Hello

1 Capítulo 1


"O sinal do pátio da escola toca, de novo, nuvens chuvosas vêm para brincar de novo. Ninguém te contou que ela não está respirando?
Olá, eu sou sua mente dando a você alguém para conversar... Olá!

Se eu sorrir e não acreditar logo eu sei que vou acordar desse sonho
Não tente me consertar, eu não estou quebrada.

Olá, eu sou a mentira vivendo para você, assim você pode se esconder, não chore.

De repente eu sei que não estou dormindo ...
Olá, eu ainda estou aqui, tudo o que sobrou de ontem."

Evanescence — Hello.

1

A chuva forte parecia querer derrubar as tábuas velhas e rachadas do telhado do meu quarto. Sentada em cima da cama me enrrolava com a única manta velha de lã que tinha, na semana passada meus cobertores haviam sido vendidos para pagar uma dívida que Charlie tinha com os maconheiros locais. O frio era intenso e minhas pernas estavam arrepiadas porque a manta não era grande o bastante para cobrí-las.

Funguei meu nariz resfriado e cobri minha cabeça mais uma vez, trovões me davam medo. Talvez, porque lembrava da morte da minha mãe toda vez que um deles soava. Eu era muito pequena na época, mas ainda assim podia escutar os gritos dela enquanto tentava controlar o carro sem freios, ela não sabia o quanto tinha sido doloroso para mim ser jogada para fora do automóvel e cair na pisca escorregadia vendo o carro se chocar contra outro logo a frente.

— Charlie. — Alguém gritou lá fora, era voz de homem e afundei na cama fria rezando para que ele desistisse assim que notasse tudo apagado. — Charlie, venha aqui em baixo! — a voz tornou a gritar, com um suspiro levantei-me da cama e abaixei um pouco o curto shorts que usava para dormir.

— Charlie não está! — Gritei da porta do meu quarto, um trovão me fez se encolher e depois de alguns segundos escutei o homem gritar novamente, caminhei pelo corredor evitando pisar nas pequenas poças de água que se formavam pelo chão, haviam poucos baldes em casa e não era possível barrar todas aquelas goteiras.

Abri a porta recebendo o vento em meus cabelos soltos, um homem estava parado a alguns metros de distância da porta, quando me viu caminhou até mim. Um raio iluminou o local e pude ver seu rosto, não era velho como os amigos que sempre vinham até aqui, a diferença é que tinha cabelos longos e cacheados e um piercing grande em seus lábios.

— Olá gatinha. — Sussurrou.

— Charlie não está. — Falei ignorando seu comprimento cheio de malicia. — Se quiser deixar o recado quando ele chegar o aviso.

— Ah, ele não está? — Perguntou chegando mais perto. Me afastei deixando somente a porta um pouco aberta, o bastante para que pudesse falar e escutá-lo. Não era fácil lidar com alguns amigos de Charlie, a maioria eram bêbados ou drogados que achavam que qualquer mulher queria alguma coisa com eles. Nojentos. — Sabe que horas ele chega?

— Não, ele não está, não sei que horas chega, você pode deixar recado se quiser. — Falei grosseiramente notando que um sorriso agora estava brotando em seu rosto. — Senhor, ja que não quer deixar recado vou entrar, amanhã aviso que o procurou. — eu disse com a mão no trinco.

— Espere. — Falou, colocou seu pé entre a porta e a parede abrindo-a um pouco mais. — Não quer me convidar para entrar? Com toda essa chuva não quero me molhar mais aqui fora. — sussurrou, mas um raio e vi um sorriso maligno em seus lábios. Tentei fechar a porta mas novamente ele me barrou, me inclinei para ascender a luz e foi neste momento que ele empurrou a porta com força me fazendo cair no chão gelado.

Minha barriga bateu com força contra o assoalho e aquela sensação dolorosa de vazio me fez respirar algumas vezes antes de tentar ficar de pé, mas o corpo do homem caiu sobre o meu me espremendo contra o chão. Bati meu rosto e tentei me soltar dele, porém ele segurou minhas mãos. Escutei quando a porta bateu, fechando-se. O pânico me tomou e com força me virei para cima empurrando-o de cima de mim.

