Herança de Avalon

23 O Efeito de Gaiola


A escuridão da caverna não era absoluta, mas o silêncio era. Charlotte acordou com o som do gotejar rítmico de uma estalactite, um som que, em sua mente febril, parecia a contagem regressiva de um cronômetro. O ar tinha um cheiro denso de terra úmida e algo floral, doce demais, como o perfume de um velório. Ela tentou se mexer, mas seu corpo parecia feito de chumbo. Cada centímetro da sua pele gritava por Mordred, pela segurança do Castelo Craig Dun, mas a realidade que a saudava era feita de pedra fria e sombras projetadas.

— Você dormiu por dez horas — a voz de Alexander surgiu da penumbra, suave como veludo, mas com o fio de uma navalha. — O chá está fresco. Camomila e erva-doce para acalmar a bebê.

Ele se aproximou, a silhueta idêntica à do homem que Charlotte amava, mas os movimentos eram diferentes. Alexander era fluido, gracioso de uma forma que desafiava a natureza. Ele pousou uma bandeja de madeira perto do leito de peles. Seus olhos brilhavam com uma gentileza excessiva, o tipo de carinho que um colecionador dedica a uma peça rara e frágil.

Ele é um monstro, ela pensou, o coração martelando contra as costelas. Um monstro que sorri enquanto me rouba.

— Eu quero ir embora, Alexander — Charlotte disse, a voz rouca. Ela sentiu a bebê chutar com força, um protesto mudo que vibrou em sua espinha. — Você disse que me protegeria , não que me manteria em uma jaula.

— O mundo lá fora é o caos, Charlotte. Aqui, nós temos a paz. — Ele se ajoelhou, oferecendo a caneca. — Beba. Por ela.

Charlotte viu a abertura na lateral da caverna. Ela não pensou. Ela agiu. Concentrou toda a dor do luto por sua avó, a raiva pela traição de Morrigan e a força ancestral que corria em suas veias. O ouro explodiu em suas pupilas, uma onda de choque de Merlim destinada a esmagar Alexander contra a parede. O ar estalou, o vácuo se formou por um milésimo de segundo.

Alexander nem piscou. Ele apenas sussurrou uma sílaba gutural, um som que parecia vir das raízes do mundo. Um escudo de névoa prateada surgiu, absorvendo o impacto da magia de Charlotte como se fosse nada. Ela sentiu um puxão violento em seu âmago — sua magia não foi apenas bloqueada, foi drenada. Seus joelhos cederam. Se Alexander não a tivesse segurado pelos ombros, ela teria caído sobre a pedra.

— Não desperdice sua energia, querida — ele murmurou, o rosto agora a centímetros do dela. — Eu conheço as fechaduras desta linhagem. Eu ajudei a construí-las. Elara... ela também era impetuosa. Ela tinha o mesmo brilho de desafio nos olhos antes de Morrigan a arrancar de mim.

Alexander inclinou a cabeça, e o pavor se instalou em Charlotte. Não era apenas proteção. Era obsessão.

— Eu vi você através dele, sabe? — Alexander confessou, os dedos roçando levemente o cabelo dela. — Vi você nos sonhos de Mordred enquanto eu os moldava. E eu percebi... que ele não merece você. Ninguém merece o que você é. Eu não te salvei apenas por dever, Charlotte. Eu me apaixonei pela ideia de você. E agora que você é real... eu nunca vou deixar que te machuquem de novo.

O toque dele era frio. Charlotte sentiu uma náusea visceral. Ela estava presa com um homem que amava um fantasma e que via nela sua segunda chance de redenção.

⬥ ⬥ ⬥

Em Londres, o escritório de Julian cheirava a uísque barato e desespero caro. Mordred estava debruçado sobre um mapa, o cabelo bagunçado, os olhos vermelhos de quem não dormia há dias. Ele sentia flashes de memórias que não faziam sentido: uma infância em uma floresta que ele nunca visitou, um irmão que ele nunca teve. As imagens implantadas por Alexander agiam como um vírus, mas o rastro de Charlotte em sua alma era um anticorpo que se recusava a morrer.

— O GPS dela foi desativado perto de Craig Dun — Julian disse, a voz carregada de um cinismo defensivo. — Se ela foi levada por um dos seus, Le Fay, eu vou garantir que sua família seja reduzida a cinzas parlamentares.

— Cale a boca, Julian — Mordred rosnou, sem olhar para cima. — Nós dois sabemos que você não tem poder contra o que a levou. Mas você conhece os caminhos humanos, e eu conheço os de sangue. Vamos encontrá-la.

A porta se abriu com um estrondo suave. Siobhan entrou, pálida, uma mão protegendo o ventre de forma ostensiva. Ela caminhou até Mordred, ignorando Julian como se ele fosse parte da mobília.

