Heirs of Power
1 Victoria Ash, a Garota das Chamas
O alarme tocava, eram seis e meia da manhã, eu tinha que rolar para o outro lado da cama para poder fazer ele parar de tocar. Não que a minha cama fosse tão grande assim.
Na cama ao lado Megan dormia que até balbuciava algumas besteiras relacionadas aos sonhos que tinha. Ela era sortuda, não tinha a maldita aula de Controle de Poder tão cedo em plena sexta-feira. Pelo menos o professor Wyatt dava uma aula assistível.
Eu me levantei e logo me alonguei, sentando na ponta da cama e estalei meus dedos, fazendo surgir uma chama pequena durante o estalo. É isso mesmo que você leu. Eu tenho o poder de manipular fogo, daqui a um tempo eu já vou conseguir até voar. A Megan, ali do lado, tem o poder de magnetismo, mas ela não usa muito, não me pergunte porquê.
Quando entrei no banheiro, nem quis mais enrolar, regulei o chuveiro para água quente, o frio sempre me incomodou muito.
Depois do banho eu comecei a me arrumar sem tanta pressa, tinha sorte de ter um banheiro no quarto, vantagens de ser amiga da chefe de dormitório. April é generosa nas recompensas para quem faz o que ela deseja.
Dormitórios, poderes, você deve estar um pouco confuso com tudo isso, eu imagino. É bem simples, na verdade. Meu nome é Victoria Ash, tenho 16 anos, moro e estudo no Instituto Northwardly desde os meus onze. Eu descobri meus poderes de um jeito não muito heroico, acabei queimando o celeiro da fazenda onde eu morava, sou Texana, baby. Bom, o professor Wyatt foi o responsável por me trazer e me deu o apoio que eu precisava por passar tanto tempo longe de casa. No meu primeiro dia eu conheci o Morgan, um dos meus melhores amigos, ele me ajudou a me adaptar com essa nova realidade, mas nem é tão difícil, com o tempo você pega o jeito.
O resto, eu te conto durante a minha caminhada.
Eu vesti uma blusa preta lisa e amarrei uma jaqueta de flanela na cintura. Me olhei no espelho e fiz algumas poses, assim como ensaiei algumas conversas com diálogos ensaiados. Antes de sair, peguei minhas coisas essenciais, um livro, celular, fone e dinheiro e por último dei um beijinho na bochecha de Megan, ah, antes que eu me esqueça, ela é minha ficante.
Caminhei calmamente pelo corredor de paredes rosa do dormitório feminino, na frente de cada porta tinha um daqueles quadros mágicos com os nomes de quem ficava ali e uns desenhos. Não dei tanta importância e como não tinha ninguém que eu conhecesse para conversar eu só caminhei pra fora dali. Os dormitórios, feminino e masculino, era ligados até o castelo principal por uma passarela como aquelas que ligam o aeroporto com os aviões.
O castelo tinha quadro andares e o terraço, onde eu curtia ficar. Minha aula era no primeiro, mas antes eu passava pelo refeitório, não iria enfrentar um novo dia de barriga vazia.
Como descrever o refeitório? É como qualquer um, na verdade. Mesas redondas com os assentos colados, várias janelas tornavam o ambiente gigante um lugar bem iluminado. As comidas ainda não estavam ali, mas tudo bem, eu me dirigia até a máquina de café, de qualquer jeito. Pedia o de sempre, Mocacchino, três cubos de açúcar.
— Bom dia, senhorita Ash. — Eu senti uma mão em minha cintura, mas reconheci o sotaque alemão pesado. — Sexta-feira, festa no terraço, você vem?
Esse educadinho é o Kaiser, o nome dele não é esse, mas chamamos assim pela postura de líder e seria vacilo apelidar de Hitler, mesmo que só a eugenia e a altura os separe. O Kaiser tinha quase dois metros de altura.
— Claro, nunca perderia a festa pós-vitória. – Eu sorri e botei minhas duas mãos ao redor de seu pescoço. Ele sempre quis ficar comigo, mas não seria agora, quando eu tinha Megan perto de ser só minha. Mesmo assim, era importante tê-lo nas minhas mãos.
— Ótimo. Aliás, pensou na minha proposta? – Ele era o líder dos Red Lions, um dos times de Batalha Campal, Kaiser sempre precisou de alguém que mexesse com fogo e nada melhor do que me convidar quando o garoto de gelo se machuca.
— Mesma resposta de antes, desculpe. – Me desvencilhei quando vi seu olho brilhar em cor rubi, ele sempre se irritava fácil.
— Saquei, Ash. Só espero que você nunca precise da minha ajuda, porque eu nunca vou esquecer disso. – Ele apontava um dedo na minha cara, o rosto sério até que me assustava um pouco, ele podia me desintegrar se quisesse.
— Desculpe, Kai, mas eu não curto participar. – Peguei meu mocaccinho e virei as costas, não ia insistir e logo ele ficaria bem, era sempre assim.
