Heaven in Hell
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Henry Dantas. Só no caminho até a sala 407, ouvi seu nome pelo menos cinco vezes. E não andei mais que dez metros.
“Ouvi dizer que ele fez a irmã dele chorar porque ela tirou um B+”
“O Henry ta cada vez mais gato” (seguido de gritinhos abafados)
“Será que ele ainda faz trabalho voluntário? Tô pensando em me inscrever junto”.
Adentrei a sala 407 e procurei por uma pessoa que eu sequer sabia como era. Rolei os olhos pela sala, mas não achei ninguém que valesse os comentários que escutei no corredor. Já ia me sentar na primeira cadeira quando ouvi:
Liz Handy. – Uma voz masculina vinda do fundo direito da sala falou. Observei bem o menino, que muito provavelmente era o tal Henry. Loiro. Forte. Seu rosto parecia ter sido desenhado minunciosamente por um artista muito habilidoso. Atrás dele, sentado, duas meninas estavam paradas. Me encarando. Óbvio. Me dirigi até eles.
– Henry Dantas?
– Falei que ela saberia. – Ele falou para as meninas, que fizeram cara feia.
– Na verdade, eu só sei que você é o Henry porque foi você quem me mandaram procurar. Logo, provavelmente você seria o único que saberia meu nome. – Falei, cruzando os braços. Se tem uma coisa que eu odeio mais que tudo no mundo é gente que se acha. As meninas atrás dele adoraram ter visto que eu definitivamente não tenho nenhum interesse nesse menino, mas ele, ao contrário do que eu pensava que fosse acontecer, abriu um sorriso de lado e se inclinou pra frente, apoiando os cotovelos nas pernas abertas.
– Faz sentido. – Levantou uma sobrancelha. – Senta aí. – Apontou para a cadeira na sua frente.
– Mas eu que to sentada aí. – A ruiva atrás dele falou, sentando na cadeira rapidamente.
– Sai. Liz. Senta. – Ele falou, pausadamente, e a menina saiu bufando e colocou sua mala na cadeira em frente à que parece ser minha agora. Joguei minha mala ao lado da cadeira e sentei.
– E aí, por que me mandaram falar com você?
– Porque temos algumas regras a serem seguidas por aqui.
– Fala agora. No intervalo vou ter que ir buscar meus materiais na diretoria.
– A Hannah já providenciou isso. – Virou para trás, pegando uma sacola gigantesca e provavelmente muito pesada, colocando-a do meu lado como se ela pesasse 200 gramas.
– Nossa, obrigada. – Abri a sacola. Estava tudo ali.
– No intervalo. – Ele falou e virou para frente.
O professor chegou menos de um minuto depois, se apresentou e começou a aula. Por incrível que pareça, eu nunca gostei tanto de uma aula de literatura na vida. Ele falava tudo com emoção, e definitivamente não parecia um robô, assim como todos os meus antigos professores. No final, ele colocou no canto da lousa uma sugestão de leitura. Assim que o sinal tocou, fui correndo atrás dele antes que ele saísse.
– Oi! Senhor Gordon! – Falei, e ele se virou para mim, sorrindo. – Então... Eu queria saber se você pode me emprestar o livro que sugeriu. Eu gostaria muito de ler...
– Oh... Eu emprestei o meu para um aluno no final do ano passado. Você pode pedir a ele. Seu nome é Travis. Ele é dessa sala, inclusive. Talvez apareça mais tarde. Tchau! – Falou e acenou com o dedo que conseguiu desgrudar dos livros que segurava. Acenei de volta e fui até o meu lugar.
– Você sabe quem é Travis? – Perguntei a Henry, que fechou a cara assim que pronunciei o nome do tal menino.
– Pra que você quer saber?
– Quero pegar o livro do Senhor Gordo, que pelo visto está com ele. Vocês dois tem algum problema? – Perguntei, abrindo um sorriso malicioso.
– Ele já andou com a gente uma vez. Ele é seu vizinho, inclusive. – Ele disse, e eu me lembrei. Então era Travis o nome dele... O menino que acertou uma bola de futebol americano na minha cara.
– Já sei quem é. Não gosto dele.
– Bem-vinda ao clube. – Ele falou, sorrindo. Pude ouvir o suspiro de uma menina gordinha que estava sentada ao nosso lado, que estava encarando Henry.
