se fecham ainda mais. Ele continua.

— Fora dos limites da barreira de proteção.

Preciso de um segundo inteiro para absorver isso. E então explodo.

— Agora já é suicídio! Vocês vão entregar ela de bandeja para quem quer que seja que queira ela morta!

Ártemis olha diretamente para mim.

— Isso vai depender da sua vontade de salvá-la.

Minha mandíbula se trava. Mordo o lado interno da bochecha.

— Enquanto o torneio estiver acontecendo, você vai ficar de longe, averiguando qualquer tipo de ameaça.

Me jogo na cadeira de novo, exausto. Passo as mãos pelo rosto.

— Deixa eu ver se eu entendi. — Inclino o corpo para frente. — Vocês querem que eu magoe uma menina que já sofreu mais do que o suficiente na vida e faça ela me odiar. Depois, eu devo parar de protegê-la e deixar esse projeto de homem tapado cuidar dela. E como se já não fosse o suficiente, vão entregá-la de bandeja para quem está tentando matá-la, no meio de uma floresta enorme e sem proteção.

Seguro a cadeira com força.

— E ainda querem que eu consiga rastrear todo tipo de ameaça contra ela e extermine sozinho, na floresta, com centenas de semideuses misturados.

Dionísio solta um riso seco e se joga no sofá ao lado de Apollo. — É mais ou menos essa burrice.

Minha paciência evapora.

— Vocês piraram de vez. — Solto um suspiro derrotado. — Quando eu devo começar?

— Amanhã. — Thoth fecha a pasta à sua frente. — O torneio será daqui a oito dias.

Passo as mãos nos cabelos.

— E o que acontece depois?

Apollo não hesita.

— Se você falhar, ela morre. E consequentemente, você também. — Seus olhos estão cravados nos meus quando ele finaliza. — Se conseguir, ela sobrevive. E você vai ter a chance de reconquistá-la.

Kaique resolve perguntar com aquele tom de surpresa que me irrita.

— Você gosta dela?

Rio baixo. Levanto-me da cadeira e encaro o idiota.

— Temos mais coisas em comum do que parece, irmãozinho.

Olho para os deuses.

— Mais alguma coisa, senhores?

O silêncio na sala é minha resposta.

— Então até amanhã.

Saio do escritório sem olhar para trás, indo para o estacionamento. Estou destravando o carro quando ele me chama.

— Tobias!

Reviro os olhos.

— Eu só queria que soubesse que vou cuidar bem dela.

Minha visão fica vermelha. Antes que ele perceba, pego ele pelo pescoço e soco suas costelas. Mais um. E outro. E outro. Só paro quando meus nós dos dedos doem.

— E eu só queria que você soubesse que adoraria arrebentar essa sua cara estúpida.

Minha voz sai áspera, cravada de raiva contida. Segurando Kaique pelo pescoço, o encaro de perto, sentindo meu próprio sangue ferver.

— Mas eu sei que, a partir de amanhã, você não vai poupar esforços para fazê-la me odiar.

Meus dedos se apertam contra o tecido da camisa dele. Então o solto, com força. Kaique cai no chão, sem ar. Seus olhos se estreitam, mas ele não reage.

— E eu sei que tem dedo seu nisso. — Cruzo os braços, observando-o tentar recuperar o fôlego. — E quando eu descobrir o que você fez, vou ter o maior prazer de te arrebentar todo.

Antes de partir, dou mais um chute certeiro em suas costelas. Ele grunhe, mas não diz nada. Sem olhar para trás, entro no carro e volto para casa.

Depois disso, tudo aconteceu no piloto automático. Passei a noite em claro.

Quando o dia amanheceu, cancelei nosso almoço. Passei o dia tentando encontrar uma forma de me afastar dela sem magoá-la. Sem fazê-la me odiar. Mas não encontrei solução alguma.

No final da tarde, me reuni de novo com o conselho. Repassamos os passos do plano estúpido. Cada detalhe desse desastre que estávamos prestes a colocar em prática.

Então, fomos para o salão para o anúncio oficial do torneio. Quando tudo terminou, ela veio falar comigo. E eu tive que colocar o plano em ação.

E doeu como o inferno.

Ver a forma como seus olhos perderam o brilho. O jeito que sua expressão foi de irritação para desilusão. O exato segundo em que ela parou de acreditar em mim.

Por um momento, pensei em voltar atrás. Em explicar tudo. Em abrir a merda de uma brecha para que ela entendesse que isso não é real.

Mas então ela se afastou. E eu soube que não tinha mais volta.

Peguei minha moto e voltei para casa. No caminho, passei ao lado do carro onde ela estava. Se eu tivesse um coração que batesse no meu peito, ele teria parado na hora. Na imagem dela chorando. Presa naquela merda de carro.

Sozinha.

Porra.

Por que isso teve que ser assim?

Quando enfim cheguei em casa, descontei tudo nos móveis do apartamento.

Cada pedaço da minha raiva.

Cada gota de dor que eu não podia mostrar para ela.

Cada erro que eu cometi ao seguir esse plano de merda.

Destruí tudo que vi pela frente.

Até que Ártemis chegou.

E aqui estamos nós.

Notas finais
Um pouquinho do ponto de vista do nosso Tirano <3 XOXO