Hecatombe
8 Êxodo
Notas iniciais
Se Carson pôde chegar à alguma conclusão até ali foi, primeiro, que Valentine era mesmo insano e, segundo, que ninguém estava vindo ajudar. O mundo como conheciam se foi e agora os mortos reinavam impiedosos.
Fazia mais de um mês desde que fora capturada, mais de um mês desde a morte de Joe. A todo tempo se pegava lembrando daquela cena. Como queria ter tido tempo para viver o luto, mas era tanto acontecendo ao seu redor que não podia se dar ao luxo da fragilidade, precisava sobreviver, Joe não admitiria que ela se entregasse e desistir nunca foi mesmo de sua natureza, isso não mudaria agora.
Passaram por tanta coisa naquelas semanas que ela mal conseguia acreditar, viram a morte em suas várias faces, ficaram encurralados algumas vezes e escaparam por pouco em mais algumas, e principalmente, perderam pessoas. O grupo antes formado por vinte e três, hoje contava com apenas quinze, treze, se não considerasse as crianças. Não que Carson quisesse muito bem a todos eles, mas aprendeu depressa que pessoas eram sinônimo de segurança.
— Quanto mais teremos que andar?
A pequena Leah questionou ao lado de Loren e a filha, como sempre.
— Se perguntar isso de novo vou amarrar a sua boca com fita!
Valentine, que os guiava, amedrontou a criança com sua careta irritada. Perderam o carro mais cedo e vinham a pé por uma estrada, podiam ter conseguido mais combustível se o líder aceitasse sugestões, entretanto, seu orgulho sempre sobressaía o resto.
— Não precisa falar assim com ela, Adrian, é só uma menina, está cansada – Loren interviu.
— Você quer carrega-la? – Ironizou, vendo que a mulher já levava a filha – ela tem que aprender a ser mais resistente, deixe-a andar.
— Mas...
— Sem mas.
Carson ergueu uma sobrancelha incrédula, bufou e apressou o passo para alcançá-las, pegando a menina no colo. Valentine a encarou nervoso.
— Não estávamos com pressa? – Indagou e ele revirou os olhos, se voltando para frente.
— Eu não gosto dele – Leah sussurrou em seus braços.
— Eu também não.
Disse e sorriram cúmplices. Leah era um pouco franzina para uma criança de nove anos, o que não significava que não era pesada, no entanto, Carson só a devolveu ao chão quando chegaram à cidade mais próxima, restando-lhe apenas o peso da mochila nas costas. Estranhou, porém, quando ela segurou sua mão permanecendo ao seu lado.
Sim, Leah Saunders era a principal razão de ainda estar ali, todavia as outras garotas assumiram a responsabilidade por ela e Carson não tinha mesmo muito talento para lidar com crianças, a menina estar a salvo dos joguinhos daquele psicopata já era o suficiente. Na verdade não conseguiu estabelecer vínculos com ninguém, nada além do cordial.
Se lembrou de sua vida em Jacksonville, morando sozinha naquele apartamento sua rotina não era muito agitada, sempre ia direto do trabalho para casa e vice-versa, às vezes parando em sua cafeteria favorita para ler um livro ou sendo arrastada para algum pub pelos amigos, que também não eram muitos naquela época. Suas tendências de loba solitária só fizeram piorar, e quem afinal poderia julgá-la por não fazer amizade com seus raptores?
No início, Carson pensava que aquelas garotas estavam na mesma situação que ela, Adrian achava que as coisas iriam melhorar e por isso não ousava perder sua mercadoria principal, porém, depois das bombas de Napalm destruindo as cidades e nenhum outro contato do governo, Valentine aceitou a realidade, contudo elas continuaram ali. Podiam ter ido, não fariam a menor diferença, não eram parte de um plano de vingança – e com certeza sabiam que Carson era –, mas preferiram a segurança daquele doente.
Ignoravam o que ele estava fazendo e ao que parecia, também ignoravam o apocalipse. Agiam como se não corressem perigo a cada esquina, conversando, rindo e não fazendo a menor questão de estarem preparadas. Carson olhou mais uma vez para a menina ao seu lado, que usava um vestido de princesa e sapatilhas, a amiguinha Penny, no colo de Loren, vestia a mesma coisa. Não conseguia imaginar algo mais desconfortável e inadequado para a ocasião, o que aquelas malucas estavam pensando? Brincando de bonecas no meio dos zumbis.