— Mordred, por favor... — ela soltou um gemido baixo, curvando-se levemente. — Eu tive tonturas o dia todo. O médico disse que o estresse está afetando o bebê. Você prometeu que este seria o nosso recomeço.

Mordred hesitou. A manipulação de Siobhan era cirúrgica. Ela usava a "vida" que ele acreditava ser sua para acorrentá-lo ao chão enquanto Charlotte estava em algum lugar, gritando em silêncio. Ele olhou para a esposa, sentindo o peso do dever esmagar o instinto. Cada segundo que ele passava consolando as mentiras de Siobhan era um segundo que Alexander usava para reescrever a realidade de Charlotte.

— Eu só preciso de mais uma hora — Mordred mentiu, a voz sem vida.

— Você sempre precisa de mais uma hora para ela — Siobhan sussurrou, o veneno escondido em uma lágrima solitária. — Mas quem vai cuidar de nós quando você não voltar?

Enquanto isso, a quilômetros dali, na escuridão da caverna, Charlotte olhava para o espelho d'água onde Alexander observava Mordred. Ela viu o marido e o Mordred juntos, viu a armadilha de Siobhan se fechar. Ela estava sozinha. E Alexander, com seu sorriso de anjo caído, servia-lhe mais chá, esperando pacientemente que ela desistisse de lutar.

Charlotte sentiu o peso do olhar de Alexander — uma pressão física que parecia achatar o oxigênio ao seu redor. Ele se aproximou novamente, e o som de suas botas na pedra irregular ecoava como batidas de um martelo em um prego que se recusava a entrar. Ela abraçou o próprio ventre, os dedos cravando-se no tecido fino do vestido, tentando criar uma barreira entre a pureza da vida que carregava e a distorção que emanava dele.

— Você está tremendo — Alexander observou. A voz dele não era apenas suave; era uma carícia indesejada que fazia os pelos da nuca de Charlotte se eriçarem. — Não precisa ter medo de mim, Charlotte. Eu sou a única coisa que resta entre você e o esquecimento.

Ele estendeu a mão e, desta vez, ela não teve forças para recuar. Os dedos dele tocaram a lateral do seu rosto, frios como o mármore de uma tumba. Charlotte sentiu uma pontada aguda na têmpora, um eco da dor de Mordred em Londres. Era uma conexão fantasma, um fio de dor que a ligava ao homem que estava sendo lentamente apagado.

— Sente isso? — Alexander sussurrou, os olhos fixos nos dela. — É o fim dele. A mente de Mordred é como uma tapeçaria sendo desfeita. Cada fio que eu puxo é uma memória sua que se transforma em fumaça. Logo, ele olhará para Siobhan e verá o seu mundo. E você olhará para mim e verá o seu recomeço.

— Você é doente — Charlotte cuspiu as palavras, o gosto de bile queimando sua garganta. — Você está matando o próprio irmão por dentro.

— Eu estou libertando-o — Alexander rebateu, a voz subindo de tom pela primeira vez, uma rachadura na máscara de calma. — Eu estou dando a ele a paz da ignorância! E estou dando a você o que Morrigan tirou de mim: um futuro onde o amor não é um crime de guerra!

Ele a segurou pelos ombros, a força dos seus dedos deixando marcas que logo se tornariam roxas sob o jaleco que ela ainda vestia. Charlotte sentiu o cheiro de Alexander — não era o cheiro de chuva e couro de Mordred, mas um cheiro de terra antiga e sândalo, o cheiro de algo que ficou guardado no escuro por tempo demais.

A dor no ventre de Charlotte intensificou-se. Não era apenas um chute; era uma contração de medo. A bebê parecia sentir que o oxigênio da mãe estava sendo roubado pela presença dele. Uma lágrima quente e solitária escorreu pelo rosto de Charlotte, traçando um caminho de fogo na pele fria.

— Olhe para o espelho, Charlotte — ele ordenou, virando o rosto dela em direção à superfície da água trêmula.

No reflexo, ela viu Londres. Viu Mordred na sala com Siobhan. Viu o momento exato em que Siobhan levou a mão ao rosto dele e ele, em um gesto de pura derrota e exaustão, fechou os olhos e inclinou a cabeça para o toque dela.

O grito ficou preso na garganta de Charlotte, uma massa seca e espinhosa de agonia. Ver Mordred ceder, mesmo que sob manipulação, foi como sentir sua própria alma sendo rasgada ao meio, sem anestesia. Era o tipo de dor visceral a dor de perceber que o amor, sozinho, não é uma armadura contra o destino.

— Ele já está partindo — Alexander murmurou no ouvido dela, o hálito quente e úmido. — Deixe-o ir. Fique aqui, no silêncio. No escuro. Comigo.

