Hecatombe
3 Um ensaio sobre o silêncio
Notas iniciais
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Cercados, essa era a situação de Carson, Will, Joe e qualquer outra alma viva que restara naquele prédio. O grupo de mortos se jogava contra a porta principal, o portão da garagem ficava logo ao lado, então suas únicas esperanças eram o prédio possuir uma saída de emergência ou algo parecido, ou reforços chegarem de fora e exterminarem as criaturas, mas isso parecia impossível, já que elas brotavam de todos os cantos.
— O que foi? O que você viu? – Will perguntou ao notar a palidez da garota.
— Eles bloquearam as saídas – Ela virou para olha-lo. – Estão se espremendo na porta da frente e na garagem, não tem como sair.
— O que? Não, não pode ser! – O homem se levantou em um pulo e gemeu de dor, caindo de volta no sofá.
— Não faça esforço, já basta ter caminhado tudo aquilo, se continuar se mexendo isso nunca vai parar de doer – disse. – Eu sei que é algo absurdo de se pedir agora, mas precisa sossegar pelo menos um pouco ou não vai conseguir andar nem até a porta, quem dirá sair daqui. O que, a propósito, já vai ser difícil para todos nós.
— Eu... droga, eu não podia estar aqui, já era para eu estar quase em casa – ele levou a mão a testa e apoiou o cotovelo no braço do sofá. – Eu tenho que falar com a Gwen!
— Com quem?
— Minha namorada, ela estava com problemas da última vez que conversamos e isso foi ontem, depois ela não atendeu mais minhas ligações – ele volta a se recostar e tira o celular do bolso. – Sem bateria!
Ele revira os olhos e Carson se aproxima, estendendo seu celular a ele.
— Toma, pode ligar do meu, eu vou ir lá para baixo e ver o que posso fazer para ajudar. Você fica aqui, eu já volto.
Will pegou o aparelho e antes que pudesse pensar em falar algo, a loira já havia sumido porta afora.
Carson pegou o elevador e desceu até o térreo, onde encontrou Joe e outras pessoas se mobilizando para lacrar as portas e janelas com os móveis da recepção e dos andares mais baixos.
Ela se junta ao grupo e ajuda uma mulher a carregar uma escrivaninha até a janela do canto, Joe passa por ela e os dois trocam um olhar, estava claro que ele queria manda-la já para cima, onde estaria protegida ao menos por enquanto, mas conteve o impulso, toda ajuda ali era bem-vinda. Quando terminam a barricada todos se olham sem saber qual o próximo passo, os homens que lutavam lá fora ainda têm suas armas em punho, prontos para o caso de aquilo vir abaixo e aceitando que os que estão do outro lado não são mais seus vizinhos ou qualquer outra coisa além de corpos famintos.
— O que fazemos agora? Existe outra saída? – Carson caminha até Joe e pergunta.
— Pedi que olhassem como está a rua de trás e não parece melhor do que aqui – ele a encara preocupado, fala baixo para não assustar os outros. – Não sei como vamos sair.
— O policial ali, ele não pode se comunicar com o batalhão, chamar pelo rádio? – Ela sugere – Precisamos fazer alguma coisa e, meu Deus, ainda tem a Eleanor, você não disse que ela estava vindo? Vai dar de cara com essas coisas!
Joe passa a mão pelos cabelos e fecha os olhos ao se lembrar, pragueja e volta a encarar a irmã.
— Eu tenho que avisa-la, mas ela já deve estar quase aqui, não posso mandar que volte, é perigoso demais – diz agoniado. – E sobre o rádio, caiu no meio da rua. Eu já tentei ligar para uns amigos na delegacia, mas ninguém atende, não quero nem pensar no que pode ter acontecido, e não adianta nem tentar o 911, as linhas estão lotadas!
Nada a fazer. Estão à deriva em uma metrópole inundada de mortos e não há nada que possam fazer.
Joe coordena as coisas na portaria, coloca os dois homens armados de vigia na frente e o policial – que trabalhava com ele há algum tempo – cuidando dos fundos, onde estava a única outra saída que tinham e que também teve de ser lacrada. Carson e o irmão sobem de volta para o apartamento, onde Will continua no mesmo lugar.
— Conseguiu alguma coisa? – Carson pergunta.
— Nada, e como está lá embaixo? – Ele desgruda o celular da orelha e joga o aparelho sobre o sofá, está inquieto, mexe a perna saudável e batuca os dedos sobre o assento freneticamente.
