Her Wealth & His Misery

3 Tudo Sempre Pode Piorar


Notas iniciais
Confesso que foi difícil. Eu nunca me imaginei em uma situação como essa, mas descrever cenas que exigiam inteligência e fossem realistas foi outro desafio para mim. Espero que gostem esse capítulo, ele me deu um grande trabalho. Boa leitura!

Pisquei várias vezes abrindo e fechando as mãos para me manter consciente do meu próprio corpo. Sentia como se tivesse tomado um tipo de anestesia geral que descomunicava meu cérebro dos meus membros. Eu precisava de alguma coisa para me acordar. Recostei na parede, meu peito subia e descia rápido. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Não era possível que o meu caminho iria sempre cruzar com homens ruins. Em menos de 24 horas eu já estava dentro de outra situação de vida ou morte, a qual eu temia que fosse pior. O terror de poder ter sido estrupada na noite anterior ainda era uma sombra onipotente que vagava na minha cabeça, mas aquela situação ali era diferente porque qualquer movimento que eu fizesse errado poderia custar a vida de outras pessoas.

Outras muitas pessoas.

Respirei fundo várias vezes tentando pensar na melhor solução para aquilo tudo. Era óbvio que no momento a única pessoa que provavelmente poderia ajudá-los a sair daquela situação era eu, simplesmente porque os homens mascarados não sabiam da minha existência.

Precisava manter o foco.

Devagar e silenciosamente, escorreguei pela parede do corredor de volta para o escritório de Gary, talvez encontrasse por lá alguma coisa que me ajudasse.

E estava certa.

Tive vontade de dar um grande abraço em Gary.

Um enorme copo de café estava em sua mesa. Peguei e sorvi o líquido completamente. A cafeína sempre acordava o meu melhor lado. O esperto.

Andando de um lado para o outro tentei pensar em todas as minhas possibilidades, em tudo que precisaria fazer para manter a calma e conduzir a situação da melhor forma. Acionar a polícia era a primeira coisa que precisaria fazer, mas e depois que chegassem? Eles tinham todas as pessoas no banco como reféns, a polícia tentaria barganhar, mas eu precisava ganhar tempo enquanto eles faziam o trabalho deles. Provavelmente, eu estava lidando com profissionais que tinham planejado esse assalto há muito tempo, caso contrário, eles jamais teriam conseguido enfrentar o sistema de segurança.

Eu precisava ser mais esperta.

Disquei o número 911 pelo telefone que estava na mesa de Gary para adiantar todo o processo, porém demorei alguns segundos para perceber que estava mudo. Tentei de novo e nada.

Malditos!

Eles realmente estavam preparados, deviam ter cortado a linha. Só para garantir, fui na sala ao lado que era do setor de gestão. Uma ponta de esperança cresceu em meu peito ao imaginar que poderia haver mais alguém ali, alguém que tenha se escondido. Felizmente, a porta estava encostada. Não conseguiria entrar sem um cartão-crachá se estivesse fechada. Não havia ninguém lá, o que era muito estranho. Como era possível eles terem tomado todo o prédio se eram pouco mais de meia dúzia? Isso me fez pensar que deviam ter mais do grupo deles em outros andares. E como eles entraram na sala do pessoal do setor de gestão e não entraram na sala de Gary? Tudo estava tão estranho e sem sentido algum que senti minha cabeça dar um nó.

Porém, precisava me manter focada, saber as respostas para isso agora não iriam me ajudar nem ajudar ninguém a sair dali. Eu precisava fazer tudo que podia. Tentei usar o telefone que encontrei naquela sala, mas estava mudo também. Não procurei mais em nenhum setor porque seria perda de tempo. Voltei para o escritório de Gary, e tentei de todas as formas encontrar um fio de esperança.

Ao lado do computador, vi algo que fez meus olhos brilharem, agradeci a Gary mentalmente por ter se esquecido do seu cartão-crachá. Todos os funcionários do banco tinham um, mas o de uma estagiária como meu só conseguia, no máximo, abrir a porta do setor de RH da outra agência. Contudo, com o de Gary eu poderia entrar em alguns setores a mais. Coloquei o cartão dele por trás do meu dentro da capa de plástico do crachá. O sensor do cartão dele passaria pelas portas destravando enquanto a minha foto e assinatura estariam no meu cartão na frente. Os ladrões, ou o que fossem, nunca desconfiariam. Cobri o título ESTAGIÁRIA no meu crachá com uma fita dupla-face branca, se eles vissem meu cargo, minha atuação nunca daria certo.

