Heavy Crown
2 Poucas explicações
Notas iniciais
Dona Lurdes parecia mais uma mistura de cobra com dragão e cara de cachorro. Ela arranhou meu braço de raspão. Pulei assustada da maca correndo em direção ao escritório ao lado e me trancando. Alucinações não causam dores, cortes, muito menos explodem casam. Eu já estou cansada disso tudo, nenhum psicólogo, psiquiatra, grupo de apoio, me ajudou a superar a esquizofrenia. Ouvi a doce voz grisalha de Dona Lurdes me chamar:
– Querida, esta tudo bem? Abre a porta!
Eu iria abrir? Um ar frio percorreu meu braço o fazendo arrepiar. Vi o arranhão doendo no braço direito. Alucinações não causavam dores, estou cansada!
Peguei a cadeira e joguei na janela, lembrando-me da minha mochila na enfermagem. Que ficasse lá. Pulei a janela no instante que Dona Lurdes quebrou a porta, abrindo a boca em um tamanho que caberia duas cabeças humanas ali. Os dentes não eram os melhores também. Sai correndo pelo gramado sendo observada por muitos, Passei pelo campo de vôlei onde as meninas treinavam. Eu estava suada, escutei Dona Lurdes em sua forma normal gritando comigo. Eu estava encrencada e com certeza, havia ganhado uma passagem só de ida para o manicômio. Madalena e Giulia correram em minha direção perguntando o que havia acontecendo, olhei para Madalena que assentiu. Corri para fora da escola quando trompei em um garoto e cai em cima dele. Sua pele era fria, exatamente como a pele de um morto, sua pele pálida e seus olhos negros denunciavam quem era.
– Da pra sair de cima de mim? – Perguntou ele bravo.
– Oi. – Atrás de mim ouvi Dona Lurdes gritar junto com o diretor. – Tchau.
Corri em direção a saída da escola pelas ruas até sentir o ar faltar. Escondi-me em um gueto e fiquei ali, eu não tinha ideia de onde estava. Mas parecia que eu havia despistado os dois. Contei minha respiração seis vezes até ouvir a buzina de um carro vermelho. A motorista abriu a janela, para meu alivio, era Madalena.
– Entra logo! Acho que eles me viram sair.
Entrei sem nem pensar duas vezes, estava completamente suada, e precisava ir pra casa. Mas eu lembrei que não tinha uma casa. O resto do caminho foi um silencio total até Madalena se pronunciar.
– Eles provavelmente já avisaram sua mãe e seu coordenador. – Disse triste. – Mandei Giulia para a sua casa arrumar o resto de suas roupas, tive que dar algumas explicações para ela.
Assenti tentando prestar atenção.
– Ela já deve ter arrumado toda sua mala. Ela também pegou sua mochila na escola.
– Como me achou? – Perguntei de repente.
– Ah, foi difícil no começo, mas o aluno novo me disse para onde você tinha ido.
– Como ele soube que eu estava aqui?
– Não sei. – Respondeu ela dando de ombros. – Chegamos.
Felizmente, não havia carros de policiais ainda. Somente o de Giulia que agora estava trancando o porta-malas. Eu tinha muita pouca coisa.
Desci do carro e abracei-a.
– Eca, você esta suada! Agora vamos, você vai parar lá em casa para se trocar e tomar banho.
– Você pegou o colar? – Perguntei. Essa era a minha única preocupação.
– Claro. Foi a primeira coisa que eu fiz. – Respondeu ela entrando no carro.
Entrei também vendo Madalena seguir a gente até a casa de Giulia.
– O que Madalena contou a você?
– Hum, nada de mais. Apenas que você é problemática, o que não é novidade.
Giulia parecia triste. Ela tinha sido a primeira garota que venho conversar comigo no meu primeiro dia de aula, contudo confiei mais em Madalena.
– Eu tenho esquizofrenia. – Respondi normal. – Mil discussões e centenas de problemas.
– Obrigada por contar. – Giulia respondeu parecendo aliviada.
O momento tenso parecia ter se passado, então resolvi perguntar.
– O que vocês viram no aluno novo?
– O que? – Perguntou Giulia tirando os olhos da rua por um segundo e me olhando. – Nico? Achei que você iria gostar dele. Madalena achou fofinha a ideia.