Revirou os olhos, mas não disse nada, só continuou atrás do grupo até Valentine ordenar que parassem. Se juntaram perto dele para ouvir.
— Muito bem, precisamos de mais suprimentos e um lugar para passar a noite, além de outros carros, é claro – explicou, retirando a arma do coldre e verificando as balas. – Vasculhem cada loja da avenida, mantenham a mesma formação, Calf fica com as garotas, o resto, se espalhem. Depois vamos para a próxima.
— Não seria mais fácil se todos procurassem? – Carson disse o óbvio – com mais pessoas, cobririam mais território em menos tempo, ninguém aqui é de vidro para quebrar tão fácil.
Todos os olhares voltaram-se para ela, alguns deles irritados.
— Alguém tem que cuidar das crianças – Mary disse em sua defesa.
— Alguém sim, cinco mulheres e um gigante, não.
— Se quer tanto se arriscar, pode ir. Nós já dividimos as tarefas, eles sempre vão sozinhos, por que reclamar agora?
Carson sabia muito bem por qual tipo de tarefa ela ficou responsável.
— Já pensou o que vai fazer caso eles morram um dia? Os zumbis não vão ir embora, Mary, e você mal sabe segurar uma faca.
— Já chega! – Valentine entrou no meio – ninguém aqui vai morrer, Carsy, mesmo que você queira muito. E dá próxima vez que quiser falar, levante a mão, quem sabe eu decido te ouvir – ele manteve um tom calmo, completando a frase com seu sorriso arrogante. – Vamos manter a mesma formação.
Seus dias se davam assim, sob a quase constante tripudiação dele, tendo que abaixar a cabeça para suas ordens e muito mais do que vez ou outra sofrendo as consequências de seus ataques de ódio, não importava qual – ou quem – fosse a fonte dele. Entrou com as outras no que parecia ser um escritório, agora com as janelas quebradas e dúzias de papéis espalhados pelo chão, Calf se posicionou na entrada com sua espingarda em punho, estavam na recepção e duas portas deslizantes os separavam do outro ambiente.
Se acomodaram nos sofás e Leah se afastou de Carson, que por sua vez se distanciou do grupo, analisando o lugar. Do outro lado do balcão de madeira, todas as gavetas estavam abertas e reviradas, em uma delas, sobrepondo os arquivos, estava o retrato de um garotinho ao lado da mãe moldado por cartolina, em que se lia “Feliz aniversário!” em letras de forma.
Deixando o balcão, ela correu as portas de madeira, adentrando uma sala maior, repleta de escrivaninhas e cadeiras confortáveis, tão desorganizada quanto o resto. Ao se aproximar da escada no canto, reconheceu de imediato o cheiro que impregnava o ar, o odor nojento dos cadáveres, subiu os primeiros degraus e aguçou a audição em busca dos grunhidos, entretanto nenhum som vinha de lá, apenas quando chegou ao topo algo começou a bater.
No segundo andar, além do banheiro, estava uma espécie de área de convivência, com poltronas, micro-ondas, frigobar e um defunto apodrecido golpeado no olho. E à direita uma sala de arquivos, repleta de armários e gaveteiros, na qual Carson encontrou a origem das batidas, pelas janelas na divisória ela viu a porta de um dos armários pulsar. Tentou entrar, mas estava trancada por dentro.
— Ei, tem alguém aí? – Chamou por garantia e ninguém respondeu.
No entanto, as batidas ficaram mais fortes e no minuto seguinte a porta cedeu, libertando a criatura que veio correndo em sua direção, sendo impedida pelo vidro. O susto fez Carson se afastar da divisória, todavia, apesar dos olhos amarelos e a palidez, ainda pôde reconhecer ali a moça da foto. Seu pesar se refletiu no olhar mórbido da mulher, era uma história trágica, como todas à sua volta.
Se trancou ali tentando sobreviver, talvez fugindo do colega de trabalho zumbi agora abatido, contudo já estava infectada, como denunciava a mordida em seu braço.
— O que está fazendo aqui em cima? – Mary se aproximou despercebida – Meu Deus, qual o seu problema? Pare de encarar essa coisa e desça, estavam te procurando.
— Eu já vou.