Conforme eu revirava as coisas de Gary na gaveta em busca do seu próprio celular, um plano foi se formando em minha mente. Eu realmente esperava que aquilo fosse funcionar porque eu não tinha mais nenhuma outra ideia. Abri todas as gavetas da escrivaninha dele, mas foi apenas na última que vi o aparelho. Meu coração saltou de felicidade. Ainda havia uma ponta de esperança. Saí da sala e fui em direção ao grande salão. Escorada na parede chequei a tela do aparelho em minhas mãos.

É agora ou nunca.

Disquei o número da polícia e esperei. Não demorou um segundo e eu já estava na linha com uma mulher. Com a voz o mais baixo possível, dei todas as informações de onde estava e qual era a situação.

— Há muitos reféns aqui — eu sussurrei. — Por favor, eu sei que vocês são experientes e tudo o mais, mas esse grupo está preparado. É provável que o prédio todo tenha sido tomado, portanto, uma entrada pelo último andar não é possível. Eu estou vendo apenas parte do grupo aqui nesse andar, mas é capaz que hajam outros reféns nos outros andares.

Informei ainda como estavam vestidos e alguns detalhes peculiares das armas que usavam. Não sabia muito bem para quê eles queria saber isso, mas tentei o meu melhor para descrever. Estava me concentrando em algumas coisas que precisava informar a mais quando ouvi bem próximo de mim, um dos homens sussurrar:

— Hey, F... Ouviu isso?

Gelei na mesma hora. A mulher do outro lado da linha me chamava, mas não pude responder imediatamente. Apertei firmemente meus dedos ao redor do aparelho em minhas mãos tentando manter a calma.

Não perca a razão, Keith.

Coloquei o celular mais uma vez na orelha e sussurrei:

— Eles me acharam, preciso de mais uma informação. Você tem algum número para o qual eu possa ligar e fazer uma transmissão por vídeo chamada? É muito importante.

A mulher me passou o número e tive que fazer um esforço enorme para lembrá-lo, não tinha como anotar em lugar algum, mas eu precisava lembrar. Depois de repetir o número várias vezes, pondo o celular dentro do sutiã, fiz o impensável. O que seria o mais insano a se fazer, mas necessário. Era a única forma de ganhar tempo. Com as mãos para o alto, dei um passo de cada vez até entrar no campo de visão dos dois homens que estavam a um metro de distância de mim. Contei novamente o número de assaltantes para confirmar, mas estava correta desde a primeira vez que os vira.

Eram 8.

Todos armados.

Os dois que estavam próximos de mim demoraram um segundo para perceber que eu não estava onde devia estar e apontaram as duas armas para mim. Senti uma gota de suor escorrer pela minha coluna, eu precisava manter a compostura se quisesse ir adiante.

— Pro chão, agora! — Gritou o que havia me escutado ao telefone.

O outro que devia ser o tal de F praticamente me comeu com os olhos, o sentimento de nojo conseguiu ser maior que o medo que tentava me consumir. Não via nada além de seus olhos, mas estes eram o suficiente para me dizer toda sorte de pensamentos que lhe passavam na cabeça.

— Hey, L, olha só o que nós achamos aqui. Se não é uma donzela em perigo?

— Eu disse pro chão! Agora! — Repetiu o primeiro.

Obedeci e lentamente me pus na posição ordenada, porém sem nunca desviar os olhos ou piscá-los. Não podia demonstrar medo ou a minha atuação não funcionaria.

— Eu posso dar o que vocês querem — fiz o maior esforço que consegui para manter a voz firme.

— Ah, se pode... — Disse o tal de F asqueroso.

Ignorando-o completamente fitei apenas o que tinha a arma apontada para mim.

— Ah, é mesmo. Que conveniente você ter o que queremos, mas não acha que seria uma pequena falha nossa se nós tivéssemos vindo aqui sem um plano?

Antes que eu pudesse responder, outro homem apareceu.

Ele era muito mais alto, tinha os ombros largos e músculos se sobressaindo pelo tecido preto. Imediatamente soube que ele era o líder de tudo aquilo porque os outros dois homens abriram espaço para ele. A máscara preta me impedia de ver o seu rosto, apenas conseguia ver que seus olhos eram verdes água e que me fitavam intensamente. Por um segundo, eu esqueci onde e em que situação me encontrava.

— Eu não disse para reunir todos no salão? — Repreendeu o líder, sua voz era grave e todo o seu ser emanava autoridade e poder.

