Herança de Ódio : O Som do Silêncio
2 Capítulo 2: A Gaiola de Ouro
A limusine preta deslizava silenciosamente pelas ruas arborizadas que levavam a Gold Coast, o reduto da aristocracia de Chicago. Aria observava a paisagem mudar: os prédios de tijolos aparentes e as lojas de penhores deram lugar a mansões de pedra calcária com jardins impecáveis.
O violoncelo ocupava o banco ao lado dela, como um guardião silencioso. Suas mãos ainda tremiam. Ela não estava apenas mudando de endereço; estava entrando no território do inimigo que jurara destruir.
— Chegamos, Srta. Moretti — anunciou o motorista de luvas brancas, abrindo a porta.
Aria saiu e olhou para cima. A mansão Vancamp era uma monstruosidade gótica que parecia se alimentar da luz do sol. Paredes altas, janelas em arco e uma sensação opressiva de antiguidade. Ela sentiu como se a casa estivesse olhando para ela, sabendo quem ela era e o que planejava.
Dante estava na porta principal, como se estivesse esperando por ela. Ele não usava o terno formal do baile, mas uma camisa de seda preta com as mangas dobradas, revelando a base das tatuagens que subiam pelo pescoço, exatamente como na capa do livro.
— Seja bem-vinda à sua nova prisão, Aria — disse ele, a voz baixa e rouca.
— Prefiro pensar nela como o meu laboratório — ela rebateu, passando por ele sem olhá-lo, o cheiro de uísque caro e sândalo que emanava dele a atingindo como uma onda. — Onde eu guardo o meu instrumento?
— No meu escritório privado. É o único lugar onde o isolamento acústico é perfeito. — Dante gesticulou para que ela o seguisse. — Seus aposentos são no segundo andar, ala leste. Longe dos meus.
Aria riu, uma risada seca e sem alegria.
— Você acha que eu tenho medo de você, Dante? Eu passei dez anos sobrevivendo a coisas piores do que você.
Ele parou e se virou, prendendo-a contra a parede do corredor. A proximidade era perigosa. O olhar dourado dele parecia ler cada segredo dela.
— Você deveria ter medo, Aria. Porque, por baixo de toda essa raiva e desse talento, eu vejo uma garotinha que ainda está chorando pelo pai. E eu não tenho paciência para lágrimas. Eu quero música. E se você não entregar, eu garanto que você e sua mãe estarão na rua até o amanhecer.
Ela sustentou o olhar dele, embora seu coração batesse loucamente na garganta.
— E você, Dante? Por baixo de todo esse poder e desse controle, eu vejo um homem que está desesperado para silenciar os próprios demônios. Eu vou te entregar música. Mas aviso: ela pode não ser o tipo de melodia que você quer ouvir.
O Jantar da Discórdia
Aria foi levada para seus aposentos. Era maior do que o apartamento inteiro que ela dividia com a mãe. Uma cama com dossel, lençóis de seda e uma janela que dava para o Lago Michigan. Mas a opulência a enojava. Tudo ali fora comprado com o sangue do pai dela.
Às oito da noite, um empregado bateu à porta.
— O jantar está servido, Srta. Moretti. O Sr. Vancamp espera a sua presença na sala de jantar principal.
Aria sabia que não podia recusar. Ela precisava manter as aparências. Ela colocou um vestido simples de linho preto — não tinha mais as joias de antes — e desceu as escadas monumentais.
A sala de jantar era imensa, com uma mesa de carvalho que poderia acomodar vinte pessoas. Mas havia apenas dois lugares postos, um em cada extremidade. Dante estava sentado, girando uma taça de vinho tinto.
O jantar foi servido em silêncio. Um risoto de trufas brancas que parecia ter gosto de poeira na boca de Aria. Ela olhava para o lustre de cristal e lembrava do pai contando como os Vancamp eram ambiciosos, como eram capazes de tudo para crescer.
— Você não come nada — observou Dante, partindo um pedaço de pão com precisão.
— O ambiente me tira o apetite — ela respondeu, pousando os talheres de prata. — Me conte, Dante. Como é viver em uma casa construída sobre mentiras e roubos? Como você consegue dormir à noite sabendo o que sua família fez com a minha?
Dante parou o movimento. O olhar dele escureceu, e a tensão na sala tornou-se física.
— O que você sabe sobre como eu durmo, Aria? — ele perguntou, sua voz caindo um oitavo. — O que você sabe sobre as noites que eu passei ouvindo meu pai se gabar de ter esmagado os Moretti? Ou as noites que eu passei me perguntando se eu era o monstro que todos diziam que eu era?
— Você é um Vancamp. O monstro já está no seu DNA.
Dante levantou-se lentamente e caminhou até a cabeceira da mesa onde ela estava. Ele se inclinou, as mãos tatuadas apoiadas na mesa, cercando-a novamente.
— Eu não sou meu pai, Aria. E se você me der uma chance, eu posso te mostrar isso. Eu tirei você da rua. Eu estou pagando os médicos da sua mãe. Eu estou te dando um palco que você nunca teria sem mim. O que você quer, afinal? Vingança? Ou redenção?
Aria olhou para ele, e por um milésimo de segundo, o ódio oscilou. Ela viu a cicatriz quase invisível na mandíbula dele e lembrou de um boato sobre ele ter tentado proteger a mãe de um ataque do pai quando era adolescente. Ela sentiu a mesma tentação perigosa que tivera no escritório.
— Eu quero a verdade, Dante. E se você não é seu pai, me dê acesso aos arquivos dele. Me prove que você não tem nada a esconder.
Dante soltou uma risada amarga.
— Os arquivos do meu pai estão mortos e enterrados, Aria. Exatamente como ele. E exatamente como o seu. — Ele acariciou o rosto dela com os dedos ásperos, um toque que foi carinhoso na forma, mas violento na intenção. — Você está aqui para tocar. Não para investigar. Comece amanhã. O mundo está esperando o retorno da ruiva dos Moretti. E eu também.
Ele se afastou, deixando-a paralisada. A tensão entre eles não era apenas ódio; era uma paixão devastadora que ameaçava explodir a qualquer momento. Aria sabia que tinha entrado na gaiola de ouro do leão, e o primeiro rugido a havia deixado sem respiração.
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