A de mechas roxas a olhou estranho e fez o caminho de volta. Carson foi até o banheiro, girou a torneira da pia até o final para conseguir que uma fina linha d’água vazasse e lavou o rosto, se olhando no espelho em seguida só para constatar o quanto estava horrível, suas olheiras pioraram depois que o acampamento caiu, cerca de uma semana antes – se lá já não dormia bem, imagine nas ruas –, e precisava urgente lavar os cabelos. Suspirou refazendo o rabo de cavalo, fechou a torneira e voltou para o primeiro andar.
— O que é isso? – Se espantou ao encontrar todos na recepção agachados e Calf sinalizou para que fizesse o mesmo, sem entender ela se abaixou ao lado de Loren, sussurrando – o que aconteceu?
— Tem gente lá fora, Tony os viu de longe e avisou pelo rádio.
Não falar com estranhos deixou de ser uma regra exclusiva para crianças, não tinha como saber em quem confiar, então o melhor era não confiar em ninguém. A porta estava trancada, o homem espiava a rua por uma fresta nas cortinas e Carson se aproximou, fazendo o mesmo. Todos haviam sumido, varrendo os prédios com o olhar ela visualizou apenas Tony em uma janela na esquina, ajoelhado com sua arma em punho. Quando ele voltou a se esconder ouviram sua voz pelo rádio de Calf.
— Estão se aproximando— disse a voz chiada.
— Quantos são?— Reconheceu ser Adrian perguntando.
— Quatro, em dois carros e uma moto.
— Mantenham a posição, vamos ver o que eles querem primeiro.
— Copiado— Calf respondeu seguido dos outros.
O comboio virou a esquina encabeçado pela moto, pararam à meio da avenida e desceram, se juntando no capô do primeiro carro e abrindo sobre ele um mapa. Carson não conseguia ouvir nada do que diziam, porém dois deles pareciam discordar enquanto apontavam coisas no mapa, o homem da moto e um senhor mais velho, um outro entrou no meio da discussão, acalmando os ânimos.
— Adrian? — Alguém chamou no rádio — estou bem acima deles.
— Pode ouvir o que dizem?
— O velho acha melhor irem embora, disse algo sobre chegar antes de anoitecer, já o outro quer ficar e pegar mais coisas.
— Consegue ver se estão armados, Ramirez?
— Sim, senhor. O da moto está com uma pistola, o do meio tem uma machadinha e o resto apenas facas. Os carros estão quase cheios— ele falava baixo, tomando cuidado para não ser ouvido, apesar dos estranhos parecerem distraídos.
— Os dois? Caramba! É comida demais para quatro pessoas... espera, eles disseram que tem que chegar a algum lugar, não é? — Perguntou, rindo quando Ramirez confirmou — não sei dizer se são sortudos ou azarados demais. Se preparem, ao meu sinal sabem o que fazer.
Elas se olharam curiosas, como assim “sabem o que fazer”? Os homens no carro pareceram chegar à um consenso, guardaram o mapa e se preparavam para entrar em algum dos comércios, entretanto não conseguiram dar mais de dois passos. Ouviu-se o sinal de Adrian pelo rádio, três ruídos consecutivos e rapidamente todos os homens do grupo saíram de seus esconderijos, apontando as armas e cercando os quatro na avenida.
— Soltem as armas! – Valentine ordenou, os quatro olhavam perdidos para o grupo – soltem, agora!
Gritou aproximando sua pistola da cabeça do velho e todos obedeceram, temerosos.
— Isso mesmo, agora de joelhos – continuou e os homens se ajoelharam no meio do círculo, um deles empurrado por Ramirez, ao tentar resistir. – Se alguém tentar alguma gracinha, eu não vou hesitar, então sejam bonzinhos.
A partir daí, Carson não conseguiu ouvir mais nada, se ergueu assim como as outras e permaneceram na janela, observando o conflito. Valentine continuou conversando com os homens, fazia perguntas e ameaçava quando não respondiam, típico dele, outros dois checaram os carros, que pareciam mesmo cheios. Por fim, amarraram os homens e os arrastaram para a padaria, apenas Calf retornou ao seu posto, o restante continuou lá por tempo até demais.
— O que será que estão fazendo? – Mary perguntou aflita – talvez tenha acontecido alguma coisa.
