Heaven in Hell
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Travis já não estava mais deitado, seus lençóis estavam dobrados e a janela entreaberta. Deve ter sido o máximo que ele conseguiu fechar. Fui até o banheiro correndo para tomar banho, já que tinha que encontrar com Henry às 6:45, e já eram 6:20. Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa, fui até a cozinha, peguei uma banana e fui até a frente da casa de Travis. Ele estava lá parado, encostado no carro, com um pé apoiado no pneu.
– Tá atrasada. – Ele falou, com um sorriso divertido no rosto, me acompanhando com o olhar enquanto eu ia para a porta do carona.
– São 6:47, Travis. – Falei, revirando os olhos e segurando o sorriso. Entrei no carro e ele também. Me olhou olhou, e riu fraco. – O que? – Perguntei, confusa.
– Banana? Sério? – Ele falou, rindo, e deu partida no carro.
– Qual é o problema? – Perguntei, franzindo o cenho, e lancei um olhar para a minha banana.
– É que eu acho engraçado ver pessoas comendo banana.
– Ah! É isso? – Falei, e coloquei um pedaço de banana na boca. – Engraçadão mesmo, olha! – Abri um sorriso com a banana mastigada nos dentes. Ele me olhou, e eu pensei que fosse fazer cara de nojo, mas ele riu. O riso mais retardado que eu já ouvi na vida.
– Você é zoada. Já te contaram isso? – Ele perguntou, em meio a risos.
– Aham! Nunca me senti tão lisonjeada. – Falei, ironicamente.
– Não um “zoada” ruim, um “zoada” legal.
– O que seria um “zoada” legal?
– Uma menina que faz esse tipo de coisa. – Falou, levantando os ombros.
– Elogios a uma hora dessas? – Perguntei, rindo.
– Aham! Aí você esquece que tá tentando dar uma de durona pra cima de mim. – Abriu um sorrisinho de lado. Fechei a cara na hora.
– Eu sou durona.
– Eu sei!
– Então! – Quase gritei, e ele riu, divertido. Entramos no estacionamento e saímos do carro. Travis me olhou dos pés à cabeça. – O que?
– Diferente do seu show de barriga de fora de ontem. – Deu de ombros, e começou a andar. Não o acompanhei, e já ia mudar meu caminho, quando ele falou:
– Não vai vir, novata? – Perguntou, apontando as mãos para a porta principal do colégio. Bufei e fui até ele, que me olhava com um olhar divertido.
– E só pra você saber, me obrigaram a usar aquilo.
– Obrigaram, Liz? Obrigaram mesmo? – Ele falou, rindo.
– Nem vem com essa pra cima de mim! Era aquilo ou o uniforme! – Falei enquanto passávamos a entrada.
– Eu não tava reclamando... – Ele falou, enquanto seu rosto acompanhava uma menina morena passando com uma blusa que deixava a barriga de fora. – Eu adoro... – Completou, distraído. Dei um soco em seu braço. – Ai! Você devia considerar entrar pro time de rugby, sério. – Falou, rindo, enquanto passava a mão no lugar que eu tinha socado. Eu ri fraco por um segundo, e uma ideia veio à minha mente.
– Quando são os testes? – Perguntei, e ele parou de andar, me olhando.
– Você pretende fazer?
– Por que não, né?! – Respondi, e voltei a andar. Ele se apressou para me acompanhar.
– Você já jogou alguma vez?
– Eu jogava de vez em um time lá no Rio de Janeiro.
– Era misto? – Perguntou.
– Bom, não... – Falei, e ele bufou.
– Liz, voc... – Ele ia começar, mas eu o interrompi.
– Quando são os testes? – Insisti.
– Hoje. – Respondeu, comprimindo os lábios e fechando os olhos levemente, como quem se arrependeu de ter dizido.
– Ok! Vou arranjar uma roupa. – Sorri e entrei na sala. Virei para trás e vi Travis rindo, balançando a cabeça negativamente. Fui até meu lugar de ontem, com meu querido Henry.
