Herança de Avalon
28 O Jogo de Espelhos e Sombras
O silêncio na mansão dos Vane Le Fay em Mayfair era um organismo vivo, algo que rastejava pelas paredes de carvalho e se enrolava no pescoço de quem ousasse respirar com força. Morrigan Le Fay permanecia na biblioteca, os olhos fixos nas brasas da lareira, mas sua mente estava em outro lugar: no ventre de Siobhan.
O ritual falhado ainda pulsava em sua memória como uma ferida aberta. A linhagem Le Fay não era apenas sangue; era uma entidade orgulhosa que não aceitava impostores. Se a magia rejeitara Siobhan, havia uma razão. Morrigan não olhava para a nora com carinho, mas com a precisão de um predador avaliando uma presa ferida. Ela ainda não falaria. Ela observaria o cheiro do medo emanar da pele de Siobhan até que a verdade se revelasse por si mesma.
Sentindo o peso do olhar invisível da sogra, Siobhan fugiu. O pânico era um gosto amargo de bile em sua garganta.
Em Belgravia, o gabinete de Julian Ashcroft cheirava a couro caro e à arrogância de um homem que acreditava ter vencido o destino. Quando Siobhan entrou, descabelada, as mãos tremendo sobre a barriga proeminente, ele nem sequer levantou os olhos dos seus papéis.
— O ritual falhou, Julian — ela sussurrou, a voz quebradiça. — Quase morremos. A magia... ela sabe. Morrigan sabe.
Julian finalmente ergueu o rosto. Não havia compaixão em seus olhos azuis-glaciais, apenas um tédio profundo e cruel.
— E o que você quer que eu faça, Siobhan? — ele perguntou, sua voz soando como o estalar de gelo. — Você foi um instrumento útil. Uma distração necessária. Mas olhe ao redor. Eu tenho Charlotte. Eu tenho Lyra. Eu tenho o legado de Merlim dormindo no andar de cima. Você é apenas um erro de percurso que eu não pretendo carregar nas costas.
Siobhan sentiu o impacto das palavras como se fossem bofetadas físicas. Ela recuou, um riso sarcástico e histérico escapando de seus lábios pálidos.
— Útil? Um erro? ACABEI DE FALAR QUE MEU FILHO É SEU. — ela cuspiu, os olhos injetados de ódio. — É irônico, Julian. Você se acha o mestre de marionetes, mas está vivendo em um castelo de vidro. Você cria a filha de Mordred com todo o zelo do mundo, enquanto o seu verdadeiro herdeiro, o sangue do seu sangue, está sendo criado pelo seu maior inimigo. Você é um rei de mentiras.
Julian levantou-se, a aura de ameaça preenchendo o ambiente.
— Saia daqui, Siobhan. Antes que eu decida que você é um risco que precisa ser eliminado. Você não passa de um verme rastejando no brilho da minha vida.
Ela saiu desesperada, tropeçando nos próprios pés enquanto ganhava as ruas frias de Londres. Cada passo era uma maldição direcionada a Charlotte. Por que ela? Por que Charlotte sempre tinha o amor de Mordred, a proteção de Julian e a luz do sol, enquanto Siobhan só recebia as sombras e o desprezo?
No escritório dos Vane, o ar era denso. Mordred e seu pai, Cian, discutiam em vozes baixas sobre a instabilidade de Morrigan e os segredos enterrados em Inverness. Mordred sentia o peso do mundo em seus ombros; cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Charlotte e sentia o vazio de uma vida que ele acreditava ter perdido.
Subitamente, a porta foi escancarada. A secretária de Cian entrou, o rosto lívido, os lábios movendo-se sem emitir som, os olhos arregalados de puro terror. Antes que ela pudesse falar, uma figura surgiu atrás dela.
Mordred sentiu o tempo parar. O sangue em suas veias pareceu congelar e se transformar em estilhaços de vidro.
Alexander Vance Le Fay entrou no recinto com a calma de um monarca que retorna de um exílio que ele mesmo planejou. Não havia a loucura da floresta, nem o cheiro de morte de quinze anos atrás. Ele estava impecável, o rosto idêntico ao de Mordred, mas com uma frieza calculista que fazia o ar do escritório baixar dez graus.