Parecia que eles usavam letras como codinomes entre si.

— Essa aqui não, L — respondeu o pervertido. — Eu teria me lembrado dela se a tivesse visto. Não teria como esquecer.

Engolindo todo o enjôo que senti, voltei a atenção para o que tinha a arma à minha frente, o E.

— Ela diz que pode nos dar o que queremos — zombou.

Desviei os olhos para L, ele continuava me fitando de uma forma que me incomodou. Não era sujo como F, era apenas... diferente. Não sabia dizer.

— Explique — ordenou o chefe.

Lentamente, para não correr o risco de levar um tiro, abaixei a mão e segurei o meu cartão-crachá para mostrá-lo. Estrategicamente eu havia coberto meu nome com os dedos para que isso não estragasse meu próximo passo no plano.

— O meu cartão vai te dar passe para algumas áreas restritas. Se chegarmos até a sala dos guardas no subterrâneo, lá podemos conseguir o cartão-mestre até o cofre.

O pervertido gargalhou alto enquanto sua arma sacudia com o movimento do corpo. Se ele a disparasse acidentalmente seria um grande problema. Como que lendo os meus pensamentos, L ainda me fitando disse:

— Silêncio — ordenou. Ele cruzou os braços e se inclinando até que nossos rostos estivessem a centímetros de distância, então disse: — O que a faz pensar que ainda não temos a chave-mestre?

Engoli em seco. Eu sabia que eles perguntariam isso e essa tinha sido a parte mais difícil do meu plano: pensar o que responder. Repassei a linha várias vezes durante os três segundos que demorei para responder. Precisava soar convincente ou tudo iria por água baixo.

Sorri como se eu soubesse de algo que eles não sabiam.

— Vocês podem ter a chave-mestre. Mas eu disse que tenho como mostrar onde fica o cartão-mestre.

Ele estreitou os olhos e pelo movimento do tecido da máscara na testa podia dizer que também estava franzindo o cenho.

— Fala.

Sustentei seus olhos por mais alguns segundos.

— A chave-mestre pode abrir o cofre e tudo o mais. Mas dentro do cofre há um outro cofre...

O pervertido explodiu em outra onda de gargalhada.

— L, não acredito que você está caindo na ladainha dessa vadia.

Ainda sem desviar os olhos dos meus, L disse:

— Abra a boca mais uma vez sem ser mandado e a última coisa que vai falar é adeus a esse mundo — O pervertido ficou mudo na hora. L endireitou a postura e cruzou os braços no peito. — O que seria esse outro cofre, senhorita?

Eu precisava escolher minhas palavras para soar convincente o suficiente.

— Ele contém ouro... — Pelo canto dos olhos vi F começar a se enfurecer, ele já não me olhava com desejo, mas com raiva. Não parecia nem de longe estar acreditando na minha história, e para falar a verdade nem mesmo eu estava. Pigarrei antes de continuar: — O cofre principal tem as notas e moedas do banco, mas esse segundo cofre tem barras de ouro de valor desconhecido por mim.

Eu sentia todo o meu corpo arder debaixo do escrutínio do homem à minha frente. Ele provavelmente estava tentando chegar à alguma conclusão com relação a mim. Precisava que comprasse minha desculpa desesperadamente, era a única chance de salvar todos ali e da polícia chegar sem que nenhum dinheiro fosse realmente roubado.

— E como você saberia dessa informação? Não me parece ser algo que qualquer um de nível tão baixo quanto você saberia.

Sinalizei com a cabeça para que ele se aproximasse, mas me arrependi no momento em que ele o fez. O movimento trouxe uma leve brisa que fez minhas narinas ficarem dormentes de êxtase ao inalarem aquele perfume. Todo o corpo dele exalava masculinidade e controle e aquele perfume...

Foco, Keith!

— Você sabe qual é o meu nome? — Eu sussurrei para que apenas ele pudesse ouvir.

— Seja direta — ordenou autoritário.

Involuntariamente senti meus ombros encolherem.

— Meu nome é Siara Armstrong.

Seus olhos se estreitaram imediatamente e eu entendi que ele sabia o que aquele nome significava. Ele se levantou e falou algo próximo ao ouvido do que ainda tinha a arma apontada para mim, o tal de E. O homem em questão me encarava desconfiado enquanto ouvia o que o líder falava. Sem nem um último olhar na minha direção, L dirigiu-se para o outro grupo que estava vigiando os reféns e começou a falar alguma coisa com algum deles.

