Herança de Ódio : O Som do Silêncio
1 Capítulo 1: O Acorde da Discórdia
O vento cortante de Chicago fustigava o rosto de Aria enquanto ela carregava o enorme estojo do violoncelo pelas escadarias de serviço do Grand Hotel. Suas mãos, as mãos que um dia foram seguradas por mestres em Viena, estavam cobertas por luvas baratas com as pontas cortadas.
Ela odiava aquele lugar. O luxo, o cheiro de perfume caro e o tilintar de joias eram lembretes constantes do que lhe fora roubado.
— Você está atrasada, Moretti — sibilou o organizador do evento, um homem que a conhecia desde os tempos de glória e agora sentia prazer em humilhá-la. — Vá para o mezanino. Toque algo triste, as pessoas ricas adoram se sentir caridosas enquanto ouvem música melancólica.
Aria não respondeu. Ela apenas caminhou até o ponto sombreado no alto do salão principal. Lá embaixo, o baile beneficente dos Vancamp brilhava como um ninho de serpentes de ouro.
Ela posicionou o instrumento entre os joelhos. O arco tocou as cordas e a primeira nota de Cello Suite No. 1 de Bach ecoou, mas não como deveria. Aria imprimiu nela toda a sua dor, transformando a música em um lamento sombrio.
Lá embaixo, Dante Vancamp parou no meio de uma conversa sobre ações e fusões. Ele sentiu um arrepio na nuca que não sentia há anos. Aquela música não era apenas técnica; era um ataque. Ele levantou os olhos cinzentos para o mezanino e a viu.
A ruiva de olhar feroz. A filha do homem que seu pai destruiu.
— Quem é a musicista? — Dante perguntou, sua voz saindo como um trovão baixo, interrompendo o interlocutor.
— Uma qualquer, Sr. Vancamp. Uma Moretti, eu creio. Sobrevivendo de migalhas.
Dante não desviou o olhar. Ele observou Aria terminar o movimento. Ela estava pálida, magra, mas sua postura era a de uma rainha em um campo de extermínio. Ele viu quando ela guardou o instrumento, os movimentos rápidos de quem queria fugir.
— Traga-a ao meu escritório privado. Agora — ordenou Dante, deixando seu copo de uísque intocado sobre a mesa de mármore.
O Confronto
Cinco minutos depois, Aria foi empurrada para dentro de uma sala forrada de livros e couro. Dante estava de pé, de costas para a porta, observando a neve cair lá fora.
— Você toca como se quisesse matar alguém, Aria Moretti — disse ele, sem se virar.
Aria sentiu o estômago revirar ao ouvir o nome dela sair daqueles lábios.
— E você fala como se fosse o dono do mundo, Dante Vancamp. O que você quer? Meu tempo é caro, e eu tenho contas que sua família me obrigou a ter.
Dante virou-se lentamente. Ele era mais alto do que ela lembrava, e a aura de poder que ele emanava era quase sufocante. Ele caminhou até ela, parando tão perto que Aria pôde sentir o calor de seu corpo.
— Eu ouvi que sua mãe não está bem. Os pulmões dela estão falhando, não estão? — Ele viu o lampejo de medo nos olhos dela e sentiu uma pontada de algo que ele se recusou a chamar de piedade. — Eu tenho uma proposta.
— Eu não me deito com monstros por dinheiro — ela cuspiu as palavras.
Dante sorriu, um sorriso frio que não chegou aos olhos.
— Eu não quero o seu corpo, Aria. Quero o seu talento. Minha fundação precisa de um rosto para a nova temporada da Ópera. Eu quero que você se mude para a mansão Vancamp por seis meses. Você será a minha solista exclusiva. Em troca, eu quitarei todas as suas dívidas médicas e trarei os melhores especialistas da Europa para tratar sua mãe.
Aria sentiu o chão oscilar. Era o pacto com o diabo em pessoa.
— Por que faria isso? Você odeia meu sobrenome tanto quanto eu odeio o seu.
— Exatamente — Dante inclinou-se, o rosto a centímetros do dela, a mesma tensão que Ethan e Claire sentiram um dia, mas temperada com um ódio ancestral. — Eu quero você onde eu possa te ver. Quero que o mundo veja que um Vancamp salvou uma Moretti. Quero a sua gratidão pública, Aria.
Aria olhou para as mãos de Dante — mãos limpas, que nunca tiveram que carregar um estojo pesado no frio. Ela sentiu o peso da adaga imaginária que carregava no peito. Se ela entrasse naquela casa, ela teria acesso aos arquivos do pai dele. Ela poderia destruí-lo de dentro para fora.
— Eu aceito — ela disse, a voz firme como uma corda de aço. — Mas não pense que o seu dinheiro vai comprar o meu silêncio.
Dante pegou a mão dela e, em um gesto de cortesia que pareceu um desafio, beijou os nós de seus dedos. O toque foi elétrico, um choque que fez ambos recuarem.
— O silêncio é a única coisa que eu não espero de você, Aria. Eu quero ouvir você tocar. Até que a música nos destrua ou nos liberte.
Ela saiu da sala com o coração batendo na garganta. Dante ficou para trás, olhando para a própria mão, sentindo o rastro do ódio dela em sua pele. Ele sabia que estava colocando uma loba dentro de seu curral, mas o som daquele violoncelo fora a primeira coisa que o fizera sentir-se vivo em uma década.
A guerra estava declarada. E a música estava apenas começando.
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