Estou no ginásio da escola, apenas eu e meu amigo Taylor, ele me disse que precisávamos conversar. Normalmente Taylor não seria o tipo certo de garoto em que se pode confiar. Ele é um repetente de 19 anos, tem um leve ar de "encrenqueiro" e ainda por cima é manco, por motivos que eu desconheço.

– Seja breve — eu disse — não quero que pensem besteira

– Larga de bobagem, você nunca se importou como o que as pessoas pensam de você, mas sim, eu realmente preciso ser breve. Não podemos mais retardar o tempo, quanto mais velha você fica Mais atrai monstros com seu cheiro e...

Não deixei que ele terminasse de falar, aquilo era ridículo, Taylor só podia ter enlouquecido.

– Taylor, pelo amor, você está parecendo uma criança de 5 anos inventando mentiras sobre "monstros" e ainda insinua que eu cheiro mal. Me polpe das sua bobagens, não quero que achem que meu melhor amigo é maluco, quer dizer, eu tenho dislexia, T.D.A.H., crises compulsivas e roubo coisas, um amigo maluco realmente não seria nada mal...

– Carrie, escuta bem... Nós já ouvimos falar várias vezes nos Deuses Olimpianos, e essas história, bem, elas não são apenas histórias, ela são reais

– E o que você quer dizer com isso? Eu juro que to tentando te entender, mas é impossível

– Bem, eu sei que é difício, mas o que eu quero dizer é que você tem um pai ou uma mãe Deus

– Wou cara, que viajem... Você ta muito doidão, meus pais estão me esperando em casa pro fim de semana e os nomes deles são Martha e Alexander, até onde eu sei não existe nenhum Deus com esses nomes.

– Aí é que ta, um deles não é seu pai ou mãe de verdade, se ao menos eu pudesse conversar com eles, é certo que sabem das coisas. Me leva na sua casa...

– Não cara, o que você quer que eu fale para os meus pais "Hey mãe e pai, esse é o meu amigo Taylor, ele está sob o efeito de drogas e por isso acha que existem monstros e Deuses"... Isso é loucura

– Vem...

Taylor me puxou pelo braço, não sabia o que estava acontecendo, mas eu tinha uma fria impressão de que ele acreditava realmente no que tinha acabado de falar e pior, estava certo ao dizer que as coisas estavam começando a se complicarem. Pegamos um ônibus até a minha casa, um antigo sobrado de cômodos bastante espaçosos, lá moravam meus pais, minha avó Célia, eu meu irmão mais novo Alex de 7 anos, o queridinho da família.

Asim que entramos minha mãe pareceu extremamente aterrorizada ao ver Taylor, pensei que talvez eles já se conhecessem, mas isso eu saberia.

– Mas já é tempo? — Minha mãe perguntou a Taylor, ignorando completamente minha presença

– Receio que sim, não podemos aguardar mais, Carrie precisa ir para o acampamento... Eles já sabem sua localização.

– Ei, eu to aqui — disse irritada — Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo?

– Filha, vamos pra cozinha, precisamos conversar

Geralmente minha mãe era uma mulher extremamente calma, o que me deixou nervosa, pois naquele momento ela parecia ligeiramente ansiosa. Fomos para a cozinha e nos sentamos na mesa redonda, onde comíamos apenas em ocasiões especias. Meu pai estava trabalhando, ele era gerente de uma rede de restaurantes mexicanos, meu irmão estava na escola e minha avó estava vendo televisão no seu quarto. Minha mãe não trabalhava.

– Filha, demorei a acreditar que essa hora um dia chegaria, mas precisamos ter uma conversa séria

– Vai dizer que a senhora também entrou nessa onda de acreditar em Deuses e criatura mitológicas

– Há 15 anos atrás, quando eu trabalhava como secretária de um médico, eu conheci um rapaz e então nós nos apaixonamos, eu fiquei grávida e então ele teve que ir embora, logo depois eu conheci Alexander, nós nos casamos e ele te criou como filha e não queriamos te contar isso até que chegasse o momento certo

– Então quer dizer que Alexander não é meu pai de verdade, Célia não é minha avó e Alex é só meu meio irmão? Como você pode mentir pra mim todos esses anos? E que acampamento é esse que o Taylor disse? Por acaso isso é uma brincadeira?