Cian deixou o copo de cristal cair, os cacos espalhando-se pelo chão como a sanidade daquela família.
— Olá, pai. Olá, irmão — Alexander disse, a voz suave e letal. — Parece que vocês viram um fantasma. Mas eu garanto... eu sou bem mais real do que as mentiras que vocês contaram um ao outro por todo esse tempo.
Mordred permaneceu catatônico, o peito subindo e descendo em uma respiração curta e dolorosa. O homem que ele acreditava ser sua própria alucinação esquizofrênica estava ali, respirando, destruindo a única certeza que Mordred usara para se convencer de que era louco.
No silêncio asfixiante do berçário em Belgravia, o luxo parecia uma mortalha dourada. Charlotte apertava Lyra contra o peito com uma força que beirava o desespero, os dedos cravados na manta de seda como se a criança fosse a única tábua de salvação em um naufrágio de poções e mentiras. Ali, entre as paredes acolchoadas, ela ignorava o mundo, mas seu corpo não esquecia.
Ao olhar para a filha, Charlotte sentia um aperto no peito que transcendia o emocional; era uma dor física, um espasmo no diafragma que lhe roubava o fôlego. Lyra não tinha um único traço de Julian. A cada manhã, o fantasma de outro homem se materializava na face da bebê. O maxilar forte que começava a se definir, o arco aristocrático das sobrancelhas e, principalmente, aquele verde indomável e elétrico dos olhos — uma cópia visceral, cruel e magnífica de Mordred.
Ela acariciou a bochecha de Lyra, sentindo a suavidade da pele, mas sua mente a traiu, arrastando-a para as noites em Craig Dun. Ela ainda conseguia sentir o calor da pele de Mordred, o cheiro de chuva e sândalo, o gosto metálico da magia entrelaçada ao suor. Small town boy in a big arcade... A melodia de Arcade latejava em seus pulsos como uma febre. Ela se sentia exatamente assim: alguém que jogou todas as suas fichas em uma máquina viciada, apostando o coração em um jogo que já nasceu morto.
Julian era a "família" para os flashes dos fotógrafos e para os jantares em Belgravia; ele era a estabilidade feita de gesso, um estranho meticuloso que ocupava a cama onde deveria estar um monstro que ela amava. O amor por Mordred não era uma lembrança romântica; era uma doença crônica, uma infecção na alma que a fazia tremer de abstinência.
— I've spent all of the love I saved... we were a losing game — sussurrou Charlotte contra os cabelos da filha.
Lyra a observava com uma sabedoria ancestral, olhos que pareciam julgar o mundo antes mesmo de conhecê-lo. Charlotte sabia que o equilíbrio era uma ilusão de vidro. Julian sabia. Ele sempre soube. Ele olhava para Lyra e via o DNA do seu maior inimigo, mas mantinha o teatro por uma ganância que Charlotte ainda não conseguia decifrar totalmente. A bebê era o estopim de uma bomba relógio; o sangue de Merlim e Le Fay fervendo em um único berço.
Subitamente, as luzes de Belgravia oscilaram, caindo para um tom âmbar doentio. Um arrepio gélido percorreu a espinha de Charlotte, uma premonição feita de estática e medo. Em algum lugar de Londres, uma fenda se abrira. O fantasma que habitava seus pesadelos na floresta agora respirava o mesmo ar poluído da capital.
Alexander estava de volta, uma peça que Julian não previu em seu tabuleiro de xadrez humano. No centro desse oceano de sangue e sombras, Charlotte segurava a única verdade que restava, enquanto o abismo entre ela e o verdadeiro pai de sua filha se tornava uma garganta aberta, pronta para engolir o que restava de sua sanidade.
Mayfair estava se transformando em um hospício de espelhos para Siobhan. A gestação, que antes parecia um trunfo, agora se arrastava como uma sentença de morte. Seu corpo pesava, mas não era o peso natural da vida; era como se ela carregasse chumbo e espinhos dentro do ventre.