– Por que?
– Ah, sei lá. – Falou dando de ombros. – Intuição.
– Ele é estranho, — disse – e frio.
Os minutos que se seguiram foram silenciosos. Quando chegamos á casa de Giulia, ela disse que eu ficaria lá por alguns dias até as coisas se ajeitarem. Agradeci ela milhares de vezes e fui tomar banho. Coloquei short e uma blusa normal e o meu colar, junto com meu anel. Quis colocar um chinelo, mas alguma coisa me dizia para colocar um tênis. Calcei o all star branco e nem desfiz a minha mochila. Por eu ser extremamente exagerada, peguei minha bolsa e olhei o quarto de hospedes que agora seria meu. Meus pertences já estavam ali, muita pouca coisa. Umas cinco mudas de roupas, o all star que eu calçava, três sapatilhas e um chinelo. Algumas joias que eu tinha pelo tempo. Suspirei e enfiei absorventes, escova, pente, pasta de dente, um livro, lingerie extra, uma sapatilha dobrável, um chinelo e uma pequena toalha. Por milagre havia espaço para os remédios e a pequena carteira. Coloquei a bolsa sobre o ombro, a mochila nas costas e ergui o cabelo. Antes que eu percebesse, parecia que eu iria passar um tempo fora. A bolsa estava incrivelmente leve, o que estranhei. Desci as escadas da casa de Giulia, vendo que seus pais não estavam ali. Um carro de policia havia acabado de parar em frente a casa. Giulia venho descendo logo atrás de mim de pijamas.
– Pra onde você vai? – Perguntou ela.
– Eu não sei, só sei que eu tenho que sair daqui. – Aquilo seria mais difícil do que pensei. – Deixei roupa e pertences meus no quarto, pode pegar pra você...
– Aria...
– ... Pegue eles e leve-os até seu quarto, caso dos policiais revistarem e saberem que eu estive aqui. – Apontei em direção a porta que agora estava sendo batida por um policial educado. — Te agradeço de todo o coração o que você e Madalena fizeram por mim. Não quero que vocês entrem em problemas por minha causa, nem sua família. Eu mando mensagens...
– Aria... – Giulia se atirou em meus braços chorando. – Vou sentir sua falta, assim que você saber pra onde vai, me avise.
– Claro. – O policial já estava ficando impaciente. – Corre para o quarto de hospedes e leve minhas coisas pro seu quarto como se fossem suas, é pouca coisa, finja que estava dormindo. – Baguncei o cabelo dela. – Tchau amiga.
Sai pelos fundos no momento em que o policial invadiu a casa. Corri pelas ruas até chegar ao centro que não ficava longe dali, já que a cidade era muito pequena. Ia pedir um taxi quando trompo de novo em alguém.
– Que coisa você! – O garoto disse com a voz que havia conhecido á pouco.
– Nico, desculpa se você sempre esta no meu caminho!
– Você que me segue. – Falou ele com indiferença.
Suspirei fundo, chega de problemas. Pensei no vulto preto nas janelas e joguei verde.
– Então como você explica me observar na aula de historia e na enfermaria?
– O q...
– Eu sei que era você.
– Você é maluca. – Disse ele dando de ombros. Tive que levantar a cabeça para encarar seus olhos, já que ele parecia ter uns dez centímetros a mais que eu. – Muito maluca.
Passei por ele e acenei para um taxi. Ouvi uma risada e então Dona Lurdes e Mrs. Gilbert pararam em cima do taxi que eu iria entrar. As duas eram extremamente horrorosas. Gritei assustada, olhando de um lado a outro vendo de alguém tinha percebi duas morcegonas em cima de um taxi. Corri pelas ruas até entrar em um beco sem saída. Ele era extremamente escuro. Vendo que esta encurralada, Mrs. Gilbert riu.
– Até que enfim, depois de tanto esperar. – Falou em uma voz grossa.
– Quem é você? – Falei tentando não gaguejar.
– A sua mãe, querida. – Ela se transformou por um segundo na velha professora de historia de sempre.
– Não tem pra onde correr. – Dona Lurdes respondeu.
Com a escuridão do beco, só dava para ver a silhueta e a voz das duas, que se aproximavam cada vez mais, como se tivessem todo o tempo do mundo. E tinham.
