Herança de Ódio : O Som do Silêncio
7 Capítulo 7: O Sangue Acima do Coração
O anúncio do "noivado" de Dante e Aria agiu como um rastilho de pólvora. Enquanto o mundo fervilhava com a notícia, dentro da mansão Vancamp, o silêncio era tenso. Aria mal conseguia olhar para o anel de diamantes que Dante colocara em seu dedo para as câmeras — um símbolo de proteção que parecia uma algema de gelo.
A bolha de proteção, porém, estourou na tarde seguinte.
A porta da biblioteca se abriu bruscamente, mas não era Dante. Era Isabella Moretti, a mãe de Aria. Ela estava pálida, apoiada em uma bengala, com o rosto marcado pelo tratamento severo, mas seus olhos brilhavam com uma fúria que Aria não via há anos. Atrás dela, os seguranças de Dante pareciam hesitantes em pará-la.
— Mãe! Você deveria estar no hospital! — Aria correu em sua direção, tentando ampará-la.
Isabella afastou as mãos da filha com um gesto brusco. Ela jogou o jornal da manhã sobre a mesa de mogno.
— Eu prefiro morrer sufocada nos meus próprios pulmões do que viver um segundo a mais sendo sustentada pelo sangue do homem que matou o seu pai, Aria!
— Mãe, não é assim... o Dante me ajudou, ele está pagando os médicos... — Aria tentou explicar, a voz falhando.
— Ele não está ajudando, ele está comprando o seu silêncio! Ele está comprando a honra dos Moretti com moedas de ouro manchadas! — Isabella apontou para o anel no dedo de Aria. — Você vai se casar com o filho do assassino? Você vai carregar o sobrenome que nos destruiu?
O Confronto de Lealdades
Dante entrou na sala naquele momento. Ele parou, observando a cena com uma expressão ilegível, mas seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo.
— Sra. Moretti, por favor. A senhora está colocando sua saúde em risco. — A voz de Dante era calma, mas Isabella não recuou.
— Não fale comigo, seu monstro! — Isabella gritou, virando-se para a filha com lágrimas de desespero. — Aria, olhe para mim. Eu te dei a vida, e seu pai deu a dele para que você nunca tivesse que se curvar a pessoas como eles. Agora, eu te dou uma escolha. Só uma.
Aria sentiu o oxigênio escapar de seus pulmões. O quarto pareceu girar.
— Se você ficar nesta casa, se você levar esse casamento adiante, você não tem mais mãe. Eu voltarei para aquele apartamento caindo aos pedaços e morrerei sozinha, mas morrerei com o meu nome limpo. — Isabella estendeu a mão trêmula em direção à porta. — Ou você tira esse anel agora e vem comigo. Escolha, Aria. Ou eles, ou eu.
A Escolha Impossível
Aria olhou para Dante. Nos olhos dourados dele, ela viu algo que nunca esperou encontrar: um pedido silencioso de socorro. Ele estava implorando para que ela ficasse, para que não o deixasse sozinho naquele mausoléu de segredos. O beijo na estufa, a proteção na coletiva de imprensa, a conexão que nascera entre as notas do violoncelo... tudo gritava para ela ficar.
Mas então ela olhou para a mãe. Viu a fragilidade de uma mulher que perdera tudo, exceto a dignidade. Viu a sombra do pai que amara e que se sacrificara.
O silêncio na biblioteca era ensurdecedor.
Lentamente, com os dedos tremendo, Aria levou a mão direita à esquerda. Ela sentiu o frio do metal do anel. Com um movimento seco, ela o deslizou pelo dedo e o colocou sobre a mesa, ao lado do jornal que a insultava.
— Aria... — Dante deu um passo à frente, sua voz saindo como um sussurro quebrado. — Não faça isso.
Aria olhou para ele, e seu coração se partiu em mil pedaços ali mesmo.
— Eu não posso deixar minha mãe morrer odiando a própria filha, Dante. O ódio entre nossas famílias é maior do que o que nós sentimos. Eu sinto muito.
Ela caminhou até a mãe e segurou seu braço magro.
— Vamos, mãe. Vamos embora.
A Partida
Dante não tentou impedi-las fisicamente. Ele ficou parado, uma estátua de dor no centro da sala, enquanto Aria atravessava o corredor que a levara àquela "gaiola de ouro". Ela não pegou suas roupas novas, nem as joias. Pegou apenas o seu violoncelo.
Ao chegar ao portão da mansão, sob os flashes dos paparazzi que ainda cercavam o local, Aria não olhou para trás. Ela ajudou a mãe a entrar em um táxi comum, deixando para trás o luxo, o poder e o único homem que conseguira fazer sua alma vibrar como as cordas de seu instrumento.
Dentro do táxi, Isabella chorava baixinho, segurando a mão da filha. Aria olhava pela janela, vendo a mansão Vancamp desaparecer na neblina de Chicago. Ela fizera sua escolha. Ela salvara a honra da mãe, mas sentia que tinha deixado sua própria vida enterrada naquele jardim de flores brancas.
A melodia de sua vida agora era um silêncio absoluto.
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