Ela começou a ouvir as vozes. No início, eram apenas sussurros indistintos atrás das portas de carvalho da mansão Vane, mas agora elas gritavam seu nome em línguas mortas durante a madrugada. Eram ecos da Névoa de Lethe, a poção que ela mesma preparara para destruir a mente de Charlotte. A magia não desaparece; ela apenas procura um novo hospedeiro quando o primeiro se torna forte demais, e Siobhan, consumida pela culpa e pelo medo, era o alvo perfeito.
A paranoia tornou-se sua única companhia.
Siobhan andava pelos corredores de Mayfair sentindo olhos em suas costas. Morrigan Le Fay a perseguia com uma presença asfixiante. A matriarca não gritava, não acusava; ela apenas aparecia. Siobhan a encontrava sentada no escuro da sala de jantar ou parada no topo da escada, observando-a com uma mistura doentia de malícia e uma ternura predatória.
— Você parece pálida, querida — dizia Morrigan, sua voz soando como o deslizar de uma serpente sobre pedras secas. — O herdeiro está faminto, não está? Ele sente quando a mãe guarda segredos. O sangue Le Fay exige a verdade para se alimentar.
Siobhan recuava, as mãos cravadas na barriga que pulsava com uma arritmia assustadora. — Ele está bem. Eu estou bem. Só preciso descansar.
— O descanso não vem para quem semeia joio no jardim alheio — Morrigan sorria, um movimento lento que nunca alcançava os olhos negros.
Trancada em seu quarto, Siobhan começou a cobrir os espelhos com lençóis pretos. Ela não suportava mais ver o próprio reflexo; às vezes, via o rosto de Julian rindo dela através de seus próprios olhos. A magia que ela usara para ajudar Julian a subjugar Charlotte estava voltando para casa.
Ela sentia dedos invisíveis acariciando seu pescoço quando estava sozinha. Sentia o cheiro de ozônio e sândalo — o cheiro de Mordred — mas, quando se virava, o quarto estava vazio. A ironia era uma lâmina afiada: ela dera a Charlotte a loucura, e agora a loucura a reivindicava.
— Julian... — ela soluçou, jogando-se na cama. — Você me deixou aqui para morrer.
Ela pegou o celular, as mãos tremendo tanto que quase deixou o aparelho cair. Ela precisava avisá-lo. Precisava dizer que a criança em seu ventre estava reagindo à presença de Alexander, que a magia em Londres estava se tornando um vórtice. Mas, ao olhar para a tela, viu uma mensagem não lida de um número desconhecido.
"O fantasma voltou para cobrar a dívida, Siobhan. E ele sabe que o sangue no seu ventre é um roubo."
O grito ficou preso em sua garganta. Ela olhou para a porta e viu a sombra de Morrigan sob a fresta, imóvel, esperando. Siobhan percebeu, com um terror visceral, que estava presa entre dois monstros: a mulher que queria o bebê e o homem que o gerara. E nenhum deles permitiria que ela saísse viva daquela mentira.
Em Belgravia, Charlotte acordou com um sobressalto, o peito ardendo. Lyra começou a chorar no berço, um som agudo que parecia um aviso. A magia em Londres não estava apenas mudando; ela estava se preparando para o sacrifício final.
O ar dentro do quarto de Siobhan estava estagnado, pesado com o cheiro de incenso barato e o suor frio da paranoia. Ela se arrastou até a janela, as mãos trêmulas puxando a cortina de veludo apenas o suficiente para espiar o mundo lá fora. A noite de Londres estava envolta em uma névoa leitosa, mas, para Siobhan, as sombras tinham formas.
Lá embaixo, entre as estátuas de mármore e as sebes podadas do jardim dos Vane, uma figura permanecia imóvel.
Siobhan sufocou um grito. O homem lá embaixo não era um borrão da sua mente exausta. Ele vestia um sobretudo escuro, a postura perfeitamente ereta, o rosto banhado pelo luar revelando as feições que ela aprendera a temer nos pesadelos de Charlotte. Era Alexander. Ele não estava morto. Ele não era um eco. Ele olhava diretamente para a janela dela, e o sorriso que curvava seus lábios era uma promessa de aniquilação.
— Não... você não existe! — ela sibilou, recuando bruscamente.
