Hell on us
53 Passeio em terreno inimigo
Notas iniciais
POV Carl
[...]
Eu sabia o quanto aquilo era uma grande loucura, era arriscado e uma burrice fazer algo daquele tipo, mas eu não estava dando a mínima para isso. Eu não iria permitir que outra pessoa sofresse por causa de Negan e seus Salvadores.
Eu sei que eu poderia ser morto no segundo que eles me vissem ali dentro, mas eu precisava tentar matar aquele desgraçado e iria fazer isso de um jeito ou de outro.
Mesmo que isso custasse a minha vida eu iria dar continuidade ao que estava prestes fazer e não deixaria nada me impedir.
Ainda escondido no meio do monte de colchões e caixas que haviam sido colocados ali dentro eu não fazia a mínima ideia de onde estava indo, com aquela parte do caminhão completamente fechada foi difícil ter alguma noção do caminho que fazíamos; a única coisa que eu sabia era que ficava longe o bastante de Alexandria.
Levou um pouco mais de duas horas até que o caminhão foi parando aos poucos, ouvia agora várias vozes desconhecidas vindo do lado de fora daquele veículo e julguei que já havíamos chegado. Segurando a metralhadora com mais firmeza eu a deixei pronta para uso, durante esse tempo de estrada tive tempo o suficiente para pensar no que iria fazer e era bem simples; atiraria apenas em Negan o matando na frente de seus homens e se algo desse errado era só continuar atirando no restante do grupo os matando também.
Eles então começaram a descarregar o caminhão, dois homens começaram a tirar o que estava na frente deixando aos poucos o caminho mais livre. Continuei esperando pelo momento certo; eu queria apenas Negan, não eles.
Um homem negro e alto entrou e começou a tirar alguns colchões permitindo que eu conseguisse enxergar bem mais, eu não fiz questão de me esconder quando ele notou minha presença, antes mesmo que ele pudesse ter tempo para pensar em fazer alguma coisa eu simplesmente atirei nele e no segundo Salvador que estava do lado de fora.
Me levantei deixando a arma apontada para frente e comecei a sair do caminhão até dar de cara com mais homens do Negan.
— Para trás! — Gritei mostrando a arma e imediatamente todos eles levantaram suas mãos como um sinal de que haviam se rendido. Percebi que nenhum deles estavam carregando armas. Ótimo. — Eu só quero o Negan! Ele matou dois amigos meu e quero que ele pague por isso!
Nenhum deles disse uma só palavra, todos me olhavam surpresos, provavelmente por nem terem suspeitado da minha presença dentro do veículo.
— Puta merda garoto! — Negan finalmente apareceu, ele estava sorrindo como sempre enquanto se aproximava ficando a poucos metros de mim. Eu tenho uma boa mira, conseguiria acertá-lo mesmo naquela distância. — Você é mesmo muito adorável, olha só pra isso! Aposto que escolheu essa arma aí só porque ela é grande e parece ser foda pra caralho né? Que gracinha de moleque.
Eu não respondi, apenas levantei um pouco mais a arma deixando-a mirada na sua direção. Não deixaria que ele conseguisse me intimidar; até porque ele não conseguia fazer isso.
— Moleque eu não vou mentir, você me dá um puta medo! — Debochou. — Tá achando que é o senhor fo
Não suportando mais ouvi-lo eu não pensei duas vezes, senti a arma ficar mais pesada na minha mão e quando os tiros começaram a serem disparados de forma descontrola todo meu corpo foi jogado para trás fazendo com que eu caísse no chão. Porém eu continuei atirando. Iria matar Negan de um jeito ou de outro.
— Seu moleque de merda! Eu vou te matar!
Assim que levantei meu rosto tentando ver alguma coisa, vi o mesmo homem que tinha metade do seu rosto queimado vir na minha direção e com habilidade ele tirou a arma da minha mão me segurando pelos braços e fazendo com que eu ficasse de pé diante dele. Ele estava bravo, era óbvio que estava e mesmo me ameaçando eu não senti medo dele. Se fosse preciso iria matá-lo também. Erguendo o braço para o alto ele estava prestes a me bater quando Negan, segurou seu braço impedindo que ele fizesse aquilo.
— Não faça isso Paul! — O líder dos Salvadores olhou para o loiro. — Não vamos maltratar o nosso convidado!