Tomara que sim, Carson pensou, mas não foi o que disse.
— Não seria melhor ir olhar? – A loira sugeriu para o gigante, que a fitou sem expressão.
— Ninguém vai sair daqui.
— E se estiverem precisando de ajuda?
— São sete contra quatro, não precisam de ajuda.
— Eles podem ter escondido alguma arma, não dá para ter certeza.
— Ninguém vai sair dessa sala – repetiu irritado, se virando totalmente para elas. – Eles estão bem.
— Não sei, podem ter encontrado zumbis, não deu tempo de checar tudo antes desses homens chegarem – Carson deu de ombros e finalmente ele pareceu pensar sobre o assunto, permanecendo em silêncio. – Devia ir olhar, se estiverem em perigo e você não fizer nada, Adrian vai ficar muito irritado.
Calf tentava, mas não conseguia ser esperto por muito tempo, seria a chance perfeita dela sumir dali com Leah, pegar o carro e ir embora antes que percebessem. O capanga estava mais do que inclinado a ir salvar o chefe quando a voz do mesmo ressoou do lado de fora.
— Eu só vou ficar muito irritado se você continuar traindo minha confiança, Carson – Valentine apareceu na porta, aliviando a careta preocupada de Calf –, achei que tínhamos um acordo.
Fingiu se decepcionar, aproximando-se dela e tocando seu queixo. Carson se desviou do toque e ele se voltou para Calf, mudando de assunto.
— O tal Nate abriu o bico, eles têm uma fazenda há alguns quilômetros, menos de trinta pessoas, a maioria mulheres, crianças e velhos, vamos pegar os carros e ir até lá. Observamos e se for o que disseram... Lar doce lar – riram e Adrian deu um tapinha em seu ombro, seguindo com ele para fora e ordenando que todas os seguissem.
Era inacreditável, Valentine ia mesmo expulsar todas aquelas pessoas? Ou ainda pior do que isso. Adrian não hesitava, como ele mesmo fez questão de dizer, não importava quem estivesse em seu caminho. Além dos carros e a moto, arranjaram outro veículo e conseguiram acomodar todos, saindo do vilarejo.
Carson não disse nada durante todo o tempo, eram poucas as vezes em que a deixavam sem supervisão e por isso ia como de costume sentada entre seus dois guarda costas, os gêmeos Frank e Fletcher – a quem havia socorrido em seu primeiro dia e que por sorte sobreviveu –, tentando não pensar no que estavam indo fazer. Os prisioneiros iam no utilitário à frente de todos, conduzido por Valentine em pessoa, ditando a rota até a fazenda.
No banco da frente, Matt comentava com Tony sobre o lugar, ao que parecia, a fazenda permanecia em perfeitas condições, com um rio por perto e energia solar. Um sonho autossustentável para quem passou o último mês variando entre a mata e prédios abandonados. Carson nunca soube para onde Valentine pretendia ir à princípio, ele falava sobre um amigo em outro estado, chegou a mandar um mensageiro na frente assim que perderam o acampamento, não obstante, as notícias que trouxe o desanimaram e desde então perderam o rumo.
Pouco antes de escurecer eles pararam, nada se via ao redor além do verde. Desceram todos, exceto os estranhos, que permaneciam amarrados sob a vigia de Ramirez, e Adrian começou a ditar o plano.
— A fazenda fica logo depois dessa curva – ele apontou a bifurcação na estrada mais adiante –, não vamos arriscar chegar perto. Eu e mais alguns vamos nos aproximar a pé quando anoitecer, por enquanto, escondam os carros e armem as barracas, passaremos a noite aqui.
Sem questionar, começaram a obedecê-lo, camuflando os carros entre as árvores, que bem mais ao fundo davam lugar aos pastos, e descarregando suas coisas. Quando o sol desapareceu de vez, Carson e Rose terminavam de aprontar a cerca improvisada – alguns metros de arame e latas vazias eram o suficiente para avisar se um morto-vivo se aproximasse –, e próximo a elas o pequeno grupo de expedição se reuniu.
— Não vamos chegar muito perto, são poucos vigias, todavia tem a vantagem de estarem sobre os montes. Hoje vão estar alertas porque os amigos desapareceram, vamos apenas analisar, descobrir as trocas de turno – Adrian falava baixo, explicando aos outros três.