— Socorro! — Gritei enquanto corria pela casa já que a porta de saída estava bloqueada pelo monstro dos cabelos louros. Ele estava atrás de mim, infelizmente o chão estava escorregando por causa das goteiras e como não havia nada no corredor para que me apoiasse desabei caindo sentada após escorregar.

— Não grite, sua vadia. — Falou segurando meus braços depois de ter me alcançado cerca de dois segundos depois que cai, tentei inútilmente me soltar mas ele torceu meu pulso me fazendo parar quieta somente murmurando pedidos para que ele não continuasse aquilo. Aquilo piorou quando ele retirou do bolso uma pequena faca e me ameaçou.

Ele era forte, muito forte. Era quase estúpido tentar lutar contra toda aquela força em cima de mim. Ele deslizou a faca duas vezes pela minha cintura e fez dois grandes cortes, quando isso aconteceu, gruni de frio e dor. Se houvesse um telefone nessa casa, poderia acionar a polícia, mas não havia telefone aqui desde que minha mãe havia morrido.

Foram os minutos mais torturantes da minha vida. Nenhuma dor se comparou a de quando ele colocou seu pênis no meu orifício anal, aquela era a sensação de que tinha algo se partindo dentro de mim. Ele se moveu, entrando e saindo enquanto abria minhas pernas tentando uma passagem melhor e eu não tinha uma passagem melhor.

Alguém, pela misericórdia de Deus, bateu na porta alguns segundos depois que ele derramou um líquido quente dentro de mim.

— Quem está lá fora sua vagabunda? Chamou alguém? — Gritou cuspindo na minha orelha. Balançei minha cabeça completamente exausta e dolorida. — Onde tem uma janela aqui? — perguntou, apontei a porta do quarto de Charlie e se retirando com toda força de mim levantou rapidamente suas calças enquanto corria para lá.

A porta da frente se abriu, mas minha cintura pareceu ter congelado. Não conseguia me mover do chão molhado, minha mente estava confusa e minhas mãos paralisadas de pânico. Das únicas reações que consegui ter, foi chorar sem lágrimas, chorar por dentro, com minhas lágrimas se tornando águas ferventes que queimavam tudo dentro de mim.

— Bella? Onde você está querida? — Era voz da vizinha, Marta, que me ajudava quando podia, mas ela tinha cinco filhos e não tinha muito dinheiro por isso dizia que não me convidava para morar com ela. — Bella! — gritou quando escutei seus passos no corredor. — O que aconteceu, Bella? O que... — se interrompeu. — Minha Santa Maria, o que fizeram com você? Está sangrando! — gritou, desesperada. — Jonathan! Chame a polícia, filho! Chame a polícia!

Ela subiu meu shorts novamente e correu para buscar uma toalha para limpar o sangue que tinha na minha cintura e no centro das minhas nadêgas. Não consegui parar de soluçar, só queria minha mãe aqui para me abraçar e dizer que tudo tinha sido um pesadelo. Que tudo que estava acontecendo havia sido um pesadelo. Mas aquela não era a verdade, as dores eram reais, meu sofrimento era real e no fundo, só queria que tudo apagasse, para sempre.

Agora.

Toda garota que é estuprada, além de ficar com essa marca dentro de si, vive com um medo constante de que aquilo possa acontecer novamente. Quando você conta seus medos para alguém, eles diminuem cinquenta por cento, mas eu tinha vergonha de falar daquilo com alguma pessoa, era doloroso guardar só para mim, sem poder explicar porque não dormia em noites de chuvas fortes e trovões, ou o porquê de não conseguir sair a noite sozinha.

O único problema de guardar algo somente para você, é que isso vai diretamente para dentro da sua mente, e nossa mente sempre apresenta para nós a verdade que não queremos ver. Ela brinca com seus piores medos em sonhos, consegue fazer você reviver aquilo como se fosse real. Então você acorda trêmula e sem saber o que fazer para toda essa agonia, que está em você, passar.

