Her Name Is Alice
1 Nonsense.
"Todos temem o que não podem entender. Pessoas que não são mentalmente sãs são um exemplo disso. Todos temem esses humanos que tem 'anomalias' em suas mentes. Mas a verdade é que todos nós somos um pouco loucos. Ninguém é inteiramente são. Ninguém está a salvo da própria mente. Ninguém. Somos todos loucos que temem outros loucos. Inconcebível idéia. Mas real."
Ela arranhava com o que restava das unhas um canto da parede. Lentamente descascava pedaço por pedaço da tinta branca que a cobria. Pequenos rastros de sangue eram deixados no caminho dos dedos machucados que ela tanto roia.
Corria, corria o máximo que podia. O vestido vermelho já rasgado em alguns pontos e puído em outros se prendia a ramos de cores escuras, mórbidas. O céu acima dela era da cor do vinho. Um sol brilhava, mas seu brilho era frio. Era um sol que chegava ao fim de sua vida. Uma estrela prestes a se apagar para sempre.
Venceu por fim a floresta morta e viu-se nas ruínas de um castelo. Poucas paredes mantinham-se de pé e apenas uma torre sobrevivera ao impiedoso tempo. E mesmo esta parecia prestes a desabar. Mas ela não se importou. Caminhou por entre o pátio de pedras rachadas e reviradas. No meio do pátio crescia uma árvore de galhos brancos e folhas douradas. Estava carregada de frutos de um azul berrante.
A garota sorriu. As sapatilhas que calçava não fizeram nenhum barulho quando caminhou até a árvore. O cabelo longo tinha um estranho tom esverdeado. Parecia preto, mas parecia verde. O vestido antes vermelho agora era roxo. Estendeu a mão pálida e retirou o fruto da árvore. Uma mordida. Os olhos de cor púrpura brilharam. Aquela era a fruta mais saborosa que já provara.
Rodopiou pelo pátio e então voltou a caminhar. Seguiu para aquela torre mal conservada. Não temeu quando pisou no primeiro degrau e ele rangeu. Degrau por degrau ela avançou. Quando chegou ao topo da torre o sol moribundo lá fora já se punha e o céu parecia ser de um roxo bem escuro. Mas também podia não ser roxo e ser azul escuro. Pra ela não importava.
Atirou pela janela o caroço da fruta e pôs-se a dançar pela torre. O lugar logo estava completamente escuro. Vultos começaram a correr pelo canto de sua visão. E logo ela estava cercada por eles. Vultos de um tom cinza, que dançavam junto com ela. Vultos e mais vultos. Lembranças mórbidas das pessoas que um dia habitaram aquele palácio. Fantasmas de tempos a muito abandonados. Espectros de uma vida que não mais existia.
A torre desmoronou. E ela estava no ar. Uma brisa noturna soprou e ergueu seu comprido cabelo laranja, fazendo-o correr como um rio ao redor de seu rosto e corpo. Ela ainda dançava. Os pés pisavam em ar, e o vestido lilás transformou-se em milhares de borboletas que esvoaçaram ao redor do corpo nu dela, acompanhando os passos da garota.
Quando ela terminou, estava novamente de pés firmes no chão e as borboletas já não eram borboletas, e sim seu mesmo vestido de antes. Ela cantarolou e então seguiu em frente. Atravessou um riacho, caminhando sobre as águas turvas, e estranhos peixes que pareciam pássaros tentaram lhe morder os pés. Logo em terra novamente, seguiu saltitante por um caminho de terra a muito não usado. Grama amarela crescia em suas beiras. Alguma criatura de olhos vermelhos atravessou correndo à sua frente e então sumiu.
Ela não temia. Conhecia absolutamente tudo sobre aquele mundo. Afinal, ele era o seu mundo. Seu tão aterrorizante e belo mundo, jamais concebido. Um mundo que era somente dela. Assim como tantos outros que ela criava. Um mundo doente. Um mundo em decadência. Um mundo que somente ela era capaz de visitar. E talvez o mundo que somente ela poderia salvar. Ou então afundar junto com ele.
A porta da sala foi aberta e ela ergueu os olhos vazios para a silhueta parada à porta. Ergueu-se do canto onde estava encolhida e foi receber seus remédios.
1,2,9 comprimidos. Sabia que logo logo estaria adormecendo. Foi deixada sozinha novamente e então se jogou em sua cama, observando o teto. Sangue parecia escorrer lentamente e pingar pelo chão de seu quarto. Logo estava nadando em sangue. E então adormeceu.
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