Hell Reborn: Katherine Leffay
2 Desabafando
Dizem que muitos adquirem o que chamamos de "estresse" por vários fatores.
Seja por esforço excessivo, a realização de uma única tarefa sendo feita várias vezes seguidas todos os dias, ou continuar apegado ao passado pensando nele constantemente.
Nesse caso, acredito que essas três coisas se enquadrem perfeitamente, fora é claro outros fatores.
Em meu ramo de trabalho...bem, isso é um tanto normal por assim dizer.
Katherine Leffay é o meu nome, sou o que pode se chamar de exorcista, embora não exerça essa função já faz algum tempo.
Embora seja um trabalho, o pagamento não é lá dos melhores, fora que existem poucos nesse ramo, menos concorrência seria melhor não é verdade?
Mas graças á isso não tenho com quem conversar a respeito, para poder descarregar e compreender melhor a minha sanidade mental...
Consultório Psiquiátrico — Águas Tranquilas — Norte do Kansas 14:37
Ocasionalmente participo de algumas sessões de terapia mental, para não colapsar.
Harold me diz que 70% dos casos terapêuticos são resolvidos com maestria, através do tratamento adequado e frequente presença nas sessões.
Mas duvido que algum profissional com jaleco e conhecimento específico sobre a psique humana possa me orientar.
— Será que poderia acender um cigarro?
Leffay perguntou já com o maço em suas mãos, o psiquiatra permite empurrando o cinzeiro para sua direção, por sua vez com um deles já em sua boca ela cruzou suas pernas enquanto o acendia.
— Senhorita Leffay, pelo o que consta na ficha que você mesma trouxe, diz que presenciou o assassinato de uma conhecida isso é verdade?
— Já presenciei vários, deveria ser mais específico.
O médico por sua vez permaneceu calmo com a resposta leviana de Leffay, sendo um profissional dessa área ele já havia escutado casos parecidos e até mesmo piores.
— Pelo o que consta se trata de "uma figura materna" mais precisamente a madre superiora quem cuidou de você em um orfanato, isso é verdade?
— Estamos chegando em algum lugar... — Leffay continuava distraída olhando diretamente para o médico -
— Se presenciou o assassinato de uma pessoa importante em sua vida, conversar pode fazê-la entender melhor a situação, se você por acaso se culpa por isso, saiba que não precisa se preocupar, a culpa não foi sua.
— Ótimo, então vamos pular para essa parte.
Infelizmente para mim essa parte quase nunca chega de imediato.
— Por quê não começa contando a história de sua ótica, fichas médicas podem ser imprecisas as vezes.
— Então vamos lá...Por volta de 1500, mulher é encontrada esquartejada e crucificada dentro de uma igreja, a única vítima uma jovem inconsequente que não sabia no que estava se metendo.
— Com 1500 você quis dizer uma data específica? As pessoas tendem a ofuscar algumas informações para tentar se prevenir de um possível trauma.
— Não não, o século 16 foi uma época conturbada, mas bem simples, você deveria estar lá foi uma loucura depois da reforma protestante, pessoalmente eles estavam certos, uma pena que levou quase 100 anos para perceberem que queimar mulheres inocentes e escravizarem pessoas de cor eram coisas ruins, sei que as pessoas levam um tempo para aprender com os erros, mas isso é realmente uma piada de mau gosto não acha?
Leffay continuava a cuspir alguns fatos históricos que confundiam o médico que estava atendendo-a.
O mesmo coçava o seu pescoço pensando em uma maneira de lidar com aquela situação.
— Então vamos lá, esqueça esse potencial episódio traumático em sua vida e vamos voltar um pouco na roda do tempo, porque não me fale a respeito de sua infância.
— Pfft minha infância, o que uma garota do século 16 faria naquela época? Nem mesmo as mulheres podiam trabalhar naquela época que já eram desprezadas.
Mesmo assim, éramos nós que fazíamos o trabalho obscuro.
— Então se achava desprezada naquela época?
— Então o Senhor está começando a acreditar em mim? — perguntou ela duvidando daquela conversa -
— Digamos que estou apenas tentando entrar em seu jogo. — justificou ele -
— Heh... eu era uma criança naquela época lembrar dos detalhes seria um pouco difícil para mim, ainda mais se tratando de algo de bem 6 séculos atrás, antes de vir para cá a vida era bem tranquila, apenas eu, a irmã superior e as outras freiras em um orfanato católico.
— E nesse orfanato, você tinha uma vida tranquila?
— Claro que sim, nenhum demônio ousaria invadir um lugar tão sagrado o quanto, as pessoas tendem a construir bunkers para evitar o perigo maior, mas nenhum lugar consegue superar a proteção de um convento religioso.
— Então se sentia protegida quando estava no orfanato?
— De fato, mas aí tudo desandou quando...cheguei a minha adolescência, uma maneira um tanto esquisita de se dizer já que nós mulheres éramos doutrinadas desde que éramos pequenas então apenas atingi a maioridade por assim dizer, já contei essa história para muitos psiquiatras então vou direto ao ponto, eu sei que foi um demônio que a matou.