Paul me soltou e tomou uma certa distância de mim e Negan.
— Queimem os mortos e amanhã continuamos a descarregar. — Ele se virou para me encarar. — E quanto a você moleque... Vamos, vem conhecer o lugar.
***
Já dentro do que seria um tipo de fábrica, o lugar era realmente muito grande e seguro; principalmente em seu interior. Conforme continuávamos caminhando encontramos um homem que mais ou menos uns quarenta e tantos anos, ele se aproximava de onde estávamos como se estivesse com medo; medo do Negan.
— Senhor, Molly ainda está doente, ela continua tossindo. — Falou evitando olhar diretamente para o homem ao meu lado. — Que tipo de medicamentos o senhor trouxe?
— Todo o tipo de merda da boa. — Negan o olhou. — Vamos catalogar tudo amanhã e bem, acho que você já tem pontos o suficiente para pegar a sua parte.
O homem sorriu.
— Obrigado Negan.
Aquele louco me olhou e indicou que continuássemos andando, subimos alguns degraus até que outro membro dos Salvadores apareceu.
— Bem vindo ao lar senhor Negan, vi o caminhão da janela do nível cinco. Precisava vê-lo imediatamente! — Ele parou na nossa frente. — Houve um problema, mas antes devo me preocupar com aquele tiroteio que ouvi?
Negan negou.
— Aquilo não foi nada. — Falou. — Espero que não seja nada relacionado a Amber.
O homem respirou fundo.
— Temo que sim.
Continuamos caminhando até que Negan fez uma parada levando uma das mãos para seu rosto, a outra se fechou fazendo um punho como se ele estivesse mesmo bravo.
— Que bosta. Isso é mesmo muito decepcionante, quero falar com ela primeiro e não façam nada com o Mark. Só fiquem de olho nele.
— Sim senhor. — O homem respondeu se afastando de nós e assim continuamos a a andar.
Eu não sabia o que ele queria fazer comigo, eu havia matado seus homens e tudo o que ele fez comigo foi me convidar para entrar na fábrica onde ele vivia. Negan era um homem imprevisível, não que eu estivesse com medo dele; se ele estivesse tentando me assustar não estava conseguindo isso.
Continuamos andando até que chegamos no que seria o segundo andar daquela fábrica, havia um extenso pátio onde vi várias pessoas e no segundo que perceberam a presença de Negan ali dentro todos se ajoelharam diante dele num sinal de respeito. Ou talvez medo.
— Vê isso garoto? Puro respeito. — Falou me olhando de esgueira e depois para todos os homens e mulheres que estavam ajoelhados.
— Por que não fala logo o que você vai fazer comigo? — Perguntei o olhando novamente, Negan virou o rosto também me olhando mas dessa vez com descaso e depois riu.
— Vamos deixar uma coisa bem clara aqui moleque, primeiro: Não estrague a imagem que eu tenho de você garoto, você é foda pra caralho e não tem medo de mim e nem de merda nenhuma. Isso é bem decepcionante. — Ele fez uma pausa parando na frente de uma porta e aos poucos começou a abri-la. — E segundo: Você acha mesmo que eu vou ser um idiota de merda e estragar toda a surpresa? Não, eu não vou fazer isso.
Assim que ele abriu a porta entramos num tipo de quarto, era um lugar bem decorado, havia duas camas naquele salão que agora servia como quarto, mas não foi isso que me deixou...surpreso? Eu contei umas cinco mulheres ali dentro e todas estavam usando apenas suas roupas íntimas, mudei a direção do meu olhar para não ter que olhar para aquilo e continuei prestando atenção apenas em toda aquela decoração exagerada.
— Pode olhar garoto, eu sei como se sente aqui dentro. — Negan riu. — Onde você mora não tem tantas mulheres bonitas assim, pode se acabar!
Eu bufei. Vi Negan caminhar até onde duas mulheres estavam sentadas, uma delas estava chorando enquanto a outra tentava consolá-la de algum jeito. Ele começou a conversar com ela, porém eu não consegui ouvir direito sobre o que se tratava. Tudo o que eu consegui entender daquela conversa foi que ele falou para uma daquelas mulheres avisar um tal de Carson para que ele preparar o ferro. Isso deveria ter algum significado?