Existe muitas pessoas dispostas a escutar alguém, há psicologos e psiquiatras, familia ou apenas amigos, todos eles prontos a sentar com você e ouvir tudo o que você tem para desabafar. Mas, também há a falta de coragem e a insegurança. Você nunca consegue confiar o bastante em ninguém para lhe contar tudo o que realmente sente, por isso é mais fácil mentir, por isso o mundo está repleto de mentiras e pessoas enganadas.

A verdade dói, muito mais quando ela está rondando dentro de você, quando você tem que se olhar no espelho e ver toda a mentira que você está vivendo. As pessoas oferecem sorrisos, quando só querem gritar e mandar todos se ferrar. Elas mentem sobre estar bem quando alguém pergunta, mas a verdade é que não há nada bem em suas vidas ou em suas mentes.

Tem gente que diz que não é preciso ter medo, mas já nascemos com medo, medo do mundo, medo das pessoas, medo da maldade e da falta de amor que está em todo lugar. Você pode simular seu conto de fadas se quiser, a única diferença é que vai haver mais de uma bruxa e no final seu princípe encantado pode virar sapo novamente, e em seu diário talvez não exista um felizes para sempre.

O bip do celular me fez abrir os olhos, no banho costumava ficar afogada em toda amargura que reinava dentro de mim, isso geralmente não ajudava mas, não havia como não pensar. Cuidadosamente me levantei da banheira e puxei minha tolha próxima enrrolando-a no meu corpo arrepiado pelo frio e pelas lembranças. Desejava um dia poder deitar na cama ou na banheira e não ter que pensar nas coisas ruins que aconteceram em minha vida.

O vestido que estava sobre minha cama era dourado, o decote era comportado mas era apertado o bastante para fazerem meus seios ficarem em evidência. Ele moldou todo meu corpo de modo que minhas curvas ficaram totalmente definidas. Não gostava de aparecer dessa forma, mas Esme havia escolhido o vestido para mim e não iria me matar fazer um esforço para usá-lo.

Coloquei brincos já que não usaria maquiagem, não tinha costume de usá-las. No dia acidente com minha mãe, eu estava maquiada com uma sombra preta e conforme chorei toda aquela tinta se espalhou pelo meu rosto me deixando com um aspecto assustador, fiquei traumatizada e nunca mais tive coragem de passar nada muito escuro nos olhos.

— Bella? — Jasper chamou batendo na porta, com certeza Carlisle havia mandado-o aqui. Ele era o filho caçula, mas tudo que ele tinha, eu poderia ter também, era só pedir. Não eramos grandes amigos, mas sempre conversavamos ou assistiamos um filme juntos. Ele era bonito, cabelos louros na altura dos ombros e incríveis olhos verdes dádiva de toda a familia Cullen. — Bella, Edward está chegando, mamãe quer que você desça logo.

— Me dê dois segundos. — Pedi enquanto passava creme nas minhas pernas para finalmente colocar a sandália, o salto era bastante alto, mas para quem tinha um metro e sessenta isso não era nenhum problema. Borrifei o perfume em meu pescoço e abri a porta dando um sorriso rápido e sem vontade para Jasper.

— Você está bonita. — Ele declarou depois de examinar meu corpo.

— Obrigada, você também. — Falei rapidamente, ele me deu um sorriso e entrelaçou nossos braços para descermos as escadas. As vadias líderes de torcida da escola estavam reunidas na primeira mesa depois da escada e os olhares de todas se viraram para mim. Na escola, todas falavam comigo mas isso foi depois que descobriram que eu era a nova filha adotada dos Cullen's. Era o dinheiro que comprava a amizade e sorrisos dessas garotas.

Sentei na mesa próxima a mesa do bolo, era onde Jasper me disse que a familia iria sentar, não me sentia bem com os parentes deles me olhando, a maioria deles não gostava de mim e não escondiam isso de ninguém. Me lançavam olhares de desgosto e em resposta me encolhi na cadeira e fingi escutar o que Jasper estava dizendo.

Depois de alguns minutos Carlisle pediu silêncio a avisou que Edward estava chegando, as luzes foram apagadas e somente a luz da sala ficou ascesa, o lugar virou um velório, todos em silêncio e apreensivos olhando em direção a porta que depois de alguns minutos se abriu.