— Levante! — Ordenou E. Ele puxou o meu braço para que eu levantasse e tive que engolir a onda de dor que me atingiu quando pressionou exatamente no mesmo lugar que o homem de rosto tatuado havia me apertado na noite anterior. Sentia que aquela parte do meu braço não iria parar de doer tão cedo.

Meu pé que até então não tinha mais o peso do meu corpo protestou em dor quando me levantei. Os cortes ainda estavam doendo. Tentei ficar o mais estável possível nessa posição. L havia falado com praticamente todos os que estavam no grupo que olhava os reféns e então voltou em nossa direção. Conforme ia se aproximando tirou uma arma do cós da calça e apontou em minha direção. Senti todo o meu corpo encolher.

Meu Deus, ele vai me matar. Ele vai me matar.

Fechei os olhos e esperei o barulho que veio logo depois. Mas não senti nada. Abri os olhos devagar e perscrutei todo o meu corpo, mas não havia sangue. Não havia dor. Voltei minha atenção para o homem que até poucos segundos ameaçara me matar e quase caí para trás quando percebi que estava bem na minha frente. Ele era muito alto, achava que era apenas pelo fato de estar ajoelhada no chão, mas agora de pé ele ainda continuava sendo ridiculamente alto. Poderia muito bem ter 1,90 m humilhando meus pobres 1,64 m.

Ele se abaixou para alcançar minha orelha.

— Se estiver mentindo, eu não vou errar a próxima — seu hálito roçou meu lóbulo mandando um tremor espinha a baixo.

Apenas assenti com a cabeça. Eu havia completamente esquecido de como se falava.

Ele se virou e começou a andar em direção ao elevador. O homem de codinome E que ainda apertava meu braço me empurrou para seguir pelo mesmo caminho. Logo, nós quatro, eu, L, E e F estávamos descendo para o subsolo. Se fôssemos diretamente para o cofre como eu imaginava, talvez não desse tempo da polícia chegar. Para completar meu plano e ganhar mais tempo teria que fazer isso na sala de controle. Repassei o número que a mulher da linha de emergência da polícia tinha me informado. Esperava não esquecer ou errar nenhum número na hora.

— Precisamos ir na sala de controle — eu disse baixinho.

Não se ouvia ruído algum além do ranger da grande caixa metálica descendo.

— E por quê a sala de controle? — Perguntou E.

Tentei manter a voz firme:

— Eles têm um sistema de segurança silencioso que...

— Já desativamos esse sistema e ele não estava na sala se controle — disse E.

Droga!

— Como eu ia dizendo — tentei retomar. — Eles têm um sistema silencioso conectado ao segundo cofre.

— Explique — mandou L.

Senti uma nova onda de confiança me tomar.

Você pode fazer isso, Keith! Você se livrou de três homens ontem, o que são mais três hoje?

— O sistema desse cofre é diferente. Todos os alarmes de segurança do prédio inclusive no cofre de notas e moedas disparam quando tentam arrombá-los ou quando um cartão-crachá errado passa onde não devia, mas esse cofre específico é diferente. Ele é feito de um material que parece muito com aço, mas é apenas camuflagem. O cofre não passa de um enorme scanner. Assim que alguém que não está autorizado toca nele, é imediatamente escaneado e toda a imagem da pessoa vai gerar uma série de alertas na central de comando da polícia.

Ouvi um leve grunhido vindo da direção de F. Ele não parecia estar nem um pouco feliz com aquilo. Não estava acreditando na minha história, mas não ousava dizer nada. Senti algo frio encostar na minha cintura, e então uma presença emanando calor cobrir as minhas costas. Uma mão enluvada segurou o meu pulso e um sussurro chegou aos meus ouvidos:

— Já sabe o que vai acontecer se estiver mentindo — a voz de L soou rouca e quase me fez perder o equilíbrio.

Finalmente havíamos chegado no subsolo e agradeci aos céus por não estar mais em um espaço que parecia tão pequeno para conter a presença de L. Já estava me sentindo sufocada.

F estava quieto, ainda com medo da ameça de L, e E estava me empurrando corredor a fora em direção do que seria a sala de controle. Eu não sabia exatamente onde ficava, mas havia suspeitado que fosse próximo ao cofre como normalmente era nos bancos. Eu havia estudado antes como funcionava a infraestrutura de um prédio bancário e a posição de cada setor era sempre estratégica. A sala de controle não era diferente.