— Vamos garoto. — Negan me chamou e então voltamos a andar até entrarmos onde seria seu escritório particular, ele também estava decorado da mesma forma exagerada que aquele quarto estava. — Feche a porta!
Fiz o que aquele louco mandou fazer e então me aproximei até sentar em uma das poltronas que ficavam de frente para ele. Negan agora me olhava como se estivesse curioso para saber alguma coisa, o mesmo sorriso doentio continuava em seu rosto até que lentamente ele se desfez.
— Então vamos começar logo com essa bosta. — Falou cruzando os braços. — Eu quero te conhecer melhor Carl. Primeiro eu quero que você saiba o quão esperto pra caralho você é, caso ainda não saiba.
Ele suspirou.
— Você deve ter quantos anos, uns quinze? Não sei, quem liga pra isso né? — Riu outra vez. — Eu esperava que uma criança como você saísse correndo por aí fazendo com que meus homens ficassem como idiotas perseguindo você, mas você não fez nada disso. Moleque eu tenho que admitir: você ficou muito bem comigo, até porque sabia que se fodesse com alguma merda eu iria atrás de você e quebraria esse seu lindo pescocinho de criança, certo?
Eu abri a boca para falar mas ele me interrompeu.
— Eu não ligo. — Falou de forma ignorante não me dando tempo para respondê-lo. — Você matou uns cinco ou seis homens meus agora pouco, são tantos que eu nem consigo contar direito, porra! Você fez a mesma merda que seu grupinho fez antes, tem alguma noção do que eu posso fazer com você moleque?
Eu não respondi, me arrumei na poltrona encontrando uma posição que mostrasse que ele não estava conseguindo me intimidar mesmo estando me ameaçando a cada oportunidade que ele encontrava.
— Não, quer saber? Não dá pra conversar com você desse jeito, parece até a porra de um presente de aniversário. Vamos, tire essa merda logo do seu olho, eu quero ver o que a vovó comprou pra mim nesse natal!
— Não. — Respondi ainda olhando-o. — Eu não vou tirar e você não vai me obrigar a fazer isso!
Negan estreitou seu olhar mudando rapidamente seu humor e sua expressão; parecia estar bravo agora.
— Você matou meus homens e quer mesmo sair dessa sem receber uma punição? Quer mesmo me irritar? — Perguntou se inclinando para frente. — Nada me impede de pegar alguns homens e voltar lá naquele monte de merda que você e os outros chamam de lar e escolher um deles pra morrer não é?
Negan se inclinou sobre a mesa sorrindo de uma forma mais larga.
— Quem sabe se a escolhida não seja aquela menina que gritou como louca quando eu matei o amigo dela, ela parece se importar muito com você, me diz uma coisa: ela é a sua namoradinha? — Perguntou erguendo uma sobrancelha, ele conseguiu me provocar. — Aposto que é, você ficou todo vermelho quando perguntei sobre ela.
Eu respirei fundo, sabia que ele poderia mesmo fazer aquilo e não podia deixar que mais pessoas fossem mortas por ele. Levou um tempo até que finalmente cedi, não queria tirar o curativo do meu olho por saber o quão nojento era aquilo. Mas se eu não fizesse isso Negan iria voltar para Alexandria e mataria mais uma pessoa por minha causa; ele poderia matar Ayla por minha causa.
— Eu tiro. — Falei soltando um longo suspiro. Tirei meu chapéu colocando-o no meu colo e então aos poucos comecei a finalmente tirar o curativo que cobria o lugar do tiro que levei, tomei cuidado enquanto tirava até que finalmente senti toda aquela área exposta.
Voltei a olhar para Negan e não soube dizer se ele estava surpreso ou se estava espantado por ver como que meu rosto ficou depois do tiro. Quando o vi abrir um enorme sorriso me senti completamente envergonhado, eu não gostava que ninguém visse aquilo, até mesmo quando eu ia trocar o curativo junto com Ayla ela insistia em olhar; mesmo que ela não se mostrasse incomodada com a aparência nojenta daquele machucado eu não gostava que ela visse como ele era.
— Puta que pariu cara! Não é à toa que você cobre essa merda aí, você tem uma aparência nojenta! Já se olhou no espelho? — Negan estava com seus olhos arregalados enquanto me olhava, aquilo me incomodou profundamente. — Eu posso ver a porra do seu crânio, agora eu quero tocar. Posso tocar?
