Heaven's Lawyer
1 Capítulo 1
Heaven’s Lawyer
Caso 1:
Tudo estava escuro e silencioso, mas então Alberto simplesmente despertou. Não sabia onde estava e muito menos como tinha parado ali, tentou organizar os seus pensamentos para ver se lembrava de algo, mas tudo em sua mente parecia nebuloso. Mesmo se esforçando ele não conseguia lembrar como chegou até esse local, um quarto semelhante aos que são encontrados em hotéis. Acordou deitado na cama desse quarto simplesmente perdido, sem saber o que fazer.
A porta do quarto se abriu, entrando um sujeito vestido de maneira muito exótica, na verdade, todo seu visual era exótico: Sobretudo branco com detalhes bordados em uma cor dourada, calça branca, botas brancas, praticamente toda sua vestimenta era branca. Apenas seu cabelo loiro curto trazia um pouco de contraste no meio de toda essa brancura.
— Saudações, Senhor Alberto! É um prazer imenso conhece-lo, meu nome é Zaniel. Acredito que você tenha muitas perguntas circundando essa sua mente e estou aqui para responde-las
— Onde exatamente eu estou?- disse Alberto, extremamente apreensivo.
— Bom, essa pergunta é fácil de responder. Estamos no tribunal divino e você acabou de morrer.
Essas palavras pegaram Alberto em cheio. Morto? Como? Quando? Por que? Nada parecia fazer sentido naquele momento. Não conseguia acreditar naquilo que acabou de ouvir, começou a supor que era alguma pegadinha de mau gosto.
— Olha, isso não faz o menor senti...
— Sei que parece inverossímil, mas acredite. A vinte minutos atrás o senhor morreu de um ataque cardíaco. Se levarmos em consideração o estresse que o seu trabalho como dono de uma loja de construção lhe proporcionava, não é um resultado surpreendente. Infelizmente deixou o seus dois filhos e sua esposa com quem você estava casado a 20 anos. Os negócios não estavam indo muito bem, não é mesmo?
Por um momento Alberto ficou imóvel e começou a sentir um aperto em seu peito. Ele estava começando a lembrar de seus últimos momentos de vida. Caiu de joelhos no chão cerrando seus punhos com uma força imensa. Toda a dor e os pensamentos que ele sentiu em seu suspiro final voltaram. Começou a sentir falta de ar e a soar em excesso.
— Após a morte, o indivíduo tende a esquecer os seus momentos finais de vida, além disso manifesta todos os sentimentos do exato momento da morte aqui no pós vida. Isso é um processo natural que passará em breve , respire um pouco. – disse Zaniel com um tom calmo e solene que, de certa forma, acalmou Alberto fazendo com que as poucos a sua respiração voltasse ao normal.
Tristeza é a única coisa que Alberto conseguiu sentir no momento, ele sentiu sua morte e aquilo foi muito real para ser apenas uma pegadinha. É difícil simplesmente aceitar que não estava mais entre os vivos, é doloroso demais pensar em todas as coisas que deixou pra trás, lágrimas caíram de seu rosto.
— Eu realmente estou morto? – disse o senhor com um tom melancólico em sua voz.
— Tudo isso é verdade. E eu estou aqui para ser o seu advogado de defesa, seu julgamento será iniciado em poucos minutos.
— Julgamento? Pra saber se eu vou pro céu o inferno? Então é assim como as coisas realmente funcionam após a morte?