— Fizemos uma barricada, a rua de trás também está tomada e – Joe se joga sobre uma poltrona –, até alguém ter uma boa ideia, estamos presos aqui.
Will suspira, Joe pega o telefone sobre a mesa de canto, provavelmente no intuito de ligar para Ellie, e Carson tira sua mochila do chão, colocando-a nas costas.
— Eu preciso de um banho! – Ela diz caminhando para o corredor, dá alguns passos e então, em um estouro, todas as luzes se apagam.
Não só as do apartamento – nenhuma luz passa pelas frestas da porta de entrada – e também não só as do prédio, pela janela eles veem o quarteirão inteiro se apagar, seguido pelo próximo, e pelo próximo, e pelo próximo, até todo o horizonte se tornar um completo breu.
Os três ficam em silêncio um instante, a escuridão deixava tudo ainda mais assustador. Joe resmunga e coloca o auscultador de volta na base, o telefone era sem fio e por isso dependia totalmente da energia elétrica, puxa seu celular do bolso e recomeça a discar. Carson suspira e segue para o banheiro.
A noite se passa lenta e o silêncio no apartamento era compensado pelos sons do lado de fora, apesar de não haver mais ninguém passando pela rua e todos os prédios próximos parecerem vazios, ainda se ouviam buzinas e ambulâncias ao longe, distantes demais para descobrirem que haviam pessoas ali e também distantes demais para fazerem os mortos saírem das portas. A energia vai e vem o tempo todo. Will acaba cochilando no sofá, Carson atende aos pedidos de Joe e dorme por algumas horas no quarto de hóspedes, enquanto o irmão se reveza com os outros para vigiar a entrada.
Quando amanheceu nada havia mudado, talvez um ou outro defunto tivesse se desgarrado do bando, mas logo outros viriam substitui-los, como acontecera a noite toda. No total, por volta de trinta pessoas jaziam presas ali, entre elas crianças e idosos, as portas não iriam segurar para sempre e, por mais impossível que pareça, nem mesmo um maldito carro se aproximava para chamar a atenção das criaturas. Quando já se passava do meio-dia, todos se reuniram no primeiro andar – teriam feito isso na portaria, mas perceberam que quanto mais gente por perto, mais agitados ficavam os indesejados visitantes –, queriam informações, se não de como sairiam, ao menos de como iriam conviver ali, já Carson começava a pensar que nem mesmo teriam chance para isso, mas repreende o pensamento pessimista e volta para o oitavo andar.
Will parece melhor, já consegue caminhar sozinho apesar de mancar um pouco, sua aflição transparece até pelos poros, Gwen devia mesmo estar precisando de ajuda. Carson come alguma coisa e anda pelo apartamento, encontra uma foto de Ellie no quarto de seu irmão, ela não o atendia, ainda não havia chegado e, apesar de aparentar calma, Joe estava tão tenso quanto Will, mas sabia como controlar isso, precisava parecer confiante para ajudar aquelas pessoas, isso fazia parte do treinamento que recebera. Ela parou na janela do quarto e encarou a rua de trás, além dos mortos na porta dos fundos, tudo estava deserto, já ia se afastar quando viu uma figura encapuzada dobrar a esquina e se esgueirar pelo o outro lado da rua.
Era a única coisa viva lá fora em horas, não podia perder a chance, precisava chamar a atenção daquela pessoa e só encontra um modo para isso.
— Ei! – Ela grita colocando o rosto para fora, isso atiça os mortos, que nem mesmo notam quando a pessoa para atrás deles e olha para cima – Estamos presos, por favor, precisa nos ajudar!
Era uma mulher, ela olha para os lados aflita, escolhendo entre correr ou dar atenção a uma estranha.
— Por favor, tem crianças aqui, precisa nos ajudar a afasta-los! – Carson implora apontando os mortos-vivos – Não tem mais ninguém por perto, não sabemos o quanto as portas vão aguentar.
A mulher olha em volta novamente, pensa um pouco e não parece satisfeita com sua própria decisão quando concorda com a cabeça. Carson solta o ar aliviada, a mulher sinaliza para que espere e então volta a correr, virando na próxima rua.
— O que foi, com quem estava falando? – Will aparece na porta do quarto.
— Tinha uma mulher lá fora, ela vai nos ajudar – Carson sorri e o puxa para a janela. – Eu vou avisar os outros, você fica aqui para quando ela voltar.
