Herança de Avalon
4 Inércia
O princípio da inércia é simples: um corpo em repouso tende a permanecer em repouso.
Charlotte queria viver assim para sempre.
Sem reação. Sem emoção. Apenas respirando mecanicamente, como uma estátua de porcelana que a família exibia em festas. Qualquer movimento parecia perigoso. Qualquer sentimento, uma ameaça de colapso total.
Mas a mente traía. Sempre traía.
Ela estava catatônica no meio do salão aristocrático, cercada pela elite inglesa que brilhava em joias e smokings caros. O som de taças e risadas falsas chegava abafado, como se viesse de outro planeta. Seus olhos perdiam o foco enquanto a memória a arrastava de volta para aquela noite na cobertura de Mayfair.
A água gelada espalhando-se pelos pés descalços. O celular iluminado com a mensagem de Morrigan. O grito silencioso que rasgou sua garganta quando a magia dourada explodiu de dentro dela, lançando Mordred contra a parede com violência brutal. O som do corpo dele batendo contra o gesso. Os olhos verdes dele arregalados de choque e dor. Os dela, líquidos e dourados, brilhando com fúria e um coração partido tão profundo que ainda sangrava semanas depois.
Ela ainda sentia o eco daquele momento no peito — um buraco aberto, vivo, que pulsava a cada respiração.
As semanas seguintes tinham sido um pesadelo lento e interminável. Dias que se arrastavam como chumbo derretido. Noites em que acordava suando frio, o nome dele preso na garganta como uma lâmina. Ela mal se lembrava como havia chegado até ali, de braço dado com Julian, sorrindo como se ainda fosse a mesma Charlotte de antes.
Julian falava ao seu lado, confiante, tocando sua cintura com aquela possessividade suave que agora a enjoava. Ele queria reconstruir algo. Mas o que se reconstrói de um coração em ruínas?
Um arrepio violento subiu pela nuca dela.
Charlotte girou o corpo devagar.
E lá estava ele.
Mordred Vane Le Fay, do outro lado do salão, acompanhado dos pais e de uma mulher alta, de cabelos escuros brilhantes, que se mantinha colada ao braço dele de forma íntima demais. Os olhos verdes dele encontraram os dela imediatamente. O tempo parou. O ar ficou rarefeito. Por alguns segundos que pareceram eternos, o salão inteiro desapareceu — restaram apenas eles dois, presos em uma dor silenciosa e insuportável.
Charlotte sentiu o peito apertar tanto que doía respirar. O pingente de ouro queimava contra a pele como ferro em brasa.
Ela se virou bruscamente, disfarçando, e apertou o braço de Julian com tanta força que ele piscou, surpreso. Seus pais se aproximaram, sorridentes.
— Os Le Fay vieram do norte para cá — comentou o pai, a voz baixa e carregada de desdém enquanto observava o grupo. — Acho um insulto eles pensarem que ainda têm posição a sustentar na capital.
Ele notou a expressão da filha e franziu o cenho.
— Você está bem, querida?
— Claro. Só cansada — mentiu ela, a voz rouca. O choro estava preso na garganta, queimando como ácido.
Mas seus olhos não conseguiam se desgrudar de Mordred. Mesmo de longe, ela via a tensão nos ombros largos dele, a mandíbula travada. A mulher ao lado dele ria e tocava seu peito com carinho excessivo, os dedos deslizando pela lapela do smoking como se tivessem direito a ele.
Algo sombrio e quente explodiu dentro de Charlotte.
Eu quero destruí-lo.
A vontade veio visceral, quase animal. Ela queria atravessar o salão, arrancar aquela mulher dele com as próprias mãos, agarrar Mordred pelo colarinho e gritar na cara dele que ele havia destruído tudo. Queria vê-lo sofrer como ela estava sofrendo. Queria que ele sentisse o mesmo vazio devorador que agora vivia dentro dela, que acordasse todas as noites com o peito rasgado, que sentisse o gosto amargo da traição na boca até não conseguir mais respirar.