Eu o olhei sem acreditar no que havia escutado, aquele homem era um tremendo de um louco doente. Me levantei da poltrona com rapidez e mesmo tentando olhá-lo o mais nervoso possível eu senti uma lágrima subir em meu olho, porém antes mesmo que ela pudesse pensar em sair eu limpei torcendo para que Negan não tenha notado que eu quase chorei na frente dele.
— Oh, você ficou triste. — As feições de Negan mudaram imediatamente. — Eu não queria ter te chateado desse jeito, é fácil se esquecer que você é uma criança... na verdade um adolescente né. Mas quem liga pra isso quando estamos no meio de uma merda?
Ele iria continuar a falar quando um homem abriu a porta da sala o interrompendo no mesmo momento, suspirei um pouco mais aliviado por saber que não ouviria as piadas daquele cretino por alguns minutos.
— Desculpe interromper Negan, mas você deixou Lucille no caminhão e eu sei como você não gosta de ficar sem ela...
— Brincou né? — Negan se levantou na mesma hora e caminhou em direção ao homem que segurava o taco de baseball; pelo visto Negan não era o único louco que tratava aquele objeto como se fosse uma pessoa. — Eu nunca faço isso. Acho que um garoto atirando como louco com uma metralhadora é uma bela de uma distração.
O homem parado na porta me olhou por alguns segundos e diferente de todos que já haviam me visto daquele jeito, ele não pareceu nem um pouco surpreso com a minha aparência, sequer pareceu ligar.
— Eu espero que você a tenha tratado como uma dama. — Negan pegou o taco de baseball com cuidado. — Foi gentil e bondoso com ela?
O homem agora parecia um pouco assustado.
— É... Eu fui sim senhor. — Respondeu sem jeito. — E antes que eu me esqueça, o ferro já está pronto senhor.
Isso pareceu deixá-lo animado.
— Ótimo! — Negan abriu um sorriso extremamente largo em seu rosto. — Junte todos lá em baixo e preparem tudo, estarei lá em um minuto!
***
Ao chegarmos no pátio principal da fábrica, Negan foi recebido com o mesmo "respeito" de antes. O pátio estava quase que completamente cheio, tanto homens quanto mulheres que estavam presentes ali mantinham uma certa distância do centro; onde havia cinco homens em volta de uma cadeira onde um homem estava amarrado.
— Segura ela pra mim moleque! — Negan me estendeu Lucille para que eu a segurasse e assim o fiz, claro que não a tratei como uma dama até porque aquilo era apenas um simples objeto. Um objeto que matou Glenn e David bem na minha frente e que tenha matado bem mais pessoas. — O que todos vocês estão prestes a presenciar aqui é bem desagradável, não precisa ser e também nem precisa acontecer. Puta merda, como eu queria que não acontecesse. Eu queria ignorar as regras, mas não posso e porque não posso?
— As regras nos mantém vivos! — Todos que estavam ali disseram a frase em uma só voz.
— Isso mesmo. Nós sobrevivemos, nós damos segurança aos outros, nós trazemos a civilização de volta a esse mundo. Nós somos Os Salvadores! — Vociferou alto o bastante para que todos ouvissem, Negan já estava perto do homem que estava amarrado na cadeira e colocou luvas (daquelas que usamos quando vamos cozinhar) e esperou. — E não podemos fazer isso sem as regras, elas fazem com que tudo funcione!
Continuou.
— Não importa se são regras pequenas e insignificantes, elas devem ser seguidas e isso vale também quando eu escolho uma nova esposa! — Assim que ele disse isso eu olhei para as mulheres ao meu lado. Tudo estava começando a ter um pouco de sentido agora. — Eu sei que para muitos isso pode ser um comprimido difícil de se engolir, mas é assim que funciona por aqui!
Dois homens seguraram uma vara de ferro e tirando sua ponta de uma fornalha pude ver que havia um objeto pendurado nela; um ferro de passar roupas. Negan usou a mão vestida com a luva para segurar o ferro e então se aproximou do homem amarrado na cadeira.
— Desculpa Mark, é assim que as coisas funcionam por aqui.