—Praticamente sim. Todas as ações dos indivíduos no mundo dos vivos são registradas e avaliadas como boas e ruins por nós, seres celestiais. Obviamente, alguns atos pesam mais na balança do que os outros, mas o resultado final é basicamente uma avaliação do seu desempenho no total. Se o indivíduo cometeu ações boas que sobrepõem as ruins, ela tem direito de entrar no paraíso, um lugar bonito e harmonioso onde todos são felizes e então é possível viver uma vida de paz por toda a eternidade. No entanto, se as ações ruins forem mais evidentes do que as boas, irá passar a eternidade em um vazio existencial, um local onde não há nada além de escuridão. Em geral, o tribunal divino não faz audiências como a que iremos passar juntos, porém o seu caso é bastante polemico e então foi decidido que um julgamento era a melhor forma de resolvermos esse problema, eu serei o seu advogado de defesa e teremos contra nós um advogado de acusação. Devo ser sincero que li os relatórios de toda a sua vida com bastante afinco para me preparar para este caso, Senhor Alberto. Tentarei ao máximo fazer com você ascenda ao paraíso.
Alberto foi novamente tomado pelo desespero. Ele já tinha a certeza da razão pela qual o seu caso era polemico, e isso trouxe a tona lembranças ruins de seu passado. Seria esse o momento onde ele teria que enfrentar os seus demônios?
— O advogado de acusação é chamado de Ari-El. Podemos considerar que somos rivais no tribunal, já tivemos inúmeras audiências durante o decorrer do tempo, estou acostumado em ter embates com ele, estou confiante que irei ganhar o caso para você. – disse Zaniel, em um tom confiante.
Um barulho de sino se propagou pela sala onde os dois estavam, a hora da audiência tinha chegado.
— Esse é o nosso sinal, Senhor Alberto. Me acompanhe até a sala, por favor.
Alberto seguiu Zaniel por um corredor até chegarem a um grande portão dourado.
O ser celestial empurrou-a e revelou-se uma multidão de pessoas vestidas da mesma forma que Zaniel, porém com cores diferentes nas vestimentas. Elas estavam sentadas conversando entre si. O lugar realmente se assemelhava a um tribunal, as cadeiras, os palanques, o material dos móveis, o posicionamento das mobílias, tudo remetia ao que já era visto no mundo dos vivos. O Juiz era um senhor com uma barba longa e branca vestido com uma beca de cor preta, com sua voz estridente, ele anunciou batendo com o martelo e falando:
— Começaremos agora o julgamento de Alberto Carlos Gonçalves! Peço silencio de todos que estão presentes.
Subitamente, todos na sala ficaram quietos. Zaniel e seu cliente sentaram-se juntos em uma mesa. Do outro lado estava Ari-El, um homem vestido com um sobretudo escuro, botas escuras, tudo era escuro, até mesmo o seu cabelo longo. Os olhos dos dois advogados se encontraram, se encararam de uma forma como se tivessem declarado guerra um com o outro naquele exato instante.
— Essa sessão diz respeito a este indivíduo do mundo dos vivos, Alberto. Durante todas as nossas análises, confirmamos que ele foi capaz de cometer inúmeras ações boas, porém em sua infância e adolescência cometeu diversas moralmente duvidosas e pesadas. Este mortal era o um bully, cometia inúmeros atos impróprios que acabaram levando uma das vítimas a cometer suicídio. Devido a este fato, podemos considerar que há a responsabilidade de uma morte, e como sabemos, a morte é um peso considerável quando colocamos na nossa balança nos julgamentos. O ato de causar a morte de uma pessoa sobrepõe todas as aces boas que foram cometidas. Um caso polemico merece uma discussão mais elaborada, por isso temos aqui os advogados de defesa e acusação fazendo suas afirmações. Zaniel, comece com a sua defesa.
—Meritíssimo, após a avaliação do caso de meu cliente, cheguei a conclusão de que ele é merecedor de ir para o paraíso. Devemos levar em conta que ele foi responsável pela morte de uma pessoa, e com certeza é inegável que foi uma ação grotesca cometida por Alberto. Porém se levarmos em conta que ele ainda estava em um processo de aprendizado devido a sua idade, é cabível reduzir consideravelmente muita da a responsabilidade imposta sobre ele . A fase jovem de qualquer mortal é marcada pela irresponsabilidade e ações erradas, no entanto, são os erros que fazem o ser humano se tornar uma pessoa melhor.