Ela queria vingança. Queria machucá-lo tanto que ele nunca mais conseguisse olhar para outra mulher sem lembrar dela. Queria que ele sangrasse por dentro, do mesmo jeito que ela sangrava desde aquela noite.
— Papai… — Ela puxou o pai discretamente para longe de Julian e da mãe. A voz saiu mais firme do que esperava, alimentada pela raiva que queimava em seu sangue. — O que é o Selo de Camelot?
O pai ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Onde você ouviu isso, querida?
— Apenas… ouvi em algum lugar. Queria saber mais.
Ele hesitou por um segundo, mas o orgulho falou mais alto. A voz dele tornou-se fluida, quase professoral:
— Camelot não é apenas um reino antigo, Charlotte. É o berço da nossa linhagem. O que realmente nos importa é proteger a magia pura. Os Le Fay acreditam que a magia deve ser distribuída a todos, que deve servir ao povo… o que geraria apenas caos e destruição. Eles nos acusam de guardar o Santo Graal como se fosse um objeto físico. — Ele deu um sorriso leve. — Mas nossa linhagem sabe a verdade. O Graal não é um cálice. É genético. É sangue. É poder transmitido de geração em geração, capaz de trazer ordem e paz verdadeira ao mundo. Nós o guardamos. Nós o somos.
Charlotte engoliu em seco, o coração martelando contra as costelas.
— E como se chega até ele?
O pai colocou a mão carinhosamente sobre o ombro dela.
— Você já o tem, querida. Está no seu sangue. Na sua herança. Sua avó seria a pessoa ideal para explicar melhor. Eu sou o estudioso. Ela é a prática.
Ele sorriu, visivelmente feliz com o interesse repentino da filha.
— Fico contente que esteja querendo saber mais sobre nossa família.
— É… eu também — murmurou ela, bebendo um gole longo de espumante para tentar controlar a voz trêmula.
Do outro lado do salão, Mordred ainda a observava. A mulher ao lado dele tocava seu braço com intimidade, inclinando-se para sussurrar algo em seu ouvido. Charlotte sentiu uma nova onda de ódio puro e visceral subir pela garganta.
Como ele ousa?
Ela imaginou atravessar o salão, agarrar aquela mulher pelos cabelos e jogá-la longe. Imaginou bater no peito de Mordred até ele sentir a mesma dor que ela sentia. Imaginou beijá-lo na frente de todos só para depois destruí-lo completamente — fazer com que ele se apaixonasse de novo e depois arrancar tudo, como ele havia feito com ela.
Mas por baixo dessa raiva queimante, ainda havia amor. Um amor incompleto, desesperado, que se recusava a morrer.
Ela apertou a taça com tanta força que o cristal rangeu. Os olhos de Mordred não se desviavam dos dela. Eram dois corpos em repouso, presos pela inércia de um amor que deveria ter terminado… mas que ainda queimava como fogo antigo, pronto para consumir tudo.
Charlotte não sabia se queria correr até ele ou destruí-lo para sempre.
E, pelo olhar torturado e faminto que ele lhe lançava através do salão, Mordred também não sabia.
O salão continuava girando ao redor deles, cheio de risadas e música, mas para Charlotte e Mordred, o mundo havia parado em um silêncio ensurdecedor.
O discurso do presidente da Associação de Campanhas terminou com aplausos educados e previsíveis. Charlotte bateu palmas automaticamente, o som oco em seus ouvidos, como se estivesse assistindo à própria vida de fora do corpo.
Julian, ao seu lado, endireitou os ombros com aquela confiança aristocrática que sempre parecera natural nele. Ele ergueu a taça, pedindo silêncio com um gesto elegante. O salão inteiro voltou os olhos para ele.
— Obrigado, senhor presidente — disse Julian, a voz clara e firme, carregada de charme. — Antes de terminarmos esta noite tão especial, eu gostaria de fazer um anúncio.
