Herança de Sangue
2 De volta ao pesadelo
Notas iniciais
O Natal estava chegando, e os habitantes da pequena cidade de Sonhos já começavam a se empolgar com os preparativos para o feriado. Era tradição na cidade o concurso de decoração, que envolvia todos os moradores. Não interessava o custo envolvido, e sim a beleza alcançada para encantar os vizinhos e alimentar os sonhos das crianças. Pelo menos, era isso que diziam os mais velhos para justificar aos repórteres seu empenho nas decorações. Muitos canais de televisão da capital vinham à cidade fazer reportagens sobre o mais importante evento da cidade. A verdade era que aquela época do ano era reservada para uma competição velada, onde todos queriam mostrar o quanto eram superiores aos vizinhos.
A população da cidade era praticamente a mesma. Porém, neste ano Sonhos teria novos moradores. A velha casa do Seu Silva, que havia falecido um ano antes, de maneira sobrenatural, como diziam uns, finalmente fora vendida. Janine, única herdeira do falecido, havia deixado a cidade desde então, se mudando para a capital. Hoje ela estava na cidade. Veio assinar os documentos de venda da casa do falecido pai.
A casa era o único bem do Senhor Silva que ainda restava na cidade. Janine havia vendido todas as outras propriedades. Ninguém sabia o porquê dessa urgência em vender tudo. Parecia que ela estava se esforçando para cortar qualquer laço com a cidade. Corriam boatos na cidade de que ela havia mandado matar o pai para tomar posse de suas propriedades. Outros a defendiam, dizendo que era uma menina de ouro, e que jamais teria coragem de fazer mal a ninguém, muito menos seu pai, apesar dele ser o sujeito mais antipático da cidade.
Mas o boato mais forte na cidade era de que o próprio diabo havia vindo buscar a alma do Seu Silva. Diziam que ele havia feito tantas coisas ruins em vida, que mereceu tratamento especial. No relatório da polícia constava que ele havia sido encontrado morto em sua cama. Com um corte profundo na barriga. Suas vísceras haviam sido arrancadas. Nunca foram encontradas.
A polícia nunca achou os responsáveis pelo assassinato. O crime havia sido cometido por alguém muito bom no que fazia. Não havia pegadas, impressões digitais ou qualquer outro sinal que identificasse o autor. A casa estava trancada por dentro. Com os trincos passados nas portas da frente e dos fundos. Além disso, todas as janelas estavam trancadas por dentro. É como se o assassino houvesse se materializado lá dentro, cometido o crime, e virado fumaça. Por isso a história do diabo vindo buscá-lo pessoalmente tomou tanta notoriedade.
***
Janine havia nascido em Sonhos. Era uma noite chuvosa de dezembro. Dia 10. Marta, sua mãe, sofreu por nove meses para manter a gravidez que era de alto risco. O médico da capital havia orientado-a a abortar. Pois, seria impossível que a criança nascesse com vida. Marta se recusou. Ter um filho era tudo que sempre quis. Não iria abrir mão de seu sonho tão facilmente.
Na noite em que Marta entrou em trabalho de parto, Sonhos passava por um dos maiores temporais de sua história. A energia havia acabado, devido à queda de vários postes com a força do vento. A ponte, da única estrada que ligava a cidade ao resto do mundo, estava encoberta pela água. Estavam ilhados. O único médico da cidade estava fora. O desespero tomou conta do seu marido, Marcos Silva, conhecido por todos como Seu Silva. Será que perderia sua filha e sua esposa ali, naquela noite? Orou como um cristão fervoroso naquela noite. Apesar de dizer a todos que não acreditava em Deus, e que se ele existisse, seria apenas uma criança mimada e sádica, brincando com seus bonecos em uma caixa de areia. Ganhou a inimizade de muitos na cidade por causa desse comentário. Inclusive do vigário José, que cuidava da pequena capela da cidade.
Seu Silva precisava agir, sua mulher gritava de dor. Lembrou-se de Dona Carmem, a famosa parteira da cidade! Segundo ela, mais de trezentos habitantes de Sonhos haviam chegado à cidade por suas mãos. Com o progresso e a chegada do posto de saúde, dona Carmem foi meio que esquecida. Ela morava na casa rosa no fim da rua Sete. Havia tantas ervas e plantas medicinais plantadas em seu quintal que até o médico da cidade, Seu Antony, ia visitá-la de vez em quando. A casa de Seu Silva ficava dois quarteirões acima da casa de Dona Carmem, na mesma rua. A parteira era a única opção que ele tinha no momento.
Correu para sua caminhonete, que ainda estava cheia de lama, por causa de sua ida à fazenda mais cedo, naquele dia. Parou na porta de Dona Carmem. Estava tudo escuro. Claro, não havia energia, pensou ele. Começou a buzinar desesperadamente, e gritá-la pelo nome. Vários vizinhos colocaram as caras nas janelas para saber do que se tratava aquele escândalo. Ao verem quem era muitos fecharam as cortinas.
Dona Carmem estava dormindo. Saiu desnorteada na varanda.
