Hellcat

1 Capítulo 1


“Escute, minha filha,” ela disse,”e lembre-se das minhas ultimas palavras. Eu estou para morrer, minha querida. Eu lhe dou minha bênção e esta bonequinha. Você deve guardá-la consigo e nunca mostrá-la para ninguém. Se você estiver em algum apuro, simplesmente peça conselho à boneca.”

A minha mãe nunca deixou comigo uma boneca que me protege-se de maldições ou bruxas, na realidade, ela não me deixou nada, nem bens materiais ou lembranças, nem coisas suplementares, heranças fraternas no ramo de valores que são conselhos, sonhos, ideais ou mesmo saudades. Quando penso em minha mãe, penso numa pessoa mesquinha que não amou sua mãe ou filha, não amou ninguém se não a si mesma.

Tal desamor infelizmente ainda sinto, tal como a Vassilissa da história, sou alguém solitário e em meu meio tudo fede a rancor. Todas as pessoas mais próximas querem minha desgraça.

A começar por minha avó, uma velha, índia, rabugenta e gorda, com olhos caídos, cruéis. O rosto é muito marcado por rugas de expressão, olheiras sempre sinalizando pranto recente, sobrancelhas juntando-se e testa enrugada indicando aborrecimento, está sempre assim. Seus cabelos são grisalhos e bagunçados, bem aparenta uma velha que já sofreu muito, talvez não fosse assim antes de mamãe, digo, aquela mulher, sumir. Dizem que morreu.

Os boatos que se espalham é que aquela mulher hoje atua como prostituta numa grande metrópole para conseguir drogas, prefiro imaginar que morreu, minha cidade é muito pequena e boatos assim são fáceis de se espalhar, mas seu corpo nunca foi encontrado o que me faz oscilar.

Assim, em casa, tenho meu primeiro inimigo disfarçado: minha avó. Talvez por toda a desilusão que teve com sua filha, que foi, por sinal, alguém que muito amor deu e nenhum recebeu em troca, enfim, o maior passatempo da velha é fazer da minha vida um inferno, ela guarda muito rancor daquela mulher e desconta esse ódio em mim. Ela sofre muito e chora todos os dias preocupada com a filha prostituta e dependente química, quase nunca sai da cama a não ser para alimentar os seus, acredite, trinta e quatro gatos. Acho que perdeu a confiança para com os humanos e quer passar o resto de seus dias cuidando de gatos.

Chamo-me Vassilissa porque meu pai é russo, mas eu nunca o conheci. A outra grande diferença do conto de fadas para a minha vida é que sou feia. Uma adolescente magricela e baixinha, pareço décadas a menos de minha idade verdadeira e tudo isso é pouquíssimo perto do fato de ser filha da prostituta que fugiu de casa e neta da velha dos gatos, assim, eu já me acostumei com as gozações.

Certo dia, quando cheguei em casa da escola, minha avó me esperava com uma cinta, ela me bateu por quatro gatos terem morrido envenenados, segundo ela se eu os tivesse alimentado devidamente, eles não comeriam besteiras na rua, é sempre ela que alimenta os gatos, mas eu não preciso de culpa para apanhar, nunca precisei, aquela mulher que me deixou nessa vida miserável é a grande responsável por todo esse sofrimento, mas as pessoas não se importam com a verdade, elas precisam de alguém para sofrer por elas, todos sofremos, mas meu sofrimento tem que ser ainda maior para os demais rirem de seus sofrimentos pequeninos.

Certa tarde, uma gata de cor cinza, listrada e olhos amarelos entrou em casa. Minha avó a acolheu como fez com todos os outros, ela estava suja, eu tive de lhe dar banho, estava com fome e alimentei-a, estava com sede e lhe dei o que beber. Mas aquela gata era diferente, não se contorcia para fugir do banho, não escandalizava por comida e não via problema em beber água parada. Muitas vezes eu estava chorando no porão ou qualquer lugar vazio da casa quando minha avó dormia e ela se aconchegava como se dissesse aquilo que nunca alguém havia me dito desde que aquela mulher sumiu, algo como “pode contar comigo”. Por esses motivos, eu passei a ver aquele animal de maneira diferente dos demais e resolvi nomeá-la Bonequinha, é idiota, eu sei, mas uma Vassilissa solitária como eu precisava de uma bonequinha.

