Herança de Avalon
12 A Lei Da Probabilidade
A probabilidade é a qualidade do que é provável, do que tem possibilidade de acontecer, do que pode ocorrer. Razão que faz supor a verdade ou possibilidade de um fato. Tendência favorável para que alguma coisa ocorra; possibilidade.
As chances de Charlotte estar de frente com Mordred eram grandes — Londres, afinal, nunca fora grande o suficiente para os dois. Mas as chances de Siobhan também estar grávida… qual era essa probabilidade?
Mordred olhava para ela de forma curiosa, a cabeça ligeiramente inclinada, como se estivesse tentando encaixar uma peça que não pertencia ao quebra-cabeça. Seus olhos verdes percorriam o rosto dela com uma intensidade lenta, quase dolorosa, como se reconhecesse algo familiar, mas ainda duvidasse da própria mente. Havia uma ruga fina entre suas sobrancelhas, uma hesitação que não existia antes. O vento do terraço bagunçava seus cabelos escuros, e o cheiro de café quente misturava-se ao perfume dela, criando uma combinação que fazia seu peito apertar sem que ele soubesse por quê.
Charlotte sentiu o ar fugir dos pulmões. O copo de vitamina já estava no chão, o líquido rosa-claro espalhando-se aos seus pés como uma mancha de culpa. Seu coração batia tão forte que cada pulsação ecoava nos ouvidos, um tambor surdo e desesperado. O vento frio colava o jaleco branco contra o corpo, e ela sentiu um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura.
Ela virou as costas para correr — praticamente fugir —, mas sentiu os dedos dele no ombro. O aperto era familiar, quente, possessivo. A mão dele era grande, os dedos longos, e o toque atravessou o tecido do jaleco como se a pele dela estivesse exposta. Charlotte prendeu a respiração, o corpo inteiro enrijecendo. Ela sabia que algo estava errado demais. E se tinha alguma chance de sair dali sem desmoronar, ela faria.
— Oi — disse ela, a voz rouca, engolindo seco. Passou a língua sobre os lábios que agora estavam secos como papel.
Mordred não soltou o ombro dela. Em vez disso, aproximou-se mais, o peito quase tocando as costas dela. O calor do corpo dele contrastava com o vento frio, criando uma zona quente e perigosa ao redor dos dois.
— Eu conheço você — murmurou ele, a voz baixa e rouca, como se as palavras estivessem sendo puxadas de algum lugar profundo e empoeirado dentro dele.
Quando ele se aproximou ainda mais, os cabelos loiros de Charlotte voaram com o vento e roçaram o rosto dele. Mordred fechou os olhos por uma fração de segundo. Um borrão invadiu sua mente — o convés de uma balsa, o azul profundo do mar Tirreno, o vento salgado bagunçando fios dourados, o calor de um corpo delicado contra o seu, uma risada suave que fazia o mundo parar. A imagem era fragmentada, como uma fotografia rasgada e colada de qualquer jeito, mas o sentimento… o sentimento era nítido. Quente. Vivo. Doloroso.
Charlotte sentiu o aperto no ombro aumentar por um instante, quase como se ele estivesse se segurando para não cair.
— Pode estar me confundindo — disse ela, a voz tremendo levemente. — Se me der licença, podem estar me procurando.
Ela saiu, sem olhar para trás. Seus passos eram rápidos, quase uma corrida de marcha, o jaleco branco balançando ao redor das pernas. O coração parecia querer sair pela boca, batendo tão forte que ela sentia o pulso na garganta, nos pulsos, nas têmporas. Cada respiração era curta, superficial, como se o ar tivesse ficado rarefeito. O cheiro dele — sândalo, chuva e algo selvagem — ainda estava grudado em suas narinas, misturando-se ao perfume doce da vitamina derramada no chão.
Quando chegou ao consultório, fechou a porta com força e encostou-se nela, os olhos fechados. Um suspiro profundo e trêmulo escapou de seus lábios enquanto tentava recuperar os sentidos. As mãos tremiam contra a madeira fria da porta. Por que Mordred agira daquela forma? Por que olhara para ela como se estivesse tentando lembrar de algo que doía demais para ser esquecido? O borrão que ela viu nos olhos dele… será que a magia de Siobhan não estava funcionando completamente? Ou será que algo dentro dele ainda resistia?
Charlotte deslizou até o chão, abraçando os joelhos. O jaleco branco amassou-se ao redor dela. Ela sentia o cheiro dele ainda na roupa, no ar, na pele. E, pior que tudo, sentia o leve pulsar dentro de si — aquele segredo vivo que crescia silenciosamente, sem pedir permissão.