As vozes em sua cabeça começaram a gritar em uníssono. O quarto pareceu se inclinar. Siobhan sentiu o cheiro de ozônio, o mesmo que precedia as tempestades de magia Le Fay. Ela tropeçou nos próprios pés, o peso da barriga desequilibrando seu centro de gravidade. Em um movimento desesperado para se segurar, suas mãos agarraram o parapeito baixo da janela aberta, mas a umidade da névoa tornara a pedra escorregadia.
O grito que escapou de sua garganta foi curto, interrompido pelo som seco do impacto.
Mordred entrou na mansão segundos depois, o coração batendo em um ritmo frenético, impulsionado por um pressentimento que queimava como ácido. Ele mal passou pelo hall quando ouviu o baque surdo vindo do jardim lateral.
— Siobhan? — ele chamou, correndo em direção ao som.
O que ele encontrou sob a luz gélida dos refletores foi uma cena saída de uma tragédia de horror. Siobhan estava caída sobre o gramado, o corpo retorcido de forma antinatural. O vestido branco, que ela usara como uma armadura de pureza, agora era rapidamente manchado por um vermelho denso e escuro que brotava de sua cabeça e do ventre.
Mordred desabou ao lado dela, os dedos buscando freneticamente o pulso no pescoço pálido. Nada. Nem uma vibração. Nem um sopro de vida.
— Siobhan! Acorda! — ele rugiu, a voz carregada de um desespero que ele não sabia que ainda possuía por ela. — Chamem uma ambulância! AGORA!
Ele olhou para cima, para a janela aberta do segundo andar, e depois para as sombras do jardim. Não havia ninguém. Apenas o silêncio opressor da noite.
Morrigan surgiu na varanda, observando a cena de cima com uma calma que beirava o divino. Seus olhos negros não mostravam surpresa, apenas uma observação clínica do desastre.
— O que aconteceu, mãe? — Mordred gritou, levantando o rosto manchado pelo sangue da esposa. — Você estava com ela! O que você fez com ela?
Morrigan desceu os degraus lentamente, a seda de seu vestido roçando nas pedras como o rastejar de uma víbora.
— Eu não fiz nada, Mordred — ela respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção humana. — Eu estava no meu escritório quando ouvi o impacto. Parece que a culpa é um peso que o corpo dela não conseguiu suportar. O vidro da mente dela finalmente se estilhaçou.
Mordred sentiu uma náusea violenta. Ele olhou para Siobhan, para o sangue que continuava a se espalhar, e sentiu o peso do fim. A mentira de Siobhan, o pacto de Julian e a obsessão de Morrigan haviam culminado naquela queda.
Enquanto as sirenes começavam a ecoar ao longe, Mordred sentiu uma presença. Ele olhou para o limite do jardim e, por um microssegundo, viu um par de olhos verdes idênticos aos seus observando-o da escuridão. Antes que pudesse reagir, a visão sumiu.
Siobhan estava morta, ou morrendo, e o filho que ela carregava — o segredo que ligava Mayfair a Belgravia — estava mergulhado em um oceano de sangue. A guerra das linhagens acabara de cobrar seu primeiro grande sacrifício, e Mordred sabia, no fundo de sua alma ferida, que o próximo alvo seria Charlotte.
O ar na UTI era um veneno gélido, saturado com o cheiro de ozônio e antisséptico. Siobhan estava submersa em um mar de tubos e fios, o rosto pálido fundindo-se ao lençol estéril. O som do ventilador mecânico era a única coisa que mantinha o ritmo de sua vida — um sopro artificial, ruidoso e metálico. O parto de emergência fora uma carnificina silenciosa; o menino fora arrancado de seu ventre entre jatos de sangue e pressões arteriais despencando.
Ela estava presa no limbo, entubada, incapaz de gritar a verdade que a sufocava.
A porta da unidade de isolamento deslizou com um chiado quase imperceptível. Morrigan Le Fay entrou. Ela não usava luvas, nem máscara. Sua presença ali era uma profanação. Ela parou ao lado do leito, observando Siobhan com uma ternura de dar nó nas entranhas.
— Você foi uma peça pequena demais para um jogo tão grande, querida — sussurrou Morrigan, sua voz vibrando abaixo do bipe dos monitores. — E peças descartáveis não podem carregar segredos que apodrecem a raiz da minha linhagem.