—Objeção! – disse Ari-El, em tom estridente. – Será que realmente devemos vitimizar as ações de seu cliente, Zaniel? Se levarmos em conta que são os erros que aprimoram a moralidade dos seres humanos, deveríamos ter que perdoar todas as ações cometidas por eles. Alberto claramente tinha noção de que suas ações afetavam as vítimas, mas de qualquer forma ele persistia em praticar tal ato, e ninguém impôs a ele que fizesse isso. Ele tinha clara noção daquilo que estava fazendo durante a escola e sentia satisfação em toda essa barbaridade. Utilizar o argumento que ele ainda era jovem não elimina o fato de que ele tinha plena noção do que fazia. O único problema é que ele não fazia ideia das consequências que isso iam acarretar.
— Obviamente ele tinha noção do que fazia, porém eu ainda não cheguei no meu ponto. A moralidade de um jovem não é algo permanente, mas sim uma fase de construção de ideais. Podemos afirmar que Alberto não tinha todos os seus posicionamentos a respeito da vida e da moral completamente formados. Após a notícia de que uma pessoa se matou por causa de suas ações, ele finalmente percebeu o quanto os seus atos afetavam as pessoas ao seu redor. Analisei todo o mapeamento de sentimentos registrados após o suicídio. Os resultados demonstraram que, após esse acontecimento, Alberto começou a apresentar níveis intensos de tristeza e arrependimento durante toda a sua vida. Isso prova que ele não desconsiderou todo o mal que ele fez, mas sim usou isso de combustível pra tentar melhorar. O número de ações boas aumentaram exponencialmente depois deste evento, ele se tornou uma pessoa genuinamente boa, e tudo isso devido a uma atrocidade cometida por ele mesmo. Na minha visão, meu cliente apresentou uma redenção digna.
— Por mais que humanos aprendam com os seus erros, não acredito que erros tão graves como esse devem ser desconsiderados. Estamos falando de algo que acarretou a morte de alguém, é uma coisa séria. Partindo de sua afirmação até um homem que estuprou uma mulher deveria ir para o céu apenas pelo fato de que ele se arrependeu e se tornou uma pessoa melhor depois disso. Será que isso anula a atrocidade que ele cometeu? Eu acredito que não. Atos desse nível simplesmente não podem ser perdoados, eles deixam uma marca pra sempre, nunca devem ser esquecidos, porque as vítimas que sofreram nunca vão se esquecer – disse Ari-El, com um tom que transbordava uma certa repulsa pelos ideias de seu rival.
— Essas são palavras que transbordam uma desesperança em relação a humanidade. Leve em conta o número de pessoas que foram beneficiadas pelos atos de Alberto após toda a evolução que ele passou. Nada disso teria acontecido se não fosse por aquele exato momento. Algumas acontecimentos ruins na vida infelizmente acontecem para um bem maior. Negar essa observação é igual a afirmar que a Segunda Guerra Mundial só trouxe morte e tristeza, sem levar em consideração todos os avanços que isso ocasionou para a humanidade. Meu cliente não é apenas um sujeito que cometeu uma atrocidade, mas sim um indivíduo que lutou para sobrepor a ação que cometeu com o máximo de bondade possível. Participou de diversas doações, caridades, atos humanitários e muitas outras coisas a partir de uma tragédia. Uma pessoa que consegue desdobrar uma situação como essa deve ser julgado por uma fase marcada pela imaturidade, sendo que depois disso durante toda a sua vida adulta atos exemplares foram executados? Eu acredito que não- disse Zaniel, satisfeito com os argumentos utilizados em sua defesa.
— Para mim ele continua sendo uma pessoa boa com as mãos sujas de sangue, e continuará desse jeito. Não tenho mais nada a afirmar. – disse Ari-El.
— Antes de irmos ao veredito, eu gostaria de ouvir as declarações de Alberto a respeito do julgamento – disse o Juiz.
