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48 Capitulo quarenta e sete (Felipe)
Notas iniciais
Olá pessoal!
Esse foi claramente um dos capítulos mais trabalhosos de fazer (passei a tarde inteira escrevendo!) e também muito divertido! Ele valeu a pena cada segundo que eu passei escrevendo e cada lágrima que caiu enquanto eu escrevia (sim, eu chorei)
Espero que vocês gostem e chorem que nem eu! :D
Batatinha, esse capítulo é pra você!
Eu estava fedendo. Eu sei que estava fedendo. Não tomava banho a quase dois dias. Todos já tinham trocado de turnos para se lavar. Todos a não ser eu, Caio, June e a senhora Valdeva.
Nós jogávamos cartas na sala de espera, dormíamos uns nos ombros dos outros até as enfermeiras passarem e nos acordarem dizendo que isso não era possível.Samuel era o que mais constantemente voltava trazendo comida, livros e roupas. Ele ficava conversando por um tempo e depois ia embora novamente. A senhora Valdeva disse que ele morava por perto e estava oferecendo um chuveiro para o banho em sua casa. Caio aceitou na hora, mas ele precisava de alguém que o ajudasse a tomar banho e eu não iria sair do hospital. Então ele desistiu e voltamos a jogar UNO.O horário de visitas chegou e a senhora Valdeva correu para a sala da UTI para ver o filho e nós ficamos na sala de espera com o resto da família.O tempo foi passando, e passando, e passando... até que acabou o horário de visitas e a senhora Valdeva voltou, lamentando muito ter ficado tanto tempo.Ela então perguntou se poderíamos ficar um pouco mais pois ela iria para a casa da irmã (mãe do Samuel) para tomar um banho.Quanto a June, ela recebeu uma ligação de casa exigindo sua presença. Ele teve que ir para casa, talvez agradecendo por dentro, já que estava com os olhos fundos, cheios de olheiras e vermelhos.Então ficamos só eu, Caio e Samuel.– Eu quero ver Pedro — declarei depois de um tempo que estávamos na sala silenciosa.– Eu também — disse Caio — Isso é um absurdo! Só dois horários? Eu quero ver meu amigo!– E eu quero muito ver meu primo.Então eu e Caio nos olhamos. Talvez tendo a mesma ideia. Não, com certeza tendo a mesma ideia.– Vocês estão se olhando estranho — notou Samuel.Caio riu.– Esse é o nosso olhar "eu sei o que você está pensando"– E eu concordo.– Certo. E o que vocês estão pensando?Sorri com a ideia de fazer uma traquinagem.– Nos fantasiar de médicos e entrar na ala da UTI para ver Pedro.– Eu sabia que você estava pensando a mesma coisa que eu.– Vocês estão falando sério? — falou Samuel rindo — Vocês não podem estar falando sério.– Estamos sim — falei — Caio pode ser um cliente e nós dois podemos nos fantasiar de emergencistas.Ele piscou e riu.– Não.– Ok — falou Caio virando a cadeira para mim — Então vai só nós dois.– Vocês vão fazer isso mesmo sem mim?– Claro — respondemos ao mesmo tempo.Ele passou as mãos pelo cabelo encaracolado e respirou fundo.– Certo. To dentro.Vitória dos Sarazate. Nós batemos as mãos e nos voltamos para o Valdeva.– Certo, nós vamos fazer o seguinte...Depois de combinar tudo e deixar bem claro nosso plano, nós começamos a pô-lo em prática.Eu e Samuel nos escondemos enquanto Caio criava uma cena na sala de espera, tendo um suposto "ataque de asma", as enfermeiras correram para ajudar o pobre cadeirante e nós dois corremos para o vestiário sem que elas vissem para onde estávamos indo e pegamos dois uniformes e os vestimos com tanta pressa que Samuel quase esquece de trocar os sapatos também.Saímos do vestiário em tempo de ver as enfermeiras colocando Caio em uma maca.– Eu levo — me adiantei — Eu sou o responsável por esse paciente.A enfermeira chefe me encarou estreitando os olhos e depois deu uma gargalhada.– Você não é um enfermeiro — sussurrou ela.Meu corpo inteiro ficou tenso. Talvez eu tenha ficado tanto tempo naquela sala de esperas que meu rosto já fosse conhecido.– Ele é um estagiário — disse Samuel com a maior calma do mundo — O amigo dele está doente e ele esteve aqui por um tempo, mas hoje é estagiário. Eu sou o responsável por ele.– E qual o seu nome?– Samuel.Ela estreitou ainda mais os olhos e entregou a ficha para ele.– Seu amigo aqui está com uma crise de tosse. Acreditamos que seja Asma, mas ele não tem histórico. Precisa ser levado para... — naquele momento eu pude me ouvir sussurrando para mim mesmo "UTI, UTI, UTI, por favor mande Caio para a UTI!" — UTI — finalizou ela me olhando e sorrindo.– Certo — falei triunfante e tentando fazer o rosto mais profissional que podia conseguir naquele momento.Então eu e Samuel guiamos a maca de Caio com pressa para a UTI.– Acho que ela sabe — falei.Meu irmão continuava respirando com dificuldade e tossindo histericamente.– Também acho. Tomara que ela não seja punida por nos deixar entrar.Passamos pela porta e Samuel me ajudou a colocar Caio na cadeira de rodas novamente e caminhamos para onde Pedro estava.Nosso amigo olhava para a parede do outro lado com uma expressão triste. Então ele nos viu, notou nossa roupa e riu. Mas não foi uma risada normal, foi uma gargalhada cheia de gosto.– Shhh! — falei correndo para pará-lo — Vão nos matar se nos pegarem!Ele olhou para nos três alternadamente.– Vocês são demais!– Precisávamos ver você — falou Caio rindo.– E eu acho que precisava disso também — ele falou rindo — Cara, senti muita falta de vocês.
