Notas iniciais
Janine está de volta à cidade onde sua mãe morreu, e onde coisas horríveis já aconteceram.

O Natal estava chegando, e os habitantes da pequena cidade de Arraial dos Sonhos já começavam a se empolgar com os preparativos para o feriado. Era tradição na cidade o concurso de decoração, que envolvia todos os moradores. Não interessava o custo envolvido, e sim a beleza alcançada para encantar os vizinhos e alimentar os sonhos das crianças. Pelo menos, era isso que diziam os mais velhos para justificar aos repórteres seu empenho nas decorações.
A verdade é que os moradores disputavam entre si, tentando mostrar o quanto eram melhores que os outros. Essas disputas se acirravam quando chegavam os repórteres da capital, atrás de pautas natalinas pra ocupar os noticiários, já que geralmente em dezembro nada acontece na política.
A população da pequena cidade não costuma aumentar muito de um ano para outro. Os mais jovens se esforçam para ir estudar na capital, e depois de formados acabam ficando por lá para trabalhar. Os mais velhos, já não querem mais sair da cidade, pois já se acostumaram com o local, que foi calmo por quase todo o tempo de sua existência.
Somente duas mortes fugiram do rotineiro diagnóstico de “óbito”por velhice. A de Marta, quando Janine nasceu. E a de Seu Silva que aconteceu em dezembro do ano anterior, com ares de sobrenatural. Talvez por isso, Janine levou tanto tempo para conseguir vendê-la. Já que as outras propriedades foram facilmente negociadas com menos de um mês do ocorrido.
Desde a morte de seu pai, Janine nunca mais havia conseguido entrar em casa. Ela se mudou pra capital na semana seguinte, e quando voltava à cidade para finalizar a venda de algum bem do falecido pai ficava no pequeno hotel da cidade. Agora, ela estava de volta, para finalmente, vender a casa do seu pai e finalmente ficar livre desta cidade onde só restaram lembranças dolorosas.
Seu esforço para se livrar de qualquer vínculo com a cidade foi visto de maneira negativa por alguns moradores. Chegaram a sair boatos de que ela teria mandado matar o próprio pai para que pudesse por a mão em sua herança e ficar rica, sem precisar de depender de Seu Silva para lhe dar dinheiro. Porém, a maior parte de Arraial dos Sonhos via Janine como uma menina de ouro, que era tão boa que nem parecia ser filha do Senhor Diabo, como alguns chamavam seu pai.
A fama de mal de Seu Silva era antiga, e vinha de antes de Janine nascer, inclusive. Diziam que ele era tão ruim que o próprio diabo em pessoa havia vindo buscá-lo. Afinal, não é todo dia que o inferno recebe alguém que mereça tanto estar lá. Dizem que ele mereceu tratamento especial.
No relatório da polícia constava que ele havia sido encontrado morto em sua cama. Com um corte profundo na barriga. Suas vísceras haviam sido arrancadas e nunca foram encontradas. Além disso seu rosto havia sido desfigurado. Só foi possível reconhece-lo pela aliança de Marta que ele trazia em seu pescoço desde a noite em que Janine nasceu.
A polícia não conseguiu identificar os responsáveis pelo assassinato. O crime havia sido cometido por alguém muito bom no que fazia. Não haviam pegadas, impressões digitais ou qualquer outro sinal que ajudasse na localização do autor. A casa estava trancada. Com os trincos passados nas portas da frente e dos fundos. Além disso, todas as janelas estavam trancadas por dentro.
É como se o assassino houvesse se materializado lá dentro, cometido o crime, e virado fumaça. Por isso a história do diabo vindo buscá-lo pessoalmente tomou tanta notoriedade. Após um ano o caso continua sem solução. A delegacia da cidade costuma encaminhar tudo para a capital por não possuir equipamentos necessários para uma investigação. Foi o que aconteceu com o caso de seu Silva.

