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1 CAPÍTULO ÚNICO — ELA
Notas iniciais
Eu analisei bem a aliança nas minhas mãos. Linda, brilhante e certamente cara. Você com certeza a escolheu com precisão, sabendo que Malia não gostaria de algo extravagante, mas também não querendo dar à ela algo tão simples. Naquele instante, ao analisá-la bem, quis jogá-la no ralo da pia. Mas eu era a sua madrinha, não poderia deixar que isso acontecesse. Era meu dever entregar à você essa aliança — agora em minhas mãos — sã e salva.
Eu fui a primeira a saber que você planejava pedir ela em casamento. Lembro-me de abrir a porta do meu apartamento e encontrá-lo ofegante, as mãos nos joelhos e um sorriso enorme no rosto. E então, você começou a falar de maneira quase incompreensível de tão rápida:
— Desculpe-me por aparecer aqui sem avisar mas, Deus, eu precisava contar isso à alguém! E como o Scott estava ocupado na Clínica Veterinária, eu… — ele ofegou, resmungando algo baixinho. — Pelo amor de Deus, você é minha salvação, Lyd! — você tirou as mãos do joelhos e, deixando a postura reta, articulou com as mãos no ar com a intenção de se aproximar.
Eu não sabia o que dizer. Por que você estaria tão ansioso?
— Vamos, entre — eu fiz gesto para que você entrasse, sorrindo, e você agradeceu. — Eu vou fazer um café. Sente-se.
Caminhei até a cozinha observando-o de relance. Pelo que eu sabia, ela e você iriam passar suas férias na Austrália, e o embarque era exatamente naquele dia, dali a algumas horas. Apenas isso fez com que eu começasse a pensar que você por algum motivo havia se desentendido com ela e, Deus, isso acendeu uma chama de esperança dentro de mim — e por favor, não me considere uma pessoa horrível por isso!
Enquanto eu fervia a água, você sentou-se no sofá e continuou com seu jeito hiperativo, falando sozinho e mudando de posição de um em um segundo. Arqueei as sobrancelhas, rindo baixinho. Seu jeito de ser me divertia, e eu não sei se cheguei a te contar isso algum dia.
Logo, com as xícaras em mãos, caminhei até você bebericando meu café. Você agradeceu e — provavelmente se perguntando de onde viera a minha obsessão por aquele líquido negro — silenciou-se por alguns segundos antes de voltar a falar.
— Deus, Lyd, eu nem sei por onde começar a falar! — você disse, pondo a xícara vazia sobre a mesa de centro e encostando as costas no sofá, olhando para o teto enquanto soltava um suspiro. — Nesses últimos meses, a minha relação com a Malia mudou muito… Nós nos desentendemos várias vezes e muitas delas eu pensei comigo mesmo se valia a pena prosseguir naquele relacionamento e eu não me arrependo de ter decidido prosseguir. Eu e ela amadurecemos muito desde que começamos a namorar e agora, agora eu posso dizer com todas as letras que estou tomando a decisão correta — você se levantou, passando a mão no cabelo com um ar desesperado e em seguida voltando-se novamente para mim. — Lydia, eu sei que você vai achar loucura isso que eu vou dizer agora, mas eu… Eu tenho certeza que é o certo a se fazer.
Você olhou fixamente nos meus olhos naquele instante, e por Deus, você não deveria ter feito isso! É errado você ter ascendido essa chama de esperança em mim para depois apagá-la com um balde de água fria! É errado, é errado, é errado! Mas isso não o impediu de fazê-lo.
Você tirou uma caixinha do bolso. Era preta e felpuda, com certeza macia. E no instante em que eu pus meus olhos nela, eu senti meu estômago se revirar e meu olhar arder em expectativa. E quando você abriu-a, Stiles, eu senti vontade de chorar. Aquela joia era tão perfeita e parecia se encaixar perfeitamente no meu dedo; entretanto, a beleza da peça não foi a única coisa que fez com que meus olhos marejassem. Todo o significado que ela trazia consigo, isso… isso era exatamente o que eu tinha fantasiado desde o momento em que finalmente entendi o que sentia por você!