– Você adivinhou que eles iam ter essa ideia? — perguntou Samuel.– Sim — respondeu ele — Mas pensei que você não fosse aceitar!O primo deu uma risada.– Nem eu...Pedro olhou para os três mais uma vez e abriu mais o sorriso.– Queria mesmo falar com vocês. Em particular.Assentimos. Então Caio e Samuel voluntariamente se afastaram e nós dois ficamos sozinhos.– Ei! — falei me aproximando.– Felipe! – Parece que nosso sorvete foi por água a baixo.– Não tem problema — disse ele.Ficamos um tempo nos olhando. Não precisava de palavras para dizer qualquer coisa. Já estava tudo dito há muito tempo.Sorrimos um para o outro. Sempre nos entendíamos mesmo sem dizer muita coisa. Meu único amigo por toda a minha vida fora Caio. As outras crianças sempre tiveram medo, inveja, raiva ou qualquer outro sentimento que as afastava de mim. Pedro foi meu primeiro amigo verdadeiro, um irmão que eu pude escolher. E desde que nos conhecemos de verdade, nossa relação apenas cresceu. Eu confiava 100% nele e ele em mim.E eu sabia que não precisava dizer nada disso para ele, pois ele entendia. E eu podia traduzir cada palavra que ele me dizia com aquele olhar. Tudo o que fiz foi sorrir e abraçá-lo.– Adeus amigo.– Adeus.Eu não queria soltá-lo, mas estava à beira das lágrimas. Eu saí do abraço e fui em direção à porta. Virei-me uma última vez para olhar meu amigo. Vi todos aqueles aparelhos, todos aqueles outros pacientes morrendo por perto, a movimentação agitada dos enfermeiros e todos os gemidos de dor ao redor. Mas mais importante: antes que Caio contornasse a cortina para ver Pedro, eu vi sua careta de dor e o modo como respirou fundo antes de sorrir como se não sentisse nada.Virei saindo da UTI.Lá fora fui ao banheiro correndo e troquei de roupa. A enfermeira chefe estendeu a mão para pegar o uniforme. Entreguei para ela, sem sorrir, eu não queria fazer isso.– Obrigado — falei finalmente para ela — E desculpe.– Você parece estar precisando de um abraço, meu amor.Olhei para ela e finalmente as lágrimas começaram a cair.A enfermeira me abraçou e ficou fazendo "Shhh" e "vai ficar tudo bem".– Olha só sua namorada ali — disse ela em algum momento apontando para June, que tinha acabado de chegar.– O que aconteceu? — falou ela preocupada.– Eu visitei Pedro — choraminguei ainda nos braços da enfermeira.– Será que você podia ficar com seu namorado? Eu tenho pacientes para cuidar.– Ele não é meu namorado e eu posso sim.– Desculpe — falei me distanciando da enfermeira.– Não tem problema, meu amor.Então a enfermeira me deixou sozinho com June. Sequei minhas lágrimas na esperança que parassem de cair.– Acho que você precisa de um banho e descanso — disse ela.– Não, eu tenho que ficar.– Felipe — disse ela se aproximando e tocando meu ombro — Você está exausto. Parece um mendigo perdido no hospital. Daqui a pouco vai precisar de um quarto aqui também.Dei uma risada.– Mas e se acontecer alguma coisa?– Não vai acontecer nada — ela deu um sorriso confiante — Vai descansar em casa.– Certo — admiti.Ela ficou na ponta do pé e me deu um beijo na bochecha.– Até mais.Caminhei para fora e peguei o primeiro taxi que parou. Nem precisei chegar em casa, cai no sono ali mesmo.
Notas finais
Então, gostaram?
A Batatinha enviou essa sugestão por review, alguém tem outra ideia? Se couber no meu planejamento eu incorporo! :3
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