Já deviam ter se passado pelo menos vinte minutos desde a minha ligação para a polícia, se eles já não tivessem chegado estavam para chegar, mas eu sabia que chegar não seria o suficiente. Ainda havia muitos reféns lá em cima e esse grupo de assaltantes não pareciam ser do tipo que era fácil de negociar. Eu precisava dar para a polícia algum elemento surpresa.

Quando F abriu uma sala enorme cheia de televisões com câmeras senti meu coração pular de esperança. Era isso! Mais alguns passos e tudo estaria pronto.

— Como pretende desarmar o sistema de segurança? — Perguntou E em dúvida.

Ele também não pareciam acreditar muito na minha história. Nenhum deles parecia na verdade, mas eu já esperava por isso, quando eu montei meu plano eu queria apenas soar convincente o suficiente para plantar uma dúvida na mente deles sobre as barras de ouros, e se elas realmente existissem? era só o que eu queria que eles se perguntassem.

— Você é hacker* ou algo do tipo? — Insistiu.

Sentei na mesa de computador que ficava em um canto da sala. Era agora ou nunca.

— Algo do tipo — eu respondi.

Cliquei no menu inciar do windows e digitei na barra de pesquisa: prompt de comando**. Cruzei as pernas como uma forma de controlar o tremor que vinha sobre mim. Eu estava suando frio de nervoso e estava com medo de receber uma bala na cabeça a qualquer momento. L havia se postado ao meu lado esquerdo enquanto que F ao direito. Eles pareciam curiosos com o que eu estava fazendo, mas não falaram nada. Provavelmente não sabiam para que servia o prompt, o que era outro motivo para sentir alívio.

Quando a janela preta com letras brancas surgiu na minha frente, tentei segurar um suspiro. Maximizei a janela para dar a impressão de que todo o sistema estava sendo controlado por mim e comecei a digitar códigos simples que eu ainda lembrava que havia usado para desbloquear um pacote do Office pirata. Na verdade eu só estava mesmo era perdendo tempo ali, ou melhor ganhando. Não estava fazendo nada demais, depois de pôr todos os códigos o máximo que aquele computador seria capaz de fazer era rodar livremente o Word, Power Point e Excel piratas. Digitei o último código que eu lembrava e que demorava uns trinta segundos para ser processado.

Aquela era a minha chance. Cruzei os braços no peito e sem tentar denunciar meus movimentos, com a pontas dos dedos abri um dos botões do meio da camisa e deslizei o celular de Gary do meu sutiã pelo pequeno espaço. Segurei o aparelho ainda com os braços cruzados pensando no meu próximo passo. Eu precisava ligar para o número que a mulher informara e deixar o aparelho de frente para a TV que mostrava a câmara de segurança do salão central. Provavelmente todos os andares deviam estar ocupados com pessoas dos grupos, mas eles não esperariam que a polícia fosse ser capaz de entrar pela porta da frente. E esse seria o elemento surpresa que eu precisava dar a eles.

Avistei um galão de água no canto da sala e uma xícara de café em cima da enorme mesa que ficava abaixo das televisões e tive uma ideia.

— Agora é só aguardar dois minutos para que os comandos que eu dei desligue todo o sistema do segundo cofre... — Expliquei, eu precisava considerar fazer aulas de teatro. Estava quase convencendo a mim mesma. — Posso tomar um copo d'água? — Pedi apontando para o galão.

L me olhou por alguns segundos e depois assentiu. Levantei devagar e fui em direção a mesa pegar a xícara de café. Depois foi para o galão e enchi a xícara algumas vez bebendo o sabor amargo de café velho misturado com água. Ainda de costas viradas para eles, mas sabendo que os olhos de F e E ainda estavam sobre mim, digitei rápido o número que a mulher me informara enquanto com a outra mão bebia a água. Havia apenas um ponto de sinal no telefone e esperava que aquele ponto não sumisse. Enchi a xícara de água uma última vez enquanto escorregava o celular pelo bolso da frente da calça e fui até o meu lugar com ela. Coloquei-a em cima da mesa do computador e, sem me sentar, aproximei-me da tela fingindo que estava analisando o processo e então disse:

— Está pronto. Podemos ir.

L descruzou os braços e foi em direção a saída. F seguiu logo atrás dele e E estava esperando eu passar na frente para fechar a porta.

Saco! Ele parece uma sombra.

Eu precisava deixar o celular ali, mas com ele me olhando seria impossível. Começamos a caminhar em direção à porta passando pela enorme mesa que ficava embaixo das televisões com as câmeras e eu ainda não tinha deixado o celular ali.