Em um momento onde o desespero e a apreensão deveriam ter tomado conta de todo o seu ser. Alberto estava calmo e pleno, não pelo fato de que não tinha medo do que poderia acontecer com ele, mas sim porque todo o dilema envolvendo suas ações do passado já estavam bem solucionadas em sua mente. Ele já não tinha mais dúvida a respeito do seu posicionamento a respeito de tudo aquilo que aconteceu antes e depois daquela tragédia. Já tinha chegado a uma conclusão faz muito tempo.
— Eu acho que não cabe a mim decidir o lugar que sou digno. Tudo que tenho feito a partir daquele momento foi compensar o mal que eu causei. – disse Alberto com confiança. – Estou pronto para encarar as consequências de meus atos durante da mesma forma quando eu estava vivo. Eu sei o quanto me esforcei para tentar fazer o bem. O único arrependimento que levarei pela eternidade é a de ter sido a causa da morte de Gabriel.
— Declaro Alberto Gonçalves de Almeida digno de ascender ao paraíso. Esta sessão encerrada!- afirmou o juiz.
Após alguns minutos, Alberto estava sendo levado para o portão do paraíso. Durante o caminho encontrou Zaniel esperando por ele. O ser celestial andou até sua direção, a felicidade em seu rosto era evidente, estava muito satisfeito com o resultado. O cliente não conseguiu também evitar que um sorriso aparecesse em seu rosto.
— Não há palavras que expressem o quanto eu sou grato pela sua tentativa de me ajudar. Nunca esquecerei do que você fez por mim nesse tribunal, Zaniel.
—Eu não fiz nada mais que o meu dever como advogado de defesa. Pessoas como você são exemplo de como há esperança nos seres humanos, independente daquilo que foi feito no passado. Eu acho muito triste julgar alguém por algo que já não a representa mais, e esse era claramente o seu caso – Zaniel falou sorrindo.
— Eu simplesmente não podia ser mais a pessoa de antigamente, tenho nojo de pensar como eu tinha a capacidade de ser aquele moleque imbecil. Fico feliz que ainda tive tempo o suficiente pra tomar uma atitude e mudar.
— Sempre há tempo de mudar, nunca é tarde demais — disse Zaniel
— Eu sempre me questionei se um dia eu iria ter a oportunidade de pedir desculpas pessoalmente para o Gabriel. Ele também está no paraíso? Tem tantas coisas que eu gostaria de falar para ele. Eu gostaria muito de poder vê-lo novamente.
—Ele está no céu esperando por você. Eu confirmei nos dados, o reencontro tão aguardado finalmente vai acontecer. E para facilitar eu o avisei de sua chegada. Ele está te esperando na entrada de seu novo lar.
Zaniel não conseguiu evitar uma longa risada alegre. Essa risada contagiou Alberto também que começou a fazer o mesmo. E então, subitamente, lágrimas começaram a cair de seus olhos, umedecendo a sua face. Ele abraçou Zaniel com força e começou a chorar em seu ombro. Toda a dor que ele sentiu durante a sua vida por causa de Gabriel parecia estar sendo esvaziada pelas gotas que caíam, era um peso que estava tirado de seu ombro.
— Faz muito tempo que eu ansiava por esse momento, era o que eu mais queria na vida – disse Alberto ainda chorando no ombro de seu querido advogado, e ele chorou por diversos minutos. Inúmeras lágrimas que caíram, não apenas de tristeza, mas também de alegria.
Após se recompor, Alberto olhou em direção ao portão do paraíso. Era gigantesca, devia ter 5 metros de altura. Era feita de ouro, que reluzia de uma forma esplendida, nada havia comparação. Andou em direção a ele, que estava abrindo a medida em que ele se aproximava. Da fenda da porta começou a sair uma luz branca intensa, a luz ficava cada vez mais forte. Passando pela entrada, o cliente não conseguiu evitar um sorriso, pois já conseguia assimilar a forma de uma pessoa no meio daquela luz, um formato bem familiar.
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