Vinte dias antes do reencontro na cafeteria.


A mansão Le Fay, escondida nas colinas selvagens do norte da Inglaterra, parecia engolir a luz do dia. A chuva caía sem parar, transformando o mundo exterior em um borrão cinzento e úmido. Dentro do escritório de madeira escura, Mordred estava sentado à mesa antiga, o copo de whisky escocês na mão. O líquido âmbar queimava sua garganta a cada gole, mas nem isso conseguia aquecer o vazio que se instalara em seu peito desde o casamento.

A porta se abriu sem bater.

Morrigan Le Fay entrou, o vestido negro longo roçando o chão de pedra como uma sombra viva. Seus olhos verdes, idênticos aos dele, varreram o filho com uma mistura de desdém e cálculo.

— Seu casamento será isso? — perguntou ela, a voz baixa e aveludada, quase doce. — Você bebendo todos os dias até se afogar?

Mordred ergueu o copo em um brinde irônico, sem se dar ao trabalho de olhar para ela.

— Eu preciso de certo estímulo para aguentar isso tudo — respondeu ele, o tom ácido cortando o ar. — O que você quer aqui, querida mãe?

Morrigan fechou a porta atrás de si com um clique suave que soou como uma sentença.

— Hoje faremos o ritual com Siobhan — disse ela, fria e direta. — Precisamos de você lá. Afinal, é para a linhagem dar continuidade.

Mordred soltou uma risada curta e sem humor, repousando o copo sobre a mesa com força suficiente para fazer o líquido balançar.

— Achei que para termos filhos teríamos que ter relação e não um ritual macabro.

Morrigan inclinou a cabeça, o sorriso lento e perigoso.

— Mordred, isso não é piada. É importante para sua esposa. E deveria ser importante para você também.

Ele a encarou por um longo segundo, o maxilar travado. Depois suspirou, pegando os papéis à sua frente como se fossem um escudo.

— Tudo bem. Vou apenas ver uns documentos das propriedades e da empresa. Encontro vocês lá.

Morrigan observou-o por mais um instante, os olhos brilhando com aquela satisfação fria que sempre o fazia sentir como uma marionete.

— Tudo bem, querido — disse ela, saindo do escritório com a mesma elegância predatória com que havia entrado.

Quando a porta se fechou, Mordred jogou os papéis na mesa e olhou pela janela. As colinas escuras pareciam engolir o horizonte. Fazia dez dias que ele havia se casado. A mãe tinha razão: as visões haviam parado. Tanto as boas quanto as ruins. Era como se Siobhan sugasse os pensamentos dele, deixando apenas um vazio silencioso. Ele ainda sentia o pesar de estar esquecendo o rosto exato de Charlotte — o tom preciso de seus olhos azuis, o jeito como ela sorria quando achava que ninguém estava olhando —, mas jamais esqueceria como se sentira com ela. Vivo. Inteiro.

Ele se levantou, o corpo pesado, e caminhou até o salão principal da mansão.

O que viu o fez parar na porta.

O salão antigo estava iluminado apenas por dezenas de velas negras dispostas em círculos concêntricos no chão de pedra. O ar estava denso, quase sufocante, com o cheiro de incenso, sangue seco e ervas amargas que queimavam em braseiros de ferro. Runas antigas brilhavam fracamente nas paredes de pedra, pulsando como veias vivas sob a pele da mansão. Os membros dos clãs druidas estavam reunidos em silêncio, vestindo mantos escuros, os rostos ocultos por capuzes.

No centro do maior círculo, Siobhan esperava.

Ela vestia apenas uma camisola fina de seda branca, quase transparente, que caía sobre seu corpo como uma mortalha. Seus cabelos escuros estavam soltos, e ela sorria — um sorriso satisfeito, quase faminto.

Morrigan estava ao lado dela, segurando um pequeno punhal ritualístico de obsidiana.

Quando viu o filho, estendeu a mão.

— Estou aqui — disse Mordred, a voz rouca. Ele se aproximou, engolindo em seco. — E agora?