O coro de pessoas gritou um alto "surpresa" quase me deixou surda, o rapaz parado na porta parecia surpreso com os olhos verdes e cativantes arregalados. Levou só alguns segundos até que ele se atirasse nos braços dos pais e a festa se iniciasse. Uma grande fila de pessoas se formou em volta dele, cada um esperando para dar seu abraço ou entregar seus presentes.

Jasper já havia ido comprimentar o irmão e sozinha não vi porquê continuar ali. Ali estava família, amigos e conhecidos, e eu onde estava nessa classificação?

Fechei a porta do quarto e me sentei na cama deixando as luzes apagadas, era tão gostoso ter uma familia, eu realmente tinha uma antes da minha mãe morrer.

Uma adolescente da minha idade, adotada, nunca vai se sentir parte da familia, você sempre acha que é inferior a todos ali, você nunca tem intimidade o bastante. As pessoas lhe olham e você pensa que estão fazendo pouco caso de você, é uma infeliz sensação de que todos sabem que você é uma pobre garota adotada por pena.

Tirei minha roupa e coloquei o pijama, amanhã era dia de aula, estudava cedo em uma das melhores escolas da cidade. Pelo menos teria uma desculpa a dar para Esme. Não queria que ela penssasse que havia desfeito da presença do filho dela, mas com certeza ela entenderia. De qualquer forma, ela nunca me pressionava, sabia que eu não era do tipo que ficaria em um lugar se me sentisse mal ali. Por isso, não estava em quase nenhum lugar.

Depois de alguns minutos me revirando na cama grande e aconchegante, finalmente consegui fechar meus olhos e cair em profunda escuridão.

Bon Jovi. Era meu despertador, abri os olhos com a sensação de que havia dormido somente alguns minutos. Devia ser porque costumava dormir ás 21h sem atrasos e ontem esse era o horário que descendo para aguardar Edward.

Agora era hora de enfrentar a escola, mesmo não gostando dela. As pessoas não mechiam comigo, mas era de alguma forma desconfortável estar no meio de tantas pessoas ricas sendo que você veio de um lugar totalmente diferente.

Pelo fato de falar com as líderes de torcida e ter uma grande amizade com o líder do time de basquete, alguns garotos achavam que eu era tão vadia quantos elas, que iria me vender em troca de um colar de diamantes que valesse toda minha vida.

Tinha vontade de transar com alguns garotos bonitos da escola, mas havia um porém no meio disso tudo. Toda garota faz uma imagem boa sobre sexo, uma imagem prazeirosa que sempre vai terminar no consumo do prazer de ambos, para mim era diferente, o sexo não era tão prazeiroso e chegava a enxergá-lo como violento e cruel. Diferente do que todas minhas colegas falavam.

Esse tipo de pensamento me deixava perdida, era nesses momentos que enxergava que eu não era uma garota normal. Haveria sempre mais medos em mim do que nos outros, mesmo assim, se entregar aos medos não era exatamente a melhor alternativa, afundar-se nos próprios temores era se entregar para a morte. Enquanto seus medos estiverem vivos dentro dentro de você nunca lhe deixaram em paz. Nunca.

Depois de arrumada desci em direção a cozinha com a mochila já nas costas, dei duas batidinhas na porta do quarto de Jasper como sempre fazia todas as manhãs, ás vezes ele estava dormindo e acordava com essas batidas. E mesa como de costume tinha a presença de Carlisle e Esme, hoje não era diferente, ambos estavam lá conversando e tive que respirar duas vezes antes de entrar no campo de visão deles.

— Bella. — Esme comprimentou quando me sentei a mesa, acenei com a mão para ambos e apanhei um pedaço de pão recheado com calabresa colocando-o em meu prato. — Você não estava na festa ontem quando a chamei para lhe apresentar a Edward. — afirmou olhando para mim, mantendo minha cabeça baixa mordi meus lábios.

— Fiquei na festa algum tempo, mas depois ficou tarde e acabei subindo, além do mais estava cansada da escola ontem. — Falei, a parte de estar cansada era verdade, mas a parte de que havia ficado algum tempo na festa era mentira, não havia nem mesmo ficado quinze minutos.