***

Era doloroso para Janine retornar à Arraial dos Sonhos, depois de um ano. Muitas coisas ainda estavam bem vivas em sua lembrança, apesar de já não ser mais a menininha medrosa da Rua Sete, seu namorado, Jonnie, percebeu sua respiração mudar quando entraram na cidade e segurou sua mão forte, antes de trocar de marcha. Os dois concordaram que era melhor que ele dirigisse.
No alto dos seus quase 30 anos já havia se tornado uma importante jornalista. Trabalhava para o maior canal de TV da cidade, e já estava completando onze meses de namoro com Jonnie. Apesar de terem sido colegas de classe, a aproximação só aconteceu depois que ela se mudou de vez para capital.
A morte de seu pai foi o motivo final para a partida definitiva de Janine da cidade. Ela cresceu sem sua mãe, sob os cuidados de seu pai, e suas tias Mariana e Eliete, irmãs de Marcos Silva, que tomaram para si a responsabilidade sobre a pequena Janine. Todos na Rua Sete a chamavam de Janine Medrosa, por ter medo de chuva. Bastavam as primeiras nuvens aparecer para que a pequena corresse para casa.
Na escola era comum chorar por horas sempre que chovia. Seu pai sempre a repreendia. Porém ao pensar no que Marta faria numa situação assim, ele a abraçava, com lágrimas nos olhos. Eram momentos assim que davam a alguns a impressão de que ele não era tão mal quanto tentava demonstrar. Mas bastava que ele começasse a gritar com os professores, para que essa impressão se esvaísse.
Na adolescência Janine começou a trabalhar como ajudante no pequeno jornal da cidade, que era semanal. Isso a fez ter certeza de que queria ser jornalista. Ao escolher esta profissão tomou o cuidado de prestar vestibular em uma faculdade próxima, onde poderia estudar durante o dia, e voltar para casa para fazer companhia ao seu solitário pai. Não que não houvessem pessoas próximas. Mas suas tias e os funcionários só falavam com ele o que era extremamente essencial.
Desde a morte de seu pai, Janine nunca mais havia voltado à casa número Treze, da rua Sete, onde nascera e vivera até a véspera do seu último aniversário, quando acabou sendo a primeira a encontrá-lo, em sua cama, desfigurado e com o tórax aberto. Parecia que algum filme de terror “B” estava sendo gravado ali.
Depois disso, nunca mais voltou naquela casa. Pediu para que amigas organizassem suas coisas para a mudança, e doou tudo que pertencia ao seu pai e sua mãe. Só guardou consigo um álbum de fotografias do casal, que guardava memórias desde antes da morte de sua mãe. Morte que levou consigo o resto de humanidade que havia em Seu Silva. Só Marta o chamava de Marcos.
Depois de um ano, Janine teria que voltar a entrar naquela casa, para mostra-la aos compradores. Era difícil vender a casa que foi cenário de um assassinato tão cruel, então ela precisaria ser forte. Eram os primeiros compradores em mais de seis meses, e os únicos que não desistiram da visita depois de saber o que havia acontecido ali.
— É só por alguns minutos, meu amor. E você não estará sozinha. Eu vou ficar ao seu lado o tempo inteiro. Jonnie tentava acalmar Janine.
— Eu sei, obrigada por estar ao meu lado. Sem você eu nem teria vindo aqui. É que são tantas lembranças terríveis. Me dá calafrios só de segurar a chave.
— Se você quiser, eu entro e organizo tudo, e você fica no carro.
— Não, é o passo que falta para eu ficar livre desse pesadelo chamado Arraial dos Sonhos.
Janine torceu a chave na fechadura, que rangeu. Depois de um ano, o sol voltava a iluminar aquela casa pela porta da frente. O cheiro de poeira e mofo estava forte. Eles precisariam de ajuda para limpar aquilo tudo antes dos compradores chegarem.
Do outro lado da rua, Seu Jorge, um famoso inimigo de Seu Silva, observava tudo pela janela. A briga dos dois era antiga. Jorge sempre fora apaixonado por Marta, e dizia a todos que Marcos nunca mereceu uma mulher tão maravilhosa. Apesar de nunca ter tido uma chance com ela, ele nutriu por anos esse amor. Depois que ela morreu, ele se mudou para a casa em frente, ninguém sabe exatamente por qual motivo.

Notas finais
Espero que estejam gostando.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.