– E aí, Liz. – Henry falou e passou a mão na minha cabeça. Abri um sorriso sem dentes, e me sentei no meu lugar. Henry pigarreou e eu ouvi sua voz mais perto de mim. – Eu te vi falando com o Travis?
– Aham! – Respondi, ainda virada para frente. Pude ouvir ele respirar fundo.
– Hoje tem voluntariado. É logo depois da aula. Já avisei o senhor Stone que você vai chegar mais tarde. Ah, e toma. – Ele falou e estendeu a mão com um copo de café do Starbucks. Encarei o copo, Henry o balançou levemente, me oferecendo, e eu o peguei.
– Você é tipo meu agente pessoal? – Perguntei e mordi o lábio, irritada.
– É, mais ou menos isso. – Ele disse e soltou um riso fraco. Sabe, é difícil ser cuzona com alguém que está sendo... Legal.
– Eu vou fazer o teste para o time de rugby hoje. – Falei, virando para trás. Henry estava me encarando, sem acreditar.
– Tá me zoando, certo?! – Falou, soltando um riso fraco.
– Não! – Respondi, um pouco ofendida.
– Você não vai conseguir entrar. – Ele falou, franzindo o cenho e me olhando, cínico.
– Valeu aí! – Falei, irônica, e comecei a me virar para frente quando ele segurou meu braço.
– Calma! – Quase sussurrou. – É que não tem time de meninas, você sabe... – Começou. – Você pode se machucar bastante.
– Eu não sou de plástico, sabia? – Perguntei, e virei para frente de vez. E então a aula começou.
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A aula acabou, e eu estava me sentindo um pouco mal por ter passado o intervalo com Henry, mas ele e Hannah ficaram me puxando de um lado pro outro o dia inteiro. Eu nem tive a chance de falar com qualquer outra pessoa se não eles e os amigos deles. E eles não eram exatamente as pessoas mais legais do mundo. Não sabiam conversar sobre nada além de notas e falar mal das pessoas que passavam. E um dos meninos, Kyle, me mandou indiretas o intervalo inteiro, ficou tentando me tocar... Contato físico não meu filho, por favor, né!
Agora já era hora do voluntariado, e um ônibus parou em frente ao colégio. Observei as pessoas que entravam. Os amigos de Henry, algumas meninas que pareciam estar seguindo Henry, algumas pessoas que eu nunca vi e... Travis? Assim que ele entrou, fui atrás dele.
– Ei! – Falei em seu ouvido, e pude ouvir seu riso fraco.
– Vizinha! A que devo a honra? – Perguntou, enquanto olhava qual poltrona estava vazia.
– Não sabia que você também estava no voluntariado. – Falei, e ele se sentou e me olhou, sorrindo.
– É... Coisa da minha mãe, sabe como é. – Levantou os ombros e bateu no assento ao seu lado. Sentei-me com ele.
– Quanto tempo leva até lá? E o que a gente faz? – Perguntei, olhando pela janela.
– Só trinta min... – Ele começou, mas a Hannah surgindo ao nosso o fez parar de falar.
– Tem um lugar pra você ali atrás. – Ela falou, arregalando os olhos para mim e apontado os fundos do ônibus com eles.
– Tô bem aqui! Valeu. – Falei, revirando os olhos e me virando novamente para Travis. Ela ia começar a falar de novo, mas eu não estava muito no clima de ouvir a voz dela depois do dia de hoje. Hannah fala muito. Muito mesmo. – Tchau, Hannah. – Falei, grossa, e ela saiu.
– Trinta minutos. Vamos a uma vila aqui perto para ajudar a construir algumas casas. – Travis continuou.
– Que legal... – Falei, sem esperar que ele me respondesse. Pelo resto do tempo eu fiquei olhando pela janela, observando as casas que passavam e as pessoas.
Chegamos a um lugar, um campo de terra, com vários entulhos e casas construídas pela metade, algumas prontas, mas sem pintura e acabamento. Saímos do ônibus e um homem com um chapéu de pedreiro e camisa xadrez começou a falar.
