Os olhos de Aiden brilharam brevemente ao me ouvir falar. Ele segurou a minha mão por mais tempo que o necessário antes de soltá-la, mas seus olhos nunca deixaram os meus. Movi desconfortável diante do seu escrutínio, sentia como se estivesse nua.

A situação em que estávamos era sem dúvida estranha: o homem que tentou me estuprar é o mesmo agiota para o qual meu pai devia só os céus sabe quanto que, de alguma forma, conhece Aiden que é CEO da empresa para a qual eu acabara de ser contratada.

Minha cabeça estava rodando, sentia o mal-estar de antes voltar com tudo.

— Por que demorou tanto, princesa? — Perguntou o de dentes amarelos interrompendo meus pensamentos. — Não sabia que o doutor aqui é um homem importante? Não devia fazê-lo esperar tanto tempo.

Tive que mover bem o pescoço para contornar a silhueta de Aiden e focar na patética figura atrás dele. O maníaco fez um bico e jogou um beijo nojento em minha direção antes de sorrir de novo. Não consegui impedir que uma careta deformasse o meu rosto.

Eu devia sair do lugar em que estava, usando Aiden como escudo, para enfrentar aquele idiota, mas as lembranças do dia no beco, do meu quase estupro, paralisaram-me no lugar. Eu não queria chegar nem mesmo mais um centímetro perto dele, muito menos por vontade própria. E o fato de que Aiden o conhecia me deixou ainda mais insegura e nervosa. Eles não pareciam ser melhores amigos ou ter qualquer relação amigável, mas ter encontrado o meu chefe sentado no sofá da minha sala — por sinal, como ele sabia meu endereço? — conversando com o cara que tentou me forçar a ter relações sexuais, não parecia ser um bom sinal.

Talvez ele não seja um bom escudo no final das contas.

Talvez ele fosse um daqueles donos de empresa que também estavam ligados com a máfia. O que quer que fosse, conhecendo a minha sorte, eu provavelmente estava muito ferrada.

Eu só queria saber o que foi que eu fiz para ter que passar por tudo aquilo... Sentia minhas forças começando a se exaurir.

Desviei os olhos dos dele e voltei-os para o meu pai. Rosa estava encolhida no canto do sofá com os olhos e o nariz vermelhos, meu pai estava sentado ao lado dela abraçando-a de lado tentando confortá-la. Subitamente senti uma fúria desconhecida borbulhar dentro de mim e cerrei os punhos ao meu lado para me conter de voar no pescoço daquele homem.

O medo passou completamente.

Eu tinha pessoas que precisavam de mim, não podia ficar perdendo tempo me acovardando atrás de Aiden.

— O que você está fazendo aqui? — Demandei entre dentes.

Aquele sorriso estúpido não saía da cara suja dele.

— Oh, eu pensei que você pudesse estar com saudades, já que o nosso último encontro foi um tanto... Selvagem — acrescentou a última palavra com malícia, como se nós fôssemos alguma espécie de amantes.

O pensamento por si só já era o suficiente para me fazer vomitar. O que me impediu de passar mal ali mesmo foi ver Aiden virando bruscamente para fuzilar os dentes amarelados com os olhos. Ele parecia insanamente enfurecido e eu não tinha ideia do porquê. Para falar a verdade eu ainda não tinha ideia nem mesmo do quê que ele estava fazendo na minha casa.

Vê-lo assistir meu drama com agiotas não era o tipo de primeira impressão que eu queria passar para ele, mas então lembrei a mim mesma que ele também podia estar envolvido em toda aquela sujeira...

O bilhete que ele havia pessoalmente escrito para mim ainda estava no meu bolso. Naquelo momento aquele pequeno pedaço de papel parecia pesar mais do que uma tonelada.

— Não gosto de esperar, Daniel, e eu ainda não recebi uma resposta sua — a voz de Aiden era tão grave e autoritária que senti calafrios correrem por toda a minha espinha.

E não era o tipo bom de calafrios.

Ele tinha os punhos cerrados ao lado do corpo e parecia possesso. Dele emanava uma áurea dominante que combinava muito bem com a de alguém envolvido do outro lado da lei, o lado ruim. Naquele momento, toda a boa impressão que tive dele, inclusive a pequena felicidade que havia sentido quando recebera o bilhete mais cedo esvaíram. Ele até podia ajudar a me livrar do meu quase-estuprador, mas eu poderia estar me livrando de um problema para me meter em um maior.