Dito isso, Negan segurou um lado da cabeça do tal Mark e então aproximou o ferro quente queimando metade de seu rosto; algumas pessoas arregalaram os olhos com a cena horrenda que havia acabado de acontecer enquanto outras sequer demonstravam alguma reação. Negan se afastou um pouco do homem que teve metade do seu rosto queimado deixando que todos que estavam ali vissem como estava sua aparência naquele momento, seu rosto estava da mesma forma que o rosto do loiro que havia nos atacado no mercado um tempo atrás.
— Mark irá carregar para sempre a vergonha de seus atos, todos saberão o que ele fez.
É, tudo começou a fazer um pouco mais de sentido naquele momento.
...Alexandria...
POV Ayla
[...]
Já estava anoitecendo quando Rick finalmente decidiu voltar para casa, depois da visita inesperada de Negan e seus Salvadores em Alexandria foi difícil não ouvir comentários sobre o quanto Rick era um homem fraco por estar permitindo que os Salvadores fizessem tudo o que queriam conosco. Acho que as únicas pessoas que não estavam dizendo essas coisas eram os que estavam com ele desde o começo de tudo aquilo.
Eu não sabia como deveria agir em situações como aquela, até mesmo Carl já não parecia mais ter fé em Rick e logo mais todos em Alexandria poderiam ter essa mesma opinião sobre ele; mas o que eles queriam que Rick fizesse? Ele não poderia simplesmente sair matando todos os salvadores, seria burrice fazer isso e já havíamos pagado o preço por ter matado uma boa quantidade de Salvadores bem antes de Negan ser apresentado para nós.
Era verdade que Rick talvez esteja sendo fraco, mas era verdade também que se nós não fizermos o que Negan queria mais pessoas seriam mortas. E acho que ninguém queria isso.
Michonne estava preparando o jantar quando o pai de Carl entrou na casa, eu estava junto com ela na cozinha com Judith em meu colo enquanto a distraía com um brinquedo velho que havíamos encontrado semanas atrás; na verdade era uma caixa pequena que quando aberta saía um palhaço de dentro, mas como ele estava quebrado era preciso puxar o palhaço para que ele pudesse sair.
A irmã mais nova de Carl segurou a caixa com as duas mãos pequenas e a bateu no balcão fazendo barulho, acho que ela fez isso para chamar a atenção de Rick que até o momento não estava a olhando e no segundo seguinte em que ela fez aquilo passou a olhá-la dando-lhe a devida atenção que ela queria. Agora que estava recendo a atenção do pai ela começou a bater a caixa com o palhaço com um pouco mais de força como se quisesse mostrar que havia aprendido a fazer aquilo e Rick como um pai orgulhoso apenas riu da cena.
— E o Carl, onde ele está? — Rick perguntou olhando diretamente para mim já que eu passava boa parte do tempo com ele.
— Ele disse que iria treinar a leitura e deve estar trancado no quarto até agora. — Falei.
— Melhor chamar ele, o jantar já está quase pronto. — Michonne lançou um olhar rápido, porém carinhoso para Rick que correspondeu da mesma forma. Olhei para os dois brevemente e me senti um pouco sem jeito com aquilo, ainda não estava completamente acostumada em saber que Rick e Michonne agora era oficialmente um casal e levaria um tempo até que eu estivesse completamente acostumada com as inúmeras troca de olhares que eles viviam trocando.
Rick se levantou e caminhou até a escada parando no primeiro degrau e então chamou por Carl, ao não obter nenhuma resposta ele chamou por ele mais duas vezes e na terceira já estava subindo. Ainda no meu colo Judith deu uma resmungada, provavelmente por já estar com fome. Caminhei até a mesa e antes que eu pudesse me sentar Rick desceu os degraus da escada com tanta pressa que assustou não só a mim como também a Judith e Michonne.
— Ele não está na casa! — Rick parecia ter sido pego pelo desespero. — Ayla sabe de alguma coisa?
Eu me surpreendi com a pergunta.
— Não, ele não disse nada.
Rick começou a andar de um lado para o outro como se estivesse perdido ou algo parecido, ele parou, levou uma das mãos até seu rosto e soltando um longo suspiro fechou os olhos como se estivesse cansado. Não era possível que Carl tinha simplesmente sumido sem mais nem menos e pelo que parecia já fazia um bom tempo que ele estava sumido e só fomos perceber porque iríamos jantar. Se não fosse por isso talvez só iríamos descobrir no dia seguinte.