Quase lá, quase lá! Parecia que a minha cabeça iria explodir a qualquer momento. Agora! F havia chegado à porta e já estava com metade do corpo para fora.

— A xícara — eu disse sorrindo, ele franziu o cenho e parecia estar perdendo a paciência. — Só um último gole de água.

Corri para a mesa do computador e peguei a xícara.

— Saia agora — ordenou E.

Tentei não tremer enquanto tirava o celular do bolso e o escondia na lateral do corpo para que ele não visse, quando cheguei em frente à televisão mostrava o grande salão de entrada parei. Fiz um gesto muito dramático jogando a cabeça para trás enquanto bebia a água. Pus a xícara ali em frente e então, cobrindo a visão de E com o meu corpo, pus o celular dentro da xícara com a câmera do mesmo voltada para a tela da TV. Ainda usando o meu corpo para cobrir a visão de E sobre a xícara saí apressadamente da sala e fechei a porta atrás de mim.

— Obrigada — sorri.

Ele pareceu um pouco surpreso e não teve qualquer reação no momento.

— E! — Ouvi F gritar de um corredor próximo, ele e L já não estavam mais em nosso campo e visão. — Vocês estão se comendo aí para demorarem tanto... — Ele se cortou quando nos viu virando no mesmo corredor do qual ele tinha saído.

Porco sujo! Queria gritar na cara dele.

Passei por ele sem nem ao menos dispensar um olhar. Estava tão feliz que a essa hora a polícia já devia estar tento uma boa visão do grande salão e planejando como entrar. Alcançamos L no final daquele corredor, ele parecia impaciente.

— Por que demoraram? — Perguntou a E.

— Ela tomou outro copo d'água — explicou sinalizando com a cabeça em minha direção.

O olhar de L sobre mim parecia pesar cinquenta toneladas. Tentei dar um sorriso como desculpa, mas deve ter saído mais como uma careta, pois ele desviou os olhos na hora. Viramos mais alguns corredores e então chegamos em frente ao que parecia ser o cofre. Eu nunca havia estado ali, nunca havia visto a porta de um cofre de banco na minha vida. Era todo de aço trabalhado com várias peças que se encaixavam, era uma engenharia bela e eu poderia ficar admirando a noite toda tentando entender o quê encaixava no quê.

Um barulho que veio de andares superiores nos despertou do transe que a porta transmitia.

— O que foi isso? — Grunhiu F.

Outro barulho, pessoas pareciam estar gritando e mais barulho abafado de tiros chegaram até os nossos ouvidos.

— Eu vou falar com G — disse E pegando um Walkie-talkie do bolso.

— Não é preciso — disse L me fitando intensamente. — Tenho certeza que ela aqui sabe o porquê.

Os olhares de F e E me trouxeram a consciência de que eu estava na verdade sorrindo. Eu não sabia quando que eu havia começado, só sabia apenas que estava. Eu só podia estar maluca. Eu havia planejado um plano suicida, estava prestes a morrer e estava sorrindo.

L tirou a arma da calça e apontou para o meu peito. Daquela distância eu certamente morreria, não teria como ele errar.

— Últimas palavras — disse.

Eu esperava que um filme fosse passar na minha cabeça ou lembranças da minha infância quando meu pai ainda não bebia e a minha mãe ainda morava com a gente, ou o meu primeiro baile na escola ou até mesmo meu primeiro beijo. Pensava que tudo isso passaria pela minha cabeça nos meus últimos minutos de vida, mas não foi isso o que aconteceu.

Eu fechei os olhos e não consegui pensar em nada. E sabia o porquê daquilo. Era porque na vida eu não havia conquistado nada.

Eu não era nada.

— Boa sorte com o cofre — respondi.

Então esperei pelo barulho e ele veio. Mas dessa vez me atingiu.

*Hacker: capaz de quebrar códigos de segurança e invadir sistemas para ativá-los ou desativá-los digitalmente.

**Prompt de comando ou Command Prompt: é um interpretador de linha de comando no OS/2 e de sistemas baseados no Windows NT.

Notas finais
Eu sei que alguns de vocês podem estar pensando: "Gente, cadê o personagem principal?!!!! Capítulo 3 já e nada dele!" Acalmem-se porque ele vai dar o ar da graça no próximo capítulo (ou será que já não deu? Hihihi) Espero que estejam tão ansioso quanto eu para o próximo! Até!