— Não se preocupe, vou achar um substituto, mas não esquece o que eu disse. – Ele segurava o meu braço e olhava nos meus olhos, os dele eram verdes, mas quando ele ficava com raiva se tornavam vermelhos. Kaiser me observava, mas depois sorria, ele era bonito e sabia como ter as garotas com seu mesmo discurso de sempre, e, por mais que ele me chamasse atenção, eu nunca daria o prazer dele me ter em sua lista. — Brincadeira, Vic. Tenha uma bola aula, mais tarde a gente se vê.
É, esse é o Kaiser, ele parece maluco e é um pouco inconstante mesmo, mas, pelo menos nas Batalhas Campais, ele tem um senso de liderança e é um estrategista cruel, tenho um pouco de medo quando penso no que ele é capaz de fazer.
Antes de ir pra aula eu retribuí o sorriso e peguei umas rosquinhas e fui comendo no caminho. Os corredores eram grandes e tinham uma mistura de várias épocas, ainda com uma aparência medieval, mas com os nossos armários espalhados. O Northwardly podia facilmente ser confundido com um labirinto, caminhos e caminhos por todos os lados. Tem até uma loja de roupas e acessórios, alguns são dos times da escola ou coisas relacionadas.
Quando eu cheguei na sala ainda não tinha muita gente, a maioria sempre falta mesmo. A minha turma era pequena, nós somos avançados e ficamos livre para as aulas nesse horário. A Roxxane e o Thiago sentavam na frente, ele era novato, mas já estavam namorando, enquanto o Jobs, um amigo, nunca teve a coragem de se declarar. A Roxy é chefe do clube de literatura, é uma das mais inteligentes. Ela causa tremores, terremotos em outras palavras. O Thiago era um expert em tecnologia, o seu poder era tecnopatia. Na nossa sala também tinha a Kayle, ela tem asas de anjo quando quer, ela também é extremamente inconveniente, sempre procurando a manchete perfeita pro jornal da escola. Ela lixava as unhas com uma cara de desinteressada quando me via. Kayle era ex do Kaiser e odiava todos os seus amigos.
Eu sentava na parede, terceira cadeira da esquerda, pegava meu celular e botava uma música que não me deixasse dormir. Tinham várias mensagens no Whatsapp, a maioria da infinidade de grupos que eu fazia parte. Alguns snaps eram recebidos, nudes, fotos zoadas, etc. No Insta algumas dm’s de gente querendo conversar com segundas intenções. Eu não dava bola. Algumas semanas atrás, quem sabe? Mas agora eu estava focada na Megan e assim seria.
Por útltimo na sala estava Sean, ele não era muito fã de socializar, sempre na dele, acho que nunca ouvi sua voz. Ele me viu encarando-o, mas só revirava os olhos e mudava de foco. Sean mexia nos cabelos castanhos espetados, isso parecia a última coisa que ele se importava.
Eu fiquei olhando pela janela a mudança do clima e as aulas ao ar livre com uma certa inveja de quem estava lá.
Não me lembro muito do que eu fiz depois, mas após umas cinco músicas o Wyatt chegou. Ele era velho, tinha uma barba e cabelos grisalhos, mas não era nenhum Papai Noel.
Todos em silêncio, na cadeira ao lado, Adam se tornava visível para todos. Ele era do tipo antissocial e depressivo.
— Bom dia, desculpem pelo atraso. Vamos iniciar uma nova parte de nossa aula, um estilo mais prático para ver se aprenderam bem. – O professor andava de um lado para o outro e olhava pra gente com um sorriso de canto de boca. – Aproveitando o número de alunos, acho que podemos fazer um exercício de confiança. Formem duplas.
Thiago e Roxy sorriam um pro outro, casal fofo. Kayle sorria para Adam, ela dava mole já fazia um tempo. Eu me levantei e sentava perto de Sean, ele nem olhou pra mim, mas nem liguei, não tenho motivo pra me importar com desconhecidos.
— Tenho uma tarefa agora. Thiago, seu poder não é letal, mas indiretamente sim, não sei se você é rápido, mas vai ter que ser para desarmar essa arma. Eu volto logo. – O Wyatt os botava um de frente para o outro, o Thiago estava bem nervoso, com uma máquina um pouco menor que ele, cheia de botões e fios por toda a parte. Se eu fosse ele provavelmente morreria. Ela parecia calma, sempre foi assim. Depois deles, Wyatt falou algo pra Kayle e o Adam, mas eu não reparei, até que ele chegou em mim e no Sean, ficamos de pé enquanto ele arrastava cadeiras pela sala. Sean tinha as mãos no bolso da jaqueta preta, eu percebi que ele me olhava de canto de olho. — Vocês serão uma dupla interessante para esse trabalho, será simples já que eu acredito no potencial de vocês. Basicamente, Sean ficará parado, enquanto Victoria, você deverá acertar, com bolas de fogo, alguns objetos ao redor dele. Tudo bem por vocês?