— Ayla ele disse mais alguma coisa a você? — Rick novamente perguntou me olhando, ele parecia extremamente preocupado com o sumiço do Carl e não era pra menos.
— Não, ele disse que só iria vir pra casa e ler!— Falei. — Nada além disso.
O pai de Carl andou até a mesa de centro onde ele havia colocado sua arma quando ele entrou em casa e pegando-a novamente a colocou no cinto vestindo sua jaqueta, estava pronto para sair quando Michonne o interrompeu.
— Não vai sair agora não é? — Perguntou já preocupada também. Rick apenas a olhou como se a resposta para aquela pergunta fosse óbvia. — Rick, nem sabemos o que houve... Se ele foi levado ou se simplesmente fugiu. Precisamos pensar um pouco!
— Levado? — Ele virou o rosto olhando-a outra vez, parecia estar pensando em alguma coisa. — Negan esteve aqui quase que o dia todo, ele pode ter levado Carl e nem percebemos!
Levando as duas mãos para o rosto outra vez Rick bufou parecendo ficar mais cansando, eu e Michonne trocamos um longo olhar até que ela caminhou até a sala onde sua katana estava e colocando-a nas costas caminhou até o lado de Rick.
— Vamos procurá-lo. — Falou decidida. — Ayla, fique aqui e nem pense em sair daqui de dentro sozinha. Vamos avisar mais alguém sobre isso?
Rick a olhou e balançou sua cabeça em afirmativa.
— Daryl sabe rastrear, ele pode servir de grande ajuda, mas não podemos alertar todo mundo, não agora. — Falou respirando fundo. — Por enquanto vamos só chamar ele e deixar Abraham e Sasha cuidando das coisas por aqui. Não vamos deixar esse pessoal mais preocupado do que já estão.
Michonne concordou.
— Ayla, fique aqui e cuide da Judith, por favor. — Rick me olhou novamente. — Vamos sair de Alexandria e se nesse tempo que estivermos fora acontecer qualquer coisa já sabe o que fazer.
Balancei minha cabeça fazendo um sim. Rick estava com medo de sermos atacados?
— Proteger Judith. — Respondi.
— E se proteger também. — Ele me corrigiu saindo pela porta sendo seguido por Michonne.
POV Carl
[...]
Depois de presenciar aquela cena horrenda de Negan queimando metade do rosto de um de seus homens, havíamos voltado para o mesmo quarto em que estávamos antes. Me sentei na mesma poltrona de antes apenas esperando pela próxima ação maluca daquele homem.
— Posso cobrir meu rosto? — Perguntei já incomodado por ter passado tanto tempo com aquele ferimento exposto.
Negan se virou na minha direção e começou a rir.
— Mas nem fodendo! — Respondeu alto. — Quero continuar olhando esse seu buraco aí no seu rosto.
— E por que não caralho? — Gritei nervoso, já não estava mais aguentando tudo aquilo. Não estava mais suportando ficar com ele.
— Ei ei, —Negan levantou suas mãos em sinal de defesa. — Olha só quem está achando que é o fodão de tudo! Que maneiro!
Ele riu outra vez. Levou exatamente um segundo, Negan já estava bem na minha frente segurando meu rosto forçando para que eu o olhasse. Sua expressão estava diferente.
— Não pode cobrir essa merda porque eu ainda não terminei com você! — Ele soltou meu rosto aos poucos. — Você é esperto, sabe que eu não posso te deixar ir embora. O que eu devo fazer contigo? Passar o ferro na sua cara? Esmagar sua cabeça com minha querida Lucille?
Ele colocou um dedo no queixo de forma pensativa.
— Você tem alguma sugestão? — Me olhou.
— Eu acho que você deveria pular da janela e me poupar do trabalho de te matar!
Negan ficou alguns segundos em silêncio até que começou a gargalhar de forma escandalosa e descontrolada. Como o perfeito louco que ele era.
— Garoto eu tenho que admitir, você é do caralho. — Continuou rindo. — Mas a verdade é que eu te olho e tenho uma baita dificuldade em pensar em alguma punição que seja pior do que essa que você teve.
Uma pausa.