Diz e dispara para fora do apartamento, vai pelas escadas e logo está mais uma vez entre os moradores, que já começavam a se exaltar na discussão. Ela vai para o meio de todos, onde estavam Joe e o policial.
— Esperem, atenção, por favor! – Ela pede elevando o tom, Joe a encara confuso, mas se cala e o burburinho vai se aquietando – Obrigada.
Todos se voltam para Carson e ela conta o que aconteceu, os rostos ao seu redor começam a suavizar e as pessoas se animam.
— Mas espere, não podemos confiar nisso, era uma completa estranha, e se não voltar? – Joe advertiu.
— Temos que tentar, eu também era estranha para ela, mas mesmo assim ela me deu atenção, não teria perdido tempo se não fosse ajudar – Carson contrapôs e se voltou para os outros. – Precisamos nos organizar, se preparem para partir, peguem só o essencial e fiquem prontos.
— Carson, não pode dar esperança a eles atoa, isso pode não dar certo – o irmão insiste, as pessoas olham de um para o outro.
— Ou talvez dê, não vamos ser assim negativos, e além do mais é bom que estejam preparados para ir, se isso não funcionar temos que tentar outra coisa!
Ela e o irmão se encaram um instante, todos quietos ao redor, até que ele suspira e se rende.
— Tudo bem, façam o que ela disse – gesticula e as pessoas começam a se dissipar em direção à suas casas, Carson também volta a se afastar e Joe a segue.
Os dois entram em casa e ela segue direto para o quarto.
— Alguma coisa? – Questiona a Will.
— Nada ainda, não sei se ela vai mesmo voltar...
— Eu também tenho minhas dúvidas – Joe concorda e Will meneia a cabeça. – E além do mais, Carson, ela deve ser uma civil, está sozinha, o que uma mulher sozinha e despreparada pode fazer para nos ajudar agora?
Ele se refere a horda e então uma explosão soa não muito longe. Eles se assustam e olham pela janela, onde podem ver fumaça subindo de uma rua próxima e, como se aquilo causasse um clique em seus cérebros, aos poucos os mortos começam a caminhar naquela direção. Carson sorri e encara o irmão.
— Nunca subestime uma mulher, irmãozinho – ela ri e sai do quarto, deixando-o parado ali com a boca aberta.
Carson junta alguns enlatados e garrafas com água em uma mochila, Joe logo se junta a ela e recolhe uma caixa de munição da mesma gaveta onde guardava a arma, coloca na mochila e empunha uma faca grande que achara na cozinha.
— É incrível, parece que os lá da frente também deram a volta e agora todos seguem para a explosão! – Will aparece vindo do quarto – E a mulher voltou, esperou as criaturas darem as costas e entrou no prédio.
— Tudo bem, vamos descer, reunir todos e encontrá-la – Carson diz. – Não estamos usando o elevador por causa da energia, consegue descer as escadas?
— Consigo, a perna está bem melhor, onde aprendeu a fazer essas coisas? – Will indica o ferimento suturado.
— Nosso pai era cirurgião, ensinava umas coisas bem curiosas para gente, e o Joe vivia se esborrachando por aí, então vi ele fazer muitas vezes – a garota conta enquanto caminham para as escadas.
Os três descem e encontram a mulher no térreo, junto de alguns outros moradores.
— Nem precisa agradecer – ela brinca quando Carson se aproxima.
— Vou agradecer mesmo assim, se arriscou por nós!
— Estavam aqui há muito tempo?
— Desde ontem à noite – Joe responde e estende a mão para a moça. – Não sei como fez aquilo, mas obrigado, sou Joe Hartley, essa minha irmã, Carson.
— Martha Hopper, e fiz aquilo com um galão de gasolina e uma caixa de fósforos – ela aperta firme a mão dele e cumprimenta Carson com um movimento de cabeça. – Agora é melhor darmos o fora antes que os cabeças ocas voltem. Têm crianças com vocês, por isso, se quiserem me seguir, eu e minha família estamos em um galpão aqui perto.
— Seria perfeito – Joe diz e olha em volta. – Todos de acordo?
As pessoas concordam, agora já estão todos ali, a mulher diz onde fica o lugar e dá ordens para não fazerem barulho, isso os atraía e, segundo ela, o cheiro também influenciava – ela conta que descobrira isso da pior maneira possível e que os zumbis, como ela chamou, só não a perceberam mais cedo na rua porque os gritos de Carson chamaram sua atenção –, por isso esperaram mais um pouco, até a rua de trás estar limpa.