O dentes amarelos desviou os olhos dos meus a contra gosto e quando focou em Aiden o sorriso malicioso se tornou em uma careta de escárnio. Então o nome dele era Daniel. Uma pena que um nome tão bonito tivesse sido dado a uma pessoa tão horrenda.

— E eu tinha dito que não faço tratos baseados em promessas. Você me disse que livraria o rabo desses dois ratos — respondeu Daniel apontando a cabeça para mim e para o meu pai —, mas até agora não vi a cor do verdinho.

Pisquei algumas vezes tentando absorver toda aquela situação. Aiden caminhou em direção ao maníaco e parou a alguns passos na frente dele. Não consegui entender o que ele estava tentando fazer, pois estava de costas para mim e para todos na sala, mas depois de mexer por alguns segundos no terno, logo entrou em meu campo de visão um aparelho celular em sua mão. A tela estava virada para Daniel e pouco depois ressoou em todo o cômodo o toque de uma ligação. E foi apenas isso, depois de um toque só a ligação foi atendida.

— Entre — disse Aiden e então guardou o celular no terno.

Eu estava completamente perdida, não tinha ideia do que estava acontecendo e a cada segundo entendia menos ainda. Em apenas três minutos ouvi uma batida rítmica, porém rápida na porta da frente e então alguém entrou sem esperar resposta. Meu queixo quase caiu quando reconheci um dos homens que estavam guardando o meu quarto do hospital entrar na sala de estar. Ele não olhou em minha direção, apenas seguiu direto para Aiden e só então reparei que tinha uma maleta em mãos. Ele parou em uma posição que ficava de perfil para mim por isso meu queixo definitivamente caiu quando ele abriu a maleta e eu vi o que tinha dentro.

Dinheiro.

Muito dinheiro.

Muito, muito, muito dinheiro.

E alguma coisa me dizia que aquelas não eram notas de um dólar.

— Então — Aiden requeriu soando um tanto impaciente.

Ele não completou a frase e era incrível como apenas uma palavra que nem sequer fazia sentido sozinha pudesse na verdade significar uma frase inteira quando pronunciada por ele.

Tive que beliscar meu braço rapidamente para me fazer acreditar que aquilo não era uma alucinação.

Em todo o tempo, desde que a maleta havia sido aberta até a hora que Aiden falou, Daniel parecia hipnotizado por todo aquele dinheiro, parecia que ele estava em um transe e não estava nem um pouco feliz de ter sido tirado dele para a realidade. Ele pigarreou, fungou e cruzou os braços.

— Deixa eu ver se entendi certo. O coroa aqui deve X — disse apontando com a arma para o meu pai. Na mesma hora fiquei tensa e vi os ombros de Aiden também se tensionarem, mas logo relaxaram quando o pervertido voltou a arma para ele. Repetindo: Ele relaxou quando a arma foi apontada para ele! — Mas o bonitão aqui quer pagar três vezes X... Por quê?

Uma pausa longa o suficiente para deixarem todos desconfiados de qual pudesse ser o motivo de Aiden pairou sobre o lugar.

— Não é da sua conta. O acordo é: eu pago o que David deve, você pega o dinheiro e vai embora. Definitivamente.

Um sorriso assustador surgiu no rosto de Daniel. Talvez ele não fosse tão idiota quanto parecia, eu pude sentir o quanto tudo isso o excitava. Ele bateu palmas uma vez e gargalhou.

— Mudança de planos! — Gritou entusiasmado. — De repente senti vontade de acrescentar no acordo os 100 mil mais o motivo pelo qual o bonitão quer ajudar a donzela ali... Ah, mas talvez eu saiba o motivo. Aquele corpinho ali é realmente tudo o que parece ser, só de tocar já é capaz de deixar um homem duro que nem-

Imediatamente um grunhido alto e grave encheu a sala e o que Aiden fez me deixou sem fôlego. Ele pegou no cano da arma que estava apontada para mim e forçou-a em direção ao próprio peito. Tive que pôr a mão na minha boca para conter um grito.