— Eu quero saber... Como foi que essa merda aconteceu com você. — Negan se afastou sentando na poltrona ao meu lado, ele a virou fazendo com que ela ficasse de frente para mim. — Anda logo, me conte como foi que essa merda aconteceu com você. Estou curioso pra caralho!
No mesmo segundo que ele disse isso senti uma leve dor de cabeça; parecida com a que eu havia sentindo um dia antes de irmos para Hilltop, fechei meus olhos respirando fundo. Negan gritou um 'anda logo' me obrigando a contar como eu levei o tiro e contei, não dei muitos detalhes de quem havia atirado até que ele me forçou a dizer quem foi.
— Quem diria... Deve odiá-la por isso né? — Negan continuava com o sorriso em seu rosto. — Imagino como deve ser pra você, sempre olhar na cara dela e lembrar que foi ela quem deu o tiro certeiro no seu rosto.
— Foi um acidente! — Bati a mão na mesa fazendo ele me olhar com os olhos levemente arregalados. Ele estava conseguindo fazer com que eu conseguisse ficar irritado a todo momento.
— Calma aê moleque. Eu só estou brincando. — Falou, seu sorriso se alargando mais. — Acho muito fofo vocês dois: O nosso futuro serial killer de um olho só tem uma namoradinha que pode seguir esse mesmo caminho, que meigo.
Riu.
— Você até que teve sorte, já garantiu uma namoradinha mesmo tendo o rosto todo ferrado assim — Ele fez um gesto mostrando o lado onde eu havia levado o tiro. — as meninas gostam disso, gostam de ver quando você parece ser perigoso. A sua namoradinha deve ficar amarradona em você, eu não cobriria essa merda se eu fosse você, mas né, quem quer olhar pra essa porra na sua cara? Ninguém!
Meus pensamentos se afastaram por alguns instantes, Negan continuava tagarelando coisas completamente inúteis e sem lógica alguma, mas não perdia a oportunidade de fazer alguma piada de mau gosto de vez em quando. Imediatamente me arrependi por estar naquele lugar, depois das coisas que vi ali eu só conseguia pensar em voltar logo para casa.
POV Ayla
[...]
Abri meus olhos devagar enquanto ouvia a porta sendo aberta, assim que vi Rick e Michonne entrarem percebi que ainda estava deitada no sofá com Judith dormindo em meu colo. Não me recordava de ter esperado eles até de madrugada. Aos poucos fui me levantando até ficar sentada e arrumei Judith em meu colo para que ela não acordasse por minha causa, assim que eles me olharam os dois pareceram se surpreender por me ver ainda acordada mesmo estando já tarde.
— Ayla o que faz ainda acordada tão tarde da noite? — Michonne e Rick se aproximaram. — Já era para você estar na cama.
Eu me levantei do sofá olhando para Rick, ainda sentia meus olhos pesados por causa do cansaço e das poucas horas que consegui dormir e percebendo isso ele logo pegou Judith.
— Eu estava esperando vocês. — Respondi bocejando. — Encontraram ele?
Nenhum deles responderam, até porque eu já sabia qual era a resposta e bem, Carl não havia entrado com eles. Já estava meio óbvio que eles ainda não haviam o encontrado. Caminhei até a escada subindo o primeiro degrau, estava sendo seguida por Michonne e Rick que subiam logo atrás de mim.
— Vamos sair pela manhã e procurá-lo de novo. — Rick respondeu, sua voz ainda mantendo o mesmo tom preocupado de antes. — Vamos encontrá-lo, Ayla. Eu sei que vamos.
Balancei minha cabeça positivamente me sentindo ainda mais cansada, meus olhos se fecharam lentamente enquanto eu continuava subindo. Queria dormir logo.
— Quando encontrar ele eu vou dar uns tapas nele por ter feito isso. — Outro bocejo. — Eu mesma vou dar uma lição nele...
Caminhando de olhos fechados eu acabei tropeçando em um degrau, por muito pouco não caí de cara no chão. Segurei no corrimão antes que isso acontecesse.
— Ok nervosinha, eu te ajudo. — Michonne passou o braço pela minha cintura e me guiou até meu quarto. Não lembro de muita coisa naquela noite, só sei que assim que deitei, fechei meus olhos imaginando no tipo de coisa que deveria estar acontecendo com Carl.
E se Negan realmente o levou? O que ele iria fazer com ele? E se ele morresse?
Que merda Carl, o que deu em você?
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