— Stiles, isso… isso é lindo! — eu tornei o olhar para você novamente, vendo-o soltar um de seus mais encantadores sorrisos.
— Obrigada, Lydia. Isso é para — você fez uma pausa, e eu senti meu coração acelerar dentro do peito enquanto eu observava atentamente você fechar os olhos e soltar outro sorriso, dessa vez ainda mais encantador e apaixonado —, isso é para a Malia.
Bum!
E naquele instante, foi como se o meu coração se estilhaçasse em vários mini pedaços. E eu quis gritar. Quis gritar para extravasar toda a frustração em meu peito, toda a decepção e talvez — só talvez — houvesse uma pontinha de maldade em mim que desejasse explodir sua cabeça com aquele grito. Contanto, eu engoli meus sentimentos da mesma forma que fiz quando vocês dois voltaram, meses após nós vencermos a Besta, e sorri. Afaguei seu ombro e, contrariando tudo o que eu gostaria de dizer naquele instante, disse:
— Ela vai adorar, Stiles! — abracei-o, mordendo o lábio. “Mas e eu, Stiles? E eu, como fico?”, completei silenciosamente enquanto fechava os olhos. Eu não deveria pensar aquilo, era egoísta! Você, meu amigo – meu amor – estava feliz, e eu também deveria estar feliz por ti!
Por que eu tinha que ser tão egoísta?
— Eu espero que sim — você soltou o maior de seus sorrisos, e nós nos afastamos. Esforcei-me para sorrir também. — Vou pedi-la em casamento na viagem. Já fiz reserva em um restaurante e preparei tudo. Eu estou tão ansioso! — ele disse e eu ri. — Jesus, eu vou pedi-la em casamento! E eu provavelmente vou estragar tudo! — você sentou-se mais uma vez e, mesmo ainda machucada, achei graça em sua confusão. — Onde eu estava com a cabeça? Eu não posso fazer isso! Eu estou certo, não é, Lyd? Eu não posso fazer isso, eu vou estragar tudo. — ele coçou a cabeça, fechando os olhos e grunhindo.
— Stiles… — “não, você não deve fazer isso. Eu te amo, sabe? Eu te amo, e sim, demorei para perceber isso, mas Deus, eu te amo! EU TE AMO! Você entende isso? Eu te amo! Stiles, seu lugar é comigo! Você é o dono do meu coração, e o único que pode me fazer feliz!”. — Malia te ama. Ela te ama e você ama ela. E mesmo que você seja muito, muito hiperativo, ela te ama! Foi por você, por esse Stiles atrapalhado aí que ela se apaixonou. — sorri, e você pareceu respirar com mais alívio. — Se você decidir adiar isso, Stiles, estará cometendo o maior erro da sua vida. Porque vocês se amam e são perfeitos um para o outro.
Eu já não sabia mais o que dizer. Por dentro, eu era um mar de desilusão e confusão. Já havia partido muitos corações na minha vida, mas aquela era uma das únicas vezes que eu sentia meu coração se despedaçar, e a sensação era a de que eu não tinha ninguém para me ajudar a juntar os pedacinhos. Afinal, quando a Allison morreu, você estava ali por mim. Quando Aiden morreu, você estava ali por mim. O que fazer quando você era o culpado pela dor que eu sentia?
Não, não, eu sou a culpada! Você apenas seguiu em frente, e eu deixei a oportunidade passar…
Eu sou a culpada.
— Você está certa, Lyd — ele suspirou, dessa vez mais aliviado e despido de toda a sua hiperatividade e confusão. — Agora, eu preciso ir. Tenho um voo para pegar e as minhas malas ainda estão em casa.
— Claro — afaguei seu ombro mais uma vez. — Espero que dê tudo certo. Você merece — desejei.
— Vai dar certo, Lydia. Graças à você.