Na primeira semana que a gata apareceu, nos primeiros dias, eu não lhe dei importância, mas por volta do terceiro ou quarto dia ela se aproximava quando eu chorava, não demorou para que amasse-a, mas, no dia seguinte em que foi nomeada, a gata trouxe-me má sorte.

Era uma quarta-feira, dia trinta e um de agosto, eu havia acordado bem cedo porque no primeiro horário faria avaliação de química, sendo o assunto química orgânica me via na obrigação de tirar boa nota pois tenho vontade de cursar medicina ainda, não por gostar de medicina, mas por ser um curso difícil para os idiotas da minha cidade, eu passarei para perceberem que sou muito melhor do que todos eles.

Infelizmente eu não fiz a prova naquele dia, numa cidade pequena como a minha, um engarrafamento é sempre causado por um motivo realmente sério, foi o primeiro engarrafamento que enfrentei, um acidente de transito envolvia um carro, uma carreta e uma garotinha. Ao que tudo indica o carro fez a carreta capotar e prender a perna da menina na calçada, apenas ouvi os comentários dentro do ônibus que estava, mas pouco me importava a menina, o que queria era chegar a tempo para fazer a prova. Passou mais de uma hora com o transito parado, eu já havia perdido a chance de fazer uma prova, estava me perguntando como convencer o professor a fazer segunda chamada quando a criança passa por mim, distante, na maca, ela parecia ter os olhos fixos em mim, assustados, devia ter uns treze anos de idade, e me fez sair da minha questão egoísta para ter compaixão por ela, eu perdia a chance de fazer uma prova de química, ela corria o risco de ter uma perna amputada.

Eu tentei conversar com o professor sem sucesso algum. Pr. Edgar é um homem muito cruel e frio, ele me põem muito medo, seus olhos verdes por de traz do óculos pareciam querer me devorar, mas eu não entendia o que aqueles olhos queriam naquela época.

Quando cheguei em casa, muito cansada, minha avó havia feito uma lista de tarefas para que eu as cumprisse, eram tarefas absurdas como as tarefas que a bruxa mandava a Vassilissa fazer no conto de fadas, mas eu não precisei de uma boneca abençoada para cumpri-las, mesmo eu conseguindo a Bonequinha, ela nada fez se não olhar, eu limpei todas as fezes dos gatos, encerei o piso, lavei a louça com as vasilhinhas dos animais, limpei os olhos e as orelhas para evitar doenças, havia uma gatinha grávida no meio dos demais, eu não a havia reparado, todos os gatos dessa casa eram achados na rua, nunca um gato nascera aqui, a vontade de vê-la dar a luz me excitava. Terminei o serviço e fui dormir, nem mesmo alimentei-me, estava cansada demais, estava apenas deitada quando a velha saiu do quarto e fiscalizou se toda a tarefa havia sido cumprida, voltou para o seu quarto e algo me diz que estava chorando.

Sonhei com coisas estranhas, sonhei que estava em um navio velho cantando cantigas de piratas, velhos barbudos e rabugentos me forçavam a tomar rum e eu por um instante senti-me anestesiada, até no meu peito apertar uma dor que tenho para mim ser agustia, um deles parecia com a minha avó e me veio com um sorriso maligno.

- Srta. Vassilissa, agora para ingressar em nossa tripulação só lhe falta a perna de pau.

- Eu não preciso de perna de pau. — mostrei-lhe minha perna sadia, mas para meu choque ela estava amputada, tal como a perna da menina do acidente, eu não a sentia, estava com medo e eles queriam enfiar um pau na minha perna para me servir de apoio, por pura crueldade, as pessoas são tão cruéis, tão cruéis.

- Vamos, acorde, sua preguiçosa! — a velha gritava ao me sacudir. — Listo-lhe poucas tarefas em respeito ao seu cansaço e como me agradece? Faz tudo mal feito e dorme! Vá para a escola, agora, se não quiser levar uma surra, vá embora Vassilissa!

As palavras da velha ecoaram em minha cabeça durante todo o percurso, a sua imagem travestida em pirata tentando me machucar perseguiu-me durante todo o dia. Era intervalo quando eu tive uma alucinação muito medonha que me fez cair em pranto no corredor da escola, a menina do acidente, com a perna putrificando e cheia de lavas me observava no meio de todos os estudantes preocupados, minhas pernas ficaram bambas, eu caí de joelhos e comecei a chorar, todos no corredor pararam para olhar para mim e eu nem percebi, a menina estendeu uma perna de pau que encaixava na carne espetando-a, ela falou comigo;

- Deixa eu enfiar na sua perninha, deixa! — minhas mãos trêmulas vieram ao rosto e meu corpo todo estremecia, eu queria gritar, mas a voz não saiu.