— Por demônio você quis dizer o assassino da madre superiora que cuidava de você.
— Eu sei que foi, vejo o rosto daquele desgraçado em meus sonhos, como se estivesse rindo de mim.
E eu sei que aquele desgraçado está por ai, não só brincando com a minha mente mas torturando almas inocentes.
— Ele fedia, como um abatedouro de gado.
— Entendo...
O médico continuou fazendo suas anotações enquanto Leffay aproveitou a oportunidade para acender mais um cigarro.
— Senhorita Leffay, se essa conversa não está do seu agrado não precisa me revelar mais detalhes, porém baseado no que me disse você ainda se considera culpada pela morte dessa mulher que com certeza significou muito em sua vida.
— Por favor...
— A ideia de converter o assassino em um demônio é a prova, a personificação do mal, afinal, somos todos impotentes contra demônios.
— Heh...nem todos nós meu amigo.
— É verdade...Você mesma me trouxe essa ficha, pelo o que posso ver você trabalhava como exorcista, ocultista, demonologista e ...Mestre das artes místicas?
— Ah não, isso é apenas um atrativo, tenho que atualizar meu portfólio. — disse ela descontraída —
— Em todo caso, não estava em seu controle, você era jovem, não poderia evitar a morte da mulher--
— Cecília! O nome dessa mulher é Cecília...
Leffay se enfureceu brevemente com o tom do médico ao citar a palavra mulher daquela maneira, para ela soou como um insulto para a pessoa da qual estava falando.
— Eu suporto a morte dela, posso lidar com isso, ela sempre me disse que era algo inevitável, mas é quem a matou e qual o motivo de ter feito isso, a falta da verdade que me corrói todos os dias, ela não pode descansar enquanto eu não resolver esse mistério.
— Leffay, é a hora de encarar os fatos...
— "Ela sempre esteve no caminho, ela foi avisada..."
— Está se ouvindo por acaso?
— "Esse empecilho foi resolvido, você será a próxima..."
— Leffay, não existem demônios.
TAP
— É ISSO QUE VOCÊ ACHA?
Enfurecida ela bate fortemente na mesa, assustando brevemente o médico.
— Em todas as consultas acabo sempre caindo nesse mesmo dilema...então por favor...me faça acreditar nessas palavras...
[...]
Após alguns minutos em sua sessão, com uma pasta em mãos Leffay se retirou do consultório.
Do lado de fora um homem de meia idade a aguardava.
Suas roupas eram bem sofisticadas para estar em um lugar tão casual, em sua frente um carro clássico, um Dodge Dart 64 de cor preta do qual ele estava apoiado.
— E então? Já está curada? — perguntou o homem com a voz rouca —
— Ele acha que sou mentalmente desequilibrada com traumas mal resolvidos e tendências psicóticas.
— Hmm, uma definição quase precisa se me permite dizer.
Harold sempre com suas provocações pós tratamento, ele é a razão pela qual estou aqui nesse momento, afinal, me trouxe aqui contra a minha vontade, como todas as vezes...
— Aqui.
O homem jogou um pequeno montante de dinheiro enrolado em um elástico para a mulher.
— Parece que os resultados foram favoráveis hein... — disse ela após contar o dinheiro e guardá-lo para si -
— O que posso dizer, talvez teria feito um pouco mais se fosse ousado, mas não sou um apostador assíduo, devo agradecer pelo reforço das suas visões.
— A clarividência não é uma arte precisa, ela apenas antevê o resultado mais provável de se acontecer, contudo, no nosso mundo, o destino sempre trabalha de maneira misteriosa...mas algumas vezes consegue nos enriquecer.
Ambos então entram no carro, Leffay colocou sua pasta no branco da frente enquanto se sentava no banco de trás de maneira relaxada acendendo novamente outro cigarro.
— Só não apague-o no teto, acabei de limpar.
— Relaxa, eu prometi não fazer isso ,sei que você tem um grande cuidado com os seus "bebês".
— Sei, mas ainda assim você continua fazendo isso.
— Força do hábito meu amigo.
O homem olhava seriamente pelo retrovisor, ela por sua vez se aproxima da janela com seu cigarro em suas mãos, indicando que de fato não iria fazer aquilo novamente, por sua vez ele ligou o carro e deu partida.
— Ao menos parece mais animada, assim eu espero, afinal tem que estar disposta para mais um trabalho.
— Trabalho? Sério? Só o fato de ir nessa terapia já foi uma tortura para minha alma.
— Da última vez eu te peguei bêbada em uma sarjeta então você me deve por ter te arrastado.
—Jura? Essa é a sua versão? Vai ver eu estava relaxando apenas, ou quem sabe no meio de uma investigação importante da qual você acabou me atrapalhando.
— Hmph, Katerine Leffay se dedicando a uma investigação, isso sim seria algo incrível não acha?
Heh...mais do que imagina meu amigo...
Até o momento, estou vivendo em uma grande investigação, da qual acredito estar bem longe da resposta...
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