As aulas passaram rápido, e o intervalo chegou. Fui até a porta para esperar meus “amiguinhos” – sintam a ironia – pra que eles me contassem que regras ridículas eram aquelas, e acabei me distraindo ao conversar com a tal menina gordinha que sentou ao meu lado em todas as aulas. Pelo visto, ela havia se mudado da França para a Austrália há um ano, e morava perto da minha casa.
– A gente pode marcar de sair alg... – Comecei, mas fui interrompida por uma voz fina e enjoada vinda da minha direita.
– Vamos? – A ruiva que estava com Henry falou, me puxando antes que eu pudesse responder. – Você é louca? – Perguntou, enquanto andávamos pelo corredor.
– Por quê? – Perguntei, franzindo o cenho. Não fiz nada demais.
– Você simplesmente estava falando com a menina mais fracassada desse colégio.
– Ela é legal, qual é o problema? – Perguntei, e a ruiva parou bruscamente, me fazendo virar para ela.
– Temos uma imagem a zelar. Não tem uma pessoa nesse colégio que ainda não saiba que você é Liz Handy, intercambista na família Stone e, consequentemente, da turma de Henry Dantas. Temos, sim, uma imagem a zelar. O Henry vai explicar tudo depois. Apenas siga as regras. – Falou, revirando os olhos. Ei, quem devia estar revirando os olhos era eu.
Paramos de andar quando chegamos em frente a um armário qualquer. A ruiva abriu o armário e pegou um bolo de roupas na mão, e depois uma rasteirinha. Me empurrou para dentro do banheiro e me fez colocar as roupas que ela dera em minhas mãos.
– Estou me sentindo pelada. – Falei, olhando no espelho. Barriga de fora não era coisa pra se usar no colégio.
– Você não pode ficar de uniforme! – Ela falou, ajeitando minha blusa e me dando um casaquinho branco e fino. – Além disso, você tem um corpão! Tudo bem se mostrar. – Ela falou, e saiu andando do banheiro. Virou para mim e sussurrou em meu ouvido: “É só não dar o que ele quer no final”. Ela riu e eu bufei, mas acho que ela não percebeu.
– Ok, é o seguinte: nós temos uma tradição por aqui. Essa cidade é pequena, e o condomínio em que moramos é muito prestigiado. As pessoas que moram por lá só se relacionam com pessoas que são de lá. Ninguém quer se misturar com... Aquilo – Henry falou, apontando para uma menina que usava óculos e tinha muitas espinhas no rosto, além dos cabelos engrenhados e a roupa desajeitada. – Então, nada de falar com outras pessoas. Além disso, você não pode tirar notas ruins. O senhor Stone irá saber se você tirar, e nós também. Temos as nossas próprias festas, então nada de ir em outras. Já te inscrevemos no programa de voluntariado daqui do colégio. Nós somos exemplo para muitas pessoas, então faça parecer que você se importa com a caridade.
– Mas eu me importo. – Falei, em choque.
– Que bom. Não vai ter que ir às forças como a Hannah. – Ele falou, olhando para a ruiva, que se jogava nos braços de um menino forte que estava sentado na nossa mesa.
– Mais alguma coisa, general? – Perguntei, bufando.
– Não namoramos ninguém de fora. – Declarou, colocando um pedaço de pão na boca. – Alguma pergunta?
– Você sabe que eu não vou obedecer a essas regras, não sabe?
– Sim. Mas eu prometi ao senhor Jones que vou fazer com que você as siga. Você vai gostar, eu juro. Somos um grupo grande. Você vai fazer amizade. E talvez até ficar com alguém, sei lá.
– Não vim pra namorar.
– Não precisa namorar, então. – Falou, soltando um riso bonitinho. Eu disse bonitinho. Não gostoso de se ouvir, ou até mesmo bonito. Só bonitinho.
Fiquei o intervalo inteiro sem soltar uma palavra, apenas pensando em como as coisas eram estranhas por aqui. De onde eu venho, as aparências não importam tanto assim... Talvez eu devesse desistir desse intercâmbio e ir pra casa.
Não. Que ideia mais estúpida. Quantas horas extras minha mãe fez para pagar meu intercâmbio?! Incontáveis vezes. Não vou desperdiçar meu intercâmbio. Não sei como, e também não me importo muito com os meios... Só sei que essa minha viagem vai da água pro vinho. Vai valer a pena.
Meus devaneios foram interrompidos pelo barulho da porta do refeitório se abrindo, num barulho surdo que decerto fora imperceptível para qualquer um que não estivesse viajando nos pensamentos como eu.
– Travis. – Sussurrei, e saí andando rapidamente na direção do menino que quase me decapitou ontem.
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