Ouvi um grito e um brilho dourado explodir. Mrs. Gilbert começou a gritar.
– Filho do deus dos mortos! Você matou minha irmã.
Eu realmente estava maluquinha. Ouvi sons de garras arranhando espadas, até outra explosão dourada acontecer. Olhei para a silhueta que estava vindo em minha direção, eu estava assustada, não conseguia me mover. Parecia ser um menino. Ele estendeu a mão como se dissesse paz. Com o brilho fraco do que parecia ser sua espada, pude distinguir a roupa. Calça jeans pretas e blusa da mesma cor.
– Não vai falar nada? – A voz sussurrou baixinho.
– Você me seguiu, Nico. – Falei. – Seguiu uma menina esquizofrênica que pode te assassinar aqui mesmo.
– Não conto muito com isso. – Ele disse. – Estava de mudanças?
– Sim, você sabe, explodi uma casa, queimei outra, quebrei a janela da escola, rachei a parede de outra... Essas coisas normais e típicas de adolescentes. – Falei com ironia.
– Claro típicas. – Ele disse, e não parecia ter falado com ironia. — E para onde exatamente estava indo?
– É...
Mais uma pergunta sem resposta que eu tinha.
– Como você matou as duas coisas? Você as viu também? Ou isso também é alucinação?
– Não isso não é alucinação, nós semideuses chamamos isso de névoa. Ou você tem um forte poder sobre ela, ou é uma semideusa. – Ele disse naturalmente.
– Semi o que? – Perguntei.
– Você não respondeu minha pergunta. – Falou ele impaciente.
De repente a bolsa em meu ombro começou a fica pesada.
– Eu não sei para onde ir. – Falei por fim.
– Há um acampamento a alguns estados daqui. Para pessoas como você, ou talvez não. Só vamos saber quando você chegar lá.
– O manicômio? – Perguntei desconfiada. – Sabe, obrigada pelo convite, mas prefiro viver na rua a voltar para esse “acampamento”. – Falei fazendo aspas com os dedos.
– Não é um manicômio. É um acampamento para pessoas como nós: Semideuses. Meio humanos meio deuses. Sabe mitologia grega? Então, os mesmo semideuses das historias foram como a gente é hoje.
Eu estava cansada desse papo e só queria dormir. Passei por Nico que fez uma cara engraçada, entretanto não me virei. Eu precisava de um hotel. Antes que eu pudesse sair do beco, uma mão me puxou e eu tropecei caindo. Nico logo cortou a mão com a espada e chutou o pó amarelo no chão.
Olhei para ele, que era maluco como eu.
– Me leva para esse acampamento? – Falei. – Acredito em você.
– Não moro no Acampamento Meio-Sangue. – Ele disse me ajudando a levantar e entregando a minha bolsa. – Só faço visitas.
– Mas me leva! – Pedi. – Eu não sei onde fica.
– Posso mandar alguém te buscar.
– Há policiais, professoras rancorosas, mãe bravas, e diretores atrás de mim. Eu não tenho tempo para esperar “resgate”. – Menti. Odeio mentir, lógico que é verdade o que eu disse, contudo não ligava esperar mais um pouco para ir embora, o problema é que uma parte de mim queria que Nico me levasse até o acampamento, talvez para desvendar o que aquele menino tinha.
Depois de parecer vários minutos de trocas de olhares e suplica, Nico suspirou e falou.
– Tudo bem. Só até a metade do caminho.
– Obrigada! – Gritei e o abracei. Ele pareceu não gostar daquilo, pois não retribuiu o abraço.
– Regras que você devera seguir... Arram. – Nico disse e então eu me soltei dele. – Um: Sem contato físico comigo. Eu vou te tocar quando precisar, tipo, viajar nas sombras. – O que? — Dois: Sem conversa. Três: Nada de perguntas. Quatro: Eu falo você só obedece, tudo bem?
Que menino chato!
– Tudo bem, senhor não sou touchscreen. – Falei.
– Touch o que? – Ah céus!
– Nada. – Disse emburrada.
– Acho melhor irmos, não se assuste, e lembre sem perguntas. Vamos pegar um metro a algumas cidades daqui.
Antes que eu pudesse perguntar como, Nico pegou meu pulso e mergulhamos em uma escuridão sem fim.
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