– Vejo que temos alguns rostos familiares, e outros nem tanto, certo? Bom... Aqueles que já estavam aqui no ano passado podem continuar a fazer as tarefas de sempre, e os novatos podem me acompanhar. – Ele pediu, e algumas pessoas, como Travis e Henry, se dirigiram às casas. E eu e mais alguns fomos até o homem. Fizemos uma roda, envolvendo-o. Uma menina olhava em direção às casas, procurando por alguma coisa, um menino olhava para o chão e assobiava. Muitas pessoas super interessadas por aqui.
– Então... – Ele voltou a falar. – Meu nome é Phil, e nós construímos casas para doação. Esse grande projeto vem de uma ONG chamada Cover Them, e nós estamos muito felizes de receber vocês aqui para nos ajudarem. Daremos tarefas para vocês, e todos os dias que vocês vierem, farão essas mesmas tarefas. – Phil falou, e começou a mandar pessoas para diferentes tarefas. A menina que estava procurando por alguma estava na verdade procurando por Henry, e pediu para ficar na mesma tarefa que ele. Confesso que revirei os olhos e fiz uma cara de nojo sem ao menos disfarçar quando a ouvi falando aquilo. E então ele finalmente chegou a mim. – Você tem alergia a tinta? – Perguntou, colocando uma mão em punho na cintura.
– Não. – Respondi.
– Ótimo. Você pode ir para a área da pintura então. Pode ir ali naquela casa amarela. Travis deve estar do lado de dentro, ele vai te dar as instruções. – Ele falou, e eu sorri quando ouvi sobre Travis.
Me dirigi até lá, e entrei na casa. Travis estava vestindo um avental, e seu cabelo tinha um pouco de tinta branca. Ele estava pintando uma das paredes do cômodo que eu imagino ser a sala.
– Ah, droga... Pensei que fosse ser dupla de um pintor gostosão, que fica sem camisa, me suja de tinta... – Comecei a devanear, e ele riu.
– Pensou certo! – Ele falou, e fez menção de tirar o avental, mas eu tapei os olhos com as mãos.
– Não! – Falei, rindo. – Você é muito idiota. – Abri uma fresta com meus dedos, e ele já estava pintando de novo, com um sorriso no rosto.
– Ok. Não posso ficar sem camisa, mas pelo menos eu sou gostosão. – Falou, e fez uma pose de modelo na passarela, olhando para trás.
– E muito gay. – Falei, e peguei um pincel grande que estava no chão.
– Você pode começar a passar o branco aqui comigo. – Travis falou, sem tirar os olhos da parede. Me juntei a ele e comecei a pintar também. Ficamos algum tempo em silêncio. Em silêncio não, porque Travis não parava de cantarolar uma música, mas vocês entenderam né...
– Deve ser um saco vir aqui sem querer realmente vir. – Comecei a falar.
– Você não gosta? – Perguntou, e se virou para mim. Seus olhos eram muito verdes.
– Bom, sei lá... Eu gosto. Voluntariado é legal. Mas você que disse que não gosta.
– Eu disse que é coisa da minha mãe, não que eu não gosto. – Falou em meio a um riso fraco.
– Você gosta, então?
– Gosto, muito. Eu gostava mais quando trabalhava na construção, mas pintura é legal também.
– E você saiu da construção por quê?
– O Henry deu um jeito. Ele trabalha na construção, sabe como é né.
– Ah... – Parei de falar por alguns segundos, pigarreei, e continuei. – Só nós estamos na pintura mesmo?
– Sim. Não é uma parte que precisa de tanta gente. – Falou, enquanto mexia a tinta de uma lata que estava ao lado dele.
– Ah! Tardes agonizantes de trabalho em equipe com você! – Fiz uma cara de derrota.
– Não tenho do que reclamar. – Ele falou, e eu parei minha gracinha e olhei para ele. Travis me encarava com um sorriso divertido no rosto.
– Você tá sempre de bom humor assim mesmo? – Perguntei, rindo.
– Sim. Se quiser gente de cara feia pode ir lá em casa algum dia visitar minha mãe e meu pai quando veem meu boletim. – Travis disse, e eu ri.
O ônibus voltou para o colégio uma hora e meia depois. Eu estava cansada, mas ainda precisava fazer o teste de rugby.
Força, Liz. Força.
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