Helena

1 Prólogo.1 * Helena.


Notas iniciais
Primeira coisa que eu tenho coragem de postar por aqui, espero que gostem do início dessa nova história *-*.

Estava pintando, concentrada. Fazia tempo que eu não pegava em um pincel, mas apesar disso os traços escorriam com destreza por cima da tela. Ouvi o toque de mensagem do meu celular em algum canto do quarto.

Ele tocou mais uma vez.

E mais outra.

— Meu deus. – Joguei os pincéis dentro de um copo com água, frustrada. Ótimo, não retomaria o ritmo de novo.

Procurei o celular por toda a mesa, entre pincéis e lápis de cor só para descobrir que estava jogado na cama o tempo todo, bem na minha cara. Parabéns, você encontrou o tesouro. Peguei o celular daquele meio de cobertores embolados um nos outros e percebi – com muita surpresa – que não eram mensagens da operadora.

“Helena? Acordada?” Eram mensagens do Leo, meu melhor amigo.

“Olha, vamos fazer uma reunião aqui em casa amanhã de tarde, pra jogar vídeo game e comer batata frita. Você vem?”

“ E não me ignore, eu poderia estar morrendo.”

“Poderia mesmo. Iria ao seu velório só se tivesse bolo. Vou ver com minha mãe, depois te ligo pra confirmar.”

“Ok... Mas eu odeio bolo.”

“Exatamente. xD”

(...)

Olhei por trás do vidro da porta da casa do Leo, esperando ver um monte de gente rindo enquanto joga batata frita um no outro, mas não dava para ver muita coisa. Também não dava para ouvir vozes, o som do vídeo game estava mais alto do que nunca e o barulho de tiros já deveriam estar assustando os vizinhos. Estava calor, não calor como em um dia quente no sul da Europa, estava calor de verdade. O calor infernal do Rio de Janeiro que me fazia derreter e desejar arrancar minha roupa e pular em uma piscina com vinte mil cubos de gelo.

Antes mesmo que eu tocasse a campainha, Leo abriu a porta. O frio do ar condicionado invadiu meu rosto como se estivesse me dando um tapa, que maravilhoso, sem nem cumprimentar o meu anfitrião eu o empurrei para o lado a fim de entrar naquela casa geladinha. Meu deus, que emocionante.

- Oi pra você também. — Leo deu um tapa na minha testa.

- Vai à merda. – Dei um sorriso. Amigos, sempre tão adoráveis.

A casa estava uma bagunça, tinha pelo menos duas semanas que a empregada foi despedida e ele nem ao menos se deu ao trabalho de tirar as cuecas e meias do chão. Não posso reclamar, meu pai já desistiu de tentar me obrigar a arrumar o meu chiqueiro. Estavam todos ao redor do sofá, olhando Guilherme e Matheus tentando matar um ao outro no Call of Duty.

— Olá, princesas. – Gritei com a pior voz que conseguia fazer e taquei minha mochila em algum canto da sala. Se tivesse algo “quebrável” lá dentro, com certeza quebrou.

— Nossa, sai daqui sua piranha escrota – brincou Caio, notei que ele estava com os braços em volta da Mally, uma vadia que já deve ter dado para metade do país e insistia em ficar com cada um daqueles garotos. Estava conseguindo. Tomara que pegue Sífilis, Aids ou qualquer outra doença escrota.

— Está querendo abrir um hotel fazenda? – Disse com uma voz carregada de ironia e dei uma leve inclinada na cabeça em direção á Mally. – Acho interessante a sua decisão de começar pelas galinhas.

Ele riu. Eu ri. Não conseguimos mais parar.

Guilherme finalmente conseguiu matar Matheus, que começou a xingar ele de “vadia aidética com um pinto entre as pernas.” O que me fez rir mais ainda, não que fosse realmente engraçado, mas tudo tinha um ar cômico quando eu estava com eles, era como se a tristeza e a raiva fugissem da minha mão e só sobrasse a idiotice e as risadas desnecessárias.

— Ei. Não fala comigo não? – Guilherme perguntou, parando de rir e se virando pra mim com um ar sério, mas eu sabia como ninguém o quão irônico era aquele olhar enfurecido.

— Ela está nos trocando pelo Caio, guigui, não fale mais com ela. Esse tipo de pessoa não é mais confiável – Matheus respondeu com o mesmo ar “sério”.

— Calem a boca, suas vadias importadas de Las Vegas. – Respondi.

— Ah! Sua piranhuda! – Guilherme retrucou em falsete, só eu e ele sabíamos que aquilo era uma imitação tosca da Mally. Começamos a rir de novo

— Aposto que não consegue acertar um tiro em mim. – Indiquei para a televisão onde o jogo estava pausado.

— Desafio aceito. – Ele sorriu.

Jogamos quase a tarde inteira, não consegui sobreviver por muito tempo, mas mesmo assim consegui deixa-lo bem frustrado, é muito gostoso observar pessoas frustradas por coisas que achavam que faziam melhor do que qualquer um. Decidimos pedir uma pizza, ouve discussão entre calabresa e frango com catupiry (eu estava no time do frango, porque pizzas de calabresa são absurdamente gordurosas, não que as outras pizzas não sejam, mas frango com catupiry é uma delícia.) Decidimos pedir meio a meio.