Rose se foi quando amarraram a última ponta, porém Carson continuou abaixada ali, desfazendo e refazendo o nó para escutá-los.
— Atacamos amanhã então?
— Isso.
— Podemos usar os quatro como reféns, trocar pelo lugar – Tony sugeriu.
— E quem garante que eles vão aceitar? Ou que não vão voltar depois com mais gente?
— São pessoas comuns, fazendeiros, não parecem do tipo que procuram briga.
— Você não sabe disso, sobreviver é o que importa agora, para todo mundo.
— Então vamos simplesmente... – Matt insinuou.
— Vamos tomar o lugar dos vigias no topo e atiramos em qualquer um que pareça uma ameaça. Quem conseguir fugir, ótimo, uma bala a menos desperdiçada – o líder deu de ombros. – Vão pegar suas coisas.
Ordenou e Matt se afastou com Frank, apenas Tony continuou ali.
— Não vou atirar a queima roupa em crianças e velhos, Adrian, está louco? – Ele se recusou abismado.
— Então mire no resto – Adrian colocou uma arma em suas mãos. – Seu pai nunca teve medo de sujar as mãos, vai decepcioná-lo assim?
— Eu não sou como o meu pai, sabe muito bem porquê aceitei trabalhar para você.
— Mas aceitou, e agora duvido que vá arranjar outro emprego, então não comece a dar para trás. Somos sua melhor chance de continuar vivo.
Os outros voltaram e Valentine se juntou a eles, caminhando para longe. Tony suspirou, negando com a cabeça e guardou o revólver no coldre, flagrando Carson lhe espionando antes de ir atrás dos três.
— Para o seu próprio bem devia deixar de ser tão enxerida.
Avisou e ela se voltou para a cerca, ajeitando a última lata antes de se por de pé e assistir enquanto o quarteto desaparecia na noite. Era um alívio saber que alguém mais o achava louco, no entanto, assim como os outros, Tony não parecia disposto a fazer nada para impedi-lo. Carson, pelo contrário, se sentia na obrigação de fazer alguma coisa.
Sentou com os outros em volta da fogueira para comer, dessa vez tinham muito mais para o jantar do que sopa aguada ou feijões enlatados, entretanto ela não tinha fome, remexia a comida no prato, com o olhar distante, buscando uma solução em sua mente. Há menos de um quilômetro, separadas daquele pedaço de mata fechada por uma elevação, estavam as quase trinta pessoas, que pela manhã não seriam nem metade disso. Não era tão longe.
Seu olhar recaiu sobre as outras, será que nenhuma delas achava aquilo absurdo? Loren tinha uma filha, pela sua cara de desagrado obviamente não concordava com o plano, conseguia se colocar no lugar daquelas pessoas, mas era exatamente por ter uma filha para proteger que não faria nada. As duas meninas permaneciam alheias ao que acontecia, sentada no chão Leah era o total oposto de Carson, devorava seu jantar em colheradas maiores que a boca, muito feliz com a caixinha de suco de uva que ganhou.
Todos se recolheram não muito mais tarde, propositalmente Carson não dormiu, rolou de um lado para o outro no colchonete com uma ideia na cabeça, escutando a movimentação lá fora. Adrian e os outros chegaram de madrugada, comentaram algo com os rapazes e logo estava tudo quieto mais uma vez, por uma fresta no zíper da barraca ela viu que Gavin fazia a ronda, não parecia ter mais ninguém com ele. Angie, com quem sempre dividia a barraca, dormia como uma pedra e não percebeu quando a outra revirou sua mochila atrás da lanterna que sabia estar ali.
Abriu um pouco mais a barraca, esperou que Gavin desse as costas e pegou uma pedra do chão, arremessando-a contra a cerca sob a luz baixa da fogueira, o mais distante que pôde. O barulho lhe chamou atenção e ela o repetiu, fazendo-o se afastar para conferir, sorrateira Carson deixou a barraca e se afastou do acampamento. Pensou em ir pela estrada, mas teria que passar pelos carros vigiados por Fletcher, sendo assim deu meia volta e rumou pelo caminho que viu Valentine usar mais cedo.