— Bom dia. — Jasper disse jogando sua mochila no chão e se sentando na mesa impedindo assim de Carlisle dizer alguma coisa. — Bella, você fez o trabalho de Química? — perguntou colocando gulosemas em seu prato.

— Sim. — Respondi.

— Não tenho certeza se pesquisei o conteúdo certo, acho que a bruxa da Srta. Mandy provavelmente vai querer arrancar meus cabelos se isso for mesmo verídico. — Falou com um sorriso, dei mais uma mordida em meu pão e só depois sorri vagamente. — Hoje vou assistir seu jogo de vôlei, humilhe as garotas do terceiro ano, ok?

— Farei meu melhor. — Pisquei.

— Então definitivamente será um bom jogo. — Falou voltando a comer, o silêncio reinou na mesa e finalmente Jasper disse algo. — Sabe, Bella, não sei se já lhe disse isso antes, mas tenho orgulho de você em jogo. — disse, fiquei rígida procurando uma resposta já que não conseguia pensar em nada. Elogios eram embaraçosos, principalmente quando vinham acompanhados com um sorriso sincero como o de Jasper.

— Obrigada. — Falei voltando a comer em silêncio sob os olhares apreensivos de Esme e Carlisle.

Eu era capitã do time de vôlei das alunas do segundo ano, os professores de Educação Física haviam me nomeado a esse cargo. Liderava uma equipe dividida em seis times e nas quintas-feiras ficava até tarde na escola treinando e preparando as garotas. Meu uniforme de jogo estava amassado dentro da minha mochila grande e pesada, minha sorte era que iria de carro com Carlisle já que era caminho até o hospital onde ele trabalhava.

Quando terminei meu café escutei um barulho vindo lá de cima, provavelmente era Edward, o bonito filho mais velho. Ele era muito mais do que esperava, corpo alto e forte, cabelos aparentemente macios e um sorriso daqueles que as pessoas consideravam perfeito. Edward tinha vinte e dois anos, mas aparentava ter mais do que isso, talvez vinte e seis ou sete. Era muito bonito e agora entendia porque as vadias da escola estavam todas atrás dele, ele devia ser como mais o popular e pegador em sua época acadêmica.

Carlisle logo se levantou e fomos em direção ao carro, enquanto caminhava até o veiculo respirava fundo algumas vezes esperando ter realmente forças para enfrentar toda a bajulação e pressão que me atormentaria hoje.

Fui uma das últimas pessoas a saírem da escola naquele dia, tive que ficar até tarde conversando com todas as garotas ofegantes pela vitória. É claro que nossas adversário ficaram completamente furiosas e algumas fizeram questão de rejeitar nosso comprimento ao final do jogo. Jasper esteve na arquibancada até completarmos treze pontos, depois disso saiu sem nenhuma explicação e me vi obrigada a ir para casa sozinha.

Não era longe, somente quinze minutos de caminhada. O problema era que o caminho era quase deserto, carros era o que não faltava, mas tinha uma insegurança enorme dentro de mim. Tremia toda vez que estava sozinha e algum homem me parava para pedir informações ou para fazer alguma brincadeira idiota.

Minha mochila estava pesada e foi estremamente cansativo carregá-la nas costas, meus ombros estavam tensos, principalmente porque havia matas no lado esquerdo da rua e era muito fácil alguém se esconder ali. Nunca havia tido casos de estupro e nem de raptos nesta rua, na verdade, era muito difícil acontecer nesse bairro, mas, quem tem segurança em sua vida depois de ser estuprada em sua própria casa?

Havia alguns rapazes sentados perto de um carro prata parado na calçada da casa vizinha com a minha, não havia como atravessar a rua por isso continuei meu caminho. Me arrependia de não ter recolocado a calça do uniforme e estar agora com esse shorts curto que atraiu os olhares deles para mim. Felizmente era só moleques e consegui passar rápido por eles balançando minha cabeça diante dos comentários maliciosos e arrepiantes. Minutos depois estava longe e perto da casa de Esme o que me deixou um pouco mais confortável.