A probabilidade de eles se encontrarem era grande.
Mas a probabilidade de ela conseguir continuar fingindo que tudo estava bem… essa, Charlotte já não sabia mais calcular.
Mordred estava parado diante da janela panorâmica da cobertura em Mayfair, as mãos enfiadas nos bolsos da calça escura. Lá embaixo, Londres se estendia como um tapete de luzes tremulantes e chuva fina que transformava as ruas em rios de neon borrado. A cidade pulsava, viva e indiferente, enquanto ele se sentia cada vez mais preso dentro de si mesmo.
A porta do escritório estava entreaberta. Do corredor, vozes femininas chegavam baixas, mas claras o suficiente para que ele ouvisse cada palavra.
— …está tudo certo — dizia Siobhan, a voz suave e satisfeita. — Os exames confirmaram. Temos grandes chances de engravidar logo. O ritual funcionou perfeitamente.
Morrigan respondeu com um tom de triunfo contido, quase maternal:
— Excelente. Já podemos começar a planejar o quarto do herdeiro. Algo digno da linhagem. Escuro, forte, com as runas antigas gravadas nas paredes. Ele vai nascer para liderar.
Mordred fechou os olhos por um segundo. O som das palavras da mãe e da esposa se entrelaçava como correntes frias ao redor do seu peito. Ele tentou sentir algo — alegria, orgulho, expectativa —, mas só encontrou um vazio ecoante.
A porta se abriu completamente.
Cian Vane entrou, fechando-a atrás de si com um clique suave. O pai de Mordred era alto, elegante, com cabelos grisalhos bem cortados e um terno preto impecável que parecia feito para esconder anos de cansaço. Seus olhos, tranquilos à primeira vista, carregavam uma inquietação profunda, como quem havia passado noites inteiras lutando contra sombras que não o deixavam dormir.
Mordred se virou, forçando um sorriso cansado.
— Pai.
Cian observou o filho por um momento, depois caminhou até o bar e se serviu de uma dose generosa de whisky.
— Está tudo bem, filho? — perguntou ele, a voz grave e calma, mas com um fundo de preocupação genuína.
Mordred hesitou. Seus dedos apertaram o copo vazio que ainda segurava. Ele tentou lembrar. A mulher no hospital. O cheiro familiar que invadiu suas narinas quando o vento soprou os cabelos loiros dela em seu rosto. A sensação estranha, quente, quase dolorosa que apertou seu peito ao vê-la. Era como se algo dentro dele quisesse acordar, mas estivesse preso por correntes invisíveis.
— Eu… vi alguém hoje — murmurou ele, a voz rouca. — No hospital. Uma mulher. Não sei explicar… mas senti algo. Como se eu a conhecesse. Como se eu devesse conhecê-la.
Cian tomou um gole lento do whisky, os olhos atentos sobre a borda do copo. Ele não disse nada imediatamente. Apenas observou o filho, notando a confusão, a tensão nos ombros, o olhar perdido que não conseguia focar em nada específico.
Ele suspirou, servindo outra dose e entregando o copo para Mordred.
— Beba — disse ele, a voz baixa. — Vai ajudar a clarear um pouco.
Enquanto Mordred bebia, Cian se aproximou da janela, parando ao lado do filho. O silêncio entre eles era confortável, diferente do silêncio carregado que Morrigan sempre deixava para trás.
Cian sempre soube mais do que aparentava. Ele via as rachaduras. Via as sombras que Siobhan tentava esconder com seus feitiços. Via a forma como o filho olhava para o vazio, como se procurasse algo que havia sido roubado dele. Mas ele deixava Morrigan dar as rédeas — era mais fácil assim. Menos dor de cabeça. Menos confrontos desnecessários.
Ainda assim, naquele momento, olhando para o perfil tenso de Mordred contra as luzes da cidade, Cian sentiu uma pontada de algo parecido com pena.
— Às vezes — disse ele por fim, a voz baixa e cuidadosa — a mente tenta proteger a gente de coisas que doem demais. Mas a memória… ela é teimosa. Ela encontra brechas.
Mordred virou o rosto para o pai, os olhos verdes carregados de confusão e uma dor que ele não conseguia nomear.
— Eu não entendo o que está acontecendo comigo.
Cian não respondeu imediatamente. Apenas colocou a mão no ombro do filho, um toque breve, quase paternal, antes de voltar a olhar para a cidade lá embaixo.
— Talvez você não precise entender agora — murmurou ele. — Mas lembre-se: nem tudo que nos é tirado desaparece de verdade.