Charlotte sentiu o estômago revirar. Seus pais trocaram um olhar rápido e satisfeito. Ela manteve a compostura perfeita — coluna reta, sorriso leve nos lábios, como havia sido treinada desde criança. Por dentro, porém, o vórtice girava mais rápido.
Julian virou-se para ela, os olhos brilhando com uma mistura de triunfo e afeto calculado. Ele pegou sua mão direita com delicadeza teatral e se ajoelhou devagar no centro do salão, diante de toda a elite londrina.
O silêncio que se fez foi absoluto.
Nem uma taça tilintou. Nem um sussurro. Apenas o som distante de um quarteto de cordas que parou de tocar.
— Charlotte Aurelius Vancroft — começou Julian, a voz ecoando suavemente no salão. — Desde que éramos crianças, nossas famílias sonharam com este momento. Você é a luz da sua linhagem, a herdeira que todos admiramos. E eu… eu quero passar o resto da minha vida ao seu lado, protegendo você, construindo um futuro digno do nome que carregamos.
Ele tirou do bolso interno do smoking uma caixinha de veludo preto. Quando a abriu, um anel de ouro branco com um diamante imponente brilhou sob as luzes do lustre.
— Quer se casar comigo?
O silêncio se estendeu por mais um segundo — denso, sufocante, como o ar antes de uma tempestade.
Charlotte sentiu o olhar de Mordred queimando em sua pele do outro lado do salão. Ela não precisava virar a cabeça para saber que ele estava ali, rígido, os olhos verdes fixos nela como se pudesse atravessá-la com o pensamento.
Por um instante, ela quis gritar. Quis dizer não. Quis correr até ele e bater no peito dele até que doesse tanto quanto doía nela.
Mas a raiva visceral que ainda ardia em seu sangue falou mais alto.
Se ele pode fingir que eu não significo nada… eu também posso.
Charlotte abriu um sorriso forçado, tão perfeito e brilhante quanto o diamante que Julian lhe oferecia. Seus olhos, porém, continuavam vazios.
— Sim — respondeu ela, a voz clara e firme, ecoando pelo salão. — Eu aceito.
Aplausos explodiram ao redor deles. Seus pais sorriram radiantes. A mãe de Julian levou as mãos ao peito, emocionada. Julian se levantou, deslizou o anel frio em seu dedo e a beijou nos lábios — um beijo casto, público, sem fogo.
Charlotte retribuiu o beijo com a mesma frieza calculada.
Do outro lado do salão, Mordred parecia prestes a explodir.
Seus olhos estavam escuros de fúria e dor. A mandíbula travada com tanta força que os músculos saltavam. A mulher ao lado dele tentou tocar seu braço novamente, mas ele a ignorou completamente. Seu olhar estava preso em Charlotte, queimando com algo selvagem e quebrado.
Ela viu o exato momento em que ele perdeu o controle.
A taça de cristal que Mordred segurava estourou em sua mão com um estalo seco. Cacos de vidro e vinho tinto espalharam-se pelo chão como sangue. Ele nem pareceu sentir a dor — o corte profundo na palma da mão sangrava livremente, pingando no mármore claro.
Mordred não se mexeu. Não limpou o sangue. Apenas continuou encarando Charlotte, o peito subindo e descendo com força, como se estivesse se segurando para não atravessar o salão e arrastá-la dali na frente de todos.
Charlotte sentiu uma satisfação doentia e amarga invadir seu peito.
Ótimo. Sofra.
Mas por baixo daquela vingança momentânea, a dor ainda latejava — profunda, incompleta, insuportável. Ver o sangue dele não apagou o buraco no peito dela. Pelo contrário. Só o tornou maior.
Julian apertou sua cintura, orgulhoso, alheio a tudo.
— Vamos celebrar — murmurou ele contra seu ouvido.
Charlotte sorriu para os convidados que se aproximavam para parabenizá-los, mas seus olhos voltaram uma última vez para Mordred.
Ele ainda a encarava, sangrando, quebrado.
E ela, com um anel no dedo que não queria, sentia o mesmo.