Martha era uma mulher alta, negra, com um olhar imponente e cabelos encaracolados descendo sujos de sangue até o meio das costas, estava armada com uma faca e caminhava na frente junto do policial, Carson e Will vinham logo depois, enquanto Joe e um outro homem iam atrás do grupo. Dobram algumas ruas até os primeiros zumbis começarem a aparecer, Martha abate pelo menos três deles e tudo parece bem, até que cinco apontam juntos na esquina e mais se aproximam pelo outro lado. Eles correm, mas os mortos vêm logo atrás.
Uma menininha chora no colo da mãe e os zumbis se aproximam perigosamente do grupo, um dos homens se desespera e dispara contra eles, Joe ralha com ele e todos apertam o passo, mas mais mortos começam a aparecer, atraídos pelo som. As pessoas surtam e começam a empurrar umas às outras, um homem cai, outro vai ajuda-lo e é atacado, todos começam a se dispersar, apenas alguns ainda seguem Martha. Duas das crianças se separam do grupo, a mulher com o bebê no colo grita pela outra filha, Carson vê a situação e corre para pegar a menina, que se encolhia atrás de um carro.
Um zumbi caminha para ela, Carson o empurra e puxa a menina pela mão, se aproxima novamente de Will que corria com dificuldade e mais uma vez o apoia para irem mais depressa, sem deixar de segurar a mão da pequena. O outro garotinho havia se afastado bem mais, correu para longe e os zumbis começavam a cerca-lo, Joe vai até ele, empurra o menino para longe e acaba preso em seu lugar.
— Joe! – Carson grita pelo irmão, que empurra e crava sua faca nas criaturas, tentando se livrar do cerco.
— Vão, continuem correndo!
Ele pede, Carson se recusa, se separa dos outros dois e vai em sua direção, Will vai atrás e a segura antes que se aproxime do irmão, que em um golpe falho é arranhado por um dos zumbis.
— Carson, não! – Will prende a garota entre seus braços e a arrasta de volta.
— Me solta! Joe! – Ela grita desesperada, tentando se livrar do aperto enquanto assiste o irmão lutando e perdendo para os mortos – Joe!
As coisas se passam em câmera lenta para ela, uma das criaturas abocanha o braço do irmão, que grita de dor. Martha se junta a Will e o ajuda a arrasta-la para longe, mas Carson não perde nenhum detalhe da cena, tem os olhos fixos no irmão, vê cada mordida até Joe soltar a faca e cair, sendo cercado pelos mortos, que se amontoam ao seu redor como abutres. Ela fica em choque, não presta atenção em mais nada, seus passos são automáticos e apenas existem porque Martha a puxa pela mão; ela não vê como chegam ao lugar, em seu ouvido ainda ecoam os gritos de Joe, a cena se repete várias vezes em sua mente enquanto mais e mais lágrimas molham seu rosto. Carson só desperta do transe quando as pesadas portas do galpão se fecham em sua frente.
Mas ela não olha em volta, não se move, não tenta enxugar as lágrimas, apenas permanece ali, ainda processando tudo e encarando as portas enferrujadas, até que sente uma mão tocar seu ombro.
— Carson – a voz de Will soa atrás dela e Carson fecha os olhos, respirando fundo. – Eu sinto muito.
Ela não responde, tenta controlar o choro, mas é inevitável.
— Vamos, por aqui – ela se deixa guiar pelo galpão, haviam grandes engradados de madeira espalhados pelos cantos e as pessoas se reuniam mais ao fundo. Carson agora só conseguia contar dez das trinta pessoas que deixaram o prédio com ela, entre elas um casal abraçado ao menino pelo qual Joe se sacrificara.
Os pais se levantam e iriam se aproximar, mas Will os detêm com um sinal e Carson o agradece mentalmente por isso. Ela passa os olhos pelo lugar, além das pessoas do prédio haviam ali uma adolescente e um homem segurando um bebê, todos eles juntos de Martha, deviam ser sua família. Will a faz se sentar sobre uma das caixas, tira a mochila das costas dela e a que ele próprio carregava, as coloca no chão e pega água em uma delas, oferecendo a Carson, que empurra a garrafa de volta.
— Eu não quero – diz e ele não insiste, se abaixa em sua frente e a encara. – Porque não me deixaram ir?
— Não tinha mais jeito, Carson, ele estava cercado.
— Eu podia ter ajudado, eu... – Ela soluça.
