Hearts Burst Into Fire

2 What if I was nothing


Era uma tarde fria de Abril, por volta das quatro e quinze, a primeira vez que o vi. Eu estava chegando em casa, e ele passou por perto, desleixado, com o cabelo escuro bagunçado, uma camiseta do AC/DC e por cima uma blusa de zíper vermelha aberta. Ele coçou a nuca e me encarou por alguns segundos, e eu reparei bem nele. Parecia estar pensando algo. Ele passou do meu lado e seguiu seu caminho, e eu segui o meu. Até então eu mal sabia seu nome, e mal sabia que o amaria tanto...

Na mesma semana conversamos a primeira vez por facebook. Ele me contou que gostava de ler, tocava bateria e guitarra, era fã de rock pesado e que era viciado em vídeo-game e em ver séries.

Nos demos bem logo de cara, e falar com ele já tinha virado parte da minha rotina. Tínhamos exatamente os mesmos gostos, e ele sem dúvidas era o menino mais legal que eu já havia conhecido. Logo me vi contando a minha vida toda pra ele, e vice-versa. Ele era sem dúvidas um ótimo amigo.

No dia dois de março saímos pela primeira vez juntos, e eu ainda me lembro como se fosse hoje.

Eu havia passado o dia na casa de uma amiga, e combinado de sair com eles as sete da noite. Iríamos tomar milk-shake de ovomaltine e depois ir ver Supernatural na casa dele.

A tarde estava muito calor, e eu estava de shorts e camiseta de manca curta. Ele foi me buscar de carro na casa dessa minha amiga, as sete em ponto.

– Oi. — Ele me cumprimentou sorrindo. — Entra aí.

– Oi...

Entrei no carro, e estava tocando uma música que eu e ele gostávamos. What If I Was Nothing da banda All That Remains, ele estava com um moletom da Hollister azul escuro, calça jeans e tênis. E eu estava morrendo de frio. Ele logo me ofereceu a blusa dele, ao perceber que eu estava abraçando a mim mesma.

– Não precisa, magina!

– Mas você deve estar congelando. Pega, vai. — Ele insistiu.

– Mas se você me der, quem vai ficar congelando é você!

– Eu não ligo. Toma. — Ele tirou a blusa e entregou na minha mão. — Veste, eu passo em casa pegar outra.

– Então, eu estava pensando se com esse frio seria uma boa ideia irmos mesmo tomar milk-shake. Eu pego gripe muito rápido, sabe..

– Pode ser um café, se você preferir.

– Prefiro! — Respondi meio entusiasmada.

– Ou a gente pode ir direto lá pra casa, e eu te faço um chocolate quente.

Na verdade eu não queria ir na casa dele. Queria mesmo ver a quinta temporada da série, já que parei na quarta e minha internet muito lerda e ruim não permitia que eu assistisse. Mas, ele me disse que morava sozinho e eu tinha medo de que ele entendesse as coisas errados. Mas, somos só amigos. Ele deve saber disso. Espero que saiba.

– Hum... Você que sabe. — Disse sem saber ao certo o que responder.

– Então vamos, porque eu acho que realmente vou passar frio sem blusa.

Ele dirigiu até a casa dele e fomos conversando idiotices no caminho, zoando um ao outro, o assunto fluía muito naturalmente com ele, e era como se nos conhecêssemos a anos.

Assim que chegamos a casa dele me surpreendi, pois era enorme e praticamente a alguns vinte passos da minha!

– Como eu não sabia que você morava aqui? Minha casa é muito perto.

– O que? Tá brincando, né?

– Não, é sério!

– Mora aqui faz muito tempo?

– Hum, não.. Acho que me mudei em torno de dois meses.

– Ah.. Eu já moro aqui a dois anos, desde que faço faculdade.

– Sua casa é bem bonita.

– É... Meus pais são exagerados.

– Eles são o máximo, isso sim! Olha só o tamanho disso aqui.

A sala dele era enorme, tinha três sofás, uma televisão enorme que parecia uma mini tela de cinema, além de puffs e o tapete.

– Vem, vou te mostrar o resto da casa.

Ele me mostrou a cozinha, onde preparou meu chocolate quente, o quarto dele, que era incrível, com uma cama de casal, um guarda-roupa embutido, uma TV quase tão grande quanto a da sala, computador, banheiro e tudo o que se podia imaginar. Ele tinha um closet só de boné, e as suas roupas eram bem organizadas. Numa gaveta só camiseta de banda. Em outra, camiseta de tal marca. Em outra, de super-heróis. Outra, roupas sociais e por aí ia. Não pude deixar de notar suas coleções, de CD's, filmes, séries, livros. Ele devia realmente ter muito dinheiro pra tudo aquilo.

Depois de conhecer a casa toda voltamos a sala, onde ele pois no DVD a série para assistirmos. Eu estava adorando tudo, principalmente a companhia dele. Assistimos a três episódios, já estava ficando tarde e eu estava ficando com muito sono, e acabei dormindo... No ombro dele.

– Ei, Amy! — Eu ouvia uma voz linda dizendo meu nome, e uma mão acariciando meu cabelo. — Acorda...

– Que horas são? — Perguntei assustada. — Ai, meu pai vai me matar...

– Que horas você prometeu chegar?

– Não marquei hora, é sexta-feira e eu só disse que ia sair. Mas ele não gosta muito que eu volte pra casa sei lá, depois da meia noite.

– Ainda são dez horas. — Ele me tranquilizou. Respirei fundo aliviada.

– Bom, eu vou indo então.

– Já? Fica mais um pouco...

– Eu tô meio cansada, dormi tarde ontem, fiquei estudando.

– Ah, só mais um pouco. A gente quase nem conversou. Eu tô gostando de ficar aqui com você. Você disse que só precisa ir embora meia noite. Você disse que mora perto mesmo. Por favor. — Ele pediu com uma carinha de bebê, e eu não tive como dizer não.

– Tudo bem, vai!

Ele deu um sorriso lindo ao ouvir minha resposta, e perguntou sobre a minha vida. O que eu gostava de fazer. Eu disse que gostava de ler, sair, nadar, e que eu na verdade não era muito boa pra falar sobre mim, e perguntei sobre ele. Ele me contou além do que eu já sabia, que corria todos os dias, que gostava de sair mas dependendo muito da companhia. Contou que já namorou duas vezes e o motivo do término de cada um. Eu contei pra ele que só tinha namorado uma vez, e que fazia pouco tempo que tinha terminado.

– Por que terminaram?

– Ele era muito ciumento, não confiava em mim...

– Você gostava muito dele?

– Olha... Eu não sei. — Respirei fundo. — Às vezes eu acho que sim, outras que não. Nunca foi como eu li, sabe? Eu gostava da pessoa que ele era, mas não sei. Não acho que tenha sido amor. E você, gostava da sua última namorada ou ainda gosta?

– Eu gostava... Não gosto mais. Gostava muito, mas, também não acho que tenha chegado a ser amor.

– Se é que amor existe. — Eu debochei. — Não acredito muito não.

– É, Amy...

– Sim, Tyler?

– Acho que isso vai parecer meio estranho e precipitado, mas... Sabe... Eu... Que fique claro que eu não te chamei aqui pra isso, mas...

– Fala logo.

– É que, desde que eu te vi pela primeira vez, eu não consigo parar de pensar em você.