Charlotte fechou os olhos, os soluços sacudindo seu corpo. Ela sentia-se pequena, esmagada entre a pedra da caverna e a loucura do homem que a "salvara". A sensação física era de sufocamento; as paredes pareciam estar se fechando, o teto descendo para esmagar seus pulmões. Ela era a herdeira de Merlim, a mulher que enfrentara o Conselho, mas ali, sob a luz das tochas e o peso da obsessão de Alexander, ela era apenas uma mulher cujo coração estava sendo triturado por dois irmãos — um que a esquecia e outro que a amava como uma maldição.

Alexander ajoelhou-se diante dela, encostando a testa no ventre dela em um gesto de devoção distorcida. Charlotte ficou estática, as mãos pendidas ao lado do corpo, sentindo-se como uma estátua de sal. O silêncio da caverna retornou, pesado e definitivo. Ela olhou para o topo da caverna e, pela primeira vez, não procurou por magia. Procurou por um fim.

Porque o amor de Mordred era a única coisa que a mantinha viva, e no espelho d'água, ela acabara de ver aquele amor ser enterrado vivo sob o teto de uma cobertura em Mayfair.

O ar na caverna estava se tornando irrespirável, uma mistura de umidade estagnada e a doçura doentia da magia de Alexander. Charlotte observava o espelho d’água com os olhos ardendo, as unhas cravadas nas palmas das mãos.

No reflexo trêmulo, Alexander mostrava a ela um Mordred que parecia ter desistido. Ele mostrava o irmão rindo com Siobhan em um jantar à luz de velas, a mão dela sobre a dele, o brilho de uma vida nova e "correta" sufocando qualquer rastro de Charlotte. Alexander sussurrava em seu ouvido, a voz como veneno morno:

— Veja como ele respira aliviado sem o peso do seu legado, Charlotte. Ele escolheu a paz da mentira. Ele não quer te encontrar.

Mas Alexander mentia. A realidade, a quilômetros dali, era uma ferida aberta e purulenta.

Em Londres, Mordred não comia, não dormia e mal reconhecia o próprio reflexo. Ele estava no escritório de Julian, cercado por mapas topográficos e relatórios de avistamentos mágicos que não levavam a lugar nenhum. A aliança entre o herdeiro Le Fay e o marido Vancroft era algo saído de um pesadelo dois homens que se odiavam, unidos por um desespero que transcendia a lógica humana.

— Se você usar essa sua telepatia de sangue mais uma vez e não me der uma coordenada, eu juro que acabo com o que sobrou da sua linhagem — Julian rosnou, a voz falhando, as olheiras profundas denunciando que o "marido perfeito" estava desmoronando sob o peso da ausência de Charlotte.

— Você acha que eu não estou tentando? — Mordred rugiu, arremessando um copo de cristal contra a parede. O estilhaço cortou seu próprio rosto, mas ele não sentiu. — Há um bloqueio. Algo antigo. Algo que cheira a... família.

Mordred fechou os olhos, ignorando a interferência das memórias falsas que Alexander tentava injetar. Ele buscou o fio de ouro, a conexão que ele e Charlotte forjaram no banco de um carro sob a chuva de Londres e nas águas de Capri.

Na caverna, a fraqueza de Charlotte atingiu o ápice. Ela sentia a bebê se revirar, uma agitação que espelhava sua própria agonia. Alexander se aproximou com uma sopa, o rosto iluminado por uma satisfação divina.

— Coma, meu amor. Em breve, você nem se lembrará de como era o sol de Londres.

Foi o erro dele. A palavra "amor" vinda daquela boca distorcida agiu como um rastilho de pólvora na alma de Charlotte. A dor física — o peso do corpo, a exaustão da magia drenada — foi subitamente substituída por uma revolta primitiva. A herdeira de Merlim não seria uma peça no museu de arrependimentos de um homem quebrado.

— Eu não sou a sua redenção — Charlotte sussurrou, a voz vibrando com um poder que fez as tochas da caverna se apagarem de uma vez.

Alexander recuou, o sorriso desaparecendo. — Charlotte, você está fraca, não pode...

— EU SOU A TEMPESTADE! — ela gritou, e o som não veio de seus pulmões, mas da própria terra.

A explosão foi cega. Charlotte não usou técnica; ela usou a dor. A barreira druídica de Alexander, que parecia indestrutível, estilhaçou-se como vidro sob pressão. O impacto lançou Alexander contra as estalactites, e o grito de Charlotte rasgou o véu entre as dimensões.

— MORDRED!

O grito ecoou pelo plano astral, atravessando montanhas e cidades até atingir o peito de Mordred em Londres como um soco físico.

Mordred paralisou no meio do escritório. Ele sentiu o gosto do oxigênio dela, sentiu o terror e a fúria. A névoa em sua mente evaporou.