— Olhe para mim! — Ele rosnou a ordem. Daniel não parecia muito feliz de ser mandado, mas pela cara que fez parecia que estava mais com medo do que irritado. — Eu não gosto de ficar me repetindo, mas vou abrir uma exceção agora só porque estou prestes a te fazer engolir bala por bala desse pente — se antes eu não tinha certeza agora estava claro que Daniel estava tremendo de medo, ele engoliu em seco e parecia prestes a mijar nas próprias calças. Nem parecia que era ele quem estava segurando a arma. Céus, até mesmo eu estava com medo. Ainda com o cano da arma no peito Aiden se aproximou de Daniel e segurou-o pelo colarinho com a outra mão. — Não. É. Da. Sua. Conta.

Tatei o ar com as mãos trêmulas até achar a parede mais próxima e me escorar nela. Eu sentia falta de ar e nem era eu quem estava sendo ameaçada.

Alguns segundos se passaram até que Aiden o soltasse. Daniel estava mudo como uma pedra e tentava evitar contato visual com o homem à sua frente. Ele moveu a cabeça sinalizando a maleta e logo um dos capangas dele a pegou das mãos do segurança do hospital. Todos eles fizeram menção de sair da sala, mas a voz de Aiden os congelou no mesmo lugar:

— Ah, mais uma coisa... Não pense que essa pequena informação pode ser útil para qualquer tipo de chantagem futura. Eu sei onde a família de cada um de vocês mora. Nós dois podemos muito bem jogar a mesma carta, se é que você me entende.

Daniel que estava a poucos passos da saída da sala trincou os dentes. Se fosse possível acredito que sairia fumaça das suas orelhas de tanta raiva. Porém ele e seus homens logo evacuaram o local. Quando ouvi a porta da frente se fechar soltei a respiração que estava segurando por tanto tempo, mas não arrisquei me mover para longe da parede, ainda não confiava o suficiente nas minhas pernas.

— Key Key... — a voz de meu pai me tirou do meu estado catatônico.

— P-pai... R-rose...

Corri para eles, de repente ganhando novas forças, e abracei os dois ao mesmo tempo. Era tão bom saber que eles estavam bem, que tudo estava resolvido... Resolvido graças ao Aiden. Afastei-me dos dois para olhar meu salvador e encontrei-o me fitando. Ele estava de frente para nós e de costas para a entrada da sala.

— Eu tenho alguns calmantes na cozinha, tente relaxar, Rosa — meu pai disse.

Eu ainda não conseguia desviar a atenção daquela piscina verde e intensa em forma de olhos. Eu tinha tanto a dizer, mas ainda me sentia aterrorizada com a possibilidade de ele não ser tão mocinho quanto aparentava. Talvez ele fosse tão vilão quanto Daniel.

Meu pai estava na metade do caminho de volta para sala quando tudo aconteceu muito rápido.

Daniel entrou na sala com a arma em punhos apontada para as costas de Aiden. Eu tinha certeza que havia gritado o nome dele para alertá-lo, mas não consegui ouvir nada. Era como se o botão de volume na minha cabeça tivesse sido desligado. Eu tentei correr na direção dele, mas estava longe demais para empurrá-lo. Paralisei no meio do caminho em choque quando vi uma poça de sangue rapidamente se formar no chão da sala. Era tarde demais, eu havia sido lerda demais. Eu nem mesmo havia ouvido o barulho do tiro. Daniel gritou alguma coisa que eu não entendi enquanto sacudia a arma e logo saiu correndo. Aiden também estava gritando ordens, pelo menos parecia que estava gritando porque seu rosto estava vermelho e as veias saltavam da garganta.

Dei alguns passos cambaleando e então caí de joelhos no chão já sem poder ver e sem entender mais nada à minha volta. Meus olhos e mente só conseguiam focar no sangue que jorrava do corpo do meu pai.

Notas finais
Gente, estava sem cara para escrever uma nota incial. Nem que eu peça desculpa mil vezes de joelhos pode expressar o quanto eu sinto muito por ter ficado esse tempo todo sem postar nada, mas se você não desistiu dessa história assim como eu não desisti e ainda veio aqui conferir e ler esse cap, eu não tenho como te agradecer o suficiente. Muito obrigada. Até!