— Não, não, eu não fiz nada! Só disse o que qualquer um diria, o que é óbvio. Agora, vá. Como você mesmo disse, tem um voo pra pegar — sorri, caminhando na direção da porta.
E foi como eu disse: deu tudo certo.
Ainda lembro o aperto que senti no coração ao descer a barra de rolagem do instagram e me deparar com uma foto sua e dela. Estavam numa das praias de Sydney, você a erguia no ar enquanto ela tinha as mãos em seu ombro e sorria mais do que eu jamais havia visto-a sorrir. “Eu aceito”, era a única coisa escrita na legenda. E, no instante em que li aquilo, mesmo em um escritório cheio de gente que apenas queria trabalhar, senti meus olhos marejarem. Comentei um “Felicidades ao casal! Eu sempre soube que dariam certo!”.
E foi naquele momento que eu finalmente vi a mensagem de áudio que havia me mandado ontem de madrugada no privado. “Ela aceitou! Ela aceitou, Lyd!”, você gritava. Mandei o emoji de uma carinha piscando, e desliguei o telefone.
Hoje, quase um ano depois, eu estou aqui, no banheiro de um salão majestoso me segurando para não borrar a maquiagem. Por quê?, eu me pergunto. Eu tive tantas oportunidades de fazer com que isso desse certo, e ainda assim desperdicei todas. E hoje, você está construindo sua própria felicidade — e tudo que eu posso pensar é que faz isso às custas da minha, mesmo que seja errado pensar assim.
Enquanto me encaro no espelho, analisando minha maquiagem impecável, posso vê-la atrás de mim. Ela sorri vestida em um vestido branco maravilhoso que, por acaso, eu ajudei a escolher. Seus olhos brilham e eu posso ver que Malia está prestes a chorar.
Dou mais um sorriso, tão falso quanto todos aqueles que dei ao decorrer desse ano e a abraço. Apesar de tudo, Malia também é minha amiga, e uma das melhores. Hoje é o dia dela, e eu não posso deixar que a minha amargura o estrague.
— Você está linda, Malia — eu digo.
— Obrigada — ela sussurra próxima ao meu ouvido. — Sem você, nada disso se tornaria realidade.
Penso em contestar, mas apenas me calo e continuo a abraçá-la.
Quando Kira abre a porta do banheiro repentinamente, afasto-me de Malia rapidamente.
— Está na hora, Malia — ela diz.
Caminho junto de Malia até a porta do salão, que está fechada. Formamos uma fila: os pais, casais de padrinhos e madrinhas, os pajens, as daminhas e, por fim, a noiva. Lanço um sorriso para Malia dali enquanto digo um “fique tranquila” mudo. Ela assente e eu entrelaço meu braço com o de Scott, sorrindo para ele.
Quando a porta se abre, tudo se passa como um filme na minha cabeça. O dia em que nos conhecemos, quando nos tornamos amigos, o beijo que dei-lhe quando você tinha um ataque de pânico, a vez em que você me salvou da Eichen House, o dia em que finalmente entendi o que sentia por você, quando você e Malia voltaram e, por fim, quando você me contou que planejava pedi-la em casamento. Entre estes, vejo todas as chances que tive de fazer algo a respeito da nossa relação e todas as vezes em que deixei de fazê-lo por medo.
Sabe o quanto dói saber que você demorou tempo demais para perceber o óbvio?
E, pela milésima vez, eu engulo tudo isso e apenas entro no salão observando o quão feliz você parece e o momento em que você limpa a lágrima solitária que escorre de seu rosto ao ver Malia entrando. O entrego a aliança. O desejo felicidades no final da cerimônia e, enquanto os assisto sair da igreja, limpo as lágrimas que escorrem. Todos pensam que é felicidade, mas apenas eu sei que qualquer palavra seria muito pouco complexa para descrever o que se passa na minha mente no momento.
Eu te amo. Eu te quero.
Mas você ama ela. Você quer ela.
E eu não posso te culpar por isso.
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