– Venha Logo, Dona Carmem. Preciso da senhora. Marta está dando à Luz, e não há ninguém para ajudá-la.
– Onde está o médico, Seu Silva? Faz anos que não realizo mais partos.
– Seu Antony não está na cidade. Se a senhora não ajudar perderei minha filha e minha mulher. Não faça por mim, faça isso por Marta, que sempre lhe quis bem.
Dona Carmem não gostava de Seu Silva, assim como quase toda a cidade. Mas Marta sempre foi gentil com todos, e não havia uma alma naquela cidade que não gostasse da doce Marta.
– Eu irei! Mas que fique claro que vou pela Marta, não pelo senhor!
– Que seja! Só quero que salve minha mulher e minha filha!
Ao chegarem à casa, Marta estava gritando de dor em seu quarto, que ficava no andar de cima. O suor já havia lhe ensopado a roupa e cabelos, e sua cara de dor deixava transparecer o quanto estava sofrendo.
O parto foi complicado e demorado. Janine estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Nasceu depois de muito sofrimento. Estava sem respirar. O cordão havia lhe pressionado o pescoço. Dona Carmem tentou reanimá-la. Marta ainda estava acordada, apesar da dor. Ao ver sua menina inanimada nas mãos de Dona Carmem, começou a gritar. Não era possível que sofrera aquilo tudo para que a criança morresse! Questionou Deus, naquele momento. E gritou que preferia ter morrido, a ter que viver a dor da perda de uma filha. Não era justo! Como Deus poderia tirar a vida de uma criança que acabara de nascer? Ela já tinha vivido muito, encontrara seu grande amor, e naquele momento era a mulher mais feliz do mundo, por ser mãe.
A chuva ficou mais forte. Um raio atingiu o telhado da Residência. Seu Silva e Dona Carmem caíram ao chão de susto. Ao se levantarem, ouviram o choro de Janine. Ela estava viva! Porém, Marta não. Nunca souberam se ela conseguiu ao menos saber que sua filha estava viva, antes de morrer. Muitos dizem até hoje na cidade, que Marta havia dado sua vida, para que sua filha vivesse. Neste dia Marcos teve a certeza de que Deus não existia, por ter permitido que sua esposa morresse. Desde então se tornou a pessoa mais amargurada e fria de Sonhos. Muitos chegavam a falar que ele nascera sem coração.
***
Era doloroso para Janine retornar a Sonhos, depois de um ano. Muitas coisas ainda eram fortes em sua lembrança, apesar de já não ser mais a menininha medrosa da Rua Sete. No alto dos seus quase 28 anos já havia se tornado uma importante jornalista. E a morte do pai foi a desculpa que precisava para partir definitivamente da cidade.
Cresceu sem sua mãe, sob os cuidados de seu pai, e suas tias Mariana e Eliete, irmãs de Marcos, que tomaram para si a responsabilidade sobre a pequena Janine. Todos na Rua Sete a chamavam de Janine Medrosa, por ter medo de chuva. Bastavam as primeiras nuvens aparecer para que a pequena corresse para casa. Na escola era comum chorar por horas sempre que chovia. Seu pai sempre a repreendia. Porém ao pensar no que Marta faria numa situação assim, ele abraçava a filha com lágrimas nos olhos. Era momentos assim que confortavam Janine, e davam a ela a certeza de que seu pai tinha coração.
Na adolescência Janine começou a trabalhar como ajudante no pequeno jornal da cidade, que era semanal. Isso a fez ter certeza de que queria ser jornalista. Ao escolher esse curso, tomou o cuidado de prestar vestibular em uma faculdade próxima, onde poderia estudar durante o dia, e voltar para casa para fazer companhia ao seu solitário pai. Já que nem empregada conseguia contratar para trabalhar em sua casa. Todas as candidatas desistiam ao saber que teriam que enfrentar Seu Silva.
Nunca mais havia voltado à casa número Treze, da rua Sete, onde nascera e vivera até a morte de seu pai no ano passado. Neste dia seria diferente. Teria que entrar para mostrar a casa aos novos compradores. Lembranças terríveis tomavam conta de sua mente. Por um momento pensou que iria desmaiar. Segurou-se. Tinha que ser forte. Era difícil vender a casa onde acontecera tão macabro assassinato, não poderia perder esses clientes, ninguém mais se interessava pelo imóvel. Era só mais essa tarde, e depois estaria livre para sempre de Sonhos.
Irônico, pensava ela, meu grande sonho ser justamente ficar livre da Cidade que se chamava Sonhos. Acontece que para ela aquele lugar não passava de um pesadelo. Riu de nervosismo, consigo mesma. Torceu a chave na fechadura. Depois de um ano, novamente o sol iluminava aquela casa pela porta da frente. Janine Sentiu o forte cheiro de poeira e mofo. Precisaria de ajuda para limpar tudo.
Do outro lado da rua, Seu Jorge, inimigo antigo de Seu Silva, observava tudo pela janela. A briga dos dois era antiga. Jorge sempre fora apaixonado por Marta, e dizia a todos que Marcos nunca mereceu uma mulher tão maravilhosa.
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