Alguém pôs a mão sobre meu ombro e eu sabia que não devia olhar pois era algum dos piratas que ia ajudá-la a me ferir, mas fui curiosa e olhei para traz, este pirata parecia o Pr. Edgar, porque era o Pr. Edgar, depois de ver sua cara de preocupação notei que todos os alunos também estavam preocupados e me olhavam sérios. Será? Não eram apenas curiosos? Curiosos, claro, a curiosidade a respeito da desgraça dos outros faz do ser humano supostamente generoso.

O professor Edgar levou-me ao psicólogo do colégio que me confortou um pouco. Era tudo alucinação e eu só estava chocada com o acidente. Mais tarde Edgar veio falar-me e disse que ficou sabendo do acidente, marcaria uma segunda chamada comigo e isso me deixou bastante confortada.

Certo dia levei uma surra, porque dessa vez, sete gatos morreram, era misterioso como os gatos da casa vinham sendo envenenados depressa, porque alguém faria isso?

- Vedes, Bonequinha? Como o ser humano é cruel e hipócrita. Minha avó mal fala daqueles que maltratam os animais e maltrata muito a mim. — eu chorava. Bonequinha mais uma vez aproximou-se e me deu conforto. — Mas porque estão matando os nossos gatinhos, hein? Eles merecem muito mais respeito que pessoas.

No dia seguinte minha avó estava passando muito mal e tive de levá-la ao hospital, parecia ter ingerido algo que não lhe fez bem, talvez, tentaram matar a minha avó? Ou algo que consumimos como os gatos faz mal? Milhões de dúvidas surgiam em minha mente.

Outro dia Pr. Edgar conversou comigo a respeito da segunda chamada, seus olhos voltaram a ser cruéis, eu sabia que ele iria fazer algo incômodo, marcar a prova para o dia seguinte para eu não ter como estudar ou no mesmo horário de alguma aula importante.

- Será esta quarta-feira, querida. Umas quatro horas. — havia algo de errado, seu tom era tão mau, porque ele não fez alguma inconveniência.

- Meu turno é matutino, não tem como ser mais cedo, não posso ficar o dia inteiro no colégio.

- Não se preocupe com isso, querida. — odeio a maneira como ele tenta ser íntimo, agora sim eu havia sacado a jogada.

- É um feriado, quarta que vem é um feriado!

- É o horário que tenho disponível, se não quiser fazer a prova, diga logo, para eu pôr logo zero na sua nota. — meu silêncio lhe serviu como resposta. — Ótimo! — e se retirou.

Quando fui para a escola no dia combinado, na sala combinada, eu era única a fazer segunda chamada e o professor sorria quando entrei, estávamos só nós dois na escola e eu ainda não havia percebido o que se passava, ele trancou a porta disse sorrindo levemente.

- Vassilissa, queridinha, nada de pescas, entendeu?

- Eu não... vou pescar...

- Tire o casaco, quero ver se não há nenhuma cola por aí. — eu inocentemente atendi ao comando. — Sua camisa também pode trazer colas.

- Eu não vou tirar a camisa. Eu não vou pescar, só estamos nós dois aqui.

- Pois, Vassilissa, só estamos nós dois aqui, então tire a camisa, pode confiar em mim, eu sou seu professor. — Eu estava assustada, não disse e não fiz nada. — Pode confiar, Vassilissa.

- Eu não quero mais fazer a prova.

- Como não? Eu vim até a escola trabalhar sendo feriado. Tudo porque, Vassilissa? Tudo por você, meu amor!

- Eu não queria que a prova fosse hoje. — meus olhos lacrimejaram sem eu perceber.

- Então... Vamos deixar a prova para mais tarde! — num gesto rápido ele me agarrou pelos cabelos e me jogou com força no chão, pôs seu corpo pesado por cima do meu e uma das pernas compridas por cima do meu braço pequenino, eu não podia me mover e tudo que soube fazer foi gritar, inútil, a escola estava vazia, ele arrancava a minha roupa com violência e eu me contorcia e gritava sem sucesso, parecia que tudo o que fazia vinha agravando a situação, ele se excitava com a violência como me tomava, eu achava que alguém podia vir em meu socorro, qualquer pessoa.