— Basicamente eu só fico de pé, então? – O Sean perguntava bem sério, como se não fosse um papel importante.
O Wyatt sorriu e deu um tapinha em sua costa.
— E torce para não acabar chamuscado. – Eu sorri, enquanto o Sean se aguentava para não fazer nada. Ele deixava a gente ali, enquanto ia explicar melhor para os outros.
O Sean me olhou da cabeça aos pés e deu um suspiro profundo.
— Acho bom você não errar nada. – Ele tinha uma expressão antipática que me implorava pra fazer algo que o machucasse, mas eu não queria perder minha credibilidade com os outros.
— Confia na sua parceira, medroso. – Eu sorri e dei uma piscada. Sean ia responder, mas o professor sinalizou que já devíamos começar.
Livros e objetos eram levantados ao redor dele, se movimentando em sua frente e ao redor da cabeça, ou seja, eu podia acertar seu rosto em cheio, o que não seria uma má ideia.
Eu respirei fundo e comecei a mirar os alvos maiores, me dava vontade de dar um susto nele, só pra ver sua cara. Fechei meu punho e o abri lentamente, fazendo surgir a chama laranja na minha palma. Eu lancei no livro marrom acima da cabeça de Sean, ele se desfez em cinzas que caíram na cabeça dele, que limpava com uma das mãos.
Quando olhei pro lado por um segundo, vi o Thiago correndo contra o tempo para desarmar a arma. Voltei a prestar atenção no que eu tinha que fazer. Continuei atingindo os alvos e fiz alguns movimentos como passar uma chama para a outra mão, juntar duas bolas de fogo em uma só, passar a manipular as chamas para irem de um lado e pelas costas chegar em outro. Foi divertido e deu pra ver que o Sean já me encarava de um jeito diferente.
— Parece que você não é tão ruim assim. – Ele forçava um sorriso, mas parecia estar mesmo tentando ser simpático comigo.
Eu sorri e me preparei pro próximo ataque. Não tinha como errar, mesmo sendo só uma ampulheta flutuante. Eu era a melhor e lançava como se fosse a coisa mais fácil do mundo, mas não era. O fogo se descontrolava e ia em direção ao rosto de Sean. Se ele não tivesse usado seu pedor, provavelmente tinha morrido. A bola de fogo atingia um capacete verde o qual ele materializou. Os estilhaços do visor caiam no chão, eram verdes também. O professor interrompia a aula e ia para perto de nós.
— Basta eu te elogiar e você já quer me matar. – Sean falava sério, mas acho que ele queria brincar. Ele desmaterializou o capacete e olhou para o professor que estava preocupado — Pra tristeza da massa, estou bem.
— Me desculpa, eu não queria ter feito isso. – Não conseguia pensar em nada melhor pra dizer, não tinha muito o que falar pro cara que eu quase matei.
— Muito bem, seu problema é a confiança. Quando excede os limites você não consegue se controlar. Bom trabalho, Sean, em descobrir isso. – Wyatt me olhava calmamente, balançando a cabeça em sinal positivo.
— Preferia ter ficado sem descobrir. – Sean reclamava, olhando pra mim como se fosse me matar.
O professor reorganizava a sala rapidamente, nós nos sentávamos de novo, esperando a conclusão daquilo tudo.
— Certo, a aula de hoje foi interessante, descobri muito sobre vocês em minutos, mas pretendo fazer uma análise individual futuramente. As duplas foram interessantes e eu gostaria que continuassem juntos neste fim de semana, tenho planos para vocês. – Eu olhei pro Sean e ele já não tinha tanta raiva como antes, menos mal. — Bom final de semana, espero que os que não se falam acabem tornando-se parceiros. Dispensados.
Eu levantei sem ter muita ideia de como virar bff do Sean, mas me aproximei antes que ele saísse da sala. Cocei minha cabeça com uma das mãos e preparei meu celular pra salvar seu número.
— Então, já que a gente é uma dupla oficial, qual seu número? A gente vai ter que se aproximar agora.
— Sem celulares, eu gosto de conversar pessoalmente mesmo. – Ele sorria, mas não era algo bom.
— Será que você poderia facilitar um pouco? – Eu me apoiava na mesa, encarando-os.
— Será que você poderia não tentar mais me matar?
— Se eu quisesse, você nem estaria aqui. – Vou confessar, fiquei com certa raivinha.
— Verdade. – Ele estava concordando?
— Como assim? – Franzi a testa e ele riu.
— Você poderia ter me matado se quisesse, eu reconheço o seu potencial, mesmo que você não acredite. – Ele tentava parecer amigável, mas acabava errando em alguns pontos.
— Obrigada?
— A gente se vê por ai, Victoria? – Sean pegava sua mochila e já começava a ir embora, mas parecia esperar que eu o chamasse, mas não o fiz.
Eu saí a da sala cansada e com fome, era hora do almoço e eu não aguentava mais ficar longe da minha galera, então eu fui para o refeitório.
Fale com o autor