A sala estava silenciosa como toda as tardes, tudo exatamente no lugar, Jane, nossa empregada gostava de deixar tudo sempre brilhando, era uma das pessoas com quem mais conversava ali. Sua mãe também havia morrido, quando ela era pequena, de câncer no pulmão. Ás vezes quando ela estava livre saiámos juntas nos sábados, eu nunca a tratava como se ela fosse uma empregada, para mim ela era um amiga, afinal, eu sabia o que era ser pobre. Ela só tinha vinte e nove anos então nos davamos bem, não era casada e não tinha filhos, parecia mesmo uma adolescente e só o assunto de meu estupro e das condições em que comecei a viver depois da morte da minha mãe que nunca havia comentado com ela. Com ninguém para ser mais objetiva.

Subi diretamente para o meu quarto, precisava de um banho quente e depois desceria para ajudar Jane a fazer o jantar. Gostava muito de fazer doces, por isso pedindo sua ajuda comecei a aprender como fazer vários tipos de tortas, bolos, musses e pâves. Isso me ajudava a passar o tempo, não gostava muito de televisão e não era ligada a computador como Jasper que ficava quase o dia todo no orkut.

Passei rapidamente creme hidratante no corpo após o banho e vesti um top vermelho e um shorts jeans, o calor estava torturante mas olhando pela janela podia ver que o céu estava começando a encher de nuvens. Só rezava para que não chovesse e se chovesse, que não fosse nada forte com trovões e raios, tinha trauma disso.

Carlisle não jantou em casa, iria ficar até tarde no hospital. Esme estava fazendo compras com Edward e provavelmente só chegaria mais tarde, então no jantar das dezenove e meia somente eu e Jasper comemos. Alguns minutos depois subi para o quarto e terminei um trabalho, quando comecei a ler um livro deitada na cama acabei pegando no sono e me desligando do mundo com as luzes ligadas.

Um trovão fez meus olhos se abrirem, assustada pulei da cama e descobri as luzes apagadas. A chuva estava forte e os raios iluminavam meu quarto, olhei para os lados atônita e levantei-me da cama procurando o interceptor para ascender as luzes. Meu coração estava disparado e só consegui respirar quando vi o ambiente iluminado e tive certeza que não havia ninguém perto de mim, nem abaixando o curto shorts que eu usava e nem me estuprando enquanto a chuva caia lá fora.

Abri a porta do quarto e olhei para o corredor escuro, precisava ir até a cozinha tomar um copo de água e procurar um comprimido para a dor de cabeça que estava me atingindo por causa do pulo que havia dado assim que me levantei da cama. Desci pelas escadas segurando com força o corrimão, um outro trovão estremeceu meu corpo e olhei para trás vendo a luz do meu quarto ascesa, e me convencendo de que não havia nenhum homem dos cabelos grandes aqui.

Um grito agudo escapou pela minha garganta quando trombei com algo na minha frente, braços fortes me seguraram e gelei virando minha cabeça lentamente para ver de quem se tratava. Meu corpo todo estava trêmulo porém rigido, prendi minha respiração e olhei para o homem a minha frente, não era meu estuprador, era o filho mais velho de Esme que tinha os olhos preocupados direcionados na direção do meu rosto pálido.

Soltei minha respiração abaixando minha cabeça com vergonha, ele era ainda mais bonito de perto e neste momento devia estar pensando que no mínimo eu era louca. Seus braços não me soltaram e meu rosto queimou, e não precisava me olhar no espelho para saber que estava vermelha como um pimentão.

Tentei liberar minha tensão, mas era impossível com ele tão próxima me olhando dessa forma, um trovão me fez estremecer novamente e fiz menção para me soltar dele tentando não demonstrar todo meu medo de noites chuvosas e trovejosas. Seus dedos afrouxaram-se para não marcar minha pele clara, mas ele não se afastou, manteve suas mãos em mim como se estivesse com medo que eu desmaiasse.

Em silêncio colocou a mão em minha cintura pondo-se ao meu lado, fiquei imediatamente rígida. Deus! Eu não o conhecia e ele estava me tratando como se me conhecesse a anos. Me fez andar enquanto um raio iluminava o ambiente, a luz da cozinha estava ascesa e só me perguntava que horas poderia ser, minha respiração começou a se acalmar e quando ele me sentou na cadeira meu coração voltou a bater normalmente.