Precisava apenas de alguns minutos, avisaria alguém e voltaria depressa, a arrogância de Adrian não o permitiria desconfiar que Carson conseguiu sair e ele não a acusaria. Só usou a lanterna quando já estava longe o suficiente do grupo, apontando-a para todo ruído que ouvia, tudo o que menos precisava era encontrar um zumbi estando sozinha, desarmada e, dessa vez, sem um vidro de proteção entre os dois.
A quantidade de árvores foi aos poucos diminuindo, até que ela pôde ver com clareza os montes e o contorno de três ou quatro pessoas indo e vindo sobre eles. Sorriu se precipitando para fora das sombras, contudo um braço forte surgiu ao seu redor, puxando-a de volta enquanto uma mão abafava seus gritos, se debateu até serem novamente engolidos pelo breu da floresta e o homem a soltar, prendendo-a contra uma árvore sem destampar sua boca.
Tony, ela constatou ao ver o rosto próximo ao seu. Melhor do que Valentine, melhor do que um desconhecido, mas não bom o suficiente para acalmá-la, seu coração batia tão forte que parecia querer saltar do peito, tanto pelo susto quanto por ter sido flagrada.
— Eu vou tirar a minha mão, não seja estúpida o suficiente para gritar – ele avisou e assim o fez, Carson obedeceu, respirando ofegante. – Se Adrian descobrir o que tentou fazer, está ferrada.
Apesar de irritado, Tony mantinha a voz baixa.
— Acha que eu não sei disso? Eu não podia simplesmente ficar quieta e deixar que matassem gente inocente, não sou como vocês – disse enojada.
— Se outra pessoa tivesse te achado... sabe que ele não descontaria em você, não é? – Afrouxou o aperto que mantinha em seu braço e se afastou – da próxima vez que resolver fazer algo idiota, pense naquela garotinha.
— Pensar nela é tudo o que eu tenho feito! Se não fosse você, poderia ter fugido se quisesse, e essa não foi a primeira chance que eu tive de ir embora sozinha, mas aí eu penso no que aquele psicopata pode fazer e lembro que ninguém vai tentar pará-lo, porque são tão ruins quanto ele.
Cuspiu as palavras olhando em seus olhos, não obteve resposta. Algo nele deixava claro que pensava diferente dos outros, no entanto sua apatia o fazia igual a eles. Tony se afastou mais e passou a mão pelos cabelos.
— Você vai contar? – Perguntou após um breve silêncio.
— Não, Carson, eu não vou contar – respondeu como se fosse óbvio, se voltando para ela novamente. – Vem, vamos embora.
Chamou apontando o caminho com sua lanterna e só então ela percebeu que não estava com a de Angie, devia ter caído em algum lugar.
— Não vai me deixar avisá-los? – Tentou em um fio de voz – sabe que é a coisa certa a fazer.
— Só vamos embora – reforçou sem olhá-la.
Carson expirou frustrada, olhou uma última vez na direção da fazenda e de novo para o homem com o cintilante revólver prateado em sua cintura, outra coisa que vinha aprendendo era a nunca duvidar dos avisos de quem estava com a arma, por mais amigável que parecesse, a não ser que você também tivesse uma. Sendo assim, andou de volta ao acampamento com ele, sem dizer ou ouvir nenhuma palavra.
Tony distraiu Gavin para que Carson voltasse a barraca, além disso fez questão de trocar de lugar com ele – ao que parecia, Valentine ordenou que alguém ficasse de olho nos guardas, para o caso de serem percebidos. Tony se sentou perto do fogo e a loira revirou os olhos.
— É claro que ele vai ficar me vigiando.
Deitou-se e encarou o teto de lona, esperando o amanhecer, visto que não conseguiria pregar os olhos, sem realmente desejar que ele chegasse. E mal o sol apareceu, fora obrigada a se levantar, precisavam desmontar tudo antes de seguir com a chacina, quanto mais cedo se livrassem dos corpos, mais cedo poderiam aproveitar a casa nova, Carson supunha sarcástica.
Porém, a notícia que mudou seu humor veio depressa, pela boca de um dos gêmeos Gauthier, que mastigava tranquilamente um bolinho quando se deu conta da novidade e correu ao encontro do grupo de olhos estatelados, com uma única frase que foi capaz de arrasar a manhã de Adrian:
— Os prisioneiros, eles conseguiram escapar!
O episódio de Carson não foi a única falha de segurança daquela noite.
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