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Notas iniciais
Meus pais tinham acabado de se mudar. Ouvi falar sobre Los Angeles a minha vida inteira, mas aquela era a primeira vez que pisava em solo americano. Tinha completado 12 anos na semana anterior, eu e meu irmão gêmeo, James. Fomos encubados da árdua tarefa de cuidar dos mais novos, Benjamim e Cosette. Odiei a ideia de ter que estudar numa escola só para garotos, mas segundo meu pai, era a melhor forma de educação e que dali sairia os melhores advogados do mundo. Eu nunca levei a sério o que dizia meu pai, era totalmente grato por ter sido adotado por ele, mas sempre gostei de ouvir o meu sexto sentido, de agir após meu próprio julgamento. Entretanto, decepcioná-lo nunca me foi uma ideia válida. Se ele quisesse ter um filho advogado, ele teria. Mas nunca vou saber como ele já tinha previsto meu futuro quando eu ainda tinha doze anos.
No dia da mudança, fomos recepcionados pelos novos vizinhos. Era um condomínio fechado em Los Angeles; cheio de casas gigantescas, piscinas de perder a vista, muito verde e muito espaço. Nossa casa ficava entre a rua cinco e o cruzamento sete, era na esquina. Carros trafegavam por dentro do condomínio como se estivéssemos na rua. Havia parques de lazer para crianças, campos de golfe e de futebol, salas para jogos acessíveis aos moradores. O sobrenome Fitz tinha muita importância, meu pai era um advogado bem sucedido e minha mãe uma renomada geneticista. Eles não podiam ter filhos e por isso eu e James fomos adotados, Benjamim e Cosette em seguida. As pessoas tinham o costume de falar mal, de apontar o dedo quando nos via reunidos, talvez o fato de sermos tão diferentes biologicamente falando afetasse a vida de cada um ao nosso redor; menos a vida de uma família em particular.
Os Baldwin moravam na casa ao lado. Uma família de sobrenome tão importante quanto o nosso. Eles tinham três filhos: Augustus, Giulietta e Gwendolyn. Os dois primeiros eram gêmeos, a última era a mais nova. Tornamos-nos amigo de imediato, mais Benjamim e James do que eu. Nunca fui sociável, minha diversão era pregar peças nos gêmeos Baldwin, mas o meu alvo de brincadeiras era a mais nova. Gwendolyn e eu nos odiávamos. Eu achava o jeito cheio de frescura dela totalmente desnecessário. Certo que quando se tem dinheiro tem que gastar mesmo, mas não é preciso jogar na cara de ninguém quanto tem na sua conta bancária. Nós implicávamos um com o outro no jardim, no playground, na piscina, no colégio e onde mais fosse possível. Eu a odiava com todas as minhas forças, ela foi um dos motivos para que eu me tornasse um garoto cheio de pudores com outra garota. Eu temia encontrar alguém como Gwendolyn e me apaixonar, esse seria o meu pior castigo.
Para meu total azar, meus pais se tornaram amigos íntimos dos Baldwin. Íamos à casa de veraneio deles em Massachusetts todo feriado, e eles iam para nossa em Long Island. Não havia um momento sequer em que não estivéssemos juntos. Então, fui obrigado a conviver com Gwendolyn até terminar o colegial. Eu finalmente achei que ia me livrar dela e que, na faculdade, tudo poderia ser diferente. Consegui uma bolsa em Berkeley para direito, era um aluno exemplar. Capitão do time de Lacrosse durante todo o ensino médio, não foi surpresa receber convites para jogar e estudar em várias faculdades. Optei por Berkeley porque meu pai havia se formado lá, mas meu sonho era Harvard e ficar o mais longe possível da vidinha comum e planejada que eu levava. Ainda assim, só em ficar longe da existência de Gwendolyn Baldwin, estava perfeito. Mas eu não sou o cara de sorte dessa história, e ela foi aceita em Berkeley também e para o mesmo curso. Seus pais, renomados advogados, exigiam que os filhos seguissem o mesmo destino. Seus irmãos também entraram para escola de direito de Berkeley. Para meu total azar, estávamos todos reunidos no mesmo lugar novamente.
Eu só não tinha me dado conta, com o passar dos anos, que Gwendolyn tinha mudado. Não só sua aparência física, é claro. Mas a aparência física era uma diferença e tanto. Quando ela passava, os garotos costumavam virar a cabeça e eu sempre ouvia um estalo do pescoço quando isso acontecia. Era nojento de se ver. Contudo, eu não pude deixar de reparar nas suas curvas, na forma como sua cintura se movia quando ela caminhava, no charme que era o seu sorriso e a cor vibrante dos seus olhos. Já tinha se passado três meses que estávamos em Berkeley quando aconteceu a primeira vez. Gwen e eu estávamos debaixo de uma chuva torrencial, à porta do bloco de legislação. Eu tentava proteger minha cabeça com um The New York Times e ela, com um guarda-chuva que o vento forte arrastou em questão de segundos. A garota estava desesperada e eu? Eu ri da aflição no rosto dela, em troca recebi umas boas tapas no braço e rosto, e quando tentei impedir que ela continuasse e bom... O jornal caiu no chão, nossos olhos se encontraram pela primeira vez em sete anos e nos beijamos.
Aquele foi o meu pior erro; e maior acerto. Transamos na escadaria no prédio de legislação, e era um misto de desejo e raiva que corroia nossas entranhas. Foi o melhor sexo da minha vida, tenho que admitir. Daquele dia em diante, passamos a transar em qualquer lugar que coubesse nossos corpos e estivesse longe da vista das pessoas. Armários, corredores, escadas, carros, onde fosse realmente possível. E é claro, ninguém sabia. Não contei nem mesmo ao meu melhor amigo, Aaron Hastings, que estava transando com minha vizinha. Para todos, Gwen e eu éramos como irmãos que não se suportavam, e aquela foi a melhor desculpa que já inventaram. Mas foi aí que começou todo o problema, foi quando eu comecei a amadurecer de verdade e entender sobre algumas coisas, coisas que me afastaram do possível grande amor da minha vida. E hoje, hoje eu tento entender onde foi que nós erramos. E escrevo, escrevo porque sei que logo acabarei esquecendo tudo e talvez essa seja a única maneira de manter vivo o que eu nunca deveria ter deixado morrer.
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