Foi quando ele tirou o pênis ereto da calça e eu pensei que podia me ver livre de seu domínio com qualquer descuido, ele me deu duas bofetadas no rosto e me gritou para calar a boca. A imagem da menina acidentada voltou a minha mente “deixa eu enfiar meu pau na sua perninha, deixa!” tudo fazia sentido, parecia que ela queria me avisar, a imagem dela me assustou mais ainda, então veio a dor, meus olhos se enxeram de lágrimas, mas não de medo, de dor de verdade, nunca havia sentido isso antes, meus gritos passaram a ficar secos, não eram pedidos de socorro, eram, agora, expressão de muita dor, parecia me romper ao meio, eu queria me livrar da dor, mas se eu me mexesse machucava mais e ele estendia a dor com seus movimentos violentos, manteve meus gritos e sofrimento porque sentia prazer com isso, sentia prazer em ver uma criança chorar, gritar, sofrer e morrer, uma criança que morria em mim.

Ele terminou, levantou-se e vestia-se enquanto eu chorava sem mover-me, havia sangue, o sangue me assustou mais ainda, ele abriu um buraco em mim, por Deus, o que havia acontecido?

- Vamos, levante-se, não foi tão grave assim! — eu nem mesmo o olhava, não o olharia mais, ele abriu um buraco entre minhas pernas e acha que nada aconteceu? Eu não queria levantar, eu queria morrer ali mesmo. — Levante-se!! — gritou, enquanto puxava meus cabelos para que eu me levantasse. — Se contar para qualquer um o que aconteceu, eu não apenas a reprovarei, eu a matarei! Está me ouvindo? — eu não respondi. — Que diferença faz se você disser a alguém, hã? Você é uma inútil, insignificante! Ninguém nunca vai deixar de acreditar num professor, num doutor em química, para acreditar numa ninguém como você! Você é desprezível! Ninguém a ama, nem a puta da sua mãe a amou! Sabe o que vai acontecer se disser por aí o que eu fiz, sabe? Você vai virar uma puta que nem a sua mãe, ninguém vai defendê-la, vão chamá-la de puta e vão querer estuprá-la como eu fiz e você será vista como um bicho assim como a coitada da sua avó! — essas palavras doeram mais que o estupro, minhas lágrimas não secavam de maneira alguma, ele me expulsou da escola e eu não tinha para onde ir.

Vaguei pela cidade com as roupas rasgadas, chorando, não queria voltar para casa, não queria que me vissem, eu precisava de um esconderijo e recorri a um esconderijo que há muito tempo eu não usava, minha casa na árvore, não na casa da minha avó, porque lá não havia casa na árvore, eu tive de ir andando para minha casa antiga, do tempo em que a puta, digo, minha mãe, cuidava de mim.

Eu andei muito e por muito tempo, minha vagina e toda aquela região doía muito, minhas pernas passaram a doer também, meu corpo pedia para eu parar, mas minha mente estava me assustando e talvez andando eu sentia-me mais confortada. Quando cheguei na casa da árvore, só tive forças para subir as escadinhas feitas para uma criancinha e chegando lá em cima eu dormi, tive pesadelos e acordei várias vezes durante a noite. Fiquei muito tempo lá, minha vagina e minhas pernas doíam, não queria me levantar, queria chorar, pois era tudo o que sabia fazer naquela hora. Acho que passaram-se somente dois dias comigo naquele lugar, Bonequinha conseguiu achar-me na noite do segundo dia, dormimos juntas e ela me pareceu ajuda suficiente para tirar-me de lá, no dia seguinte acordei cedo e voltei para casa.

Quando cheguei em casa, com medo da surra que me esperava, encontrei minha avó dormindo profundamente, passaram-se horas, passou da hora do almoço e ia dar a hora do jantar e ela ainda não havia despertado, temia que ela estivesse morta, então chamei um doutor do plano de saúde da velha, ele fez todos os exames imagináveis e inimagináveis, mas a velha dormia, somente dormia. Eu nunca imaginei que sentiria saudade da velha, mas senti muita. Os gatos passaram a se comportar de maneira estranha, pareciam a Bonequinha com sua discrição na hora de comer, perderam a aversão ao banho, mas o pior, seguiam-me com o olhar para onde quer que eu fosse. A gata grávida que eu havia notado faz pouco tempo, estava prestes a dar a luz na madrugada, mas toda aquela angústia me fazia lembrar do estupro, então não quis ver o nascimento, antes eu queria muito ver isso, fui dormir, não consegui, na realidade, mas fiquei deitada pensando nos acontecimentos estranhos que sucederam, mais tarde levantei, mesmo sonolenta, pois já era hora de ir para a escola, Pr. Edgar não daria aula hoje então eu não tinha o que temer, eu tinha que ser forte para manter as aparências de que nada havia acontecido.