– Carrie... Filha, eu sei que isso tudo é muito complexo, mas você precisa entender. Você precisar ir com Taylor até o acampamento meio-sangue para jovens que assim como você são filhos de Deuses, lá você estará segura e poderá ser treinada para aprender a controlar os seus poderes.

– Poderes — Eu zombei e ri, naquele momento rir parecia a única coisa que podia fazer.

Sempre foi assim, todas as vezes que me via em uma situação difícil eu ria, como se o riso fosse capaz de curar alguma ferida psicológica ou fazer o tempo passar devagar me dando tempo para pensar em soluções que de alguma forma pudessem resolver meus problemas. Eu também gostava de fazer as outras pessoas rirem, como se aquilo fosse uma forma de gratidão por me tratarem bem, ou só me tratarem, por me ajudarem, enfim, por mais que eu estivesse com problemas rir e ver outras pessoas rirem era remédio, me fazia acreditar que a tristeza não existia e que todas as coisas eram lindas, o que não é verdade.

Minha mãe me disse que em um certo momento tudo aquilo faria sentido e eu iria entender o motivo dela ter me escondido esse segredo, não pestanejei, pois naquele momento quem parecia esta ficando louca era eu, o que não seria novidade. Taylor me ajudou a pegar algumas coisas, teríamos uma viajem longa, a contar pelo que disseram, enfim, arrumei todas aquelas coisas sem conseguir acreditar naquilo tudo e sem conseguir acreditar que eu não conseguia acreditar naquilo tudo, não sei porquê mas alguma coisa dentro de mim dizia que aquilo tudo fazia sentido e que era melhor eu acreditar ou poderia entra em vários problemas.

Saímos de casa e pegamos um ônibus até a estação, não conhecia nada, apesar de sempre ter vivido ali, não tinha tempo pra sair porque na maioria das vezes eu estava trancada em um colégio interno para crianças e adolescentes problemático. No meio do caminho percebemos que um cara aparentemente de meia idade nos seguia, Taylor começou a fazer uns barulhos estranhos que parecia um bode muito bizarro e não parava de repetir "eu sou seu protetor", não sabia de quem eu ficava com mais medo, do homem ou de Taylor. Entrei em um momento de transe e não sei como consegui entrar na cozinha de uma cantina na estação, peguei uma faca e minutos depois eu estava perto de Taylor novamente, a estação pareceu ficar pavorosamente deserta de uma hora pra outra e então começou a ventar, um vento seco, minha boca estava ressecada e as poucas pessoas que restavam na plataforma pareciam ignorar a mudança repentina do tempo.

Ouvi uns estalos e quando olhei pra trás o homem que nos seguia estava se transformando em uma aberração, agarrei a faca, ele parecia ser feito de pedra e sal, com uns 3 metros de altura. Taylor correu em sua direção, mas o monstro o jogou do outro lado da estação e ele caiu desacordado. Agora era só eu e aquele monstro.

– Ei, seu bobalhão rochoso — Era suicídio falar aquilo

O monstro veio na minha direção e eu me esquivei, acertei a faca na sua perna, mas era dura e não aconteceu nada. Precisava cravar a faca em uma das parte de areia. Ele investiu novamente mas dessa vez eu fiz diferente, corri para atrás do monstro e chutei o seu traseiro, ele desequilibrou e caiu, ele era extremamente desengonçado. Ele se levantou e eu corri em sua direção empunhando a espada e acertei na sua barriga bem no umbigo, se é que pode chamar aquilo de umbigo, ele se desfez em um pó cor de ouro que se espalhou pela estação, o tempo voltou ao normal e eu fui ver como estava Taylor.

Ele acordou, mas não me pareceu muito lucido e então eu percebi que seu jeans estava sujo de sangue.

– Cara, você vai ficar bem — Eu disse, não me convencendo muito das minhas próprias palavras

– Vou sim — Ele me respondeu, o que me confortou

Então ele tirou as calças e... Um bode