Do lado de fora, a chuva começava cair, lavando as ruas de Londres como se pudesse limpar também as mentiras e os feitiços que se entrelaçavam dentro daquela família.
Mordred ficou em silêncio, o copo de whisky esquecido na mão, enquanto a imagem borrada de cabelos loiros ao vento insistia em voltar — como uma memória que se recusava a morrer.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que algo dentro dele começava a lutar contra a escuridão que tentava apagá-lo.
Durante o café da manhã, na cobertura dos Le Fay parecia mais silenciosa que o habitual. A chuva fina batia contra as janelas altas do salão de jantar, criando um véu cinzento que embaçava as colinas ao fundo. O ar cheirava a café forte, pão torrado e o leve aroma amargo de ervas que Morrigan sempre mandava preparar para “fortalecer o sangue”.
No escritório adjacente, as vozes dos pais de Mordred chegavam abafadas, mas carregadas de tensão. Cian questionava algo com a voz baixa e firme, quase um sussurro controlado. Morrigan respondia com aquela frieza aveludada que escondia lâminas:
— Tinha que ser feito. Ele estava se tornando um fracassado, Cian. Um homem fraco, preso a uma luz que nunca foi feita para ele.
Cian bateu de frente pela primeira vez em anos. Sua voz, normalmente calma, saiu cortante:
— Eu já perdi um filho pela sua obsessão de poder e linhagem, Morrigan. Não vou perder outro. Se você continuar empurrando ele para esse abismo, eu mesmo vou quebrar cada feitiço que você e Siobhan lançaram.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável. Depois, a porta do escritório se abriu.
Cian saiu, o rosto marcado por linhas de cansaço e determinação. Mordred, que esperava sentado à mesa do café da manhã, ergueu o olhar e deu um sorriso sem graça para o pai — um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava um agradecimento silencioso.
Todos se reuniram à mesa. Siobhan já estava sentada, elegante em um vestido claro de lã, os cabelos escuros soltos sobre os ombros. Morrigan ocupou seu lugar à cabeceira, o olhar afiado como sempre.
Enquanto serviam o chá e as fatias de mamão fresco, Siobhan quebrou o silêncio com a voz suave:
— Preciso comprar algumas coisas antes de retornarmos ao norte. Roupas mais quentes, talvez alguns livros…
Mordred, que até então olhava para o próprio prato sem realmente ver, falou de forma espontânea, quase sem pensar:
— Eu quero redecorar o apartamento.
O silêncio que caiu sobre a mesa foi imediato e denso.
Mordred continuou, como se as palavras estivessem saindo de um lugar que ele próprio não reconhecia:
— Cansei de tanto preto. Quero algo mais claro. Mais luz. Talvez tons de bege, madeira clara… algo que não pareça uma tumba.
Todos os olhares se voltaram para ele.
Morrigan apertou o garfo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A prata rangeu contra a porcelana enquanto ela cortava uma fatia de mamão com precisão cirúrgica. Seus olhos verdes se estreitaram, mas ela não disse nada — apenas observou o filho com uma intensidade que fazia o ar ao redor parecer mais frio.
Siobhan sorriu, um sorriso perfeito e controlado, embora seus dedos tivessem se crispado levemente sobre a xícara de chá.
— Concordo — disse ela, a voz doce. — Se você quiser redecorar, podemos fazer isso juntos. Vai ser bom dar uma renovada.
Morrigan e Siobhan trocaram um olhar cúmplice por cima da mesa — rápido, quase imperceptível, mas carregado de receio. Os olhos de Morrigan brilhavam com uma mistura de irritação e cálculo frio.
Quão forte era o sentimento entre ele e aquela Vancroft? pensou Morrigan, o garfo ainda apertado entre os dedos. Quão forte para conseguir desfazer magia negra tão antiga?
Siobhan sentiu o mesmo desconforto. Seus feitiços deveriam ter apagado Charlotte por completo. E ainda assim, ali estava Mordred — falando de luz, de clareza, de algo que não fosse escuridão e poder.
Mordred não percebeu o olhar trocado entre as duas mulheres. Ele apenas tomou um gole de café, sentindo o líquido quente descer pela garganta, e por um breve instante, permitiu-se imaginar um apartamento com paredes claras, janelas abertas para o sol, um espaço onde não parecesse que estava vivendo dentro de uma tumba.
Mas o silêncio à mesa era pesado. E no fundo do peito, algo antigo e teimoso começava a se mexer novamente — como uma chama que se recusava a ser apagada.
A probabilidade de ele esquecer Charlotte havia sido alta.
Mas a possibilidade de que o sentimento fosse mais forte que a magia negra… essa, ninguém havia calculado.
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