Heaven in Hell
4 Capítulo 4
Notas iniciais
– Vizinha! – Travis quase gritou quando me aproximei dele. – Tá fazendo o que por aqui? – Brincou, abrindo um sorriso de canto a canto. Achei engraçadinho, mas bufei só pra não dar o gostinho pra ele.
– O que você acha? – Perguntei, com um sorriso irônico. Ele passou seu braço pelo meu ombro e me arrastou pelo lugar até a mesa dele.
– Ah, minha querida vizinha. Se eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui, imagine saber de você. Talvez você esteja me perseguindo, eu sei lá, pra se vingar da bolada que eu te dei na cara. Aliás, continua doendo? — Ele me puxou para o banco, me fazendo sentar ao seu lado.
– Já, sim. Vai falar do quanto você é forte de novo? — Perguntei, revirando os olhos.
– Não, na verdade eu ia te dar uma pomada que eu uso no rugby. Precisa do que comigo? O Henry não vai gostar de te ver aqui.
– Você acha que eu ligo pro que ele gosta ou não gosta de me ver fazendo? — Revirei os olhos, e ele suspirou, passando os braços pelos meus ombros novamente.
– Por isso que curto você, novata.
– É uma pena que não seja recíproco. — Declarei, tirando seus braços de meus ombros.
– Relaxa. Não to dando em cima de você. Você não faz o meu tipo. Mas me diverte, admito. É rabugenta.
– Vamos direto ao assunto, né. — Pigarreei. — Tem um livro do professor de literatura com você, e eu quero ler. Se puder me trazer, vou agradecer.
– Qual livro?
– Provavelmente o único que você leu na sua vida inteira. — Falei, soltando um riso debochado. Ele me olhou, divertido, e riu do meu comentário.
– Um dia você vai me conhecer, novata. Tenho uns 15 livros do Senhor Gordon em casa. Me fala o nome e eu digo se recomendo, e te trago amanhã. — Deu de ombros, pegando o bolo de um menino que presumo ser seu amigo e que estava sentado ao nosso lado.
– Tá bom. Eu vou ver na minha agenda e te passo na sala de aula. Valeu. — Saí da mesa a passos largos e fui pra sala.
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Na hora de voltar pra casa, encontrei um pequeno problema: eu não sabia como chegar até lá. Então, fui até o laboratório de informática do colégio e imprimi um mapa. Eu sei que ninguém mais usa mapas, mas meu celular ainda não tem internet e eu realmente não queria pedir informação para ninguém. As pessoas daquele colégio só me deram motivos para não querer falar com elas.
Peguei minha bicicleta e saí, tentando ao mesmo tempo olhar o mapa e andar em linha reta. Quatro quarteirões haviam passado, e eu ainda não parecia estar perto de casa. Pelo menos eu estava conseguindo seguir o caminho e pedalar sem maiores prejuízos à minha saúde. Quer dizer, até que um carro parou atrás de mim e buzinou, me fazendo levar um susto e cair pro lado direito em cima da grama da calçada.
– Sobe aí, vizinha! — Ouvi uma voz grossa gritar de dentro do carro. Olhei pra trás, e lá estava ele: Travis, com metade do corpo pra fora do carro preto, me olhando com um riso preso nos lábios. Peguei minha bicicleta e saí andando sem subir nela. Ouvi o barulho do carro me acompanhando.
– Você sabe que ainda tem alguns quilômetros pela frente, né? Só o senhor Stone mesmo pra te dar uma bicicleta pra ir pra casa. — Falou, bufando. — Entra. — Pediu, mas eu ignorei e continuei andando. — Liz. Entra. Se não não vou te dar o livro. — Ele disse, e eu parei. Fiquei o encarando por alguns segundos. Cedi. Coloquei minha bicicleta na caçamba da grande caminhonete quatro portas dele e entrei no banco da frente.
– Só hoje. Vou estudar o caminho pra casa de noite e amanhã não vou precisar mais.
– Sabe, pegar carona comigo não te faz minha amiga. Relaxa. Eu sempre pegava carona com o Henry e olhe para nós agora... — Ele falou, com um sorriso divertido na boca. — Não dou quinze dias pra você desistir de aguentar os Stone e o Henry e companhia.
– Eu aguento. — Falei, dando de ombros.
– Só não tente comer um pedaço de bolo de chocolate na frente deles.
– Obrigada pela dica.
Passamos o caminho em silêncio. Quer dizer, quase em silêncio. Travis ligou o rádio no volume mais alto e ficou cantando até cansar. Assim que chegamos, peguei minha bicicleta e entrei em casa. O dia tinha sido mais cansativo do que eu pensava que pudesse ser, então dormi a tarde inteira na minha linda e maravilhosa cama: a melhor coisa que me aconteceu até agora.
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Quando finalmente acordei já estava escuro. O barulho dos insetos incomodava meus ouvidos e o calor estava simplesmente insuportável. Eu sei, eu sou do Rio de Janeiro, mas isso aqui já é um abuso do meu costume com climas quentes. Pra deixar a história mais legal, meu quarto era o único que não tinha ar condicionado. Levantei-me, e reparei que tinha algo na minha cama, quase caindo no esquecimento total atrás da mesma. Era o livro do professor de literatura. Travis deve tê-lo colocado lá pela minha janela, que fica acima da minha cama e estava aberta. Pela minha falta de sono, resolvi que o leria aquela noite. Era pequeno, tinha apenas 120 páginas, e eu poderia acabá-lo agora e ainda ficar com sono o suficiente para conseguir dormir antes da aula de amanhã. Talvez amanhã ainda eu pudesse pegar outro com o prof...
Toc Toc Toc
Abri a porta do quarto, mas não era de lá que vinha o som. Fui até a janela e abri as cortinas.
– Travis?
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