— Ela está viva — ele sussurrou, os olhos brilhando com um verde sobrenatural. — Ela está no Norte.

Sem uma palavra a Julian, Mordred correu para o elevador. Ele não esperou pelo motorista. Saltou para dentro de seu carro, os pneus cantando no asfalto de Mayfair. Ele não dirigia; ele caçava. O ponteiro do velocímetro subia perigosamente enquanto ele deixava os limites de Londres para trás, os nós dos dedos brancos no volante.

Charlotte, enquanto isso, cambaleava para fora da caverna, os pés sangrando na neve fresca das Highlands. Ela não tinha casaco, não tinha varinha, apenas a mão protegendo a barriga e o nome dele nos lábios, um mantra de sobrevivência sob o céu cinzento de Inverness.

A caçada final havia começado. E desta vez, nem a magia de Alexander, nem as mentiras de Siobhan seriam capazes de parar a força de gravidade que puxava Mordred de volta para sua única e verdadeira casa, para ela.

A neve de Inverness não era um tapete macio; era um sudário de vidro moído que dilacerava a sola dos pés de Charlotte a cada passo trôpego. O frio não era apenas uma ausência de calor, era uma presença agressiva, um predador que mordia sua pele exposta e se infiltrava nos poros, transformando o sangue em cristais de gelo.

Seus pés, em carne viva, deixavam um rastro de um vermelho vívido, quase obsceno, sobre a brancura imaculada da floresta. O cheiro de pinheiro úmido e terra congelada misturava-se ao odor metálico do próprio sangue. Ela estava desorientada. As árvores pareciam se fechar ao seu redor como as grades de uma prisão orgânica, os galhos secos estendendo-se como dedos esqueléticos tentando segurá-la.

— Mordred… — O nome escapou de seus lábios rachados como um sopro de agonia, transformando-se instantaneamente em uma nuvem de vapor que o vento cortante dissipava sem piedade.

De repente, o mundo não apenas inclinou; ele se partiu.

Uma contração lancinante, bruta e primitiva, atingiu o baixo ventre de Charlotte com a força de uma maré de granito. Não era uma dor que se podia ignorar ou respirar; era uma força sísmica que exigia submissão total. Ela desabou. Os joelhos bateram na neve dura, e o grito que escapou de sua garganta foi um som animal, algo que Merlim e Morgana reconheceriam — o som da linhagem lutando para não ser interrompida.

O esforço sobre-humano da fuga e a drenagem mágica de Alexander haviam agido como um gatilho cruel. O corpo de Charlotte, exausto e levado ao limite absoluto, decidiu que não podia mais esperar.

— Agora não… por favor, agora não… — ela soluçou, a voz quebrada pelo terror.

Ela sentiu o líquido quente — uma mistura de vida e urgência — escorrer por entre suas pernas, derretendo o gelo sob ela em um círculo escuro e fumegante. O trabalho de parto prematuro não chegou com calma; chegou como uma tempestade de raios. A cada trinta segundos, uma nova onda de dor a atravessava, fazendo-a arquear as costas contra o tronco rugoso de um carvalho centenário. Ela sentia o estiramento violento dos tecidos, a pressão insuportável nos ossos da bacia que pareciam prestes a estilhaçar sob o peso do destino.

Em Londres, o velocímetro do carro de Mordred marcava números suicidas, mas ele não via a estrada. Ele via flashes de neve e sentia o gosto de ferro na boca. Uma agonia física, um espelho da dor de Charlotte, cravou-se em seu próprio ventre, fazendo-o perder o fôlego. Ele golpeou o volante, os olhos brilhando em um dourado febril que ameaçava quebrar os vidros do veículo.

— EU ESTOU CHEGANDO! — ele rugiu, o som abafado pelo ronco do motor, enquanto seu coração batia em sincronia com as contrações dela, a quilômetros de distância.

Na floresta, Charlotte estava deitada de lado, os dedos enterrados na terra congelada que ela escavara sob a neve. A dor era tão vasta que o frio dos pés sangrando tornou-se apenas um ruído de fundo. Ela estava sozinha no coração sombrio da Escócia, sentindo a cabeça da filha pressionar contra os limites de sua resistência.

Suas pupilas estavam dilatadas, o ouro de sua linhagem pulsando fracamente em suas veias, como uma estrela moribunda. A cada contração, ela via o rosto de Mordred, sentia o cheiro dele no banco de couro daquele carro em Londres, e usava essa memória como a única âncora que a impedia de ser arrastada pela morte.

Uma nova onda, a mais violenta de todas, a obrigou a gritar. O som rasgou o véu da madrugada, um chamado visceral que ecoou pelas montanhas, avisando à terra dos druidas que o herdeiro proibido estava vindo ao mundo, no meio do gelo, do sangue e de um amor que se recusava a morrer.