— Não, não podia, ele foi mordido, se conseguisse sobreviver àquilo, iria adoecer e se transformar em uma daquelas coisas.
Ela não esboça muita reação, continua em choque de certa forma.
— O que vamos fazer? – Pergunta olhando para ele.
Will queria responder, mas não sabia o quê. Sabia apenas o que ele tinha que fazer, tinha que ir para casa, saber o que aconteceu com Gwen, se Justin e Tommy voltaram. Ele balança a cabeça, sem saber o que dizer, e se senta escorado na caixa.
As pessoas discutem algo sobre mantimentos durante a tarde, sobre quem ficaria e quem estava de partida, nisso Will ouve alguém dizer que iria para a Virgínia, era sua chance de resolver as coisas. Mais uma noite cai e ele não prega o olho, Carson muito menos, a certo ponto as lágrimas cessaram e ela apenas permaneceu sentada encarando o nada. Quando amanheceu, todos começaram a se organizar, juntaram o pouco de comida que trouxeram e deram preferência às crianças, depois, os que partiriam se juntaram para tentar achar carros e mantimentos, e Will, que conseguira uma carona para seu estado, iria com eles.
— Podemos conversar? – Ele se aproxima de Carson antes de sair – Como você está?
— Joe era tudo que eu tinha. Isso tudo... foi tudo tão rápido e eu – ela faz uma pausa –, eu não sei o que eu vou fazer agora. Minha mente ficou girando a noite toda, tentando processar e aceitar o que aconteceu, mas não sei se consegui, é difícil aceitar que, do nada, estou completamente sozinha.
Will não havia pensado nisso ainda, mas era verdade, ela estava sozinha. Sim, eles se conheciam a apenas dois dias, mas Carson o ajudara, podia tê-lo deixado se contorcendo de dor naquela estrada, mas não o fez, e agora ele não se sentia mais tão confortável em deixa-la.
— Eu estou indo para casa – ele avisa mesmo assim. – Vou pegar carona com um casal até Virgínia.
— Oh – balbucia. – Eu me esqueci que estava indo para lá.
— Você vai ficar bem?
Pergunta encarando-a e ela hesita um pouco para responder.
— Ah, vou, vou sim, não se preocupe comigo – sacode a cabeça e se apressa em dizer. – Eu vou dar um jeito, essas pessoas conheciam o Joe, eu... eu posso ficar com elas.
Ele apenas afirma. Carson se oferece para ir com eles, queria ocupar sua mente e eles saem em um grupo de seis pessoas. A cidade agora estava silenciosa, vazia, fantasmagórica até. Eles encontram dois carros e um mercadinho saqueado, com as portas quebradas e o caixa vazio, mas ainda acham alguma comida nas prateleiras, guardam tudo, entram nos carros e voltam ao galpão, mas o casal que levaria Will resolve partir de uma vez.
— Tem certeza de que vai ficar bem? – Will pergunta novamente, estão parados na frente do lugar, os outros já entraram e o casal está no carro.
— Acho que sim – ela responde. – E você?
— Vou, espero que sim – diz e eles se calam um segundo. – Bom, sinto muito, novamente, e obrigado por tudo!
— Está tudo bem, acho que ajudar uns aos outros é tudo que nos resta fazer agora.
Will concorda e começa a se afastar.
— Adeus, então – ele diz, Carson acena e ele sorri entrando no carro, ela esboça um sorriso e o carro dá a partida.
Will acena mais uma vez pela janela e o veículo acelera, dobra a esquina e some. Carson respira fundo, pensa em entrar, mas precisava de ar, pensar um pouco. Ela se afasta do galpão, segue pela rua logo a sua frente, está tudo quieto, nada de zumbis, ela caminha a passos lentos, vira em algumas ruas, anda desatenta até escutar uma voz grave atrás de si.
— Ora, ora, olha só o que temos aqui! – Ela se vira e vê um homem lhe apontando uma arma – O que a princesinha faz andando sozinha no meio do apocalipse?
Ele ri e um arrepio percorre o corpo de Carson.
— Mas tudo bem, não se preocupe, amor, eu vou cuidar muito bem de você! – Ele se aproxima e a agarra em um movimento rápido.
Ela grita, se debate, e ele tampa sua boca. Deviam estar longe do galpão agora, Carson não viu o quanto caminhou e não importava o quanto berrasse, ninguém parecia ouvi-la enquanto o homem a arrastava dali.
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