Foi muito difícil para mim ver toda aquela gente de novo parecia que todos iam me condenar a qualquer hora, eles me olhavam maliciosos e cada olhar me fazia estremecer, eles riam de mim e eu fui me sentindo tonta, queria voltar ao psicólogo da escola, mas eu tinha medo dele, eu tinha medo de todo mundo, eu saí correndo para casa, porque as pessoas são muito medonhas, meus gatos não, eles me apoiariam, claro que me apoiariam, meus gatos... meus gatos estavam mortos! Quando cheguei em frente ao portão a visão de mais de vinte gatos estirados na rua, mortos, assim como os outros, envenenados, ó céus! Quem poderia fazer uma crueldade dessas?

Eu deixei meu material cair na rua, levei minhas mãos trêmulas ao rosto e comecei a chorar, notei que um gato estava vivo, céus! Era Bonequinha! Graças a Deus, ela estava viva! Eu corri em direção a ela, mas ela fugiu, talvez estivesse prestes a morrer também, eu não podia deixar, precisava alcançá-la, precisava acudi-la.

Ela foi, inconscientemente, guiando-me por ruas estranhas, sombrias, mas nem eu dei importância, ela entrou num beco que eu bem sabia não ter saída, não ter saída para mim pois se ela quisesse saltar os muros ela o faria, mas não eu, então tinha de ser breve antes de perdê-la.

Quando me virei para entrar no tal beco, perdi a sensibilidade das pernas, caí ajoelhada e comecei a chorar enlouquecidamente,vi aquela mulher, ensanguentada, olhando para mim, estava me chamando, dizendo que eu era sua filha e nunca mais iria me deixar, céus! Eu nem ao menos lembrava seu rosto!

- Minha filhinha! Eu voltei para você!

Quando finalmente me recuperei do meu estado de paralisação, minha voz finalmente saiu, eu gritei com todas as forças que me restavam, criei mais forças ainda para me levantar e saí correndo, estava em total pânico. Eu me batia nas pessoas enquanto corria, eu nem as enxergava, só via os fantasmas que me perseguiram durante a semana, os piratas, a menina da perna amputada e agora as palavras de Pr. Edgar ecoavam na minha cabeça. “Ninguém a ama, nem a puta da sua mãe a amou!”

Atravessei uma rua sem perceber, o carro que ia passar freou em cima da hora, para não me atropelar, mas eu não percebi no meu estado de transe, então, duraram poucos segundos quando meu gesto rápido e inconsciente me sucedeu uma desgraça. Bonequinha estava do outro lado da rua, olhando-me, calma e com saúde, eu saí correndo e voltei a rua que eu tinha atravessado e quase havia sido atropelada, para ir ao encontro da gata, mas uma carreta caiu em cima da minha perna. O carro que tinha desviado de mim, atingiu a carreta e quando eu voltei a atravessar a rua fui atingida.

Alguma vez na sua vida, você sentiu dor? Eu sim, muitas vezes. Eu venho sentindo dor a minha vida inteira, a dor física de quando minha avó me surra, a dor da rejeição da minha mãe, a dor do desprezo que as pessoas me tem. Mas ultimamente essa dor vem aumentando desvairadamente, as alucinações, o estupro, mas a dor que estou sentindo agora é muito, muito forte. Minha perna vai ser arrancada de mim, como a perna da menina, e as pessoas não se importam nada comigo, até agora ninguém me acudiu, estou com medo de perder a minha perna, doe muito, não quero morrer.

Bonequinha ficou me olhando do outro lado da rua o tempo todo, imóvel. Depois de quase uma hora os médicos chegaram, eu fui colocada numa maca e fui tirada dali, eu estava tão assustada, a dor era tanta que estava em ponto de desmaiar, mas eu vi algo que me chamou a atenção, no meio dos carros que estavam no engarrafamento, muitas pessoas me olhavam, mas uma menina em especial me chamou atenção, num ônibus, sentada a janela, com expressão indiferente, essa menina me olhava, ela era eu! A semanas atrás, pronta para fazer a prova de química! Como pode? O que está acontecendo? Eu estava tão assustada e desmaiei com essas questões em mente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.