— Me desculpe por trombar em você daquela forma. — Sussurrei depois de alguns minutos de silêncio, quando finalmente consegui levantar minha cabeça pude vê-lo no canto da cozinha, encostado na parede me observando. — Eu só... Tenho um trauma ruim com chuva forte, trovões e raios, é algo idiota então... Me perdoe.

— Está tudo bem. — Ele disse, sua voz era calma, não muito grossa porém sensual. — Você parecia bastante assustada, teve um sonho ruim? — perguntou. Ele estava tentando puxar assunto para tirar minha atenção dos meus pensamentos, dessa forma só iria me afundar ainda mais neles.

— Podemos mudar de assunto? — Indaguei, sempre que começava a falar nesse assunto acabava confessando algo que deixava as pessoas curiosas e querendo saber mais. — Me desculpe, sei que está tentando me ajudar, mas é que... O assunto me assuta, podemos falar sobre qualquer outra coisa, por favor?

— Se o assunto lhe assusta é porque nunca deve ter falado dele para alguém. — Disse, não era pergunta, era uma afirmação e apenas tornei olhar minhas mãos sobre a mesa batendo minhas unhas contra o vidro. — Ah, então... Você vai ficar aqui? — perguntou depois de alguns segundos em que o silêncio reinava no ambiente.

— Não. — Falei ficando de pé. — Somente vim buscar um copo de água, mas, minha sede passou. — murmurei, ele assentiu e caminhei até ele. — Sou Isabella.

— Sei quem você é. — Falou. — Ontem quando minha mãe lhe chamou para apresentá-la a mim você não estava na festa, mas ela lhe descreveu perfeitamente. Por que não ficou na festa? — perguntou, seus olhos eram calmos mas ao mesmo tempo pareciam anciosos e com sua pergunta não tive coragem de continuar encarando-os.

— Estava cansada.

— Foi para o seu quarto assim que cheguei, você tinha a expressão de quem estava desconfortável, exatamente como tem agora. — Afirmou, o fitei desconcentrada por suas últimas palavras, ele havia me visto na festa mesmo que eu não tivesse visto em nenhum momento seus olhos pousarem sobre mim.

— Não sabia que havia me notado. — Murmurei, envergonhada.

— Isabella, presto realmente atenção nas pessoas pelas quais me interesso. — Ele disse. Fiquei completamente muda, não havia resposta alguma para o que ele havia acabado de falar, depois de alguns segundos abaixei minha cabeça e girei meu calcanhares para me retirar da cozinha.

Quando finalmente cheguei ao meu quarto fechei a porta, a chuva havia melhorado um pouco, mas ainda havia raios e alguns fracos trovões. Fechei a janela e as cortinas, e silenciosamente me sentei na cama deixando a luz ascesa. Em noites de chuva era impossível dormir com a luz apagada, se sonhasse com algo o escuro ajudava para que aquilo se tornasse ainda mais real.

Rolei bastante minutos na cama grande até que minhas palpebras começaram a pesar e logo se fecharam.

Despertador. Coloquei o dedo sobre o botão vermelho e tornei a virar para o lado esperando dormir mais alguns minutos já que a noite havia sido perturbadora. Escutei alguém bater na minha porta e esfreguei os olhos confusa, ninguém costumava bater na porta do meu quarto tão cedo, ao menos que fosse para dizer ou fazer algo muito importante.

— Pode entrar. — Falei com a voz rouca que sempre ficava pela manhã, passei os dedos rapidamente pelos meus cabelos ondulados, puxando alguns fios embaraçados no trajeto até as pontas. Não foi Esme ou Jasper que entrou, foi Edward, meu corpo todo ficou completamente trêmulo e cruzei minhas pernas puxando o cobertor até meu pescoço e fitando-o surpresa.

— Vim ver como você estava. — Falou fechando a porta atrás de si, não tive o que responder, na verdade, estava tão surpresa que era incapaz de pronuciar alguma palavra coerente.