Morrigan tirou o copo da mão dele e o encarou com intensidade.

— Vamos garantir uma linhagem ainda mais forte — respondeu ela, a voz baixa e doce como veneno. — Uma que eu sei que você pode me dar.

Ela se inclinou mais perto, falando apenas para ele ouvir:

— Então apenas faça essa droga corretamente, Mordred. Não me faça te deserdar como fiz com seu irmão.

As palavras foram como um soco no estômago. O irmão mais velho, aquele de quem ninguém falava, havia desaparecido anos atrás depois de desafiar a mãe. Mordred sentiu um frio subir pela espinha. Pensou, por um segundo fugaz, que seria melhor fugir dessa família macabra. Mas já era tarde demais. O destino o havia prendido ali, com correntes invisíveis feitas de sangue e promessas antigas.

O ritual começou.

Morrigan ergueu o punhal de obsidiana e cortou a palma da mão de Mordred com um movimento rápido e preciso. O sangue escorreu quente e escuro. Ela fez o mesmo com Siobhan. As duas mãos feridas foram unidas sobre uma taça de prata antiga, gravada com runas que pareciam se mover sozinhas sob a luz trêmula das velas.

Morrigan começou a entoar as palavras antigas, a voz grave e ressonante ecoando pelo salão:

Fuil na seandála, fuil Morgana, fuil an chéad… Sangue dos antigos, sangue de Morgana, sangue do primeiro…

Os clãs responderam em uníssono, um cântico grave e gutural que fazia o ar vibrar. O sangue das duas mãos se misturou na taça. No começo era apenas líquido escuro. Depois, como se algo vivo despertasse dentro dele, as duas correntes de sangue começaram a se entrelaçar, girando lentamente como serpentes. Bolhas escuras subiram à superfície, estourando com um som baixo e úmido, liberando uma fumaça negra e densa que cheirava a ferro e terra molhada. A taça tremeu nas mãos de Morrigan. O sangue borbulhou mais forte, como se estivesse fervendo sem fogo, formando padrões que lembravam runas antigas antes de se dissolverem novamente.

Mordred sentiu a magia antiga se mover ao redor deles — pesada, fria, faminta. Era um ritual de preparação para o herdeiro dos clãs: um selo de linhagem, uma invocação para que o sangue de Morgana e dos druidas se fortalecesse na próxima geração. Não haveria concepção ali. Apenas a promessa sombria de que, quando o momento chegasse, o filho seria forte, poderoso e completamente leal.

Siobhan sorriu para ele, os olhos brilhando com satisfação.

Mordred sentiu o estômago revirar. O cheiro de sangue e incenso o sufocava. Ele pensava em Charlotte — no calor dela, na leveza dela, na forma como ela o fazia sentir humano.

E ali, no meio daquele salão escuro, cercado por sombras e cânticos ancestrais, ele percebeu com clareza dolorosa:

Ele estava preso.

E o ritual que deveria garantir o futuro da linhagem só servia para enterrar ainda mais fundo o que restava dele.

Mordred subiu as escadas da mansão em silêncio, o corpo ainda carregando o peso do ritual — o cheiro de sangue e incenso grudado na pele como uma segunda camada. A chuva continuava caindo lá fora, um tamborilar constante que parecia ecoar dentro do peito dele.

Quando abriu a porta do quarto principal, Siobhan já estava lá.

Ela esperava de pé junto à lareira acesa, vestindo apenas uma camisola fina de seda branca que mal cobria suas curvas. A luz das chamas dançava sobre sua pele pálida, destacando os contornos dos ombros, a linha do pescoço, o vale entre os seios. Seus olhos escuros o seguiram quando ele entrou, um sorriso lento e satisfeito curvando seus lábios.

Mordred fechou a porta atrás de si. Sem dizer uma palavra, começou a desabotoar a camisa branca, os dedos movendo-se com precisão mecânica. Cada botão soltando-se revelava mais da pele marcada por runas antigas que ainda latejavam fracamente depois do ritual. Ele tirou o cinto com um puxão seco, o couro deslizando pelos passadores com um som baixo e áspero, e o deixou cair no chão.