Os aplausos ainda ecoavam pelo salão quando uma presença sombria cortou o ar como uma lâmina fria.
Morrigan Le Fay aproximava-se com passos elegantes e deliberados, o vestido negro longo deslizando pelo mármore como fumaça viva. Seus cabelos escuros caíam como uma cortina de ébano, e os olhos verdes — idênticos aos de Mordred — brilhavam com uma satisfação venenosa.
— Que anúncio mais… encantador — disse Morrigan, a voz aveludada e perigosa, como mel misturado com veneno. Ela parou diante de Charlotte e Julian, ignorando completamente o sangue que ainda pingava da mão ferida de seu filho do outro lado do salão.
Os pais de Charlotte ficaram tensos. O pai dela apertou o ombro da filha de forma protetora.
Morrigan sorriu para os noivos, mas seus olhos fixaram-se em Charlotte com uma intimidade cruel.
— Parabéns, querida Charlotte. Que união mais… adequada. Tão segura. Tão previsível. — Ela inclinou ligeiramente a cabeça. — Embora eu deva confessar que fiquei surpresa. Depois do verão que você passou com meu filho em Capri, imaginei que seu coração pudesse estar… dividido.
Um silêncio mortal caiu sobre o pequeno círculo.
Charlotte sentiu o sangue ferver. O pingente de ouro queimou contra sua pele como ferro em brasa.
— Como ousa? — sussurrou ela, a voz tremendo de fúria contida.
Morrigan ergueu uma sobrancelha elegante.
— Ora, não seja modesta. Todos aqui sabem que meu Mordred tem um certo… charme selvagem. Ele me contou como você se entregou a ele com tanta doçura. Tão leve. Tão… humana. — Ela olhou de relance para os pais de Charlotte, que empalideceram. — Mas, claro, agora você voltou para o que realmente importa. Para o seu lugar.
Julian franziu o cenho, confuso, mas Charlotte já não conseguia se conter.
— Você é uma bruxa manipuladora — cuspiu ela, a voz baixa, mas cortante como vidro. — Eu vi a mensagem. Eu vi o que você estava fazendo. Usando seu próprio filho como uma arma, mandando-o invadir minha mente, roubar meus segredos. Você não tem honra. Não tem nada além de veneno nas veias.
Morrigan riu suavemente, um som baixo e perigoso que fez os pelos da nuca de Charlotte se arrepiarem.
— Honra? — repetiu ela. — Que conceito adorável vindo da herdeira dourada de Merlim. — Seus olhos endureceram. — Meu filho também estava para se casar em algumas semanas. Com Siobhan O’Shea, uma poderosa vidente druida. Uma mulher à altura dele, que compreende o tormento das visões que o atormentam.
Charlotte sentiu o peito apertar com tanta força que mal conseguia respirar. A magia dentro dela borbulhava, quente e furiosa.
— Agora eu entendo — disse ela, a voz tremendo de raiva e dor. — Por isso a linhagem de vocês é de bruxas e não de magos. Vocês não criam. Vocês corrompem. Vocês destroem tudo que tocam.
Ela se virou para os pais, o corpo inteiro tremendo.
— Vamos embora. Agora. Deixem os Le Fay aproveitarem a festa. — Sua voz saiu cortante, carregada de veneno. — Porque esta será a última vez que eles serão bem-vindos em qualquer lugar que eu esteja.
O pai de Charlotte hesitou por um segundo, mas assentiu. A mãe segurou seu braço com força, claramente abalada.
Enquanto se afastavam, Charlotte sentiu o olhar de Mordred queimando em suas costas. Ela não olhou para trás.
Mas no fundo do peito, onde a vingança ainda ardia, uma dor muito maior gritava mais alto.
Ela havia aceitado o anel de Julian.
Morrigan havia jogado a última carta.
E Mordred… Mordred ainda sangrava no meio do salão, olhando para ela como se o mundo inteiro estivesse desabando.
A inércia havia sido quebrada.
E o que viria depois prometia ser ainda mais destrutivo.
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