A pizza só chegou onze horas da noite e o entregador deu a desculpa de que tinham muitos pedidos lá na pizzaria. Resolvemos comer a pizza nos fundos da casa, onde tem uma piscina e algumas mesinhas. Nem chegamos a comer direito, só alguns pedaços e depois começamos a tacar água um no outro e então tacar pedaços pizza, copos de refrigerante, garrafas de cervejas e até mesmo tocar uns aos outros. Uma mulher que morava na casa ao lado ficou olhando da janela do segundo andar da sua casa — que dava para a piscina da casa do Leo — não tinha certeza se ela estava pensando em reclamar da nossa barulheira ou se só acha que somos loucos com sérios problemas mentais – talvez seja verdade, nunca se sabe -, na dúvida começamos a acenar para ela e Matheus abaixou as calças para apontar o bundão branquelo em direção á janela da casa da mulher. Ela continuou com cara de bunda e foi de novo para dentro da casa, provavelmente resmungando algo como “misericórdia, esses garotos de hoje em dia...”. Que mulher fofoqueira, não tem o que fazia da vida não?

- Você não acha que o Leo tá meio estranho? – Matheus murmurou em meus ouvidos. Dei um salto, achei que ele estava do outro lado da piscina.

Olhei por todo o local à procura dele. Guilherme tinha saído para ir ao banheiro, Mally e Caio estavam quase se engolindo em um canto, mas Leo estava sentado em uma das espreguiçadeiras, olhando para o além e mergulhado nos seus próprios pensamentos. Realmente, ele não costumava ser assim. Provavelmente estaria fazendo algum dos seus comentários idiotas, rindo ou fazendo qualquer outro tipo de coisa, menos ficar parado pensando na vida.

Foi então que finalmente notei algo que estive ignorando o tempo todo. O primo dele, André, não estava em casa. Os pais do Leo nunca estiveram presentes, e agora estavam viajando para o exterior à trabalho e deixaram ele morando com o primo, acho que não desconfiam que André é um puta maconheiro e sem responsabilidade nenhuma. É claro que uma hora tudo isso influenciaria e conhecendo bem o Leo ele provavelmente deveria estar fumando uns cigarros do primo e comendo algumas prostitutas. Na verdade, tenho quase certeza de que é exatamente isso que está acontecendo, mas nunca quis falar com ele sobre isso porque ele simplesmente faz o que ele quiser com a vida dele, dês de que tenha noção que pode dar merda algum dia. E é claro que ele sabe que pode dar merda um dia, então o problema é dele. Não estive incomodada com esse fato em nenhum momento, mas analisando esse ponto percebo que meu coração aperta em notar que meu melhor amigo, quase um irmão, pode estar se envolvendo com esse tipo de coisa.

- André não está em casa – comecei a falar. – Acho que ele está só preocupado ou...

- Ou... ?

- Ou ele quer fumar, mas estamos atrapalhando. Sei lá, cara. Deixa quieto. – Dei de ombros.

Ele saiu, provavelmente insatisfeito com minha resposta. Depois de alguns minutos eu me limitei a esquecer a estranheza do Leo e comecei a me juntar ao Guilherme e Matheus para tentar atrapalhar o Caio e a Mally em seu processo de “engolimento”. Eles ignoraram a gente, mas ficamos gritando com eles e cutucando-os o tempo inteiro até Caio decidir ir embora com a piranha dele (devem ter ido para um motel, ou não aguentaram e se comeram na rua mesmo).

(...)

Comecei a me sentir meio mal, acho que provavelmente devo ter comido de mais e depois ido para piscina. Grandes merdas. Sempre fiz isso e nunca senti vontade de vomitar, nem desmaiar, nem nada.

— Acho que estou passando mal. – anunciei, isso bastou para que Matheus e Leo começassem a me encarar como se estivessem tentando analisar se o demônio estava dominando meu corpo ou qualquer coisa do tipo.

— O que sente? – Leo finalmente se pronunciou.

Agora estávamos sentados no sofá da sala, molhando todo o estofado com nossas roupas encharcadas. Guilherme já tinha ido embora, disse que tinha que ir para casa ou alguma coisa do tipo. Matheus ia dormir por lá, Leo não pareceu gostar da ideia o que só reforçava minha teoria de que ele queria que saíssemos de lá para fumar um cigarro. Bom, Matheus não vai sair.

— Eu não sei. – Respondi. Na verdade quando estamos doentes nunca sabemos exatamente o que dizer quando perguntam o que estamos sentindo, apesar de saber exatamente como estamos sentindo é simplesmente difícil explicar para alguém que não está com a sensação de que vai cair morto à qualquer momento. – Tontura.

— Quer ir ao médico? Chamar sua mãe?

— Não... – Estava começando a piorar – Eu posso dormir aqui? Vai dar trabalho pra ir pra casa e eu acho que eu vou...

Parei de falar. Porra, eu estava tonta de mais. Queria vomitar e desmaiar ao mesmo tempo, mas nenhuma das duas coisas aconteciam por mais que eu quisesse logo terminar com aquela agonia. Comecei a ver alguns pontos pretos e meu corpo começou a ficar pesado, mas a agonia não acabava, o mundo ficava girando e girando sem parar.

Vou morrer.

Leo colocou a mão nos meus ombros e Matheus ficou simplesmente paralisado sem saber o que fazer.

— Acho que ela vai desmaiar.

(...)

Abri os olhos, assustada.

- Se você gritar, eu te arrebento. Filha da puta.

Notas finais
Quero opiniões. Muitas opiniões. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.