Com uma calma que beirava o divino, Morrigan segurou o cateter de acesso central. Seus dedos pálidos buscaram uma seringa vazia. Sem pressa, ela aspirou o ar do ambiente, o vazio que logo preencheria as veias de Siobhan. Ela inseriu a agulha na borracha do soro e empurrou o êmbolo.
Uma bolha de ar. Um mensageiro invisível da morte.
Siobhan, mesmo em coma induzido, pareceu tencionar. O monitor cardíaco soltou um bipe errático. Morrigan inclinou-se sobre ela e beijou sua testa suada. — Vá para o escuro, Siobhan. Leve suas mentiras com você.
No corredor, a poucos metros dali, Mordred estava parado diante do vidro da incubadora neonatal. Ele observava o menino. A criança era pequena, avermelhada, lutando para respirar. Ele sentia uma dor física no esterno, um peso que não era de amor, mas de um lamento visceral. O nascimento de seu filho deveria ser um triunfo, mas tinha o gosto amargo de uma tragédia grega.
“Por que você veio assim?”, ele pensava, os nós dos dedos brancos de tanto pressionar o vidro. “Em que tipo de inferno você acabou de desembarcar?”
O murmúrio das enfermeiras mudou de tom ao fundo. Um código azul soou no final do corredor. Mordred sentiu um calafrio subir pela espinha, um pressentimento de que o último fio acabara de romper.
O médico surgiu minutos depois, retirando a máscara, os olhos carregados de uma derrota clínica. — Sr. Vane... sinto muito. Houve uma embolia súbita. Não conseguimos reverter. Sua esposa... Siobhan faleceu.
Mordred recuou, as costas batendo na parede fria do hospital. O mundo oscilou. Ele não amava Siobhan como amava Charlotte, mas ela fora sua âncora na realidade de Mayfair. Agora, ele estava à deriva com um recém-nascido que mal conseguia olhar. Ele cobriu o rosto com as mãos, e o primeiro soluço escapou — um som quebrado, bruto, de um homem quebrado pelo peso de seu próprio sobrenome.
— Meu filho... — ele soluçou, as lágrimas quentes queimando a pele de suas mãos frias. — Ele não tem ninguém.
— Ele tem você, meu filho.
A voz de Morrigan surgiu como um sussurro de fumaça. Ela o envolveu em um abraço, o cheiro de sândalo e flores mortas invadindo seus sentidos. Mordred desabou no ombro da mãe, tremendo.
— É muita coisa, mãe... — ele desabafou, a voz abafada pelo choro. — Siobhan morta, o bebê aqui... e hoje... hoje aconteceu algo que eu não consigo explicar. A minha mente está me traindo de novo.
Morrigan afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, a expressão fingindo preocupação. — O que houve, Mordred?
— Ele apareceu na empresa, mãe. Alexander. — O nome saiu como um pecado. — Ele entrou no escritório. Ele falou comigo e com meu pai. Ele não é um fantasma. Ele está vivo.
O rosto de Morrigan congelou. Por um microssegundo, a máscara de controle absoluto rachou, revelando um terror que Mordred nunca vira antes. Suas mãos, ainda geladas pelo ar que injetara em Siobhan, apertaram os braços do filho com força suficiente para deixar marcas roxas.
— Vivo? — ela sibilou, a voz falhando. — Impossível.
Longe dali, no alto de um prédio em frente ao hospital, um homem observava as luzes da ala neonatal através de um binóculo de precisão. Alexander Vane Le Fay ajustou o foco, um sorriso letal brincando em seus lábios enquanto via a silhueta de Mordred e Morrigan através do vidro.
O jogo de Morrigan acabara de encontrar um mestre mais cruel. Siobhan fora apenas o primeiro corpo. E, enquanto Mordred chorava a morte de uma esposa que o traíra, Alexander sussurrava para a escuridão de Londres:
— Bem-vindo à família, sobrinho. Espero que goste de sangue. Porque o seu pai está criando o meu fantasma, e eu estou aqui para buscar o que é meu por direito de primogenitura.
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