— Não precisávamos de um ritual macabro para termos filhos — murmurou ele, a voz rouca, quase cansada.

Siobhan deu um passo à frente, os pés descalços silenciosos sobre o tapete grosso.

— Era importante para mim — respondeu ela, a voz baixa e aveludada. — Agora nós não podemos mais ser separados, Mordred. Não é só um casamento. É um laço de sangue. O que foi feito hoje… nos une para sempre.

Ele a encarou por um segundo, depois concordou com um aceno curto e seco. Não havia mais energia para discutir.

Mordred virou-se e entrou no banheiro luxuoso. O espaço era todo em mármore preto polido, com veios cinzentos que pareciam veias de pedra viva. Uma enorme ducha rainshower pendia do teto como uma cascata de aço, e a luz indireta criava sombras longas e dramáticas nas paredes. O ar estava quente, úmido, carregado do cheiro de sabonete de sândalo e cedro.

Ele abriu a água quente. O jato forte caiu sobre sua cabeça, escorrendo pelo peito, lavando o sangue seco das palmas das mãos. Fechou os olhos, deixando a água levar o ritual embora — ou pelo menos tentar.

Ouviu o farfalhar da seda atrás de si.

Siobhan entrou no boxe, nua, a camisola abandonada no chão do banheiro. A água quente caiu sobre ela também, colando os cabelos escuros ao corpo, traçando caminhos brilhantes pela pele. Ela era bonita — não dava para negar. Corpo esguio e forte, seios cheios, quadris que se moviam com uma graça predatória. Eles já haviam feito isso antes. Várias vezes. Mas depois do ritual, o ar entre eles parecia carregado de algo mais denso, mais inevitável.

Ela encostou o corpo no dele, pressionando-o contra a parede fria de mármore preto. A água quente caía entre eles como uma cortina líquida.

— Mesmo com o ritual… — murmurou ela contra o peito dele, os lábios roçando a pele molhada — …ainda precisamos disso. Para o herdeiro vir. Para o laço se completar.

Mordred apenas a encarou, os olhos verdes escuros, sem dizer nada.

Siobhan sorriu. Desceu lentamente, beijando o peito dele, o abdômen definido, traçando com a língua as linhas das runas que ainda pulsavam fracamente. Mordred apoiou as mãos na parede atrás de si, os músculos dos braços tensionados, a cabeça inclinada para trás enquanto a água quente escorria pelo rosto.

Quando ela se levantou novamente, ele a pegou.

Com um movimento rápido e possessivo, girou os corpos e a pressionou contra a parede de mármore. Siobhan soltou um gemido baixo quando ele a ergueu, as pernas dela envolvendo sua cintura. Não houve palavras. Não houve delicadeza. Apenas necessidade crua, urgente, quase raivosa.

Ele a tomou ali, sob a água quente que caía como uma bênção profana. O som dos corpos se chocando ecoava no banheiro de mármore, misturado ao barulho da chuva lá fora. Siobhan cravou as unhas nas costas dele, mordendo o ombro dele enquanto o prazer a atravessava. Mordred fechou os olhos, o maxilar travado, movendo-se com força, como se pudesse apagar o ritual, o casamento, a si mesmo.

Mas mesmo no ápice do prazer, mesmo enquanto o corpo dela se arqueava contra o dele, ele via Charlotte.

Via os olhos azuis dela. Via o sorriso dela no convés da balsa. Via o jeito como ela o olhava como se ele fosse mais do que um Le Fay.

Quando terminou, ele a baixou devagar. A água continuava caindo, lavando o suor e o que restava do ritual. Siobhan encostou a testa no peito dele, respirando com dificuldade, um sorriso satisfeito nos lábios.

Mordred apenas ficou ali, os braços ao redor dela, olhando para o mármore preto como se pudesse ver através dele.

O laço de sangue estava feito.

E ele se sentia mais preso do que nunca.

Depois do banho, eles foram para o quarto em silêncio.

A suíte principal da mansão Le Fay era vasta e sombria, com paredes de pedra antiga cobertas por tapeçarias escuras que contavam histórias de sangue e poder. A lareira crepitava baixo, lançando sombras longas e dançantes no teto alto. A cama era enorme, com dossel de madeira negra entalhada e lençóis de seda escura que pareciam absorver a luz.

Mordred deixou-se cair sobre os lençóis frios, exausto. O corpo ainda carregava o peso do ritual, do sexo no banheiro e da chuva que parecia nunca parar. Ele virou de lado, de costas para Siobhan, e fechou os olhos, esperando que o sono viesse rápido e pesado.

Siobhan deitou-se ao lado dele, nua, o corpo ainda úmido do banho. Por um momento, ela apenas o observou — o peito largo subindo e descendo, as runas antigas marcadas na pele, o rosto marcado por linhas de cansaço e dor que ele tentava esconder.

Então ela sorriu.

Um sorriso lento, satisfeito, quase carinhoso — mas carregado de algo muito mais escuro.

Ela se aproximou, pressionando o corpo contra as costas dele. Com delicadeza predatória, colocou as duas mãos sobre a cabeça de Mordred, os dedos longos afundando nos cabelos ainda úmidos. Seus lábios se moveram perto da orelha dele, sussurrando palavras antigas em um idioma druida esquecido, gutural e cortante:

Dorchadas an t-am… glan an cuimhne… glan an ghrá… glan í…


A magia saiu de suas mãos como fumaça negra e fria. Mordred estremeceu no sono, o corpo tensionando por um instante, mas não acordou. Siobhan fechou os olhos e mergulhou.

Ela entrou na mente dele.

E viu tudo.

Viu o primeiro encontro em Toscana — Charlotte rindo enquanto ajudava uma senhora idosa com as compras, o sol dourando seus cabelos. Viu o beijo desesperado no bar escondido nas colinas. Viu os corpos entrelaçados na villa, lençóis brancos embolados, risadas misturadas a gemidos. Viu o momento no convés da balsa, o vento brincando com os cabelos loiros dela enquanto Mordred a abraçava por trás, o peito dele contra as costas dela, o coração dele batendo no mesmo ritmo que o dela.

Cada memória era nítida, colorida, dolorosamente viva.

Siobhan sorriu no escuro, os dedos tremendo levemente de prazer enquanto puxava aquelas imagens para fora, uma a uma. Ela as via se desfazerem como fumaça — os risos de Charlotte ficando mais distantes, o toque dela se tornando borrado, o cheiro de sal e sol se dissipando como se nunca tivesse existido.

— Isso… — sussurrou ela contra a nuca dele, a voz doce e venenosa. — Esqueça ela. Esqueça o gosto dela. Esqueça como se sentiu vivo.

A magia negra continuou fluindo, fria e implacável. Mordred gemeu baixinho no sono, o corpo se contraindo como se sentisse a invasão, mas não acordou. Siobhan pressionou mais as mãos contra a cabeça dele, os olhos fechados em êxtase enquanto via a última memória — o beijo desesperado no estacionamento do hospital — se dissolver em cinzas.

Quando terminou, ela retirou as mãos devagar, os dedos tremendo de satisfação.

Mordred dormia profundamente agora, o rosto relaxado pela primeira vez em semanas.

Siobhan deitou-se ao lado dele, passando um braço possessivo sobre seu peito. Seus lábios roçaram a orelha dele uma última vez.

— Agora você é só meu — murmurou ela, o sorriso ainda nos lábios. — E Charlotte… vai se tornar apenas um sonho distante. Um sonho que nunca mais vai te acordar.

A chuva continuava caindo lá fora.

Dentro do quarto, o fogo da lareira crepitava baixo, iluminando o sorriso satisfeito e sombrio de Siobhan enquanto ela observava o marido dormir — o marido que, lentamente, estava sendo esvaziado de tudo que um dia havia amado.